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Dos Olhos para Dentro

Muito vi no consultório, em especial atendendo pacientes carentes na Liga Homeopática, mulheres que me descreviam situações de maus tratos, grosseria, abuso financeiro e até agressões físicas no ambiente doméstico. Diante de histórias de colorido trágico a tentação era sempre se posicionar ao lado da suposta (porque até uma construção fantasmática seria possível) vítima e orientá-la a romper esse laço. Quem não se deixaria tocar pela injustiça transformada em violência e abuso? E por certo que avancei o sinal algumas vezes embarcando junto com elas em sua narrativa de dor, angústia, mágoa e ressentimento.

Entretanto, com o tempo percebi que o máximo a fazer é oferecer ouvidos compassivos, uma atenção respeitosa e encaminhá-las para uma instância de proteção, quando necessário. Tentar orientar, aconselhar, interpretar e desbaratar os laços contraditórios e caóticos que amarram o desejo é uma tarefa que não me cabia. Nessas horas eu olhava para a face sofrida dessas mulheres e pensava no infinito que se encerrava de suas retinas para dentro, o mundo de cores, dores, alegrias, aflições, gozos e tragédias que todas carregam. Qualquer conselho seria um desrespeito com sua história, sua subjetividade e sua unicidade.

Cada um sabe onde seu sapato aperta, cada um conhece seu desejo, ou percebe para onde ele aponta. Ou, com o diria Caetano Veloso…

“Eu não sou cachorro não
A gente não sabe o lugar certo
onde colocar o desejo
Todo beijo, todo medo,
todo corpo em movimento
está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto, todo pranto,
todo manto está cheio de inferno e céu
O que fazer com o Deus nos deu
O que foi que nos aconteceu
Quando a gente volta o rosto
para o céu e diz
olhos nos olhos da imensidão
Eu não sou cachorro não….”

(Pecado original) 

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Nada

Meus avós morreram há 30 anos. Lembro ainda, mas meus filhos quase nada guardam deles. Em três décadas eles foram sendo lentamente apagados da lembrança direta de quase todos. Quando eu e meus irmãos – e alguns poucos primos – morrermos as últimas imagens de nossos avós descerão à tumba conosco. Ficarão em algum livro, numa foto em preto e branco, num registro fotográfico perdido em um sótao.

Minha avó paterna, um pouco antes de morrer com mais de 90 anos, me dizia “Eu tive oito filhos, mas queria ter doze. Sammy foi quem não quis mais”. Ela me ensinou que não se pode julgar os valores de alguém fora do contexto em que estavam inseridos. Hoje em dia suas escolhas seriam escândalo; em sua época, um reforço da sua feminidade e um sentido de propósito nobre e belo. Nunca esqueci aquela curta conversa à beira do seu leito enquanto ela me falava de suas vida e seus tesouros. Minhas avós ainda estão guardadas na minha mente, com carinho e saudade, mas sou da última geração que ainda vai carregá-las na lembrança.

Em pouco tempo eu também vou abandonar este plano terreno e bem o sei que em alguns poucos anos ninguém se lembrará de mim. Vejo meus netos pequenos e fico nutrindo a ilusão que eles se lembrarão de mim, contarão as minhas histórias, guardarão minhas piadas e caretas. Desejo avidamente que eles guardem algo de mim, mas sei que não é justo pedir isso a eles; não há como querer que eles me garantam a imortalidade. O meu destino – o nosso – é virar esse fragmento, esse pedaço ínfimo de alma que constitui cada um que segue nossos caminhos.

Falo ainda bastante dos meus pais para os meus filhos, como a dizer “guardem eles com vocês quando eu me for”, mas sei o quanto o tempo é cruel – e sábio – ao nos fazer esquecer um pouquinho dos antigos amores a cada dia que se passa. Daqui a pouco nada restará de mim. Ninguém saberá quem fui e o que fiz. Nenhuma pessoa terá a menor ideia de minha curta passagem por aqui. Serei um minúsculo ponto apagado, sem luz. Por esta razão, creio que o momento de agora é o único que temos para oferecer algum sentido à nossa vida. No fim nada ficará, nada restará por muito tempo.

Nada.

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Redondo

“Aqueles que acreditam na terra plana estão redondamente enganados”

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Salsichas

“Ahhh, não sabe o que tem numa salsicha e agora quer saber o que tem numa vacina?”

Esta é uma frase muito comum entre aqueles que advogam por uma adesão completa e acrítica à vacinação. Pois eu afirmo que deveríamos saber o que tem dentro de uma salsicha tanto quanto o que existe de componentes em uma vacina. Otto Bismark já dizia “ah se as pessoas soubessem como são feitas as leis e as salsichas!”.

Quantos de nós sabem o que tem dentro de uma salsicha padrão?

Salsicha é carne mecanicamente separada de ave (frango e/ou galinha e/ou peru), carne suína, água, gordura suína, proteína de soja, miúdos suínos (pode conter fígado, língua, rim e/ou coração), sal, amido, açúcar, alho, cebola, pimenta branca, pimenta calabresa, noz-moscada, regulador de acidez: lactato de sódio e citrato de sódio, estabilizantes: tripolifosfato de sódio e pirofosfato dissódico, aromatizantes: aromas naturais de (fumaça, orégano, coentro), realçador de sabor: glutamato monossódico, antioxidante: isoascorbato de sódio, corantes: urucum e carmim de cochonilha, conservador: nitrito de sódio. E ainda contém glúten.

Agora que você já sabe, coma se quiser ou se lhe apetecer. Veja os ingredientes e pondere se eles farão bem ou mal à sua saúde. Mas também exijo ser informado sobre o que tem dentro de uma vacina. Eu não confio em abatedouros e muito menos nos “abatedouros high-tech” contemporâneos: as indústrias farmacêuticas. Portanto, não há problema algum em comer salsicha ou tomar vacina, mas não me peça para fazer isso de olhos fechados.

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Elza

A mesma violência que agora é imposta a Elza Soares por declarar seu amor por Garrincha é direcionada a qualquer mulher que ouse admitir publicamente seu desejo caótico e contraditório, e que tenha a coragem de admitir o amor por seu homem. Pois é esse amor puro (no sentido de selvagem) que irrita as controladoras, monjas defensoras de um modelo velho e anacrônico.

O mesmo discurso é feito até hoje com Frida Kahlo e sua paixão por Diego, a ligação problemática de Ava por Frank, Anjelica Huston e sua paixão por Jack Nicholson, etc.

Para uma pretensa defesa das mulheres exige-se delas a submissão a um catecismo baseado no ódio e no ressentimento. Pior ainda, tratam as mulheres como tolas e infantis, incapazes de fazer escolhas maduras. Destaco essa frase do texto publicado por Fernando Souza Jr. que denuncia a ideia de que as mulheres nunca tem condições de analisar seus desejos sem a orientação daquelas que acreditam saber tudo sobre o sentimento de cada uma delas.

“No caso, tem-se a impressão que Elza Soares foi uma mulher incapaz de conhecer a própria história, as próprias dores, as próprias escolhas. Iludida por algum feitiço patriarcal mui potente, Elza não teria condições, sozinha, de interpretar racionalmente fatos ocorridos em sua própria existência.”

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O Dia em que Geni salvou a Terra

Um dos aspectos de Geni e o Zepelim – entre os inúmeros outros possíveis, além de infinitas metáforas e leituras – que mais gosto é aquele que aproxima a música de Chico Buarque de “O dia em que a Terra Parou”, filme de 1951, dirigido por Robert Wise, estrelado por Michael Rennie e adaptado de “Farewell to the Master”, de Harry Bates.

Neste filme, realizado logo após a II Guerra Mundial e nos primórdios do império americano, uma nave alienígena chega à Terra trazendo uma ameaça dos líderes de outra parte do universo. Inicialmente Klaatu, o alien (auxiliado por seu escudeiro robótico Gort), tenta dialogar com os cientistas da Terra e, quando deixa claro que deseja se encontrar com os governantes para alertá-los das consequências de seus atos nefastos, passa a ser hostilizado e ameaçado pelos humanos.

Na música de Chico ocorre uma trama semelhante. Um Zepelim prateado desce à terra e seu comandante “cheirando a brilho e a cobre”, se espanta com nossa estupidez e “ao ver tanto horror e iniquidade” resolve tudo explodir. Entretanto, avisa que poderá mudar de ideia se a transexual Geni o satisfizer por uma noite. Tanto o forasteiro do Zepelim quanto Klaatu são portadores de uma ameaça externa, e ambos são tomados de indignação e fúria ao se chocarem com a realidade de um planeta governado pelo egoísmo e corroído pela estrutura perversa da sociedade.

Em ambos os casos a solução vem pelo sacrifício e pelo amor. No caso de Chico, uma Geni que se entrega ao forasteiro temido e poderoso, salvando a Terra ao satisfazê-lo. Já na história de Harry Bates a salvação da civilização também ocorre pelo encontro com a “fissura bizarra na ordem cósmica”, a inesperada tensão sexual que se estabelece entre Klaatu e sua anfitriã, a senhora Helen Benson. Foi esse contato com o desejo que permitiu a Klaatu – mesmo ferido de morte – reconhecer a necessidade de oferecer à Terra uma nova chance.

Sim, eu reconheço que há uma leitura alternativa – e mais explícita – do filme dirigido por Robert Wise. Nesta visão, a película inaugura a “pax americana”. Os alienígenas – nobres, prateados, limpos e justos – seriam os americanos, a polícia do planeta, levando a democracia liberal e o capitalismo para os povos “bárbaros”, da Coreia ao Oriente Médio. Junto com estas regras impostas vem implícito um ultimato: comportem-se ou serão destruídos; ou no mínimo estrangulados, como Cuba, Irã e Venezuela.

Na história de Chico o mundo é salvo e tudo volta a ser “como dantes, no quartel de Abrantes”. Geni volta a ocupar o lugar social da puta desprezível e os preconceitos seguem inalterados. O sol volta a brilhar e a gratidão pela renúncia de Geni é rapidamente esquecida. Um final muito mais triste do que a ficção científica de “O dia em que a Terra Parou”.

A música de Chico agora vai se transformar em filme e desde já me pergunto: haverá um Zepelim? Prateado mesmo? Geni será uma atriz trans? O final será melancólico como na música?

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Casamento

Na verdade eu acho que ainda é arriscado colocar “amor” e “casamento” na mesma frase quando estamos olhando para figuras da história. Essas instituições milenares não podem ser analisadas pelo prisma do “amor”, e por isso acredito ser justo colocar esta palavra entre aspas quando ela é analisada na perspectiva do tempo. Relações amorosas a unir as pessoas são um acontecimento recentíssimo na história da humanidade, algo de poucas gerações apenas.

Aliás, o casamento enquanto estrutura social sempre foi bastante estável, mas o grande responsável pela sua destruição foi o próprio amor. Enquanto o amor era dedicado a outras coisas – filhos, por exemplo – o casamento enquanto instituição estava a salvo. Foi sua entrada na equação dos encontros sociais o deflagrador da sua ruína, o desmanche do sólido castelo construído desde o início do patriarcado.

O amor e suas consequências significam a destruição dos casamentos. Se estabilidade social fosse um objetivo a buscar ele deveria ter se mantido na forma protocolar e insípida como foi 99% do tempo em que vivemos na terra.

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O Cipó

Eu já vi esse filme, e acho que podemos estar errando de novo. O supremo empoderamento da voz das pacientes e o descrédito da versão dos médicos pode eventualmente se voltar contra os próprios profissionais humanizados. A mão que afaga é a mesma que apedreja. Criar demônios, desumanizando-os, não é certo nem justo. Criamos personagens sem matiz, a vítima e o carrasco, o bom e o mau, e isso raramente conta toda a história.

Hoje o foco das acusações é um intervencionista que muitos dizem ser arrogante, alguém que debochava da humanização e do parto no modelo de parteria. Espero que ele receba um julgamento justo por seus erros. Todavia, essa mesma energia vingativa que muitos lançam para ele pode voltar, como cipó de aroeira no lombo daqueles que agora apontam dedos. Já vi esse fenômeno, e sei como ocorre.

Eu recomendo cuidado com essas narrativas. No fundo não existe nenhuma diferença essencial entre médicos e pacientes; todos são gente, com suas falhas, erros, virtudes e acertos. Um certo cuidado com a história que se forma seria uma boa atitude.

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Sentidos

Eu vi muito da busca insaciável por sentido quando o tema é a morte. Diante do impacto que as despedidas oferecem aos que ficam, as pessoas não buscam descobrir a realidade da morte, do adeus, do infinito de separação inexorável; elas querem conferir à morte um sentido. Para isso precisam negar muito da realidade, não apenas sobre quem se foi mas também sobre a própria morte, como e porque ocorreu, de quem foi a culpa e a responsabilidade. Para conseguir este sentido não se furtam de colocar a morte numa linha de causalidade tão fantasiosa quanto aliviante e consoladora. Assim fazendo, pedem às mentiras que ofereçam um lugar seguro para, assim fazendo, garantir sentido ao caos.

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Saindo do Armário

Eu acho o sentimento do ator gay cujo pai votou em Bolsonaro legítimo. É decepcionante ver alguém que admiramos e amamos votar em um sujeito que a gente despreza por sua conduta, suas ideias, sua postura, seus valores e sua história. Entretanto, acho que essa decepção é fruto de uma idealização exagerada.

Meu pai não votava há muitos anos, mas me disse que jamais votaria em Bolsonaro. Sofreu na ditadura de Vargas e tinha horror aos governos militares. Entretanto, era um conservador, um liberal tipo tucano, e jamais aceitou o comunismo. Ele era um produto perfeito do pós guerra, da Guerra Fria, dos mitos e mentiras sobre a União Soviética. Por essa estrutura psíquica, jamais me perdoou quando saí do armário e me declarei para a família…

– Pai, vou contar pra família algo que vocês já devem saber, mas eu preciso dizer. Prefiro que escutem de mim do que ouvindo fofoca de vizinhos: eu, eu, eu… sou comunista.

Ele respeitou minha decisão, mas nunca aceitou. Sempre se irritava quando falava de “luta de classes”. Dizia algo como “Para que lutar se podem se entender?”. Pior ainda se eu falava da “ditadura do proletariado” ou do “controle dos meios de produção”, “Lá vem você defender ditaduras!”. Acreditava nos mitos ao estilo “divide todo teu dinheiro com os pobres, então”, “ahh, socialistas de carro novo” e todas as fantasias criadas sobre o comunismo. Ele era um homem do seu tempo e seu estranhamento com o comunismo é semelhante ao estranhamento que um homem de 90 anos teria com a súbita popularidade da homossexualidade.

Digo isso porque eu acho que é possível ter um filho gay e mesmo assim votar num sujeito da extrema direita e que tem desprezo por homossexuais – apesar de obviamente não concordar com isso. Creio que o voto do pai do ator não foi relacionado à pauta moral, mas a um rechaço ao PT, à “corrupção” (fabricada diuturnamente pela Globo), à lava jato e à crença de que Bolsonaro poderia livrar o Brasil da “ameaça comunista”. O pai desse rapaz provavelmente tem esse tipo de visão de mundo – com a qual não concordo e até combato – mas isso não o torna necessariamente um homofóbico. Ele votou nessas pautas APESAR de Bolsonaro não respeitar os gays e a diversidade o quanto deveria.

Meu pai votaria em sujeitos como Aécio ou Alckmin, mas pelas suas crenças no liberalismo econômico e suas propostas por um capitalismo “domesticado”. Entretanto, a vinculação desses personagens com a Opus Dei ou o uso de drogas não teria nenhuma influência em sua escolha; ele votaria neles apesar dessas falhas pessoais.

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