É lamentável ver a defesa que alguns fazem de Israel, em especial entre aqueles que se consideram de esquerda. Olham para a ação desesperada de alguns dias atrás de forma maximizada, como se não houvesse por trás dessa ação mais de 7 décadas de abusos, torturas e morte. Agem como o Estadão e sua “decisão difícil” ou a turma do “nem-nem”, que colocavam no mesmo patamar um político vagabundo é o maior estadista do Sul global. Tentam equiparar as reações dos palestinos aos crimes brutais a que são submetidos desde o Nakba.
Estas mesmas pessoas, há poucas décadas, estariam criticando os insurgentes do gueto de Varsóvia pela sua violência “injustificável” contra os nazistas, recomendando àqueles que se mantivessem impassíveis diante da morte certa que se aproximava de sua família e de si mesmos. E se houvesse qualquer reação, mesmo que fossem os gritos lancinantes ao ver a morte se aproximando, mesmo essa indignação seria censurada, pois que demonstra uma rebeldia que precisa ser calada.
A falta de empatia com milhões que sofrem, e a solidariedade com a dor ocasional dos invasores, é algo que não é possível entender, a não ser pela lavagem cerebral produzida pela propaganda sionista massiva, intensa e obliterante.
Nunca houve paz duradoura sem que os opressores fossem vencidos. Não haverá paz com a continuidade do apartheid de Israel, com o racismo, com as prisões arbitrárias, com as mortes à granel. Como dizia Nelson Mandela, “Sabemos muito bem que nossa liberdade é incompleta sem a liberdade dos palestinos”
A policia foi criada para defender a propriedade, o patrimônio e servir como contenção à óbvia e inevitável insatisfação dos excluídos. ë uma ilusão quase infantil acreditar que esta instituição exista para servir e proteger o povo. Não…. em verdade suas mais claras intenções são servir ao poder burguês, garantindo a propriedade privada, o modelo liberal e mantendo em segurança os rentistas e suas posses.
Para confirmar esta perspectiva basta observar a ação da polícia quando existe um choque entre as pessoas do povo e os “cidadãos de bem”, ou quando a polícia é chamada para expulsar e ameaçar pessoas que invadem terras. Outro exercício legal é assistir os canais de “auditors” americanos – pessoas que testam os limites dos direitos constitucionais. Normalmente um grupo deles fica parado em uma calçada filmando o entra e sai de pessoas em um shopping, algo que tem total respaldo pela lei do “plain view”, que diz que “tudo que pode ser visto à olho nu pode ser filmado”. Parte do princípio de que não existe expectativa de privacidade em público. Aliás, esse princípio também existe no Brasil.
Normalmente os proprietários ficam incomodados de serem filmados (mas não se incomodam de filmar os usuários do shopping com centenas de câmeras espalhadas) e chamam a polícia. Quando os policiais chegam dão “uma dura” nos auditores (mesmo que estejam absolutamente dentro da lei), por eles estarem “incomodando as pessoas” ao agir como fiscais constitucionais . Ou seja: as forças de repressão são chamadas pelos burgueses para proteger suas propriedades e proteger os seus negócios, mesmo que isso signifique atacar pessoas que estão agindo protegidas pela constituição. Por este exemplo simples fica claro que esta é a polícia dos proprietários, dos burgueses, dos ricos, e não do povo.
Na democracia do bacana Precisa mandato de juiz Pra lhe tirar da cama. Pra maloqueiro Basta a sola do coturno Do soldado na porta Pra terminar rapidinho Com seu descanso noturno.
Vou repetir o que já disse em outro lugares, mesmo sabendo que este tipo de defesa é uma trilha fácil para o cancelamento: O ator da Globo, Március Melhem, acusado de assédio por suas colegas de trabalho, é culpado de ser um amigo leal, um excelente profissional, um chefe justo, um parceiro de trabalho correto e um colega em quem se pode confiar. Digo isso depois de analisar pormenorizadamente as palavras das acusadoras e da advogada e de me deter em todas as respostas e provas apresentadas por Március em seu canal no Youtube.
Essas mulheres acreditavam que suas palavras poderiam suplantar os fatos, as provas e as evidências apresentadas. Pior, tinham fé no mito da “palavra sagrada”, ou seja, que qualquer acusação feita por mulheres tem valor de prova, e não precisa nenhuma evidência que a suporte. Esse julgamento público sobre a honra de um sujeito, se viesse a dar ganho de causa a estas oportunistas, geraria um caos jurídico insuportável, criando uma jurisprudência frontalmente inconstitucional que transformaria todo homem em cidadão de segunda categoria e as mulheres em seres acima da lei.
Maíra Cotta, a advogada das acusadoras, colocou essas mulheres – e a si mesma – em um caldeirão infernal do qual não podem mais sair. Estão presas em suas falas traiçoeiras, enredadas nas mais sórdidas mentiras e não tem mais como se livrar das amarras que elas mesmas criaram. Pergunto agora: quem, a partir de agora, poderá confiar nas mulheres que se comportarem dessa forma? Pense nisso… basta namorar uma mulher, apaixonar-se por ela, trocar mensagens de amor, fazer planos, trocar intimidades e, anos mais tarde, depois de uma ruptura amorosa, esta mesma mulher que lhe jurou amor e consideração poderá afirmar que “em verdade durante todo esse tempo fui assediada e abusada, mas na época não me dei conta”.
Ora, como suportar essa absurda insegurança jurídica?? Como aceitar que a palavra das mulheres pode ser mais valiosas do que as provas materiais? Como aceitar que o comportamento das mulheres nunca é responsabilizado, mas o dos homens sempre? Por que ninguém questiona o assédio profissional ao qual Március foi submetido por essas oportunistas? Pelo amor que temos às mulheres, e pela necessidade de proteger as mulheres que realmente sofrem abusos e assédios, este caso deve ser exemplar e emblemático, mostrando que o uso de mentiras e fraudes como ferramenta de vingança pessoal precisa ser duramente reprimido. Este caso, que oportunisticamente se confunde com a “causa” feminista, ao contrário do que pode parecer vai acrescentar mais uma barreira para a contratação de mulheres para as áreas artísticas.
Pensem bem: quem contrataria uma mulher sabendo que ela pode, a qualquer momento, transformar as brincadeiras – que ela mesma propõe e executa – em assédio!!! Quem teria segurança de contratar Dani Calabresa? Quem poderia confiar numa mulher que brinca contigo, te “encoxa“, passa mão no teu peito, manda nudes, te convida para viajar e depois, de um instante para o outro, diz que tudo o que ela fazia há anos era mentira, dissimulação e encenação, porque tudo que sofria, na verdade, era abuso mascarado de intimidade, e que na época não falou porque tinha “medo”? Para estas acusadoras (e a advogada delas), as ações podem ser contraditórias e sem nexo causal algum, pois basta a suposta vítima dizer que se sentia coagida e constrangida (mesmo sem materialidade, como é o caso) para que suas queixas sejam aceitas como válidas. As ações paradoxais destas mulheres apontam o oposto – que elas participavam ativamente dos jogos sexuais e brincadeiras, as quais revelavam intimidade – mas mesmo assim a narrativa delas é levada em consideração, e o homem é mais uma vez colocado como culpado “até prova em contrário”.
Não é possível admitir um relato tão incoerente e oportunista quanto esse. E vejam bem: para criar culpa em Március é necessário acreditar que suas acusadoras são tolas, idiotas, infantis, incoerentes e têm uma sensibilidade de freiras carmelitas, horrorizadas com as “brincadeiras pornográficas” do chefe. Ora, a mensagens de WhatsApp destroem completamente essa perspectiva. Se há lascívia nessa história ela partiu delas, assim como partiu dessas moças o assédio praticado contra ele, claramente para obter vantagens profissionais com a proximidade que elas criavam. Não há dúvida que entre elas não há nenhuma noviça. Espero que a justiça venha, por fim, reconhecer a inocência de Március, em nome dos homens que amam suas mulheres, dos homens que desejam proteger o feminino e das mulheres que amam a verdade.
Quem ataca tanto o Cuca não deveria se gastar tanto. Ainda temos o caso do Caetano para ser discutido. Pense apenas no seguinte: em ambos os casos é importante lembrar do conceito de “anacronismo”. Eu disse ambos. Caetano teve relações sexuais com uma menina virgem de 13 anos. Dizer que “a lei na época” era assim é contextualizar no tempo, lembrar que faz 40 anos, que o mundo (e a lei) eram diferentes, etc… Ok, não tenho nada a reclamar desta perspectiva, mas ela só vale para o Caetano? É importante lembrar que o horror que temos hoje das relações sexuais com meninas mais jovens não existia – com a mesma intensidade – nos anos 80.
Enquanto isso…
Caetano Veloso continua blindado; talvez por ser de esquerda, poeta, baiano ou muito delicado, e não um brutamontes ligado ao futebol, como o Cuca. No seu caso foi muito pior: foi crime confesso, quase na mesma época do caso com os jogadores na Suíça. Entretanto, não há sequer inquérito. No caso de Cuca há pelo menos dúvidas e debates. As meninas tinham a mesma idade. No caso de Paula ela ainda era virgem. Por que lançamos sobre os dois casos olhares tão distintos? Quando Olavo de Carvalho chamou Caetano de “estuprador” – algo que todos os lacradores de esquerda fizeram com o técnico Cuca – ele foi condenado a pagar 3 milhões de reais de indenização ao músico – só não pagou porque morreu antes de saldar a dívida. Por que esta seletividade? Por que a severidade com um e a compreensão com outro?
Sabem qual a desculpa usada para o Caetano? Anacronismo. Sim, o fato de julgar um caso ocorrido há 40 anos atrás por valores de hoje. Há 4 décadas ainda havia milhões de mulheres no Brasil que haviam se casado antes da maioridade. Sim, crianças ainda. Muitos dos que estão lendo essas linhas aqui tiveram uma avó ou (no meu caso) bisavó que foi mãe aos 14 anos. Muitos conhecemos mulheres solteiras cujo primeiro filho nasceu quando ela tinha apenas 13 anos. A imprensa – espelho da sociedade – tratou os casos do Caetano e do Cuca como sendo “quase” normais, corriqueiros, da mesma forma como tratava todos os casos dos ídolos do Rock e suas relações com as groopies menores de idade. David Bowie teve inúmeros casos, Mick Jagger também tem vários casos constrangedores. Jerry Lee Lewis casou com sua prima, menor de idade, ainda nos anos 50, e nem precisamos falar de Charlie Chaplin, bem antes. Mas naquele tempo…. quem não? Tais situações eram vistas pela sociedade francamente patriarcal como algo banal. O horror (justo) que sentimos hoje não existia àquela época, da mesma forma como achávamos normais castigos físicos (até violentos e humilhantes) contra crianças.
Chamar de “crime hediondo” é anacronismo. Hediondo é hoje, há 40-50 anos não era. Eu vivi essa época e sei como estes casos eram vistos e tratados. Então, vamos continuar a passar pano pro Caetano Veloso, o estuprador? Ou vamos entender os crimes nos tempos e épocas em que ocorreram? Não me ofende tanto a dureza da pena (no caso de Cuca, a prisão perpétua da opinião pública), quanto o fato de julgarmos delitos iguais como se fossem diferentes.
PS: Antes que digam que estou passando pano digo que hoje estes crimes seriam julgados com uma severidade completamente diferente, com o que concordo. Porém lembrem que os fatos são de quase 40 anos atrás. E “passar pano” é o que se faz com um ídolo de esquerda que agiu da mesma forma e jamais foi punido por isso. Nada justifica olhar para estes casos de forma diversa. Essa escolha que se faz é passional. E longe de mim defender Cuca ou seu atos, mas exijo sobre suas ações algo que é o sustentáculo do direito: a isonomia.
As leis, sobretudo no que diz respeito aos crimes sexuais mudaram dramaticamente nos últimos anos. Um exemplo típico é que o crime de manter relações sexuais com uma menor de idade era “perdoado” se o autor contraísse matrimônio com a vítima. Essa, aliás, é a desculpa de muitos que acusam Cuca para perdoar Caetano – e ainda complementam: “era a lei à época” Todas as legislações no mundo inteiro diminuíram a idade limite. Concluo que existe aqui uma brutal falta de isonomia. Por que um sujeito é massacrado nas redes sociais e o outro protegido? Essa é a questão mais chamativa nesse caso. A prisão perpétua para crimes do passado eu já conhecia, pois é aplicada pelos identitários com o cancelamento, mas a “blindagem eterna” é um fenômeno bem mais curioso.
Uma pesquisa recente na Finlândia mostrou que as crianças violentas ou vitimadas pela violência têm uma probabilidade muito maior de se tornarem adultos desajustados e violentos. O primeiro grupo é formado por crianças e adolescentes que foram “saco de pancada” na infância, em especial na escola, aqueles que sofreram bullying, que foram maltratados por serem gordinhos, pequenos, fracos ou pouco “inteligentes”. O outro grupo era o dos seus abusadores, os espancadores, os “bullies“, os “malvadões“, os opressores. Este estudo descortina que tanto os agressores quanto as vítimas de bullying tinham um risco aumentado para crimes violentos, quando comparados às demais. Bullying é um assunto de extrema importância, até do ponto de vista da economia dos países industrializados. No Reino Unido, 16.000 crianças entre 11 e 15 anos faltam à escola pelos maus tratos dos colegas, e 78.000 faltam quando o bullying é uma entre outras razões.
Ambos os grupos são marcados pelas duas pontas da violência, seja aplicando-a ou sendo vítima dela; imagina-se que a violência seja replicada nos espancadores pelo gozo continuado de oprimir e nas suas vítimas pela necessidade de vingança, para reverter as humilhações do passado.
Todavia, estas ainda são marcas da infância, do tempo da escola ou do início da socialização. Eu me questiono quais marcas ainda mais profundas – que os psicólogos contemporâneos chamam de “imprints” – são produzidas quando a violência ocorre na primeira infância, no período pré-verbal e sendo perpetradas por aqueles que mais confiamos e dependemos, como nossas mães e nossos pais? É lícito imaginar que as cicatrizes dessas experiências precoces são ainda mais profundas e mais facilmente produzem comportamentos violentos, produto das inúmeras dores recalcadas. Uma pesquisa de 2021 mostrava que 35 mil crianças e adolescentes foram mortos de forma violenta no Brasil, segundo levantamento do Fundo Internacional de Emergência das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. No subgrupo de crianças de 0 a 4 anos ocorreu aumento de 27% nos casos. Em 90% dos casos o agressor é da família. Mas, e os sobreviventes? Que tipo de visão de mundo terá uma criança que sofreu agressões durante o período mais frágil de sua vida e ainda por intermédio das pessoas que mais deveriam cuidá-la e protegê-la? Isso sem falar das agressões tão precoces que são capazes de transformar a chegada a este mundo em um trauma poderoso – as violências no parto.
Apesar disso, em uma pesquisa de 2020 realizada com 7038 cuidadores de crianças de 0 a 5 anos residentes em 16 municípios cearenses, incluindo a capital, Fortaleza 84% dos pais acreditam que os castigos físicos e gritos (ou ambos) são importantes e necessários para a educação de crianças. Uma fração enorme dos pais e cuidadores de crianças desta região acreditam na violência como método pedagógico necessário para colocar as crianças no caminho. Acreditam mesmo que a violência, por produzir resultados imediatos como o silêncio e a obediência, seriam capazes de moldar o caráter das crianças, quando, na verdade, apenas desenvolvem personalidades cujo medo é o sentimento preponderante e a violência sua reação mais natural. Resta-nos questionar como se contrapor a essa proposta, tão arraigada em nossa cultura, que conecta educação e caráter com violência física e psicológica em crianças.
Os resultados de uma sociedade baseada na violência podem ser vistos no nosso cotidiano. Homens e mulheres de 60-70 anos, que certamente foram educados com a severidade das surras, das humilhações e dos castigos, hoje afirmam impávidos nas redes sociais: “apanhei muito, mas não virei marginal”. A resposta talvez esteja nesta violência muito precoce que sofreram ou impuseram, que ao criar este “imprint” na tessitura maleável da alma infantil, faz desabrochar na maturidade a opção pela violência física e moral.
Existe um caloroso debate acerca dos fatos acerca da vida de Jesus de Nazaré, isso porque os indícios de sua existência real não são conclusivos e não conseguem convencer os estudiosos mais céticos. Presume-se, entretanto, que esse personagem foi apenas um entre mais de 400 conhecidos e autoproclamados “Messias” da Palestina no período de dominação de Roma, cujo objetivo principal era tão somente libertar o povo miserável da Palestina do jugo do Império. Todos eles, inclusive o filho de José e Maria, falharam de forma inquestionável e foram sacrificados por seus dominadores. Jesus sequer foi o mais importante em sua época; como diz Reza Aslan, autor do livro “Zelota” que busca analisar os passos deste galileu que teria vivido entre nós há cerca de 20 séculos, “tivéssemos jornais diários naquela época é bem possível que sua execução ocupasse tão somente uma pequena nota no pé da página policial“.
Por outro lado, sabemos bastante sobre o Jesus mítico, por certo, mas ao analisarmos sua existência através dos textos bíblicos é possível encontrar em sua trajetória uma variada compilação das crenças da sua época, uma mistura rica de tradições de várias partes do mundo antigo, desde tradições egípcias, gregas e romanas até persas e babilônicas. Do ponto de vista histórico o Jesus “homem” é uma curiosidade que dura quase 2 mil anos, mas o filho de Deus foi uma criação coletiva que se adaptou às necessidades humanas do tempo em que foi forjada.
Minha percepção é que o “Jesus histórico” realmente existiu e era o que se pode chamar hoje de um reformista do judaísmo, alguém que desejava a transformação da religião judaica por dentro, um judeu falando das crenças judaicas exclusivamente para judeus, visto que Jesus nunca se referiu a outro povo que não o seu durante toda a sua vida. A ideia de levar sua mensagem aos gentios nunca foi dele, mas de seu seguidor Paulo de Tarso. Assim, o cristianismo tal qual o conhecemos, é uma mistura do apóstolo visionário Paulo com a incorporação desta religião pelo Império Romano do Oriente, através de Constantino, mas quase nada tem a ver com o revolucionário libertador que porventura tenha caminhado pela Palestina.
Inobstante os acalorados debates sobre a figura de Jesus, muito mais importante do que a descoberta desse sujeito que perambulou pela aridez Palestina há 2000 anos é a sua mensagem. Para um observador isento de preconceitos, é fácil perceber que as histórias da Bíblia precisam ser entendidas através de uma exegese profunda e sofisticada, olhando para os fatos narrados como ensinamentos e metáforas que carregam valores e ideias, e não como a descrição factual de acontecimentos. Essa é a essência dos livros “sagrados”, e por isso eles sobrevivem por milênios. Desta forma, o que se encontra na Bíblia, no Corão e no Bhagavad Gita não pode ser alvo de uma leitura histórica, fundamentalista e literal – pois isso seria uma perversão do sentido original de sua escrita – mas de um mergulho profundo nos valores e signos de sua época, para que possa ser entendido em seu contexto e significado profundos.
É por isso que durante minha vida inteira sempre tive um dúvida sincera: será que o Papa ou membros dos altos círculos da Igreja acreditam mesmo nesses milagres descritos no velho e novo testamentos, na multiplicação de tilápias, na transformação de água em vinho, na concepção virginal da mãe de Deus, no Cristo redivivo ao terceiro dia, nas curas, etc? Ou será que eles sabem – por serem homens de rara erudição – que tais descrições bíblicas não passam de belas alegorias, ficções escritas mais de um século após decorridos os fatos, exemplos de vida, valores morais, metáforas e histórias cheias de ensinamentos que servem apenas para oferecer um sentido ao caos da existência, mas que por sua força coercitiva e de coesão social funcionam como um cimento cultural poderoso para a formação de identidades?
Este dilema dos poderosos que controlam o cristianismo sempre me faz lembrar um filme do anos 80, um épico de extrema direita chamado “Desejo de Matar”, com Charles Bronson. Depois de ver a esposa sendo morta e a filha estuprada por um grupo de bandidos (claro, todos imigrantes escurinhos e latinos) o heróis vingador do filme resolve se vingar dos elementos que produziram sua desgraça pessoal. Movido por um ódio imparável, e sendo um veterano da Guerra da Coreia, ele conhecia “as manhas” do ofício de matar, mas teve agir à margem da lei. “Desejo de Matar” foi um dos mais importantes filmes do gênero “vigilante”, sujeitos que tomam a justiça pelas próprias mãos por reconhecerem a incapacidade do sistema judiciário de livrar a sociedade dos maus elementos. O filme, como se pode facilmente apreender, é um libelo fascista, que descreve a luta de “gente de bem” contra vagabundos que invadem e promovem a degenerescência dos valores americanos. Depois de muito treinar com a ajuda de um amigo ele encontra os meliantes e se inicia uma carnificina. Na luta, mesmo ferido, ele consegue matar um a um todos os criminosos e consumar sua vingança, até ser pego pelos seus policiais que estavam à caça do “justiceiro”
No hospital acontece a fala mais brilhante do filme. Os oficiais da polícia confidenciam a ele que houve uma diminuição significativa na taxa de crimes desde que ele iniciou sua busca por vingança. Sua prisão, portanto, de nada serviria à polícia. Os criminosos da cidade estavam com medo do “vingador”, e por isso refrearam suas intenções criminosas. Por este fato, os tiras decidiram se calar e não revelar publicamente sua prisão, preferindo deixar o mito vivo e à solta. Assim, ele foi avisado que nenhuma queixa seria dada e que poderia voltar para casa, desde que abandonasse a cidade para nunca mais voltar.
Ou seja: apesar de ser um criminoso ele cumpriu a importante tarefa de estancar a sangria de crimes na cidade. Um delinquente, um assassino frio e violento, um justiceiro cruel e um animal ferido, mas que cumpriu uma importante função social – a eliminação de vários criminosos e a instalação de um clima de medo entre os que ficaram. Como é fácil perceber, um filme típico da sociedade americana dos anos 70, assustada com o índice de criminalidade urbana, que pretendia justificar a violência tratando os policiais como heróis e os criminosos como uma casta de perversos e degenerados, acusando as leis de apenas ajudarem os meliantes e limitarem a ação da justiça. Suco de fascismo concentrado.
Aqui é que eu estabeleço minha analogia: Não estaria o Papa diante do mesmo dilema? “Eu sei que tudo isso é mentira, que são apenas histórias, que nada é passível de confirmação. Sei também da história terrível da Santa Sé, dos seus delitos horríveis, do poder e da corrupção. Sei dos malfeitos repreensíveis que colorem de sangue sua história. Todavia, reconheço a importância que estes mitos desempenham na coesão dos fiéis, em nome da Santa Igreja, de Jesus – o Cristo, e da Santíssima Trindade. Por entender isso, melhor calar-me diante do que sei, vejo e sinto. É melhor manter o mito vivo e à solta, porque isso exerce um controle moral sobre o rebanho“.
As séries americanas dos anos 60 e 70 que eu assisti na infância sempre passaram pano para o genocídio americano das população nativas, que veio associado à “Corrida do Ouro”, fluxo de deslocamento em direção ao pacífico anterior à guerra de secessão na segunda metade do século XIX. Entre os programas que eu assistia estavam Daniel Boone, Rin Tin Tin, Os Pioneiros, O Último dos Moicanos e muitos mais, sem mencionar os inúmeros filmes com John Wayne, Audie Murphy, Clint Eastwood, Randolph Scott, Glenn Ford, Lee Van Cleef e outros tantos artistas famosos de “bang-bang”, ou “western”. Todos eles poderiam ser caracterizados como filmes criados para a “exaltação da cultura branca europeia”.
Estas criações de Hollywood tinham como objetivo principal descrever os invasores brancos como “bravos e heroicos”, mas também para estereotipar os índios como violentos e traiçoeiros, ignorantes e bárbaros, ou para apresentar sua versão “civilizada”: o “bom índio”, que se tornou pacífico, subserviente, obediente e servil. Mingo (Ed Ames), o companheiro índio de Daniel Boone (Fess Parker) é o melhor exemplo de “índio bonzinho”.
Estas produções de Hollywood formaram toda uma legião de espectadores – toda a minha geração, que brincou de “Forte Apache” – manipulados pela visão colonialista americana, que escondeu durante mais de um século a barbárie e as matanças da “conquista do Oeste”.
Hoje, o que me resta é sentir vergonha de não ter percebido na época a maquiagem vergonhosa que impuseram à realidade…
I am sorry to say that right after another mass shooting in USA, but it’s obvious that this country is doomed, and the cause is capitalism and the focus on absolute autonomy of the self. How many more shootings are necessary for americans to understand that this is a systemic disease of american culture, and not a bunch of crazy individuals holding guns?
There’s no penal system big enough to jail all potential shooters in a country that creates a few billionaires while produces a growing population of poor and desperate people. Capitalism is the root of all evil. Without challenging the core of your inhumane system all you can do is weep and count the corpses.
Uma menina viciada em drogas foi morta em 1995 ao tentar furtar um toca-fitas de um carro, provavelmente para dar sustento à sua dependência. O matador desferiu 10 tiros de uma sacada no 12o andar de um prédio em frente ao testemunhar a tentativa de furto. Um dos tiros a atingiu nas costas, matando-se na hora. Essa fatalidade voltou a ser debatida nos jornais e uma matéria surgiu no UOL.
A estupidez maniqueísta que atinge boa parte da classe média – e de boa parte do judiciário – não leva em conta algo que seria até simples de entender, não fosse o emburrecimento determinado pelo punitivismo tacanho da mentes mais atrasadas: um sujeito pode ser vítima e algoz ao mesmo tempo, na mesma ação, no mesmo momento.
Cristiane Gaidies, Maçãzinha – a menina que foi morta – era vítima de sua doença (a drogadição) e de uma condição social brutalizante e desumana (pessoa em situação rua). Não há dúvida sobre essas condições, onde ambos os condicionantes surgem de uma situação econômica e social perversa, que produz “sujeitos-lixo”, descartáveis e inúteis. Maçãzinha era uma das milhões de vítimas do capitalismo que, para gerar opulência, luxo e conforto para uma parcela diminuta do mundo precisa manter uma gigantesca massa de deserdados date que a sustenta. Por outro lado, Maçãzinha estava realmente cometendo um crime de furto, provavelmente para sustentar seu vício. Não é difícil entender que ela era vítima e ladra, ao MESMO tempo.
Por seu turno, o sujeito que desferiu os tiros também foi vítima e carrasco na mesma ação. No caso, foi vítima de roubo, mas foi um carrasco brutal em sua ação de retaliação e/ou proteção da propriedade, agindo de forma absolutamente desproporcional e desumana. Da mesma maneira os policiais que mataram Genivaldo – por estar sem capacete, uma contravenção de trânsito – também usaram de força desmedida combinada com uma crueldade acima de qualquer dúvida. Genivaldo foi sacrificado pelo delito banal de não usar capacete.
O assassino de Maçãzinha hoje é advogado em SP
Existe um preceito claro nos sistemas jurídicos de todo o mundo que nos diz que “a pena não pode suplantar o delito”. Uma vida não pode ser perdida ou descartada por um toca-fitas, um prato de comida, um saco de batatas ou um automóvel. Coisas são passíveis de reposição, vidas jamais. Aceitar que uma jovem seja morta porque “afinal, estava furtando”, é deixar-se submeter a uma lógica da vingança, do vale-tudo, do “olho-por-olho” e uma regressão medieval, que só pode surgir em sociedades doentes.
Sem que possamos entender este dilema não haverá possibilidade de evoluir enquanto sociedade. Ela nos divide entre os que não têm e os que têm, e estes últimos teriam o direito até de matar para garantir suas “coisas”, suas propriedades, até porque nessa lógica desumana as coisas se sobrepõem às vidas, e sobre elas tem precedência. Um sistema assim construído leva ao desastre. Com o tempo, despojados do valor intrínseco de sermos humanos, o ódio nos fará reagir, bastando para isso uma faísca que detone a pólvora da indignação e das humilhações silenciosas.
Indignar-se com crimes absurdos como esses – de Maçãzinha e Genivaldo – não é suficiente, mas banalizá-lo é o roteiro para uma convulsão social.