Arquivo da categoria: Pensamentos

Sobre as perseguições

A verdade é que os homens sempre foram perseguidos pelo seu conhecimento, suas ideias e descobertas. Grandes nomes como Freud, Marx, Nietzsche, Giordano, Galilei etc. sofreram pela qualidade e profundidade da sua obra e pela ameaça que instituíram aos poderes constituídos. A diferença sobre as mulheres é que, para elas, o conhecimento em si, já seria ameaçante a despeito ou inobstante sua qualidade. Mulheres no comando significariam um “enfraquecimento” da sociedade, de acordo com a forma de domínio do patriarcado. Por isso é que as bruxas eram sacrificadas, curandeiras e parteiras perseguidas, pois representavam a exaltação de um “poder feminino”, que para o patriarcado parecia degradante e perigoso.

Isso é, para os homens era necessário que seu conhecimento fosse uma real ameaça ao sistema dominante, seja com Freud ao desbancar a razão como norteadora das ações, seja com Galilei ao afrontar a igreja ao questionar o geocentrismo ou com Darwin ao estabelecer o homem como tão somente mais um participante da vasta natureza, e não o ápice da criação. O conhecimento só poderia ser aceito se validasse o modelo hegemônico; caso se opusesse seria atacado, assim como seu mensageiro.

Já para as mulheres bastaria sua condição feminina para que fossem atacadas. Uma mulher inteligente e racional agride o patriarcado pois que oferece uma prova de que sua essência não é apenas como parideira, e que às mulheres podem ser reservados outros lugares que não apenas os de matriz. Por isso creio que mulheres foram atacadas durante toda a história como os homens o foram. Todavia, apenas elas foram atacadas por sua condição de mulher, exatamente porque o modelo social não admitiria uma reversão dos papéis a elas impostos.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Partos e Obras

Há alguns anos o empreiteiro que construiu minha casa pediu que eu comprasse uma substância para passar no madeirame do telhado. “Quantos galões?“, perguntei eu. Ele coçou a cabeça, calculou mentalmente e respondeu: “Seis serão suficientes“. Saiu caro, mas comprei conforme sua indicação.

Muitos anos depois fiz uma reforma na casa e perguntei se precisaria comprar de novo aquela substância. O pedreiro que estava me acompanhando na época respondeu que sim, seria conveniente. Perguntei mais uma vez a quantidade, e ele respondeu sem titubear: “Um galão dá e sobra para tudo isso aqui“. Meu antigo empreiteiro usou o produto que comprei para a minha casa e mais cinco outras…

O mestre de obra que está à frente da reforma da Escola da Comuna me diz: “Precisa comprar mais canos, porque com a vazão da água do telhado, a drenagem…” e tudo que eu escuto é “Precisa uma cesariana porque o batimento e a posição do bebê…“

A realidade é que ficamos inexoravelmente nas mãos dos especialistas. Não apenas porque sabem mais e conhecem as técnicas e as “manhas”, mas por terem o “conhecimento autoritativo” aquele que lhes garante o reconhecimento social e a responsabilidade de fazer e acontecer.

A qualidade técnica é essencial, não há dúvida sobre isso. O estudo, o aprimoramento, a sede pelos novos conhecimentos, o capricho, o detalhe e a delicadeza são primordiais. Entretanto, todos estes valores sucumbem rapidamente diante de sua base de sustentação: os valores éticos de uma profissão.

No meu tempo de estudante era comum dizerem: “Dr Fulano é um cavalo, um animal vestido, mas é um ótimo cirurgião.” Nunca acreditei nessa tese. O Dr Fulano dominava técnicas manuais e tinha experiência como operador, mas carecia dos elementos fundamentais que configuram um bom profissional: a conexão visceral com os preceitos éticos de beneficência e da não maleficência. Muitos são técnicos; operadores e prescritores de drogas, mas não são médicos na verdadeira extensão dessa função social.

Antes de escolher o mestre que levará adiante o sonho de uma escola de comunidade é importante conhecer o sujeito dentro do profissional, para poder confiar que suas decisões serão tomadas tendo a ética como norte. Para escolher alguém que estará tomando decisões sérias e delicadas diante do mais espetacular e decisivo evento de uma família – o nascimento de seus filhos – é essencial que se conheçam os profissionais e as vinculações éticas que estabelecem com o próprio trabalho.

Sem isso serão tão somente técnicos sem o brilho que se espera de alguém que será testemunha de uma revolução emocional e espiritual de tamanha amplitude.

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Pensamentos

Patriarcado

TODAS as religiões abrahâmicas (judaísmo, cristianismo e islamismo), surgidas da mesma fonte na Palestina, foram criadas para espelhar o PATRIARCADO nascente. Por isso mesmo o Deus era homem, guerreiro, duro, inexorável e cruel; não por acaso chamado de “O Senhor dos Exércitos”. Isto é: as religiões CRIARAM um Deus homem para refletir a mudança substancial na estrutura da sociedade, que passou a ser marcadamente patriarcal, falocêntrica, baseada nos valores do masculino, na invasão, na conquista e – acima de tudo – na proteção da propriedade e das identidades. Veja como as deusas da antiguidade foram todas suprimidas e deixadas de lado para que o Deus masculino e fálico fosse colocado no posto máximo entre as divindades. Leia “As Brumas de Avalon”, por exemplo, para ver o destino das deidades femininas.

O patriarcado, para se impor como a estrutura básica da sociedade, precisava se apoderar de todos os símbolos e mitos, e assim o fez.Desta forma, jamais seria possível criar um modelo patriarcal – para defesa dos territórios, surgidos com a agricultura e a pecuária – e fazer com que a divindade superior fosse uma mulher!! Precisava ser homem, pois só assim seria temido e exaltado pelos exércitos. Ele seria a imagem mais fiel do espírito dos guerreiros e – num mundo agora patriarcal – era necessário que esse Deus mimetizasse os valores dos líderes humanos que guiariam seus povos. O patriarcado se espalhou desta forma pelo planeta inteiro exatamente porque produzia uma sociedade forte e bem protegida. Hoje pode ser questionado, mas há 10 mil anos pensar diferente significava a aniquilação.

Ao dizer que, uma sociedade que elege uma Deusa como figura máxima JAMAIS poderia ser patriarcal, digo apenas que o sistema de domínio seria “matriarcal”. Teríamos uma cultura invertida, nem pior e nem melhor do que a que temos hoje, e talvez nesse mundo imaginário os homens é que deveriam ser protegidos de um “matriarcado opressor”.

Quem acredita que as mulheres são MORALMENTE superiores, ou estão espiritualmente acima dos homens é tão sexista como o pior dos machistas, e só não está matando e estuprando por falta de coragem ou força. Como já foi escrito de diversas formas e em inúmeras línguas, “feminismo é busca por equidade, e não por supremacia”.

Quem acredita nisso – que homens e mulheres são intelectualmente e moralmente iguais em essência – deveria entender as coisas simples expressadas acima. Colocar um gênero abaixo OU ACIMA de outro é tão asqueroso quanto colocar uma raça, uma religião ou uma orientação sexual acima ou abaixo das demais. Sexismos e racismo são filhos do mesmo pai: o preconceito.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Política, Violência

Cadetes

Hoje vi pessoas reclamando das regras das escolas cívico-militares como se esses regramento pudesse ser entendido desvinculado do todo. “Qual o problema do cabelo comprido?“, perguntam. “Afinal, por que as saias abaixo dos joelhos?“, dizem sem entender.

Minha resposta é simples: praticamente nenhum problema com cabelos ou saias. Para estes sujeitos o cabelo ou o comprimento da saia tem pouca importância. Os cabelos poderiam ser todos compridos e encaracolados até. Não é essa a questão. O que se busca com estas medidas é a UNIFORMIZAÇÃO. Todo mundo igual. Mesmo cabelo, mesma roupa, sem maquiagem, adereços ou qualquer sinal externo que denuncie a subjetividade, ou que permita ver a alma única que habita aquele corpo.

É pelas mesmas razões que soldados, clérigos, prisioneiros e gestantes se uniformizam: para que possam ser tratados pela sua FUNÇÃO, e não pelo que realmente são. O nosso sistema educacional procura como elemento primordial de sua ação a domesticação dos alunos, a sua conformação às regras e normas, mesmo que para isso seja necessário fragilizar seu espírito inventivo e sua criatividade.

As escolas cívico-militares funcionam na lógica militar, onde se ensina a obedecer cegamente – e jamais questionar!! – as hierarquias artificialmente construídas por uma sociedade de castas. Com estes fortes sinais semióticos, como o cabelo igual, roupas idênticas e obediência servil às figuras de autoridade, se almeja a doutrinação de crianças para a produção de “cidadãos de bem” – ou seja, sujeitos que perderam a capacidade de questionar as injustiças e se satisfazem com migalhas de dignidade.

Cortar os cabelos funciona da mesma forma como funcionam as roupas comuns retiradas das gestantes, ou a forma como as tratamos. Servem como uma potente mensagem de submissão à ordem estabelecida. Aceitar isso muitas vezes é empurrar a primeira peça do dominó…

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Política

Verdades

Não existe “verdade ou mentira. Aliás, não existem sequer fatos, apenas perspectivas. A “verdade” é uma ficção contada por quem controla a narrativa, por aqueles que detém o discurso hegemônico.

Verdade e mentira se inserem nessa luta pelo discurso autoritativo, e não podem ser analisados de forma positiva. Sempre existirá uma disputa por narrativas, pois que essa é a essência humana. Já a verdade é uma construção coletiva que depende de poder e persuasão para estabelecer hegemonias. A construção da “verdade” nunca é solitária e pessoal, mas uma construção de uma coletividade. Você pode ter sua opinião pessoal e seu viés, mas não pode produzir seus próprios fatos. A disputa por versões da realidade é inalienável do humano. As muitas versões construídas sobre qualquer tema estabelecem uma disputa entre perspectivas e julgamentos. Vence a versão mais poderosa, mesmo quando falsa.

É óbvio que nosso ego sempre cultivará a ilusão de tudo saber, basta escutar qualquer sujeito falando de suas perspectivas Entretanto, a “verdade” não é uma construção subjetiva ou pessoal; ela se constrói socialmente nos choques paradigmáticos tão bem descritos por Thomas Kuhn em sua obra “A Estrutura das Revoluções Científicas”.

Por isso a verdade contemporânea é de que a terra é esférica, mesmo que visões pessoais a tratem como plana. Não esqueça que o terraplanismo já foi a vertente hegemônica de saber sobre a forma da terra!!!

Assim como no modelo darwiniano de sobrevivência das espécies, a sobrevivência das ideias também obedece as mesmas regras. Não são os mais fortes ou os “corretos” que sobrevivem na natureza, mas os mais adaptados. Mutatis mutandis, algumas ideias toscas – e inclusive comprovadamente falsas – sobrevivem pela sua maleabilidade e pelos poderes e interesses que a sustentam.

O capitalismo é apenas uma dessas ideias que sobrevivem pela força e pelo poder de quem o mantém, mesmo dando sinais inequívocos de decadência e incapacidade de solucionar os graves entraves do planeta.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Abolicionismo

*Bota na cadeia e joga fora a chave!!!*

Peço humildemente que pensem um pouco sobre o uso dessa retórica para se referir às personalidades das quais discordamos no cenário atual. Creio que é importante que troquemos esse discurso agressivo de exigir a prisão dos nossos adversários. Não importa quem sejam; ninguém precisa ir para a prisão e perder seu bem mais valioso: a liberdade. Nenhum criminoso se cura numa prisão e a sociedade não melhora quanto mais construímos cadeias e presídios. Presídios são como avenidas: abri-las não melhora o tráfego, pois convida mais motoristas a dirigir por elas. Presídios apenas produzem a reciclagem de criminosos, produtos inexoráveis de uma sociedade intrinsecamente injusta.

Vamos deixar de lado por um breve instante os assassinos cruéis e os perversos, que são muito menos do que 0.1% dos prisioneiros, e focar na grande massa de apenados que lá estão pelo apartheid social e racial do nosso planeta. Sobre estes sujeitos – cujo afeto foi destruído por vivências precoces catastróficas – precisamos descobrir alternativas que não se choquem com os direitos humanos, mas que protejam a sociedade. Mandar “prender, matar e arrebentar” é o discurso de personagens como Moro e Dalanhol e de boa parte da blogosfera nazifascista. É o discurso fascista travestido de “justiça depurativa”. Essa é a fala da direita punitivista – botar os maus na cadeia para sobrarem apenas os “cidadãos de bem” – invariavelmente brancos e de classe média. Nós da esquerda progressista precisamos oferecer uma alternativa humanista, solidária e compreensiva melhor do que esta.

E isso não tem NADA a ver com abdicar da necessária indignação com o estado de coisas contemporâneo!!! Se me permitem a audácia, peço que comecemos a nos expressar de uma forma mais justa e em sintonia com nossa visão de mundo. Precisamos exigir que as pessoas que destroem nosso país “sejam responsabilizadas“, que “paguem pelo seu erro“, ou que “ofereçam o devido ressarcimento à sociedade pelo mal que fizeram“, mas sem continuar incluindo em nosso discurso os métodos desumanos e medievais que não representam os ideais de solidariedade e fraternidade que trazemos ao debate com nossas propostas e ideias. Não se associar ao discurso malévolo da direita fascista e dos punitivistas racistas é uma ferramenta fundamental para mudar a narrativa de forma global e, assim, mostrar o quanto a violência gera apenas mais violência e não nos oferece nenhuma solução para os dilemas sociais. Uma sociedade sem prisões é uma utopia da esquerda – solidária, humana e justa. Cabe a nós devolvermos toda essa violência com uma postura superior e acolhedora.

Abolicionismo penal já!!
Por um mundo SEM prisões!!

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Política, Violência

Selvageria

Creio que um bom terapeuta jamais procura “segundas intenções” ou o “sentido oculto das coisas” em seus pacientes. Não por virtude, mas porque percebe a inutilidade dessa busca.

Primeiro, porque TODAS as ações tem intenções outras, para além de sua operacionalidade superficial. Porém, a simples procura por sua raiz é uma busca estéril. A descoberta das razões para o comportamento aberrante ou aparentemente paradoxal de um analisando não possui nenhuma utilidade, a não ser que ele próprio descubra – e por si mesmo – os truques dessa engenharia mental inconsciente. Interpretar e jogar por sobre o paciente essas elucubrações com base em teorias psíquicas não passa de “análise selvagem” – ou pura crueldade arrogante. O sentido “oculto” das coisas não deve jamais ser uma busca para o terapeuta, mas um guia para o paciente. Pouco importa ao psicólogo “descobrir” que o ódio pela ex mulher encobre uma atração residual ou uma relação que teima em sobreviver através do rancor. Só haverá sentido se o paciente encontra as vias para enxergar POR SI PRÓPRIO esta realidade.

A pergunta é: interpretar para quê? De que nos valeria chegar no consultório de um psicólogo e antes mesmo de sentarmos ele dizer: “Seus problemas estão relacionados às sobras de um triângulo amoroso que se estabeleceu na aurora de sua vida, o qual forma a estrutura de sua sujeição à linguagem: você, sua mãe e alguém além dela. Pronto, pode se levantar. Interpretei seu drama existencial e cheguei ao âmago de suas angústias mais primitivas.”

Muito bem interpretado e, no meu modesto ver, até correto. Mas é daí? Que valor há numa descoberta cujo caminho doloroso não foi trilhado pelo sujeito? De que servem essas palavras corretas, justas e estéreis?

Para mim a interpretação de um nó psíquico é como Santiago de Compostela. Como cidade… bem, já vi melhores. Mas se você chegou lá caminhando 850 km com seus próprios pés então essa cidade tem um sentido único, e que pode ser transformador.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina, Pensamentos

Generosidade do Saber

Foucault confessou que escrevia de forma rebuscada e hermética para poder ser aceito pela intelectualidade. Dizia ele que, se ousasse escrever de forma simples e compreensível, seria tratado como um autor raso, superficial e “popular”. Uma pena que ainda exista na academia esta propensão ao pernosticismo, a busca por uma falsa sofisticação nas palavras, mas que tão somente esconde a incapacidade dos autores de comunicarem suas ideias de forma a que os outros, meros mortais, possam entender.

Aliás, Freud – entre outros – é um exemplo de pensador que possui como virtude a “generosidade do saber”, que é quando um autor se coloca no lugar do leitor e tenta explicar suas ideias e projetos como se este estivesse escutando tais conceitos pela primeira vez. Sua clareza e sua didática sempre me impressionaram. Essa empatia é essencial para transformar um sujeito de grandes propostas em alguém que pode transformar o mundo através da disseminação do seu conhecimento.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Lacrar

A internet – e mais especificamente as mídias sociais – criaram o termo “lacração” e disseminaram o seu uso. É curioso que este termo muitas vezes é mal utilizado, dando a entender que a “lacração” se refere a um argumento tão bem utilizado, e que explica um determinado fenômeno de maneira tão completa, que é capaz de “lacrar”, fechar, terminar, colocar um ponto final, já que depois do que foi dito nada mais poderia ser acrescentado. Finis est…

Na verdade a “lacração” se refere a outro fenômeno muito mais complexo. Argumentos taxativos, brilhantes, completos e definitivos – se quisermos acreditar que isso existe – são apresentados desde o início da linguagem. Org teria dito para Uth, numa caverna há 40 mil anos: “Se você acredita que soprar é a magia está enganado. A magia está no atrito dos pauzinhos, seu otário“. Um argumento excelente, que podia inclusive ser demonstrado experimentalmente. Ele “lacrou”?

Não, porque “lacrar” não está relacionado à justeza do seu argumento, sua abrangência, sua lógica ou seu encadeamento de ideias. Também não está relacionado à sua qualidade argumentativa e nem às suas virtudes de convencimento.

Na verdade, a “lacração” está relacionada à plateia. É um jogo de cena, onde seus ouvintes, leitores ou telespectadores fazem parte do argumento. O sucesso de suas ideias depende do entusiasmo de quem as escutou. Uma ironia, um escárnio, um deboche ou uma resposta provocativa “lacram”, porque a plateia delira ao ver seu ídolo fazendo sucesso com sua fala.

No território das mídias sociais, onde as pessoas se escondem atrás de telas, a possibilidade de um debate centrado nas ideias se tornou cada dia mais difícil. Mais do que apresentar boas ideias, você precisa ser alguém que galvanize a simpatia de um número cada vez maior de fãs e simpatizantes, posto que a “lacração” dependerá disso, e não de seus argumentos e posturas. Isso acabou gerando um personagem novo: “o mendigo de likes“, pois que ele sabe que só poderá “lacrar” se tiver um grupo enorme de pessoas a lhe oferecer suporte e apoio.

Todavia, eu acho que esta fase vai passar. A “lacração” já é um fenômeno decadente e começa aos poucos a ser sinônimo de “argumento frágil e demagógico”. Sou um otimista….

Lacrei? Não….

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Teta

Vi há pouco o vídeo da movimentação da língua de um bebê recém-nascido dormindo, simulando os movimentos da amamentação. Minha observação foi:

“Sonhando com teta, um sonho que vai acompanhá-lo por toda a vida”.

A ideia por trás desta observação é de que nesses estratos primitivos pré-verbais é que se alicerça a sexualidade humana. Nessa fase, chamada de “fase oral”, a boca é a grande ferramenta de prazer sexual. Só bem depois, passada a longa infância humana e com a lenta maturação sexual, encontraremos prazer genital, o qual será fundamental para a vida adulta e a reprodução.

Entretanto, as marcas da oralidade manterão resquícios por toda a vida. Arrisco dizer que o beijo é a característica de expressão afetiva mais saliente nas culturas exatamente porque carrega as memórias prazerosas da amamentação. Não fosse por isso – nossa oralidade e a ligação ao seio como fonte de prazer – e teríamos uma humanidade sem bitocas, selinhos ou beijos “desentope-pia“.

É evidente que a amamentação carrega essa carga enorme de erotismo o qual vai entrelaçar de forma amorosa mãe e bebê. “Se amor existe, este é o sentimento de uma mãe pelo seu filho e todos os outros amores são dele derivados“, diria o mestre Freud. É ali na imbricação de mútuos prazeres que uma mãe cumpre seu mais alto fim: ensinar seu filho a amar. Não resta mais muita dúvida sobre esta questão.

Também é óbvio que na mente da criança haverá marcas indeléveis desse período. A fixação ancestral dos humanos pelos seios produziu um fenômeno único entre os mamíferos: as mulheres humanas são os únicos primatas que mantém a turgidez das mamas fora do período de amamentação. Olhe uma fêmea chimpanzé, gorila ou orangotango e se pergunte: “onde estão as mamas?“

Ora… do ponto de vista evolutivo as mamas das fêmeas humanas se mantiveram grandes e túrgidas pelo forte apelo atrativo e sexual que desempenham na nossa espécie. Foi um processo seletivo que ocorreu nos últimos milhões de anos. No Museu de história natural de Nova York, Lucy (australopitecus afarensis) é retratada com as mamas murchinhas, dando a entender que a mama como objeto de desejo ainda custaria a aparecer. Quando então começou essa transformação? Homo erectus? Homo rudolphensis? Ou junto com a razão – no Homo sapiens sapiens?

Por isso podemos apostar na ideia de que o sonho dourado desse bebê vai se manter em sua mente por toda a vida. Essa experiência primitiva de prazer vai acompanhá-lo, mesmo que não perceba. A estética graciosa, redonda, macia e voluptuosa das mamas permanecerá como ícone máximo do prazer.

As mamas, no imaginário humano – em especial no Édipo masculino – vão nos seguir, guiando nossas escolhas, direcionando nossos olhares e construindo nossos sonhos – nem que venham disfarçadas, como balões, flores gigantes e até bolas de futebol (as gorduchinhas).

Pois bastou tocar com essa singela frase na questão da eroticidade da amamentação para – de novo – aparecerem ataques no sentido de questionar a “erotização das mamas”. Ataques, como sempre, violentos.

Claro… mea culpa, mea maxima culpa, respondi de forma exagerada aos ataques. Peço perdão por isso. Entretanto, sempre me assombro com a onda puritana da geração atual. A mera menção do desejo relacionado à amamentação faz com que essas pessoas reajam com ferocidade. A simples ideia de que homens (e mulheres) venerem as mamas como sublime objeto de desejo deixa furiosas(os) as(os) jovens ativistas.

Suspeito que o problema é desnudar a própria existência deste desejo e trazer à tona um gozo escondido, recôndito e dissimulado. O que emerge com tanta voluptuosidade é a denegação do prazer que brota quando se amamenta em liberdade.

Aos envolvidos minhas sinceras desculpas.

1 comentário

Arquivado em Ativismo, Parto, Pensamentos