Monstros

É claro que não gostei da indicação do novo Ministro da Saúde, o Dr. Nelson Teich, e tenho várias queixas à sua postura ética diante dos dilemas da medicina. Entretanto, a publicação de uma entrevista com a filha de uma ex paciente sua – que faleceu de câncer – chamando-o de “monstro” é a pior forma de jornalismo que existe. Oportunista, desonesta e sensacionalista. A imprensa independente deveria ser o exemplo de ética jornalística e não repetir o erros do jornalismo corporativo.

Esse tipo de entrevista com familiares de pacientes terminais é pura desonestidade. A morte de um ente querido – e as emoções que a envolvem – nos fazem perder a noção adequada da realidade. Os médicos que lidam com essas situações – em especial os oncologistas e médicos de UTI – jamais dirão as palavras que os pacientes querem ouvir. Se ele for positivo e otimista será acusado de “enganar a família com falsas esperanças”. Se ele disser o que está ocorrendo com frieza e realismo será chamado de “monstro insensível”. Minha experiência com essa questão é de que não há saída. O médico pode controlar o que vai falar em uma situação trágica como a morte de um paciente, mas jamais poderá controlar como o familiar recebe a mensagem e nem como vai reagir diante de seus próprios sentimentos diante dessa perda.

Em momentos de dor o sentimento preponderante é a culpa. Culpa por não ter sido bom marido, bom filho, boa esposa, bom amigo, etc. Observe: as pessoas mais agressivas e fora de controle num enterro são os parentes mais distantes e com a relação mais conflituosa com o falecido. São essas pessoas que frequentemente desviam suas culpas – reais ou imaginárias – para a figura do médico, imaginando assim diminuir a sua carga. Por essa razão as declarações de parentes de pacientes são envolvidas em paixões e carecem de racionalidade e valor absoluto. Não há dúvidas que existem falhas, por vezes grosseiras, por parte dos médicos atendentes, mas essa culpa jamais será estabelecida escutando apenas a voz de uma familiar diretamente envolvida.

Publicar esses depoimento carregados de mágoa é desonesto, um ataque baixo e que demonstra uma falha ética do veículo de imprensa.

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Futebol Raiz

Uma vez, no final dos anos 70, peguei o ônibus T2 para visitar uma namorada, que na época que morava perto da Aparício Borges (onde estará ela? que saudade…), e de pé, encostado na parede do fundo, estavam dois jovens negros conversando. Reconheci um deles de imediato: era o zagueiro titular do Inter.

Sim, um jogador de Futebol do Internacional transitando de ônibus pela cidade. Lembro de escutar um fragmento da conversa em que ele dizia “Parece que o Bahia está interessado no meu passe“. Quando eu ia para o colégio passava no edifício da esquina da Botafogo com Getúlio, onde moravam o Carpegiani e o Tovar, meio campistas do Inter. A gente conhecia inclusive o “opalão” de um deles, que ficava estacionado na frente do prédio. “Um dia vou ter um Opala”, pensava. Nunca tive.

Os jogadores hoje moram em condomínios fechados escondidos da população. Um jogador do meu time – o Grêmio – com 20 anos de idade, pegou seu primeiro salário gordo e comprou uma Ferrari. Sim, uma Ferrari. Conseguem imaginar pegar um ônibus (ou um Uber “juntos”) com uma estrela milionária do futebol atual?

A culpa não é dos jogadores, por certo, mas é um reflexo da nossa neurose. O salário do Neymar reflete a nossa doença, nossa angústia. Pagamos para que eles gozem por nós…

Na minha infância eu assistia muito futebol pela TV. Geraldo José de Almeida (olha lá, no placarrrr), Silvio Luís (pelo amor dos meus filhinhos…), Celestino Valenzuela (ba – lan – çou a rede, alegria da torcida chama-se…). Mas era tudo preto e branco mesmo, imagem borrada, TV com “fantasma”. Cara… as crianças hoje não sabem o que é imagem com fantasma. Também nunca colocaram Bombril na ponta da antena. Jamais assistiram futebol numa TV Telefunken ou Colorado RQ (a TV do Rei). E não viram jogadores de futebol que se pareciam com pessoas normais, com carros e namoradas comuns e com um endereço corriqueiro.

Futebol raiz, acreditem, era muito mais legal

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Pura Histeria

A paciente chegou aos gritos no hospital e em vão eu tentava acalmá-la. Não a culpo. Para alguém com dor excruciante chegar em um hospital e a primeira pessoa que se aproxima é um estudante de medicina com 22 anos e cara de 18 não pode ser uma recepção das melhores.

“Estou com uma gravidez ectópica rompida!!”, gritou ela. “Estou com sangramento interno e preciso de uma cirurgia urgente!!” Imediatamente pensei se tratar de uma paciente que também era médica, mas nem tive tempo de lhe perguntar de onde vinha esse diagnóstico na ponta da língua. Enquanto gritava e se remexia freneticamente na maca o médico de plantão chegou para avaliar o caso.

“Pode chamar a equipe. Sei que vou precisar de uma cirurgia”, disse ela ao velho obstetra plantonista. O médico aproximou-se com a mão de seu abdome e ela reagiu retirando-a com energia e curvando o corpo.

“Não me toque!! Eu sei o que tenho!! Já tive uma gravidez ectópica no passado. Sei do que estou falando”.

“Você é da área da saúde?”, perguntou o obstetra.

“Sou costureira, mas sei o que estou sentindo”, disse ela sem meias palavras. “Mexa-se doutor, estou com dor!!!”

Levamos a paciente para a sala ao lado. O obstetra me disse que faria uma punção de fundo de saco vaginal. A presença de sangue nos daria a informação de que havia hemorragia interna, sangue livre na cavidade.

Enquanto era colocada na posição ginecológica o velho obstetra pisca o olho e me diz “Vamos ver até onde vai essa histeria”.

Paciente posicionada, seringa, agulha, espéculo. A punção imediatamente encheu a seringa de sangue vermelho vivo. Ele me olhou incrédulo e disse, sussurrando: “Chame o anestesista e já vá para o bloco. Pode ir se escovando”.

Abrimos o abdômen que trazia as vísceras empapadas em sangue. A trompa esquerda mostrava uma ruptura, do tamanho de uma pequena moeda. Fizemos a hemostasia, estancamos a hemorragia, lavamos o abdome, secamos e retiramos o sangue da cavidade. Fechamos a cirurgia e iniciamos a reposição de sangue. A paciente despertou alguns minutos depois do último ponto, olhou nos meus olhos e disse, ainda confusa e sonolenta: “Obrigado por ter acreditado em mim”.

Mal sabia ela que eu não merecia o agradecimento. Eu não havia acreditado em sua história. Achei que era “H”, ou “HY”, “Piti”. Apostei que a seringa viria vazia. Achei mesmo que era “pura histeria”. Pensei que uma dor por gases presos a havia feito recordar a experiência prévia que teve com uma gravidez ectópica rota, e isso a fez entrar em desespero. Parecia um paroxismo agudo de ansiedade, histriônico, que não teria relação com um quadro clínico compatível.

Ledo engano. Seu quadro era clássico. O exame realizado confirmou a sua suspeita, e não a nossa. No dia seguinte, quando tomava café para voltar para casa, o velho obstetra me encontrou no refeitório acanhado do hospital e disse: “O fato de ter cara, focinho e trejeitos de histeria não deve nos cegar para as alternativas. Nunca se deixe ludibriar pelas aparências”.

Verdade, mas hoje eu acho que a melhor frase seria: “Escute as mulheres. Elas sabem o que ocorre nas suas entranhas, mais do que nós mesmos. Nenhum equipamento pode ser tão preciso quanto a experiência que a dor nos oferece”.

Lembrei dessa história, ocorrida no início dos anos 80, porque ela guarda um detalhe interessante: o diagnóstico da hemorragia interna foi feito “à moda antiga”, com a punção do fundo de saco de Douglas. Hoje em dia faríamos uma ecografia de urgência, e imediatamente levaríamos a paciente para a cirurgia. Entretanto, na pequena cidade na periferia da capital onde eu me encontrava não havia nenhum aparelho de ultrassom. Mesmo na capital, não havia mais do que 3 ou 4. Nossa única chance era o modelo ancestral, aprendido com os médicos de épocas passadas.

Essa, por certo, teria sido uma ecografia médica, com claras indicações para sua realização. Entretanto, a maioria das ultrassonografias feitas nas clínicas de diagnóstico por imagem de hoje são do tipo “recreativas”, uma criação do final do século XX e início do XXI. Elas servem como “diversão para toda a família”. Aliás, deveria ser colocado na porta da sala de ultrassom uma lista de piadinhas de pepeca e piupiu que serão inevitavelmente usadas durante o exame. De minha parte, fico feliz que tenham adotado o termo “ultrassom recreativo” que eu criei há muitos anos e que, junto com o ultrassom “médico” e o ultrassom “sedativo”, compõem os tipos básicos deste exame.

Eu guardo respeito pelas tecnologias, até porque elas são um apanágio da criatividade humana. Conheci a medicina antes que o recurso ultrassonográfico estivesse à disposição dos profissionais. Conheci os pré-natais quando o sexo dos bebês ainda era um mistério, e o gênero do bebê por chegar era motivo de piadas e gracejos dos cunhados. Apostas de cerveja, sonhos com baús e serpentes e alegria esfuziante pela surpresa no dia do nascimento. Meus filhos nasceram como a última leva de bebês cujas mães chegavam ao hospital sem o nome bordado pela avó nas roupinhas novas.

Hoje, essa realidade desapareceu, dando espaço para um mundo sem magia, sem presságios, sem apostas, sem dúvidas e sem surpresas. Os médicos tem a chave, uma varinha de condão tecnológica que nos conta o final do livro sem que seja preciso ler até o final.

Na atualidade a decisão de NÃO fazer ecografias de rotina em uma gravidez de risco habitual é uma experiência de isolamento, mas também uma afronta aos poderes instituídos. A mulher que decide se abster de fazer ultrassons (minha nora teve essa coragem) é tratada pelas outras mulheres como “louca” ou “egoísta” – por pensar em si quando deveria “se preocupar com o bebê”.

Os médicos ficam estupefatos diante dessa recusa, muitas vezes se tornam agressivos, e fazem críticas – sutis, veladas e por vezes explícitas. A obrigatoriedade de se adaptar a esse modelo tecnológico invasivo é sufocante. Por isso muitas mulheres me disseram, nos últimos anos, coisas como: “Eu não quero e sei que não há necessidade alguma de fazer este exame. Sei também que não há evidências para seu uso de rotina, mas não aguento mais a pressão de todos, da família, do marido e das amigas. Desisto.

Como não entender a angustia gerada por toda essa pressão?

Agora as mulheres grávidas não estão fazendo mais tantas ecografias de rotina por causa da pandemia, entretanto tenho dúvidas se daqui uns meses – com milhões de ecografias a menos e resultados perinatais iguais ou até melhores – as pessoas vão conseguir ligar os pontinhos e perceber o quanto de dinheiro é jogado fora com exames inúteis empurrados goela abaixo de médicos e pacientes por uma mitologia de transcendência tecnológica que jamais comprovou ser imprescindível como exame de rotina para gestações de risco habitual.

Estarei esperançoso para que a pandemia de Covid possa nos fazer reavaliar a aplicação das “tecnologias de separação” custosas e sem evidências a lhes dar suporte. Se é verdade que ainda existe espaço para o uso desta tecnologia, como no caso da costureira e sua gestação ectópica, é necessário reavaliar o quanto esta intromissão no espaço sagrado da intimidade do ventre traz de perdas para as mulheres. Do alto de quase quatro décadas pensando sobre o tema eu me pergunto quando é que as vamos perceber o quanto perdem as gestantes cada vez que sua intimidade é devassada pela tecnologia? Quando vamos nos dar conta que o abuso dessas ferramentas expropria delas o controle sobre seus próprios corpos?

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Medicina e arte

(a partir de uma conversa com Eva Saints)

Lembro de ter comentado que o uso da máscara cirúrgica satisfaz muito mais a nossa fantasia da proteção do que a própria efetividade do recurso. Nós nos sentimos protegidos, mesmo que essa sensação não tenha um suporte muito claro em evidências. Durante muitos anos usamos máscaras para a atenção ao parto normal e só com muito esforço e convencimento reconhecemos sua inutilidade na assistência ao parto vaginal. Da mesma forma os médicos indicam repouso numa situação de ameaça de aborto porque sabem que, caso o aborto efetivamente ocorra, é natural que os pacientes – premidos por suas próprias culpas imaginárias – tracem uma linha entre não repousar e abortar. Ao fazerem isso resolvem dois problemas: estabelecem uma causalidade para sua tragédia pessoal e encontram um culpado fácil e próximo para sua desgraça: o médico descuidado que não enfatizou o repouso. Enchem a boca para dizer “erro médico”.

Os médicos sabem que em casos de aborto muito inicial as causas quase sempre são desacertos genéticos incompatíveis com a vida. Nem a bênção do Papa poderia criar um embrião que sequer chegou a se formar por falhas na conjugação dos gametas. Por esse entendimento, o sangramento seria a limpeza natural de um projeto que não seria passível de continuação.

Entretanto, mais do que simplesmente tratar o inevitável há que se reconhecer os medos e angústias que dominam um cenário de perda – como os abortos ou os óbitos fetais precoces. Acima de tudo o paciente que sofre perdas se acha culpado pelos que causou a si mesmo e aos que o amam. Essa culpa é insuportável para a maioria, e a forma mais fácil de se livrar dela é através da “diversão”, ou seja, desviando a responsabilidade da sua perda, livrando-se do peso da culpa através do encontro de um culpado outro. Por isso mesmo, por saberem da natural propensão humana de autoproteção, os médicos SEMPRE vão procurar se proteger diante da inevitável busca que os seres humanos fazem pelos culpados – verdadeiros ou não – das suas mazelas.

Assim, mesmo sabendo ser uma recomendação inútil, ele indica repouso absoluto. Melhor determinar uma ação desnecessária – e por vezes enfadonha – do que suportar os dedos injustamente apontados para si.

Há um exemplo ainda mais curioso de práticas “mágicas” que aprendi com os cirurgiões plásticos. Eles sabem muito bem que o resultado das suas cirurgias dependem – em grande monta – das características subjetivas de cicatrização dos seus pacientes. Mesmo com a mão mais qualificada e a técnica mais apurada e moderna, nenhum cirurgião está livre de encontrar um queloide (cicatriz grossa e larga) em seus clientes. Desta forma, para evitar serem acusados de má prática usam de um estratagema esperto.

Depois da cirurgia – por exemplo, cirurgia de redução de mamas ou uma abdominoplastia – eles fazem uma recomendação absurda e praticamente impossível de cumprir: pedem para a paciente ficar 14 dias imóvel na cama sem se mexer, fazendo inclusive suas necessidades com auxílio de uma “comadre” e um “papagaio” (coletores de fezes e urina).

Essa é uma determinação praticamente impossível de cumprir para um paciente que se submeteu a uma cirurgia simples e não cavitária como as descritas acima. Depois de 3 dias deitado, e não sentindo dores fortes, a paciente normalmente vai se levantar – mesmo com auxílio – e vai fazer suas necessidades de forma autônoma – e digna, pois não sente nenhuma necessidade de se manter imóvel em uma cama, o que por si só já é uma “tortura”.

Quando volta ao médico para revisão, diante de qualquer problema de cicatrização, o médico vai imediatamente questionar: “Mas diga lá, quantos dias ficou imóvel?”

O paciente constrangido responde: “Ah. Doutor, eu fiquei 5 dias (mentira, ficou 3) mas depois não aguentei e fui fazer xixi no banheiro, que fica bem pertinho“.

Ahhh“, grita o médico sem esconder a euforia. “O que foi que eu disse? Não obedeceu minhas recomendações e agora aconteceu isso“.

Pronto, o médico está livre de qualquer acusação e o paciente baixa os olhos, sentido para si uma culpa que não é de ninguém, mas que o médico espertamente desviou antes que pudesse acertá-lo.

A medicina, é muito mais a arte da compreensão das fantasias e angústias de seus pacientes do que a ilusória busca por uma droga salvadora.

PS: é claro que uma comunicação livre e honesta entre o paciente e seu médico poderia evitar boa parte desses jogos e dessas performances. Entretanto, nossa medicina procura se aprofundar muito mais nas tecnologias de afastamento (exames, imagens, drogas, cirurgias) do que nas práticas que promovem a conexão íntima e profunda entre o doente e seu cuidador. Se esta ligação entre os personagens desse encontro fosse entendida como primordial, as consultas que hoje duram não muito mais do que 15 minutos passariam a durar mais de uma hora, mas isso se choca com o tempo que os médicos aceitam despender para cada con$ulta. As lacunas de explicações que se formam nesse contato são preenchidas por determinações fantasiosas, homogeneizantes, por vezes inúteis e que não respeitam a unicidade de cada sujeito, o que deveria ser a alma de todo encontro médico-paciente. Sem conexão e vínculo não existe uma verdadeira e profunda medicina, apenas o exercício alienante e ilusório do paciente em colocar no outro a glória ou o fracasso de sua cura.

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Gurus e súditos

O surgimento de gurus pressupõe (ou estimula) a supressão temporária (nos casos graves, definitiva) do senso crítico. De Jesus a Lula a veneração aos ídolos esvazia as almas dos seguidores. Esses que por ora estão nos portais do inferno, como João de Deus, Abdelmassi, Elizabeth Holmes, etc já tiveram legiões de fãs. Cuidado, ponderação e canja de galinha continuam não fazendo mal à ninguém…

Por essa razão os Estados democráticos no mundo inteiro só homenageiam seus heróis postumamente, para evitar surpresas. Mesmo assim, nem isso é suficiente para evitar dissabores, como provam as estátuas derrubadas do general Lee, do Lênin e do Stálin e – se Deus quiser – um dia será a vez da derrubada do monumento aos genocidas carniceiros bandeirantes.

Quase todos os youtubers são muito queridinhos quando comparados com qualquer terraplanista e negacionista, mas qualquer sujeito em evidência que se põe a falar de ciência lá pelas tantas começa a misturar ciência com autoridade acadêmica – que não são coisas necessariamente unidas. Aí mora o perigo, quando se iludem com a ideia de que a ciência é um ente “imaterial e positivo“, infenso à veleidade humana, e não uma entidade criada e conduzida pela alma corrupta dos homens.

Mais cedo ou mais tarde começam a dar pitaco em assuntos controversos. Muitos disseminadores de ciência se perderam por isso. Um deles, muito famoso por tratar de questões da filosofia, resolveu falar de comunismo e trocou os pés pelas mãos, e desse assunto só sai besteira. As luzes da ribalta danificam a maquiagem. Espero que não a de Rita com Hunty, mas até dela eu guardo distância segura para não me entusiasmar demais com o ineditismo e a qualidade ímpar do seu personagem.

Não seria a primeira vez que um personagem em evidência larga uma declaração ao estilo “…quem acredita nessas coisas são os mesmos que não tem fé nas vacinas, acreditam em homeopatia e fazem parto em casa“. E aí? Como fica o (meu) nosso amor? “Eu me desiludi com ele…” diz a moçoila, mas aí o vovô Ric lembra que para se desiludir é preciso primeiro…. se iludir.

Nesses momentos em que é fundamental cativar uma audiência segura é que aparece o ideólogo por trás do cientista – algo que todos carregamos. Esse erro muitos cometeram com aquele “médico do Fantástico”, menos eu que conhecia seu passado de desprezo pelo parto normal e sua visão preconceituosa com a medicina suplementar – da acupuntura, passando pela fitoterapia, até chegar à homeopatia.

Por estas razões eu acho bom ter cuidado sempre. Aliás, o cuidado que sempre pedi que as pessoas tivessem comigo mesmo, mas que não vejo ser estimulado por algumas “estrelas” que estão em evidência. Antes de escrever “mito” pra algo bonitinho que eu escrevi lembre que ali na esquina vai fatalmente se decepcionar, porque eu não tenho compromisso algum com a tarefa de agradar prosélitos.

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(In)Dignidade Médica

Entrei nesse grupo – incluído por alguém – há pouco menos de 10 anos e pude testemunhar o pior da espécie humana nos 15 minutos que consegui permanecer naquele antro pestilento de reacionarismo e racismo. Os médicos – como grupo e como corporação – são a escumalha fascista da sociedade. Sua representação política (CRMs e CFM e até os sindicatos) são fiéis representantes do que existe de pior na sociedade brasileira.

O racismo, o fascismo, o preconceito de classe, a arrogância, o preconceito de gênero (as agressões contra Dilma eram misóginas e nojentas) e o TOTAL descompromisso com a saúde da população estão representados nestes órgãos. Só o que vale é a proteção do quinhão, dos privilégios, das vantagens e dos benefícios. Sanguessugas do povo, aproveitadores e enganadores.

E não digo isso agora; minha visão negativa da estrutura dessa corporação tem a idade da minha inserção nela. “Dignidade Médica” é apenas a ponta de lança mais desavergonhada do fascismo da nossa classe médi(c)a. Puro lixo.

Sim, há muitos médicos de qualidade técnica, ética e moral, mas nenhum nesses lugares.

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Sexismo

Alguns ataques pelas redes sociais a personagens ligados ao movimento do parto humanizado se referem a um velho ranço da turma da humanização do nascimento com a presença de homens nas suas fileiras. Essa mescla contemporânea de humanização + feminismo abriu as portas para esse tipo de rejeição. Sofri isso de forma velada desde o primeiro post que publiquei na Internet há mais de 20 anos, e vejo isso até hoje (o que me garantiu o recorde mundial de blocks: mais de mil). Evidentemente que eu não posso dizer que tal circunstância é “culpa” do feminismo, assim como as cruzadas não foram culpa do cristianismo – muito menos do próprio Cristo. Entretanto, o uso inadequado do feminismo como projeto de silenciamento do masculino – em todos os níveis – é o parefeito de um projeto que, por sua origem, deveria promover a escuta de todas as vozes, sobrepujando em definitivo as barreiras de gênero.

A rejeição aos homens no debate sobre o nascimento sempre foi um fato muito evidente para mim, expressando-se através de uma constante desautorização e pelo desmerecimento de falas. Essa questão deveria ser abertamente debatida, se é que o movimento de humanização se deseja plural e aberto, e não um mero braço do movimento feminista mais radical.

Se é verdade que os homens estão alijados de falar DE parto, pois que anatomicamente estão impedidos a isso, (e aqui não vou tratar da questão trans), nada os impede de falar SOBRE o parto e por cima de suas experiências profissionais e/ou pessoais com o evento. Calar a voz de especialistas em parto como se sua masculinidade fosse um defeito é um ato criminoso.

Acho também que essa é uma questão menor, por certo, mas que vejo como importante de ser tratada nesse ambiente restrito. O mais importante no atual momento é o estrelismo, que mais uma vez nos acomete. A exaltação de egos, dos Messias da ciência, de salvadores e de “mensageiros da verdade científica” está produzindo uma autofagia absolutamente inútil e desnecessária. Ao invés de reconhecermos a nossa fragilidade diante de uma pandemia sobre a qual MUITO POUCO OU QUASE NADA sabemos ficamos destruindo reputações on line, atacando colegas e mandando “indiretas” como adolescentes.

Sei que essa minha opinião não é compartilhada por muitas pessoas, e boa parte chamará esse desabafo de “mimimi“, curiosamente a mesma expressão usada secularmente para as ilustrar queixas justas das mulheres a respeito dos abusos sobre elas cometidos. Não esqueçam que os ataques misóginos contra a presidenta Dilma foram tratados com o mesmo desdém, chamados de puro chororô de perdedor. Entretanto, também é importante olhar com os olhos dos milhares de homens que trabalham com o parto, de enfermeiros, obstetras, parteiros e pediatras que gostariam de participar desse debate, mas que são afastados dele pelos constantes ataques – por vezes sutis, muitas vezes indiretos – mas que na emergência de crises como a de agora se tornam explícitos, duros, incoercíveis e até cruéis.

Paz…

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Desafios

Não me venha falar de de desafios

O movimento de humanização do nascimento no Brasil sempre foi movido pela chama do impossível. Nossa história, que se iniciou há 27 anos, sempre foi marcada por grandes batalhas para a garantia dos direitos de gestantes, parturientes, puérperas e sua família. Estivemos presentes quando o direito aos acompanhantes foi sacramentado na lei. Discutíamos o trabalho da enfermagem obstétrica na atenção ao parto quando esse trabalho era inacessível a elas. Reforçamos com nosso ativismo a criação da escola de obstetrizes na universidade. Lutamos pelo reconhecimento do trabalho das doulas quando essa função era um mistério até para os próprios atendentes do hospital. Debatemos a escolha do local de parto desde que esse tema tomou conta das discussões na esfera popular e acadêmica. Desbravamos o parto domiciliar planejado e a abertura das Casas de Parto no Brasil carregando em uma das mãos as evidências científicas e na outra o sagrado direito das mulheres escolherem onde parir. Continuamos a enfrentar forças poderosas, mas nos mantivemos fiéis no combate à opressão e violência de gênero que ainda ocorrem nas instituições – e fora delas.

Para tudo isso contamos sempre com nossa fé inabalável na capacidade humana de se transformar e evoluir, tendo como norte a equidade, a justiça, o bem comum e a segurança aplicados ao nascimento humano.

Para quem teve que enfrentar tantas dificuldades não é surpresa alguma para nós o desafio do COVID-19. Sabemos que os princípios de proteção ao binômio mãebebê se mantém intocados, mas também estamos cientes de que a nossa união, como ferramenta de proteção aos direitos da gestante, precisa ser assegurada.

Existem diversas abordagens e vários pontos de vista, visto que essa pandemia pegou a comunidade científica de surpresa pelas suas características específicas e pela sua extensão. Ninguém imaginaria que o mundo inteiro estaria privado do toque, da proximidade e do conforto que a presença de alguém pode nos produzir no momento do parto, exatamente aquilo que é o centro ideológico da humanização do nascimento. Exatamente pelo ineditismo de uma restrição global ao contato é natural que haja, mesmo entre os humanistas do nascimento, opiniões divergentes, e por vezes até antagônicas na forma como tratar a situação dramática da pandemia.

Se por um lado conquistas históricas – como a presença de doulas e o acompanhante – não podem se esvair por entre nossos dedos, também é certo que a emergência de agora – a pandemia do Corona vírus – demanda um cuidado especial, diferente do que aconteceria em situações corriqueiras. Por esta razão, é preciso desarmar os espíritos e manter a cabeça fria. Acalmar nossa alma, respirar fundo, pensar lentamente e tomar cuidado com a rudeza das palavras. Precisamos estar unidos para pensar soluções novas, criativas e adequadas. Como sempre fizemos.

Unidos somos fortes; desunidos somos presa fácil para todos os que não aceitam os avanços nos direitos humanos que conquistamos nas últimas três décadas.

Paz para todos.

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A Paixão de Cristo

A sexta feira é da PAIXÃO!!!

Sim, da paixão, essa chama indócil que nos arremessa para destino incerto, mas sempre em direção à vida. A força motriz de toda realização humana, o motor de nossas ações, das mais nobres às mais brutais, mas que “desacata a gente, que é revelia“. A paixão que nos mostra o que, em verdade, é ser humano.

“Paixão” deriva de passus, particípio passado de patī “sofrer”, é um termo que designa um sentimento muito forte de atração por uma pessoa, objeto ou tema. A paixão é intensa, envolvente, um entusiasmo ou um desejo forte por qualquer coisa. Mas para entender a “sexta feira da paixão” é preciso aceitar que a paixão de Cristo ultrapassava os limites do mero objeto de desejo, e se espalhava por todo o seu povo, na sua busca por igualdade, justiça social e autonomia.

O Jesus que eu conheço é o Messias, o ungido, o escolhido para liderar seu povo para a liberdade. O Cristo que enfrentava os senhores da lei, o mesmo que chicoteou os vendilhões do templo e aquele que deixou claro que veio trazer a espada, não a paz. O Jesus ativista, líder dos explorados. O Mestre corajoso, que entregou-se com bravura aos seus algozes por amor aos seus ideais. Um Jesus de coragem, fibra, destemor e LUTA.

Esse Messias é agora esquecido, em nome de um líder cheio de amor e paz. Um Jesus domado, constrangido, bonzinho, que coloca criancinhas no colo. Um Messias para os opressores, loiro e de olhos azuis. Um Jesus que se mesclou com os poderosos para ser aceito, a ponto de perder sua face revolucionária. Um Cristo para o paladar dos conservadores. Vendido por Paulo aos romanos, virou a imagem da docilidade, da submissão, do amor incondicional e da bondade, mas sua origem miserável, rodeado por analfabetos, pescadores, prostitutas e ladrões nos mostra que ele era do povo, da luta, da navalha e do confronto. Sua paixão era pela liberdade.

Que a nossa paixão seja pela mudança, pelo enfrentamento e pela consciência de classe. Não podemos permitir que o legado de um marceneiro negro, oprimido pelo poder absoluto e despótico de Roma seja transformado na imagem do cordeirinho loiro e bonzinho que aceita a iniquidade, as injustiças, o racismo e a violência sem reclamar e sem esboçar reação

Não esqueçamos que não é hora de chorar.

“Não chores, meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.”

(Ijuca pirama – Gonçalves Dias)

Era a poesia que minha mãe recitava quando eu era menino…

FELIZ SEXTA FEIRA DA PAIXÃO…

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Telemedicina

Sobre telemedicina…

Eu estava na formatura da minha filha, no meio de um festerê medonho. Meu Whatsapp faz um “blip”e recebo a mensagem de uma amiga. Dizia ela que estava na casa de uma colega e que esta havia sido mordida por uma aranha. Perguntei como sabiam, e ela me disse que acham ter visto a bichinha correndo. Depois disso o whatsapp faz um novo “blip”e elas me mandam a foto da “mordida”. Era uma região de pele inchada, vermelha e bem circunscrita, na coxa, muito próxima da região inguinal. Poderia mesmo ser uma picada de aranha, mas não havia como ter certeza. No meio do barulho da festa, resolvo responder e escrevo: “e dá pra ver a aranha?”

Parei no meio e tive um acesso de riso. Não mandei a mensagem, claro…

PS: ambas passam bem, a paciente e a aranha…

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