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Zanin

Zanin fez votos técnicos e votos conservadores. Não há dúvida que os votos podem ser criticados sem pudor, pois desgostar das suas decisões não é absurdo. Absurdo mesmo é achar que Lula escolheria um Ministro do STF apenas por vaidade ou para marcar uma vitória simbólica contra Moro. Todavia, creio que julgar Zanin pelos votos dados até agora é excesso, ou vontade de atacar as escolhas de Lula.

É claro que Lula pode errar, e por certo que já cometeu erros nas suas indicações para o STF. Toffoli é o melhor exemplo. Apenas lembrem que os ministros mais progressistas são também lavajatistas, como Facchin e Barroso. Vale a pena ter um ministro “woke” que não respeita a constituição e promove golpes por ação ou inação?

Talvez o objetivo de Lula seja colocar um ministro no qual tenha profunda confiança, e que jamais participaria de uma farsa como o impeachment de Dilma e a prisão ilegal de Lula, mesmo ao preço de ter uma postura por vezes conservadora.

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John & Julian em Ithaka

O poema “Ithaka” de Constantine Cavafy, foi escrito no início do século passado, em 1911, e oferece a perspectiva de que deve haver, em nossas ações cotidianas, a supremacia da viagem sobre o destino. Ithaka simboliza o objetivo supremo que todo sujeito procura durante sua existência. Cavafy faz uma alusão à lendária viagem de retorno de Ulisses, rei da ilha de Ithaka, onde sua esposa Penélope e seu cão Argos o esperavam após a vitória dos gregos sobre os troianos – que Homero retratou em “A Odisseia”. O poema se refere ao percurso pessoal e subjetivo que cada um de nós empreende durante sua vida e sugere que procuremos encontrar durante a permanência na Terra nossa própria Ithaka, o objetivo supremo, que é uma forma de garantir sentido à nossa trajetória pelo planeta. O poema de Constantine, um grego radicado na Inglaterra, ficou tão conhecido que foi recitado no funeral da ex-primeira dama americana Jacqueline Kennedy Onassis.

Ithaka (e mantenho aqui a grafia original) é também o nome do documentário recentemente lançado que trata da relação de John Shipton com seu filho famoso, Julian Assange, preso da penitenciária londrina de Belmarsh, onde aguarda sentença de deportação para os Estados Unidos. O filme teve sua apresentação pública ontem na minha cidade e contou com a presença de John Shipton, personagem central do filme, e aborda as peripécias deste australiano de 76 anos que lidera no mundo inteiro uma campanha para a libertação do seu filho, editor chefe do Wikileaks, que denunciou os crimes de guerra dos Estados Unidos no Afeganistão, Iraque e na prisão de Guantánamo no Caribe. Mostra os detalhes da sua vida comum, seu temperamento taciturno e reservado, a relação com os filhos e as conversas com a nora Stella Morris, mãe dos dois filhos de Julian.

Evidentemente existem várias formas de ver este documentário, dependendo da ótica que você escolhe para captar as imagens na tela à sua frente. A mais evidente maneira é olhar para a luta empreendida pelos ativistas do mundo todo pela liberdade de imprensa, pelo direito de expor os crimes contra a humanidade cometidos pelos poderosos, em especial aqueles que controlam as leis, a mídia, a propaganda, as reservas de recursos naturais, os territórios e o comércio. O filme aborda isso de uma maneira bem clara, mostrando que nenhuma acusação contra Julian sobrevive a uma análise baseada nas leis de proteção das fontes e da liberdade de imprensa – em especial as leis americanas. Fica evidente que a prisão de Julian Assange cumpre um objetivo claro: humilhar publicamente alguém que denunciou a barbárie do imperialismo, castigando ao extremo aquele que ousou enfrentar os poderes imperiais e dando um recado a toda a imprensa mundial: não há espaço para criticar os poderes da polícia do planeta; quem assim o fizer será submetido à todas as sanções possíveis, perseguições, ataques, destruição da honra, mentiras e – se for possível – a própria morte. Em verdade, a tortura realizada contra Julian Assange pretende condená-lo à pior morte: a loucura e/ou a depressão pelo isolamento e pelo absurdo das acusações às quais é submetido. Como o personagem Josef K., de Kafka, os supostos crimes cometidos são o que menos importa; o que vale é punir por razões aleatórias e fabricadas qualquer sujeito que ameace os interesses americanos. O “lawfare” contra Lula mostrou em nível local o quanto os interesses geopolíticos de dominação conjugados com a corrupção do judiciário são capazes de servir aos mais espúrios interesses do imperialismo.

Outra forma de ver o documentário é pela exposição da fragilidade crescente dos governos europeus, absolutamente controlados pela política externa americana, não apenas nos aspectos políticos e bélicos (a guerra contra a Ucrânia é um claro exemplo) mas também o poder que a máquina publicitária americana exerce sobre a opinião pública e o próprio judiciário. Fica evidente o quanto os juízes britânicos são meros marionetes comandados pela mão pesada dos americanos, que são quem está de fato julgando este caso, a partir da sua visão persecutória e imperialista. Não há qualquer autonomia para julgar Assange – tanto quanto não havia para os juízes do Iraque ocupado para julgar Sadam Hussein – o que nos demonstra que a tão propalada “liberdade” dos países do “primeiro mundo” nada mais é que uma peça de propaganda, uma mentira mil vezes contada, que apenas serviu para criar a fantasia do ocidente como um espaço de liberdade de expressão e de abertura política. Estas farsas, esses simulacros de democracia, estão sendo aos pouco desvelados e Julian Assange está recebendo esta cruel punição exatamente por se postar na linha de frente nas denúncias, apontando seus dedos para os crimes hediondos cometidos pelos Estados Unidos nas guerras em que se envolveram.

Porém, há uma outra forma de ver o filme, provavelmente a mesma que inspirou John e seu filho Gabriel (meio irmão de Julian) para colocar no documentário o nome de “Ithaka”. O personagem central da película é John Shipton e bem no princípio do filme ele se irrita quando questionado sobre o que o levou a ficar separado do seu filho dos 3 aos 20 anos. Certamente tem a ver com a separação da mãe de Julian, mas isso não fica claro. Ficou incomodado quando foi perguntado sobre o diagnóstico de Asperger que seu filho Julian tem, dizendo “ele é o que ele é”. John Shipton demonstra durante todo o documentário que é um sujeito pacato, nascido na Austrália, sem vinculações políticas explícitas, com um caráter evidente de misantropia bem humorada, reservado, quieto, pouco afeito a conversas e arredio à publicidade e aos jornalistas. Ele é um dos mais perfeitos exemplos de um sujeito jogado involuntariamente – e totalmente despreparado – no olho de um furacão que está envolvendo os próprios princípios democráticos mais basilares da cultura ocidental: a liberdade de imprensa e o direito de denunciar os crimes cometidos pelo Estado – e pelo Império.

John é a verdadeira personificação do sujeito anônimo que subitamente ganhou notoriedade internacional. No seu caso isto ocorreu pela prisão criminosa de seu filho, o que fez um pacato “Zé Ninguém” de mais de 70 anos ser alçado ao posto de herói por multidões. No meio do filme ele diz a frase que mais me tocou, e tenho certeza que muitos que viram o filme também sentiram a mesma emoção que eu naquela simples resposta a um jornalista, a qual continha o cerne de sua jornada em direção à sua Ithaka pessoal. Quando instado a falar o que o movia nessa aventura ele respondeu “Porque sou pai, e isso é o que qualquer pai faria por seu filho”. Ou seja, John provavelmente continuaria indefinidamente em sua vida pacata na Austrália, construindo casas e se alegrando quando as pessoas se mudam para elas. Jamais pensaria na tarefa nobre de defender a causa da liberdade de imprensa ou de combater os poderes abusivos do imperialismo em tantas partes do mundo. Continuaria a ser o sujeito ranzinza e pacato que sempre foi, cultivando seu jardim e cuidando de sua filha pequena. Porém, tudo indica que foi convocado pela deusa “Álea” – a divindade dos fatos aleatórios – para ser o divulgador da causa do seu filho, o mais famoso preso político do mundo. Talvez ele fosse o mais despreparado de todos os humanos para empreender esta viagem tão árdua, difícil e cheia de armadilhas. É possível, entretanto, que esta seja a verdadeira razão oculta da odisseia que transformou sua vida, fazendo do trajeto inusitado que surgiu algo capaz de dar verdadeiro sentido à sua existência. Por muitas vezes eu me coloquei no lugar de John Shipton, pensando o que eu faria em seu lugar, convocado a combater os gigantes macabros que tentam destruir seu filho e – acima de tudo – exterminar o que resta de liberdade de expressão no mundo. Muitas vezes pensei se teria a mesma coragem para denunciar a barbárie que testemunhei. Uma pergunta de difícil resposta; ou talvez a resposta mais fácil.

John Shipton em P. Alegre

Ao final da apresentação do filme pensei em perguntar para John como um pai se sentia vendo seu filho preso, doente, torturado e injustiçado. Quais são as emoções diante da impotência de testemunhar a violência do Estado contra alguém cujo crime foi revelar a verdade. Preferi me calar porque sabia que essa pergunta pouco poderia revelar objetivamente, porque só calçando os seus sapatos e caminhando o percurso tortuoso que ele trilhou para saber a dor de esperar a volta de um filho injustamente acusado, inocente e preso por ser bravo e combativo. Coube ao meu filho Lucas, que me acompanhou ao evento, pedir que ele recitasse a poesia Ithaka, que deu nome ao documentário, e pedisse para que ele nos dissesse “quanto tempo temos e quanto de esperança podemos carregar ao peito”.

Sua resposta foi até óbvia: ele se mantém esperançoso e seu filho “sofre, mas resiste”, e que o imenso apoio internacional que está recebendo de tantos povos, nações e instituições é uma luz de fulgurante esperança de que Julian um dia poderá voltar para casa – ou para o Brasil, conforme o convite do próprio presidente Lula. A seguir recitou em inglês o poema Ithaka, cuja tradução transcrevo abaixo:

Se partires um dia rumo a Ítaca,
faz votos de que o caminho seja longo,
repleto de aventuras, repleto de saber.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o colérico Poseidon te intimidem;
eles no teu caminho jamais encontrará
se altivo for teu pensamento, se sutil
emoção teu corpo e teu espírito tocar.
Nem Lestrigões nem os Ciclopes
nem o bravio Poseidon hás de ver,
se tu mesmo não os levares dentro da alma,
se tua alma não os puser diante de ti.

Faz votos de que o caminho seja longo.
Numerosas serão as manhãs de verão
nas quais, com que prazer, com que alegria,
tu hás de entrar pela primeira vez um porto
para correr as lojas dos fenícios
e belas mercancias adquirir:
madrepérolas, corais, âmbares, ébanos,
e perfumes sensuais de toda a espécie,
quanto houver de aromas deleitosos.
A muitas cidades do Egito peregrina
para aprender, para aprender dos doutos.

Tem todo o tempo Ítaca na mente.
Estás predestinado a ali chegar.
Mas não apresses a viagem nunca.
Melhor muitos anos levares de jornada
e fundeares na ilha velho enfim,
rico de quanto ganhaste no caminho,
sem esperar riquezas que Ítaca te desse.
Uma bela viagem deu-te Ítaca.
Sem ela não te ponhas a caminho.
Mais do que isso não lhe cumpre dar-te.

Ítaca não te iludiu, se a achas pobre.
Tu te tornaste sábio, um homem de experiência,
e agora sabes o que significam Ítacas.

Poema de Konstantinos Kaváfis (1863-1933)

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Argentina

Curioso como na Argentina os candidatos de esquerda e de direita se revezam sem que estas trocas venham (mesmo que minimamente) a melhorar o cenário econômico catastrófico do país. Depois de Cristina, Macri; depois deste Alberto. E agora o líder das pesquisas é o “Bolsonaro portenho”, o Milei – que inclusive já declarou seu apreço e admiração pelo nosso ex-presidente. Estes personagens se sucedem uns aos outros acusando os anteriores de terem “destruído a economia da Argentina”, sem perceberem que a esquerda liberal e a direita – mesmo a radical – são irmãs que brigam dentro do mesmo modelo capitalista.

Não haverá futuro sem que a esquerda aceite de forma corajosa e aberta a ruptura com a ideologia de concentração capitalista de riqueza. Teremos crises indefinidas, monótonas e repetitivas até que este circo de “esquerda liberal versus direita” venha a se desfazer pela percepção de que, no seu cerne, são iguais, irmanadas na ideologia capitalista decadente.

Eu acredito que coexistem dois fenômenos distintos no que se refere à gangorra eleitoral nos países satélites do capitalismo: o primeiro é a falta de uma esquerda radical, raiz, operária, anticapitalista, carência esta que muitos repetem cotidianamente, em especial os comunistas. O segundo, e mais importante, é que nas crises cíclicas do capitalismo o discurso de “acabar com tudissquitaí”, votando na estupidez e na potência fálica grotescas de líderes carismáticos e populares, acaba seduzindo as multidões, que as leva a acreditar que o problema são os políticos, a corrupção, a falta de pulso com o crime e não o próprio capitalismo claudicante.

O fascismo tem sua própria agenda, não precisa do vácuo da esquerda. O fascismo sempre ascende para dar uma resposta às crises do capitalismo, e tira dos liberais de direita – a direita limpinha – suas vestes civilizatórias para que possam embarcar na aventura autoritária. Pois diante da miséria crescente e da concentração obscena de riqueza a estratégia é criar um inimigo a combater. É aqui que entram os judeus, os comunistas, os imigrantes, os ciganos e os petistas no nosso passado recente. Já “radicalizar” significa ir à raiz, e a raiz da esquerda é o movimento proletário. Radicalizar, portanto, não é bater de frente com a direita, mas aprofundar seus princípios mesmo que isso custe enfrentar de frente o fascismo.

Isso explica a ascensão de Adolf pós crise de 1929, e a de Mussolini na Itália na mesma época, assim como Trump e Bolsonaro após a crise de 2008. A inexistência de um contraponto da esquerda raiz é apenas um elemento menor – porém importante – em face da crise do capitalismo, modelo cujo desmoronamento estamos vendo ao vivo e à cores diante dos nossos olhos, como testemunhas da história. Mas, como sempre ocorre, essa queda só se dará através do horror e da miséria globais.

No mais, concordo que a esquerda ainda não entendeu o que Zizek falava há uma década: para combater uma direita fascista não se pode oferecer moderação ou capitulação ao centro, mas sim um radicalismo proletário e comunista.

E tenho dito…

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Trombadinha

As atuais descobertas da Polícia Federal mostram de forma inequívoca o que algumas pessoas à esquerda do espectro político denunciavam há muito tempo: durante quatro longos anos fomos governados por um reles trombadinha. Sim, tivemos à frente de um país gigante um ladrãozinho minúsculo, um escroque que passou anos preocupado em fazer pequenos furtos, subtraindo o erário público de bugigangas recebidas como presentes. Sim, ainda há que se desvendar os grandes roubos e as denúncias de propriedades em nome de laranjas nos Estados Unidos, mas a avidez para roubar tudo o que estivesse ao alcance da mão é uma descoberta brutal e chocante. E o roubo daquilo que foi ganho de ditadores árabes apenas desvela os crimes menores, pois que o crime maior – a corrupção que teve nas joias o devido pagamento – ainda não foi devidamente investigado. A sensação natural diante destas últimas notícias é a mais profunda vergonha.

Sim, inevitável vergonha. Imaginem o constrangimento de saber que um país como o Brasil, de 200 milhões de habitantes, com riquezas imensas, um povo sofrido e uma história complexa e grandiosa foi governado por um farsante, um mísero estelionatário com um discurso francamente fascista. Atrás dele, a lhe dar suporte, uma horda de fanáticos, zumbis contaminados por um discurso anticomunista desenterrado da guerra fria, enfeitado por palavras de ordem que evocam o fascismo mais rasteiro.

Que vergonha, que vexame. Tive amigos que, por ódio ao Lula e ao PT – o que no fundo escondia uma rejeição à qualquer ameaça de justiça social – até ontem defendiam Bolsonaro, tratando-o como “injustiçado”, “cavaleiro de Deus”, enviado para nos livrar da famigerada “ameaça comunista”. São os mesmos que ainda hoje, chamam os celerados que em janeiro invadiram Brasília de “patriotas” afirmando que o golpe foi planejado pelo PT para derrubar o governo… do próprio PT. Como podem explicar agora essa rede de roubalheira rasteira, que agia nos porões do Palácio, envolvendo inclusive – sem surpresa – a nata da mediocridade militar. Como justificar agora que o combate ao “Estado Inchado”, outra rotunda falsidade, precisava de uma figura como este escroque racista e canalha? Como explicar as delações do “hacker de Araraquara” que demonstram o interesse do antigo governante de fraudar o resultado das eleições e de envolver o STF nas suas artimanhas?

Por quanto tempo ainda teremos que aceitar um país atrelado a estes monstros travestidos de anjos de Deus, cujos crimes são cometidos sob a égide da proteção da família e da Pátria? Até quando estes militares corruptos e ineptos vão ameaçar nossas aspirações democráticas? Quanto ainda teremos que esperar até que se desmanchem as redes criminosas de igrejas evangélicas e seus líderes estelionatários? Até onde vamos aceitar a máfia do sistema econômico escravizando o povo em nome de sua fome por lucros e poder?

A resposta a estas perguntas significa a diferença entre sermos uma eterna esperança de nação e a fulgurante realidade de um país justo e desenvolvido.

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Messias

Li, num passado não muito distante, a história de um gerente de banco que, por vários anos, cometeu desvios de valores para a sua conta pessoal. Por sua posição de chefia engordou sua conta pessoal de forma indevida, subtraindo volumosas quantias da instituição bancária, mas depois algum tempo a sua engenhosa ação criminosa foi descoberta, e ele preso. Quando pego, deu a criativa explicação que muito me impressionou. Disse ele: “Sei que é errado, mas o dinheiro que peguei é, em verdade, o justo pagamento pelo excelente trabalho que eu realizava em minhas funções”.

Ou seja: entre a legalidade e a justiça ele achou mais adequado ser justo do que obedecer a lei. Para ele o salário que recebia era inadequado para o excelente trabalho exercido. Preferiu assim ser correto com seu devotado trabalho, oferecendo a si mesmo o pagamento que lhe parecia mais ajustado para sua inquestionável dedicação.

Para qualquer um dotado de bom senso fica fácil perceber a falácia desse argumento. Em primeiro lugar, não existe “valor justo” para um trabalho qualquer. Médicos ganham muito mais do que motoristas de ônibus, não porque seu trabalho seja mais importante, mas por sistemas de poder que são gerados dentro das sociedades complexas. Isso explica as razões da distância entre os ganhos de um jogador de futebol e um professor da rede pública de ensino. Não é pela qualidade do trabalho (não há quem concorde que um astro do futebol seja mais indispensável que dois mil professores), mas pelo valor que a sociedade oferece aos diferentes ofícios. O valor pago pelo trabalho é construído dentro de um elaborado sistema de pressões e ajustes, e não pela decisão autocrática de um sujeito movido pela percepção pessoal que tem do seu próprio labor.

O que me chamou a atenção foi o fato de que o gerente deixava claro que não se sentia “ladrão”, sequer desonesto, porque apenas recolhia o que lhe era devido pelos patrões gananciosos. E essa sensação de impunibilidade me fez lembrar da cena política contemporânea.

As manchetes dos últimos dias apresentam inúmeros crimes e falcatruas cometidos pelo ex-presidente. São tantas as notícias que é impossível não perceber a marcante desonestidade e o caráter débil do mandatário anterior. A partir dessas notícias passei a crer que apenas a punição severa para estes personagens – Bolsonaro e seu entorno – poderá oferecer uma mínima esperança de sobrevivência da democracia. Entretanto, junto a este outro fenômeno me chamou à atenção. As acusações são agora recheadas de provas materiais irrefutáveis (tome por exemplo a venda do Rolex, que pertence ao erário nacional) porém não parecem movimentar negativamente a popularidade de Bolsonaro. Aquele grupo bolsonarista raiz, que está por volta de 15 a 17% do eleitorado nacional, não parece diminuir mesmo diante das provas contundentes de sua irresponsabilidade, incompetência e desonestidade. Bolsonaro, para este grupo, continua sendo o “messias”.

A figura de Bolsonaro faz lembrar a do presidente Trump, que afirmava de forma arrogante – porém correta – de que Posso matar alguém em plena 5ª Avenida em Nova York que isso não me faria perder votos”. Isso porque essas figuras públicas ocupam o lugar de salvadores para quem o roubo e até a morte de opositores seriam “a justa licença garantida pelo excelente trabalho realizado”. Da mesma forma que o gerente esperto analisava suas falcatruas, seus eleitores pensam que para salvar o mundo ocidental do “comunismo” vale a pena qualquer sacrifício, até aceitar que o mandatário do país seja ladrão, desonesto e profundamente incompetente. O mesmo fenômeno acontece nas Igrejas evangélicas, que devotam o mesmo tipo de ligação irracional com seus líderes. Pouco importa ao pobre que frequenta o templo que o pastor seja visto com carros importados e more em mansões. Não há sequer preocupação em esconder essa opulência: trata-se, como já vimos em outros contextos, do “adequado pagamento pela tarefa de salvar os crentes da fúria impiedosa de Deus e para livrá-los das garras do demônio”.

Por certo que estas construções só podem ocorrer a partir de propaganda massiva e pervasiva, diuturnamente exaltando as virtudes da “liberdade” capitalista e mitificando os supostos horrores do comunismo, assim como demonstrando as vantagens que são oferecidas àqueles que contribuem com a igreja, em especial a volta da saúde, do dinheiro, a recuperação de antigos amores e a salvação da alma. Nem é necessário dizer o quanto de dinheiro é investido pelo Estado burguês para nos blindar da verdade da concentração obscena de riqueza nas mãos de poucos e o quando se investe em publicidade para não expor as igrejas na produção de factoides (de cura, de comunicação com Jesus, de sucesso financeiro, etc.) que justificariam o pagamento de dízimo aos pastores e o financiamento de suas igrejas.

Para aqueles que dão apoio à extrema direita e às igrejas – fenômenos que se valem do pânico moral para sua proliferação – a ameaça constante de novos valores sociais (sexuais, familiares, etc.) e a emergência de uma sociedade comunista justificam as falhas morais de seus líderes. Curiosamente, as mesmas falhas que não toleram e denunciam de forma incessante em seus opositores.

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Nó Identitário

Estou com uma imensa curiosidade sobre qual será a manifestação dos identitários sobre o imbróglio entre Dudu Milk e Jean Wyllys. Isso porque houve xingamentos homofóbicos e uma clara ofensa, que produziu como resposta um processo por ataques à honra e homofobia. Detalhe: ambos os personagens dessa história são declaradamente gays. Por enquanto só ouvi silêncios…

Peço apenas que, aqueles que estão tentando “passar pano” para as palavras constantes do Tweet do Jean Wyllys (ao lado), imaginem apenas se estas palavras fossem proferidas por Eduardo Bananinha ou Nikolas. Ou seja: como os identitários ou os defensores da causa gay reagiriam à insinuação de que um político declaradamente homossexual toma decisões na arena política motivado por supostos fetiches sexuais? Como reagiriam ao estereótipo do gay descontrolado, reduzido à sua sexualidade (como historicamente se fez com os negros)?

Como vão se posicionar diante da ideia de que os gays, quando assumem postos de poder, agem de forma depravada, tornando-se incapazes de decisões racionais? Esta desumanização dos gays se assemelha à misoginia que considerava as mulheres como incompetentes, por não conseguirem analisar o mundo de forma racional. Também é tão grave quanto aquelas fake news que confundem propositalmente os gays com “tarados” e “pedófilos”. “Ahh, mas ele é gay. Ele pode falar isso”. Não é o que o Dudu achou. Além disso, essa afirmação vai de encontro à ideia de que as ofensas não acontecem pelo seu conteúdo ofensivo, mas tão somente por quem as emite. Ou seja: gays podem xingar e fazer piadas homofóbicas, assim como judeus podem debochar do seu próprio povo, enquanto os negros podem debochar de sua raça. Ou seja: seriam “eleitos”, blindados, capazes de avançar o sinal e cometer ofensas, protegidos pela sua condição. (recomendo um capítulo de Seinfeld onde um dentista se converte ao judaísmo apenas para contar piadas de judeus). É certo aceitar que uma determinada condição se torne um salvo conduto para as ofensas?

“Ahh, mas ele é gay, como poderia ser homofóbico?“, o que faz coro com a ideia de que “negros não podem ser racistas” ou “judeus não podem ser antissemitas” (como disseram do nazi Zelensky). Pois eu convido a escutarem as palavras homofóbicas de um famoso pastor evangélico que contrastam com sua história na homossexualidade enrustida, a qual ganhou as manchetes nas últimas semanas. As defesas feitas ao ex-deputado Jean por parte da esquerda são incompreensíveis para mim. Diante dessa celeuma eu pergunto: um sujeito que atacou a Venezuela em sua luta anti-imperialista, fez a defesa aberta da democracia liberal burguesa, apoiou o apartheid israelense, adotou a retórica do pinkwashing de Israel, atacou o nacionalismo palestino, saiu do país financiado pela Open Society do George Soros e ainda deu uma resposta homofóbica a um governador gay…. ainda pode ser chamado de “esquerda”?

Essa é a grande sinuca de bico do identitarismo: de um lado apoiar um governador gay, anacrônico, bolsonarista e que decidiu manter os monstrengos das escolas cívico-militares, um descarado cabide de empregos para militares da reserva, mas que teve sua honra indiscutivelmente ofendida. Por outro lado, postar-se ao lado de um ícone das lutas dos gays, personagem midiático, auto proclamado de esquerda, vítima de perseguições pelos fascistas do bolsonarismo, auto exilado e financiado pela Open Society do George Soros…. e que cometeu uma ofensa homofóbica grotesca e acima de qualquer questionamento.

E agora? Esquerda ou direita? Progressistas ou conservadores? Fascistas ou progressistas? Devemos olhar para o fato em si ou para as causas que eles defendem? “Caso ou Causa”? É aceitável que esse personagem acusado de homofobia seja contratado pelo governo atual? É justo oferecer a um homofóbico um cargo no governo progressista, que tem um compromisso histórico com as comunidades LGBT? Comprei bastante pipoca para ver como os identitários vão desatar este nó….

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Sopapos

Hoje escutei que os supostos sopapos que Xandão e seu filho tomaram no aeroporto de Roma foram, na verdade, um “ataque ao Estado Democrático de Direito”, com pena de até 8 anos de reclusão. Ou seja: se você troca socos num estádio de futebol recebe uns cascudos do policiais e um chá de cadeira do delegado. A mesma coisa acontecendo com um morcego ungido vale quase uma década na cadeia.

Se isso realmente acontecer, a esquerda deve se preparar para as piores arbitrariedades do judiciário, e a próxima greve será tratada com tiros, canhões, helicópteros, drones etc., pois qualquer manifestação explícita de contrariedade será tratada como “ataque direto à democracia”.

O fato (discutível) de que o Alexandre fez alguma coisa certa (nada além da sua obrigação) não deveria nos levar a esquecer os crimes que ele cometeu – como manter Lula preso sem provas. Por acaso essa turma que exalta o Ministro acha mesmo que estamos “devendo” nossa democracia ao Xandão – que, ressalte-se, foi indicado pelo golpista Michel Temer?? Acreditam que o fato de ele ter agido bem contra os bolsonaristas lhe permite ser blindado de críticas pelas suas atitudes oportunistas e contrárias à própria constituição – como esquecer que uma prisão apenas pode ser determinada após o transito em julgado?

Xandão é golpista, mas a esquerda liberal não quer enxergar o golpe que ainda teremos pela frente. Alexandre de Morais tem zero apreço pela constituição, e muito amor pelo poder. Ver a esquerda apoiando a prisão dos insatisfeitos é algo que eu jamais conseguirei aceitar.

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Cães imperialistas

Alguns esquerdistas liberais criticavam o fim da ocupação imperialista no Afeganistão e usavam como argumento a pretensa perda de “liberdade” das meninas afegãs, impedidas de irem à escola pela volta do Talibã – o que, aliás, nunca passou de especulação e ameaça. Na verdade os Americanos fizeram do Afeganistão a central de produção de opioides para o mundo, além de criarem uma rede imensa de abuso sexual de crianças no país. Tudo isso com o conhecimento e a conivência – é segundo alguns, com a promoção – dos senhores da guerra do imperialismo.

Assim, a derrubada do Imperialismo no Afeganistão era uma questão de vida ou morte, tanto para as mulheres e crianças quanto para os homens e combatentes do país. Entretanto, os identitários usavam a falácia das “liberdades individuais” das meninas na Escola (assim como fazem com os gays e feministas no mundo árabe) para fomentar revoluções coloridas, onde as minorias funcionam como uma oportunista massa de manobra do capitalismo mundial para a derrubada de governos nacionalistas.

Ou seja, para a nata da esquerda liberal, as meninas abusadas e seus pais mortos pelos drones yankees não são nada comparados à glória de ver alunas indo uniformizadas para a escola. Para estes menos importa que o país seja ocupado, mulheres sejam mortas e crianças fiquem órfãs, desde que essas identidades sejam aparentemente protegidas. E ainda será a suprema vitória se tiverem acesso irrestrito a uma parada gay com direito a assistir trans enroladas na bandeira americana.

“Ahh, não são excludentes. É possível proteger a escolarização de meninas e a autonomia do país”, dizem os liberais. É verdade, mas não vai acontecer nenhum avanço enquanto não houver um país autônomo e livre. As meninas, os gays, os trans e todas as minorias só terão seu justo espaço depois que o país se livrar dos cães imperialistas. Enquanto formos comandados por forças externas esses grupos serão sempre atingidos.

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A Salvação do Capitalismo

Segundo minha perspectiva – e a de vários analistas – Lula é um Roosevelt brasileiro, guardadas as proporções. Sim, porque Lula é muito mais brilhante, preparado e inteligente do que o presidente americano. Apesar das diferenças, tanto para Franklin quanto para Luís Inácio coube a estupenda tarefa de salvar o moribundo capitalismo de seus países e lhes oferecer uma ilusória sobrevida. Franklin conseguiu adiar uma grande revolução por quase um século, mas não acho que Lula conseguirá o mesmo sucesso. As condições do capitalismo mundial não suportarão por mais tanto tempo.

Porém, os limites de Lula se situam nas fronteiras da democracia burguesa; ou seja: Lula se limita a jogar “dentro das 4 linhas”, como diria seu antecessor de má memória. É por essa paixão pela instauração de um “capitalismo com face humana” que liberais como Reinaldo Azevedo agora o aplaudem Lula com pleno entusiasmo, a ponto de afirmar que “Lula está salvando o capitalismo brasileiro, enquanto Bolsonaro trabalhava pelo seu extermínio”.

O problema, como sabemos, é que as democracias liberais capitalistas são insustentáveis em médio prazo. Com o tempo essas democracias burguesas reagem com violência aos avanços do poder popular. É um sistema criado para manter a artificialidade do poder burguês, que tem como característica a concentração crescente de riqueza (e de poder) na mão de poucos. Nossa história mostra que ela serve a uma classe, e quando essa classe se sente ameaçada ela manda às favas a própria democracia. Assim foi com Getúlio, em 1964, em 2016 e após a vitória de Lula. Há poucos meses, com a eleição de Lula, já havia um contingente considerável de brasileiros pedindo ditadura, para que os poderes ficassem intactos. O capital, nesse modelo realçado pelos liberais, é o “dono da bola”: será democracia quando me interessar, mas mando apagar a luz e levo a bola pra casa se meu time estiver perdendo.

O modelo de democracia vinculada ao poder econômico, que controla os processos de produção e os meios de comunicação acaba invariavelmente entrando em crise, tão logo os 99% de pessoas que são exploradas pela elite financeira começam a exigir seu quinhão no bolo da riqueza nacional. Desta forma, sustentar o poder burguês indefinidamente, é uma ilusão que ainda vai nos atormentar, e nem a figura brilhante de Lula vai conseguir mantê-lo vivo. Estamos na UTI do capitalismo, e nada poderá salvá-lo; nem o mais brilhante estadista do planeta.

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Milan

O escritor Milan Kundera faleceu aos 92 anos. Alguns defendem o trabalho do escritor – um notório anticomunista – dizendo que as acusações de Milan Kundera aos dramas do bloco soviético eram baseadas na verdade. “As coisas que ele relata eram reais” dizem. Todavia, o mesmo tipo de narrativa aconteceu faz pouco aqui no Brasil quando os golpistas falavam: “sim, mas as queixas contra Dilma eram todas reais” – o que justificaria o golpe. Neste caso, o “real” é aquela perspectiva apresentada pelos vencedores, né? As coisas na União Soviética eram realmente conturbadas durante a Guerra Fria (entre outras razões pelo esforço armamentista, que destruiu sua economia, mas é o que faz a Rússia ainda existir e estar vencendo a guerra – exatamente o que a Coreia Popular historicamente faz), mas o golpe de Yeltsin – a serviço do Império – fez a Rússia mergulhar no Caos do qual levou 25 anos para se reerguer.

Quem reclama do período Temer-Bolsonaro pode imaginar como seria uma economia reduzir-se a 1/3 do que era nos meses que se seguiram à fragmentação do bloco soviético. A destruição da União Soviética e o poder popular por ela criado era visto como o grande objetivo para a expansão do Império. Não foi possível com os tanques, mas o foi pela guerra gelada do comércio.

E quanto à “Primavera de Praga”, o eurocentrismo que ela denuncia é apenas espetacular. Claro, tanques em Praga são inaceitáveis, não? Já no Vietnã, qual o problema? Por que será que a gente não dá nomes bonitos para os 70 países invadidos pelo Império nas últimas décadas? Só esse episódio parece causar horror aqui no Ocidente. Mas e a Síria? E a Líbia, que retrocedeu um século após a invasão (por que não a “Primavera de Trípoli”?)? E Gaza? E o Afeganistão? E o Iraque? E o Panamá? Não deveríamos tratar por ‘Verão Panamenho” quando o país foi invadido e o presidente Noriega sequestrado pelos americanos? Não haveria uma estação do ano para adornar e dar nomes às sanguinárias invasões do imperialismo em países soberanos?

Eu li Milan Kundera e “A insustentável leveza do ser” me cativou. Poético, tocante, duro e delicado. Mas também li Vargas Llosa, que foi um baluarte de sustentação de Fugimori – e inclusive de sua filha, além de ter apoiado Orbán e Bolsonaro. E isso porque é possível ser reacionário e um gigante da literatura. Da mesma forma eu adoro Zizek e fiquei chocado ao ler seu apoio ao Otanistão, para tristeza de todo mundo que deseja o fim da guerra. As posições políticas desses escritores e intelectuais (inclusive Kundera) eu ponho na conta da russofobia que muitos ainda carregam. Se aqui no Brasil ainda acreditamos nas mentiras contadas sobre a USSR, imaginem o que é feito pela máquina de propaganda da burguesia entre os vizinhos da Rússia, e o grau de manipulação que deve existir até hoje. Mesmo com os graves erros cometidos na Cortina de Ferro – e que devem ser denunciados – nada justifica a adesão ao imperialismo mortal e destruidor que esses personagens adotaram. Meu interesse não é diminuir a importância do escritor Kundera, apenas lembrar desse aspecto da sua personalidade. Um grande escritor, mas um reacionário no campo da politica.

Por outro lado eu nunca deixo de me surpreender com o anticomunismo da esquerda brasileira. Essa característica pode ser explicada pela cultura ocidental que afunda no oceano de propaganda anticomunista que já tem mais de 1 século. Esses ataques é que nos fazem ver o cisco da “primavera” e não enxergar a trave das inúmeras invasões genocidas do Império. Talvez Milan seja “menos” anticomunista do que os francamente direitistas, como Soljenítsin ou Vargas Llosa, ou quem sabe nunca saberemos ao certo até onde o seu anticomunismo poderia chegar. Como saber?

Aliás, sabe o que mais choca as pessoas quando lembram do “A insustentável leveza ser”? O fato de um médico ter se tornado um mísero limpador de vidros. Acho que essa é a ideia central do autor: como pode haver uma subversão de classes a ponto de um médico, alguém que representa os valores das classes superiores, ter se tornado um simples operário. Para a burguesia é um horror imaginar que alguém da “nobreza capitalista” seja “reduzido” a um mero proletário. Todo o livro de Milan é recheado por esse pânico burguês de imaginar um mundo sem classes, onde limpadores e cirurgiões podem sentar na mesma mesa.

Mas, como eu já disse, os reacionários podem ser grandes literatos. Ferdinand Céline, um dos maiores escritores frances do século XX, era nazista, mas foi ele quem escreveu a melhor e mais bela biografia de Ignaz Phillop Semmelweis. Não posso cobrar dele que seja como eu quero. Milan escreveu maravilhosas obras, mas seu reacionarismo não pode passar em brancas nuvens.

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