Principiante

Doutor

Primeiros dias de trabalho no primeiro emprego. Não tinha mais de 27 anos mas carregava uma cara de 20. Trabalhava nesta clínica privada durante a manhã, enquanto à tarde atendia no hospital da aeronáutica. A essas “clínicas de passagem” (“fico aqui até achar algo melhor”) chamávamos “trambiclínicas“. Estão em extinção nos dias de hoje, mas quando me formei havia muitas.

Abri a porta e chamei por um nome de menina. Ela entrou, acabrunhada e tímida. Talvez não imaginasse um doutor adolescente. Quem sabe tivesse medo de me dizer algo, ou escutar alguma coisa que não queria.

Falou de umas dores no seio e algumas outras questões menos importantes. Ela era bonita como são as meninas nessa idade, e seu sorriso era tímido e juvenil. Tinha 19 anos e era estudante. Morava com o pai, e mãe e uma irmã.

Antes de pedir exames, colher o papanicolau e escrever uma receita protocolar resolvi perguntar-lhe sobre sua vida. Talvez houvesse ali algo a dizer.

– Como é sua vida sexual?, perguntei, fingindo uma maturidade e isenção que somente a idade garante.

Ela me olhou sem pestanejar e respondeu “boa”.

– Algum problema com as relações?

– Nenhum, disse ela, parecendo querer abreviar a conversa. Comecei a ter relações há 4 anos e nunca tive problemas.

– Anticoncepcional?, insisti

– Não tomo anticoncepcional, doutor.

Meu semblante ficou severo. Sua resposta de alguma forma me irritou. Esse sentimento pude sentir muitas vezes na vida. Uma mulher que não cumpre nossas “ordens” não está apenas prejudicando sua saúde, está desafiando nosso poder. Aprendi isso de uma maneira brutal ao tentar entender a raiva – às vezes ódio – que os profissionais sentem ao ver pessoas que se recusam a fazer uma cirurgia, tomar uma droga, ou ir para um hospital para ter um filho. Tais recusas são tomadas como ofensas e desconsideração com a autoridade do profissional. Nossa resposta, que deveria ser de acolhimento e respeito pelas decisões soberanas de quem nos procura, em geral é estruturada como violência. Não é lícito aos pacientes desmerecem nosso saber.

– Camisinha? Diafragma? Coito interrompido? DIU? Tabelinha?

A todas estas me respondeu negativamente, sem piscar um olho.

Resolvi agir com a delicadeza de um viking à mesa do jantar após uma batalha.

– Filha (iniciei com a arrogância típica dos donos da verdade, médicos e bispos), você não acha que é muita irresponsabilidade da sua parte agir desta forma em relação à sua vida sexual? Tem 19 anos, estuda, vive com os pais, não tem emprego, não tem renda, tem relações há 4 anos e não usa nenhuma proteção contra uma gravidez indesejada. Você acha certo agir assim? Acha justo que uma gravidez arruíne a sua vida e entristeça sua família? Não lhe parece uma atitude sem juízo?

Ela ficou por alguns instantes me olhando sem nada dizer. Finalmente arqueou as sobrancelhas e me respondeu com uma expressão de desconforto:

– Doutor, eu só tenho relações com meninas.

Silêncio. Passados alguns instantes percebi cada centímetro da minha pele ruborizar. Na minha face o vermelho brilhante denunciava a falha, a incompetência e o preconceito. Tentei falar algo, mas a voz não saía. Queria dizer algo para dar a impressão que “tudo estava bem” e que eu achava “a coisa mais normal do mundo”. Afinal somos treinados para estas situações.

Mentira. Somos produzidos em série para interpretar exames e cuidar de um corpo falsamente biológico. Achamos o erro na molécula, o equívoco no hormônio, a fissura no osso mas na arte do enfrentamento com a crueza da palavra somos garotos que, diante de uma mulher de verdade, nada sabem dizer. Falta-nos a voz. Para saber como enfrentar o choque da fala do outro somente se conquistarmos a mais excelsa das virtudes de um medico: a idade, que por vezes nos brinda com a sabedoria.

O constrangimento havia me roubado a voz e a pose. Dos frangalhos de uma arrogância tola, filha da insegurança infinita que jamais me abandonou, consigo forças para uma última frase, que poderia abrir – ou não – as portas para um novo contato, certo que o anterior havia morrido em sua última fala. Depois de um breve suspiro, pergunto:

– Desculpe. Podemos começar tudo de novo?

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Autonomia

mãe-ciao-seu-filho-57136733

Os alunos do quarto ano da faculdade de medicina se aglomeravam ao redor da professora em uma de nossas primeiras incursões dentro da Santa Casa, campo de prática da Medicina Interna.

Naquele dia estávamos debatendo a respeito de algo que praticamente não tínhamos conhecimento algum: pacientes. Para nós as doenças e os males eram entidades abstratas, retiradas de páginas de livros, com nome de velhos professores ingleses e franceses, ou derivadas do latim. A conexão dessas descrições frias com os doentes ainda era para nós difícil de estabelecer.

A enfermaria era de clínica e o paciente uma criança. Era portadora de uma síndrome metabólica genética e estava acompanhada da mãe. A professora era uma médica contratada muito jovem, mal passando dos 30 anos. Tinha a curiosidade e a energia dos jovens médicos, mesclada com a inexperiência em tratar com almas complexas, que dificilmente se enquadram plenamente em modelos nosológicos preestabelecidos. Enquanto ela nos explicava as características da enfermidade que se abatia sobre a criança pude observar, ao longe, a mãe que trazia ao colo sua pequena filha.

Era pobre, mais do que simples, mas sua face tensa perdia um pouco de sua dureza sofrida a cada vez que sussurrava algo para a filha. Talvez por ser eu o único na sala além da pobre senhora que já havia passado pela experiência do nascimento de um filho – incluindo aí a professora – fui quem mais se tocou pela cena colateral, aquela que corria paralelamente à semiologia, aos exames e aos prognósticos sombrios. Trazer um filho doente nos braços é uma das mais angustiantes experiências humanas. A dor do ser que carregamos no colo dói mais que qualquer ferida que decerto temos em nosso próprio corpo.

Terminada a explicação sobre os detalhes do caso e nos aproximamos da mãe e seu filho. A professora apresentou-se e a todos nós. Explicou que éramos alunos de medicina e queríamos examinar sua filha. Ela aquiesceu com um olhar triste e a colocou na cama de lençóis simples sobre o colchão de napa azul.

Não tenho nenhuma lembrança da criança e sequer recordo qualquer detalhe da doença que ela sofria, nem mesmo o nome da enfermidade genética que a acometia. Minha atenção foi automaticamente voltada para a mãe e sua carga de dores. A paternidade havia me tornado, ainda menino, especialmente atento para os dramas que acometem aqueles que têm alguém sob seus cuidados.

– Essa é minha segunda filha, disse ela, com um sotaque carregado da colônia italiana. Minha filha mais velha tem essa mesma doença. Ela também se trata, mas agora está bem.

Seus olhos miravam o chão. Havia culpa em suas palavras, o mais sórdido e sorrateiro dos sentimentos. Mesmo sem saber as nuances e detalhes do metabolismo alterado ela sabia que suas filhas sofriam de algo que seus genes haviam lhes transmitido. A culpa era uma cicatriz a lhe encobrir o rosto com um queloide de dor.

Terminado o exame perguntamos a ela quais as explicações que haviam sido dadas pela equipe médica. Ela nos informou sobre a espera por um determinado exame e que desejava poder voltar para sua casa no interior para continuar sua vida e cuidar da outra filha. Silenciosamente fechava as roupinhas simples e amarrotadas da filha enquanto a professora se despedia.

– Cuide-se, disse a inexperiente professora. Espero que você não pense em ter mais filhos, pois as chances de ter outro com essa doença são grandes.

Olhei para a professora e tive uma sensação incômoda, algo inominado, um sentimento que não poderia entender naquela época da juventude. Para um aprendiz as palavras da professora faziam pleno sentido. Afinal, por que ter um filho cheio de problemas se é possível evitá-lo? Fazia sentido, sim. Todavia, isso não evitou a inquietude que senti pelo “conselho” da professora, principalmente pelo que se seguiu logo após.

– Doutora, disse a mulher, com a voz embargada e visivelmente emocionada. Fico muito agradecida pelo tratamento que recebo aqui. Não me importo que minhas filhas sejam examinadas pelos alunos. Em verdade eu gosto de saber que tantos se preocupam em ajudá-las. Os médicos são atenciosos e cuidadosos. Nossa vida não é fácil com duas filhas que precisam tratamento. Só eu sei o quanto é difícil sair do interior, deixar o marido e alugar um quarto perto do hospital só para acompanhá-las.

A cada descrição da dureza de uma vida sofrida de mãe meu coração se apequenava. Meu filho tinha um ano, se tanto, e nada lhe faltava, apesar de termos uma vida muito simples. Mas o esforço que ela devotava no cuidado de suas filhas deixava minhas angústias de recém pai diminutas e desprezíveis. Ela continuou seu desabafo.

– Sei do sofrimento que essa doença vai provocar nelas e, por extensão, em todos nós que as cuidamos. Muito ainda vamos enfrentar, mas venceremos, com a ajuda de Deus e o auxílio dos médicos, mas…

Olhou mais uma vez para a médica, abotoou o último botão do casaquinho cor de rosa de sua filha e disse:

– … da minha vida cuido eu. Só eu sei o peso que carrego. Terei os filhos que quiser, ou os que Deus mandar, e não cabe à senhora dizer como vou conduzir minha vida. Muito obrigado.

Pegou sua filha no colo e cruzou a sala sem olhar para trás.

Naquele dia percebi que quando nasce uma criança sua alma se acopla a um corpo biológico, que lhe dá sentido através dos significados múltiplos que a vivência na linguagem nos proporciona. Somos muito mais do que simples unidades físico-químicas. Somos seres animados, dotados de “anima”, algo que nos oferece uma mirada especial sobre o mistério da vida.

Um médico deve estar pronto a auxiliar com toda sua energia e conhecimento. Deve ser um “observador atento e isento de preconceitos”, como diria o pai da homeopatia, Hahnemann. Entretanto, ao médico não cabe julgar os valores e crenças de quem trata. Sua ação deve ser humilde e silenciosa, invisível. Uma “transparência de carne e sílica”, como brincava Max. Se é impossível abster-se de sentir – e até sofrer pelo que nosso paciente diz – é fundamental que nossa ação não imponha aos outros valores que somente a nós fazem sentido.

A mulher simples mostrou para o jovem estudante que no espaço que separa o paciente do médico flui uma energia que precisa ser respeitada, sem cair na tentação fácil de preencher esse espaço com arrogância ou prepotência.

Mesmo quando a intenção é ajudar.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Ódio

odio

Qual o sentido publicar textos de ódio pela Internet contra pessoas que cometeram crimes famosos? Qual o sentido de agredir pessoas que já foram presas a condenadas pelos seus erros e falhas?

 Qual o sentido de odiar uma pessoa que já está destruída? Qual o sentido em destroçar quem já foi despojado de tudo? Não percebem que isso – odiar alguém que cometeu um erro – as aproxima do criminoso? Somente o oposto disso – o perdão – é capaz de produzir esse saudável afastamento. Somente o perdão que surge de uma profunda autocrítica pode nos colocar ACIMA destas questões.

 Meu pai sempre dizia, quando recebia uma “fechada” no transito: “Não posso xingar esse sujeito, pois ainda está vívida em minha lembrança a ultima vez que, por desatenção ou descuido, fiz exatamente a mesma coisa“.

 Mas…claro que não vou pedir que perdoem quem fez tanto mal. Isso serve apenas para as pessoas que, como Terêncio, são capazes de dizer “o que é humano não me é estranho”. Para o resto eu peço tão somente que não disseminem ou distribuam seu ódio publicamente, até porque isso em nada atinge o pobre criminoso, mas mostra que seus algozes não são tão diferentes dele quanto pensam… O motivo foi a constante crucificação da mulher que mandou matar o enteado. Mas basta um olhar muito rápido para perceber que ela é um farrapo humano. Resta pouco nela que possamos ainda tripudiar. Mas … para quê? Qual a razão de carbonizar um corpo quase destituído de vida? O que se ganha ao jogar ainda mais para baixo essa mulher? Eu digo: nada.

 Entretanto, ao fazer isso nos aproximamos de sua miséria e provamos que somos mais parecidos com ela do que pensamos. São pobres seres humanos, dignos de comiseração. Nenhum de nós admitiria trocar de lugar com esta pessoa, nem por cinco minutos. Quando se reconhece a miséria alheia isso não significa inocentá-la de todos os crimes, mas apenas que seus erros não podem nos afetar porque não encontram nenhuma ressonância em nós. Poderia ser esse caso ou qualquer outro.

 Ódio não nos leva a lugar algum. Não estou pregando moral, e talvez eu mesmo também sucumbisse à proteção que o ódio e o rancor prometem. Entretanto, não acredito que algo de construtivo possa surgir desse sentimento.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Travessia

estrela_mar_praia

Pouco passava das 7 horas quando iniciei minha tradicional caminhada entre Torres e Cidreira. O dia prometia ser quente e seco. Nenhuma nuvem algodoava o azul sobre minha cabeça. A pedra da Guarita mantinha-se no mesmo lugar que eu havia deixado de última vez que a vi. Abusadamente adentrando o Atlântico separa esteticamente a Rio Grande do resto do Brasil, como uma fortaleza. Do lado de cá a monotonia das praias retas e carentes de relevo. Do lado de lá a exuberância litorânea que o Criador ofereceu ao Brasil. Em compensação pelas nossas praias insossas elas estão curiosamente claras e limpas, o que não dá para afirmar dos nossos vizinhos catarinas.

Minha história com o “Caminho de Cidreira” começou há 36 anos. Munido de uma faca , duas laranjas, um boné e três dinheiros saí caminhando pela RS 40 em direção ao mar. A distância que separa Porto Alegre do oceano Atlântico é de 108 km. Imaginei que seguindo a “estrada da praia” mais cedo ou mais tarde chegaria lá. Não tinha mais do que 19 anos, estava começando a faculdade de medicina e não tinha feito nenhum planejamento. Impulso diriam alguns; cabeça oca, diriam outros.

A viagem foi muito menos extenuante do que eu imaginei. Nenhuma bolha nos pés, nenhuma dor muscular insuportável. As benesses da juventude, o vigor, o ímpeto, as carnes duras. O sol não maltratava; era companheiro. Aliás, num mundo sem celulares e sem internet, só a brisa, o barulho dos carros e o sol me mostravam o caminho adiante.

Na primeira noite dormi no banco da faculdade de agronomia, mal saindo da cidade e ingressando em Viamão. A caminhada fora tão mal planejada que sequer os melhores horários foram escolhidos. A segunda noite, dormi em um galpão abandonado ao lado de um posto de gasolina. Na terceira noite…. não dormi. A excitação de finalmente encontrar o mar foi tanta que continuei caminhando madrugada adentro, chegando na Praia do Pinhal quase ao amanhecer. Sim, eu também cresci visitando a casa da dona Vera, que viria a ser minha sogra já falecida. “Mas agora o Pinhal, não tem mais a gente lá, e eu volto pra lembrar, que a gente cresceu, na beira do mar”, como diria a música, do Cidadão Quem, muitos anos depois. Voltei de ônibus pagando dois dos três dinheiros que eu tinha. O resto do dinheiro gastei com água e pastel.

Na volta encontrei minha mãe preocupada. “Que houve com seu cabelo?”, perguntou. A parte que saía para fora do boné estava queimada e com uma cor estranha. Olhei no espelho e achei bizarro. Resolvi descolorir o cabelo inteiro com água oxigenada, que era a coisa mais gay que a um menino hetero era autorizado fazer. Em minha opinião ficou “tri”, mas não gostaria de ver nenhuma foto minha daquela época.

Quando completei 40 anos de vida resolvi repetir o sonho da juventude. Desta vez com menos vigor e mais planejamento decidi que ao invés de caminhar pela estrada meu trajeto seria acompanhando a linha do mar. Saindo de Torres meu destino final seria a 120 km de distância do ponto inicial, na praia de Cidreira, cidade irmã de Pinhal, que muito frequentamos nos anos leves da adolescência. Desde então tenho feito a caminhada sempre que consigo uma brecha na agenda de nascimentos. O menino que se jogava de janelas continuava inquieto. Agora, 36 anos depois eu voltava a olhar a Pedra da Guarita para mais uma travessia.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais

Sabemos pouco…

Maurice

Esta é uma das melhores frases do meu pai, na orelha de um livro sobre “Espiritismo Laico” do amigo Salomão Benchaya.

Outra frase que eu gosto muito é: “Depois de certa idade percebi que não passa um dia sequer sem que eu me assombre com o desmoronamento de uma antiga certeza, por muitos anos acalentada“.

Envelhecer também é despir-se da arrogância que nos protege. Somente os fortes desconfiam de si mesmos; os fracos e frágeis jamais abandonam-se ao vácuo angustiante da dúvida.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Religião

Cesariana “humanizada”

cesariana

Sobre o uso do termo “Cesariana Humanizada”

Esta é uma discussão que já tem mais de 20 anos. No meu segundo livro há um capítulo inteiro sobre a inadequação desse termo. Eu sempre chamei de “cesariana digna” ou “cesariana respeitosa” pois creio que estes termos oferecem uma compreensão melhor do que propomos e não criam confusão com o movimento que apoiamos.

Qualquer contato da cirurgia cesariana com o conceito de “humanização” me parece espúrio e uma tentativa de aproximação com o fenômeno complexo e intenso do parto. O próprio termo utilizado por muitos profissionais de saúde, “parto cesariana”, é uma aberração, mas surgiu pelos mesmos motivos: uma espécie de “pinkwashing” da cirurgia de extração fetal. O “parto cesariana” recebe de nós o mesmo repúdio que a expressão “fazer o parto”, quando utilizada pelos assistentes do parto. Parteiro não faz, ele assiste algo que só as mulheres fazem.

A “cesariana humanizada” nos transmite a mesma mensagem subliminar deformada que, como toda criptografia, precisa ser decifrada para ser entendida. A mensagem é: “Ah, você percebeu a importância do ideário da humanização aplicado ao nascimento? Que bom!! Eu também reconheço a necessidade de humanizar o parto, por isso lhe ofereço esse produto, o “parto cesariana humanizado “. Ele é quase igual ao original, mas um pouco mais barato, e você ainda leva a vantagem de não sentir dor nenhuma. Que tal?” Uma maravilha de marketing, exatamente porque a manifestação acima não precisa passar pelo discurso, pois o conceito se aloja nos espaços entre as palavras, mistura-se com as frases ditas e ganha força exatamente pela sua invisibilidade.

Humanizar o nascimento é GARANTIR o protagonismo à mulher. Sem esse conceito nunca avançaremos em direção aos plenos direitos reprodutivos e sexuais. Em uma cesariana – mesmo quando digna, respeitosa e bem indicada – a mulher NÃO É protagonista do ato (mesmo quando o é da escolha por ele), o qual pertence ao cirurgião. Desta forma, a cesariana carece do eixo central da nossa definição de humanização: a autonomia e o protagonismo restituídos a mulher.

Não há porque ceder a este tipo de manipulação do nosso inconsciente. Cesariana não é parto; é cirurgia de grande porte e que existe para oferecer segurança para mães e bebês em situações limites e de risco elevado para o parto fisiológico. Sem essa consideração corremos o risco de banalizar uma cirurgia cujos abusos são uma grave ameaça à saúde humana, e das mulheres em especial.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Parto

Diagnósticos

medicos-tv-out2010_f_009

A respeito de diagnósticos cruéis…
(Um tema que deveria ser mais explorado)

Existe um conceito que eu penso ser muito relevante quando tratamos de avaliações, exames e tratamentos: a ação médica tem como ÚNICO objetivo o auxílio ao paciente. Essa ideia deveria estar na mente de todo o cuidador em qualquer aspecto de seu ofício. A Medicina é uma das possíveis expressões da “fraternidade instrumentalizada”, não uma fábrica de certezas. A Verdade, por si só, é pouco importante para o sujeito que sofre sem que a possibilidade de ajuda se mantenha no horizonte.

Exercer a crueldade de um diagnóstico – que rouba ao paciente a derradeira esperança – em nome da “verdade” ou de um “diagnóstico certeiro” não é Medicina, mas o exercício da desumanidade em nome de um falso ideal de excelência técnica.

Deixe um comentário

Arquivado em Medicina

Lendas de Parto

venda-nos-olhos

A paciente chegou no consultório muito sorridente e confiante para uma consulta de climatério. Beirando os 50 anos queria se preparar para a nova fase que se avizinhava. Depois de um bom tempo de conversa me conta de seu tesouro: suas filhas. Uma de 27 e outra de 24 anos. Dois partos normais.

– Naquela época era mais fácil parir, observa ela.

Concordo. Perguntei como foram os partos e ela, abrindo um largo sorriso de bochechas vermelhas, me relata:

– O primeiro foi mais demorado, mas muito tranquilo. Já o segundo eu internei muito cedo e meu marido começou a ficar preocupado. Ele não havia sido autorizado a entrar no centro obstétrico e também a mim a angústia pela separação parecia atrapalhar o andamento do parto. As contrações eram espaçadas e breves, pareciam não empurrar o bebê. Eu estava em uma enfermaria com várias outras parturientes, e senti que meu trabalho de parto havia parado. Meu útero estava tímido e constrangido.

– Sei como é. Os aspectos emocionais e psicológicos assumem uma total preponderância na hora do nascimento. Todo o processo é ilusoriamente mecânico e hormonal; em verdade ele é mental, afetivo e ocorre “entre as orelhas”, completei eu.

Ela continuou.

– Houve um momento em que meu marido ameaçou invadir o centro obstétrico caso não permitissem que ele entrasse. Gritou e esperneou, forçou a passagem, mesmo quando a enfermeira lhe explicou que havia “outras gestantes, portanto, seria indecente sua presença entre tantas outras mulheres seminuas“.

– Essa desculpa é usada até hoje, falei.

– Sim doutor, mas ele não aceitou a desculpa e exigiu me ver. Então a enfermeira chefe teve uma ideia conciliadora que ajudou a resolver o impasse.

– Posso imaginar qual foi, disse eu, sorrindo só de imaginar a solução encontrada.

– Exatamente doutor. Meu marido entrou no centro obstétrico conduzido por uma técnica de enfermagem e com uma… venda nos olhos, como um condenado!!! Quando eu o vi tomei um susto, mas fiquei feliz de finalmente encontrá-lo. Tirou a venda e pude ver seu rosto amarrotado de preocupação, mas tive a sabedoria de lhe devolver com um sorriso.

Depois de uma breve pausa continuou contando, até chegar na melhor parte da história.

– Pois o mais interessante aconteceu logo depois. Imediatamente após trocarmos um abraço eu tive uma contração muito forte, e depois outra e mais outra, e a enfermeira veio correndo dizer para fechar as pernas e ir para a sala de parto pois o bebê já ia nascer !!! Em poucos minutos tinha minha filha nos braços. Pode isso?

– Não parece ser uma coincidência, não é? perguntei.

– Não mesmo, Ric. Para mim ficou claro que, para minha filha chegar a este mundo, aquele encontro precisava ocorrer.

Sorri para aquela mãe orgulhosa e completei nossa breve conversa.

– Sim, você tem toda a razão… uma pena ainda não termos tão clara a importância do suporte afetivo para qualquer mulher que está atravessando esse desafio. Quem sabe um dia chegamos lá.

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais, Parto

Abusos

Lolita

Abri meu Facebook hoje e tive o desprazer de ver a entrevista de um BBB que havia sido “eliminado” e sobre quem recaíam queixas de ser um “abusador”. Entrevistadores globais solicitaram o parecer de uma advogada para esclarecer o conceito jurídico de “pedofilia”, algo que ele havia sido acusado.

Bem, ao meu ver existem dois debates concomitantes. Um é jurídico, e a doutora falou muito bem ao explicar que pedofilia não é crime, mas que os atos resultantes da pedofilia são. Pedofilia é um diagnostico clínico , e não um delito. Só se tornará delito caso se torne uma AÇÃO. A única ressalva ao que a advogada disse na entrevista é que, ao saber que um caso de abuso de menor está ocorrendo, uma pessoa DEVE denunciar (e não “pode denunciar”, como ela disse).

Quanto à idade para ter relações sexuais, trata-se de uma tendência mundial. Em vários países da Europa a idade mínima é de 13 anos. Isso é uma adequação das culturas à disseminação de informação e conhecimento. Portanto, namorar com “novinhas” pode ser um ato idiota, algo que demonstra insegurança ou exibicionismo, talvez até um negação de sua maturação pessoal, coisa de “eterno adolescente”, síndrome de Peter Pan. Entretanto, se a menina tiver mais de 14 anos não é crime. Isso é o que diz o código penal.

O outro assunto – muito mais grave e complexo – ė a publicidade que se dá a personagens como este. Isto sim é criminoso. Que importância esse sujeito e suas “namoradinhas” tem para a sociedade? Por que perdemos tanto tempo debatendo estas figuras desimportantes? Qual a razão de ainda aceitarmos esta invasão de lixo em nossas casas?

Para mim o único ensinamento foi a idade mínima para relações, pois eu não sabia que no Brasil já havia mudado. De resto foi holofote desperdiçado em sujeitos patéticos e inúteis.

Não vejo esse programa e nem conhecia esse sujeito. As únicas coisas que eu acho passíveis de debate foram as declarações dele e da advogada na entrevista de hoje. Quanto às palavras dele, bem… o desejo alheio não me diz respeito. Se ele quer se relacionar com meninas e não está infringindo – ou obstruindo – a lei eu só posso aceitar. Minhas considerações sobre o gosto dele com as mulheres são irrelevantes. Se você acha que 14 anos é pouco, há controvérsias, mas é o que a lei diz. Se ele é um machista, as mulheres que decidam se vão ou não se relacionar com ele; não cabe a mim julgar suas escolhas.

Por outro lado, se a Globo o colocou para fazer esse papel no Big Brother posso apostar como ele foi orientado a falar isso para gerar polêmica. Chama a atenção o fato de ele confessar gostar de “novinhas”, mas ficou claro que as “meninas” dele estão dentro do limite legal. Isto é, ele sabia o que estava fazendo, e provavelmente foi orientado a fazer isso. Não confessará publicamente um crime grave, mas conseguiu chamar a atenção para si e para o programa.

Posso ver a cara do Boninho e do Bial dando gargalhadas com esse “personagem”. Conseguiram um pouco de ibope para uma atração decadente.

Sobre as afirmações “abusivas” ou “machistas” deste cidadão durante o programa eu desconheço por completo. Tenho orgulho de dizer que nunca tinha visto aquele barbudo até hoje. Faço o melhor boicote possível ao lixo televisivo: desligo a TV.

Assim, o gosto dele por novinhas não me cabe julgar, assim como não julgo Suzana Vieira ou Madonna por namorarem caras que teriam idade para serem seus filhos. No máximo posso dizer que não me serve, mas repito que minha opinião é irrelevante. Se as meninas são legalmente responsáveis então só me resta lamentar o mau gosto.

PS: A única coisa que me incomoda nessas histórias de homens idiotas que namoram com meninas, ou senhoras idosas, ou meninas do interior, ou meninas feias, ou gordinhas , ou tolas é que sempre se coloca a mulher como passiva na história. O homem é sempre o protagonista, para o bem ou para o mal. A mulher nunca fala, nunca reage, nunca se indispõe, nunca reclama, nunca tem voz. Ela segue a onda que o corpanzil do seu homem faz na superfície da relação. Mas, isso não se refere às menores de idade; estas por certo são vitimas de um crime horroroso e são realmente incapazes de se manifestar.

Eu não considero abuso quando as pessoas são legalmente responsáveis pela sua sexualidade. Se isso pudesse ser tipificado na LEI imaginem o que ocorreria entre QUALQUER relação. Qualquer mulher poderia dizer que é “frágil” do ponto de vista emocional e que os homens são abusivos em função disso. Ora… não é justo colocar as mulheres nessa posição de vitimas quando são maduras o suficiente para fazerem escolhas. Temos que parar de tutelar as mulheres julgando-as sempre fracas, frágeis, incompetentes ou imaturas. Se você acha que 17 é pouco, lute pela mudança de lei, mas posso apostar que milhares de mulheres não aceitam essa tutela que diz que, por serem “frágeis e carentes”, não podem fazer escolhas amorosas com 17 anos.

Vamos excetuar aqui as violências que estão previstas na lei: menores de idade, embriaguez, terror, ameaça, bullying físico e/ou psicológico etc. Estou falando de dois (ou mais) ADULTOS que se relacionam. Por que ainda testemunhamos este tipo de discurso que coloca o homem como o ator de TUDO? Por que as próprias mulheres determinam a incompetência da mulher em resolver suas questões e escolher qual caminho seguir? Se uma menina resolve se manter conectada é porque “estava frágil e carente”, e não porque assim o desejou!!!!! Isto é, ela é passiva, não tem desejo, é manipulada, não consegue fazer escolhas, não tem elementos para decidir o que é melhor para si…

Eu não me conformo com essa ideia, que ainda é muito disseminada até no universo da humanização. Quando uma mulher de 30 ANOS escolhe fazer uma cesariana, a culpa é sempre do médico. Ela se coloca de forma passiva, inerte, incapaz de se mover. Como uma criança. Sem que as mulheres se responsabilizem por TODAS as suas escolhas – as amorosas e as de parto – jamais terão o pleno protagonismo. A alienação nunca será um caminho para a libertação.

“Eu não sei de nada, ele me envolveu com palavras e presentes, e aí fiquei desnorteada e acabei por…”

Até quando veremos as mulheres oferecendo o protagonismo aos homens e deixando que eles comandem suas vidas?

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos

Penico

Oliver 01

Ligo para meu filho e minha nora Ariane atende. Depois de conversar um pouco com ela peço para falar com Oliver.

– Oliver, diz ela, vovô Ricardo quer falar contigo.

Ele responde, sem desviar a atenção do que estava fazendo:

– Não posso, estou aucupado lavando meu penico .

Deixe um comentário

Arquivado em Histórias Pessoais