Sim, já fui tomado pela decepção com algumas pessoas. Tipo: acreditar na bondade e nas boas intenções de alguém e descobrir que por trás dos sorrisos e dos abraços existe oportunismo e interesse. Todavia, não tenho a menor dúvida de que existem muitas pessoas que se decepcionaram comigo. Faz parte da vida.
Muitas vezes fui injusto ao me decepcionar, ou ingênuo ao esperar algo irreal de alguém. Outras vezes fui injustiçado por esperarem de mim o que eu não poderia dar – e sequer poderia ter oferecido. Quem nunca?
Hoje, depois de velho, já não há como me decepcionar de novo. Estas são as benesses da senectude: a gente aprende a esperar dos outros algo muito mais próximo da realidade.
Por que as pessoas evitam ao máximo consultas médicas?
O problema é o choque hierárquico, o saber que se faz autoritário de um sujeito sobre o corpo de outro. Também tem a ver com a insensibilidade com o sofrimento do paciente causada pelo afastamento afetivo característico da medicina. Esta distância, por fim acaba por obliterar a empatia que deveria fluir em todo encontro interpessoal.
A impotência que o paciente é levado a sentir, na medida em que suas perspectivas são frequentemente negligenciadas, é algo que dói no corpo, e portanto retarda a chegada ao profissional, o que obstrui muitos tratamentos. E não é por negligência com a própria saúde, mas por um mecanismo bem compreensível de defesa.
Nesse terreno os homens são muito mais afetados porque na cultura patriarcal abrir mão da autonomia sobre o próprio corpo é muito mais grave quando se trata do corpo masculino.
Não creio que a mudança deve partir dos pacientes através do aumento da confiança ou forçando docilidade diante dos médicos. Não, deve ser um movimento de pressão por parte dos clientes dos serviços de saúde, exigindo uma medicina menos tecnocrática e mais voltada às necessidades subjetivas de cada sujeito enfermo.
No YouTube vejo mil cursos dizendo para você crescer, sair da sua “zona de conforto”, ser um vencedor e conquistar aquilo que você merece e que só não ganha por preguiça – ou falta de oportunidade. A totalidade deles se baseia na ideia de que você pode ganhar o dinheiro que os outros estão perdendo, aprender a lucrar com as brechas do sistema financeiro, lucrar com “mercados emergentes”, se fartar na flutuação da bolsa ou encher o c* de bitcoins, bastando para isso entender as manhas do grandes vencedores.
Tudo isso terá como resultado final ganhar muito dinheiro, vencer na vida, ser reconhecido, ficar famoso, usar uma peruca legal, viajar pelo mundo, conhecer mulheres incríveis em seus biquínis minúsculos deitadas de bunda pra cima na proa da sua lancha ancorada em uma praia do Mediterrâneo. E eu achando que uma utopia bem mais divertida seria ir com os meus netos passar um fim de semana na praia do Pinhal ou visitar a concha acústica de Cidreira.
Li, num passado não muito distante, a história de um gerente de banco que, por vários anos, cometeu desvios de valores para a sua conta pessoal. Por sua posição de chefia engordou sua conta pessoal de forma indevida, subtraindo volumosas quantias da instituição bancária, mas depois algum tempo a sua engenhosa ação criminosa foi descoberta, e ele preso. Quando pego, deu a criativa explicação que muito me impressionou. Disse ele: “Sei que é errado, mas o dinheiro que peguei é, em verdade, o justo pagamento pelo excelente trabalho que eu realizava em minhas funções”.
Ou seja: entre a legalidade e a justiça ele achou mais adequado ser justo do que obedecer a lei. Para ele o salário que recebia era inadequado para o excelente trabalho exercido. Preferiu assim ser correto com seu devotado trabalho, oferecendo a si mesmo o pagamento que lhe parecia mais ajustado para sua inquestionável dedicação.
Para qualquer um dotado de bom senso fica fácil perceber a falácia desse argumento. Em primeiro lugar, não existe “valor justo” para um trabalho qualquer. Médicos ganham muito mais do que motoristas de ônibus, não porque seu trabalho seja mais importante, mas por sistemas de poder que são gerados dentro das sociedades complexas. Isso explica as razões da distância entre os ganhos de um jogador de futebol e um professor da rede pública de ensino. Não é pela qualidade do trabalho (não há quem concorde que um astro do futebol seja mais indispensável que dois mil professores), mas pelo valor que a sociedade oferece aos diferentes ofícios. O valor pago pelo trabalho é construído dentro de um elaborado sistema de pressões e ajustes, e não pela decisão autocrática de um sujeito movido pela percepção pessoal que tem do seu próprio labor.
O que me chamou a atenção foi o fato de que o gerente deixava claro que não se sentia “ladrão”, sequer desonesto, porque apenas recolhia o que lhe era devido pelos patrões gananciosos. E essa sensação de impunibilidade me fez lembrar da cena política contemporânea.
As manchetes dos últimos dias apresentam inúmeros crimes e falcatruas cometidos pelo ex-presidente. São tantas as notícias que é impossível não perceber a marcante desonestidade e o caráter débil do mandatário anterior. A partir dessas notícias passei a crer que apenas a punição severa para estes personagens – Bolsonaro e seu entorno – poderá oferecer uma mínima esperança de sobrevivência da democracia. Entretanto, junto a este outro fenômeno me chamou à atenção. As acusações são agora recheadas de provas materiais irrefutáveis (tome por exemplo a venda do Rolex, que pertence ao erário nacional) porém não parecem movimentar negativamente a popularidade de Bolsonaro. Aquele grupo bolsonarista raiz, que está por volta de 15 a 17% do eleitorado nacional, não parece diminuir mesmo diante das provas contundentes de sua irresponsabilidade, incompetência e desonestidade. Bolsonaro, para este grupo, continua sendo o “messias”.
A figura de Bolsonaro faz lembrar a do presidente Trump, que afirmava de forma arrogante – porém correta – de que “Posso matar alguém em plena 5ª Avenida em Nova York que isso não me faria perder votos”. Isso porque essas figuras públicas ocupam o lugar de salvadores para quem o roubo e até a morte de opositores seriam “a justa licença garantida pelo excelente trabalho realizado”. Da mesma forma que o gerente esperto analisava suas falcatruas, seus eleitores pensam que para salvar o mundo ocidental do “comunismo” vale a pena qualquer sacrifício, até aceitar que o mandatário do país seja ladrão, desonesto e profundamente incompetente. O mesmo fenômeno acontece nas Igrejas evangélicas, que devotam o mesmo tipo de ligação irracional com seus líderes. Pouco importa ao pobre que frequenta o templo que o pastor seja visto com carros importados e more em mansões. Não há sequer preocupação em esconder essa opulência: trata-se, como já vimos em outros contextos, do “adequado pagamento pela tarefa de salvar os crentes da fúria impiedosa de Deus e para livrá-los das garras do demônio”.
Por certo que estas construções só podem ocorrer a partir de propaganda massiva e pervasiva, diuturnamente exaltando as virtudes da “liberdade” capitalista e mitificando os supostos horrores do comunismo, assim como demonstrando as vantagens que são oferecidas àqueles que contribuem com a igreja, em especial a volta da saúde, do dinheiro, a recuperação de antigos amores e a salvação da alma. Nem é necessário dizer o quanto de dinheiro é investido pelo Estado burguês para nos blindar da verdade da concentração obscena de riqueza nas mãos de poucos e o quando se investe em publicidade para não expor as igrejas na produção de factoides (de cura, de comunicação com Jesus, de sucesso financeiro, etc.) que justificariam o pagamento de dízimo aos pastores e o financiamento de suas igrejas.
Para aqueles que dão apoio à extrema direita e às igrejas – fenômenos que se valem do pânico moral para sua proliferação – a ameaça constante de novos valores sociais (sexuais, familiares, etc.) e a emergência de uma sociedade comunista justificam as falhas morais de seus líderes. Curiosamente, as mesmas falhas que não toleram e denunciam de forma incessante em seus opositores.
Como já dizia Albert Einstein, “nem tudo que conta se conta e nem tudo que se conta, conta”. Portanto, nem todas as coisas passam a ser valiosas apenas a partir do momento em que podem ser contabilizadas, mensuradas e aquilatadas. O amor, a saudade, os afetos, as tristezas são bons exemplos de emoções que não cabem nas perspectivas experimentais. Entretanto, sem surpresa recebi nos últimos dias a notícia de que uma pesquisadora (cuja fama foi catapultada durante a pandemia de Covid) escreveu um livro denunciando “pseudociências”, entre as quais estavam incluídas duas vertentes de saberes que conheço de perto: a psicanálise e a homeopatia.
Escuto esse tipo de visão positivista sobre o conhecimento científico há mais de 30 anos e acho cansativo contra-argumentar; na maioria das vezes os acusadores agem como cruzados furiosos, montados em seus conceitos rígidos sobre ciência experimental e não aceitam escutar o idioma confuso e sem respostas exatas da linguagem do simbólico e do subjetivo. É simples entender que a ninguém parece viável analisar uma neurose “in vitro”, ou entender uma fobia despregada da história de quem a produziu; também não há como entender as diáteses homeopáticas fora dos conceitos de unicidade e suscetibilidade. Portanto, os limites da pesquisa experimental não são complexos para entender, e a ideia de analisar a realidade apenas pela metodologia que existe – desprezando aquilo que ainda não entendemos – se mostra sempre como uma forma muito arrogante de decodificá-la. No fundo esta propensão a “achar feio o que não é espelho” esconde o medo do novo, do não sabido e o pânico de relativizar o conhecimento que julgam ter conquistado. É mais fácil limitar o universo ao nosso entorno próximo do que admitir que somos apenas poeira de algo infinitamente maior.
Sempre é bom ter a mente aberta para entender as questões da saúde e da doença de forma complexa e criativa. Para algumas práticas – como a psicanálise e a homeopatia, entre outras – imaginar que é possível analisar a efetividade de uma terapêutica sem levar em conta a subjetividade e a suscetibilidade individual é desmerecer o fato de que somos seres de linguagem e vivemos envoltos em um campo simbólico que diante dos mesmos “inputs” estabelece “outputs” muito mais sofisticados e diversos.
Para além desse debate não conheço nenhum analista que tenha o real interesse de chamar psicanálise de “ciência”; a castração envolvida no processo de análise bloqueia em parte o pedantismo de enxergar-se de forma superlativa. Todavia, fica muito claro que o cientificismo contemporâneo trata tudo que não considera ciência (pelos seus critérios) como conhecimento menor. Para alguns pensadores da homeopatia, ela ainda se reivindica como ciência (por suas históricas conexões com a medicina institucional), mas não vejo muito sentido em tratá-la assim. Para mim ela se aproxima muito mais da psicanálise e suas investigações de caráter pessoal e único, por sua vinculação inexorável com a subjetividade e pelas manifestações raras, estranhas e peculiares do processo mórbido no sujeito.
Para finalizar vamos esclarecer algo que me parece importante: a autora dessa publicação foi tratada como sumidade da área médica (apesar de ser bióloga) durante o período da pandemia. Essa notoriedade foi resultado dos ataques que fez às teses bolsonaristas relacionadas à emergência da pandemia da Covid. Dissipada a nuvem que nos obliterava a percepção mais clara dos personagens da crise de saúde, hoje já é possível perceber que se trata de uma fundamentalista que está surfando na fama para levar adiante seu ideário. É também importante ressaltar que ela é consultora de uma gigante multinacional de drogas, a Janssen-Cilag, conforme consta em seu currículo. Isso deixa claro o quanto existe de interesses econômicos muito fortes por trás dessa personagem. Para além disso, trata-se de um clichê muito conhecido na área médica: o “cientista soldado da Verdade que combate a pseudociência”. Na realidade são tão somente clérigos de uma religião positivista, carentes da mais essencial virtude de um cientista: a imaginação criativa. No fundo temem descobrir a imensidão do que desconhecem, e como todos os religiosos, mais do que exaltar sua crença, sentem que é preciso destruir tudo que a questiona e desafia.
A função do sintoma não se esgota na ação sinalizadora – como no pranto infantil – mas vai muito além do que simplesmente nos avisar que alguma função está em desequilíbrio com o resto do organismo. O sintoma – do mais material ao mais etéreo – opera no sentido da homeostase, na busca dinâmica pelo equilíbrio, tentando alcançá-lo através das transformações metabólicas que produz na economia orgânica. Portanto, mais do que um aviso à nossa consciência, os sintomas operam ativamente na resolução da doença, seja ela qual for. A compreensão do sentido último da sintomatologia é a chave para o entendimento holístico do sujeito que sofre.
A policia foi criada para defender a propriedade, o patrimônio e servir como contenção à óbvia e inevitável insatisfação dos excluídos. ë uma ilusão quase infantil acreditar que esta instituição exista para servir e proteger o povo. Não…. em verdade suas mais claras intenções são servir ao poder burguês, garantindo a propriedade privada, o modelo liberal e mantendo em segurança os rentistas e suas posses.
Para confirmar esta perspectiva basta observar a ação da polícia quando existe um choque entre as pessoas do povo e os “cidadãos de bem”, ou quando a polícia é chamada para expulsar e ameaçar pessoas que invadem terras. Outro exercício legal é assistir os canais de “auditors” americanos – pessoas que testam os limites dos direitos constitucionais. Normalmente um grupo deles fica parado em uma calçada filmando o entra e sai de pessoas em um shopping, algo que tem total respaldo pela lei do “plain view”, que diz que “tudo que pode ser visto à olho nu pode ser filmado”. Parte do princípio de que não existe expectativa de privacidade em público. Aliás, esse princípio também existe no Brasil.
Normalmente os proprietários ficam incomodados de serem filmados (mas não se incomodam de filmar os usuários do shopping com centenas de câmeras espalhadas) e chamam a polícia. Quando os policiais chegam dão “uma dura” nos auditores (mesmo que estejam absolutamente dentro da lei), por eles estarem “incomodando as pessoas” ao agir como fiscais constitucionais . Ou seja: as forças de repressão são chamadas pelos burgueses para proteger suas propriedades e proteger os seus negócios, mesmo que isso signifique atacar pessoas que estão agindo protegidas pela constituição. Por este exemplo simples fica claro que esta é a polícia dos proprietários, dos burgueses, dos ricos, e não do povo.
O filme da Barbie é o perfeito exemplo da concessão burguesa à crítica sobre seus postulados. Na verdade, nada de muito novo, já que esta estratégia pode ser reconhecida em uma figura que se destaca nos relatos da idade média. É a figura do Bobo da Corte.
Esse sujeito, um palhaço, tinha a especial concessão de debochar do Rei e de outros membros da Corte. Podia fazer piadas sobre sua volumosa pança, suas amantes, sua sujeira, seus modos à mesa. Podia falar de sua inabilidade esportiva e até de sua potência sexual – tudo isso como recheio para suas piadas e chistes. Essa prática era usada para humanizar a figura do monarca, trazê-lo para perto do povo e mostrar o quanto era permeável às críticas e reclamações. Entretanto, havia um limite tácito às bobagens.
Seus gracejos jamais poderiam mostrar ao povo a injustiça de uma sociedade separada entre nobres e plebeus e em hipótese alguma questionar a Realeza e seus direitos divinos. Critique-se o Rei, mas jamais questione sua condição de Rei e a estrutura de classes que determina o ordenamento social. Por isso não deveria causar espanto algum que o Rei pagasse muito bem para alguém falar mal dele, e nem que hoje a Mattel faça um filme que questione a própria Barbie, ao mesmo tempo em que lucra milhões com isso.
É por essa singela razão que os americanos podem fazer tantos filmes críticos à guerra e ao mesmo tempo viver em guerra incessante contra nações autônomas e independentes. O mesmo modelo usado desde muitos séculos, não? Eles bem sabem que as críticas servem para oferecer aos sujeitos (nós) a ideia de que algo está sendo feito e que o poder instituído escuta nossos apelos, quando em verdade tudo o que fazem visa manter este poder intocado. Ou seja: questione-se a estupidez da guerra, mas o limite da crítica é o imperialismo e a consciência dos povos periféricos. Por isso Hollywood pode fazer filmes que esculhambam a própria indústria cinematográfica, desde que não atinjam sua pervasividade no mundo e sua forte propaganda burguesa.
O mesmo ocorre com a democracia liberal: podemos questionar, brigar, acusar, protestar livremente. Ninguém vai reclamar das críticas, mas esse modelo vale apenas quando os conservadores e liberais vencem, e até quando a vitória é da “esquerda moderna”, como Boric, que jamais vai atacar as estruturas da sociedade de classes. Entretanto, se os setores excluídos são minimamente representados e a mais suave ameaça ocorre ao sistema excludente e concentrador do rentismo, imediatamente soa o “alarme de ameaça comunista”, e não há problema algum em apelar para um iletrado e ignorante como Bolsonaro para “salvar a liberdade”. E se isso falhar, não haverá escrúpulo algum em chamar os militares para que venham “assegurar os valores democráticos” – através de uma ditadura.
Barbie apresenta essa miragem de renovação e empoderamento, reforçando as bases estruturantes do capitalismo – onde tudo vira mercadoria – enquanto oferece aos revolucionários da poltrona a miragem de que algo real está sendo feito para mudar o mundo. Essa sociedade capitalista precisa de pessoas que se contentam com os Bobos da Corte e suas piadas ácidas… e inúteis.
Apenas imaginem um clube que, em função do poderio econômico, construído durante décadas, consegue manter 5 grandes jogadores, de nível de seleção jogando juntos. Todos eles recebem propostas do exterior, mas seus salários já são muito altos aqui, o que impede a troca constante de peças. Isso faz com que o conjunto se mantenha, os jogadores se conhecem, as jogadas fluem com mais facilidade.
Não há nenhum mistério. Times ricos fazem isso, enquanto os times remediados precisam passar pelo terror de vender seus melhores jogadores a cada janela de transferência, e isso apenas para pagar suas contas. E aí entra um novo jogador com a necessária adaptação física, psicológica, social, afetiva e com o modo de jogar do resto da equipe.
A diferença é econômica. Nada a ver com as táticas mirabolantes, técnicos que hablan, modelos europeus de gestão, psicólogos, nutricionistas, etc, mesmo que TODAS estas alternativas sejam importantes e significativas.
Mariah Carey, cantora americana vencedora de vários Grammy, processou Jack Packer, seu ex-marido milionário, e ganhou por volta de 5 milhões de dólares (a pedida inicial era de 50 milhões) com o argumento de que ele, durante o tempo em que passaram juntos, “desperdiçou o tempo dela”. Ela ainda manteve consigo o anel de noivado que o namorado a havia presenteado, cuja avaliação supera os 10 milhões de dólares. O argumento utilizado pela estrela da música foi de que o ex-marido teria feito ela se mudar de Nova York para Los Angeles, e que isso teria atrapalhado sua vida.
Outro argumento é de que seu ex havia feito alguns comentários desagradáveis para uma de suas assistentes durante suas férias na Grécia, o que teria lhe causado desgostos e o cancelamento de shows na América do Sul. Sobre o tema a única coisa realmente relevante é a forma de tratar um antigo parceiro: “alguém que atrapalhou sua vida financeira, desperdiçando seu precioso tempo”. A respeito desse embate sobre as sobras de um relacionamento li algumas piadas (e as piadas são sempre sagradas), alguns chistes e vários comentários maldosos sobre a Diva, mas muitas mulheres comemoraram a decisão. Afinal, quem não se sente representada? Quem não olhou para o seu marido Ken e pensou: “Esse cara é um atraso na minha vida de Barbie”? Pois eu pergunto: deveriam comemorar? O simples fato de penalizar um homem que é descartado vale essa sensação de revanche?
Eu creio que essa comemoração não tem muito sentido. Esse tipo de processo acaba fomentando ainda mais a ideia de que o casamento, para os homens em especial, está se tornando um péssimo investimento. A queda vertiginosa no número de casamentos pode estar relacionada com o risco que se cria entre eles de que suas vidas financeiras poderão ser destruídas pela parceira, levando a uma percepção negativa dos compromissos e dos laços familiares. No final resta a pergunta: que tipo de vantagem para as simples mulheres mortais representa essa “vitória” de uma rica artista americana?
Não se trata de voltar no tempo, imaginando ser possível resgatar um passado de “equilíbrio” e paz na família. Freud, em especial, ao analisar a histeria na virada do século XIX para o século XX, mostrou que a construção da família mononuclear é um projeto calcado na repressão e na opressão da sexualidade, e jamais poderia ser considerada um modelo perfeito de estrutura social. A histeria foi, portanto, a forma de desvelar a estrutura corroída da família mononuclear. Entretanto, a monetarização da vida, a transformação de afetos em mercadoria e a indenização pelo tempo compartilhado mostram que invadimos um terreno perigoso, onde a vida passa a ser mensurada muito mais pelas questões econômicas envolvidas do que pela intensidade das emoções vividas.
Na estrutura capitalista da vida cotidiana resta o fato de que, na sua ponta mais extremada, os afetos se transformam em excremento, tudo vira dinheiro, nada resta, nada deixa marcas e os amores se dissolvem como areia ao vento.