Paixão

Paixão

Do outro lado da rua escuto uma briga de casal. Os decibéis eram tantos que pensei chamar a polícia. Escutei apenas pedaços de desespero e fragmentos de rancor. “Chega“, “não chegue perto do meu filho“, “vá embora“. Tudo muito dolorido. A voz dele era mais forte e raivosa, mas a dela não ficava muito atrás. Muita dor, raiva e angustia.

Em outras palavras, pura paixão.

Sim… o que eu escutei foi amor. Degenerado e doente, caótico e violento, mas feito da mesma energia que une os amantes desde que o mundo se criou das cinzas de nossa animalidade. Paixão intensa, na sua forma enferma e destrutiva, mas por trás disso amor deturpado.

“Paixão vem do latim passio, cuja tradução seria algo como “sofrimento, ato de suportar”, de pati, “sofrer, aguentar”, do grego pathe, “sentir ”. Com o tempo, entretanto, lá pelo século XIV, ela passou a designar também “forte emoção, desejo”, e mais tarde ainda, “entusiasmo, grande apreço, predileção”. (Wikipédia)

Como canta João Bosco: “Quem quer viver um amor, mas não quer suas marcas qualquer cicatriz. Ah, a ilusão do amor, não é risco na areia desenho de giz“.

A paixão é sempre dor e sofrimento. Os sons da noite passada nada mais eram do que a paixão em megafonia, o amor em sua versão trash, o desejo rechaçado que retorna como mágoa e dor. Porém, não consigo deixar de ver – e ouvir – nesta cena o mesmo gemido e a mesma languidez dos amantes envoltos na energia inebriante que um dia os uniu. O que era amor tornou-se ódio; o que era desejo tornou-se dor.

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Corrupção?

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Se fosse realmente a corrupção ela estaria sendo combatida em todas as frentes. Hoje liguei o rádio pela manhã na Gaúcha, da RBS, afiliada da Globo e fiquei vários minutos escutando Daniel Scolla e Rosane de Oliveira fazendo deboches sem fim do “sitio”, do “barco” e do “apartamento” de Lula. Acreditar que isso é “amor à verdade” ou “jornalismo sério” é escarnecer do bom senso.

Não há nenhuma intenção sequer de esconder os ataques diretos e incessantes a Lula. A violência… tomou conta do noticiário das rádios numa reprise mórbida da campanha contra Lula nos debates entre ele e Collor em 1989.

Nem uma palavra foi dita durante a meia hora em que fiquei ligado sobre o mega esquema de corrupção da merenda em São Paulo, este sim um tema cheio de provas e detalhes escabrosos. E o que dizer da Operação Zelotes, na qual seus patrões estão envolvidos até o pescoço? Que jornalismo é esse que fica fixado no sitio que não é do Lula e no apartamento que não lhe pertence e esquece de olhar para os verdadeiros bandidos da nação?

Caso houvesse o mesmo afinco investigativo no caso do helicóptero com MEIA TONELADA de cocaína no sitio de um senador amigo de Aécio Neves, como o que testemunhamos em relação ao caso “Triplex” de Lula, haveria muita gente presa hoje. Mas a busca não é pelos traços de corrupção na vida de um brasileiro cujo esforço em modernizar o Brasil é reconhecido no mundo inteiro. O objetivo é político, uma tentativa

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Reflexões de Aeroporto

Aeroporto

Episódio XXIII

Ela nos procurou no segundo tempo da sua gestação. Já havia utilizado o banco de reservas, feito as adaptações necessárias e as estratégias possíveis, mas a prorrogação se aproximava atropelando os dias. Decidiu-se pela radicalidade de trocar a equipe de assistência ao seu primeiro parto. Assim chegou, entre o susto e a esperança

Na sua chegada uma velha e conhecida história: a médica não lhe passava nenhuma confiança no seu desejo por um parto normal. “Faremos seu parto se tudo estiver certo. Nunca corro riscos“, dizia. “Acima de duas horas começo a cobrar uma taxa“, completou, o que a fez imaginar estar falando com um enorme taxímetro. “Meu parto é de acordo com protocolos. Doula?… não.”

A partir desse desencanto, que conhecemos muito bem, passou a nos visitar. Suas consultas, a partir de então, sempre obedeciam uma rotina clara: conversas que duravam o tempo inteiro da consulta. Uma hora de trocas: expectativas, experiências, propostas, ideias e alternativas. As alterações determinadas pela gestação seguiram o curso mais fisiológico e, quando fomos avisados da ruptura da bolsa com 40 semanas, nada poderia ser mais previsível e natural.

As contrações se tornaram logo muito fortes, determinando como consequência a chegada da doula à sua casa. O espaçamento entre as ondas contráteis tornou-se rapidamente menor, fazendo o telefone vibrar no bolso da minha calça jeans.

“Muito fortes, Ric. Uma atrás da outra. Ela quer ir para o hospital”, disse a doula, e sua voz tinha o timbre da urgência.

“Ela apagou?”, perguntei. Aprendi que o apagamento neocortical é o melhor sinalizador de que a fase de transição está em curso ou já foi transposta.

“Sim. Está fora da casinha”, disse a doula, e de longe pude imaginar o sorriso que coloria seu rosto de menina.

Morar ao lado do hospital me oferece a vantagem de vencer todas as “corridas” com as pacientes, e isso nos dá a possibilidade de garantir um “continuum de cuidado”. Nunca há solução de continuidade entre o suporte oferecido pela doula e o acompanhamento médico que ela receberá no hospital. Sou sempre eu quem abre a porta do CO para a chegada da gestante e seu companheiro.

Quando eles chegaram pude logo ver, antes mesmo do abraço de boas vindas, que ela havia colocado firmemente os dois pés na superfície etérea da partolândia, o reino distante e onírico para onde vão as gestantes que conseguem vencer as barreiras – pessoais e institucionais – que precisam ser transpostas até o nascimento de seu bebê. Seu olhar era vago e seu rosto pouco lembrava a mulher sorridente e altiva que há poucos dias havíamos encontrado no consultório. Estava longe, distante, o que me assegurou a proximidade do desfecho.

Sorri baixinho para a doula, enquanto puxava sua mão para dentro do CO. “Ela viajou total; saiu da casinha. Parabéns pelo timing”, disse eu para a doula. Sabemos que a chegada precoce ao Centro Obstétrico é um dos piores indicadores para partos normais, pelo ambiente iatrogênico que o hospital impõe. Chegar no tempo certo é um caminho seguro para a normalidade de um nascimento.

Seguimos para a sala PP e procedemos com os prolegômenos. Dispam-se as vestes humanas e coloquem-se as vestais. Desumanize-se a mulher, transformando-a num ser angelical e assexuado. Retirem-se os anéis, os brincos, os brilhos, os sorrisos, as palavras. É o protocolo.

Alheio às regras ouso falar. Pior ainda, ensaio sorrisos e brinco com sua face lívida. Escuto 150 batidas na parede do ventre, e digo num portunhol forçado: “Mas bah!! Que espetáculo!!”.

Ela então desfaz sua face doída e sorri, mostrando o otimismo que deixara escondido sob o aluvião de temores e contrações. “Não faça força nos braços, relaxe. Respire fundo. Você está fazendo tudo certo”.

Seu marido, recém chegado da aventura no País da Burocracia, a segura por trás, tentando lhe dar um duplo suporte: físico e emocional. Sorri das minhas piadas, e ensaia uma gargalhada quando, no pico da contração ela grita: “Ricardoooooo“.

Quando me chamam assim é porque falta pouco“, expliquei sorrindo, mesmo que a visão dos cabelos negros de seu bebê brotando da vulva fosse uma evidência suficiente e muito mais clara.

Nesse momento ela interrompe suas vãs tentativas de se arrumar na mesa de parto, e a forma desajeitada de se acocorar, e me pede, quase envergonhada:

“Quero ir para o chão, posso?”

As faces dos três, marido, doula e paciente, me olham, e nesse momento ficou – mais uma vez – claro o inquestionável caráter invisível, e por isso mesmo potente, dos pressupostos do patriarcado a regular as tensões de poder na atenção ao parto.

Que poderia eu responder? Como poderia eu questionar a decisão de mudança de postura para uma outra, a qual a paciente intuía como mais adequada?

Minha resposta foi “Claro, desça daí”. Ajustamos os campos estéreis sob seus pés e pela primeira vez ela se sentiu absolutamente confortável. As plantas dos pés firmemente fixas no piso da sala lhe davam a força que lhe faltava, tanto quanto os braços do marido lhe amparavam e comunicavam confiança.

Subvertidas as leis, modificados os protocolos, trocadas as posições de poder e seu bebê despontou com mais vigor. Dois ou três esforços e ele chegava aos seus braços corado e triunfante.

Risos, gargalhadas, observações emocionadas e uma torrente de palavras, gesto e lágrimas a cobrir de significados o pequeno sujeito que chegava ao nosso convívio. “Um cidadão que testemunhará o século XXII“, pensei, se é que um dia chegaremos tão longe.

Ao sair, penso no pedido que ela me fez. “Posso?”, disse ela. O modelo autoritário e patriarcal do parto se mistura com o nitrogênio da atmosfera e compõe os gases que respiramos. Mulheres ainda pedem licença para livremente escolherem a melhor posição para jogar seu bebê em nosso colo, como se houvesse em qualquer um dos assistente um órgão sensor capaz de sentir o corpo viscoso de seu bebê melhor do que ela própria.

Sem reconhecer a sabedoria inata, visceral e celular que cada mulher tem para parir nunca conseguiremos progredir no entendimento do parto e da sua assistência. Cabe aos novos profissionais encarregados dessa atenção a dura tarefa de abandonar suas capas de autoritarismo, para assim, leves e livres, poderem sentir a poderosa energia que emana do nascimento.

Quem sabe até o século XXII chegar isso será uma realidade. Quem viver, verá._

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Caneta

Caneta

A piadinha autodepreciativa mais comum na minha época de doutorando e residente era feita pelos professores e contratados durante os episódios tediosos de espera no centro obstétrico.

“Qual a definição de médico?”, diziam eles com cara debochada.

Os alunos ficavam se entreolhando e esperando pela bobagem que inevitavelmente viria.

Depois de um breve silencio, a resposta:

“Um médico é um sujeito que tem um fusca, uma caneta Parker e um par de chifres”

Ra, ra, ra… todos os sorrisos tingiam de amarelo a sala do cafezinho.

A foto abaixo é da caneta Parker que meu pai me deu como presente de formatura. Ali se lê 13-12-85. Já se passaram três décadas desta data.

O fusca vendi há muitos anos.

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Tigrão

Tigrao

Aconteceu agora. Toca o telefone que só as grávidas conhecem. Atendo imaginando quem poderia estar em trabalho de parto. Uma voz de mulher jovem me pergunta:

– Alô, é da casa do Tigrão?

Fico em silêncio por instantes. Não conheço a voz. Que dizer?

– Talvez, respondo eu.

– Como assim “talvez”?, indagou a moça.

Ainda sem saber direito o que dizer, respondi a ela:

– Minha flor, sempre sonhei escutar isso de uma mulher. Infelizmente não sou o Tigrão, mas agradeço por ter ligado.

Ela deu uma sonora gargalhada. Explicou que Tigrão é o seu pai, pediu desculpas ainda rindo e se despediu.

Tigrão. Ai, ai…

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Insônia

acorrentado

São 5:54 da madrugada. Sentado no chão do banheiro, torturado pela insônia, com o pensamento entortando o ponteiro do conta-giros, penso que a peça que nos negamos a aceitar no quebra cabeças da opressão é o gozo pela servidão. Sem entender o quanto de nós existe no sofrimento que a nós é imposto, jamais poderemos entender a facilidade com que se estabelecem tais relações. Isso vale para sujeitos e coletivos, pessoas e nações.

Jean Junot Pascal, “Láutre extrémité de lárc en ciel”, Ed. Marseille, pág 135

Jean Junot Pascal, nasceu em Nantes, em 1948. Fez sua formação em literatura latino-americana na Sorbonne, e começou a publicar crônicas em revistas francesas da época. Por sua amizade com Céline, foi convidado a escrever uma coletânea de textos inéditos que foi publicada com o nome “Après que la Poussière Retombe” (Depois que a Poeira Baixar). Com o sucesso do livro aventurou-se na ficção e escreveu um livro de memórias sobre o pós-guerra na França chamado “Aucune Chance de Revenir” (Sem Chance de Voltar). Escreveu mais 5 livros, entre eles “Láutre extrémité de lárc en ciel”. Casou-se com a atriz italiana Ginna Delapieve e ficou com ela até sua morte em um acidente de automóvel em Bruges, na Bélgica. Seu filho Antoine é diretor de cinema, tendo dirigido séries para a TV francesa e o longa “Meilleur”. Atualmente mora em Nice com seu neto Phillippe e seu cão Danton.

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Narrativas

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A razão pela qual eu não acho adequado participar de “guerra de artigos”, é que eles se referem a valores crus, biológicos e matemáticos, sem jamais considerarem o valor subjetivo de um parto. Isto é: o desejo da mulher não conta. Por essa falha na compreensão mais ampla do que significa um parto eu considero inútil a luta fálica de quem tem o melhor artigo ou estudo sobre o local de parto, como se NÓS – os que controlam a ciência – tivéssemos o direito de decidir como uma mulher vai parir.

Analisem por este especifico ponto de vista. Vocês sabiam que quando uma mulher branca se casa com um negro ela tem 4x mais chance de se separar? Sabiam também que uma separação prejudica – e isso pode ser cientificamente mensurado – a saúde dos filhos? Baseados nestas avaliações puramente científicas não seria razoável proibir relacionamentos inter-raciais em benefício das crianças que correm risco de sofrer com a separação dos pais?

“Ah, mas esse é um problema social. Quando acabar o racismo os casamentos entre brancos e negros serão como os “normais” das outras pessoas”. Sim, é um problema social, tanto quanto é o parto domiciliar. Quando o sistema de saúde, em especial os médicos, pararem de agredir e pressionar as mulheres e parteiras pelas suas escolhas o resultado para todos será muito melhor. Imaginem se os médicos fizessem isso com as mulheres que escolhem cesarianas, se fossem tratadas como lixo ao internarem para esta cirurgia. Portanto, a corporação cria as más condições para um parto domiciliar, e quando maus resultados ocorrem culpam a natureza “perigosa e imprevisível” do parto.

Se você procurar bem é ÓBVIO que vai achar artigos que dizem que os relacionamentos homossexuais são mais arriscados e produzem mais adoecimento. Se você quiser achar vai encontrar artigos da Escandinávia dizendo que episiotomia se relaciona com problemas do assoalho pélvico, mas não vai contar como esses partos são conduzidos naquele país, muito menos a forma como as mulheres se posicionaram para parir. Assim, sempre encontramos na ciência aplicada à saúde aquilo que mais desejamos.

Quando há um especial desejo envolvido, e evidentes interesses corporativos, varremos a autonomia feminina para baixo do tapete. Podemos até falar em “liberdade de escolha” mas apenas quando ela se limita às cesarianas, obviamente sob cuidado médico. Se for uma escolha pelo parto em casa, aí a escolha livre e independente da mulher se torna inadequada e inaceitável.

O grande problema – na maioria das vezes não percebido – é o SEQUESTRO do parto pelo discurso médico. O parto é contado dentro de uma narrativa de submissão e alienação por parte das mulheres, enquanto nessa mesma visão os médicos são heróis e salvadores da natureza cruel e traiçoeira que habita o corpo das mulheres.

Nessa narrativa “oficial” a mulher é sempre passiva, como uma Princesa Bela Adormecida, inútil, inerte, imóvel e que necessita do beijo intrusivo (aliás, não consentido) para salvá-la de seu corpo fraco e insuficiente. Porém, para que o parto continue a ser um processo masculino e fálico – pois penetra, invade, muda e repara – é necessário que a princesa continue dormindo. E ainda vemos MILHÕES de mulheres que seguem a narrativa heroica do príncipe que salva a ingênua princesa que colocou o dedo onde não devia. Dormem solenemente aguardando que a medicina venha a reparar seus corpos mal feitos e degenerados.

É fácil fazer disputas de artigos. Só acho inútil. Para as parteiras é fácil fazer críticas à corporação médica porque elas estão protegidas pela sua própria corporação. Para os médicos obstetras humanistas se trata de uma luta de David contra Golias, e por isso não pode ser surpresa a existência de uma onda de ataques da corporação contra os profissionais que ousam questionar a narrativa médica em contraposição à narrativa das próprias mulheres em relação ao parto.

É inegável que nos encontramos no meio de um processo de transição, mas enganam-se os que pensam que as evidências científicas – para qualquer lado – serão o fiel da balança. Aprendi a duras penas que a “verdade” (sintam-se livre para interpretar esta palavra como quiserem) não é capaz de puxar o gatilho das mudanças. As evidências científicas surgem apenas DEPOIS de mudarmos a cultura, e esta se modifica sempre de baixo para cima, através de uma transformação na forma de vermos OS MESMOS fenômenos, mas agora sob uma nova ótica. O parto – por ter sido sequestrado pelo discurso médico – é visto como um procedimento da medicina aplicado sobre um “paciente”, isto é, um sujeito passivo sobre cujo corpo atuamos, independente de sua aquiescência. O mesmo modelo é utilizado sobre quem vai operar um tumor de mama, uma pedra no rim ou tratar com antibióticos uma infecção pulmonar; o desejo do paciente é desimportante. A expropriação do parto pela medicina, retirada das mãos das mulheres e colocada nas mãos dos médicos, está na gênese da violência obstétrica e do intervencionismo desmedido.

Podemos acrescentar à esta equação o fato de que o parto ocorre no corpo das mulheres em um contexto de patriarcado decadente, mas ainda atuante, o qual coordena as relações sociais como um “cimento” forte o suficiente para produzir coesão. Assim, tal contexto produz mulheres que oferecem seus corpos à medicina em troca de uma suposta (e ilusória) segurança.

Da mesma forma como os sionistas em Israel precisam criar uma fantasia de “ataque iminente” dos pobres palestinos para justificar seus massacres, os médicos precisam exaltar os perigos tremendos escondidos nos corpos grávidos de suas pacientes para justificar as intervenções pelas quais determinam e mantém seu domínio.

Não há dúvida que todos os profissionais que ameaçarem a narrativa hegemônica vão sofrer os ataques de uma corporação acuada, de uma forma ou de outra. Os relatórios de violência obstétrica, desde os da Fundação Perseu Abramo e os demais que se seguiram, denunciam apenas a ponta do Iceberg. Os obstetras, pela primeira vez na história, sentem-se pressionados pela opinião pública, e os profissionais sentem-se confusos porque nunca imaginaram que a forma como veem os partos pudesse ser apenas uma das maneiras de interpretá-lo, e não a “forma científica e correta”.

Os ataques aos médicos humanistas assemelham-se aos raids aéreos e as bombas sobre Gaza. É um aviso: “não ousem questionar nosso poder ou muitos mais sofrerão”.


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Iconoclastia

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Se é necessário jogar os velhos ídolos ao fogo na árdua tarefa de nós libertar de seu jugo sufocante, também creio ser fundamental fazê-lo de forma criteriosa.

Ainda considero válida a tese de que “as virtudes são do homem, os vícios de sua época”. Não há como criticar um personagem sem a necessária contextualização do sujeito no tempo e no espaço. Se não há “sujeito sem cultura, e cultura sem sujeito” então tudo o que somos surge dessa interação entre nossa subjetividade e o conjunto de valores que nos rodeiam no oceano de significantes e significados onde estamos submersos.

Por outro lado, o entendimento de figuras icônicas como sujeitos falíveis e limitados nos ajuda a humanizá-los. Tal tarefa é fundamental para que, assim identificados, possamos seguir seus ensinamentos com mais precisão. Enquanto forem divindades serão inatingíveis; ao nosso lado, passíveis de falhas e erros humanos, serão parceiros de travessia.

Entretanto, se posso perdoar a falta de amabilidade de Marx com seus filhos e seu caso extra conjugal, assim como as diatribes dos astros da TV ou do futebol, o mesmo não posso dizer de literatos cujas palavras escritas ferem preceitos básicos da civilidade e da dignidade humana. Por mais que sua genialidade transpareça e seja exaltada, e mesmo que as épocas sejam outras, a misoginia e o racismo de Fernando Pessoa ou Humberto de Campos são inaceitáveis e colocam a profundidade e dimensão de sua obra em questão. Se a imagem que fazem de negros e mulheres era tão diminutiva e preconceituosa, que outras falhas de percepção podem ser piores?

Perder um ídolo é como arrancar uma parte de si mesmo; felizmente uma porção de nós que ainda nos prendia às fantasias e idealizações mais infantis.

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Eu Odeio Ser Mãe…

Rola pela Internet um texto que fala das agruras da maternidade e da quantidade enorme de mulheres que odeiam ser mães. É claro que os relatos das dificuldades são verdadeiros e reais; não há dúvida de de que o nascimento de um filho impõe – em especial às mulheres – um peso muito grande e uma enorme mudança paradigmática. É inquestionável a dureza da parentalidade, em especial num mundo em que para as crianças não basta mais o suprimento de suas necessidades básicas (comer, beber, ser amada, vestir-se, etc.), pois que já nascem envolvidas num universo de desejos infinitos e insaciáveis.

Por outro lado, depois de conviver por 35 anos ao lado das mulheres grávidas, resta uma dúvida e uma desconfiança. Se são verdadeiras as queixas e a tonelagem de atribuições massacrantes sobre as mães, as quais tornam insuportáveis a vida de relação e o prazer, fazendo da existência um tormento infrutífero e vazio, por que ainda está fixo na parede da minha memória aquele sorriso que teima em brotar de seus lábios? Qual a razão de ser daquelas meninas que, entre orgulhosas e emocionadas, estendem a mão em minha direção segurando, ainda trêmulas, um mísero pedaço de papel timbrado onde, no meio de letras espalhadas, números, datas e logotipos, sobressai uma única palavra, que faz seus olhos marejarem apenas por repeti-la?

“POSITIVO”, dizem elas com seus sorrisos enfeitiçados.

A história de dor, que a ninguém cabe duvidar, existente em cada gestação não pode ser completa sem que esse sorriso enigmático seja colocado na equação.

Como sempre acontece com esses textos sobre os “horrores da maternidade”, eles contam a dureza do trabalho sem relatar (espertamente) o gozo. Todos eles, sem exceção, mostram um fato pincelado com as tintas do sacrifício, escondendo a energia poderosa e libidinal que nos empurra em direção a esse precipício. O que há para além da dor que teimamos em omitir?

Eu poderia escrever o mesmo texto, usando as MESMAS palavras e copiando uma igual arquitetura para relatar as agruras de ter, por exemplo, um relacionamento afetivo.

* Sarcasm notification *

“Eu odeio ter namorado(a)”. Alguém é capaz de negar que tal condição implica na perda da liberdade, sobressaindo-se as críticas, a angústia, a saudade, a mudança de perspectivas, o afastamento dos antigos amigos, os ciúmes e o medo corrosivo e destruidor de perder seu amor?

Tudo isso é verdade, e mesmo assim as pessoas continuam acreditando que amar é bom!!!! Escrevem livros sobre isso, romantizam relacionamentos, colocam fotos de casais felizes e as pessoas perdem a cabeça com aparente felicidade. Fazem até filhos para materializar essa alegria transbordante.

É tudo mentira!!!!

Na verdade as pessoas se escravizam mutuamente, mentem e se enganam. Mal se suportam e depois, sem que possamos perceber, regam seus travesseiros no meio da madrugada com as lágrimas do arrependimento e da desesperança.

Não é verdadeira ou real essa fábula do amor. As pessoas se “juntam” apenas por serem pressionadas pelo capitalismo a comprar fogões e geladeiras numa falsidade insuportável guiada pela sociedade de consumo. Somos marionete do capitalismo, fazendo dívidas e filhos apenas para dar conta do mercado.

Amar o outro é uma fraude, uma obrigação social criada pelo sistema escravizante que nos governa e aprisiona. Lutar para garantir o seu amor nada mais é do que esforçar-se na compra da própria prisão. Não é por acaso que “esposa” em espanhol se diz “algema”, alma gêmea.

Amar é a mentira que sempre nos contaram, deixando de lado todo o sofrimento e humilhação que acompanha este ato ingênuo e suicida. A dor de amar, de comprometer-se com alguém, não vale a pena ser paga. Somente os tolos e covardes admitem a escravidão como lenitivo amargo para escapar à solidão.

Mas… então, como explicar aquele sorriso? Será que perdemos algum detalhe pelo caminho?

Não se trata de colocar um “lado trash” da maternidade, mas de exaltar o espinho escondendo o perfume. O texto ao qual me referia não é reflexivo; é prescritivo. Por isso senti um desconforto ao me deparar com ele pois, ao invés de apontar para o fim das idealizações, aponta para OUTRA, mas com sinal invertido. Para combater o “padecer no paraíso” cria o mito da gravidez paralisante, que aprisiona mulheres sem nenhuma contrapartida de alegria ou prazer. Engravidar e ter filhos é uma “merda” (talvez porque a sua tenha sido, mas isso não implica em prescrever essa imagem para todas).

O texto peca pela falta de perspectiva e ausência de compreensão sobre a transcendência desta construção humana. Se é verdade que as mulheres são “escravas de sua raça e os homens escravizados pelas mulheres” também é verdade que a única razão pela qual esse sistema faz sentido é pelo misterioso elemento que lhe oferece sentido: o amor. Mas pode chamá-lo de desejo se “amor” lhe parece por demais assustador.

Entretanto, analisar um filho – ou um afeto – através dos olhos da praticidade ou da operacionalidade é desconfigurar a essência mais profunda do que nos torna humanos. Sem essa pitada de amor nada pode brotar do caldo de vida que nos constitui.

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Tecnologias

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Esta manhã estive conversando pelo inbox do Facebook com uma parteira recém formada (midwife) sobre um aumento de PCR pós parto. Ela é minha amiga há alguns anos, é búlgara e mora em Sófia, na Bulgária. Ao mesmo tempo eu dava orientações a respeito de uma ecografia com suspeita de circunferência cefálica reduzida, conjugada com a perda de tampão, para uma paciente que mora no Vietnã. Tudo isso no meu smartphone enquanto tomava café.

Se alguém me contasse isso há meros 20 anos eu diria que se tratava de fantasia tirada de livros juvenis de ficção científica. Seria impossível acreditar que um dia seríamos capazes de tais proezas.

O mundo virou MESMO, uma “aldeia global”, como havia previsto Marshall McLuhan no final dos anos 70. Somos conectados de forma instantânea com qualquer parte do planeta, e isso nos oferece um senso de “ubiquidade virtual” inédito nas sociedades humanas, a ponto de a tecnologia nos transportar para os mais distantes lugares de uma maneira que nos lembra pura magia.

Nossos filhos e netos serão educados nesse novo planeta minúsculo, praticamente sem distâncias reais, oportunizando a eles uma consciência mais planetária e menos tribal, de onde emergirá a verdadeira solidariedade humana baseada em valores universais.

Os jovens eu invejo por poderem testemunhar este novo mundo de proximidades crescentes. Não se deixem jamais capturar na armadilha do pessimismo e cultivem um olhar de esperança para o mundo que se descortina à sua frente. E, acima de tudo, ajudem a construir essa sociedade sem barreiras, a qual só me resta tempo para… sonhar.

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