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Dia dos Pais

Sim, acho muito errado usar esse dia para esses ataques aos homens e aos pais, mas parece que as mídias sociais ficam recheadas de mensagens negativas sobre eles. Apenas peço que usem os outros dias para isso. Nunca vi alguém publicar algo destrutivo, ressentido e agressivo contra mães e mulheres no dia das mães. “Ah, mas não existe mãe ruim”.

Existe sim. Muitas. Milhares, milhões. Mães que abandonam, que maltratam e que espancam. Mães que até matam. Mas elas são a ÍNFIMA MINORIA das mães. A IMENSA MAIORIA das mães é feita de mulheres devotadas e amorosas com seus filhos e sua família, e no dia dedicado a elas não seria justo tratar o todo por uma parte tão insignificante.

Pois a maioria dos pais ao meu redor se preocupa com seus filhos, com as suas crianças e se dedica a elas. A maioria diria com toda a força dos pulmões “mulheres e crianças primeiro!!” diante de uma tragédia. Não pensaria meio segundo em arriscar a vida em nome dos filhos.

Entretanto, muitas mulheres aproveitam esse dia para atacar o masculino e a paternidade e o usam para despejar seu ressentimento contra todos os pais. Não poderei jamais ver isso com bons olhos. Façam isso nos outros dias. Aproveitem o dia dos pais para elogiar os bons pais que existem. Aproveitem para reconhecer NESSE ÚNICO DIA, as qualidades da paternidade. Quem não tem bons exemplos no seu pai ou seu marido fale genericamente, dos outros pais, do genro, do sogro, de quem quiser. Respeitem um dia entre 365 de um ano.

Esperem SÓ ATÉ AMANHÃ para odiar de novo com todas as forças esses “miseráveis” que andam por aí, “inúteis depósitos de testosterona”.

Só hoje, por favor….

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Rótulos

O mais provável é o erro estar nas próprias classificações artificiais que compulsivamente criamos, nos rótulos, no hétero, no bi, no gay, no trans. Ninguém cabe por completo em qualquer uma dessas definições, mas nossa sede de pertencimento nos faz procurar avidamente por algo que se assemelhe a nós.

Talvez, como diz o Zizek, a única coisa de valor nessa nomenclatura seja o “plus” aplicado ao final. No fundo, somos todos “plus”, inclassificáveis, pois nosso desejo é tão único que qualquer rotulação será absurdamente limitante.

Creio que no futuro haverá o tempo em que a frase do Ney Matogrosso fará sentido, e ninguém terá orgulho de ter uma determinada orientação sexual, subjetiva e pessoal, e seremos todos tão somente humanamente semelhantes e divinamente diferentes.

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Filmagens

Sobre a filmagem e os comentários ofensivos da moça fazendo Yoga na praia…

Numa entrevista na rua não há problema algum em registrar o que já está acessível ao olhar de todos. Quando o objetivo é reportar não há necessidade de assinar nada ou mesmo pedir qualquer autorização verbal. Entretanto, se você for usar comercialmente sua imagem somente aí existe necessidade de autorização, como num filme ou em uma publicidade.

Acima de tudo, não existe privacidade em público; se você aparece em espaços abertos à livre circulação não pode impedir que alguém lhe veja e registre.O crime aqui é a exposição, a humilhação pública e o tratamento chulo e desrespeitoso dos comentários. Na rua não existe privacidade; você pode filmar quem quiser. O crime desse sujeito foi a exposição ofensiva dessa moça, as palavras grosseiras e o deboche. Filmar em lugares públicos NÃO é crime, e lembre que essas filmagens é que nos protegem da brutalidade policial!!!

Não podemos dar tiro no pé. Essa é a desculpa da polícia para matar pessoas em segredo. TODOS TEM O DIREITO DE FILMAR A POLÍCIA e qualquer outra pessoa em PÚBLICO. O crime aqui é OUTRO, a obscenidade dos comentários, e não a filmagem em si.

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Amores liquefeitos

Hoje em dia é cada vez mais comum encontrar casais que se encontram tendo uma tela a lhes conectar. Ou seria a lhes separar? Podem estar até perto, mas também do outro lado do mundo. O que poderia ser visto como uma facilidade de comunicação para pessoas que, de outra forma, teriam que se encontrar por cartas (como há duas gerações passadas) pode ser problematizado para se entender qual o real espectro destas novas relações fluidas.

Esse é um tema excelente e muito oportuno. Até eu mesmo escrevi sobre este tema, logo que ele se mostrou um fenômeno social, quando do início das redes sociais. Eu tinha algumas pacientes que namoravam estrangeiros. Lembro de três delas que me chamaram a atenção: México, Inglaterra e Itália. Todas moças jovens e bonitas, e eu me perguntava: será que não tem ninguém suficientemente interessante aqui na cidade? Por que elas foram se interessar por sujeitos que moravam a milhares de quilômetros de distância? O que poderia haver de interessante em ter um amor sem substância, sem amassos, sem beijos roubados, sem abraços e sem o dormir de conchinha?

Os namorados nada tinham de especial. Estudantes, engenheiros, funcionários da bolsa de valores. Algumas me mostravam as fotos: sujeitos comuns, alguns bonitos até, mas nada fora do natural do cotidiano. Havia, por certo, uma presunção pequeno burguesa de encher a boca e dizer “…o Luigi, meu namorado italiano”, mas diante do preço alto das ausências eu achava muito pouco como contrapartida.

Um dia uma delas me contou que havia falhado a tentativa de encontrar o namorado, depois de muitos meses de planejamento. Eu respondi a ela “que pena”, pois sabia o quanto aquele encontro havia sido planejado para a sincronia das férias, as viagens que fariam, etc. Todavia, não pude deixar de perceber um sorriso enigmático quando ela me retrucou “pois é, já é a terceira vez”. Foi neste momento que me dei conta que o desencontro era exatamente o que ela desejava, mesmo que conscientemente lutasse por essa chance de tornar real o que era virtual. Ela queria exatamente isso: jamais se encontrar, pois essa seria a solução para manter acesa, “ad infinitum”, a paixão que tanto acalentavam.

Não é difícil entender porque na distância, no mundo virtual, todo o amor é idealizado. Os ângulos da câmera são sempre perfeitos, as frases são pensadas, os amores não têm defeitos, só vemos as partes boas, as roupas escolhidas, os sorrisos, etc. Também não há despertar com o pé esquerdo, crises de mau humor. Entretanto, é no dia a dia que se constrói o amor, que é exatamente a ruptura desta paixão – que é “cega”, porque idealizada. No contato com os defeitos e nos conflitos do cotidiano é que aparecem as decepções, onde a figura perfeita se choca com a realidade. Para evitar a queda da imagem sem defeitos, melhor jamais acordar do sonho.

Conheci muitas pessoas viciadas em paixão. Tinham relações loucas, excitantes, malucas e fulgurantes, mas que eram destinadas a durar muito pouco, até que fizesse falta mais uma vez a adrenalina da paixão. Aí, outra paixão era buscada, e novamente gasta até não sobrar fagulha. Vi muitos homens viciados em conquistas, novidades, novas descobertas, mas condenados a ter relações curtas, onde qualquer profundidade era imediatamente rechaçada. Não duvido que uma relação que começa por uma tela de celular possa se tornar duradoura, se firmar e transformar-se em um grande amor, produtivo e satisfatório. Todavia, as relações virtuais têm essa marca: o desejo construído sempre sobre uma imagem ideal, platônica, mas não pela distância ou pelo afastamento, mas sim pela perfeição desejada, onde os amantes são vultos etéreos no universo das ideias.

Alias… um fator que me chamou a atenção foi o resultado desastroso de todos os encontros de que tive contato. Uma delas foi até o México conhecer o bonitão. Saiu fugida do país depois de um mês, amedrontada pela índole violenta do namorado. Por vingança o sujeito deu queixa na polícia contra ela, como forma de vingança, alegando um furto em sua casa. Quando chegou ao Brasil agradeceu por ter voltado viva. A que foi na Itália descobriu que o seu grande amor estava casado, mas teve “vergonha de contar”. A menina que namorava um sujeito da Inglaterra (aquela cujo encontro deu errado 3 vezes) finalmente foi encontrá-lo, mas, passado um mês de namoro, romperam quando ela foi embora. Sem brigas, ódios e nem mesmo rancores, mas muito pouco para uma relação que durou anos pela via cibernética.

Lembrei de outra: namoro que durava meses com um portenho de Buenos Aires. Isso foi antes das câmeras, e eles trocavam fotografias. O sujeito era um dentista, separado, dois filhos, 35 anos. Encontro marcado no aeroporto de Buenos Aires e a dura realidade: em verdade se tratava de um sujeito solteiro, motorista de táxi, 43 anos e que morava com a mãe. Mentiroso ele, não? Sim, mas é bom levar em consideração que ela mandou fotos 30 kg mais magra, peso que ela ganhou depois da gravidez do seu filho. Ou seja: um mundo de fantasias, mas pelo menos nessas histórias ninguém apanhou ou morreu.

Lembrei outra: cinquentona, separada, conheceu seu namorado em uma viagem de férias. O sortudo era um português charmoso, advogado, separado e comerciante bem-sucedido. Paixão instantânea. Depois, namoro virtual por uns dois anos. Ela resolve visitá-lo na cidade do Porto. Planos de casar, morar fora do país, etc…. mas a relação durou menos de 24h. Romperam logo depois que ela chegou ao país, criando para ela uma imensa frustração. Não vamos nos iludir; este é o “novo normal” das relações, a realidade das relações modernas e fluidas, intensas e fugazes. Talvez seja preciso se adaptar. Amores cujos encontros são emocionantes e fulgurantes, mas as despedidas são curtas e brutais. Sumir simplesmente, sem dar qualquer satisfação – o conhecido ghosting – é uma ocorrência comum. Basta apertar um botão e a pessoa desaparece, sem precisar conversar, pedir desculpas, olhar no olho e chorar, sem se explicar e muito menos sofrer um pouco com a indignação e a mágoa do outro.

Onde isso vai nos levar? Não sei, mas temo pelos amores dos meus netos.

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Doenças da moda

Não existe sujeito sem cultura e nem cultura sem sujeito. Assim, as doenças são também expressões culturais. As histéricas de Freud tinham significado na constrição sexual europeia do final do século XIX, mas perderam muito de sua pervasividade em uma cultura mais liberal. Ainda vale o adágio que nos diz “sociedades constritivas, manifestações histéricas; sociedades histéricas, sujeitos depressivos”. Hoje a depressão é quem mais afeta uma sociedade abusivamente individualista e hedonista.

Doenças funcionam também como moda. Na época da faculdade, após a criação dos ecocardiógrafos, houve uma explosão de diagnósticos de “prolapso de válvula mitral” – até minha mãe conseguiu um – a educar uma infinidade de sintomas. Hoje saiu de moda como fenômeno. Na época da minha formatura, meados dos anos 80, a moda na ginecologia era a Chlamydia. Hoje ela é apenas mais uma das DST. AIDs teve seu esplendor, mas hoje não frequenta mais as manchetes.

A tuberculose mata mais do que todas estas doenças, e há séculos, mas é uma doença da miséria, seja pelo contágio ou pelo controle insuficiente. Ela não ganha manchetes, só lápides.

As manifestações de pânico, déficit de atenção, desordens do espectro autista e depressão ganham manchetes, estudos, pesquisas e diagnósticos. Existem por certo como sofrimento real, mas é inegável que a atenção social sobre estes eventos produz excessos que apenas o tempo acabará depurando.

Lembrei agora de um professor de medicina que teve uma morte meteórica após a descoberta de um melanoma. Imediatamente depois de seu falecimento, que nos chocou a todos, nós víamos alunos, residentes e enfermeiras com curativos de biópsia no rosto e nos braços circulando pelo hospital. Quantos receberam diagnósticos limítrofes e fizeram cirurgias desnecessárias apenas pelo ambiente de medo criado por um fato real?

E o que dizer das indicações de cesariana por sofrimento fetal, ou as cirurgias marcadas por bebês “muito grandes ou “muito pequenos”, diagnósticos que surgiram como fenômeno apenas depois da invasão do claustro amniótico pela tecnologia? Seriam estas enfermidades verdadeiras?

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Falsos heróis

Quando eu era menino eram muito comuns as séries americanas que contavam as aventuras dos americanos nas Guerras. As mais famosas foram “Combat!”, “Hogan’s Heroes” (Guerra, Sombra e Água Fresca) e M*A*S*H, esta última um sucesso espetacular sobre um grupo de médicos na Guerra da Coreia, com Alan Alda – guerra essa em que os americanos mataram mais de 1/3 de toda a população da Coreia do Norte.

Essas séries da minha juventude são as responsáveis por criarem no imaginário da minha geração duas grandes mentiras (entre outras) que o tempo e as evidências ainda não conseguiram desmanchar por completo.

1- que os americanos venceram a II Guerra Mundial. Errado, ela foi vencida pelo exército vermelho, que ocupou todo o leste europeu, chegou primeiro a Berlim e encontrou o Führer já morto por suicídio em seu Bunker. Os americanos entraram em 1942, para ajudar os aliados na batalha da Normandia. Perderam 500 mil homens, enquanto o Rússia teve mais de 20 milhões de mortos.

2- que o exército americano é feito de boas pessoas, companheiras, camaradas, justas, morais e éticas. Mentira: é o exército mais cruel do mundo, a força bélica do Império a serviço da “Estrela da Morte”, que desde a segunda guerra mundial já invadiu dezenas de países, sendo responsável por milhões de mortos por onde passa em sua luta por domínio e pela exploração de recursos naturais alheios.

Se alguém tem dúvida sobre a ação maléfica do exército americano em todo o mundo, confira aqui.

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Cultura do cancelamento

A cultura do cancelamento, que sacrifica pessoas culpadas ou inocentes, não produz uma sociedade mais moral ou ética, mas fomenta uma cultura de falsidades e mentiras.

Um caso típico é o cancelamento de um famoso diretor americano por grupos feministas com a falsa alegação de que, há 20 anos, teria abusado sexualmente de sua filha. Todas as investigações apontaram para a sua inocência, incluindo o depoimento do seu filho que estava presente na cena em questão. Nunca houve qualquer evidência que comprovasse este crime, e nunca ocorreu nenhum fato semelhante em sua biografia, seja antes ou depois do fato. Investigações independentes da polícia, psicólogos, assistentes sociais foram unânimes: o depoimento da menina é falso e foi ensaiado. Todavia, isso não impediu uma perseguição implacável que dura até hoje.

Entretanto, os atores e atrizes de Hollywood sentem tanto pânico de cancelamento por parte dos “liberais” que quase ninguém ousa enfrentar essa gigantesca patrulha midiática, formada de pessoas ávidas em destroçar carreiras e reputações e prontas a cancelar o futuro desses artistas, políticos, escritores e figuras públicas. E pensar que a “Fatwa” decretada contra Salman Rushdie já foi tratada pelo Ocidente como “barbarismo”, mas hoje vemos que não passa de um cancelamento levado às últimas consequências.

Existe uma prepotência da voz diminuta, o súbito esplendor do “popular”, o sujeito sem brilho que descobre o poder da internet para atacar os ícones da cultura, que tanto ama quanto odeia, por se sentir oprimido pelo seu brilho. Moldados à sua semelhança, os artistas morrem de medo de desagradar a imensa plateia que os sustenta. É por esta razão que os grandes formadores de opinião tem posturas “chapadas” em relação aos temas espinhosos. Ou, muitas vezes, unem-se à turba furiosa acriticamente, apenas para não arriscar a perda de seus benefícios.

Se muitas mulheres preferem acreditar que determinado personagem é machista é melhor concordar do que ser vítima de um ataque massivo por parte desse grupo. O mesmo com a homofobia ou o racismo. Quem ousa denunciar abusos dos liberais? Sim, só a direita.

O resultado é uma cultura de falsidades, não uma sociedade justa ou equilibrada. Um modelo que joga para o extremo e rotula dissidências de forma peremptória e inexorável produz mártires ou covardes, mas não estimula o debate livre ou a oxigenação de ideias. Basta uma simples discordância com os cânones dessas áreas para lhe condenar (eternamente!!) como racista, homofóbico, machista ou fascista, bastando para isso discordâncias simples em detalhes colaterais.

Prisioneiros da opinião pública, pouco resta de sinceridade no que se escreve e se diz. Amordaçados pelo politicamente correto ninguém ousa arriscar, pois que um passo em falso pode determinar o cancelamento total e a ruína. O pior é reconhecer que as vozes mais firmes contra o império da hipocrisia estão à direita, pois que a esquerda facilmente sucumbiu ao discurso dos identitários e às falas politicamente corretas.

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Icebergs

Esse assunto se situa no ponto de choque entre dois gigantescos icebergs: tutela e autonomia. A mulher durante a gestação percebe estas duas massas gigantescas se aproximando de forma ameaçante e precisa decidir onde se situar. Ela pode se agarrar a um dos icebergs, mas será inexoravelmente cobrada por ter feito esta opção.

Cada um de nós estabelece um limite na batalha entre a alienação do seu corpo ao profissional e a plena autonomia, de acordo com suas histórias, vivências, estudos e sua topografia na hierarquia de poderes. Entretanto, para esta que sofre no corpo o drama da escolha esta é uma decisão muito mais complexa.

Não sei se acho justo, adequado, válido ou correto quando vejo uma mulher sem pré Natal chegar ao terceiro trimestre, mas as poucas que vi na minha vida traziam no olhar uma pergunta que eu não sabia responder.

Sabe… como olhar para um ato de extrema coragem, mas que, apesar de não concordamos, nos faz questionar nossos valores e nossas certezas.

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Anacronismos

Não há dúvida que Monteiro Lobato era racista. Mais ainda, era um eugenista, um entusiasta da KKK e um racista ATIVISTA, mais do que apenas um sujeito com preconceito racial. Foi membro da sociedade paulista de eugenia e divulgador dessas ideias, as quais – no início do século XX – tinham uma aura cientificista.

Todavia, esta não é a mais importante abordagem. O que me parece urgente debater em tempos de “cancelamentos” a respeito da “questão Monteiro Lobato” é o quanto é possível “separar autor de obra” e se é adequado que sejam feitos julgamentos sobre figuras da literatura fora do devido contexto histórico. Ou seja, separar a obra das questões subjetivas de quem a escreveu e não sucumbir ao anacronismo – o julgamento de um sujeito apartado de seu tempo.

Nem é necessário ir muito longe. Na minha própria experiência pessoal existem claras lembranças de uma época em que tais ideias não recebiam da cultura o adequado contraditório. Ao longo de toda a infância eram comuns as piadas racistas, as quais eram contadas impunemente para qualquer um – inclusive por mim – pois eram tratadas na cultura como “brincadeira”, “chiste”, “jocosidade”, etc. Não há dúvida, entretanto, do seu conteúdo racista e segregacionista quando expostas às luzes do século XXI. Usava-se da piada para encobrir um conteúdo separatista, um apartheid informal e subliminar, essencial e estrutural, que se expressava em uma forma extremamente potente de coesão cultural: o humor.

O mesmo ocorria com as piadas homofóbicas. Na minha época um dos humoristas mais celebrados era o “Costinha”, um dos artistas mais engraçados do seu tempo. Entre suas piadas, 90% eram sobre gays, “bichinhas”, como ele dizia, homossexuais com atitudes afetadas. Hoje em dia suas piadas seriam um escândalo, mas apenas 40 anos nos separam do seu auge como piadista. Julgar Costinha – e não suas piadas – seria um anacronismo, assim como julgar Monteiro Lobato sem levar em conta o entorno cultural em que estava envolvido.

Outro aspecto é pensar sobre Monteiro Lobato e esquecer a vida pessoal – e até a obra – de tantos outros escritores. Devemos, por exemplo, esquecer a obra de Heidegger ou Celine por suas vinculações com o nazismo? Seria justo apagar a música de Michael Jackson pelas acusações que recebeu – em vida e depois dela – de abusos sexuais contra menores? É adequado esquecer o racismo explícito de Humberto de Campos e Fernando Pessoa (sim!!!) ou devemos sorver suas obras e descontar os erros de seu tempo?

E a defesa da pedofilia de Simone Beauvoir? Deveríamos relevar estas manchas em sua biografia e continuar aprendendo com seus textos precursores do moderno feminismo? Ou devemos também apagar todos os seus escritos?

E o que fazer com os feitos de médicos brasileiros como Miguel Couto, Roquette Pinto (médico e pai da radiodifusão no Brasil), Renato Ferraz Kehl e tantos outros que participaram da Sociedade Paulista de Eugenia? E quanto a literatura infantojuvenil? Vamos “cancelar” Lewis Carroll pelas acusações de pedofilia que foram feitas contra ele? Deveriam as crianças todas do mundo ser privadas das aventuras de “Alice no país das Maravilhas” pela suspeita de uma falha ética do seu autor? Pior ainda: devemos destruir a obra de Woody Allen, falsamente acusado de abuso sexual, apenas para agradar a “patrulha”? E o que fazer com a pedofilia de Charles Chaplin?

Se um antropólogo achasse, mas areias da Galileia, um manuscrito essênio que revelasse uma mancha moral gritante de Jesus, seria justo acabar com o cristianismo em nome da purificação necessária para limpar esta mácula?

Há um adágio antigo que nos diz: “As virtudes são dos homens, as falhas são do seu tempo”. Eu li toda a obra de Monteiro Lobato na entrada da adolescência e não percebi nenhum racismo explícito nela. Não que não houvesse; ela estava evidente na topografia dos personagens, mas este racismo sutil ainda era invisível nos anos 70. Somente agora podemos percebê-lo para julgar sob esta nova perspectiva.

O mesmo digo dos outros autores. Não há mal algum em apontar a pedofilia, o nazismo e o racismo nos autores. Também é justo mostrar estes erros nas obras que escreveram, mas é fundamentar não se deixar levar pelo anacronismo, julgando um sujeito fora do seu tempo e da cultura que o envolvia.

Monteiro Lobato e muitos outros devem ser mantido nas escolas exatamente para que se possa debater com os alunos sobre os valores de meados do século XX. Apagar a história, mesmo em nome de valores nobres, empobrece a cultura.

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Pornografia

Eu acho que esse menino não é tão inocente. Existe uma mensagem subliminar nos seus vídeos que eu creio sem importante interpretar. Acho os vídeos bobos, mas sei que são feitos para meninas de 12 ou 13 anos. O jeito sedutor, as caras e bocas, etc…

Eu considero o sucedâneo das revistas Sabrina e Júlia: soft porn, ou pornografia feminina.

Aliás, para problematizar mais ainda. Vejo todos os dias críticas à pornografia dizendo que os meninos (mas claro, não as meninas) se viciam nos conteúdos da pornografia e acham que devem agir daquela forma, que é abusiva e irreal.

Acho o argumento meio forçado; existe pornografia até nas paredes das casas em Pompeia, o que me diz que ela é tão antiga quanto o próprio inconsciente. Sei que não acho que se deve manter uma coisa apenas porque ela é velha, porém é importante entender suas raízes na cultura. Mas aqui não é esse o ponto…

Eu pergunto então: Não estaria esse menino servindo como um exemplo tosco de sedução para os meninos, e uma expectativa irreal para as meninas?

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