Partos e Espelhos

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A forma como atendemos o parto nada mais é do que um espelho das próprias estruturas sociais. Em sociedades que prezam a dignidade humana, a justiça e a equidade o parto refletirá esses valores, através de condutas e atitudes respeitosas com as mulheres, com seus bebês e fortalecendo o vínculo que se estabelece entre eles no momento do nascimento.

Em contrapartida, em sociedades onde a violência – de todas as formas, em especial contra a mulher – impera, o parto reproduzirá estes elementos em seus rituais, para que ele se alinhe aos valores mais profundos desta cultura.

O parto é, desta forma, uma imagem vívida das características profundas da estrutura social. “Diga-me como atendes os frágeis e te direi como és“. Desta maneira, as sociedades podem ser facilmente traduzidas através da análise de como seus partos são conduzidos. Sociedades justas e igualitárias produzem partos dignos; sociedades autoritárias e machistas propiciam partos marcados pelo signo da violência.

Para mudar a sociedade é necessário mudar a forma de nascer, mas para exterminar todos os traços de violência na maneira como conduzimos o nascimento é preciso lutar pela erradicação de todo e qualquer tipo de desrespeito e indignidade impostos à mulher no seu momento mais sublime.

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Piratas

Pirata

Depois da minha fala na Câmara de Vereadores de Porto Alegre ontem, no debate público sobre o projeto de lei das doulas, acompanhei meu neto Oliver até o corredor para pegarmos água no bebedouro que se localiza ao lado da entrada principal do salão. Logo ao chegar encontramos a simpática, jovem e enérgica vereadora Fernanda Melchionna, que veio me abraçar e agradecer as palavras de apoio ao projeto. Fernanda estava usando um curativo no olho direito, por uma lesão recente na …córnea, o que deixou meu neto de quase 3 anos absolutamente intrigado. Ainda no meu colo, olhava fixamente para seu rosto tentando entender o que estaria faltando, o que exatamente não se enquadrava na formatação dos rostos humanos que ele se acostumara a decifrar.

– A titia fez um dodói, um machucado no olho. Mas já vai ficar bom, explicou ela.

Oliver continuava a olhar fascinado, tentando compor e dar sentido ao que seus olhos de criança enxergavam. Depois de alguns instantes de séria observação abriu um sorriso majestoso e disparou:

– Você é uma pirata!

Fernanda caiu no riso e eu também não me contive. Entretanto, ficou impossível não entender sua observação como plena de um sentido transcendental. Ele tinha razão. TODOS nós ali éramos piratas, aventureiros, apaixonados, guerreiros por uma causa grandiosa e nobre: a dignidade do nascimento. Oliver, com sua ingenuidade, acabou mostrando que a luta por vezes inglória e solitária para dar voz às mulheres e espaço ao feminino é uma batalha motivada pela indignação crescente com a violência obstétrica e a objetualização de mulheres no momento de dar seus filhos à luz.

Corsários tenazes, sofridos e marcados pelas feridas de batalhas, continuamos firmes na busca pela dignidade, garantindo em cada luta um pedaço a mais de terreno. Hoje podemos ver que conquistamos lentamente o coração e as mentes de adversários de outrora, o que nos mostra a justeza de nossos ideais e a importância de nossas lutas.

Parabéns às doulas pelo seu dia, e muito obrigado pelo maravilhoso trabalho realizado pelo resgate do nascimento como evento grandiosamente humano.

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Pergunte

BRAN

Aqui está um breve manual de apoderamento sobre a saúde, que deve ser utilizado por todos aqueles que pretendem assumir o protagonismo de suas próprias vidas, em especial as gestantes que se encontram diante de dilemas importantes sobre o seu bem estar e suas escolhas.

Diante de uma intervenção médica qualquer, seja terapêutica ou diagnóstica, cabem os seguintes tópicos e perguntas ao seu médico, que podem ser memorizados pela sigla BRAN.

Benefícios: Quais os benefícios desse exame ou intervenção? Por exemplo: de que adianta realizar uma “transluscência nucal” se sou contra o aborto e esse exame não pressupõe nenhum tratamento? Quais os benefícios de fazer hemogramas, glicemia, exames de urina?

Riscos: Que riscos eu tenho ao marcar essa cesariana? Que riscos eu tenho em manter essa gestação para mais de 41 semanas? Qual o risco em fazer antibióticos profiláticos em uma bolsa rota?

Alternativas: Que alternativas eu tenho para essa medicação? Que outras possibilidades eu tenho às drogas para esta minha afecção? Que escolhas eu tenho diante das circunstâncias e contextos que se apresentam?

Nada: E se eu nada fizer, o que acontecerá? Se eu apenas aguardar, quais serão as consequências? Se eu apenas mantiver o curso natural das coisas, quais as minhas chances?   Sem essas perguntas talvez seu silêncio leve a uma perda de controle sobre sua saúde. E a alienação nunca será um caminho de crescimento.

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Fabíola

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Li uma suposta carta de Fabíola sobre o triste episódio ocorrido na saída de um motel, mas creio – pela forma como foi escrita – que se trata de uma missiva apócrifa. Melhor que seja, pois achei decepcionantes as suas palavras. Depois de ler a mensagem eu fiquei pensando nas possibilidades de continuidade da vida depois daquele fato trágico e pensei que a melhor alternativa seria o silêncio. Entretanto, se uma explicação pública se tornasse obrigatória ou necessária, o que eu diria?

É praticamente impossível responder o que “deveria” ser dito por ela, pois só ela pode saber o quanto lhe dói. Mais ainda: como aquilatar o que uma mulher sofre diante desta situação? O máximo que eu poderia fazer seria a “transposição” masculina do sofrimento de uma mulher, mas isso é sempre uma aproximação. Ser traído por uma namorada em um mundo patriarcal é diferente de sê-lo por um namorado neste mesmo contexto machista. São acontecimentos que se tornam diferentes pela imersão em uma cultura que penaliza de forma diversa essas experiências.

Por esta razão é difícil me colocar “no seu lugar”. São dores diferentes, repercussões díspares e um resto da vida com caminhos muito distintos.

Todavia, fosse colocado nessa situação e tendo que responder, não tentaria me esconder atrás das frases que eu ouvi por aí. “Ah, os homens sempre fizeram e nada lhes acontece”; ou “ela era uma mulher desprezada”; nem mesmo “trair não é crime”, etc. Acho que acusar os outros – no caso, os homens – não é uma resposta justa. É escapista e mimetiza as respostas históricas que os homens sempre utilizaram para estes “deslizes”.

Eu teria uma mensagem, porém não quero que ela seja vista como a correta; é apenas o que eu diria. Tampouco acho que exista uma frase ou declaração certa a se fazer, e ainda acho o silêncio a melhor opção. Mas, diante da premência de oferecer uma resposta, ela seria assim:

“Sim, errei. Não posso justificar o que fiz sob nenhum aspecto. Minha atitude pode ser humanizada, entendida, contextualizada, analisada e até perdoada, mas não posso justificar a tristeza que causamos (lembrem, eu não estava sozinha) a tanta gente, principalmente àqueles que muito amamos. Sei também que a divulgação das cenas e as agressões que sofri são PIORES do que minhas atitudes, mas para isso existe a lei e ela será acionada. Eles que lidem com o mal que causaram, enquanto eu lidarei com o tanto que causei.

Sim, eu errei. Entretanto uma pessoa é mais do que seus erros ou suas virtudes. Sou mais do que minhas fraquezas e fragilidades. Sou mãe, mulher, profissional e cidadã e não apenas uma “pecadora útil”, cujos erros servem para oferecer aos outros a ilusão de que são mais virtuosos do que realmente são. Qualquer rótulo colocado será injusto e reducionista; sou muito mais do que qualquer nome que me ofereçam.

Meu erro está sendo pago de forma desproporcional, mas o mundo patriarcal cobra esse preço injusto das mulheres. Nossa sexualidade nunca é plenamente nossa; precisa sempre passar pelo controle de um outro, seja no sexo ou até mesmo quando vamos parir, e quando burlamos essas “leis” o céu desaba sobre nossas cabeças.

Peço desculpas pela dor que causei. Realmente não precisava ser assim, mas o que está feito… está feito. Espero que um dia possam entender que sou uma mulher igual a qualquer outra, cujas falhas serviram ao gozo sádico de um público sedento de sangue. Agora, passado o escândalo, peço que me esqueçam e deixem que eu viva minha vida em paz.”

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Religião

Sobre o que não se pode provar…

O espiritismo carece de comprovações, pelo menos daquelas exigidas pela ciência cartesiana. Ele é um sistema lógico, como a psicanálise. Nem tudo se pode comprovar, pelo menos não com o instrumental que possuímos.

Todavia, lembremos apenas que o ar já existia antes de sabermos do que ele é feito, assim como as estrelas quando acreditávamos que elas não eram mais do que furos na abóbada celeste. Se não posso provar a sobrevivência da alma, tampouco o ego, o superego, a alegria, a tristeza, o ciúme, a desconfiança ou o narcisismo podem ser reproduzidos em laboratório. Tais modelos de compreensão, todavia, nos auxiliam a explicar os buracos deixados pela ciência. Essa, por sua vez, tentará indefinidamente desvendar tais mistérios para um dia, quiçá, ser capaz de descortiná-los.

Não peço que acreditem em Deus ou nos espíritos, até porque não exijo isso sequer de mim. Entretanto peço um pouco de respeito com a forma com a qual as pessoas traduzem para si o enigma da existência. Para além disso, pergunto por que a nossa necessidade de desaprovar as crenças alheias? Em quê elas nos incomodam?

Para isso é importante entender do que é constituída uma crença. Uma crença é essencialmente uma linguagem, um idioma que se usa para ser compreendido pelos outros. É uma forma de expressar uma cosmologia teleológica que oferece sentido ao universo através de símbolos, metáforas e histórias. Por esta razão, as religiões não se interessam pelos “fatos” – científicos ou não – mas pela “verdade” que existe por trás destes fatos. Esta verdade, que carrega valores múltiplos e significados morais e políticos, é uma plataforma por sobre a qual transitamos e encontramos interlocução. As religiões servem como a mais relevante e consistente amálgama social, para que os propósitos de convivência e cooperação – essenciais para a sobrevida de nossa espécie – possam encontrar expressão e difusão.

Os fatos, da forma como ocorreram no mundo real, são totalmente irrelevantes neste sentido. O debate sobre o peso de Jesus, um judeu que falava para judeus numa Palestina dominada, não tem nenhuma importância ao se debater biblicamente o episódio em que “caminhou abre as águas”. Não é da física ou da matemática que trata a religião, pois estes são fatos do mundo físico. Ela se ocupa da “Verdade”, que preexiste e sobrevive à senescência da matéria.

Não se analisa religião através da comprovação de suas histórias, mas a partir da compreensão histórica de suas premissas compartilhadas, seus valores e ideias. Tratar a religião como uma série de “histórias bobas“, “fatos não comprovados” ou “manipulação” ou também “má ciência” é confessar a ignorância nas origens e no sentido último desses modelos de comunhão social.

Ao mesmo tempo, tentar entendê-la literalmente tratando os símbolos contidos como fatos para assim justificar desejos e aspirações momentâneas – políticas ou pessoais – é fundamentalismo, e ele nada tem a auxiliar no progresso do conhecimento.

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Incoerência

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Não vejo incoerência alguma nos meus colegas que, ao mesmo tempo em que celebram a vida através do ativismo pelo parto humanizado, defendem o pleno protagonismo das mulheres sobre seus corpos, incluindo-se aí o direito ao aborto. Não, não é incoerente.

Essas pessoas favoráveis ao aborto se preocupam com as mulheres que morrem todos os dias pelos abortos clandestinos, em salas infectas nas periferias e por mãos totalmente inábeis para esta intervenção. Quem é a favor da descriminalização do aborto ama essas mulheres e não quer mais que elas morram em decorrência de uma proibição que amplia o fosso social do país e que faz as pobres morrerem por falta de assistência, enquanto as ricas tem oportunidade de irem a clínicas sofisticadas e limpas.

Não, não é incoerente. Porém, eu compreendo as pessoas que enxergam a alma em um embrião minúsculo, mas conseguem enxergá-la em uma jovem mulher que cometeu o terrível erro de amar e desejar. Para essas pessoas incapazes de olhar para além de seus preconceitos, eu ofereço o meu perdão.

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Abelhas

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Não acho justo que pessoas se acomodem aos seus velhos conceitos e depositem placidamente suas bundas em zonas de conforto. Eu não tenho medo de abelhas, portanto não fujo dos abelheiros. Acho importante estimular pensamento crítico e o respeito pelo contraditório, caso contrário seremos apenas depósitos ambulantes de clichês e preconceitos. Toda a minha formação médica foi recheada de tabus. Não se critica HIV, vacinas, remédios, hierarquia médica, etc. Ao meu redor eu via uma tendência a não questionar o socialismo, o mercado, a família, Jesus e o feminismo. Nunca aceitei e estou velho demais para me tornar um “concordino“.

Minhas críticas são, entretanto, no profícuo terreno das ideias. Não combato pessoas e sim propostas, modelos, sistemas e paradigmas. Tanto quanto os homens não são o problema do machismo (apesar de estarem nele envolvidos) também os médicos não são o problema na obstetrícia. Ambos são vítimas de SISTEMAS de poder, nominalmente o patriarcado e a tecnocracia, mas a mudança desses sistemas de forças não se dará tolamente eliminando (ou acusando de forma leviana) médicos e homens, mas mudando de tal forma a cultura que esses modelos serão rejeitados por não satisfazerem mais as aspirações de todos.

Para que isso possa ocorrer é preciso que alguns levem adiante essas propostas, mas exercendo sem tréguas uma autocrítica severa, sob pena de trocarmos um sistema envelhecido e anacrônico por outro, apenas com roupagem diversa.

Sobre essa questão li o texto de uma feminista que escreve na “Folha de São Paulo”, a qual é vista por algumas feministas como uma voz moderada, enquanto outras a enxergam como traidora. Aliás, nada mais natural que isso ocorra…

“Um colega escritor premiado e respeitado se desesperou ao saber que, após um texto seu falando sobre admirar uma mulher bonita, sua filha sofreu bullying das coleguinhas, “seu pai é misógino”. Outro amigo, que trabalha em um prédio na Faria Lima, ficou segurando a porta do elevador, esperando uma colega de trabalho. Ela fechou o tempo com ele: “Ah, sim, porque eu não sei chamar o elevador sozinha e preciso MESMO de um homem pra me ajudar, não é?!”. Daqui a pouco “Garota de Ipanema” vai ser proibida de tocar no rádio.” (Tati Bernardi)

Há alguns anos escrevi um texto em que elogiava as pernas lindas de uma moça (sem nome ou descrição) que passou ao meu lado no aeroporto. O texto brincava com uma evidência: a crueldade divina de nos manter desejantes quando não somos mais desejáveis. A mim cabia apenas admirar e suspirar. A experiência e o tempo, senhores da existência, se agora me sonegavam a proximidade, pelo menos me permitiam a contemplação quase religiosa dos corpos travestidos de desejo.

Entretanto, a simples confissão do impacto que a morena de pernas bonitas produziu nas memórias do velho senhor acabou desencadeando um efeito destruidor por parte de muitas feministas que outrora acompanhavam meus escritos. Nutriam elas a esperança de ver em mim um “macho domesticado” que estaria ao seu dispor eternamente para ratificar sua cruzada religiosa contra o falo opressor. A cruel confissão ao reconhecer minha admiração pela beleza, pela graça e pelo inefável encanto das mulheres foi o tiro de misericórdia. Passei a ser “intragável”, “misógino” e “machista”, e mais alguns impropérios semelhantes aos que a articulista Tati Bernardi foi obrigada a suportar.

Meu crime: amar e admirar as mulheres e deixar explícita minha devoção à sua maravilhosa capacidade de nos encantar e, com isso, manter a vida florescendo.

O texto desabafo de Tati é uma espécie de lenitivo para uma ferida que eu custava a curar. Por causa de minha atitude francamente aberta em defesa do feminino (na minha concepção, passível de crítica) cometi mais de 200 bloqueios de homens e mulheres que usaram as redes sociais para me ofender e agredir, entendendo que esse assunto só pertence a uma vertente de pensamento e que qualquer elogio à mulher feito por um homem pressupõe o anúncio público e explícito de um estupro.

Agora, ao perceber que algumas mulheres (e feministas) concordam com minha tese, passo a me sentir mais tranquilo por ter clareado minha rede social de pessoas que apostam no ódio e na discórdia como modelo de conexão com o outro.

Obrigado, Tati, por dizer o que eu não poderia dizer…

Aqui está o texto original dela: Tati Bernardi: Respeite as Mulheres, sua vaca.

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Escrito nas Estrelas

escrito estrelas

Havia uma espera curiosa por Josué. Sabia-se que vinha cercado da mesma mística que envolvera a chegada do seu irmão. O mesmo sonho, a mesma estrada, a mesma luz seguida da mesma voz. “Estejam preparados para a chegada de Josué“, disse a voz do locutor. O sonho se desfez na poeira do despertar, mas deixou como marca onírica a memória das palavras, a cena em reprise, o caminhar dos meninos lado a lado em câmera lenta, a certeza inquestionável; não poderia haver engano. Já adaptado ao fato de ter dois meninos imaginava a repetição da história familiar: um irmão mais velho ao qual se segue um mais novo e quem mais vier. Amigos, companheiros, inimigos, adversários, parceiros e por fim adultos e independentes. Eu conseguia ver minha vida de pai como uma reprodução do mundo que eu conhecia bem, o universo dos meninos, com suas dúvidas, angústias e poderes.

Pois no dia que abria o dezembro, na derradeira etapa da minha vida estudantil, as contrações se iniciaram. O último plantão como doutorando me garantiu a presença no hospital. Perfect timing, diria. Por uma coincidência também lá estavam o pediatra, o tio médico e a obstetra escolhida. As lições da gestação anterior foram bem aprendidas, e a chegada de Zeza Jones ao hospital foi a mais tardia possível. Oito centímetros que já davam por bem encaminhada a chegada do bebê. Ainda houve tempo para algumas iatrogenias, intervenções e “verboses” por parte dos participantes, mas nada que fosse capaz, àquela altura do processo, de impedir o nascimento. Nada impediria que o parto ocorresse da forma como planejado. Quando o relógio bateu 1 hora da manhã a música “Escrito nas Estrelas” surgiu no sistema de som do hospital, fazendo com que os trinados agudos de Tetê Espíndola se misturassem à guturalidade expressiva dos últimos vagidos. Os sons mixados anunciavam a chegada do bebê tão esperado.

Sim, não havia uma confirmação do sexo do bebê. Em meados dos anos 80 as ecografias eram apenas artefatos tecnológicos surpreendentes, caros e reservados apenas aos mais afortunados. Suas imagens eram grotescas, chuviscos descoordenados e enigmáticos, mas que descortinavam a “era da imagem”, a devassa impiedosa da intimidade fetal. Para mim, jovem estudante despedindo-se do curso, não havia sentido para realizá-las e cortar a surpresa de um parto, até porque as pessoas não bombardeavam as gestantes com as perguntas chavão de hoje em dia: “Já marcou a data?” ou “menino ou menina”? No passado, nem tão distante, os partos seriam todos normais, “como mandava a natureza“, dizíamos. Mesmo que nossas cesarianas já contemplassem 25% dos nascimentos, ainda era com essa naturalidade que enxergávamos os partos, e “menino ou menina” era um assunto que interessava apenas aos apostadores e adivinhadores de parto. Para mim, bastava o sonho vívido e a certeza que suas imagens impregnaram em minha memória.

Os gritos se tornaram mais forte e frequentes, misturados pelo barulho de equipamentos e o ruído atrapalhado e estridente das enfermeiras e médicos. E eu menino, perdido no labirinto de vozes e sombras. Era tudo muito verde e prata, muito confuso. A luz brilhava demais, a sombra escondia tudo. Vultos percorriam a pequena sala, preenchendo de ansiedade os espaços. E o silêncio entrecortado pelo mantra obstétrico: “força, força comprida, não para, não para”. Quando chegou o momento de brotar a vida o meu mundo se congelou entre duas batidas de coração. Tetê para de cantar e aguarda em reverência o som por todos esperado. E ele vem, expelido com forças pelos pulmões úmidos que pela primeira vez apreendiam a secura do ar.

E então…. a falta, a ausência inexplicável. A surpresa misturada de vermelho, branco, verde e prata. Os olhos não acreditavam, a mente sofreu uma reviravolta.

– É menina!!

Foi tudo o que pude dizer. “Minha cabeça rodava, rodava mais do que os casais o seu perfume gardênia, e não me perguntes mais…” O meu mundo agora seria completamente diverso daquele para o qual eu me preparara. Ao invés de uma vida centrada nas identificações testosterônicas, o universo me preparara para lidar com o vazio do feminino. O espaço que se abria para a compreensão do insuspeitado. E o medo, sorrateiro e zombeteiro, que me obrigava a perguntar: “E agora, o que fazer?”

Josué morria ali, com suas previsibilidades, dando espaço para Isabel Cristina, com seus desafios e suas perguntas sem resposta. Agora me cabia cuidar, zelar, compreender, respeitar o diferente, o diverso, o misterioso. Olhar com ternura para algo que a natureza me oferecera como gracejo, mas que podia ser minha maior lição. Hoje, essa menina é mulher e mãe dos meus netos. Costumo dizer que o nascimento de minha filha, pela surpresa e pelo inesperado, foi o maior presente que eu poderia receber do Universo, mesmo que isso significasse rever a infalibilidade dos meus sonhos premonitórios. De Josué guardo a esperança que não fique magoado, e reconheça que a existência de minha filha foi um dos elementos fundamentais que fizeram aquele menino acanhado na sala de parto se tornar um homem.

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Golpe na Democracia

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Cunha aceitou o pedido de impedimento da presidenta Dilma, mas só o fez em desespero de causa, porque percebeu que a pressão contra ele está aumentando e se tornando insuportável. Ele está acuado, como um animal sendo caçado. Seu ataque é a demonstração inequívoca do seu desespero.

O Brasil terá que fazer uma escolha difícil. Extirpar Cunha da câmara é uma necessidade moral, para que um falsário e chantagista não seja a imagem do que significa política no país. Ele precisa pagar por uma vida inteira dedicada à corrupção. Por outro lado, levar adiante o impeachment significa criar uma tragédia política que vai arranhar a imagem do país por muitos anos. A quebra da normalidade democrática através do golpismo óbvio dessa atitude fará o Brasil emparelhar-se ao Paraguai em termos de maturidade política.

Se a vingança dos perdedores levar a cabo a saída da presidenta e o desprezo pelos 54 milhões de votos que a sustentam eu temo por uma grave divisão nacional e até uma guerra civil. A classe média de um lado e os excluídos de outro. Não será bom para ninguém. O “terceiro turno” será violento e amargo

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Papai Zuck

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Mark Zuckerberg – criador do Facebook – tornou-se pai recentemente, mas incrivelmente apenas ficamos sabendo sete dias depois do parto. Durante uma semana uma celebridade existiu entre nós de forma invisível. Eu e Bill (Gates) fomos os primeiros a saber, pelos nossos laços de amizade, mas este hiato de uma semana me faz suspeitar que Pri (Priscilla) teve um parto domiciliar nos Estados Unidos. De que outra forma poderiam parir um bebê de forma silenciosa e privada com tantos paparazzi em volta? Seria possível para eles entrar em um hospital qualquer, ganhar um bebê e não levantar nenhuma suspeita??

Que bafão!!!!

E agora, caso se confirme, o que dirão os barões do Parto Hospitalar mandatório?

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