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Generosidade do Saber

Foucault confessou que escrevia de forma rebuscada e hermética para poder ser aceito pela intelectualidade. Dizia ele que, se ousasse escrever de forma simples e compreensível, seria tratado como um autor raso, superficial e “popular”. Uma pena que ainda exista na academia esta propensão ao pernosticismo, a busca por uma falsa sofisticação nas palavras, mas que tão somente esconde a incapacidade dos autores de comunicarem suas ideias de forma a que os outros, meros mortais, possam entender.

Aliás, Freud – entre outros – é um exemplo de pensador que possui como virtude a “generosidade do saber”, que é quando um autor se coloca no lugar do leitor e tenta explicar suas ideias e projetos como se este estivesse escutando tais conceitos pela primeira vez. Sua clareza e sua didática sempre me impressionaram. Essa empatia é essencial para transformar um sujeito de grandes propostas em alguém que pode transformar o mundo através da disseminação do seu conhecimento.

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Lacrar

A internet – e mais especificamente as mídias sociais – criaram o termo “lacração” e disseminaram o seu uso. É curioso que este termo muitas vezes é mal utilizado, dando a entender que a “lacração” se refere a um argumento tão bem utilizado, e que explica um determinado fenômeno de maneira tão completa, que é capaz de “lacrar”, fechar, terminar, colocar um ponto final, já que depois do que foi dito nada mais poderia ser acrescentado. Finis est…

Na verdade a “lacração” se refere a outro fenômeno muito mais complexo. Argumentos taxativos, brilhantes, completos e definitivos – se quisermos acreditar que isso existe – são apresentados desde o início da linguagem. Org teria dito para Uth, numa caverna há 40 mil anos: “Se você acredita que soprar é a magia está enganado. A magia está no atrito dos pauzinhos, seu otário“. Um argumento excelente, que podia inclusive ser demonstrado experimentalmente. Ele “lacrou”?

Não, porque “lacrar” não está relacionado à justeza do seu argumento, sua abrangência, sua lógica ou seu encadeamento de ideias. Também não está relacionado à sua qualidade argumentativa e nem às suas virtudes de convencimento.

Na verdade, a “lacração” está relacionada à plateia. É um jogo de cena, onde seus ouvintes, leitores ou telespectadores fazem parte do argumento. O sucesso de suas ideias depende do entusiasmo de quem as escutou. Uma ironia, um escárnio, um deboche ou uma resposta provocativa “lacram”, porque a plateia delira ao ver seu ídolo fazendo sucesso com sua fala.

No território das mídias sociais, onde as pessoas se escondem atrás de telas, a possibilidade de um debate centrado nas ideias se tornou cada dia mais difícil. Mais do que apresentar boas ideias, você precisa ser alguém que galvanize a simpatia de um número cada vez maior de fãs e simpatizantes, posto que a “lacração” dependerá disso, e não de seus argumentos e posturas. Isso acabou gerando um personagem novo: “o mendigo de likes“, pois que ele sabe que só poderá “lacrar” se tiver um grupo enorme de pessoas a lhe oferecer suporte e apoio.

Todavia, eu acho que esta fase vai passar. A “lacração” já é um fenômeno decadente e começa aos poucos a ser sinônimo de “argumento frágil e demagógico”. Sou um otimista….

Lacrei? Não….

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Teta

Vi há pouco o vídeo da movimentação da língua de um bebê recém-nascido dormindo, simulando os movimentos da amamentação. Minha observação foi:

“Sonhando com teta, um sonho que vai acompanhá-lo por toda a vida”.

A ideia por trás desta observação é de que nesses estratos primitivos pré-verbais é que se alicerça a sexualidade humana. Nessa fase, chamada de “fase oral”, a boca é a grande ferramenta de prazer sexual. Só bem depois, passada a longa infância humana e com a lenta maturação sexual, encontraremos prazer genital, o qual será fundamental para a vida adulta e a reprodução.

Entretanto, as marcas da oralidade manterão resquícios por toda a vida. Arrisco dizer que o beijo é a característica de expressão afetiva mais saliente nas culturas exatamente porque carrega as memórias prazerosas da amamentação. Não fosse por isso – nossa oralidade e a ligação ao seio como fonte de prazer – e teríamos uma humanidade sem bitocas, selinhos ou beijos “desentope-pia“.

É evidente que a amamentação carrega essa carga enorme de erotismo o qual vai entrelaçar de forma amorosa mãe e bebê. “Se amor existe, este é o sentimento de uma mãe pelo seu filho e todos os outros amores são dele derivados“, diria o mestre Freud. É ali na imbricação de mútuos prazeres que uma mãe cumpre seu mais alto fim: ensinar seu filho a amar. Não resta mais muita dúvida sobre esta questão.

Também é óbvio que na mente da criança haverá marcas indeléveis desse período. A fixação ancestral dos humanos pelos seios produziu um fenômeno único entre os mamíferos: as mulheres humanas são os únicos primatas que mantém a turgidez das mamas fora do período de amamentação. Olhe uma fêmea chimpanzé, gorila ou orangotango e se pergunte: “onde estão as mamas?

Ora… do ponto de vista evolutivo as mamas das fêmeas humanas se mantiveram grandes e túrgidas pelo forte apelo atrativo e sexual que desempenham na nossa espécie. Foi um processo seletivo que ocorreu nos últimos milhões de anos. No Museu de história natural de Nova York, Lucy (australopitecus afarensis) é retratada com as mamas murchinhas, dando a entender que a mama como objeto de desejo ainda custaria a aparecer. Quando então começou essa transformação? Homo erectus? Homo rudolphensis? Ou junto com a razão – no Homo sapiens sapiens?

Por isso podemos apostar na ideia de que o sonho dourado desse bebê vai se manter em sua mente por toda a vida. Essa experiência primitiva de prazer vai acompanhá-lo, mesmo que não perceba. A estética graciosa, redonda, macia e voluptuosa das mamas permanecerá como ícone máximo do prazer.

As mamas, no imaginário humano – em especial no Édipo masculino – vão nos seguir, guiando nossas escolhas, direcionando nossos olhares e construindo nossos sonhos – nem que venham disfarçadas, como balões, flores gigantes e até bolas de futebol (as gorduchinhas).

Pois bastou tocar com essa singela frase na questão da eroticidade da amamentação para – de novo – aparecerem ataques no sentido de questionar a “erotização das mamas”. Ataques, como sempre, violentos.

Claro… mea culpa, mea maxima culpa, respondi de forma exagerada aos ataques. Peço perdão por isso. Entretanto, sempre me assombro com a onda puritana da geração atual. A mera menção do desejo relacionado à amamentação faz com que essas pessoas reajam com ferocidade. A simples ideia de que homens (e mulheres) venerem as mamas como sublime objeto de desejo deixa furiosas(os) as(os) jovens ativistas.

Suspeito que o problema é desnudar a própria existência deste desejo e trazer à tona um gozo escondido, recôndito e dissimulado. O que emerge com tanta voluptuosidade é a denegação do prazer que brota quando se amamenta em liberdade.

Aos envolvidos minhas sinceras desculpas.

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Trolls

Não há abordagem sobre um qualquer tema polêmico na internet que não seja passível de deturpação. Acreditem, somos presas de nossas emoções mais primitivas e nossa racionalidade é um verniz de intelectualidade que serve mais como disfarce do que como roupagem. Não importa o quanto um sujeito explique seu ponto de vista com os detalhes mais redundantes e objetivos possíveis; ainda assim será possível – com um pouco de retórica e uma boa dose de perversidade – duvidar do que ele disse e argumentar que estava a dizer exatamente o oposto.

Não existe clareza suficiente para quem fecha os olhos e se nega a ver a luz. As pessoas não enxergam o argumento; enxergam a pessoa atrás dele e decidem – com base nos afetos e identificações – se ele merece apoio ou repúdio. A razão sempre perde essa batalha para as paixões.

O exemplo mais clássico comigo é debater coisas como cesarianas, parto domiciliar, socialismo, Palestina, etc. Basta esperar alguns minutos e…. voilá!!!! Nunca falha de aparecer alguém para escrever: “Ok, mas você é homeopata e eu não acredito em homeopatia, seu embusteiro!!!“.

O movimento óbvio desse sujeito foi: “Ok, eu entendi o que você disse, e creio que pode estar certo – ou não. Todavia, não vou aceitar que fale desse assunto pois não gostei de você. Como não conheço bem o tema vou atacá-lo pessoalmente – o que é bem mais fácil – e para isso valerá qualquer coisa que achar na sua história pessoal.

Está montada a treta. Depois do ad hominem não resta mais nada a fazer, só desejar boa sorte e dar block sem dó. Convencer pela razão quem assumiu uma posição sem fazer uso dela é a mais tola das arrogâncias.

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No meu tempo…

Não peguei a época dos “pau amigo” ou das “amizades coloridas”. Sou do tempo em que algumas instituições ainda se mantinham firmes, mesmo que já fosse perceptível sua insidiosa senescência. Namorar – para só assim poder transar – era uma instituição ainda viva. “Ficar” era manter-se estático em algum lugar. “Tu vais ficar aqui sem se mexer” dizia minha mãe. E para começar a namorar havia também os devidos rituais. Não havia coisas vagas como “a gente tem saído juntos”. Você era namorado(a) ou não, mas para namorar tinha que “pedir em namoro” e, acreditem, não era fácil. Logo depois da menina aceitar podia pegar na mão. Beijar levava algumas semanas. Os tempos, como sempre, eram determinados pelas meninas. Para nós só cabia choramingar “insiste em 0x0 e eu quero 1×1″. Transar com a namorada era um sonho acalentado por meses…

“Ora, direis, quanto atraso”. Quanta interdição para o livre fruir do desejo. Corpos fechados, proibidos, desejos cerceados. Frustração, cafonice, pecado, culpa. Ave Maria…

Hummm… há controvérsias. Para aqueles que supunham que nossa angústia era baseada nas interdições do corpo, na supressão da livre expressão sexual, a distensão foi frustrante. A facilidades abriram as portas do prazer às custas do sufocamento do gozo. Hoje ficar, beijar e transar são fáceis; no meu tempo eram conquistas de caráter épico. Naquele tempo era mais fácil “aprender japonês em braile” do que ela se decidir a dar.. ou não. A dificuldade nos fazia valorizar tais eventos de uma maneira que não vejo mais na descrição que os jovens fazem. Para nós qualquer decote, um vento sorrateiro levantando a saia plissada da escola e um primeiro beijo mereciam narrativas fantasiosas e ricas em detalhes. Hoje valem um post sonolento e banal no Instagram.

Eu sei, é papo de velho, mas para que mais serviriam os velhos senão para emprestar sua perspectiva de mundo e colocar as certezas de hoje em desafio? Se não é mais possível trancafiar os corpos como outrora resta-nos entender que sua abertura e o romper das amarras não nos livrou da angústia e nem nos levou ao Nirvana.

Ave Maria…

PS: Nem me dei conta do perigo de publicar esta crônica no contexto da abstinência sexual promovida pela ministra Damares. Mas, como eu mesmo disse, voltar a fechar os corpos é impossível. Se a aventura libertária do sexo não nos deu o paraíso imaginado, seu fechamento trará apenas drama, dor e culpa. A ideia de promover a abstinência entre os jovens nos dias de hoje é absurda do ponto de vista de saúde pública. A política desse governo se mostra insensata e moralista e apenas reproduz o culto à ignorância. A fantasia do retorno a um passado de “respeito” e “contenção” é um suicídio social e uma tragédia para a juventude.

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A ciência

Quem trabalhou como eu durante 40 anos em um ramo que se percebe científico, mas que funciona com os mesmos dogmas e sistemas de poder como qualquer igreja, entenderia mais facilmente minha crítica à ciência como expressão humana. Falo da ciência com “c” minúsculo, aquela construção humana, e não a “Ciência” abstrata, o conhecimento racional. A primeira é uma produção contemporânea, feita por mentes humanas e carregada com sua falibilidade e corrupção; já a segunda é o ideal racional, a ferramenta da transcendência humana, mas que quase nada existe no mundo real, sendo uma habitante do mundo das ideias.

Existem fatos inequívocos que mostram a veracidade dessa visão cética sobre a ciência. Estudos demonstram que metade das condutas médicas correntes não tem uma conexão com as evidências científicas. Outras pesquisas denunciam que que as próprias pesquisas – que deveriam dar suporte às condutas médicas – não são tão confiáveis como gostaríamos de acreditar. Veja aqui.

Por vezes parece que existe um totalitarismo dos cientistas, que seguem uma espécie de “ciência soviética”, a qual produz um monobloco de visões que se colocam na posição de saber acima de todos os demais, e que condena todos os outros saberes à extinção.

Isso torna a ciência a irmã dileta da religião…

Lembro de um encontro da UNIMED do Paraná em que fui convidado a falar sobre humanização do nascimento, um evento perdulário que se realiza todos os anos. No jantar fui colocado à mesa junto com uma psiquiatra que me falou: “Há muitos avanços na psiquiatria no mundo todo, mas nenhum maior do que a extinção de todo o resquício de pensamento freudiano. Hoje sabemos que tudo o que pensamos e sentimos se resume a alterações bioquímicas dentro do cérebro. Isso inclui dor, prazer e até o sabor dessa sobremesa“.

Fiquei esperando ela terminar dizendo “… e Fiel é o Senhor”, mas ela apenas sorriu com um olhar que apenas aqueles que falam de uma posição de certeza e fé inabalável possuem.

Quando trabalhamos dentro de um hospital ou de um laboratório é muito mais simples perceber de forma clara as incongruências e paradoxos do sistema. Da mesma forma, se você trabalhar na justiça verá que a mulher que segura a balança NUNCA está usando vendas e estará sempre com os olhos bem abertos para manter e garantir o poder para quem tradicionalmente o controla: as castas superiores que detém o domínio sobre os recursos e a produção.

E digo mais: quem trabalhou por muitos anos em traduções sabe que as traduções são realmente “traições” e não existe uma sequer que seja “isenta” ou “neutra”; sempre haverá a ideologia do tradutor na obra que traduz. A ideia positivista de uma tradução sem viés é tão ingênua quanto a de uma medicina ou uma justiça não ideológicas.

Por isso não é difícil dizer que na ciência não poderia ser diferente. O quê – e como – investigamos, assim como os próprios resultados que atingimos, são determinados pelas nossas ideologias e sustentadas pelos dois grandes pilares da civilização contemporânea: o capitalismo e o patriarcado. Ambos decadentes, mas ainda vigorosos o suficiente para ditarem as regras para o mundo em que vivemos. Enxergar a ciência pelo que ela verdadeiramente é, sem as fantasias de isenção ou neutralidade, não a diminui, mas a conduz à condição de criação social digna dos valores do seu tempo.

Perceber a complexidade da cultura é fundamental para não nos deixarmos engolir pelas visões ingênuas de imparcialidade que nos tentam impor. A decisão de passar um bisturi e rasgar a pele de um doente, ou de bater o martelo para condenar são produzidas no âmago de nossas convicções mais profundas, mais afetivas e menos racionais. Somos governados por nosso fígado, pelos nossos instintos menos nobres como medo, angústia e egoísmo, muito mais do que pela tênue camada de massa cinzenta que envolve nosso cérebro.

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Papa

Na boa… não precisa ficar dando sermão dizendo que o Francisco também é “humano” como cada um de nós. Não tem justificativa para o que ele fez. Está errado, e muito. Ele é exemplo para o mundo inteiro. Se fosse ele um cantor de Heavy Metal estaria errado, seria atacado por comentaristas de música e entretenimento do mundo todo, mas para um líder mundial que prega a “paz e a tolerância entre os povos”… nem se fala.

Sejamos francos: a atitude dele foi absurda, grosseira, violenta e injustificável. Quanto mais eu vejo a fúria nos seus olhos mais eu me assombro com o seu despreparo para a fama e a posição de líder espiritual de mais de 1 bilhão de pessoas. Mas, como sempre, tem gente passando pano, perdoando, chamando-o de “humano” e ressaltando que ele é o primeiro Papa que pediu desculpas publicamente, o que demonstra que quando gostamos e admiramos alguém TUDO pode ser perdoado e contextualizado, mas quando não gostamos até o mais banal dos deslizes passa a ser um pecado capital.

Não seria necessário bater na mão mulher. Os seguranças já estavam a postos. Quando explicamos que não se bate em criança ou que desprezamos a violência é DISSO que estamos falando. Quando falamos que agressões não educam é a esse tipo de ato que nos referimos. Quando dizemos que a violência nunca é a melhor resposta, ou quando lembramos de “dar a outra face”, é sobre este tipo de atitude.

Portanto, não precisa defender tanto o Papa porque até ele está envergonhado do péssimo exemplo que deu. E tem mais: ele já pediu desculpas e o reconhecimento do erro é essencial. Já vi textos por aí insinuando que ele se “machucou” com o puxão (??) e que a moça era uma “fanática”. Sério? Por segurar a mão do seu ídolo? Que absurdo.

Que o Papa aprenda essa lição e seja mais humilde. Aliás, por que não convidam esta senhora para um café com o Sumo Pontífice como um gesto de desculpas públicas?

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Consciência de Classe

Marx dizia que a identificação de classe de um sujeito é onde ele está, e não de onde veio. Para reconhecer-se como originário de uma classe à qual não mais pertence é necessário um esforço que só se produz com uma enorme dose de humildade. Tenho conhecidos próximos cuja origem é muito simples, próxima até da pobreza, mas suas habilidades, talentos e uma boa dose de ajuda externa os fizeram subir na escala social. Em sua história pessoal nota-se uma mistura de aspirações, capacidades e privilégios ocultos que produziram a potencialização de suas chances de sucesso.

Hoje são sujeitos de classe média alta, com curso superior e viajam pelo mundo inteiro. Não são ricos, pois essa classe dificilmente permite intrusos. Todavia, apesar da origem cercada de muitas necessidades, ostentam um olhar aristocrático, um desprezo pelo Brazil, uma visão superior e um rechaço à toda e qualquer iniciativa de equidade social. Odeiam o PT e as “esmolas” oferecidas em nome da distribuição de renda. As esquerdas são, para eles, antros de fracassados e invejosos. “Façam como eu“, dizem eles, sem reconhecer a imensa ajuda que obtiveram de circunstâncias e pessoas diversas em suas vidas, ajudando-os, assim, a alcançar e usufruir do estrato social em que se encontram.

Muitos são o espelho fiel do “oprimido que se identifica com o opressor“, a velha história do sujeito que, ao alcançar o tão sonhado sucesso, esquece sua origem, seu sotaque, suas histórias, sua família, sua vila e sua memória. “Eu venci, e tudo isso devo apenas a mim”.

Isso me faz lembrar a antiga piada do anglófilo brasileiro, cujo sonho era ser um perfeito britânico e morar em Londres. Depois de uma vida inteira estudando o idioma, os dialetos londrinos, a culinária, sua história e geografia, visita a cidade pela primeira vez. Deslumbrado com o cenário, sai à rua vestindo um casaco de tweed, uma calça de lã, um chapéu anos 40 e assim desfila pelas calçadas próximas de Picadilly Circus. Depois desse mergulho no coração da capital do Império Britânico resolve voltar ao hotel e gesticula para um táxi, um black cab, modelo Austin FX4, pintado de preto e levemente azulado, característico de Londres.

Qual não foi sua surpresa quando, ao entrar no carro, o motorista volta o pescoço para trás e comenta:

– Fala patrício!! Deixa eu adivinhar… paulista? Mineiro? Ou será catarina? Gaúcho talvez? Deixa ver…. gremista ou colorado?

Estupefato e desapontado, nosso herói exclama:

Bloody hell, my dear!!! Como você descobriu que eu era brasileiro antes mesmo de falar qualquer coisa??? For God’s sake!!! How disappointing…

O motorista “brazuca” dá uma risada e diz:

– Olha, veja bem… o chapéu está ótimo, o guarda chuva perfeito, o casaco trespassado de tweed muito chique, a gravata, o lenço branco no bolso, tudo maravilhoso, mas….. aquela coçadinha no saco parado na esquina revelou na hora qual o seu verdadeiro CEP…

Para os meus amigos, novos ricos e esnobes, que debocham das lutas sociais e desprezam sua origem humilde, a coçadinha no saco é a falta de consciência de classe. Ela é a marca mais persistente de subdesenvolvimento…

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Benevolência

Ainda sobre as iniciativas pessoais para a ajuda aos necessitados…

Peço apenas cuidado com a exaltação (justa) de pessoas que ocupam o lugar que deveria ser do Estado democrático. Esta veneração ao sujeito bom e ao “herói” contemporâneo pode nos dar a entender que a solução para os desdentados, os famintos, os necessitados, os doentes e os pobres é a multiplicação de pessoas que usam seu tempo livre para fazer o que deveria ser feito pelos governos. O mesmo olhar reservado devemos lançar à benevolência dos bilionários que ajudam os necessitados com cestas básicas, atendimentos à saúde ou presentes de qualquer tipo.

Sim, é bom e bonito no varejo, mas cobra um preço muito alto no atacado. Tais ações insinuam ser correto colocar os deveres do Estado como “dádivas” de quem tem tempo e dinheiro para fazer caridade. Ao exaltar estas iniciativas colocamos dentes, comida, saúde, habitação, moradia e outras garantias da civilização como graças recebidas, e não como direitos que todos temos, pelos quais cabe luta e empenho pela sua universalização.

Temos vários exemplos disso que nos chegam pelos jornais diariamente, mas o resultado é sempre o mesmo: valorizamos o ato de benevolência e esquecemos suas raízes – a pobreza – e as repercussões em médio e longo prazo: colocar as obrigações do Estado como dádivas oferecidas por “anjos” com tempo e dinheiro para fazer tais ofertas, muitos até fazendo estas doações movidos por interesses menos nobres, como publicidade pessoal.

Se é justo aplaudir quem se dedica ao próximo mais importante ainda é cobrar do Estado que cumpra sua função de diminuir o sofrimento dos desassistidos e lutar por uma verdadeira justiça social.

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Hipocrisia capitalista

Ontem mesmo vi uma peça publicitária com o empresário, símbolo do bolsonarismo, Luciano Hang – o Véio da Havan – vestido de Papai Noel, o bonzinho do Natal. Sim, o mesmo personagem macabro que alguns dias antes debochou das necessidades das pessoas com deficiência; o mesmo condenado por fraude fiscal, o mesmo que desprezou as universidades públicas e aquele empresário que mais apoia o fascista autoritário e corrupto na presidência.

Claro que era um Papai Noel vestido de azul, pois se trata de uma propaganda anti comunista – aqui entendido como qualquer projeto de justiça social que afete a liberdade de enriquecer às custas do trabalho alheio.

As crianças – e alguns adultos – vividamente se emocionaram com os presentes oferecidos pelo personagem que o empresário encarna uma vez ao ano. Na verdade, este tipo de encenação não é nenhuma novidade. No início do século passado John D. Rockefeller – o mais rico e ganancioso dos capitalistas que já habitaram esse planeta – costumava caminhar pelas ruas com os bolsos cheio de “dimes” e distribuía para as crianças que o seguiam famintas pelas ruas. O Véio da Havan apenas repete o mesmo modelo de criação de imagem que os publicitários conhecem bem. Ora… se é possível transformar Bolsonaro em algo vendável para ganhar milhões de votos, mais fácil seria transformar um sonegador em um sujeito de bom coração.

Esse é o tipo de hipocrisia mais comum no capitalismo. Um empresário sonegador (como este) distribuindo balinhas, moedas e presentinhos para os pobres nada mais faz do que tentar se livrar de suas imensas culpas – conscientes e inconscientes. Mais condenável ainda é o uso da caridade para fazer propaganda de seu negócio, oferecendo alívio para pessoas sem qualquer consciência de classe e sem energia para lutar por uma distribuição mais justa de renda.

Precisamos mesmo disso ainda??

Não é tempo de recusarmos essa farsa de benemerência produzida por sonegadores desrespeitosos? Já não está na hora de vermos com mais profundidade a perversidade na estrutura social (tributária, em especial) que produz sujeitos como esse? Por quanto tempo ainda vamos aceitar o empresário ganancioso e desonesto que uma vez por ano distribui as migalhas dos seus lucros como propaganda, vestindo uma roupa de “bom velhinho” enquanto continua a saquear nossa economia?

Não será surpresa se o dono da casa de prostituição Bahamas, em São Paulo, também venha a vestir uma roupinha de anjo para seu negócio ser aceito por todos.

Eu realmente acredito que a produção de bilionários é uma patologia. A opulência imoral concentradora de renda produz uma visão de mundo deturpada por parte da elite. Não se trata de entender os bilionários como “pessoas iguais a nós, mas com dinheiro” – como erradamente afirmava Hemingway – mas pelo entendimento da degenerescência moral produzida pelo dinheiro sem limite, onde até as pessoas são tornadas objetos que podem ser comprados, usados e descartados segundo a conveniência de um bilionário.

Desta forma, mais do que eliminar a doença da iniquidade, é fundamental criar barreiras contra o surgimento de sujeitos cuja concentração de poder (dinheiro) ameaça a democracia e impede a plena autonomia dos povos.

Os bilionários são entraves ao sonho de uma irmandade planetária. Parasitas, sanguessugas e vampiros da riqueza dos povos.

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