Arquivo da categoria: Pensamentos

Ilusões

Sempre imagino que a mesma ilusão que alimenta a ideia de uma cura para a neurose é a que hoje percebo que não se trata de curar desvios de processos adoecidos e disfuncionais, erros acumulados pelo caminhos ou traumas estruturantes, mas a tentativa ilusória de subverter a essência neurótica humana ou a perversidade inerente ao sistema capitalista. Para transformar a essência dessas estruturas só através do seu extermínio – pela morte e com o fim do capitalismo.

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Regras

Quando meus filhos eram pequenos eu também era muito jovem; antes que eu chegasse nos 30 ambos já eram alfabetizados. Agora, observando as brincadeiras dos meus netos, descubro que o mundo deles é baseado na produção de regras e limites. Qualquer jogo ou disputa é precedida de um extenso desfiar de regras, do que pode ou não pode, do que é lícito e o que é proibido.

“Vamos fazer que a gente era transformers, mas tu não pode me atacar e só pode usar as armas comuns, e eu posso usar esses poderes aqui”. Eu fico encantado com esses diálogos pois eles são a encenação lúdica dos dilemas angustiantes que carregam em sua adaptação ao mundo. Tudo depende se pode, se foi combinado, se vale, se deixam, etc. É com o eles enxergam o mundo: um lugar cheio de interdições civilizatórias chatas e incômodas.

Na minha juventude eu fui esmagado pelo peso torturante das ideias, algo que me envolveu de forma completa e onde me joguei de maneira compulsiva. Não tive tempo e/ou sabedoria para saborear essas lições maravilhosas com meus filhos, pelo menos não o quanto deveria. Hoje, já consigo parar e escutar dos meus netos a beleza destes encontros, saboreando a dor e a delícia que vivenciam enquanto crescem.

Quero ter saúde só para curtir essas maravilhas mais um pouco…

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Passando pano

Até o Juremir deu uma passadinha de pano pro cancelamento de “Com açúcar, com afeto”, mas ao menos confessou que tem medo de ficar mal com as feministas. Hoje em dia o pânico dos influencers é escrever algo que desagrade seu eleitorado. Escreva-se o quanto quiser sobre o Bozo e suas estripulias com farofa, mas não incomode os identitários. Imagine acordar um dia e ao abrir seu Facebook perceber que recebeu o rótulo de machista ou – deuzolivre – até mesmo de racista tão somente por não concordar com o catecismo identitário.

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Joe Rogan

Essa pandemia está colocando em perspectiva muitas coisas. Parece que era mesmo necessário ocorrer uma situação limite pra gente saber quem mantém seus princípios mesmo na adversidade e quem se refugia na censura e no arbítrio.

Pense nas questões abaixo:

* Se há alguns meses você dissesse que alguém poderia contrair a doença e continuar transmitindo o vírus mesmo após se vacinar seria imediatamente vítima de “cancelamento”;

* Há poucas semanas se você dissesse que máscaras de pano eram pouco efetivas ou inúteis seria chamado de “negacionista”;

* Se no ano passado você dissesse que os Estados Unidos e Fauci estavam envolvidos em estudos sobre “gain of function” de vírus em Wuhan – e que isto estaria implicado na origem da pandemia – seria chamado de “conspiracionista”.

Todas essas hipóteses hoje são aceitas por estudiosos e pesquisadores. Todas elas vieram à tona porque cientistas teimosos e contra-hegemônicos continuaram a debater e questionar a versão oficial mesmo sofrendo perseguições. Ciência é curiosidade, método e dúvida; as certezas são prêmios de consolação que o Criador oferece para os tolos e os dotados de mentes frágeis.

Marx já dizia que “A estrada para o inferno está pavimentada pelas boas intenções”. Um cientista não pode justificar seus preconceitos com a desculpa dos “nobres interesses”. Quem não suporta o contraditório procure um lugar que aceite os dogmatismos para se expressar. Quem acha que ciência é profissão de fé e que a censura de vozes dissidentes tem justificativa na democracia, deveria buscar abrigo na religião, e não no conhecimento científico. 

Pergunto: as pessoas que hoje cancelam Spotify e Joe Rogan por serem articuladores do “negacionismo” por acaso cancelaram Neil Young quando ele disse que não aceitaria receber um pacote de batatas de um caixa de supermercado gay, por medo de contrair AIDS?

Bidu…. eu avisei.

Spotify publica uma carta de apoio ao Joe Rogan e à plena liberdade de expressão do seu programa, literalmente mandando Neil Young e demais canceladores se lixarem. Que assim seja feito com todos os negacionistas da liberdade de expressão e do livre debate sobre temas espinhosos, em especial quando essa censura tende a favorecer impérios econômicos transnacionais.

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Alvo

Não…. racismo não se define pelo “alvo”. Fosse verdade, qualquer morte negra seria racista e, da mesma forma, todas as guerras tribais entre negros africanos seriam igualmente racistas. Também não se dá pelo “executor”, pois ele pode estar agindo sob uma ordenação social racista, mesmo sendo negro – como faria um Capitão do Mato.

A função de um Capitão do Mato, que perseguia um escravo fugitivo para devolvê-lo ao dono, não era menos racista pelo fato de ambos os personagens dessa perseguição serem negros. Também havia negros e nas forças de repressão do apartheid na África do Sul, assim como vemos árabes atuando como policiais no apartheid contemporâneo na Palestina. O racismo está acima dos sujeitos, pairando nas estruturas valorativas da sociedade. Ele é a máscara preferida para o fosso que separa as classes.

Não, o racismo se dá pelo contexto, onde vidas negras são descartadas, destruídas e exploradas para a manutenção de um abismo de classes. O racismo seria assim a naturalização de um sistema de opressão, que usa a raça para justificar-se. É um modelo de sociedade onde a vida de um negro se mede em arrobas e onde sua validade se esgota junto com sua força física. Nesse contexto pouco importa quem puxa o gatilho ou manipula o porrete; a sociedade inteira é responsável pelas mortes determinadas pelo fosso de classe obsceno que separa as gentes, usando a cor como disfarce.

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Chorar

Uma mulher não chora apenas por um homem, mesmo que seja o seu. Ela chora – principalmente!! – por ela mesma, suas dúvidas, fraquezas, fracassos, tristeza e perdas, mas também diante de suas vitórias e alegrias. O maior e mais completo homem do mundo (que monstro seria esse?) não tem o poder de evitar a tristeza e a dor de uma mulher.

Não há sujeito que possa controlar, neste nível, o sentimento de alguém. Afinal, “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, e não existe homem ou mulher capaz de ser o antídoto para a angústia e a finitude que todos carregamos como destino.

Não ofereçam toda essa importância ao homens, muito menos aos outros. Alienar-se da responsabilidade pelo próprio destino produz apenas ressentimento e estagnação.

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Cancelamento

A tragédia de eleger ídolos é o fato inexorável de que eles sempre vão trair esse amor, mais cedo oi mais tarde. Cancelar suas próprias músicas em nome de um movimento “woke” absurdo, autoritário, reacionário e cafona exatamente agora, quando essa moda está em plena decadência, é uma tristeza e uma decepção.

Mas será que ele vai cancelar o resto? Quer apostar como é fácil achar machismo em TODAS as suas músicas, dependendo da paranoia de quem analisa? Pois agora vou cantar “Com açúcar, com afeto” com mais prazer ainda, e vou fazer isso como uma profissão de fé na liberdade da arte e um libelo contra o obscurantismo autoritário da geração “woke”.

Anotem aí: é por esse tipo de censura sobre obras artísticas – ou seu nome atual, “cancelamento” – que a direita ganha força. É uma TRAGÉDIA ver gente da esquerda aplaudindo que músicas, quadros, livros, artigos e debates sejam cancelados, interrompidos e/ou proibidos.

O desastre que a “geração floco de neve” produz no pensamento de esquerda é imensurável. Oferecer a grupos específicos o direito de apagar a memória, cancelar a história e desvirtuar os acontecimentos do passado é digno dos piores pesadelos orwelianos. Quando vejo críticas ao autoritarismo e à censura que estes grupos apregoam é com tristeza que percebo que elas partem da direita, e as vezes até de seus grupos mais extremistas.

Com essa esquerda identitária e autoritária que temos, quem precisa de direita?

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Abusos sexistas

Na mesma semana que uma música de Chico Buarque é cancelada por ser pretensamente “machista” uma lojista e “influencer” de São José dos Campos-SP coloca um cartaz proibindo a entrada de homens na frente da sua loja no shopping – porque sua presença seria incômoda para as mulheres. As desculpas para estes atentados à livre expressão e à livre circulação, ao meu ver, são absurdos e indecentes.

Não são apenas os fanáticos religiosos e os anticomunistas as ameaças à democracia, até porque estes nunca ousaram cancelar músicos e proibir a entrada de um gênero em um espaço de uso público. Os identitários e sua perspectiva autoritária, sectária são um risco ainda maior porque suas propostas são travestidas de “boas intenções” e “proteção às minorias”.

Imaginem um bolsonarista impedindo gays, trans ou negros de entrar em seu estabelecimento. Pensem no escândalo que seria. E se fossem judeus? Entretanto, vetar expressões artísticas e proibir circulação de homens dentro de lojas não causa nenhum furor – ou infinitamente menos do que deveria. Quantos abusos mais serão necessários até percebermos que a lei é para proteger a todos, e não apenas os grupos que desejamos beneficiar?

Não há defesa para discriminação e sexismo. O cartaz é discriminatório, inconstitucional e francamente ilegal. Posso entender o que a levou a fazer isso, mas nada justifica esse tipo de discriminação de gênero.

Imaginem se fosse o contrário: “Proibido Mulheres” em um bar, no estádio de futebol, ou na Casa do Estudante – um caso famoso aqui em Porto Alegre nos anos 80. Pior: imagine que um grupo de transexuais tivessem, por mais de uma vez, entrado no estabelecimento fazendo zoeira, bagunça, falando alto ou apenas sendo inconvenientes. Em função destes contratempos a dona, cheia de justificativas, coloca um cartaz à vista de todos: “Proibido entrada de transexuais”.

IMAGINEM O (JUSTO) ESCÂNDALO!!!

Vejam… a situação é grave porque a dona do estabelecimento não se refere aos comportamentos inadequados na loja, tipo espiar, ficar olhando as modelos, censurar namoradas, etc. Não… ela acusa o gênero masculino, todos os homens, sem distinção. Se alguém faz isso com negros, gays, indígenas ou mulheres isso tem um nome: preconceito, e inclusive tal conduta está tipificada no código penal. Por que poderia ser justo impedir que o gênero masculino fosse proibido de entrar em uma loja quando uma ínfima minoria causou problemas?

O argumento do “código de vestimenta” – ou seja, impedir que alguém sem camisa entre na loja – não cabe. Você pode pedir para que um sujeito sem camisa saia da loja, mas não pode aceitar um sujeito ser expulso por ser gay ou negro. E também não poderia expulsar um sujeito (ou impedir sua entrada em áreas publicas) por ser homem.

Se a gente quer banir os preconceitos precisa ser contra todos, sem exceção, e não apenas os preconceitos que nos atingem. Discriminar os homens pelo mau comportamento de alguns poucos não pode ser tolerado.

Sexismo e racismo são iguais em sua expressão danosa e destrutiva.

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Morte e inexistência

Minha pergunta é bem simples: qual seria o sentido de uma vida ética onde não se pode constatar nenhuma recompensa? Essa lógica não faz sentido no universo imediato que nos rodeia, onde nossas ações – inclusive as mais altruísticas – são em verdade, mediadas por interesses pessoais – mais ou menos evidentes. O ato de ajudar um pobre alivia nossas culpas burguesas, o ato de amar nos promete (mesmo que ilusoriamente) sermos amados em retorno, o ato de compaixão traz a promessa de ser cuidado de volta, nossa luta pelas causas nos oferecem um sentido de viver, etc. A própria solidariedade é questionável pois em cada ato fraterno existe a fagulha egocêntrica que dispara a ação.

Portanto, agir para o bem alheio acreditando verdadeiramente na inexistência de uma vida após a morte agride essa lógica. Repetindo: se para a posteridade não faz NENHUMA diferença o bem que se fez, se não resta culpa, remorso, tristeza, saudade ou lembrança qualquer, quem racionalmente agiria contra seu gozo e satisfação imediatos? Por que? Qual o sentido dessa ação?

Não creio em éticas fora da construção humana. Um leão despedaça uma gazela sem dó. Só o humano enxerga nisso algo cruel. Como explicar a fraternidade fora de um sentido absolutamente egoístico?

Pois eu digo que diante da morte o que nos move é a incerteza. Ninguém aqui tem certeza absoluta e inquebrantável do nada que o aguarda. A ninguém é dado esse saber, transformado em confiança pétrea na inexistência póstuma. Por isso, por ter consigo escondida essa dúvida sobre as consequências últimas de nossas ações, escolhemos a solidariedade, a fraternidade, o amor ao próximo. Não por uma ética natural, por uma moral adaptada de uma força incorpórea da natureza, mas pela dúvida, pela incerteza corrosiva do destino que nos aguarda.

Por isso a pergunta, que para mim continua válida: se o nada nos aguarda, qual o sentido de uma ética voltada ao outro?

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Cabiria

Agora falando sério…

Há algumas semanas eu escrevi um conto onde o personagem principal não tinha nome. Quando fui descrever sua principal obra, precisei escolher um nome para o personagem e uma palavra veio à minha cabeça: “Cabiria”. O livro desse escritor fictício (chamado James Wilbur) então se chamou “Echoes of Cabíria”.

Depois que escrevi isso fiquei pensando porque havia escolhido esse palavra que brotou espontaneamente na minha cabeça (que eu não sabia sequer se era um lugar ou uma pessoa).
Depois que terminei de escrever o conto fui procurar no Google e me surpreendi com o que descobri. Cabiria é o nome da personagem principal do filme de Federico Fellini “Le notti do Cabiria” (As Noites de Cabiria) de 1957, estrelado por Giulietta Masina (que na época era esposa de Fellini) e que conta as desventuras de Cabiria, uma prostituta de uma pequena cidade italiana. O filme é belíssimo ao apresentar a fantasia romântica das mulheres, o culto ao amor, o sofrimento, as decepções, a tristeza e a esperança que teima em resistir mesmo diante de todas as adversidades.

A atuação de Giulietta Masina é impressionante. Umas das atuações femininas do cinema que mais me marcaram. Quem é mais velho vai lembrar de Dirce Migliaccio como uma das “irmãs Cajazeiras” da novela O Bem Amado de Dias Gomes. Ambas elétricas, engraçadas e pequeninas. Cabiria é vibrante, firme, forte, enérgica, “barraqueira” e ao mesmo tempo feminina, dócil, frágil, delicada e doce. O filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1958, e não poderia ser mais merecido.

Passei muito tempo tentando entender por qual razão esse nome brotou do meu inconsciente. Por certo havia um “saber não sabido” que me direcionou para essa escolha, mas por quê? O que me atraía num filme que jamais havia assistido? E por que me impressionou tanto?

A verdade é que, ao terminar o filme, eu fui obrigado a exclamar:
– Put* que p*riu, que filme!!! Que atriz, que história, que beleza…

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