Velhos

Velho apaixonado

“Em conversa telefônica com meu amigo Max chegamos a um acordo: o que existe de bom na velhice é acharmos irrelevante o que outrora pensávamos indispensável; o que há de ruim – segundo ele, torturante – é continuarmos desejantes quando já não somos desejáveis.”

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Muro

Muro Berlim

Quando escrevo que percebe-se ao longe uma luz no fim do túnel sou – com frequência – metralhado virtualmente. Sei que é uma luzinha tênue, como uma lâmpada de árvore de Natal. Mesmo assim, algo aos poucos está acontecendo. A truculência típica da corporação está lentamente cedendo espaço para a aceitação de postulados mais modernos e alinhados aos direitos humanos reprodutivos e sexuais. Acredito que, com o tempo, os “caciques” fixados no biopoder e na manutenção de privilégios se sintam cada dia mais constrangidos e isolados.

Todavia, eu também acho difícil poder testemunhar uma verdadeira revolução no sentido da plena humanização do nascimento ainda em vida. Sei que as transformações que tratam de valores profundamente inseridos na rocha das culturas só produzem efeito após uma lenta erosão. Por outro lado, quando eu era residente no hospital escola da universidade no final dos anos 80, um colega me disse:

“Ricardo, essa sua história de parto de cócoras, parto fisiológico, parto humanizado – apesar de estar absolutamente correta por qualquer ponto de vista – jamais vai “colar” pois está ligada ao poder. O poder é o motor do mundo e fazemos qualquer coisa para, depois de conquistado, mantê-lo conosco. E ninguém abre mão do poder sem luta ferrenha. Olhe ao redor e veja o mundo em que estamos. Os poderosos vencedores da segunda guerra mundial ergueram um muro separando a Alemanha há 40 anos que ainda está de pé. E eu te afirmo que ele jamais cairá“.

Nunca esqueci de suas palavras “proféticas”…

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Parto “autoral”

A respeito do debate sobre “Parto Autoral” surgido recentemente. Ao me ver este termo é uma tentativa de oferecer uma nova roupagem ao termo “protagonismo”, nosso velho conhecido. A “autoria” do parto é um aspecto de um conceito mais amplo de humanização do nascimento. Parto autoral não avança para além do sentido já debatido da garantia do protagonismo à mulher, algo que enfatizamos desde que o debate sobre uma “nova forma de nascer” começou a ganhar corpo no Brasil e no mundo. Por esta perspectiva a “autoria” é o eixo central a partir do qual os outros elementos da humanização vão se estabelecer. Isto é: sem plena “autoria” nunca teremos humanização, apenas ações parciais que não atingem o cerne da questão do parto: os direitos das mulheres sobre seus corpos. Ou, como diria Max, “sem o protagonismo só resta a sofisticação de tutela“.

protagonismo

Por outro lado, aprofundando-se no debate sobre o protagonismo, um parto pode ser “autoral” e NÃO SER humanizado, desde que para isso não se obedeçam os outros pilares que sustentam esse conceito, a saber: a visão interdisciplinar do evento (retirando dele as amarras de procedimento médico) e as evidências científicas (sem as quais somos presa fácil das mitologias, via de regra misóginas e potencialmente perigosas). Como exemplo podemos citar uma mulher situada no extremo do espectro do protagonismo: uma gestante diabética e hipertensa que resolve de forma autônoma ter seu filho em casa sem o auxílio de qualquer profissional ou tecnologia. É autoral, mas é uma decisão que não tem interdisciplinaridade ou evidências científicas que a sustentem. O mesmo pode ser dito das cesarianas sob demanda: são autorais, mas agridem as evidências científicas no que diz respeito à segurança para mães e bebês.

Por esta razão eu acho que vale a pena esclarecer esses termos novos que surgem no cenário da humanização do nascimento para que não causem confusão.

Resumindo: a Humanização contempla a autoria, pois ela é a parte central do modelo que preconizamos. Por outro lado, a autoria não necessariamente se abriga sob a proteção da humanização. Uma decisão “autoral” não precisa ser humanizada.

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Suzane

Suzane

A maioria dos “cidadãos de bem” desse país são meros linchadores de merda. Eu não exijo compaixão de ninguém, apenas admiro e exalto esse tipo de sentimento como um dos aspectos mais nobres da alma humana. Qualquer julgamento dessa menina é injusto e estúpido, pois ninguém pode aquilatar seus valores e suas dores. A ninguém é dado o poder de sentir a dor de outrem.

E, por favor, julgar Suzane é completamente diferente de julgar seu ATO. Um ato criminoso como o dela PRECISA ser punido, e o foi. E foi punido dentro da lei, onde a progressão de pena cumpriu o ritual legal. Ao meu ver ela não representa uma ameaça à sociedade e pode gozar desse benefício, conforme determinado legalmente. Não há nada a questionar nessa ação juridicamente embasada.

Quanto àqueles que diante disso disseminam ódio e raiva eu apenas penso que não são dela muito diferentes. Com uma arma na mão e o auxílio dos “irmãos Cravinhos” talvez fizessem o mesmo crime que tanto desejam realizar contra ela. O que os diferencia é apenas oportunidades, circunstâncias e contextos. Em essência, estão mais próximos do que admitem da Suzane que tanto odeiam.

Realmente, perdoar – em sentido amplo – é difícil porque impõe empatia e compreensão dos limites impostos no entendimento do outro. Os tolos confundem perdoar com “absolver“, quando na verdade o perdão significa trazer a ação criminosa para dentro do seu espectro de compreensão. Perdoar é humanizar, e Jesus mesmo, diante do apedrejamento da prostituta, deu a lição mais profunda e simples sobre a questão: “Atire a primeira pedra aquele que for isento de pecado“.

Os julgadores ferozes do Facebook são, em essência e completamente, sujeitos incapazes de conhecer o próprio percurso de suas vidas e os pequenos pecados que os compõem. Iludidos por uma falsa ideia de pureza e retidão, cegam-se às próprias falhas e erros, projetando-os em figuras públicas que fizeram de seus crimes espetáculo de catarse coletiva. Por isso a ferocidade implacável de seus comentários.

Perdoar as pessoas, e não seus deslizes, é tarefa difícil, mas uma imposição da civilização. Reconhecer a falibilidade humana é um caminho tortuoso quando implica olhar para dentro de si mesmo.

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Derradeira luz

olhando_o_por_do_sol

“Então, ao descerrar as pálpebras pela derradeira vez, só restarão esses ruídos, sensações dispersas e pedaços de imagens: o choro de um bebê, um sorriso solto no espaço, os bigodes do meu pai, um aroma, um afago cálido, fragmentos de uma carta, luzes fugidias e o calor do corpo que te acolheu no frio de uma solidão. E a certeza da volta. Afinal, não somos mesmo daqui, não?”

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Carandiru e o Escafandrista

Carandiru

Eu li faz muitos anos, entre 15 e 20 anos, mas certamente quando ainda vivia a minha vida anterior, no milênio passado. Eu o vi nas mãos de uma estudante de direito que trabalhava no hospital onde eu atuava e resolvi investigar.

Quando o li, gostei.

Gostei porque contava histórias de pessoas, de dores, tragédias e infortúnios. Sempre me senti atraído por histórias assim e gosto de contá-las também. Gostei também porque mostrava um mundo desconhecido para mim, o mundo dos “pecadores”, o “Inferno na Terra”. Um mundo que não era para os da minha espécie, os “cidadãos de bem”

O livro de Dráuzio Varella trazia uma descrição entre pitoresca e trágica da vida nesse universo. O estado repressor, as pressões internas, os sistemas de poder, os grupos, a violência crua, o confinamento, a sexualidade. O livro me fez pensar na “Vida Sexual dos Selvagens”, do Malinowski, uma leitura das diferenças culturais. Mas esse mergulho numa realidade e cultura diferentes é que me sinalizou que havia algo na obra que me causava desconforto.

É necessário haver distanciamento para produzir a análise de uma cultura. Para Malinowski os Trobiantes eram alheios ao seu código valorativo. Era possível a um europeu analisá-los por serem eles suficientemente diferentes para causar estranhamento. Eram aborígenes, e não reconheciam as mães como participantes na formação fetal, como erradamente supôs. Poderia, assim, analisá-los de um ponto distante, longínquo e sem influências.

Dráuzio, ao adentrar os muros da prisão como um cidadão, fez o mesmo mergulho numa cultura alienígena, vestindo o escafandro para manter intactos seus valores e referenciais. Mas para isso era necessário tornar os “bandidos” diferentes de si mesmo, cuja essência diversa o afastava inexoravelmente daqueles a quem observou. Dráuzio nunca reconheceu-se naqueles a quem descreveu.

Alguns anos se passaram e o livro fez sucesso, assim como o autor. Entrevistas, reportagens e um programa no Fantástico. Ok, ele era casado com uma atriz da Globo, mas isso por si só não explicaria a importância que se dava às suas palavras. Ele dizia algo – talvez uma voz messiânica portando a boa nova da tecnologia – que desejávamos ouvir. Não há como negar: ele falava algo que nossos ouvidos aceitavam de bom grado.

Drauzio Pumba

Em uma dessas entrevistas Dráuzio disse, em alto e bom tom: “Eu não gosto de bandido!”. Essa sua frase, e os posteriores comentários demeritórios sobre o parto clarificaram a ideia que vim a formar sobre esse personagem.

No livro Dráuzio deixa claro que a sua entrada no presídio foi para tratar prisioneiros com AIDs. Achava ele – e nos anos 80 isso fazia sentido epidemiológico – que a prisão poderia ser um foco de disseminação da doença que, a partir daí verteria para a sociedade “outra”, a nossa, a dos “não-bandidos”. Desta forma fazia sentido estar lá e mesmo assim declarar não gostar de ladrões e falsários; seu objetivo claro era salvaguardar a parte “boa” da sociedade do mal que a parte “ruim” poderia produzir.

Minha frustração com a obra Carandiru foi esperar dela um estudo sociológico, e ter encontrado uma etnografia bem escrita de uma tribo alienígena: os “meliantes“. Esses seres, que Dráuzio deixou claro não ter simpatia alguma, guardam diferenças quase imperceptíveis conosco.

Dráuzio submergiu no universo prisional sem nunca se aprofundar o suficiente para ver o quanto de nós eles possuem e, mais aterrador, o quanto deles habita em cada um de nós. Sua distância segura da essência do bandido lhe garantia a tranquilidade para atendê-los sem jamais se identificar com suas dores e dramas, conflitos e angústias. Ao mesmo tempo que tal afastamento nos garante um alívio (“isso jamais aconteceria comigo“) também impede que entendamos a dimensão humana do prisioneiro. Ele, assim coisificado e catalogado, deixa de ser uma ameaça para nós. O mesmo fenômeno ocorreu com os homossexuais: quando eram “doentes”, diferentes em essência – ou geneticamente – de nós, jamais nos ameaçaram. Quando os trouxemos para a normalidade sua semelhança conosco tornou-se maligna e perigosa. Era preciso exorcizá-la, e a homofobia contemporânea serviu a esses propósitos.

O escafandrista nunca sente na pele o sal do mar que o envolve. Dráuzio, que poderia enxergar-se nos dramas humanos de cada um daqueles detentos, preferiu descreve-los de uma distância segura.

Afinal, se muito perto chegasse, como evitar que, desavisadamente, viesse a se afeiçoar – e até admirar – um ser que nada mais é do que um “bandido”?

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Droga Milagrosa

fosfoetanolamina

Eu não gosto das manifestações do Dr Dráuzio, até porque tudo que ele fala é “chapa branca”. Nunca se ouvirá dele nada criativo, novo, instigante, questionador, provocativo ou que proponha mudanças na estrutura de poderes na saúde. É tome vacinas, faça pré-natal, exames preventivos, novas drogas etc. Além disso ele é um perfeito tecnocrata, sempre associado ao poder econômico e descaradamente contra o parto normal. Já escrevi um texto há mais de 15 anos chamado “Pumba”, quando de uma entrevista dele à revista Cláudia (ainda existe?) em que ele afirmava que parto era uma coisa muito chata e que era melhor fazer uma cirurgia e…. PUMBA!, se tirava o bebê sem ficar escutando gemidos e reclamações dos familiares, que ficavam de fora do centro obstétrico incomodando. Ele é um exemplar muito fácil de reconhecer da “velha escola médica”, acostumada com uma visão arrogante, pretensiosa, higienista e professoral da saúde. “Escute o que eu tenho a dizer, pois eu entendo da saúde de vocês muito mais do que vocês mesmos“…

Entretanto…. creio que ele está correto em não dar crédito à Fosfoetanolamina, droga que está sendo tratada como a “cura do câncer”. Não se pode vender uma droga – ou mesmo disseminar essa ideia – sem que seus efeitos sejam comprovados. Existem etapas FUNDAMENTAIS que não foram cumpridas, sem as quais não haverá PROVA da eficácia no tratamento de qualquer afecção. Dizer que há boicotes à sua experimentação pode ser até verdade, mas isso não exclui o fato de que sem comprovações ela não pode ser considerada um tratamento adequado para o câncer, seja de que tipo for.

A indústria farmacêutica é uma máfia das mais perversas existentes, e disso temos comprovações muito claras por testemunhos de inúmeros profissionais que foram atacados e perseguidos por suas ações ou descobertas. Entretanto, neste caso específico, não é a ação da “Big Pharma” o problema, mas as etapas que faltam para a comprovação da eficácia do medicamento. Sem isso qualquer atitude será extemporânea e, potencialmente, perigosa.

Não basta parecer um bom medicamento…. é preciso provar. Isso demanda tempo e dinheiro.

E paciência…

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Dívida

Médico - House

“Parabéns a todos os médicos que se esforçam para doar o que de mais precioso possuem: eles mesmos. O mais poderoso remédio que um médico pode oferecer não está em nenhum elixir ou comprimido, mas na palavra cálida para quem sofre e no olhar preciso diante da dor. Tudo o que a ciência nos oferece vem por acréscimo; retire-se a compaixão da prática médica e ela perde seu sentido e transcendência.”

Minha profissão está cheia de praticantes que não conseguem perceber qual sua verdadeira posição no cenário do nascimento. Colocam-se acima das críticas e não admitem que qualquer um questione as ideologias que permeiam e condicionam suas ações. É por existirem tantos profissionais assim, carentes de autocrítica, que as lutas pela humanização do nascimento são tão necessárias. Escrevi sobre esta postura outro dia, mas penso ser lamentável testemunhar a manutenção de um discurso calcado na ideia de que “já que salvamos tantas vidas ninguém pode nos criticar”.

Ora, que espécie de “imunidade” é essa? Por que esta “blindagem“? Que dívida temos com esta função a ponto de não podermos criticá-la quando seus rumos se provam equivocados?

Imagine um bombeiro espancar sua mulher em casa e, depois de ser detido, se explicar desta forma na delegacia da mulher “Fico muito triste de ver essas críticas à minha pessoa. Não é justo, diante de tudo que estudei e das coisas que realizo pelo bem da comunidade. Ontem mesmo apaguei um incêndio e salvei um gatinho que estava num poste. Como podem me chamar de violento?“

Ora, apagar fogo e salvar gatinhos é sua obrigação profissional, mas ela não lhe dá o direito de espancar sua mulher!!!! Salvar uma vida por uma síndrome de Hellp, uma hemorragia ou mesmo através do recurso cirúrgico é maravilhoso – em verdade, é o que os médicos deveriam sempre fazer – mas não lhe dá o direito de operar sem necessidade, fazer episiotomia e Kristeller, desmerecer as mulheres, desconsiderar maridos e aplicar as infinitas formas de violência verbal e moral que existem na atenção ao parto.

Falta um olhar mais severo e crítico para a obstetrícia. Não haveria porque temer esta avaliação de nossas falhas, e acho que só evoluiremos no debate quando nossas práticas defasadas forem assumidas. Enquanto as escondemos elas crescem, como qualquer temor e qualquer medo….

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Responsabilidades

delegar

“Humanização do nascimento é uma via de duas mãos. Não existe como ser efetivamente humanizada a atenção ao parto em pacientes alienados e oportunistas, que jamais se responsabilizam por suas escolhas. Humanizar o nascimento é trabalhar em parceria, jamais se deixando seduzir pela expropriação do protagonismo da mulher, tão característica de uma medicina autoritária. Para mudar o nascimento no mundo é necessário mudar a forma de pensar a própria vida, encarando suas escolhas de forma responsável, inclusive sobre aqueles que vão acompanhá-la na trajetória em direção à maternidade”.

Um erro que vem do passado, ainda centrado numa espécie de arrogância profissional, é crer que a medicina pode ser transformada se os médicos se modificarem. Isso é ingenuidade, pois ela é um retrato dos valores e conceitos sociais, expressos ou subliminares. A arte médica (e a política, a polícia, as artes, a justiça, etc.) mudará quando quisermos que ela mude. O médico é arrogante “por demanda“, porque assim o determinamos. O professor ganha pouco e o Ronaldinho milhões porque nossa neurose coletiva e nosso desprezo pela educação assim o determinam. Culpar médicos ou políticos pelo quadro deficiente de nossa medicina ou política é tolice e perda de tempo. A culpa é toda nossa, enquanto sociedade.

Quantas vezes já escutamos alguém despudoradamente dizer: “O presidente X foi péssimo porque enquanto esteve na presidência nossa categoria não recebeu aumentos“. Isto é: um presidente é bom ou ruim se a pessoa teve benefícios PESSOAIS com seu governo, e não se o país como um todo evoluiu e/ou se desenvolveu. Nossa avaliação continua sendo ego centrada, umbiguista. Com a medicina a mesma coisa: criticamos os médicos mas não nos esforçamos para ver qual a parte que nos cabe nesse transformação. A mudança na atenção médica – em especial na assistência ao parto – ocorrerá quando as forças sociais que desejam mudança suplantarem a inércia e colocarem-se em luta por reais modificações.

Enquanto isso não ocorre continuaremos a escutar lamúrias esparsas, que mais refletem nossa incapacidade de mobilização do que um verdadeiro desejo de mudar.

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Porta

Porta

A porta só se abre pelo lado de dentro, e esse é o grande ensinamento que a gente precisa aprender: nossas ideias devem ser expostas, jamais impostas. O crescimento pessoal é uma tarefa solitária e custosa, e as pressões externas apenas podem produzir fingimentos, dissimulações e falsidades, que levam o sujeito a uma vivência neurótica e irreal. As religiões “espetaculosas” são pródigas em produzir estes fenômenos, que variam da “cura gay” até excessos de veneração. A reforma íntima, lenta e pedregosa, é o único caminho confiável de transformação. Da mesma forma a democracia, com seus problemas e sua natural morosidade, é a única maneira de produzir mudanças sociais sólidas e consistentes, e as ditaduras serão sempre um engodo sedutor.

O empoderamento no parto não é necessariamente a consequência de um parto humanizado, mas a capacidade de apreender os ensinamentos que qualquer nascimento pode oferecer. Muitas pessoas acordam para a necessidade de mudar o panorama da assistência ao parto depois de assistências violentas, cruéis e humilhantes. Isso também é empoderar-se. Sheila Kitzinger costumava dizer que um parto era válido (na perspectiva feminina) quando a mulher podia olhar para trás e ver um caminho de crescimento e consciência, e essa é uma verdade que pode sobressair de qualquer nascimento.

Infelizmente mesmo os partos mais bonitos e transcendentes não conseguem produzir estas modificações, pois não são os elementos externos que comandam esta evolução, e sim a capacidade do sujeito de captar e processar as mensagens a ele enviadas. Ali nossa tarefa termina: oferecer as condições para que as imagens, sons, conceitos e palavras possam produzir a sua ação dentro do sujeito. Mas nesta tarefa, só ele poderá agir. A nós cabe apenas a função de catalisadores…

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