Inshallah !!

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Chamei um táxi para o aeroporto cedo da manhã pois uma carona as 9h seria absolutamente impossível. Na exata hora marcada chega um sedan amarelo cheio de publicidade nas laterais, nas portas e no teto. De dento dele emerge um negro forte, robusto e de rosto redondo. Como todos os taxistas que conheci em Austin – Texas esse também era estrangeiro. Todos certamente carregam uma história e varias dores.Uma vez peguei um táxi no aeroporto e vim conversando com o motorista cujo inglês me soava estranho até descobrir, quase chegando em casa, que se chamava Severino e viera da Paraíba havia alguns anos, e que sonhava em conhecer o filho de 3 anos que só havia visto pelo skype. Não havia deslumbre pelo mundo reluzente do sonho americano, apenas trabalho e saudade

Mas esse não era brasileiro, sem dúvida. Sua cor e suas feições lembravam a Nigéria, mas jamais me atreveria a perguntar. Sei como os estrangeiros – em especial os ilegais – podem se sentir invadidos com esse tipo de pergunta. Não queria causar nenhum constrangimento, apenas chegar ao aeroporto no tempo adequado. Além disso, esse me parecia um taxista que se situava entre rabugento e soturno.

As “highways” americanas são obras incríveis de engenharia. Depois que você entra em uma vai em linha reta até o seu destino sem nenhuma interrupção. Sem sinaleiras, o tráfego flui de forma constante e o tempo para alcançar o destino é quase sempre igual: de casa até o aeroporto Bergstrom 25 minutos. Não falha, seja qual for a direção que você vai.

Depois da última curva no “Hilton Redondo” entramos para a faixa do aeroporto que leva ao embarque. Nesse momento o negro se volta para mim pela primeira vez e diz:

– Uichála!!

Pensei ter ouvido “Inshallah“, o cumprimento árabe que significa “Se Deus quiser” ou “Deus o queira”, etc. Apenas me limitei a sorrir e levantei a mão numa espécie de cumprimento tímido.

Ele ficou sério e, sem tirar as mãos do volante, voltou-se novamente para mim e repetiu, agora com mais intensidade:

– Uichála?

Desta vez a entonação sugeria uma pergunta. Aí fiquei confuso e sem saber o que dizer. Nessas circunstâncias o melhor é fazer a tradicional cara de bobo e esperar que ele repita de forma pausada ou com mais precisão. Sua última tentativa teve mais vagar, mas veio com uma pitada de impaciência.

– Uich a láine?

Fiquei alguns segundos esperando a sinapse completar e só depois de muito gasto de neurotransmissor eu consegui jogar para fora a resposta:

– Jetblue, Jetblue!!!

Ufa!!! “Qual a companhia aérea”, ele me perguntava. Ainda bem que consegui entender quase chegando à entrada do aeroporto. Estacionou o carro e me ajudou a tirar as malas do bagageiro, enquanto eu fazia torturantes cálculos para acrescentar a gorjeta na conta final.

Depois de pagar a corrida ele me disse, com o mesmo indefectível sotaque africano:

– Have a safe flight..

Ao que eu respondi: “Inshallah!!!”, e pela primeira vez ele abriu um sorriso cheio de dentes brancos que contrastavam com sua reluzente pele negra.

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Velho Rabugento

O rapaz no aeroporto se aproximou pelo lado direito, e chegou perto o suficiente para que eu percebesse que queria falar comigo. Entretanto, não conseguia tirar os olhos da tela do computador, já que uma torrente de ideias me invadia para a feitura do texto que Robbie havia me pedido.

– Posso incomodar?

Eu continuei escrevendo, pois não queria perder o fio do raciocínio. Mantive os olhos grudados na tela do computador e respondi secamente: “Claro“…

– Preciso colocar o meu celular para carregar. Posso usar a mesma tomada que você está conectado para ligar o meu telefone?

Meu rosto não se mexeu. Continuei escrevendo e falei: “Pode“.

Só nesse momento eu percebi a imensidão da minha grosseria. É verdade que eu estava ocupado e tentando me manter focado. Tinha medo de perder o fio da meada, e não conseguir desenvolver minha ideia. Tinha que terminar este texto antes que Robbie chegasse em casa. Mas o que custaria levantar a cabeça, sorrir e deixar claro para ele que isso não me incomodava de maneira alguma e que eu faria questão de dividir a tomada da parede com ele?

Tentei reverter a má impressão deixada pela minha rudeza e me voltei em sua direção, quando ele já voltava para seu lugar após conectar o telefone. Percebi que sequer era um rapaz; era um senhor um pouco mais jovem que eu. “Nem o rosto eu havia visto, pensei. Quer vergonha!“.

Há muitos anos que tenho esse fantasma a me perseguir. Durante décadas tentei esconder de todos um problema genético que ataca a mim, meu pai e meu irmão menor. Somos afetados por uma moléstia muito comum, mas que é facilmente dissimulada, como uma doença que se esconde ao olhar dos outros e da qual temos vergonha em admitir. Nossa doença é a fobia social.

Meu pai talvez seja o mais acometido. Incapaz de ir a festas, divertir-se em público, frequentar lugares, andar em uma multidão e (em especial) entrar em uma fila, hoje em dia tornou-se um ermitão. Apesar de ser extremamente afável com todos eu percebo facilmente seu desconforto com a aproximação de pessoas desconhecidas. Nas obrigatórias festas de aniversário é notável seu desconforto com a balbúrdia, a gritaria e até as conversas superficiais. Meu irmão menor também tem sofrimentos análogos. Durante muitos anos era difícil tirá-lo de casa, e só com muito esforço eu o arrastava para alguns encontros sociais. Também ele não gosta de pessoas que não conhece, tem medo de festas, odeia conversas recheadas de superficialidades e com pessoas estranhas ao seu meio.

Eu sofro do mesmo mal, mas numa forma mais branda. Assim como meu irmão menor, encontrei na palavra escrita um refúgio. A forma compulsiva de escrever me faz parecer sociável ou “expansivo”, mas é apenas uma fachada falsa e que não se sustenta facilmente quando o encontro com as pessoas é inevitável. Nunca cultivei amigos próximos, nem sou fácil de me relacionar com os colegas. A festa de 30 anos de formatura da minha turma da faculdade terá uma ausência certeira este ano…

Quando vejo artistas na TV participando de programas de variedades eu nunca invejo seu talento e muito menos o dinheiro. O talento é sempre duvidoso e o dinheiro é “merda”, como diria minha antiga psicanalista. Quem valoriza dinheiro a ponto de endeusá-lo é porque perdeu todas as esperanças de ser feliz. Pessoas verdadeiramente felizes quase não precisam de riqueza material. Para consumir, ter coisas e colecionar objetos é fundamental cultivar desde sempre a infelicidade. A propaganda é a arte de nos fazer infelizes, vendendo a seguir a cura através de um objeto.

Não, nem o talento questionável e sequer o dinheiro inútil: o que eu invejo é o sorriso, a espontaneidade e a facilidade de se relacionar com as pessoas. O que eu mais gostaria na vida é ser simpático. Gostaria de sorrir para todas as coisas, ser explicitamente feliz (mais do que interiormente). Gostaria de ser extrovertido, brincalhão e jovial, e preferia não ter herdado esse humor inglês soturno e melancólico. Como diria Woody Allen, “é por contar piadas como esta que você não é convidado para festas desde 1938“. Gostaria de gargalhar com felicidade e ter sempre um sorriso para retribuir às pessoas.

O fantasma que me persegue é a rabugice que acompanha os velhos.

Tenho medo que minha doença antissocial me leve a um final triste. Temo que meu olhar soturno se transforme em ressentimento com o mundo, na incapacidade de vislumbrar a esperança e na impossibilidade de vencer as dores na alma quando a desilusão chegar. Tenho pânico de imaginar minha velhice solitária sentado em uma cadeira, reclamando dos políticos ladrões, do barulho da vizinha, dos netos que não param quietos e do chato que veio me interromper quando eu estava concentrado.

No aeroporto eu vi o que poderia vir a ser, e morri de medo.

Eu sei, eu reagi. Sim, a consciência de minha sina genética e das minhas tendências mórbidas pode me dar um alento, uma tênue esperança de poder vencer minhas fragilidades e afastar o espectro da indignação desesperançosa e triste que me espera.

Se houvesse uma escola de risos eu me inscreveria. Se houver como ser explicitamente feliz, trazendo no sorriso e na expressão acolhedora uma mensagem de paz, eu desejaria aprender. Ok, eu sei que alguém vai dizer que essa escola existe e que eu até já me matriculei. A ela chamamos “netos”…

Espero que assim como meus filhos foram meus grandes professores para o aprendizado da maturidade, meus netos possam me ensinar a ser um velho decente, otimista e simpático.

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Autonomia e Local de Parto

Parto Domiciliar - Febrasgo

Em recente artigo intitulado “Parto Domiciliar um Direito de Escolha da Mulher” a Febrasgo mantém-se com uma postura mais ponderada em relação a este tema, até porque entre seus membros existem alguns claramente comprometidos com a Saúde Baseada em Evidências. Por outro lado, a atitude dos sindicatos da corporação continua a mesma:  unilateral e sem embasamento científico, mas… que mais se poderia esperar de um sindicato a não ser a defesa firme e concentrada na manutenção de privilégios e de poderes duramente conquistados?

Sobre o artigo, resta deixar claro que a ressalva relativa ao aumento de mortalidade neonatal não é verdadeira segundo os dados do “Birth Place” (2012), mas reflete apenas o que ocorre dentro de um subgrupo: o das primigestas (mulheres que terão seu primeiro filho). Não foi citado, entretanto, que pelo mesmo estudo uma mulher que terá seu segundo filho corre significativamente mais riscos no hospital do que em casa. Pergunto: Se fôssemos proibir partos domiciliares para primigestas deveríamos proibir os hospitalares para segundigestas?

Pense dessa maneira: Uma viagem de automóvel de São Paulo ao Rio é muito mais mortal do que uma viagem de avião. Não tenho os dados desse trecho mas normalmente a comparação é de 10x mais risco de morte para as rodovias. Diante desses dados deveríamos proibir as viagens familiares de carro por existir uma opção mais segura, o avião?

Mesmo que você acredite que essa seria uma boa solução, ainda assim fica a pergunta: e os que tem pânico de voar? E os que não tem dinheiro para pagar a passagem? E os que ADORAM viajar de carro e ir parando para curtir a paisagem?

E as mulheres que tem pânico de hospital? E aquelas que valorizam o parto como um evento íntimo e familiar e NÃO como um procedimento médico? E aquelas que desejam que seus filhos não sejam afastados de si ou que não querem correr o risco de uma cesariana por razões não médicas?

Não se trata apenas de admitir o parto domiciliar, como faz a Febrasgo, mas garantir a essas mulheres um atendimento digno, com profissionais experientes e capacitados, oferecendo suporte para as transferências e colocando um FIM a todas as retaliações, constrangimentos e ameaças às famílias que optam pelo parto domiciliar, assim como acabar de vez com as perseguições desonestas a todos os profissionais que prestam esse tipo de atenção baseada em evidência e em consonância com os sagrados direitos reprodutivos e sexuais.

As mulheres merecem mais respeito em suas escolhas, e o Brasil não pode apostar no atraso com relação aos direitos humanos.

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O que foi feito de R.?

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O que foi feito de R.?

R. era meigo, afável e delicado. Não gostava de futebol. Não sabia o nome dos jogadores e não sabia dar um chute sequer numa bola. Era franzino e pálido. Tinha as mãos suaves, dedos finos, sorriso tímido. Seus cabelos negros eram sempre bem penteados. Não conversava muito conosco, e não acompanhava nossas brincadeiras bobas de garotos de 16 anos. Ele era reservado, mas dono de uma inteligência viva e ágil. Era culto, lia livros, falava em voz baixa e melodiosa, conhecia as ciências e as artes.

R. estava sempre rodeado pelas meninas, que gostavam de suas histórias. Seu sorriso era característico, e seus comentários espirituosos. Entretanto, nós não entendíamos a sua “fraqueza”. R. era frágil como uma borboleta. Seus passos eram leves, inaudíveis; ele levitava pelos corredores da escola sem que seu caminhar pudesse ser ouvido. Ele tinha um olhar triste, mas não sabíamos o que era. Havia um mistério, mas talvez o segredo que R. escondia era tão bem guardado que mesmo ele não tinha acesso.

O que houve com R.? O que aconteceu com o menino tímido, de caminhar contido e cabelos negros?

Hoje, passados 30 anos, eu sei do que R. sofria. Na época éramos todos cegos, e sua condição ficava invisível aos nossos olhos.

Desculpe, R., pela nossa profunda insensibilidade.

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Grosserias perigosas

Médico brabo

Sobre as grosserias em ambientes de trabalho, em especial nos hospitais, e que colocam em risco o resultado das intervenções e a própria saúde dos pacientes…

Eu sou do tempo em que a violência e a grosseria eram o padrão dentro de blocos cirúrgicos. Tais atitudes era “elogiáveis” e bem vistas pelos estudantes, que acreditavam na sua necessidade para manter claras e transparentes as hierarquias solidamente construídas na assistência aos doentes.

Havia dois elementos preponderantes nas condutas agressivas dos médicos: o viés de gênero e o de classe social, ou “casta”. Os médicos – em especial os cirurgiões – faziam de sua prática um festival de grosserias com subalternos (estudantes, enfermeiras, auxiliares de enfermagem e limpeza) e um exercício explícito de sexismo e misoginia. Eram comuns os “chiliques” do doutor quando havia um problema qualquer durante os momentos tensos de uma cirurgia. Tesouras, pinças e afastadores voavam pela sala, assim como gritos eram disparados contra indefesas instrumentadoras e circulantes. A humilhação era conduta banalizada. As funcionárias, via de regra, se resignavam, pois qualquer reclamação era vista como insubordinação. Eu fui testemunha de suspensões e punições de técnicas de enfermagem que reclamaram quando a grosseria atingiu a sua própria honra, mas a cena comum e previsível era o choro solitário no vestiário e o silêncio mortificante.

A misoginia dos ambientes hospitalares sempre foi uma marca característica, semelhante demais com outros ambientes de confinamento social (como exército, igrejas e presídios) para não a entendermos como um elemento fundamental na criação de hierarquias rígidas e sistemas de poder baseados no gênero.

Alguns médicos mais antigos (lembrem que falo de uma realidade de três décadas atrás) justificavam sua crueldade e comportamento violento justificando que era essencial que “cada um soubesse seu lugar” ou ainda que “se elas tiverem medo de mim vão cuidar para não cometer erros“. Essa “tática de terror” sabidamente funciona em curtíssimo prazo, mas é uma tragédia quando se torna padrão de atitudes, pois fatalmente gera medo, seguido de raiva, ressentimento, rancor e mágoa. E isso pode ser trágico para o trabalho a ser realizado.

Cultivar um ambiente limpo de sentimentos negativos é tarefa muito difícil, mas as pesquisas comprovam que ele se associa a resultados melhores. Hoje em dia não vejo mais tais violências em hospital, mesmo sabendo que elas ainda existem, e fico esperançoso ao perceber que as mulheres que trabalham junto aos cirurgiões não precisam mais se esconder para chorar no escuro e podem usar de outros instrumentos para exigir o merecido respeito e consideração.

Com o tempo vamos limpando os ranços machistas e preconceituosos do trabalho sagrado de cuidar de quem sofre.

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Break the Silence!!!

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Em recente artigo escrito para a Folha de São Paulo,  Caetano Veloso faz uma espécie de “mea culpa” pela sua ida com Gilberto Gil para Israel para a apresentação de shows comemorativos da longa parceria entre ambos. O que resta da leitura do seu texto é um constrangedor “puxa, eu não sabia“. Eu esperava mais de um ícone da cultura brasileira, cuja trajetória também foi marcada pela dor de um exílio e pela arbitrariedade de um governo perverso.

Ora, não se pode perdoar Caetano quando ele usa desculpa furada de não conhecer os massacres contra os Palestinos que ocorrem de forma sistemática há décadas. Caetano foi amplamente avisado, orientado – conclamado até – para conhecer a brutal violação de direitos humanos patrocinada por Israel. Mas, por medo, falta de firmeza e brio… calou-se. Mesmo depois de conhecer a realidade “in loco”, e ter a oportunidade de gritar “Break the Silence!!!” e expor publicamente sua solidariedade ao povo massacrado da Palestina, preferiu se calar.

A atitude pusilânime de Caetano – quando poderia ter feito a diferença – é o que expõe a distância entre um artista de qualidade e uma grande personalidade. Essa é a diferença entre Caetano e Roger Waters. O músico genial do Pink Floyd não se calou e tampouco usou a desculpa esfarrapada de que “não sabia como era“. Não. Munido de informações Roger postou-se com bravura contra a barbárie e lidera o mundo da arte contra o Apartheid israelense. O que sobra em Roger Waters, falta em Caetano: coragem e postura.

A velha retórica de chamar os opositores de “furiosos”, e a crítica quase infantil contra Miko Peled, o filho do general, mostram que Caetano ainda acha – em pleno século XXI – que existe espaço para um país cuja política racista e excludente destrói as esperanças de um povo e uma pátria ocupada. Não é o que a civilização e a justiça determinam, Caetano. Embora a sua tímida retratação, você continuará representando para mim um artista de segundo nível, abaixo de Luan Santana (pela sua negativa de apresentar shows no MS até acabar o massacre Kaiowá) em termos de atitude pública diante das barbáries contemporâneas.

Suas palavras ensaiando uma retratação, mesmo diante do frágil “acho que não volto mais” ao menos sinalizam que ele percebeu o quanto sua atitude fraca prejudicou o esforço mundial de bloquear Israel em sua política de limpeza étnica. A ideia de buscar informações e pesquisar vídeos explicativos sobre a Palestina no YouTube (só agora???) pode ser interpretada como uma tentativa de resgate de sua própria coerência.

Entretanto, o texto deixa a desejar quando se busca em suas palavras a solidez e a firmeza contra os abusos de Israel. Não vi solidariedade expressa e nem a adoção de uma postura de peito aberto. O que vi foi uma série de desculpas quase infantis sobre a razão de ver uma grande oportunidade passar na sua frente e ter se calado.

Penso ser inaceitável que Caetano use sua ignorância como desculpa. É como se em meados do século XIX o filho de um lorde inglês precisasse vir ao Brasil para descobrir que havia escravidão e, aqui chegando, se desculpasse dizendo “eu não fazia ideia que era assim“. Você foi avisado, Caetano, por Roger Waters e por centenas de ativistas. Foi porque quis, ganhou seu rico dinheirinho e agora se faz de “menino assustado”.

Você provavelmente tem vergonha de ter sido enganado por Israel. Eu também fui. Sartre e Jorge Amado foram enganados pelo comunismo real soviético. Todavia, seria nobre da sua parte reconhecer que a “democracia” israelense é uma FRAUDE, que a Palestina foi roubada em 1948 com terror e massacres, que o povo palestino vive em uma prisão a céu aberto e que Israel jamais pensou em um país plural, e sua perspectiva sempre foi a da limpeza étnica e da aniquilação lenta e sistemática do povo palestino.

Espero que seus fãs possam lhe perdoar, mas não acredito que os palestinos – que podiam ter recebido sua ajuda – sejam tão condescendentes com a sua fraqueza de espírito. Reconhecer seu engano, a postura preconceituosa com o mundo árabe e o islã e o entusiasmo com a falsa “modernidade” de Israel seria um excelente começo. Mas você preferiu agir como um menino medroso, e quando o mundo pedia uma voz de solidariedade a um povo que lentamente agoniza você se calou.

Por medo.

Você foi cúmplice de um massacre e um crime contra a humanidade. “O show falou por si” é uma mentira que tenta encobrir sua covardia. Podia ter falado, gritado, esbravejado mas preferiu o silêncio. E isso ficará marcado em sua trajetória. Você viveu no tempo do Apartheid israelense mas quando teve a grande oportunidade de se posicionar, foi fraco. Que Deus se apiede de sua alma.

É fácil falar quando se está distante da dor que esmaga o peito do outro.

Pense em Gaza, Caetano.
Gaza é aqui.

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Tire o teu

tiroteio

“Muda-se a forma, mantém-se o conteúdo. As manifestações da exploração do homem pelo homem se transmutam e fantasiam, exatamente para manter sua essência intocada. O homem se disfarça, muda seus rostos e jeitos, para continuar sendo o lobo do homem”. (Max)

No meio de um cochilo aguardando minha paciente chegar acordo com uma salva de estampidos. Em alguns minutos a confirmação: tiroteio no estacionamento do hospital. Um assaltante morto e dois feridos presos. Da janela basculante envidraçada que enxerga o Guaíba consigo ver o burburinho e a ação dos policiais.

Confusão, correria, curiosidade mórbida e múltiplas versões do mesmo fato. Mas o pior são os comentários. Os da Internet eu ainda posso não ler, mas os que passam ao meu lado não posso evitar de ouvir.

Da janela do centro obstétrico podemos ver o corpo estendido no chão. “Menos um” diz um passante. “Só falta a emergência atender”, indigna-se outra, negando aos feridos qualquer migalha de comiseração. Por que será que as pessoas se amarguraram tanto nos últimos tempos? A morte de um menino é realmente algo a se comemorar?

Eu me resigno e fico quieto. Se resolver questionar as comemorações pelo óbito do qual somos todos testemunhas e cúmplices, posso acabar sendo a próxima vítima.

Tristes tempos…

PS: E depois do tiroteio nasceu Beatriz… Que venha em paz. Que não se contamine com a psicosfera carregada que hoje se abateu sobre esse lugar. Siga seu caminho cheio de luz e fuja das trevas que teimam em nos perseguir.

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Uzomi

cultura-machista

Uma feminista, claramente indignada com a saída da menina do Master Chef, escreveu há algumas horas a seguinte frase: “Uzomi venceram”….

Eu sei que “uzomi” é um termo usado para identificar machistas. Sei disso… Entretanto quando um médico diz “eu fiz o parto da fulana” a gente tenta corrigir explicando que quem faz o parto é a mulher, e que essa frase carrega escondida entre as palavras uma clara expropriação de um evento sagrado como o parto por parte de quem deveria apenas garantir a sua segurança e acompanhá-lo. Pelas mesmas razões, usar “os homens” para se referir a machistas, abusadores e pedófilos nos dá a entender que a luta não é contra aqueles que naturalizam sistemas de poder e usam da força física e política para oprimir as mulheres, mas que é contra todos os homens – pelo simples fato de serem homens.

Minha crítica não tem NADA a ver com a saída dessa menina do programa, até porque eu me afasto desse assunto (abusos, pedofilia, agressões), pois me causa tristeza e raiva. A ÚNICA ressalva que faço é a generalização ofensiva com os homens, como se todos nós fôssemos parceiros de pedófilos e abusadores. Pior, como se essa fosse uma luta dos homens contra as mulheres. Isso é um erro brutal e uma suprema injustiça, que só afasta os homens que poderiam se associar nessa luta.

Se cobramos dos profissionais que parem de expropriar partos e garantam o protagonismo deste evento às mulheres, também é justo pedir a algumas feministas (não todas… as que estão ao meu redor concordaram que este termo não deve ser usado) que parem de utilizar termos ofensivos contra os homens quando, em verdade, querem se referir a um grupo extremamente minoritário de pessoas que acreditam em uma pretensa superioridade masculina ou que o corpo da mulher é um objeto que pode ser usado apenas para satisfazer seus desejos.

Se queremos um mundo livre de sexismos precisamos vigiar TODAS as falas, sob pena de perdermos cada dia mais homens interessados nessa luta e que são tratados como inimigos, pela simples razão de serem homens.

Não se trata de desmerecer as lutas feministas, mas pedir que não generalizem para fazer valer seus pontos e nem apontem suas armas contra os inimigos errados: os homens. Não somos nós os inimigos: o inimigo é o machismo e o modelo que nós todos construímos na sociedade. Ele sim deve ser trocado por algo melhor e mais justo. Essas expressões afastam aqueles que gostariam de se aproximar mas se sentem imediatamente rechaçados.

Para fazer com que uma ideia seja aceita por todos o confronto nem sempre é a melhor solução. Muitas vezes a palavra doce e a compaixão – procurando sempre entender o ponto de visto do outro – são mais efetivos, mesmo que durem mais tempo. Se as mulheres desejam uma sociedade mais justa, abandonem os termos ofensivos e agressivos que aprenderam a usar com os machistas. “Uzomi” ofende quem não merece ofensa, e afasta quem desejava se aproximar.

PS: A bem da verdade, essa moça – que se identifica como uma feminista que não tem ódio de homens – corrigiu sua expressão e escreveu “os machistas venceram“. Eu me senti satisfeito.

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Equívocos

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Não faz sentido comparar os equívocos cometidos pelos governos militares com os de agora. Os erros do governo militar são comprovados: sequestros, mortes, torturas, perseguições, falta de liberdade, mordaças, maquiagens econômicas, endividamento externo e interno, etc. Também não faz sentido achar que a liberdade oferecida por este governo às instituições que combatem a corrupção foram “concessões pela governabilidade”. Não se trata disso: é um projeto claro de cortar a pele a abrir o abscesso da corrupção.

Contra o governo de Lula e Dilma, por enquanto apenas apareceram boatos (no que diz respeito à corrupção). Os erros na questão econômica poderão ser julgados no futuro, quando forem avaliados dentro dos contextos a que pertenceram. O que Dilma fez não foi algo “ao apagar das luzes do seu governo“. NÃO: foi um política clara desde o primeiro dia do seu primeiro mandato de oferecer garantias à Policia Federal e ao Ministério Público para investigarem tudo e a todos. NÃO FOI uma atitude desesperada, e nem uma “saída honrosa”; foi uma atitude do governo de curar a ferida da corrupção acabando com seu principal agente: a IMPUNIDADE. Por esta razão até mesmo José Dirceu foi condenado de forma irregular e SEM PROVAS, num escândalo jurídico (e que ainda não acabou, posto que irá para as cortes superiores da OEA). Mesmo cortando na própria carne este governo GARANTIU a continuidade do projeto de combate incessante à corrupção, e por esta razão, apesar das mentiras e das falsidades de inimigos ideológicos, é o governo mais HONESTO que tivemos neste país.

Que ainda há muito a fazer, não resta dúvida. Mas olhe bem para os partidos que são acusados de corrupção: o PT é o NONO (9º colocado). Tudo isso nos deixa claro que existe uma manipulação extensiva para culpabilizar o PT naquilo que ele faz de BOM, como o combate à corrupção. As críticas falsas, daninhas, sem provas, sem embasamento são usadas pelos mesmos grupos poderosos que agem desde 1954 para que as reformas (como o combate à corrupção hoje, ou a reforma agrária em 64) sejam interrompidas em nome da “moralidade”, ou para punir os “ladrões”.

O que me dói é ver gente pobre ou da classe média trabalhadora servir de massa de manobra para estes mesmos grupos que há séculos comandam os fios invisíveis de onde pendem nossos corpos. Não se trata de obstruir a crítica SEVERA aos erros MÚLTIPLOS que este governo cometeu e ainda vai cometer, mas de perceber que as críticas à HONRA só proliferam quando existe algo mais do que elementos de macroeconomia e políticas estruturais a combater. Nesse caso, o interesse é barrar as investigações, impedir que se chegue ao Cunha, ao Aécio, ao Nardes, à RBS, à cúpula do PP, ao PMDB (o mais corrupto de todos). É essa a luta para derrubar Dilma, que acaba sendo orquestrada pelos tolos da vez, pessoas que acham que atacando o bisturi poderão melhorar o abscesso.

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ATAME!

The Collector

Pedro Almodóvar, em seu filme “Ata-Me!”, desenvolve um instigante tema que já havia sido abordado no filme “O Colecionador” (The Collector, de William Wyler) de 1965. Nesta obra o genial diretor espanhol discorre sobre o amor como produto objetivo da procura amorosa. Em verdade, sob um ponto de vista filosófico, o filme do espanhol poderia ser analisado como um “remake” do filme de Wyler. Em ambas as películas um jovem, obcecado por uma paixão, sequestra sua vítima, foco de seu amor desmesurado, mantendo-a trancafiada e aguardando que ela um dia venha a se apaixonar por seu raptor. Após tal desesperada atitude, os sequestradores de ambos os filmes se esforçam em demonstrar – de variadas maneiras – a sua dedicação e desvelo com as vítimas, dizendo amar-lhes com devoção e respeito. Refreiam até seus impulsos sexuais, fazendo da contenção uma prova adicional do respeito que nutrem por suas adoradas cativas. Em “O Colecionador” a tragédia é o desenlace fatal, pela impossibilidade de sustentar-se a absoluta assimetria da relação. Vitimada pela penúria psicológica e física, a protagonista vem a morrer de pneumonia, nos braços de seu algoz.

Almodóvar, em seu filme de 1989, resolveu aplicar ao seu final uma solução mais otimista: o amor descoberto por detrás das capas de violência.

Atame

Em ambos os filmes a temática é clara: a possibilidade de criar-se o amor como fim, e não como meio. A ideia que perpassa é a tentativa de criar-se o afeto como o “produto” de um encontro. Forçadamente os protagonistas procuravam constranger a afeição de suas eleitas como se esta fosse uma conquista típica do universo masculino: “subjugue e imponha”. Entretanto, o afeto nunca é produto: oferece-se sempre como acessório, ou subproduto de uma relação. “Os subprodutos põem em xeque a soberba racionalista de que podemos conseguir moldar tanto o mundo exterior como o nosso próprio meio intra psíquico, fixando nossas metas e pondo imediatamente em ação os meios ou recursos adequados” (*). Podemos impor o medo e o terror; jamais o respeito, o amor e a confiança. Estas aparecem como que “magicamente”, no transcorrer de um processo. Surgem quando menos se espera, e revoltam-se contra as determinações externas. As relações amorosas carregam sempre esta marca de imprevisibilidade: nunca seremos capazes de reconhecer e vislumbrar os encontros adequados, posto que apenas o engajamento de um no desejo do outro é capaz de produzir o florescimento do amor. E, como bem o sabemos, não temos como prever tal acontecimento, pois que escapa ao controle do racional.

“Mesmo sendo o Antônio Banderas! Que mais poderiam desejar?”, perguntava eu às minhas amigas, ao que elas respondiam que, não sendo do seu agrado, nenhum homem poderia dispor de sua afeição ou de seu corpo. Como na fábula de princesa monstruosa de dia e linda à noite, o segredo estava na possibilidade de escolher.

“Acontece que a donzela,
e isso era segredo dela,
Também tinha seus caprichos.
E a deitar com homem tão nobre
Tão cheirando a brilho e cobre
Preferia amar os bichos”.

(Chico Buarque, Geni e o Zeppelin)

Mesmo Geni, que representa o “esgoto social”, (**) sabia destas imponderáveis características do desejo. Os encontros de amor trazem sempre seus caprichos. Acima de tudo, o que todos queremos é o protagonismo de nossas vidas. Oferecer a elas um Banderas, sem que isso passe por sua decisão, não é capaz de produzir o amor como produto.

Marina, a heroína pornô do diretor Máximo, acaba resgatando na sexualidade desperta, o amor por Ricky. Ali encontrou Almodóvar a possibilidade redentora de seus personagens. O sexo selvagem entre eles (que tanta celeuma produziu na época) acendeu a chama que os capturou, um ao outro. O contrário se observou no filme de William Wyler, onde nada conseguiu produzir a ligação entre a dupla, e a morte tornou-se o único desfecho possível. Não havia, imagino eu, nos anos 60, essa via de redenção. Seria demais pedir que as mulheres, há quase 40 anos, buscassem na sexualidade desperta uma possibilidade transformadora. Pelo menos não no imaginário social.

Prefiro analisar a modificação temática ocorrida nos mais de três decênios que separam as películas como a possibilidade de conquista de um amor mais livre e mais justo. O filme dos anos 60 nos mostra que o inconsciente social recém despertava para a necessidade de uma maior liberdade para as mulheres, mas não traçava um horizonte mais claro pela impossibilidade de compreensão das alternativas que produziriam tal revolução. O resultado só poderia ser sombrio e lúgubre. As mulheres ainda estavam numa total subserviência ao controle patriarcal, mas o romance de Freddie e Miranda em “O Colecionador” apontava para a ideia de que, se não lhes fosse oferecida a possibilidade de escolha, o resultado para a sociedade só poderia ser funesto. Em “Ata-Me!”, Almodóvar acena com a redenção: o protagonismo conquistado, e só ele, como capaz de reverter a submissão humilhante e degradante. Marina desperta seu desejo e, na cama, como metáfora de sua opção, troca de posição com Ricky. Sobre o corpo de seu amante, acena com a subversão da dominação, impondo sobre a violência a vitória imperiosa dos seus desejos e direitos. Ali se estabelece a mudança, o corte profundo, a guinada em direção ao “amor conquistado”, em substituição ao “amor imposto”.

Quando vi o filme de Almodóvar, e fazendo a conexão imediata e natural com o drama de Wyler, foi para mim impossível não traçar um paralelo com a humanização do nascimento. Nos filmes, como na trajetória de qualquer mulher, surgirá o tema das escolhas e da autonomia. O encontro médico-paciente é um encontro entre pessoas, onde fluem energias afetivas que compõe o cenário terapêutico. Negar esse fenômeno é cegar-se à própria essência do processo de cura onde, muito mais do que drogas e intervenções, operam os processos afetivos que permeiam este encontro. Médicos podem “atar” seus pacientes em transferências sadomasoquistas, ou aprisioná-los em medicamentos e terapias, mas somente quando estes se sentem livres é que a cura pode ocorrer. Não existe terapia verdadeiramente frutuosa que não remeta o paciente a libertar-se do seu egoísmo, de suas dores, culpas, ódios e rancores. A medicina, tal qual ocorreu com os desesperados protagonistas, por vezes procura forçar o bem-estar, a despeito da autonomia, da vontade e do desejo de quem se serve dela, desconsiderando o paciente como legítimo condutor de seus desígnios.

“Liberdade é nossa meta última”, repetia-me Max. “O seu amor, ame-o e deixe-o livre para amar”, cantavam os doces bárbaros. Não existe relação verdadeira sem a liberdade de escolher.

Não existe verdadeira humanização do nascimento sem protagonismo. Entretanto, cabe dizer, o que fazer daqueles que optam pelo cativeiro por se julgarem inaptos para a liberdade, e que se jogam nas mãos dos algozes para, abrindo mão da autonomia, encontrarem pelo menos a segurança que almejam? Esta é uma questão que se responde através da educação e da informação, pois só elas levam à descoberta das alternativas para a alienação.

Ata-me

Ricky, assim como Freddie, esmerou-se em oferecer tudo o que estava ao seu alcance para proteger, ajudar e cuidar de sua amada. Ambos fizeram sacrifícios, arriscaram-se, quase morreram. Entretanto, não conseguiram oferecer aquilo que de mais valioso era possível ofertar: a liberdade. Travados por um modelo de controle e dominação, não conseguiam entender um processo que não fosse pela coerção e através do medo. Ambos foram pródigos em “sofisticar a tutela”, dando às suas amadas o que de mais rico eram capazes de oferecer: sua devoção sincera; porém, também sabiam que, se a liberdade fosse oferecida, elas poderiam ir embora. Temiam o resultado dessa atitude, pela possibilidade da perda do seu amor. Entretanto, esse amor nunca floresceria, em “O Colecionador”, e só ocorreria em “Ata-Me!” quando a própria estrutura autoritária da relação foi subvertida, o que não pôde ocorrer na relação doentia de Freddie e Miranda. Note-se que a morte da protagonista nesta película pode ser lida, simbolicamente, como a “desistência da vida”, causada pela falta de liberdade a ela imposta.

No cenário do nascimento humano, apenas a possibilidade de oferecer às mulheres o controle sobre seus corpos poderá lhes “salvar” da tragédia da sua anulação enquanto sujeitos. Nenhuma “sofisticação de tutela”, por mais dedicada que seja (como fizeram Ricky e Freddie), será capaz de resgatar as mulheres da “inanição” de um cárcere de si mesmas.

A estrutura social, com o qual convivemos, precisa descobrir as alternativas (como Marina) para resgatar a essência profunda das relações, nem que para isso precise rever os próprios alicerces que a sustentam. Uma sociedade em que se busque incansavelmente a liberdade e a justiça como metas é o destino que nós mesmos precisamos construir.

Talvez estejamos mesmo vislumbrando o ocaso de um modelo baseado na conquista e na submissão, assim como nas ilusões racionalista e positivista que permeiam tanto as relações pessoais quanto a nossa medicina autoritária. Certamente que muito ainda há que ser construído, mas não acredito em nenhum direcionamento que nos afaste do necessário rebentar de grilhões e do indispensável arrancar de mordaças.

Porque não há futuro sem liberdade, e esta jamais é oferecida ou imposta, pois que é da sua essência ser conquistada.

Referências:

* “O que Sócrates Diria a Woody Allen” – Juan Antonia Rivera – Ed Planeta

** “Violência e Homossexualismo”, Valéria Amim – Univ. Estadual de Santa Cruz/UESC – Ilhéus/BA

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