Empresários da Intolerância

Eu prefiro ver a emergência de sentimentos discriminatórios nas últimas entrevistas com “pastores” de igrejas evangélicas através de uma análise mais mercadológica. Os tais defensores dessas visões homofóbicas sabem que existe uma parcela minoritária da população que simpatiza com as teses de extrema direita. Os consumidores desse tipo de visão de mundo são frequentemente sexistas e preconceituosos, brancos, moralistas e muitas vezes ligados a uma religião. Fundamentalistas e oportunistas, tentam explicar a sua condição social superior através de uma espécie de “essencialismo”, ao estilo de Calvin Candie em Django Livre, que justifica as diferenças sociais ligadas às raças com explicações genéticas e frenológicas estapafúrdias. Para esse grupo “reacionário” sempre haverá prepostos, “escolhidos” para levar adiante suas ideias. E essa escolha por um “nicho de mercado” está relacionada aos 20 bilhões de reais que verteram para as igrejas brasileiras no ano de 2011. Muito dinheiro para ser dividido entre alguns poucos empresários da fé.

Bolsonaro, militar aposentado e deputado do Rio de Janeiro, é popular por essa mesma razão: ele representa essa parcela minoritária – mas significativa – da população. Os disseminadores das teses da direita falam àqueles que se sentem amedrontados com o surgimento de uma maior liberdade sexual. Quanto mais livre a sexualidade, mas ela é ameaçante à vista de alguns. Enquanto o homossexualismo era a explicação mais fácil, tornado desvio e doença pela oficialidade que redigia o DSM, ele estava restrito aos consultórios médicos. Após a queda do “Muro de Pedra” (Stonewall, boate gay de Nova York que foi invadida pela polícia no início dos anos 70), e a consequente reação do universo homoerótico, o mundo não seria mais o mesmo. Surgia a homossexualidade e os conceitos de “opção” e posteriormente “orientação sexual”.

Mas a liberdade cobra seus preços. Entre eles a “homofobia”, fruto da abertura sexual, exatamente porque a liberdade de expressão é opressiva para aqueles que se julgam ameaçados pela pluralidade de opções. Esses grupos reacionários normalmente atacam o que mais temem, e usam explicações de ordem religiosa (assim como Calvin Candie usou a Genética, em Django Livre, para explicar a escravidão) para levar adiante suas ideias segregacionistas. Minha posição, diante dessa especial visão do problema, é ignorar os arautos da “decência sexual”, não dar publicidade aos seus pressupostos e não difundir suas ideias (que é exatamente o que eles querem quando expõem suas declarações escandalosas). E isso não é omissão, pelo contrário. Trata-se de uma estratégia para manter esses grupos como minoritários, e não permitir que suas ideias grosseiras e discriminatórias se propaguem.

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The Aftermath of the Barricades

Creio que não há porque se interessar com a mera opinião que alguns detratores do movimento das doulas apresentam. Vejam bem… Se o título das matérias sobre este tema fosse “O problema das Doulas”, ou “Humanização e Doulas, conflito de interesses”, ou ainda “Doulas e o excesso de atores no parto”, eu até me informaria melhor para saber que tipo de argumentos poderiam ser apresentados (eu até teria argumentos razoáveis para combater as doulas…). Entretanto, o nome “As espertas da vez” deixa claro na primeira linha, que o texto é ruim, mal escrito, sem embasamento e se constitui apenas de uma grosseria em prosa, um xingamento sem substância e um simples extravasamento de indignação. Textos assim falam muito mais das frustrações e dificuldades do autor do que reais problemas relacionados às as doulas.  Por outro lado, eu me preocupo com o “aftermath of the barricades“, no dizer de Max.

Sim, temos dificuldades terríveis em fazer com que o modelo das doulas seja algo universalizado, exatamente porque muitos ativistas desreconhecem o “outro”. Ou seja: estão com tanta indignação que se esquecem de pensar em paralaxe, mudança de viés, empatia com a necessidade das instituições, etc. Por exemplo, pouca gente se preocupou em se colocar na pele de um administrador de hospital que recebe alguém que que se intitula doula e que não tem nenhuma condição emocional para estar numa sala de parto. Como saber se esta mulher, assim autodenominada, não é uma psicótica? E como ter garantias que ela vai se comportar educadamente, com respeito aos outros profissionais e com noções mínimas de ética e higiene? Quem se responsabiliza pelas doulas? Quem paga o pato se uma doula influenciar uma mulher a não ser operada (pois a doula “sabe” que não há necessidade) e o bebê não resistir? Existe algum órgão que as coordene, como um CRM, um conselho ou alguma instituição qualquer? Não, não existe, mas basta citar a necessidade de nos organizarmos em nível nacional para que algumas ativistas pirem, se enraiveçam, e coloquem toda a sua indignação contra os “médicos raivosos e grosseiros cesaristas, FDP, etc…”.

Parecemos as feministas da primeira hora. Os homens são o “mal” da humanidade. Estupradores, assassinos, violentos, agressores, violentadores de meninas. O “outro” era demonizado, como fazemos com os médicos, com boa dose de razão, mas inequívoco exagero. Precisamos de 40 anos de debates para entender que o patriarcado, a dominação masculina, não foi uma invenção dos homens, mas uma criação da sociedade, homens e mulheres. Estas últimas, beneficiárias milenares das benesses da alienação, somente agora despertam para a necessidade da participação e do protagonismo. No que diz respeito ao parto, somente agora uma parcela ínfimada sociedade começa a despertar para a importância do protagonismo feminino na sociedade, e no nosso caso em particular, no nascimento dos seus filhos.

Assim sendo, antes de atirar as pedras no modelo é fundamental entendermos o quanto somos partícipes de sua manutenção e disseminação, e ajudar a descobrir formas efetivas de modificá-lo. Abandonar as agressões, o revanchismo, o ódio e descobrir em conjunto uma solução para a inserção das doulas nos hospitais é um primeiro passo, mas não por isso menos importante.

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Barricadas

Nada é certo, apenas desejo e esperança. Depois dos marcantes acontecimentos ocorridos no último domingo, quando mais de mil mulheres saíram às ruas para lutar pelo direito a ter uma doula no parto, minha preocupação continua intensa. A consolidação de uma agenda das doulas passa por um necessário amadurecimento. Esse processo pressupõe o reconhecimento do “outro”, quais sejam os médicos, os hospitais, as instituições e os demais atores do cenário do nascimento. Essa mobilização poderá produzir o fortalecimento das consumidoras, criando uma nova postura das usuárias (o único setor com potencial para produzir alguma mudança) e, a partir delas, a elaboração de um novo espaço de debate para a questão da assistência ao parto humanizado. A passeata das doulas, com sua exuberância, me encheu de felicidade, alegria, esperança e… dúvidas.

Eu continuo preocupado e angustiado com o que faremos após uma mobilização como essa. Por um acaso, eu havia acabado de assistir o filme “Os Miseráveis” (versão musical) no dia anterior à marcha, e as belas imagens e músicas continuavam em minha memória. Naturalmente tracei uma linha – com um pouco de criatividade e imaginação – que poderia unir as realidades aparentemente díspares de uma passeata contemporânea e de uma cena revolucionária do século XIX. Lembrei imediatamente da cena das “barricadas” que fecharam as ruas de Paris em 1830, no levante popular contra as Ordenações de Julho (Ordenanças de Julho), que suprimiram a liberdade de imprensa, dissolveram a câmara, reduzindo assim o eleitorado, anulando as últimas eleições e permitindo-se governar através de decretos. Algo muito parecido com a “proibição das doulas” em hospitais privados de São Paulo.

Pois o levante dos “citoyens parisien” foi determinado pelos acontecimentos violentos e descabidos produzidos por um governo alheio aos desejos de um povo faminto e necessitado. Entretanto, apesar do afã, do brio, da coragem e da força dos maltrapilhos combatentes, a luta contra as tropas leais ao Rei terminou como vimos no filme: todos morreram, dizimados por uma fraqueza que não imaginavam possuir. Sim, não havia estrutura, nem armas, nem pessoas, nem ativistas e nem um conjunto de ideologias sólidas e estruturadas para enfrentar – com propostas seguras e firmes – a reação dos conservadores. E a batalha das barricadas passou à história como um banho de sangue sem resultado positivo, a não ser a criação de maravilhosas canções, musicais da Broadway e candidatos ao Oscar.

É disso que tenho medo agora. Alguns hospitais – na melhor das hipóteses – poderão reverter suas posições e dizer: “Muito bem, mandem suas doulas.” E diante dessa oportunidade, que doulas mandaremos? Ativistas? Mulheres portando baionetas, cheias de ideias, conceitos tênues e enfrentamentos? Quanto tempo resistiremos a uma situação de constante embate, pela ameaça implícita que uma conduta belicosa pode gerar em hospitais acostumados ao poder magnânimo e inquestionável de uma corporação? Quanto tempo resistirão as doulas a uma perseguição sem trégua, de profissionais que se sentem constantemente ameaçados?

Não acredito na possibilidade de que as doulas entrem no caminho do nascimento para transformá-lo se não for com as ferramentas da doçura, da resiliência, da calma, da compaixão e da paciência. Sei da importância do ativismo, e faço coro às palavras de Sheila Kitzinger que dizia “Não é com tapinhas nas costas que faremos uma revolução social”. Entretanto, há o espaço do ativismo e o espaço da atenção, e esse campos distintos não podem se misturar na assistência, sob pena de produzirmos muito choro e ranger de dentes. Bradar por justiça, por mais correto que possa ser, não poderá servir de estopim para mais injustiça. Atirar para todos os lados, com o rubro a cobrir a esclerótica, pode sepultar por muitos anos os esforços de adicionar afeto e carinho no parto, através do trabalho das doulas.

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Paralaxe

Apesar dos avanços democráticos, e da disseminação exponencial de conceitos e visões de mundo, ainda não estamos plenamente preparados para escutar o que o outro tem a dizer. Liberdade de expressão e de pensamento é uma utopia. Acreditamos que temos a verdade e a liberdade como meta, mas basta que pisem nos nossos calos para que viremos feras. Algumas palavras dissonantes de nossas crenças profundas são suficientes para que, em poucos minutos, o mais aberto dos democratas esteja pegando em armas, ou impedindo seu oponente de falar. É duro escutar o que o outro tem a dizer, principalmente quando isso agride crenças arraigadas, que acalentamos de forma muito intensa.

Meu pai sempre me dizia para estar preparado para escutar as pessoas que tinham ideias bastante diferentes da minha. Fui além: construí uma vida inteira de marginalidade, exercitando-me a pensar de forma diversa dos outros. Pensar alternativamente é um exercício, como ir à academia; precisa persistência, e além de tudo força de vontade. E resiliência, sem a qual facilmente mergulhamos no oceano de ideias confortáveis e acalentadoras.

Outra coisa que meu pai dizia: “Pense em algo que acreditas com todo o fervor. Pode ser a visão humanista, a igualdade dos povos e gêneros, a ideia de fraternidade ou a importância das instâncias psíquicas na conformação do sujeito. Pensou? Então agora, relativize-as, critique-as, coloque-as como simples ideias dentro de uma panela gigantesca de pensamentos controversos, com visões ora próximas, ora distantes da sua. Olhe para seus conceitos como elementos relativos, passageiros, frágeis e diáfanos. Está realmente preparado para olhar para suas crenças como figuras tão frágeis? Ou ainda vai precisar tratá-las como dogmas por muito tempo?“

Escutar a voz do outro, sua visão específica do mundo, suas posturas diversas é uma forma muito complexa de gerir a vida. É preciso uma vigilância constante, um exercício brutal de alteridade e um esforço hercúleo de paralaxe. Para olhar o mundo com uma visão abrangente faz-se necessário um cuidado constante com a segurança fugidia que encontramos na dogmatização. Se ela por um lado acalma nossas angústias, oferecendo um caminho unívoco, ao mesmo tempo paralisa nossa natural criatividade. Os pensamentos consensuais muitas vezes produzem o mesmo efeito; se por um lado produzem unidade, por outro refreiam nosso pendor transformador. Construir um mundo mais digno e justo para todos que aqui vivem é tarefa de todos nós. Permitir que as vozes distantes da nossa sejam ouvidas é um ato de coragem. Somente se pudermos enfrentar a razão alheia poderemos ter certeza da correção de nossa rota. Caso contrário, teremos apenas uma visão parcial, pessoal e única, que não poderá ser oferecida aos outros que nos acompanham.

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Sinceras Malvadezas

Na minha ótica particular um sujeito que “diz o que pensa” está normalmente camuflando com palavras sua crueldade, sua indelicadeza ou a sua brutal falta de respeito pelos outros. Para ser sincero (ops, até eu?), nunca consegui encontrar alguém que se autodenomina “franco”, “verdadeiro”, “sincero” ou “direto” que não seja um tremendo arrogante, e que faz uso das palavras para agredir seus interlocutores.

A verdadeira sinceridade é de outra liga: ela diz o que é para ser dito sem “segundas intenções” – isto é, sem ferir, machucar ou magoar. A sinceridade pura tenta ajudar o outro com a verdade, e não destrui-lo. A sinceridade será “do bem” quando puder auxiliar o outro a descobrir, por si mesmo, onde está seu erro, sua falha e onde se localiza o ponto cego de sua autocrítica. Eu sempre desconfio dos arautos da verdade ao estilo “direto”, pois eles normalmente são perversos que manipulam a (sua) verdade como ferramenta de tortura.

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Tragédia de Santa Maria

Nesse momento de dor e sofrimento, em que estamos consternados e tristes pela tragédia que vitimou tantos jovens em Santa Maria, eu fico feliz em escutar minha filha falando da sua especial maneira de analisar o que ocorreu. Infelizmente muitas pessoas gastam seu tempo no justiciamento, na raiva, no ódio e com pensamentos de vingança. O que aconteceu para os proprietários dessa casa noturna, assim como para o jovem da banda (cujos nomes eu não quero saber), TAMBÉM foi uma tragédia, e nem os mais empedernidos e raivosos fascistas acreditam que eles, por algum momento, imaginavam que isso pudesse ocorrer, e muito menos que tinham o desejo de carregar o peso de tantas mortes pelo resto de suas existências. Mesmo reconhecendo como fundamental a apuração de TODOS os fatos relevantes deste caso, o que inclui a adequada punição dos culpados, o desejo de linchamento que eu percebo em muitas pessoas (inclusive jornalistas) é lamentável.

Pior ainda: quanto mais tentamos colocar as culpas nas pessoas (pois tal atitude parece nos confortar de alguma estranha forma) menos lições positivas tiramos do caso. A tragédia de Santa Maria precisa ser vista como um marco, a partir do qual as condições que lá estavam presentes não se repitam. Enquanto Fulano e Sicrano forem os culpados não se torna necessário olhar para dentro de nós e descobrir o que precisa ser mudado, o que está equivocado, inclusive nas nossas próprias atitudes.

Bebel me disse: “Perdemos tempo demais em atitudes ruins, pensamentos raivosos, disseminando as “energias negativas” do ódio, rancor e mágoa. Não vejo razão em odiar alguém em meio a tanta dor, e estes sentimentos jamais construíram algo de bom para a humanidade. Os responsáveis devem ser punidos pela lei, mas apenas para que suas culpas (onde houver) sejam reconhecidas e nos ajudem a evitar mais desastres, e não pelo prazer de ver mais gente sofrendo.“

Nenhum ódio é capaz de trazer essas vidas de volta. Nenhum linchamento, físico ou moral, poderá nos ajudar. Espero que, entre as lições que a tragédia possa nos dar, o perdão e a compreensão possam estar presentes, tanto quanto a necessária e indispensável justiça para aqueles que cometeram erros.

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Entrevista

Entrevista com o médico obstetra Ricardo Jones, Janeiro/2013

O termo “parto humanizado” ainda é desconhecido por boa parte das mulheres. Então, do que se trata o parto humanizado? No que ele se difere do “parto normal”? 

Parto normal normalmente se refere a parto vaginal, aquele que ocorre de acordo com a programação normal do processo de parturição, fisiologicamente estabelecido que culmina de forma o mais natural possível. Usamos o termo “parto normal” para contrapor à cesariana, ou nascimento cirúrgico. O parto “natural” normalmente é aquele que também chama­mos de “humanístico”, ou “parto humanizado”.  O conceito de parto humanizado passa pelo entendimento da mulher como condutora do processo, colocada na posi­ção de protagonista, e não na posição objetual e coisificada na qual é frequentemente colocada na atenção obstétrica cotidiana. Sem a restituição do protagonismo à mulher todos os esforços na atenção ao parto poderão apenas sofisticar a tutela a ela imposta. Além disso, o parto humanizado se es­mera em oferecer às parturientes uma assistência baseada em evidências científicas atualizadas e um ambiente propício ao estado alterado de consciência que ocorre no transcorrer de um parto, principalmente pela ação do coquetel de hormônios que são produzidos durante o processo. A humanização do nascimento é uma corrente de pensamento que existem no mundo inteiro e que se propõe a dignificar o parto combatendo as interferências desnecessárias no processo fisiológico.

Sobre as intervenções, como elas são vistas pelos médicos humanizados? Existem algumas que são aceitáveis, ou o parto humanizado não admite nenhuma delas?

Intervenções no âmbito da assistência ao parto podem salvar a vida de ambos: mãe e bebê. Entretanto o abuso destas práticas está acima de qualquer consideração. É inegável que esta elas deveriam ser usadas em casos extremos, mas inegavelmente são utilizadas por razões outras além dos possíveis benefícios para a paciente. Entre as intervenções usadas de forma abusiva destaca-se a cesariana. Esta cirurgia de grande porte deve ser evitada dentro dos limites de segurança, pois aumenta consideravelmente os riscos para mães e bebês. Os números variam nas centenas de estudos que avaliam os riscos e be­nefícios das modalidades de nascimento, mas todos são categóricos ao afirmar que, de maneira inequívoca, a cesariana acrescenta riscos ao processo, por ser uma ci­rurgia e invadir a intimidade do corpo. Além dos riscos maternos, podemos afirmar que a cesariana dificulta grandemente a amamentação por atrapalhar o processo de vinculação inicial entre mãe e bebê imediatamente após o nascimento, naquilo que os pesquisadores Klauss e Kennell convencionaram chamar de “A Hora Dourada”. Além da cesariana sabemos que qualquer intervenção ao processo natural e fisiológico do parto apresenta riscos inerentes, pois não existe nenhum substituto para o nascimento natural que seja mais seguro do que o processo construído nos milênios de adaptação. Entretanto, em situações patológicas, algumas intervenções corrigem trajetórias perigosas para o binômio mãe-bebê. A utilização de drogas como o sulfato de magnésio em casos de pré-eclâmpsia (pressão alta no final da gravidez) é um caso exemplar. Antibióticos para o tratamento de infecções maternas, o uso de um hormônio, a oxitocina, para corrigir transtornos de contração do útero, assim como outras intervenções, podem trazer segurança e auxiliar no processo de parto em casos selecionados. Nossa crítica será sempre direcionada ao abuso de tecnologia aplicada ao parto, e não contra a essência da tecnologia aplicada em benefício do homem. O parto normal é o melhor aprendizado possível para os dilemas e dificuldades de criar um bebê pleno de necessidades e sequioso de aten­ção. Diante do questionamento frequente sobre os limites da utilização de tecnologia, eu estabeleci uma proposta de as­sistência humanizada ao nascimento que se assenta sobre um tripé conceitual:

  • O protagonismo restituído à mulher, sem o qual estaremos apenas “sofisti­cando a tu­tela” imposta durante milênios pelo patriarcado.
  • Uma visão integrativa e interdisciplinar do parto, retirando deste o caráter de “pro­cesso bi­oló­gico”, e alçando-o ao patamar de “evento humano”, onde os aspectos emocionais, fisiológicos, sociais, culturais e espirituais são igual­mente valorizados, e suas específicas necessi­dades atendidas.

Quais são as vantagens de um parto via vaginal tanto para a mãe quanto para o bebê?

Primeiramente, não existe nenhuma “desvantagem” em oferecer às mulheres o que existe de mais moderno em termos do que a ciência médica nos fala da segurança aplicada ao parto. O parto humanizado tem suas condutas “amarradas” aos protocolos mais atuais no que diz respeito à segurança e à proteção do nascimento, entendendo-o como elemento vital na estruturação do sujeito. Uma postura mais ativa e participativa prepara a mulher, e por consequência o casal, para os dilemas da maternagem e os cuidados com o bebê. Como diria a antropóloga Barbara Katz-Rothman, “Parir não é apenas fazer bebês, mas fazer mães capazes e competentes para enfrentar as dificuldades da maternidade”. Entre­tanto, a humanização do parto pressupõe uma participação efetiva do casal em todas as decisões. Desta forma, com a adoção de um modelo centrado na mulher, a alienação que frequentemente observamos nos partos institucionais no Brasil tende a diminuir, pois a gestante e seu companheiro passam a ser participantes do processo, ao in­vés de meros espectadores. A responsabilidade passa a ser compartilhada. Se é óbvio que os profissionais continuam a ser responsáveis pela parte técnica, é também verda­deiro que o casal passa a ter uma posição muito mais importante na tomada de deci­sões. É deste debate entre a proteção do protagonismo da mulher e a proteção dos profissionais que surgirá um modelo mais eficiente e seguro. Muitos países estão adiantados nesta discussão, que precisa conclamar os profissionais que atendem nascimentos, o poder público, o judiciário, os homens e, evidentemente, as próprias mu­lheres.

Assunto espinhoso, até imagino a resposta, mas é preciso fazer o papel de “advogada do diabo”: os médicos e ativistas pró parto humanizado são “contra” a cesárea (é a imagem que muita gente tem)? Como eles se posicionam em relação a essa cirurgia?

Quando se estabelece uma crítica contra o abuso de uma atividade é natural que muitas pessoas pensem que ela se refere ao “uso” desta conduta. Entretanto, o movimento de humanização do nascimento surgiu no mundo inteiro como uma crítica à prática inadequada, excessiva e abusiva destas intervenções sobre o nascimento. Jamais os ativistas da humanização se posicionaram contra um procedimento que pode salvar vidas, tanto de mães quanto de bebês. As nossas queixas se direcionam ao excesso de cirurgias, drogas e outros procedimentos utilizados sem uma devida investigação quanto aos potenciais malefícios à mãe e ao bebê. A cesariana é uma operação maravilhosa, capaz de resgatar para a vida mulheres que, sem ela, estariam condenadas à morte. Todavia, o abuso de sua realização vem evitando a necessária queda na mortalidade materna mesmo em países desenvolvidos como os Estados Unidos. Questionar os excessos na sua utilização é fundamental para implantar boas práticas e acrescentar segurança no nascimento.

O que o Sr. diria para uma mulher que prefere cesárea porque tem muito medo de parir naturalmente? 

Minha postura diante dessa escolha é a de acolher seus medos e tentar trabalhar com eles. Entretanto, negar à elas a possibilidade de escolher é que me parece inaceitável, mas poucas mulheres se aventuram a falar sobre isso, e preferem desfiar justificativas intermináveis. O problema para mim nunca foi mulheres escolherem cesarianas por medo de sentirem uma dor temida e imaginada, mas quando essa “dor” é estimulada por práticas arcaicas, pela solidão, pelo uso exagerado de medicamentos, pelo afastamento da família e pela absurda proibição da presença de doulas em alguns hospitais como vimos ocorrer ultimamente. Para estas mulheres acena-se com a cesariana salvadora, e para elas parece que esta é a única opção digna existente. Se o parto normal fosse imposto às mulheres eu também sairia às ruas como defensor das escolhas informadas. Infelizmente o que se lê nos debates sobre a cesariana ainda é a ladainha desagradável e anacrônica do “menos mãe” e as explicações enfadonhas para cesarianas realizadas, na sua maioria injustificáveis à luz da Medicina Baseada em Evidências.

Em que momento um parto humanizado pode virar uma cesárea? Essa cesárea pode ser “humanizada”?

Um parto normal poderá virar cesariana em qualquer momento em que os riscos de manter a assistência natural e fisiológica do parto suplantarem – de forma inequívoca e clara – os riscos inerentes de uma cesariana. Esse momento deveria ser de aparição muito mais rara do que ocorre na modernidade. Muitas vezes os médicos agem por medo e despreparo, realizando um procedimento invasivo e perigoso por terem medo das possíveis consequências para si mesmos do uso da paciência e do bom senso. Não consideramos que uma cesariana possa ser “humanizada”, pois, por ser ela uma cirurgia de grande porte e controlada por profissionais médicos, ela não é “feita” pela paciente, como um parto normal. Por essa razão, por lhe faltar o necessário protagonismo restituído à mulher, ela não pode ser chamada de “humanizada”. Entretanto, ela pode ser digna, respeitosa, afetiva, correta, humana, gentil e embasada em evidências, desde a sua indicação (alicerçada em evidências) até o último ponto realizado no abdome.

Em linhas gerais, por que hoje é tão difícil conseguir um parto humanizado?

Temos poucos profissionais com coragem suficiente para serem questionadores, críticos, estudiosos e desejosos de defender a integridade – física, psicológica, emocional – de suas pacientes, correndo o risco de serem desconsiderados por seus pares e tratados como hereges. Além disso, na vigência da “mitologia da transcendência tecnológica”, muitas pacientes ainda acreditam na superioridade da tecnologia sobre a natureza, mesmo que tenhamos infinitos estudos demonstrando o contrário. Para mudar a forma de nascer precisamos repensar nossos valores culturais e nossas crenças, e tal empreendimento demanda tempo e paciência. Tais valores de uma sociedade não se alteram por decreto; são modificados pela lenta erosão de crenças antigas, substituídas por modelos que explicam melhor a realidade, num infindável embate entre teses digladiantes. No futuro, os profissionais humanistas – aqueles que colocam a paciente e seu bebê acima de qualquer outra consideração – serão escolhidos pelas próprias pacientes para serem ajudantes de um novo modelo de atenção que terá a horizontalidade como ética, a participação como norma e o protagonismo respeitado como lei.

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Os Dilemas da “cura” do Câncer

Eu nunca me interessei por trabalhar com câncer ginecológico e seus tratamentos, apesar de reconhecer ser este um campo muito interessante e promissor, e evidentemente com um mercado imenso em função do estilo de vida ocidental e do envelhecimento das populações. Entretanto, desde os primeiros contatos com a oncologia eu entendia os tratamentos para o câncer como grosseiros e bizarros. “Como assim usar um tóxico sistêmico, destruidor da capacidade de multiplicação celular em todo o organismo, para tratar um pequeno grupo de células em crescimento descontrolado?” Isso me parecia estranho e sem sentido. As radioterapias também me pareciam tão insensatas quanto as cauterizações à fogo nos ferimentos de bala que eu via nos filmes de bang-bang. Para mim, não havia um sentido “superior” de tratamento (apesar de reconhecer vantagens locais, parciais e paliativas), pois aparentemente tais métodos apenas mascaravam o câncer, escondiam a sua aparência exterior, usando a famosa “técnica do gato”, de colocar terra por cima dos excrementos. O câncer era algo que eu via como uma enfermidade sistêmica, geral, e que integrava os aspectos emocionais, psicológicos, hormonais e bioquímicos. O “tumor” não era mais do que a capacidade orgânica de produzir localização, envolvendo-o por um contingente grande de células normais, com a mesma lógica de localizar e “cercar” um corpo estranho qualquer no organismo. Além disso, eu notava que os pacientes cancerosos tinham uma rica história de recalques emocionais importantes que faziam parte do conjunto de elementos a construir a sua doença.

Mais que tudo, um câncer é sempre uma entidade abstrata, pois só existe aninhado num sujeito, o que lhe confere uma estrada de desenvolvimento absolutamente única. Um câncer pode evoluir para a cura espontânea (existem infinitos relatos anedóticos sobre isso), cursar por 4 anos ou ficar praticamente inerte por duas décadas, dependendo do sujeito que o alberga. Intoxicar o organismo, ou cauterizar células com radiação não poderiam mais do que tangenciar a localização manifesta dessas doenças, e não a sua essência. Entretanto, sempre respeitei esses modelos de tratamentos exatamente por não poder oferecer nenhuma alternativa que fosse suficientemente segura para os pacientes e para os cuidadores. Tratar uma paciente de câncer com homeopatia ou fitoterapia é inaceitável para o modelo cientificista atual. Por outro lado, é absolutamente natural e compreensível que um paciente morra em consequência dos tratamentos químicos violentos usados pela medicina contemporânea. O que é preciso é avançar no estudo das verdadeiras variáveis que compõem as neoplasias, e os tratamentos que tratam a essência dessas patologias, e não apenas a aparência – externa ou interna – que elas produzem.

Eu, assim como Freud, acredito que “Não há grito do corpo que não venha de Eros“. Não existe doença crônica que não esteja profundamente relacionada com as emoções do sujeito. Sua forma de viver, de sentir, de amar, ou de não-amar, são os alicerces de qualquer enfermidade. Portanto, a “cura” só pode ser através desse caminho. Qualquer outra forma terapêutica que não envolva a compreensão profunda do sofrimento como forma de expressão integral, psicológica, emocional, fisiológica e por fim anatômica, está fadada a ter resultados meramente estéticos, parciais e/ou superficiais.

Por essa razão achei interessante a análise que está sendo realizada sobre as mitologias que cercam o tratamento convencional do câncer, que a cada dia criam sobre si mais suspeitas.

Para maiores informações sobre este tema controverso e instigante clique aqui:

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A Internet de todos nós

A internet mostra o pior e o melhor de todos nós. Todos ficamos estupefatos com a realidade da pedofilia, problema social que sempre existiu, mas que a Internet tornou uma calamidade global. Entretanto, ela só apareceu porque agora os pedófilos podem ficar incógnitos atrás do manto protetor do anonimato. Os perversos de toda ordem encontram abrigo nas ondas cibernéticas da rede, fazendo dela um escoadouro de suas mazelas pessoais, disseminando rancor, mágoa e violência. Os exemplos estão por toda parte. Qualquer matéria criminal produz de imediato uma onda de ódio, raiva, violência e clamores por vingança (que as pessoas normalmente confundem com “justiça”). Basta ler uma matéria nos jornais, com reportagens interativas, para ver os comentários.

Há algumas semanas, diante da notícia de um jovem de 20 anos que morreu de acidente de automóvel durante a madrugada, eu li alguns comentários, logo abaixo do corpo da informação. O primeiro deles era: “Já vai tarde, bêbado“…

Argumentei com o cidadão de que ele não sabia as circunstâncias do acidente, e mesmo que fosse o que ele acusava, deveria se lembrar que havia uma família enlutada, sofrendo o martírio da perda de um filho, um irmão e um amigo. Ler essas palavras, ditas por um estranho e alguém que não tinha suficientes informações para acusar dessa maneira, poderia ter um efeito terrível aos olhos de quem conhecera a vítima. Recebi do sujeito uma série de gargalhadas como réplica. Os reacionários, os perversos, os machistas, os grosseiros, os pedófilos e tantos outros doentes encontraram na escuridão da internet – pela primeira vez na história em grande escala – a possibilidade de externar seu ódio, seu preconceito e seus desejos descontrolados. Por outro lado, nunca houve tanta disseminação de afeto, boa informação, debate sério, contraditório e discussão “do bem”, o que nos deixa com uma ferramenta que, por ser meramente utilitária, pode nos levar para a paz ou para a violência. Nós é que escolhemos.

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Racismos

Uma página do site do hospital que proíbe doulas mostrava uma criança negra, linda por sinal, e uma pergunta abaixo da imagem: “Minha filha tem os cabelos excessivamente crespos. Com que idade posso fazer alisamento”? Muitas pessoas se indignaram com a pergunta (fictícia ou não) dessa mãe, por entenderem que se tratava de racismo, além de estimular vaidade em crianças muito pequenas. Depois da chuva de protestos contra a proibição absurda e grosseira da presença de doulas, a página que continha essa pergunta sobre cabelos de bebês também saiu do ar. Tenho uma história que pode lançar uma luz sobre isso. Claro, entendam como uma história que ocorreu há 30 anos, em um hospital da minha cidade, no sul do Brasil.

Estava na fila do hospital para o almoço. Era residente do primeiro ano do Hospital e meu irmão residente de segundo ano. Conversávamos sobre tratamentos clínicos, interações entre pediatras e obstetras (meu irmão estava terminando a residência em pediatria aquele ano) quando um casal com um bebê se aproximou. Era um casal de negros. O homem um sujeito de estatura média, cabelos raspados ao estilo “afro”. A mulher era uma negra, com o tom da pele bem mais “café com leite”, uma cor, aliás, bem brasileira, que dificilmente se vê nos Estados Unidos, pois que os puritanos americanos a achavam degradante.

Nosso “cadinho de raças” tem, para muitos estudiosos, esta raiz cultural. Somos um país mulato, misturado e, como diria o nosso ex-presidente Fernando Henrique, “só é racista quem não conhece sua árvore genealógica”. Eu, por exemplo: nome inglês, cara de branquelo, pai pernambucano, avós ingleses, bisavós espanhóis e portugueses do Alentejo. Do Alentejo uma pele mais escura, da “mouraria”. Dos mouros para a África, e de lá venho eu. Mas, voltando à história, o pai do bebê chamou meu irmão, que estava na fila, e pediu para falar-lhe. Marcus afastou-se da fila e por alguns minutos falou com o casal, que mostrava para ele uma ficha verde, para onde apontavam com insistência. Alguns minutos depois meu irmão volta para a fila com um ar assustado.

– Que houve, perguntei.
– Não vais acreditar o que eles estavam solicitando. Eu fui o pediatra que atendeu o nascimento daquele bebê há dois dias. O papel que eles me mostravam era a ficha pediátrica. Nela estavam escritos os dados principais do nascimento do menino: peso, comprimento, apgar, e … cor. Evidentemente eu coloquei a cor como sendo “negra”. Pois o pai estava solicitando para que eu mudasse a cor do bebê na ficha. Sim, ele queria que seu filho fosse oficialmente… “branco”.
– Mas… como assim?, disse eu. Eu vi o casal, o pai era preto, a mãe mulata. E também vi a criança. Você por acaso não esqueceu de fazer o…
– Sim, ele disse… claro que eu fiz o “teste do saquinho”. É preto, cara, claro que é…
– Mas por quê? Qual a razão para isso? perguntei
– Só um mundo ainda racista pode explicar isso, disse meu irmão desanimado…

Uma sociedade que criminaliza a cor da pele, que desvaloriza o ser humano pela etnia e afasta seres humanos por graus variáveis de melanina acaba produzindo cenas como essa. O pai dessa criança estava apenas tentando tirar do seu filho a penalização social de ser negro em uma sociedade dominada e controlada pelos brancos. Eliminar a negritude de seu filho parecia o melhor a fazer, pois tal ação poderia livrá-lo de um fardo pesado que carregaria por toda a sua vida. Ser negro, nos anos 80, era muito pior do sê-lo hoje em dia. Agora temos o sistema de cotas, que de uma forma rápida tenta equalizar o fosso que que a cultura escravagista cavou nesse país, separando negros e brancos pelas diferenças de oportunidade. Somente agora estamos vivendo em uma sociedade mais respeitosa, e ainda assim alguns abusos são encontrados.

Entretanto, muito ainda há a fazer para se construir uma sociedade justa e digna para todos. Eliminar o racismo é uma dessas tarefas que precisamos tratar com urgência. A mãe que quer livrar a filha dos cabelos crespos não está fazendo algo semelhante ao que este pai desejava para seu filho, há 30 anos?

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Arquivado em Histórias Pessoais