Psicólogos cristãos

O problema dessa publicação é que produz um falso dualismo, como se a prática corrente em consultórios de psicólogos fosse estimular a sexualidade dos clientes. Nunca ouvi nenhuma corrente reconhecida da psicologia que estimule pessoas – em especial adolescentes – à prática sexual contra seus valores religiosos. Por outro lado, a prática CORRENTE na ideologia da chamada psicologia cristã é promover a castidade. Posso afirmar que, o caso trazido acima (um relato da “amiga, da amiga da minha vizinha da praia que me contou) só pode ser entendido de duas formas: a) uma interpretação errônea por parte do paciente de uma orientação do profissional ou b) uma péssima abordagem psicológica, onde uma terapeuta se arroga o direito de influenciar valores e crenças de seus clientes, estimulando a prática sexual entre um casal de namorados cristãos. Entretanto, o post insinua a falsa simetria de que “ambos os lados cometem erros“, quando em verdade a ideologia cristã é que induz a este tipo de doutrinação pela castidade, enquanto NENHUMA corrente da psicologia ensina, reproduz ou estimula a prática sexual de adolescentes que preferem não o praticar.

Um profissional da psicologia pode ter problemas com a religião, sem dúvida. Quem não tem suas dúvidas e questões mal resolvidas com a religião, qualquer seja ela? Pode também ser ateu, carnívoro ou vegano. Pode ser hétero ou gay. Pode gostar de samba ou “death metal“. Pode ser sexualmente ativo, casto, casado, solteiro, bi ou transexual. Pode ser uma pessoa normal ou considerada por muitos como “bizarra”. Pode ser introvertido ou extrovertido, tímido ou esfuziante.

Entretanto, e creio que sobre isso não há dúvida, nenhuma dessas escolhas pessoais e subjetivas pode interferir na fala do seu cliente. Nenhuma preferência ou escolha do terapeuta pode influenciar a forma como o seu cliente organiza seu inconsciente através do exercício da fala, na aventura do discurso livre. Um psicólogo “cristão”, ao recomendar castidade (ou fidelidade…) ao seu cliente estará interferindo em suas escolhas através de uma projeção de SEUS valores, crenças, medos e fantasias, o que em nada poderá auxiliar a saúde psicológica de seus clientes. É possível até que os adolescentes estivessem mesmo se punindo através da castidade, mas isso é irrelevante para o tratamento. Pode ser que estivessem apenas exercitando o “gozo da contenção”, mas isso também não importa. Um consultório psicológico não é lugar para a prática da “selvageria interpretativa”, onde “verdades” são jogadas e valores cuspidos sobre pacientes desamparados.

Estabelecer uma dualidade entre “psicólogos neo-progressistas” e “psicólogos cristãos” não é justo e nem honesto. O que é descrito como no texto como um psicólogo “neo progressista” nada mais é que uma abordagem inadequada e condenada por todas as correntes da psicologia. Outrossim, reforçar conceitos como “castidade” antes do casamento é um dos pilares que sustenta a ideia de uma “psicologia cristã”. Ambas são equivocadas, mas apenas uma é estimulada pelos seus correligionários.

Deixe um comentário

Arquivado em Religião

Onde você está?

O isolamento me impede de visitar o meu pai. Com 90 anos, lúcido, sobrevivente de um AVC (que não deixou sequelas físicas) e confinado em casa, recebe apenas a visita da minha irmã. Desde que enviuvou há algumas semanas não saiu mais de casa. Nossas conversas são agora por telefone e, quase sempre, acabam na política. Eu “comuna”, ele um “coxinha”. Por vezes a conversa fica áspera, mas eu entendo o porquê. Ele deve pensar: “Daqui a pouco vou morrer e vou deixar esse comunista desamparado”.

Ontem foi a mesma coisa. Risadas, histórias, críticas e a espiral concêntricas sobre crise-capitalismo-Lula-comunismo. Ele se irrita com o meu idealismo, que lhe parece estéril. Eu me incomodo com sua cabeça dura para aceitar as mudanças necessárias – e inevitáveis. Por outro lado, esse confronto de ideias sempre foi uma marca da família; somos uma família de conversadores e debatedores. Ninguém fica bravo com os exageros retóricos alheios. Como ele sempre diz, “os debates se concentram apenas no terreno das ideias”.

Ontem, depois de quase duas horas de conversa animada a ligação caiu…

– Alô? Pai, está aí?
Silêncio…

Resolvo ligar de novo. Ele atende.

– Puxa, tua irmã ligou e caiu nossa ligação. Ela está chegando aqui com as compras.
– Não tem problema pai, eu tenho mesmo que almoçar, disse. Até outra hora. Assim que passar tudo eu e o Lucas vamos te visitar.

Ele ficou uns segundos em silêncio e perguntou:
– Onde tu estás?
– Ora, na Comuna. Não saio daqui há quase um mês. Estamos completamente confinados.
– Na comuna? Não pode…
– Por quê?
– Tu foi no banheiro? Está ligando daí? Há 5 minutos atrás estavas aqui comigo, conversando na sala!!

Não consegui conter a risada…
– Pai, a gente estava conversando o tempo todo pelo telefone!!
– Sério? (escuto ele levantar para ver se tem alguém no banheiro). Bahhh, a conversa estava tão animada que achei que estavas aqui comigo. Diz isso e cai na gargalhada. Eu também…

Acho que envelhecer bem é conseguir rir até das suas próprias limitações….

1 comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Oração de Santo Euphrásio

Não coloque sua vida nas mãos de ninguém, vivo ou morto. Beba de todas as fontes sem jamais deixar que qualquer visão de mundo, por mais justa e adequada que lhe pareça, o faça esquecer a infinita pluralidade de perspectivas. Nunca atue porque algum mestre iniciático assim o determinou, mas porque suas ações servem ao crescimento, ao bem comum, à vida e à própria humanidade. Seja fiel à si mesmo, mais do que a qualquer imagem ou ideia. Esqueça todas as idolatrias, pois que elas limitam teu escopo de visão sobre a realidade. Creia na verdade e desconfie de todos os seus mensageiros.

Amém

“Integram Sanctim opera Euphrasio”, Ed. Capitolium, pag. 135

Deixe um comentário

Arquivado em Citações

Les Mystéres des Voix Bulgares

Já que estão falando de música sertaneja e seus desdobramentos na cultura permitam-me que eu fale um pouco dos meus gostos estranhos para música. Sempre gostei de música vocal, acapella, corais, etc. Por certo que foi herança do meu pai que curtia músicas religiosas “gospel” tipo “Kings Heralds” ou “Arautos do Rei” – sua versão brasileira – e também música alemã de coral. Por causa dessa influência muito cedo descobri Joseph Shabalala – falecido em fevereiro 2020 – e os “Ladysmith Black Mambazo”, e o fiz antes de Paul Simon. Também curtia “Take 6”, “Boca Livre” e até “Da Boca pra Fora”, do meu amigo Lúcio Santos.

Entretanto, há uns 25 anos atrás meu caiu às mãos uma crônica de Tárik de Souza (escrita na Veja, quando esta revista ainda era um semanário de qualidade) sobre “Les Mystere des Voix Bulgares”, um grupo de mulheres que cantam músicas folclóricas da Bulgária. Poderia ser mais uma coluna de crítica musical elogiosa a um grupo que mantém intactas as tradições de seu país, ou sobre o ressurgimento de músicas folclóricas e tal. Mas não… Tárik falava de uma “sonoridade diferente” daquela conhecida no ocidente. Algo estranho de escutar. Falava de uma música chamada “Sekoj Fali” como “a entrada em uma nave espacial que, solta pelo éter, produz uma forma especial de conjugar sons e palavras, timbres e silêncios” (é o que minha memória reteve de suas palavras).

Fiquei muito intrigado com sua descrição, e totalmente tomado de curiosidade. “Como pode haver uma sonoridade desconhecida, que poderia até soar agressiva aos nossos ouvidos?‘. Li também que se tratava de um grupo formado apenas por mulheres, sem vozes masculinas. Comecei a procurar o CD (sim, já existiam) até que encontrei um lugar que os vendia, que mandei buscar fora do Estado.

As músicas me arrebataram por completo. Realmente, uma viagem lisérgica e estranha. Fiquei completamente chocado pela emoção que as músicas – cujas letras eu não entendia uma palavra sequer – me transmitiam. Foi uma descoberta impressionante.

Muitos anos depois, em 2012, recebi o email de uma querida parteira búlgara chamada Olga Ducat que havia lido o capítulo que escrevi no livro de Robbie Davis-Floyd (chamado “Team Work”) e desejava conhecer o modelo de trabalho transdisciplinar que havíamos implantado em Porto Alegre, com parteiras, obstetras e doulas trabalhando em horizontalidade e de forma cooperativa. Olga ficou sabendo que eu estaria dando um curso de Educadoras Perinatais em Portugal e assim solicitou que déssemos uma “espichada” até Sófia, na Bulgária, para apresentar um workshop e uma série de palestras no congresso que estava organizando.

Evidentemente que aceitei sem pestanejar, e a primeira coisa que me veio à mente foi a possibilidade que conhecer o “Mistério das Vozes Búlgaras“. Pedi para Olga e sua amiga Liubomira Lilova para verem da possibilidade de conseguir ingressos para um show delas, caso houvesse algum durante nossa estada de apenas 1 semana na capital búlgara.

Foi exatamente o que aconteceu. Mal descemos do avião e lá estava Olga para nos receber. Fomos ao hotel, deixamos as roupas e malas sobre a cama e rumamos céleres para um gigantesco teatro no centro de Sófia. Com Liubomira ao nosso lado, assistimos eu e Zeza à apresentação das mulheres de vozes misteriosas e belas. Não consegui parar de chorar durante toda a apresentação, o que é constrangedor e ridículo, mas honesto.

Perguntei para Liubomira se é comum elas se apresentarem em Sófia, ao que ela me respondeu: “Pelo contrário. Faz uns 4 anos que elas não tinham apresentações públicas. Foi muita sorte de vocês“.

Não foi sorte, foi um milagre….

Deixo abaixo a música Izlel e Délio Hajdutin, uma música de amor que fala do romance entre Délio, líder da guerrilha búlgara, por Gyulsumé, torturada pelos exércitos otomanos, mas que se manteve fiel ao seu amor pelo guerreiro libertador.

Existem muitas lendas sobre Délio. Esta música se refere à lenda sobre sua morte, embora seu fim trágico não seja mencionado diretamente. Acreditava-se que Délio era invencível – nem bala nem espada poderia matá-lo. Assim, seus inimigos, os anciãos de Zlatogrado, subornaram (ou forçaram) uma velha a implorar (ou roubar) dele uma moeda de prata. A bala de prata forjada com aquela moeda matou Délio enquanto ele relaxava ao pé de sua pedra favorita, junto ao rio. Sua amada, Gyulsumé, o alertou sobre a emboscada, mas ele não deu atenção ao seu aviso, pois pensava estar protegido pela anistia do sultão, anunciada recentemente.

Diz-se que a rocha, chamada Pedra de Délio, sangra – fica coberta por orvalho sangrento – todas as manhãs de sexta-feira.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Os gays na caserna

Quando vejo os trejeitos do presidente, sua fixação anal, seus temores expressos e seu horror à homossexualidade misturados com suas piadas e declarações homofóbicas eu lembro do tempo em que fui militar – tenente médico da gloriosa Força Aérea Brasileira – e pude observar por dentro da caserna como estas questões eram vistas e tratadas.

Minha turma de oficiais da reserva era formada por garotos de 24 a 32 anos recém formados em medicina, odontologia, cartografia e engenharia. Éramos não mais que meninos que durante o treinamento nos comportávamos como adolescentes. Moleques, alegres, entusiasmados, curiosos e arrojados, tínhamos a vida inteira pela frente, com toda a carga de expectativas, sonhos e dúvidas.

O mais velho dos aspirantes era de fora do estado e tinha um comportamento curioso. Era afetivo e brincalhão, porém exagerava nas piadinhas sobre gays, machos, “bonecas”, “maricas” e tamanho de pinto, as mesmas que qualquer bando de adolescentes costuma contar. Havia estudado no interior, era casado e pai de três meninas. No último dia do estágio me cumprimentou e disse lamentar que nossa amizade não tivesse avançado para “outro nível”. Seu colega de faculdade, que presenciou a cena de longe, me puxou para um canto e disse: “É isso mesmo que você está pensando“.

Havia um outro rapaz no nosso pequeno grupo que era delicado, sorridente, bonito e vaidoso, algo que se adaptava ao “estereótipo gay”. Claro, ele tinha uma noiva, e às vezes me falava dos seus sonhos de casar, ter filhos e morar no interior, talvez em Santa Catarina. Por alguma razão ele se sentia seguro em me confiar estes planos, uma conversa pouco comum entre homens. Alguns anos depois de sair da aeronáutica eu o encontrei passeando em Balneário Camboriú, e ao seu lado alguém que não deixava dúvidas de ser seu namorado: o telefonista do quartel onde fizemos nosso estágio para o oficialato.

Nessa mesma época recebi um telefonema anônimo para minha casa tarde da noite. Não reconheci a voz, mas era de um jovem dizendo me conhecer do quartel. Ele parecia saber muitos detalhes da minha vida, inclusive sobre meus filhos pequenos. Quando foi pressionado para se identificar, respondeu: “Sou alguém que você bobeou e perdeu“. Quase enxerguei pelo telefone a “egípcia” que se seguiu a esta frase. Nunca soube quem era, mas evidentemente era alguém da caserna.

Havia entre os profissionais do hospital dois homossexuais inconfessos. Um deles tinha uma postura máscula, voz grossa, um homem forte, bonito e atlético. Tinha consultório na cidade e fazia grande sucesso na sua especialidade. Discreto, jamais foi visto com qualquer soldado sem alguém próximo, e nunca oferecia caronas até a estação do trem – algo que eu fazia todos os dias. Tinha 42 anos e era solteiro. Todavia, ele tinha uma particularidade muito incomum; para além de ser militar era…. bailarino. Sim, bailarino clássico de uma companhia da capital, mas nunca falava abertamente sobre esta sua “outra vida”. Era uma espécie de segredo que poucos conheciam. Esse colega também era muito chegado a mim e ao nosso amigo em comum, o “Derma”. Certa vez, no término do expediente, quando estávamos os três no vestiário nos preparando para sair, nosso parceiro Derma lhe disse:

– Fulano, faz aquele giro que os bailarinos fazem na ponta dos pés. A gente quer ver. Por favor… uma pirueta!!

Ele se negou. Depois disse que não podia por causa do sapato. Depois sorriu envergonhado, dizendo que precisaria aquecer, mas por fim, depois da insistência, cedeu e nos ofereceu um pouco da sua arte. Não há como esquecer; foi a mais bela e emocionante “Pirouette dedans” que jamais vi ao vivo.

Este colega resolveu se mudar para o Rio. Foi nesse dia que, para mim, fez sua confissão. Disse-lhe eu que ele devia ficar. Seu horário no hospital era folgado, a semana era de 4 dias, não fazia mais plantões (pois era capitão) e seu consultório estava lotado de pacientes. “Vida tranquila e sucesso profissional“, falei.

Seu sorriso foi, então, revelador. Mais do que uma confissão explícita ou um flagrante constrangedor, ele abriu um sorriso tímido, me olhou nos olhos e disse “Existem outras coisas na vida para além da tranquilidade e do sucesso. Vou ao Rio para encontrá-las“. Diante dessa declaração, sorri como resposta e disse: “Vá em paz, brother“. Dei-lhe um forte abraço e nunca mais o vi.

O outro colega gay – cuja especialidade não convém dizer – era um homossexual muito sofrido. Também quarentão, igualmente solteiro, mas jamais exibia a jovialidade e o humor debochado do colega bailarino. Era duro, sério, fechado até obtuso. Foi ele quem, num lampejo de “sinceridade”, uma tarde me abordou no cafezinho do hospital e disse que não conseguia aceitar que as mulheres ganhassem seus filhos naquela posição (cócoras) que eu havia introduzido no hospital. “Acocoradas como bichos, pareciam estar defecando; ou como galinhas botando ovo“, disse ele, com nojo indisfarçável.

Sem dúvida. Animalizadas, despojadas de sua capa cultural asséptica, moderna, limpa e higiênica… essa era a imagem insuportável de uma mulher. Uma mulher parindo lhe obrigava a ver o que seus olhos evitavam: a imanente e poderosa força selvagem e sexual do parto – e de uma mulher.

Em um ambiente de pura testosterona era natural que essas manifestações fossem perceptíveis nas fissuras, nas rachaduras abertas no discurso, rompendo as capas de proteção criadas para impedir a expressão de sentimentos conflituosos. Nesse ambiente marcadamente masculino a homossexualidade era latente, porém suprimida e sufocada. Nenhum desses personagens jamais admitiu abertamente sua orientação sexual, mesmo diante das pistas que deixavam por todos os lugares por onde transitavam. Eram segredos, vozes que ecoavam em solilóquio, maldições escondidas.

Para a formação dos aspirantes oficiais, depois de alguns meses de treinamento físico e militar, era necessário fazer uma palestra para os colegas, como prova de conclusão do “curso de oratória”, algo ingênuo e inútil, mas obrigatório. Aliás, foi nesse curso que um oficial professor me disse uma frase que jamais esqueci: “Marx era um homem inteligente, mas um péssimo pai de família“. Nada mais natural de se ouvir em um quartel apenas poucos anos após o fim da ditadura.

Não tive muita dificuldade em escolher o tema. “Se é para agitar, vamos chacoalhar“, pensei. Meu tema escolhido foi “Homossexualidade em tempos de Aids“, exatamente durante a histeria pelo seu aparecimento nos Estados Unidos. Na minha breve palestra, que misturava questões médicas da síndrome com conceitos (avançados para a época, acreditem) de diversidade e liberdade de escolha, eu lembro de ter olhado firme nos olhos destes colegas e amigos como que a lhes dizer que “existe vida fora do armário“, mas que eu conseguia compreender porque lá dentro ainda parecia tão mais seguro.

Terminei minha palestra dizendo que estávamos no limiar de um novo tempo e era necessário nos adaptar a ele. Os homossexuais estavam adquirindo seus direitos e se apresentavam à luta. Citei para eles meu episódio predileto: “O Levante de Stonewall” e disse-lhes que devíamos entender que os gays não sofriam de nenhum distúrbio de ordem moral, mas aqueles que menosprezavam sua dignidade humana, sim.

Nunca encontrei meus amigos no Facebook, já passados 30 anos dessas histórias. Gostaria de poder dizer a eles que tive muita honra de conhecê-los para entender o peso que carregavam pela vida que tinham. Espero que hoje sejam homens felizes e realizados e que tenham aproveitado as últimas três décadas com a mesma alegria adolescente da época dourada em que nos conhecemos.

Amém

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Reescrever a história do planeta

Primeiramente, vamos deixar claro que concordo com a recente entrevista do Roda Viva com o biólogo Ítalo Iamarino sobre o Covid19, especialmente pelo reforço da ciência diante do ataque insistente do obscurantismo bolsonarista. Todavia, minha única crítica à entrevista do biólogo é que, apesar de reconhecer as origens da pandemia – a insensata e violenta intervenção humana sobre a natureza – ele acredita que a resposta para a humanidade será através de MAIS intervenção tecnológica, na famosa equação do “Punch Theory”, onde o primeiro impulso é nossa ação destruidora sobre o mundo natural e os impulsos subsequentes atuam no sentido de consertar os estragos iniciais, porém sem questionar sua origem com a profundidade necessária.

Evidente que a resposta para a EMERGÊNCIA de agora será tecnológica, mas para evitar que sejamos atacados eternamente por tais ameaças virais a resposta poderia ser outra, muito diversa em sua essência.

Parece que continuamos presos no mesmo paradigma de mais de um século: estamos cercados por seres vivos maldosos cujo único sentido na natureza é destruir os humanos. Darwin se revira na tumba cada vez que alguém fala desse antropocentrismo cafona.

Para ilustrar essa ideia a imagem que me vem à mente é, obviamente, a do parto. Acreditamos que a solução para os transtornos do parto é MAIS intervenção tecnológica: hospitais, drogas, leitos de UTI, cirurgias, antissepsia, antissépticos, antibióticos e profissionais altamente treinados em patologia. Porém, a experiência nos prova que o afastamento sistemático e insidioso da natureza do parto produziu a maior parte dos distúrbios que hoje testemunhamos. Desta forma, nos transformamos em técnicos especializados em consertar os problemas criados pela nossa própria atuação inadequada.

Ao invés de investir pesadamente na proposta de REVER e REESCREVER o roteiro da nossa atuação junto à natureza, parece que ainda não nos convencemos que o verdadeiro vírus destruidor deste planeta somos nós mesmos.

1 comentário

Arquivado em Medicina, Política

Consumismo

“Mas os pobres nada possuem e por isso já são treinados para evitar o consumismo”.

Infelizmente eles não são educados contra o consumismo!!! Em verdade, pobres consomem também, muitas vezes para além do que precisam, mesmo dentro das suas estreitas possibilidades. O consumismo não diferencia ricos e pobres, o CONSUMO sim!!!

O fato de alguém não consumir não significa que não seja consumista, da mesma forma que um sujeito não beber não significa que deixou de ser alcoolista. O desejo de consumir é uma marca de personalidade estimulada pela “sociedade de consumo”, que vincula felicidade, alegria, poder e sucesso pessoal com a capacidade de adquirir coisas. Na realidade, existem muitos pobres que são muito mais consumistas que alguns milionários.

Sempre é bom repetir a frase de Platão: “A pobreza não vem da diminuição das riquezas, mas da multiplicação dos desejos“. O desejo permeia o humano, inobstante serem ricos ou pobres. Quem é mais rico, eu ou Bill Gates? Não procure os valores da conta bancária, mas encontre para onde aponta o desejo, este motor do comportamento humano que faz qualquer valor significar muito ou todos os valores serem insuficientes.

A dor que sentimos vem dessa falta subjetiva, desse vazio, desse buraco que enchemos com coisas – como carros, casas, comida ou até gente coisificada.

Certamente que ricos e pobres se beneficiariam de uma cultura em que os objetos que nos cercam tivessem menos influência na nossa felicidade. Contentar-se com poucas coisas é um dos melhores caminhos para a harmonia e o equilíbrio.

Nossa esperança é que essa crise nos ensine os prazeres das maravilhosas coisas gratuitas, um café fumegante, uma tarde de sol, o encontro com amigos e até o sorriso desdentado de uma criança.

Deixe um comentário

Arquivado em Política

Prognósticos

Eu respeito todas as análise prognósticas feitas com base científica mas, como sou velho, acho mais adequado aguardar o desenrolar dos fatos antes de entrar em pânico. Se há alguma vantagem em envelhecer, esta é o acúmulo de histórias vividas e experiências acumuladas. Lembro claramente de duas projeções trágicas surgidas no meu tempo de faculdade e exploradas à exaustão pela mídia e pelos senhores da ciência: “explosão demográfica” e “AIDs“.

De acordo com as previsões dramáticas e negativistas do início dos anos 80 estaríamos exterminados por uma delas, ou pela combinação de ambas. Quem não lembra a progressão geométrica do incremento populacional? Lembro muito do filme “Soylent Green”, com Charlton Heston. A versão brasileira tinha um título ridículo mas curioso: “No Mundo de 2020”, ou seja, agora. O filme mostrava um mundo insuportavelmente quente e abarrotado de gente e me marcou pessoalmente por sua visão pessimista do futuro, onde o suicídio aparecia como uma opção válida e justa. E sobre a Aids? “Vai passar dos homossexuais para os bissexuais e de lá para os ‘normais’ da população”, combinando um catastrofismo irreal com os preconceitos de orientação sexual da época.

Nada disso se cumpriu. A população decrescente já é um problema social em várias partes da Europa, em especial na Itália, Portugal, Irlanda e no norte da Espanha. O aumento que ainda ocorre na África é muito mais em função de uma cultura agrária e pela falta de desenvolvimento social, determinados em função da longa exploração colonialista. Todavia, estamos muito longe de uma hecatombe populacional e esse assunto quase não é mais tratado pela imprensa. Sobre a AIDs, esta síndrome continua sendo um problema de saúde pública, mas longe de ser um problema maior que os tradicionais “exterminadores” que se mantém na ativa, como podemos ver na lista abaixo (PAHO):

1ª) Cardiopatia isquêmica
2ª) Acidente vascular cerebral (AVC)
3ª) Doença pulmonar obstrutiva crônica
4ª) Infecções das vias respiratórias inferiores
5ª) Alzheimer e outras demências
6ª) Câncer de pulmão, traqueia e brônquios
7ª) Diabetes mellitus
8ª) Acidentes de trânsito
9ª) Doenças diarreicas
10ª) Tuberculose

Mais da metade das pessoas no mundo morrerá das doenças acima listadas, a maioria delas produzidas na esteira da distribuição miserável dos recursos do planeta, originada pelo capitalismo e sua ideologia de acúmulo. A cura para estas enfermidades não está nos remédios, na medicina tecnológica, nos hospitais ou no aporte gigantesco de recursos para o tratamento de enfermidades, mas na adoção de um modelo político e social mais justo, que não condene os sujeitos a uma alimentação ruim, stress crônico, sedentarismo e pobreza. Buscar essa mudança em nível global é mais importante do que a cura de doenças que, por si só, seriam exterminadas se as suas verdadeiras causas fossem eliminadas.

Com a atual pandemia podemos esperar o mesmo curso normal de enfermidades transmissíveis conforme a história nos ensina. O catastrofismo precisa ser evitado, o que não significa negar as medidas de isolamento que parecem ser, por ora, nossa única defesa reconhecidamente justa de proteção.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina, Política

Falsa dualidade

Rolam textos aí em que alguns isentões tentam comparar os sujeitos que idolatram o “micto” Bolsonaro com os apoiadores de Lula. Seriam eles “extremistas”. Clamam, de forma oportuna, por um candidato de “centro”, ou como dizem “nem esquerda e nem direita”. Ora, nenhuma comparação poderia ser mais irresponsável e equivocada do que esta.

Afirmo que qualquer comparação entre Lula e Bolsonaro é absurda. Os que defendem Lula e os que defendem Bolsonaro também têm um perfil absolutamente diferente. NUNCA se viu um lulista aos gritos e portando cartazes que clamam pelo fim da democracia, pela intervenção militar ou pelo fechamento do congresso e nunca se viu qualquer exaltação ao AI5. NUNCA um lulista aclamaria um torturador asqueroso e o chamaria de “ídolo”.

Lula é um MODERADO de centro esquerda. Aliás, boa parte das críticas da esquerda brasileira se dá em nome dessa moderação e desse namoro com o mercado. Lula poderia ser comparado com um Serra, Alkmin ou FHC, moderados de centro direita, mas JAMAIS com um fascista de extrema direita.

Essa comparação é feita por adoradores da ditadura, saudosos do arbítrio. Uma comparação errada em todos os níveis, seja entre estes líderes mas também entre seus seguidores.

É como comparar Chico Buarque com Zezé di Camargo. Fazfavoire…

1 comentário

Arquivado em Política

A dor à flor da pele

O confinamento está trazendo à tona o pior e o melhor de nós. Um conselho do vovô: quando você sentir que está entrando na espiral do ódio dê um passo atrás. Não se permita infectar pelo vírus do ódio e do ressentimento. O mundo cibernético não possui amortecedores afetivos. As letras duras da tela não oferecem os matizes e as nuances de um sorriso, um chimarrão compartilhado, um aroma de café ou um tímido levantar de sobrancelhas. Essa dureza se espalha pelo espaço cibernético e pode destruir o tênue limiar de sanidade que está sustentando alguém a centenas de quilômetros. Não seja o mensageiro do rancor e da amargura; se precisar criticar, faça-o, mas “sin jamás perder la ternura”.

Não jogue fora suas amizades, seus amigos e seus parceiros com discussões agressivas, palavras duras, expressões que podem machucar e até destruir. Digo isso exatamente porque me vejo na tentação de fazer isso a toda hora, mas estou aos poucos vendo como isso pode arruinar o dia de alguém, em especial o meu.

Estamos todos tensos e ao mesmo tempo frágeis. Cuide de quem você gosta e não ofereça a elas o subterfúgio fácil da briga e da confrontação violenta. Não perca seu tempo falando para quem deixa claro que jamais vai lhe ouvir. Seja carinhoso, mas também caridoso; se não houver uma interface racional e minimamente respeitosa, afaste-se. Se for necessário, bloqueie, pois é melhor a distância em paz do que a proximidade em conflito inútil.

Todos estamos mal. O mundo tem febre, nosso coração está apressado e nossa face é pálida. Tossimos as angústias de tanta iniquidade purulenta acumulada em nossas entranhas. Suamos por cada poro a falência de um modelo que produziu morte e miséria. Não impeça que a reação a esta enfermidade contenha o próprio processo de cura. Aceite o fluxo transformador da vida e lute por uma realidade mais justa. Pense que essa crise – do grego krisis, decisão, momento difícil – está aqui para que possamos dar um salto quântico e aprender com ela.

Lembre que o que mais lhe incomoda mais se parece com você. Sua raiva lhe ensina, seu ódio lhe orienta e seu ressentimento lhe aponta o caminho. Use esses sentimentos para produzir sua própria cura, mas evite jogá-los em cima dos outros.

Acima de tudo “cuida o que dizes, pois talvez sejas o único evangelho que teu irmão lê”.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos