Epistemicídio do Parto

Quando iniciei a atender partos de cócoras por estas bandas tal proposta era tratada como “parto de índio”. Colaborou para isso o fato de que o mestre Moyses Paciornik incentivava seu uso a partir da observação dos povos indígenas que mantiveram esta prática aqui no Brasil.

Todavia, o uso da expressão “índio” ou “indígena” era carregada de um preconceito óbvio e indisfarçável. Atender partos assim era aceitar a manutenção de práticas nativas que teriam sido suplantadas pelo rigor científico e metodológico que chegou aqui com os colonos brancos e europeus. Aceitar a posição de cócoras como uma postura materna válida para o período expulsivo significava a adoção de um paradigma já “suplantado”, que deveria ser abandonado como um anacronismo sem sentido.

É evidente – agora – que se tratava de um epistemicídio planejado, e a tentativa de garantir para a assistência branca e europeia uma narrativa hegemônica. Para mim ficou muito claro que agir em contraposição à prática submissa da litotomia (com a paciente deitada de costas na mesa) era também rebelar-se contra a monocultura do parto. Esta proposta era ofensiva aos olhos dos médicos daquela época, e todas as falácias eram usadas no sentido de tornar a postura de cócoras um absurdo e até uma violência.

Nunca tive dúvidas que adotar uma atitude contra-hegemônica seria difícil e passível de sofrer todo tipo de abusos e “bullying”, até porque mais do que tratar de uma manifestação cultural – como uso de medicamentos, rezas, rituais ou práticas esotéricas – o nascimento tem muitos outros significados ocultos, pois “implica, em um único evento, vida, morte e sexualidade”, como dizia Holly Richards. Apoiar a visão de pluralidade e diversidade no parto jamais poderia ser um ato impune.

Da mesma forma como a opção pelo modelo de parteria, o parto extra hospitalar, a homeopatia como alternativa primeira e até a abordagem da psicanálise, a mudança das “posturas de parir” visavam estabelecer uma barreira à homogeneização da assistência, uma contra narrativa que se opunha ao empobrecimento da compreensão de um fenômeno ímpar e subjetivo, carregado de elementos sexuais potencialmente transformadores.

Hoje em dia o reconhecimento da importância dessa variabilidade cultural já está mais presente, mas ainda é evidente a tendência da Academia e do ensino de obstetrícia para uma visão monolítica e fechada em suas práticas “científicas”. Entretanto, sem a compreensão do parto como evento SUBJETIVO e CULTURAL jamais teremos uma assistência plenamente satisfatória.

Veja mais sobre epistemicídios aqui.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Parto

Xavecos

A ideia de “cantadas ruins” serve para transas ruins também. Está menos no outro e mais na receptividade do sujeito. Criamos teorias e regras, rotinas e protocolos tentando colocar validade na arte, mas o segredo reside na fantasia subjetiva, na sintonia que a palavra produz com nossas imagens internas, com o eco dos nossos desejos e fantasmas.

Lembrei da história de uma secretária do Pronto Socorro onde eu trabalhava no início da faculdade. Não tinha mais que vinte e poucos anos, era uma moça muito simples e bonitinha. Chegou na segunda feira no Pronto Socorro muito acabrunhada. Enquanto tomávamos nosso café no refeitório eu lhe questionei como foi o fim de semana.

– Um desastre.

Perguntei o que havia ocorrido e ela me descreveu o drama. Havia brigado com seu namorado cabeludo roqueiro porque ele era bruto, grosseiro, machista, violento e envolvido com drogas. Também mulherengo. Havia dado um basta nessa relação havia duas semanas. Passados alguns dias aceitou o convite de um rapaz para irem a um barzinho conversar. Era um vizinho, trabalhador, conhecido de infância, estoquista num supermercado e que estudava administração à noite. Havia finalmente se declarado a ela ao saber do rompimento do seu namoro.

Assim fizeram. Todavia, a Deusa Álea – a Deusa dos fatos fortuitos – fez mais uma das suas travessuras. Durante o encontro, no barzinho lotado, apareceu o ex namorado. Furioso e indignado chega junto à mesa e, com o dedo em riste, iniciou uma rajada de acusações injuriosas. Logo se formou o bolo. As ironias iniciais deram lugar às ofensas mútuas entre os ex namorados. A tudo o amigo escutava tentando não se envolver, imaginando se tratar de uma questão que envolvia apenas os dois. No entanto o sarcasmo deu lugar às ofensas e essas deram espaço às ameaças explícitas. Foi quando o pretendente se levantou e disse ao cabeludo para que fosse embora, ou ele tomaria uma atitude.

Foi a deixa que faltava para a pancadaria começar. Rolaram sopapos, cadeiras na cabeça, socos, gritos estridentes, sangue no nariz e camisas rasgadas. A barbárie só terminou quando a polícia levou todo mundo para a delegacia onde passaram a noite.

– Lamento por você, disse eu. Você não merecia isso.

Ela fez uma expressão de desânimo e completou.

– Vou pedir demissão do Pronto Socorro. Não tenho mais clima para ficar nessa cidade. Conversei com ele e vamos morar na casa da sua madrinha no interior. Ela está vaga e vamos para lá ainda essa semana.

– Uma pena você ir embora. Vamos sentir sua falta.

Dei um abraço nela e me levantei da mesa do café para começar a trabalhar. Dei três passos em direção à porta e voltei a olhar para ela.

– Com quem você vai se mudar para o interior?

Ela deu um sorriso envergonhado e falou:

– Com o meu cabeludo querido, é claro…

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Vírus Maldito

Nosso erro reiterado: acreditar que o vírus é o nosso inimigo, que precisa ser destruído, porque é ruim e malévolo, dotado de uma consciência perversa que deseja nos destruir. Ele representa a desgraça e a crise que se abateu sobre nós. Mas, é certo que mais uma vez estamos olhando para o inimigo errado…

Antes foi a selva, os animais “perigosos”, as feras, as serpentes, as aranhas, as formigas assassinas, os tubarões e os mosquitos. Os rios que inundam, os furacões, as chuvas, a ventania e a seca. A natureza era a inimiga, que precisa ser controlada ou domada. Caso resistisse só nos restaria puni-la ou levar a cabo sua destruição.

Depois nosso ódio se voltou àqueles próximos à ela, os nativos, os indígenas, os povos originários. Os que tentam dialogar com ela sem a perspectiva do extermínio. É a sanha desenvolvimentista que a tudo deseja asfaltar, cimentar, ladrilhar, esterilizar.

A chegada da microbiologia, nos finais do século XIX se adapta maravilhosamente a uma ideologia anti-bios, contrária às outras formas de vida que, por definição, nos desafiam. Daí resultam os antibióticos, que destroem as vidas que nos ameaçam, enquanto as cidades avançam pelas matas com a mesma intenção, levando de roldão a vida e a diversidade biológica do planeta. Espécies inteiras são dizimadas, destruídas, aniquiladas. A vida perde, para o homem sorver, mais uma vez, a bebida inebriante da supremacia mortal.

Porém, é preciso ser justo; também quero me livrar desse vírus o quanto antes. Matá-lo até que não possa mais destruir tudo à sua volta. Todavia, não me refiro a estas minúsculas hélices de DNA que por hora se voltam contra nós, os humanos, em claro movimento de defesa contra as incessantes agressões.

Não, falo do vírus da ganância, do capitalismo, do modelo acumulador que ameaça nossa existência. Falo de nós mesmos, os humanos, infectados pelo consumo desenfreado e sem consciência ecológica. Falo do nosso desejo destrutivo de tudo abocanhar com nossa garganta infinita. Esse vírus que há muito nos acomete precisa ser destruído para que reste alguma esperança de sobrevivência para a nossa espécie, e para este pequeno planeta azul.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Pensamentos

Lost in translation

Há alguns anos eu fazia uma palestra num seminário para enfermeiras obstétricas em Beijing na China sobre pré Natal normal. Lá pelas tantas falei que se esperava “um aumento de pelo menos 9 kg para as gestantes em gestações eutócicas e sem nenhum transtorno”.

Como sempre, falei as poucas palavras e aguardei a tradução. Naquele congresso não estava minha tradutora oficial, Hanna Zhao, mas uma jovem chinesa que eu ainda não conhecia. Depois que ela traduziu minha fala escutei um “ohhhhhh!!!” em uníssono, seguido de risos contidos e sussurros, correndo por entre os assentos do enorme e moderno salão de conferências. Olhei para a minha tradutora e ela apenas me devolveu um sorriso constrangido.

Terminei minha palestra e fui procurar os amigos para tomar um chá durante o intervalo. No meio da multidão de enfermeiras miudinhas escutei uma voz me chamando freneticamente.

Era a minha tradutora. Estava acompanhada de minha amiga Meng Xu da escola de parteiras. Levava a mão à boca e tinha os olhos vermelhos. Perguntei o que havia ocorrido e ela, com a voz embargada, me explicou.

– Desculpe Dr. Ricardo. Eu me enganei. Por isso a reação das enfermeiras. Eu não sou da área da saúde, mas agora a professora Meng me explicou o que houve. Eu disse a elas que as crianças no seu país nasciam com no mínimo 9 kg de peso!! Eu não havia entendido que era o aumento de peso das mães!!! Desculpe, desculpe!!!

Disse a ela que não se preocupasse que eu explicaria na minha próxima fala. Mas até hoje imagino que alguma enfermeira chinesa pode andar espalhando por aí que as brasileiras têm pererecas gigantes capazes de parir crianças de até 9 kg…

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Os Heróis da Capa da Revista

Que absurdo.

Essa “babação de ovo” para a corporação é tremendamente ridícula e injusta com o contingente MUITO MAIOR de enfermeiras, obstetrizes, doulas, técnicas de enfermagem e do pessoal de apoio (limpeza, motoristas, porteiros, etc) que trabalharam – muitos com o sacrifício da vida – nessa pandemia. Sim, os médicos se sacrificaram também, mas não mais que os policiais todos os dias, os bombeiros, os lixeiros, os salva vidas, os eletricistas, os funcionários que colocam cabos de telefonia etc. Não há porque chamar de heróis aqueles que cumprem sua função com dignidade e honestamente.

Nem preciso falar sobre o apoio institucional e disseminado ao golpe de 2016 entre os médicos, o que os torna responsáveis pela agressão à democracia e a eleição de Bolsonaro.

Fica evidente que por trás disso está a exaltação politiqueira do Mandetta, um médico cuja vida foi dedicada à desvalorização do SUS e SÓ POR ISSO foi escolhido pelo Bolsonaro para liderar a pasta da saúde. Ele não é herói de nada, não passa de um ex-bolsonarista que tenta limpar seu currículo cuspindo (agora) no prato onde comeu.

Tudo isso para lançar um nome da direita limpinha para 2022.

PS: esse post não é para desvalorizar o importante trabalho dos médicos, mas para ressaltar a injustiça de premiar um grupo em detrimento dos outros profissionais – tão ou mais importantes.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina, Política

Cacarecos

Que tal um Natal com poucos cacarecos?

Pensem bem antes de dar presentes em festas comerciais!! No fim das contas pode sair muito caro. O stress, a exposição ao vírus, o custo inflacionado dos brinquedos a (in)utilidade do presente, etc. Será mesmo que vale a pena tanto esforço em troca de um carinho que pode ser recebido com a simples presença e a comunhão?

Não esqueça que o presente verdadeiro nessa negociação capitalista é o impacto no sujeito causado pela fugaz gratidão infantil. Ela dura poucos minutos e depois o apetite de afeto das crianças exigirá mais presentes, e assim indefinidamente. O desejo é infinito, os recursos não…

Meu conselho é que sejam fortes e resistam à pressão. Crianças que recebem presentes demais tornam-se insensíveis às coisas, aos objetos. É uma adição como qualquer outra; depois de um certo tempo só doses mais fortes conseguem produzir a endorfina necessária para o disparo da onda de prazer.

Não usem as crianças como lenitivos para seus traumas infantis. Graças às inúmeras faltas da infância é que desenvolvemos o desejo de conquistar algo mais na vida. “Toda conquista se faz a partir dos escombros de um fracasso”. Não permita que seus traumas prejudiquem seus filhos e netos. Acreditem no potencial deles em desenvolver criatividade, alegria e sucesso sem a necessidade de acumular coisas.

O Natal é o melhor momento para ensinar as crianças como suportar a frustração consumista.

Tenham todos um Feliz Natal com pouca coisa…

Veja outro post meu aqui

… e leia mais sobre o tema aqui

1 comentário

Arquivado em Pensamentos

Divergências

Tem uma tese que corre solta por aí que diz: “Quando eu era pequeno tomava todas as vacinas de boa e não perguntava o que tinha dentro e nem de onde vinham. Agora estamos todos metidos a cientistas de vacina”.

Bem, é certo que comportamentos paranoicos não ajudam a formular uma conduta sensata. Negar-se a usar um produto por puro preconceito com sua origem é quase sempre uma estupidez; deixar de usar algo baseando-se em memes ou fake news do WhatsApp também.

Porém, quando eu era pequeno, meu pai passava “Flit” pela casa para matar mosquitos e ninguém perguntava nada; todo mundo confiava nas empresas americanas que produziam esse veneno mortal. A gente tomava litros de anilina e glicose nos K-Sucos e achava apenas gostoso. A comida era cheia de aditivos e todo mundo comia de boa. A agricultura usava todos os tipos de defensivos tóxicos e todo mundo comprava sem perguntar nada. Quando uma nova indústria abria a gente comemorava, e nem ligava para a poluição. Quando o governo inaugurava uma estrada ninguém se importava com a destruição do meio ambiente; o mesmo com barragens e hidrelétricas. No tempo do meu pai matar passarinho era diversão.

Só os impertinentes reclamavam; só os inconvenientes escreviam textões em revistas que ninguém lia. Vozes diminutas…

As notícias da TV passavam pelo crivo de SEIS famílias, que controlavam TUDO que você poderia saber, e ninguém achava estranho. A gente comia embutidos, conservantes, saborizantes e muito açúcar e não havia muitas vozes para nos alertar dos perigos. A maioria iniciava o cigarro aos 14-15 anos como ritual de passagem, e poucas eram as vozes para alertar para o perigo do tabagismo. Na minha infância a gente dava leite de vaca para crianças pequenas e as tirava do peito, produzindo uma geração de sequelados que foram privados de leite (e afeto) materno, e ainda assim fazíamos concurso de beleza para bebês (obesos) tratados com fórmula artificial.

Só nos livramos dessas toxinas através de gente MUITO CHATA que apontava o dedo para os erros e para os equívocos e que chamavam a atenção para os desvios genocidas do nosso comportamento. Foi preciso escutar as vozes dissonantes para corrigir os erros e traçar novas rotas. Também foi necessário que milhões morressem para que a nossa indignação se transformasse em ação.

Não posso acreditar que abolir a consciência sobre os riscos do que ingerimos e injetamos possa ser errado. Criticar TUDO – inclusive as vacinas – é uma VIRTUDE do mundo contemporâneo. Por certo que muitos exageros vão ocorrer; é previsível que uma postura crítica possa descambar para a pensamentos persecutórios, “Nova Ordem”, “Illuminati”, paranoia “comunista”, “Globalistas”, “Ordem do Sião” e tanto mais; é o risco que temos que correr para disseminar o contraditório e encontrar soluções. Todavia, não é possível admitir que “pensar menos” sobre um tema e aceitar acriticamente determinações vindas de grandes corporações (também elas com seus interesses específicos) possa ser a saída para os dilemas que estamos agora enfrentando.

A única fórmula que reconhecidamente funciona para bloquear desinformação é produzir MAIS informação, isenta e de qualidade, e não criticando as divergências – naturais e benéficas – ou desacreditando sistematicamente tudo o que se contrapõe à narrativa hegemônica.

Não será obstaculizando a crítica que construiremos uma sociedade mais equilibrada e saudável.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Bombas de Tempo

Esta é uma história dos meus tempos de estudante.

Uma paciente chegou ao hospital com intensas dores abdominais. Vinha do interior trazida pelo marido e tinha entre 60-65 anos. O abdome era muito volumoso e reagia ao toque. Todo ele era timpânico e o som lembrava os atabaques africanos. “Tum, tum, tum”. Os exames de sangue estavam normais, mas o raio x foi definitivo: bolhas gasosas enormes por todo o intestino. Fechado o diagnóstico: obstrução intestinal aguda, por volvo (intussuscepcão) ou torção. O famoso “nó nas tripas”.

Foi levada com rapidez ao bloco cirúrgico onde foi preparada a sala para a cirurgia. Quando fui pintar sua enorme “pança” com solução degermante pude ver a longa cicatriz longitudinal que nascia acima do púbis, desviava do umbigo e se aproximava do osso externo. Por certo não era a primeira vez que ela enfrentava um bisturi, e rezei para que desta vez tivesse sucesso como das outras vezes.

Tão logo o cirurgião passou a lâmina do escalpelo abrindo o abdômen as alças intestinais pularam para fora, como balões de hélio de uma festa surpresa liberados de uma caixa. A tarefa agora era percorrer sua longa extensão até encontrar o ponto obstruído.

Era uma torção. No emaranhado das “tripas” havia inúmeros filamentos brancos entre cada volta do intestino, que faziam as suas paredes externas aderirem umas às outras, tornando a limpeza difícil e a investigação demorada.

Breubas“, falou o cirurgião. “Muitas breubas. Foi por isso que ela torceu esta alça“, disse ele mostrando o ponto exato em que o intestino estava colapsado.

Breuba” era o apelido dado às aderências internas do abdômen, relacionadas aos processos inflamatórios prévios e criadas pelo organismo como elementos de reparação. São as “cicatrizes internas”, filamentos de fibrose que se grudam nas alças do intestino dificultando a cirurgia.

Depois de desfeita a torção terminamos a cirurgia com sucesso. No dia seguinte fui visitar a nossa paciente no quarto e lhe perguntei qual a razão da cicatriz antiga que ela tinha no abdômen. Estava na ficha, mas eu não tinha acesso a ela.

– Ahn doutor, aquela é a cicatriz das cesarianas. Tive quatro delas há muitos anos na minha cidade. Os bebês ou estavam enforcados no cordão ou então a placenta estava muito velha. Nunca consegui ter filho de parto normal.

Sorri das velhas desculpas furadas para as cesarianas mas me chamaram a atenção as circunstâncias do caso. Aquela senhora chegou em mau estado ao hospital, na iminência de uma ruptura das alças intestinais. A causa dessa emergência foi um abdome cheio de cicatrizes internas fibróticas que prejudicavam o trânsito intestinal e produziram, por fim, uma torção quase fatal das alças. Na origem do seu quadro estavam antigas cirurgias provavelmente mal indicadas (a se crer no relato da senhora), feitas apenas por conveniência do cirurgião e por um genuíno desprezo pelo processo fisiológico de parir. Intervenções feitas há mais de três décadas – e sem real necessidade – foram as causadoras dessa emergência, que poderia ter custado a vida da paciente.

Muitas de nossas ações médicas tem efeitos em longo prazo. O dietilbestrol causa câncer de células claras de fundo vaginal em adolescentes cujas mães o utilizaram na gravidez; mais de 10 anos de distância separavam a causa do efeito. A ingestão de algumas drogas e muitos procedimentos são “bombas de tempo”, cujas manifestações ocorrem até décadas mais tarde. O mesmo se pode dizer dos eventos psíquicos que, surgidos na idade pré-verbal, produzem manifestações para além da vida adulta. Portanto, para afirmar que uma intervenção é segura não basta apenas sobreviver a ela pois suas repercussões podem levar muitos anos para serem percebidas, e muitas vezes sequer conseguimos reconhecer seu fino laço de causalidade.

Mas é certo que, caso a nossa intervenção não tivesse sucesso, ninguém teria coragem para colocar a verdade no atestado de óbito de uma sexagenária:

“Causa da morte: cesarianas.”

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Paulo, o Falsário

Esta é a ideia que eu faço de Paulo, como foi brilhantemente descrita em seu diálogo com Cristo no livro de Níkos Kazantzákis vertido para o cinema por Martin Scorcese – “A Última tentação de Cristo”. Em última análise, Paulo é a razão por sermos cristãos. Foi dele a genialidade de vender a mensagem crística para o Império. Ele foi o vendedor de uma obra cuja suprema genialidade estava na esperança para os pobres e os desvalidos, garantido a felicidade para o “outro mundo”, conforme expresso no “Sermão da Montanha”, a grande síntese da mensagem de Jesus.

Sim, ele por certo modificou a história daquele nazareno que tentou desafiar o Império Romano falando de judaísmo para judeus e pregando a liberdade de seu povo. Entretanto, é muito provável que as palavras do “Cristo real” jamais ultrapassassem as barreiras do Jordão ou do Mediterrâneo. Afinal, quem daria atenção a um Messias fracassado, incapaz de libertar seu povo do jugo romano – conforme determinavam as escrituras – e que morreu humilhado e sozinho, apoiado apenas por uma dúzia de fanáticos? Quem lhe daria ouvidos quando sua voz estava misturada àquela de 4 centenas de outros autoproclamados “Messias” que pereceram sob a espada de Roma?

Ora… talvez Paulo tenha visto o que os outros não viram, nem mesmo o Cristo. Paulo percebeu a profundeza e o sentido político das palavras expressas no Sermão feito no Monte das Oliveiras. Ele entendeu que o Império Romano se aproximava de seu ocaso e que os povos, um após o outro, precisariam de uma mensagem e, porque não, uma religião que os conduzisse em direção aos seus ideais libertários.

Paulo de Tarso foi ao coração do poder para vender sua mensagem aos pobres, aos coxos, aos desamparados e aos desvalidos, e por isso- e não pelo caráter revolucionário de Jesus se enfrentando com o poder local – sua mensagem ganhou o mundo e sobrevive entre nós até hoje. Se Paulo era um falsário, um arrogante, mentiroso e dissimulador não tenho como contestar. Entretanto, é forçoso reconhecer que é dele a responsabilidade pela existência do cristianismo.

Lembro por fim da frase espirituosa sobre o valor das obras: “Qualquer um de nós pinta um quadro de um milhão de dólares, mas é preciso ser um gênio para vendê-lo por esta quantia”.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Liberais

Há alguns anos eu conversava com o pediatra e epidemiologista Marsden Wagner (já falecido) enquanto tomávamos café no intervalo de uma conferência. Mostrei a ele a manifestação de um professor da Faculdade de Medicina da minha cidade sobre parto humanizado, cheia de críticas vulgares e posturas sem embasamento.

– Um “liberal”, disse ele. Estes são sempre os mais perigosos.

Pedi que me explicasse o que queria dizer com isso.

– Vou descrevê-lo, mesmo sem tê-lo visto jamais. Ele é sério, educado, afirma que mudanças são necessárias, que os médicos realmente abusam das cesarianas, que é preciso melhorar o ensino de obstetrícia, que os médicos de hoje não querem mais atender partos, que a arte obstétrica está acabando e que os médicos atuais “atrofiaram” suas habilidades de atender partos pélvicos e gemelares. Ele se posiciona contra condutas baseadas em “autoridade” e cita com frequência estudos e metanálises, em especial a Biblioteca Cochrane.

– Exatamente, disse eu. Você o descreveu muito bem.

Marsden continuou.

– Eles são os liberais da medicina, Ric. Acreditam que é possível “ajustar” o modelo hegemônico, sem mudar sua essência opressiva. Acham que as falhas encontradas (como o abuso de cesarianas, violência obstétrica, etc) não são devidas a um paradigma equivocado, mas relacionadas ao mau uso do modelo atual. Por isso eles falam em melhorar o atendimento, mas não aceitam sua reformulação. Aposto como ele combate os 3 pontos nevrálgicos do modelo de parteria:

1- Atendimento por parteiras profissionais aos partos de risco habitual,
2- Casas de Parto e
3- Parto Domiciliar.


– Acertei?

– Sim, este é exatamente seu discurso. Sempre fez de tudo para boicotar o atendimento ao parto realizado pela enfermagem no hospital escola, além de combater todas as formas de parto extra-hospitalar.

– Eles são iguais no mundo todo, meu caro. São gentis, estudiosos, avançados e se diferenciam da “velha guarda” dos professores. Entretanto, acreditam que é possível mudar a assistência deixando as pacientes atreladas ao velho paradigma – que garante aos profissionais relevância e importância social – mantendo gestantes coisificadas, tratadas como objetos e não como sujeitos de seus partos. Para eles o protagonismo reservado ao médico é o limite. Avançar para além disso seria uma perda inaceitável de controle, além de um sério risco de ver desaparecer toda a respeitabilidade conquistada.

Lembrei disso hoje ao debater sobre os liberais de esquerda, aqueles que acreditam na possibilidade de “domesticar o capitalismo”, humanizando-o e eliminando seus “exageros”, sem reconhecer que é da essência do capitalismo a divisão em classes e a exploração de uma pela outra.

O mesmo ocorre com os liberais da atenção ao parto e nascimento, os quais acreditam ser possível produzir avanços e melhorias mantendo a mesma lógica da assistência, a mesma hierarquia rígida e o mesmo sistema de poderes centrado no médico. Todavia, sem a garantia do protagonismo à mulher conquistaremos apenas a “sofisticação” da tutela sobre elas exercida há milênios pelo patriarcado. A verdadeira mudança profunda será possível com esta garantia e o entendimento que o nascimento só poderá ser verdadeiramente seguro se for com autonomia e em liberdade.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais