Outra História de Horror

Porta Horror

Um homem chamado Hans está jantando, já de madrugada, com sua esposa Helga e suas duas filhas, Gertrude de 15 e Mathilda de 19. Na mesa da cozinha estão dispostos os pães, a margarina, o queijo e os assuntos do dia. Em uma pausa entre uma fala e outra ouviu-se um barulho vindo da entrada da casa. Parecia alguém tentando abrir a fechadura.  

“Psiu!!”, disse ele, e todos suspenderam os comentários e a própria respiração. O silêncio tomou conta da acanhada cozinha, fazendo os grilos subitamente fazerem parte do ambiente. Mais alguns segundos e o barulho novamente surgiu, como se um artefato estivesse sendo forçado na abertura externa da porta. Os cabelos dos braços se ergueram, e os olhos se arregalaram, e podia-se sentir o cheiro de adrenalina sendo expelida pelas suprarrenais em alvoroço. No entanto, nenhum som se escutou quando a esposa de Hans se abraçou às duas filhas e mirou em súplica aterradora para os olhos do nosso herói.  

Hans mais uma vez repetiu o “psiu“, e encaminhou a mulher e as filhas para a sala contígua. Levantou-se e, caminhando em direção à porta de entrada, quando subitamente parou…   Enquanto caminhava para o que poderia ser o encontro último de sua vida, onde poderia encontrar a morte na porta que teimava em fazer barulho, subitamente parou a dois passos da porta e percebeu o quão machista era sua atitude.  

“Porque eu tenho que averiguar a porta? Porque eu tenho que garantir a segurança da casa? Não seria mais justo se todas as tarefas fossem compartilhadas, se todas as funções fossem igualmente distribuídas, para que o poder fosse repartido de forma igual entre os gêneros? Não seria correto que também a função de proteção fosse repartida, para que as mulheres tivessem igualmente este tipo de responsabilidade? Mas, se tanto lutamos por equidade, porque foi tão natural a atitude de  levantar e me dirigir para a porta, enquanto minha mulher se abraçava às filhas, à família? Por que me parece tão normal protegê-las?”  

Olhou para trás e pôde ver sua mulher espiando-o, abraçada às meninas, enquanto permanecia estaqueado no meio do corredor que terminava exatamente na fatídica porta.   Mais uns poucos segundos de tensão e terror, até que uma folha de papel surgiu por debaixo da porta. Ainda tremendo curvou o corpo para frente e, com inusitado cuidado, abriu a folha de papel cuidadosamente dobrada ao meio.  

“Caro vizinho, percebi seu carro está com os faróis acesos no estacionamento. Não quis bater na porta para não acordar a família. Procure apagá-los assim que possível. Abraços, Simone“

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Machismo

Soldadas

(*) post scriptum:

Este foi o texto que gerou a cisão dentro do antigo blog que eu escrevia,  que depois de dois anos de convivência fui convidado e me retirar. Existe um outro artigo em que eu deixo aclaradas algumas posições sobre este texto e que se chama “Algumas Explicações Necessárias”  que também contém alguns escritos que foram publicados no Facebook após o incidente.  No final deste artigo original eu transcrevi em itálico – para diferenciar do texto publicado no blog – minhas falas em uma conversa privada com uma amiga feminista que lamentava o ocorrido. Espero que este fato triste seja um degrau na construção de uma interlocução cada vez mais intensa entre a humanização do nascimento e o feminismo. Estou certo de que são aspectos diversos na cultura, mas suas interfaces são tão claras que a necessidade de um contato entre humanistas e feministas é mais do que necessário: é urgente.

MACHISMO

A segregação que o patriarcado determinou forçou a invasão que hoje testemunhamos nos espaços antigamente entendidos como “naturais”. Eu não creio que o patriarcado seja “machista”, pois penso se tratar de dois aspectos da organização social diferentes em essência. Minha tese é de que o machismo é a naturalização de um modelo social artificial baseado na posse e com o objetivo de garantir segurança. O patriarcado não é um sistema de valor; o machismo é.

A separação das atividades por gênero, por vezes absolutamente RÍGIDAS na sociedade, é milenar. Poderia me cansar citando, mas lembro que a atenção ao parto era proibida para os homens até o final do século XVI.

“Em 1522, um certo doutor Wortt de Hamburgo travestiu-se de mulher para assistir a um parto, mas seu disfarce foi descoberto e ele foi queimado na fogueira “por sua indecência e por degradar sua profissão” (Rich, 1986:140), o que ilustra que, pelo menos em certos contextos, aos varões era vedada a presença na sala de parto, delito que poderia ser punido com a morte. Por outro lado, foi no começo do século XVI que se iniciou a publicação de edições dos livros de ginecologia e obstetrícia dos antigos, por varões, em língua vernacular, como é o caso do Rosengarten, o Jardim das Rosas.”  (www.mulheres.org.br/mestrado_3.html)

Mulheres nas Igrejas são discriminadas até hoje (e não apenas na Igreja Católica), e não se vislumbra uma invasão neste terreno em curto prazo. Nenhum sinalizador na Santa Sé ou outras denominações para que o modelo misógino e androcêntrico seja modificado.

As invasões de território, na esfera de gênero, não ocorrem com facilidade e nem com plena aceitação. Por isso o termo invasão está correto, pois os espaços não “estão aí” para serem ocupados, pois já tinham “dono”. A posse é garantida pela cultura, mas como sabemos, as culturas são cambiantes, mutantes e plásticas. Mais uma vez, o termo “invasão” se refere exatamente a estes caminhos de lutas para desbravar espaços ocupados por OUTROS. Mulheres e homens assim constroem a sociedade. As mulheres o fazem de forma mais intensa na atualidade porque muitos espaços sociais foram ocupados pelo patriarcado (e não pelo “machismo”). Todavia, vemos – como acima – espaços sendo invadidos pelos homens de maneira corajosa e consistente, como na atenção ao parto nos últimos 3 séculos, ou nos cuidados com mães e bebês nos últimos anos.

O machismo é um sistema de poder como qualquer um dos outros sistemas existentes, como o racismo. Quem não se deixa cativar por eles? Quem não os incorpora e os naturaliza? Se você fosse da realeza no século XVII ou XVIII certamente acreditaria que sua essência é diversa daquela da plebe, e olharia seus braços todos os dias para confirmar que seu sangue é azul. Não se trata de justificar qualquer desses sistemas de exclusão, mas incorporá-los à natureza humana. É preciso coragem para abrir mão de suas prerrogativas culturais. Quando se sugeriu a presença de doulos no parto algumas corporativistas de gênero “subiram nas tamancas” e reclamaram dessa invasão de território. Elas estavam cativas em seu sexismo, não lhes parece?

O patriarcado ofereceu a posição política preponderante ao mais forte, para proteger a sociedade. Essa é sua essência. É ingenuidade acreditar que ele foi criado por “ódio às mulheres”. Este sentimento até pode existir em muitos homens, mas não é pelo ódio que se cria um modelo e uma estrutura social de absoluto sucesso como este, de abrangência universal. Em qualquer canto da terra ele foi utilizado como ferramenta de progresso, e qualquer sociedade que ousou desafiar o patriarcado no passado veio a fenecer.

Entretanto, hoje em dia – depois da pílula e da Magnum, diriam algumas – sua necessidade não se faz mais tão evidente. A força física dos homens não é mais tão fundamental em um mundo tecnológico, o que permite que grandes nações do mundo – Alemanha, Chile, Brasil, Argentina – sejam governadas por mulheres, de compleição física mais frágil, mas igualmente poderosas. Agora já é possível trocar a configuração política do mundo por um modelo mais justo e equilibrado, onde os gêneros sejam respeitados e tratados com equidade.

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Vou acrescentar algumas coisas que eu disse depois no texto original para que a minha posição possa ficar mais clara. Mas não se preocupem comigo… isso não me atinge tanto assim. Pois é, isso é ruim, mas na minha opinião faz parte do jogo. É natural que isso aconteça, e temos que nos preparar para isso. Com o tempo as melancias se ajeitam com o balançar da carroça.

Minha argumentação é bem simples: o patriarcado é uma estratégia de sobrevivência, estabelecida no fim do paleolítico superior e a partir das mudanças estruturais da sociedade, de um modelo nômade para um agrário. O surgimento da posse (terra, animais) nos obrigou a colocar em posição de poder os machos testosterônicos de nossa espécie, daí surgindo o patriarcado. Isto é: o patriarcado NÃO surgiu por um ódio às mulheres. Um sentimento estranho como esse não poderia ter criado um modelo de “sucesso” como este na manutenção da propriedade e na expansão territorial, com consequente bem estar para as populações sob seu domínio. Não só isso: o patriarcado permitia que um homem tivesse várias mulheres, o que apoia o incremento populacional, o que era fundamental para as novas tarefas incorporadas, na agricultura e pecuária..Isso nada tem a ver como machismo, que é a NATURALIZAÇÃO de um sistema ARTIFICIAL, como o patriarcado. Entretanto, algumas feministas se encheram de raiva por eu aparentemente ter uma visão “condescendente” do patriarcado. Não é verdade, mas eu acho que se você confundir patriarcado com “ódio às mulheres” será muito mais difícil combatê-lo.

O machismo é a tentativa de fazer uma simples estratégia (como uma ditadura, o racismo ou a escravidão) ser naturalizada, como se fosse “natural” o homem ser superior à mulher. Mas TODA a briga foi por eu ter dito exatamente isso o que muitas pessoas disseram antes de mim.
Mas é ÓBVIO (!!!!!) que o patriarcado é um estupendo sucesso !! Fosse ele um fracasso não haveria porque combatê-lo !!! Ele ainda é, mas é claro que percebemos a sua decadência dia a dia, e é para isso que lutamos. Quando falo no sucesso do patriarcado falo de sua abrangência planetária, sucesso em abrangência e em poder de transformação social. Somos todos herdeiros do patriarcado.

Mas isso de deu as custas de sufocar o feminino. E o patriarcado precisa ser substituído por um modelo mais justo e igualitário. Ele agora é insuportável. A origem das ofensas está nessas simples ideias. Podem ser combatidas e aceito argumentos em contrário, mas as ofensas foram pela minha pessoa, e não pelas minhas ideias. Eu tenho uma visão próxima da marxista sim, dialética e histórica, mas o problema é tocar na ferida do feminismo, e isso deixou as feministas em pé de guerra. Todavia meus argumentos são límpidos e translúcidos. Pode-se discordar deles, mas é absurdo pensar que “existe algo por trás”, desejos ocultos ou uma visão diminutiva da mulher. Pelo contrário; no próprio texto eu falo da importância capital de combater a ambos: o machismo por ser preconceituoso, e o patriarcado por ser um modelo anacrônico.

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Poderes

Humanis Corporis

Queria desenvolver mais o tema da fixação dos obstetras brasileiros de fazer seminários em que dedicam algumas horas para combater – das formas tradicionais – o parto domiciliar. Via de regra escolhem-se profissionais que apresentam os conhecidos trabalhos que confirmam o que se pretende acreditar. Falam exaustivamente dos riscos, dos problemas, dos transportes, das cidades grandes. Mostram a Inglaterra como um país completamente diferente, assim como a Holanda, e explicam que os partos domiciliares de lá podem ser estimulados pelos respectivos governos porque…. bem, eles são ingleses e holandeses, não é?

Mas o que mais chama a atenção é que os riscos, se existirem, são muito pequenos, o que os transformaria em riscos normais da vida humana. Jogar futebol na escola é muito mais arriscado do que jogar xadrez, mas nem por isso se proíbem jogos no colégio por existir uma alternativa mais segura. Há que se considerar riscos relativos e riscos absolutos, o que frequentemente não se faz, por interesse. Todavia, qualquer pessoa percebe a existência de VALOR nos jogos de futebol, o que faz com que os riscos sejam absorvidos como parte da vida, do preço que se paga por existir. O mesmo raciocínio se usa para viagens de avião e automóvel; o segundo não é proibido por ser o primeiro mais seguro. Porém, muitos se negam a perceber qualquer valor associado ao rito de passagem atravessado pelas mulheres chamado “parto”, e tentam de todas as formas desconsiderá-lo.

Partos extra-hospitalares no Brasil não chegam a 3% do total de nascimentos, mas os partos “urbanos” domiciliares e planejados, em mulheres de classe média, não chegam a 1%. A quantidade de mulheres que optam por um modelo domiciliar é desprezível diante do modelo hospitalar. Por isso cabe a pergunta: porque tanta preocupação? Porque se ocupar destas mulheres, normalmente MUITO informadas, e que optam por ter filhos em suas casas?

Minha tese é que o parto domiciliar, mais ainda do que o parto realizado em Casas de Parto, incomoda pelos seus significados invisíveis. Como dizia a professora Robbie Davis-Floyd no seu livro Birth as an American Rite of Passage a obstetrícia contemporânea se estabelece sobre a crença da defectividade essencial da mulher. Este é seu marco teórico mais importante, e menos percebido. No paradigma tecnocrático os sujeitos são máquinas, coisificados pelo modelo cartesiano, De Corporis Humani Machina. Já no que tange às mulheres, elas são dotadas pelo Criador de uma máquina defeituosa em essência, cuja fabricação é equivocada e sujeita a erros, que podem ser consertadas pela razão humana personificada na figura masculina do médico. Mulheres são seres passíveis de falhas, e cabe aos profissionais a tarefa de resgatá-las das garras cruéis de uma natureza madrasta.

O parto domiciliar é o avesso dessa crença. Muito mais além das teses da humanização do nascimento, o que sustenta o parto domiciliar planejado – com sua tecnologia simplificada (mas eficiente, como provam os estudos) – é a postura contrária (muito mais do que discordante) à visão corrente da defectividade feminina. Desconsiderando a visão médica tradicional da “bomba relógio” prestes a explodir, as parteiras modernas (enfermeiras e obstetrizes) que acompanham partos domiciliares enxergam a mulher na plenitude de suas capacidades, e na excelência de seus corpos. Mulheres parindo são exemplos de “perfeição” da natureza, expondo a delicadeza do processo adaptativo da espécie aos desafios da altricialidade e da encefalização.

Essa atitude ofende o modelo médico. Mais do que preocupar-se com possíveis problemas para mães e bebês – o que seria uma atitude nobre da corporação – o parto, sem os aparatos e os profissionais que configuram o modelo hegemônico, desafia os poderes constituídos sobre a visão catastrofista do nascimento. Fosse o bem estar de mães e bebês a questão preponderante e estaríamos combatendo um problema MUITO mais óbvio, e sobre o qual já não recai nenhuma dúvida: a epidemia de cesarianas. Nenhum médico sério questiona a mortalidade e a morbidade aumentadas com o avanço das cesarianas no mundo todo, mas as lideranças da corporação quase nada dizem ou fazem para estancar a hemorragia de cirurgias obstétricas. E por quê?

Ora, porque as cesarianas estão alinhadas com o modelo ideológico que coordena o nascimento. Elas se adaptam como uma luva à ideologia predominante de corpos mal feitos, gestações problemáticas, ciclos vitais fisiológicos tratados como patologia e o uso salvador das técnicas, hospitais e recursos de toda a ordem para “salvar” mulheres condenadas pela sua própria condição de “ser mulher”.

Os partos domiciliares ameaçam a estrutura de poderes; cesarianas em desvario não. Pelo contrário: quanto maior o número de nascimentos cirúrgicos maior será a artificialização do nascimento e mais importantes serão aqueles que o controlam. Por esta razão é que se dedica um tempo anormal para combater um modelo de assistência que está LONGE de colocar pessoas em risco, mas que ameaça poderes instituídos e hierarquias sociais estabelecidas.

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Desamor Canino

Cão

O ano de 2014 – eu me dei conta agora – foi um dos mais difíceis da minha vida. Resta esperar que 2015 seja mais suave.

Mais de 2015 eu já aprendi uma lição: Jamais espere que alguém possa lhe perdoar por algo que você não fez. Fico pensando em algumas pessoas que explicitamente me detestam e tento me lembrar algo de rude, torpe ou grosseiro que tenha feito… e, por mais que honestamente tente recordar, não lembro de nada. Nenhuma atitude verdadeiramente má me vem à mente, até porque a própria distância impediria ou dificultaria isso. Pior, algumas dessas pessoas (sim, várias) foram sempre alvo de elogios sinceros e de admiração que – me obrigo a confessar – continuam válidos inclusive agora, quando os laços de amizade foram definitivamente desfeitos.

Todo mundo, eu acho, já passou por isso. Uma coleguinha na escola, um professor, um integrante da turma de amigos, um colega de escritório ou a sogra, um desconhecido no trânsito, um chefe, um motorista de táxi ou uma menina bonita… que não vai com a sua cara. Nada importa o que você fez ou venha a fazer: você está condenado a ser desconsiderado e, se bobear, odiado eternamente.

A questão central, e a mais difícil de entender, é a unilateralidade. Um problema semelhante, mas diferente nas consequências, é quando os desafetos se relacionam com as “santidades“. Isto é: quando ambos os sujeitos confessam suas mútuas malquerências com a famosa expressão: “nossos santos não batem“. Bem, ainda aqui ao menos existe a reciprocidade; a raiva e os sentimentos negativos são compartidos entre ambos. Para estes casos, quando possível, o melhor é um simples distanciamento.

Todavia, existe um modelo muito mais doloroso, o qual chamo de “desafeto canino”. Acreditem, este é bem pior. Existem pessoas que odeiam os cães, os maltratam, desprezam, chutam, deixam passar fome, mas o pobre cão não passa a lhe odiar por causa disso. Ele está lá, sempre olhando, admirando e o considerando alto, forte e vigoroso, sem ter qualquer noção do que leva você a tratá-lo tão mal. Ele o admira e ama, apesar de você desprezá-lo.

Esta é a tristeza do modelo canino: não se trata de algo que o cachorro fez ou deixou de fazer. Ele pode ter os esfíncteres mais educados do mundo, o latido mais gentil, o ferormônio menos ofensivo, e mesmo assim ser maltratado. A verdade é que a sua própria condição canina é o que obstaculiza, e por vezes impede, o afeto.

Desgraçadamente ele não pode, sob pena de desaparecer, deixar de ser cão. É da sua essência, imutável, eterna. Ele está condenado a ser desamado por você.

Para nós humanos, que sofremos no desamor canino, o que sobra é a brutal sensação de impotência ao perceber que a desafeição nunca foi fundada em algo que realmente fizemos, algum ato de desprezo, desconsideração ou maledicência. Não… o desamor vem porque representamos algo, ocupamos um lugar subjetivo, pessoal, inconsciente e independente de fatos objetivos que pautam qualquer relação. Não foi algo que fizemos, mas algo que “somos”. E sobre quem somos, para o imaginário daquelas pessoas, não há nada que se possa fazer.

Podemos apenas lamentar e nos entristecer, mantendo a esperança que um dia  possamos ser vistos com olhos mais condescendentes.

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A gente não quer só comida

plantando2

Esse pensamento que li alhures me fez pensar:

“Talvez não devêssemos pensar porque os alimentos orgânicos custam tão caro, mas porque os industrializados custam tão barato”.

Um questionamento razoável seria: porque os partos industrializados pagam tão mal e custam tão pouco para o sistema, e os nascimentos “artesanais”, em contrapartida, são necessariamente mais caros?

Faz sentido?

Ser tratado como um objeto em uma esteira de montagem, como de forma genial preconizou Henry Ford, tinha exatamente esta intenção: baratear os custos e maximizar os lucros. Uma cesariana em hospital faz o “produto” bebê ter um custo de produção muito menor, assim como a couve, a soja, o arroz e o milho tratados como agronegócio. Olhar para o nascimento como negócio e bebês como “mercadoria” nos levaria inevitavelmente para esta crise com que nos deparamos hoje.

Industrializando-se a vida como um todo teremos custos menores, e…. produtos piores. Não seria melhor questionarmos as vantagens de uma abordagem mais subjetiva para a comida e o parto, retirando-os da lógica capitalista e produtiva, e estabelecendo uma nova postura em relação à alimentação e ao nascimento?

Nunca li, mas acho que Michel Odent deve ter falado algo parecido em “O Camponês e a Parteira”….

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Bruxas

Apesar da minha promessa de início de ano, baseada em inúmeros erros do passado, voltei a cometer o mesmo equívoco lamentável de tantos anos: debater com as vítimas.

Ainda hoje vi a notícia do assassinato de uma mulher (servidora pública da guarda civil) dentro do seu automóvel enquanto aguardava a chegada de sua filha de 7 anos. Uma morte estúpida, inaceitável e dolorosa, pois atinge todo aquele que vive em uma cidade. A morte de Ana Paola é um pouco a morte de todos nós.

O pior, como sempre, são os comentários, mas isso pode ser entendido como a explosão de sentimentos advindos da identificação dessas pessoas com a mulher que foi vítima, ou com seus familiares enlutados. O problema é que a dor e a indignação de muitos acaba se transformando numa explosão de ressentimento e ódio, sem que haja qualquer tipo de anteparo civilizatório, pelo menos em tempo de debate cibernético. Qualquer forma de linchamento é válida; julgamentos sumários são propostos e a vingança contra o meliante passa a ser muito mais importante do que a solução de um problema – a violência urbana – que existe há séculos e que se incrementou nas últimas décadas.

Pior: qualquer tentativa de estabelecer um diálogo, ou mesmo um pedido de que haja ponderação acarreta o rechaço imediato dos vingadores e justiceiros. A frase clichê nessas circunstâncias é: “Ah, está com pena? Então leve para casa.” Pedir que as pessoas entendam que um crime não justifica outro parece, aos ouvidos das vitimas, o mesmo que defender a prática criminosa. Dizer que o assassinato dessa moça não significa que temos que baixar a idade penal para 10 anos (sim, isso foi proposto), ou que a pena de morte deveria ser instituída, é o mesmo que dizer que essa morte não representa nada e que o criminoso é inocente.

Para a vítima, movida pela intensa emocionalidade do momento, não existe ponderação ou razoabilidade, apenas paixão e dor. Nestes casos somos TODOS vítimas, e a manifestação popular é a síntese dessa sensação de medo e insegurança.

Resolvi que nada deveria dizer, além de um breve comentário: “Os comentários fascistas acima são tão tristes quanto a notícia. Os defensores do linchamento são apenas criminosos que ainda não tiveram sua oportunidade ou circunstância para delinquir. É muito triste ver do que é feita a “opinião pública” do nosso povo. Assassinos em potencial.” Escrevi e me retirei.

Podia ter ficado quieto, até que uma ativista da humanização escreveu um texto dizendo que o parto não é lugar para “doulos“, pois este espaço é feminino e deve ser assim preservado. Imediatamente reconheci nesse texto uma forma característica de sexismo com sinal trocado: a imposição externa de uma “cartilha”, feita para que as mulheres sigam um comportamento de acordo com o ideário feminista, mas sem levar em consideração o que aquela específica mulher entende como sendo sua necessidade ou desejo. Tentei explicar que nós homens fomos obrigados a testemunhar a invasão feminina de espaços historicamente destinados aos homens e que esta ocupação de funções e posições ocorreu pela luta por igualdade e equidade que as mulheres empreenderam. A entrada das mulheres na medicina, no direito, na administração e na política – mesmo estando ainda longe do ideal – foi um movimento especial na história da cultura ocidental, que ainda está atrasada no oriente. Minha posição, entretanto, é que, assim como as mulheres puderam empreender esta benfazeja invasão, também os homens poderia ocupar os espaços que historicamente as mulheres detinham.

Entre eles o cuidado de gestantes.

Se achamos que a equidade deve ser buscada e incentivada ela certamente é uma via de duas mãos. Se desejamos ocupar espaços antigamente determinados como fixos para o sexo masculino (lutas, guerras, cirurgia, futebol, mecânica, etc.) porque não admitir o parto como um território livre para a escolha das mulheres? Porque criar uma “reserva de mercado” para a ação feminina, quando nenhuma destas reservas se admite para os homens?

Pareceria até um argumento razoável, mas lembrei que numa sociedade machista como a nossa, ainda dominada pelo patriarcado, as mulheres são todas vítimas. Pressionadas e constrangidas por uma sociedade injusta podem debater da posição subjetiva de vítimas, usando de forma liberal a emocionalidade e a violência verbal que jamais é adequada em um debate racional, principalmente se considerarmos que os debatedores eram amigos.

Erro grosseiro da minha parte. Fui criticado e ofendido de forma desnecessária, em agressões “ad hominen“, por pessoas que deveriam estar do mesmo lado na luta pelas mulheres. Meu engano foi, mais uma vez, tentar tratar de forma racional temas que são extremamente doloridos para algumas mulheres. Mostrar as contradições do discurso de algumas feministas é, para elas, o mesmo que queimar parteiras e bruxas. Não há meio termo: ou você participa do linchamento ou é um “mascus” asqueroso enganador de mulheres.

Sim, a história estabeleceu estes espaços para os homens, como a política, a guerra e os esportes em geral. A cultura, em sua dinâmica, deixou as mulheres confinadas à família, aos cuidados com os filhos, à culinária e ao lar. Esta é a história do patriarcado que, ao meu ver, foi uma brilhante solução cultural adaptada ao paleolítico superior e todos os séculos de guerra que o seguiram. A crise desse sistema só agora, felizmente, pôde aparecer. Essa mesma dinâmica cultural adaptativa proporcionou a decadência do patriarcado criando as condições para a invasão que hoje vemos, fortuita e bem vinda, como disse anteriormente. Por isso advogo que as invasões no outro sentido sejam também respeitadas.

O uso da palavra “invasão” se justifica por ser a que mais claramente traduz a luta das mulheres para conquistar (e não simplesmente “ocupar”) espaços na sociedade ocidental contemporânea. Aliás o MUNDO não é masculino nem feminino, mas algumas funções foram assim determinadas. Essas “funções” nada mais são do que acertos temporários de adaptação às condições internas e externas dos grupamentos humanos. O patriarcado determinou uma delimitação em que muitos afazeres ficaram com os homens, como citei acima. Mas basta você trocar a fralda do sei filho ou entrar na cozinha da sua casa para ver como as mulheres dizem (jocosamente, mas nem tanto) que ali quem manda são elas. O que o mundo pós-pílula fez foi questionar os lugares alocados pela cultura, oferendo oportunidade para que as mulheres invadissem locais antes tradicionalmente masculinos. A palavra “invasão” é boa exatamente porque a ocupação não foi (e não é) pacífica. Vejo beicinho por todo lado quando uma mulher ocupa um posto que sempre foi ocupado por homens, e vi muxoxos quando afirmei que somente a mulher pode decidir se quer ou não um homem como “doulo“.

Haveria muito mais a ser dito sobre este tema e de forma profunda, mas existem pessoas feridas pelo machismo que não suportam qualquer referência ao tema sem responderem com emocionalidade, o que é plenamente compreensível, mas impede o progredir dos debates. Lembro do Déda, meu vizinho russo, que fugiu do seu país durante a guerra, e que acompanhou o totalitarismo stalinista nos seus primórdios. O tema “Stalin” e a Revolução de 17 eram absolutamente insuportáveis para ele, que se alterava bastando para isso tocar de leve nestes assuntos. Ele foi vítima, e também com ele me dei conta que é inviável tentar debate racionalmente. A carga emocional era tanta que Babá, sua esposa, me fazia sinais pelas costas avisando para não falar no tema. Com alguma mulheres, vítimas de um machismo cruel e abjeto, muitas vezes é melhor calar e esperar que as feridas se fechem, para que, com o tempo, elas sejam capazes de debater sem serem vencidas pela dor e pelas lágrimas.

Minha tese, por defender postulados feministas sem sê-lo, é que as bem vindas invasões não podem causar estranheza apenas quando os homens são deslocados de suas exclusividades. Que as mulheres sejam militares, políticas, guerreiras ou matadoras de aluguel, sem problema. Invadam e tragam feminilidade e diversidade psicológica a estes campos. Todavia, aceitem que homens queiram ser babás, professores infantis, educadores de creche, cuidadores de berçário e…. doulas! Aceitem esta invasão também, pois, assim como as outras, ela vai ajudar a trazer ensinamentos masculinos para um campo em que as mulheres sempre dominaram.

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Das onze à meia-noite

Há alguns anos eu costumava jogar bola nos domingos à noite com meu filho Lucas e sua turma de amigos da escola. Imaginem o tiozão, 20 anos mais velho que todos, mas que se esforçava para jogar de igual para igual. O jogo ocorria no famoso “Gauchão”, quadra de esportes próxima de nossa casa onde hoje fica a Terceira Perimetral. O local foi demolido para a construção de um condomínio de edifícios e dizem as más línguas que o maior acionista dos prédios era o colega que recolhia a nossa contribuição para o famoso embate “das onze à meia-noite“.

As regras dos confrontos eram simples, e foram cumpridas de forma correta por muitos anos. Todos eram amigos. Não se discutia o jogo depois de acabado. Quem chegasse atrasado era zoado por todos e ia imediatamente para o gol. Não era permitido brigar ou discutir de forma ríspida. Não podia faltar e deixar seu time capenga. Não podia tomar gol de propósito para sair do gol mais rápido. Semana que vem sempre tinha mais.

Era para ser assim, mas evidentemente ocorriam deslizes. Um desses deslizes aconteceu em uma partida na qual eu perdi a cabeça com a falta de dedicação de alguns para o jogo, o fato de não passarem a bola ou exagerarem nas firulas. Jogadas mais ríspidas e um certo deboche da equipe que estava ganhando. Briguei com os meninos, xinguei, falei mais alto e nitidamente perdi a cabeça. Até eles acharam que eu estava estranho. Não confraternizei com ninguém após o jogo e logo fui embora. Ainda dirigindo o carro de volta para casa argumentei com o Lucas que não se tratava de futebol, mas que aquilo era um ensinamento para o resto da suas vidas, e que eu tinha a obrigação de mostrar a eles as condutas e comportamentos que poderiam ser danosos para o desenvolvimento emocional de adolescentes. Lucas apenas me respondia “Mas pai, é apenas um jogo de futebol no domingo. Nós até podemos perder a cabeça, afinal somos adolescentes. Você é que não pode se comportar dessa maneira“.

Cheguei em casa ainda irritado com os acontecimentos do jogo. Pensei que era a minha obrigação mostrar a eles a maneira correta, a forma adequada, o brio, a disputa leal, a determinação, o empenho, a lealdade e o companheirismo. O que eu havia visto se afastava disso. Parecia a mim importante não deixar que um comportamento assim passasse sem um contraponto. Afinal, eu era o adulto no lugar, e eles precisavam aprender regras de convivência enquanto ainda eram jovens.

Passei algumas horas pensando nisso e depois adormeci. No dia seguinte o meu destempero e as minhas palavras duras ainda ecoavam na minha cabeça. Entretanto, aos poucos as brumas da irritação foram se dissipando e eu comecei a enxergar o episódio com outros olhos. Mais do que uma oportunidade de mostrar a importância da disciplina e do empenho aqueles fatos do jogo de domingo poderiam me oportunizar um outro ensinamento.

Sim, lentamente pude perceber que os valores mais importantes a aprender daquele fato eram a temperança, a calma e a serenidade. Mais do que o foco no jogo e suas consequências, a visão de uma postura conciliatória e pacífica. Lucas tinha mesmo razão: era apenas um jogo de meninos, e minha reação extrapolava os limites do aceitável.

Encontrei Lucas à frente do seu computador e apenas lhe disse: “Sim, meu filho. Você tem razão. É apenas um jogo. Não podemos brigar por causa disso. Somos amigos, companheiros, parceiros. Um jogo de futebol não pode ser uma fonte de mágoas, rancores e ressentimentos. Vamos manter nossos desacertos apenas dentro da quadra e chutar em frente o resto“.

Lucas sorriu e até hoje sinto seu contentamento por perceber a lição que todos tivemos naquele jogo “das onze à meia-noite“.

Convido a todos para que pensem nisso quando o calor da disputa eleitoral passar dos limites. Somos todos amigos, irmãos. Vamos deixar o debate eleitoral no seu devido lugar, e não permitir que ele invada nossos corações destruindo afetos e histórias bonitas de convivência.

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Palmada

Violência Crianças

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6 de outubro de 2014 · 04:24

Palavras

Olizinho Palavras

“As palavras, vovô, as palavras. Nelas estão as verdades, codificadas, escondidas, nobres guardiãs de sentidos sutis. Conte para mim o que elas dizem, e mais ainda, o que não dizem. Explique para mim aquele silêncio perturbador que habita o vão que as separa. Diga, vovô, qual a razão para tantas palavras”.

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