Democracia
Na democracia do bacana
Precisa mandato de juiz
Pra lhe tirar da cama.
Pra maloqueiro
Basta a sola do coturno
Do soldado na porta
Pra terminar rapidinho
Com seu descanso noturno.
Democracia
Na democracia do bacana
Precisa mandato de juiz
Pra lhe tirar da cama.
Pra maloqueiro
Basta a sola do coturno
Do soldado na porta
Pra terminar rapidinho
Com seu descanso noturno.
Arquivado em Violência
A crença em uma vida futura não é mesmo uma questão de escolha. Imaginar ser possível educar alguém para aderir ao ateísmo ou às crenças de sobrevivência de um princípio espiritual é ilusório. Acreditar em uma vida que não se esgota na matéria densa é um sentimento, não uma construção racional; sua negação também. Assim, as pesquisas em um sentido ou outro apenas reforçam ou refutam estas crenças para os sujeitos já conectados a estas perspectivas. Atacar os polos deste matiz – os crentes e os niilistas – tratando-os como estúpidos ou ingênuos é injusto e inadequado e, para mim, tem o mesmo sentido de criticar a orientação sexual de alguém usando argumentos racionais. Resta o fato de que a postura agnóstica é a mais honesta de todas: não sei os mistérios do mundo e da vida, do infinito e da morte. Portanto, não é justo ser definitivo sobre o que desconhecemos e muito menos ser peremptório sobre a imensidão do que ignoramos.
Rev. Augustus Margolyes, “Das Incertezas Inóspitas”, Ed. Paulines, pág. 135
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Em 1976, quando eu ainda era adolescente, foi lançado com grande furor um filme chamado “O Império dos Sentidos” do diretor japonês Nagisa Oshima. No enredo uma ex-prostituta se envolve num caso tórrido, obsessivo e altamente erótico com seu patrão, numa história que envolve possessão, sexo e morte. O filme tinha como atrativo inédito uma cena de sexo explícito que ficou famosa, apesar do filme ter seus méritos para além desta cena, e ser um drama tenso, pesado e com final trágico. Claro, eu fui assistir com a mesma cara de pau de quem comprava revista Playboy e depois dizia que era “pelas entrevistas”. Sim, eu fui ver o filme porque sempre fui “um amante do cinema japonês”…

Outra curiosidade era que, quando as pessoas falavam que no filme havia essa cena de sexo explícito, logo emendavam a frase dizendo que os protagonistas eram “casados na vida real”, o que oferecia uma curiosa “liberação” para esta exposição pública do sexo entre eles. Tipo, “ahh, se eles são casados, tudo bem”. Parecia que o fato de estarem legalmente unidos através dos sagrados laços do matrimônio retirava da cena uma grande parcela de pecado, e aposto que essa desculpa foi uma das razões para permitir que este filme pudesse ser exibido em plena ditadura militar.
Na verdade, eu lembrei do filme por outras razões. Foi o nome da película que me fez imaginar uma interpretação alternativa. Digo isso porque hoje vivemos, de uma certa forma, no “Império dos Sentidos“, mas não nos “sentidos” com o significado das percepções que captamos do exterior e que nos impressionam, como o tato, o paladar, a visão, etc. Não, eu me refiro aos “Sentidos” com a conotação de “magoados” ou “ofendidos“.
Vivemos, assim, no “Império dos Magoados” onde os sentimentos alheios valem mais do que a própria verdade. Qualquer palavra, expressão, dependendo de sua origem (e não do seu conteúdo), pode ofender pessoas, grupos, etc. As piadas e os gracejos não podem mais se arriscar a tocar as feridas de todos os “(re)sentidos”, pois estes podem se machucar ao ouvi-las. Com isso a cultura fica paralisada, imóvel, temendo os cancelamentos inexoráveis que podem partir de qualquer pessoa e coletivo que se julgam ofendidos. Os comediantes, em especial, vivem sob vigilância extrema, e vivemos hoje em um tempo em que o humor perdeu boa parte da sua potência transformadora. Humor que não rompe barreiras e que não agride conceitos recalcitrantes é entretenimento anestesiante. Nesse Império os grupos historicamente oprimidos se tornaram os mais poderosos na cultura, ditando de forma autoritária o que pode e o que não pode ser dito. Como afirma Zizek, “ser branco, cis, hetero e homem nos tempos atuais tornou-se um crime para o qual não há mais perdão“.
Não nego que houve avanços em algumas áreas – em especial nas agressões que eram travestidas de piada – mas as perdas também são inegáveis. Por isso uma reação evidente já pode ser vista no horizonte. O “Império dos Sentidos” começa lentamente a ver sua força diminuir diante da reação de pessoas e grupos que não acreditam mais na capacidade da censura, dos silenciamentos e dos cancelamentos em oferecer solução para as desigualdades ou para acabar com o preconceito. Não se muda a cultura proibindo e punindo, mas educando e transformando as relações de poder.
A ideia de que os sentimentos feridos devem ser considerados superiores à justiça, à realidade e à verdade é um conceito que precisa acabar. O modelo de “maternagem” condena os oprimidos à uma posição inferior e reativa na sociedade, mas o que eles precisam é de protagonismo e poder de decisão, não de proteção infinita.
Arquivado em Causa Operária, Pensamentos

As mulheres que levam a gestação até o fim com obstetras cesaristas, acreditando que vão conseguir um parto normal apesar do passado intervencionista deles, são as mesmas que casam com alcoolistas violentos acreditando que vão (pelo seu amor) ajustá-los e colocá-los na linha. No fundo, muito mais do que crédulas, são arrogantes, pois acreditam que sua palavra poderosa vai transformar a essência daqueles “desviados” que compartilham com elas o caminho. Não passam de ingênuas pastoras em busca de ilusórias conversões.
Jammie Marywether-Brooks, “Twenty Tales for Mommies”, Ed. Palomar, pag. 135
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Erram aqueles que dizem que “o capitalismo morreu”. Ora, ele está no nosso cotidiano, ainda muito presente. O capitalismo não está morto; o que morreu foi seu espírito, a utopia capitalista. O que testemunhamos ainda hoje é o “zumbi capitalista”, um corpo deformado e disforme que vaga por inércia, doente e degenerado, desprovido de alma. Seu odor malsão é sentido desde as malocas imundas enfileiradas nas ruas glamurosas de Los Angeles até os corpos putrefatos envoltos em lama nos campos de batalha da Ucrânia.
Eric Korndorfer, “The Road to Destruction”, Ed. Palmares, pág. 135
Arquivado em Política

Era uma vez… uma famosa Drag Queen que resolveu se casar, mas para isso resolveu fazer a maior festa da história da cidade. Dinheiro não seria o problema, e para isso resolveu fazer um evento grandioso o suficiente para entrar na história. Não apenas convidou o mais caro buffet, alugou o clube mais chique da região, os garçons mais gatos, o serviço de manobristas mais top, luzes, palco, convidados da alta burguesia, etc, como também prometeu o mais fantástico de todos os vestidos de noiva, uma arte jamais produzida pela criatividade humana.
No dia do casamento a noiva chegou em uma limousine prateada, dirigida por um motorista negro, alto e forte escolhido pelo nome: Jarbas. Logo ao chegar ao local a multidão cercou o carro para ver a noiva e sua promessa de glamour; todos queriam ver o espetáculo que ela prometera. Quando a porta da limousine se abriu de dentro dela saltou uma perna esguia e forte cujo calcanhar era adornado por uma pulseira recheada com pedras preciosas. Nós pés um salto agulha de uns 18cm; um sapato Loubotin branco cravejado de joias. Acima do joelho uma jarreteira cor-de-rosa com fios dourados deixava a panturrilha ainda mais realçada e delicada. A pele estava alva e brilhante pela sessão de massagens e cremes hidratantes recebida no “dia de noiva”.
O vestido era apenas deslumbrante. Feito com renda Soutache, apresentava um cordão a contornar os desenhos proporcionando um aspecto de profundidade aos florais, mais justo à cintura e estruturado. As modistas que se aglomeravam na calçada estavam espantadas e abismadas, pois se tratava de um vestido de noiva clássico, requintado, sofisticado e com um toque todo especial de atrevimento.
– Calma, gente, calma!!! Esperem!! É apenas a aia!!!!!
Era a Drag Queen, avisando que o melhor ainda estava por chegar. Pois na data histórica de 30 de junho de 2023, o Brasil inteiro festejou a inelegibilidade… da aia.
Arquivado em Humor, Pensamentos, Política
Tive uma ideia para criar a democracia perfeita no mundo, até para ser aplicada até aqui no Brasil. Imagine um país que criasse um sistema baseado no capitalismo, na propriedade privada e no lucro. Estes elementos seriam dogmas, imutáveis, não passíveis de discussão; uma sociedade de classes cristalizada para todo o sempre. Para controlar este sistema criamos um partido formado de proprietários, industriais, grandes fazendeiros, agentes do sistema financeiro; banqueiros e latifundiários. Esses representarão menos de 5% da população, mas terão controle sobre 100% do país. Esse grupo se manterá no poder indefinidamente porque nosso sistema vai dificultar (na prática impedir) qualquer forma de acesso a um representante dos outros 95% do povo. O método para obstaculizar candidaturas indesejáveis será através do controle econômico. Qualquer partido para alcançar o poder precisará de muito dinheiro para fazer campanha e se organizar em todos os Estados e cidades, mas o dinheiro será controlado por este partidão gigantesco e milionário, através das indústrias, da publicidade e dos bancos. Isso será uma barreira fatal para 99% de todas as iniciativas.
Esse partidão também controla tudo, desde o judiciário até a mídia, de forma que se um candidato surgido do povo – tipo um negro, um operário, uma jovem pobre, um funcionário público, etc, – alcançar este nível de popularidade, farão campanhas na TV diariamente dizendo que se trata de um ladrão, que roubou uma bicicleta, que tem negócios com bandidos, que mandou a amante abortar etc. Se a campanha não der certo, contratam a peso de ouro juízes e promotores que, por fim, colocam esse dissidente na cadeia, mas antes passam um verniz de legalidade em tudo que foi feito. Essa estratégia é tão inteligente que os pobres e os miseráveis a quem exploram vão fazer campanha para estes ricos, mesmo sendo evidente que o luxo com o qual estes últimos vivem é pago por eles, que se matam – literalmente – de trabalhar para garantir seus privilégios.
“Ah, mas é um partido só!! Isso não garante a diversidade e a alternância de poder. Isso não é democracia”.
Não tem problema algum. Já inventei uma solução: divido esse partidão ao meio e coloco nomes diferentes, para que todos pensem que um nada tem a ver com o outro. Um deles será, por exemplo, “Partido Legalista”, e o outro “Partido da República”. É sabido que os nomes dos partidos não guardam nenhuma relação com seu conteúdo programático, portanto os nomes são, em verdade, irrelevantes. Os dois são exatamente iguais, usam as mesmas ferramentas, se assentam sobre verdades estabelecidas (o capitalismo, o “livre mercado”, o lucro, a sociedade de classes, a expansão, a atitude policialesca sobre o mundo, o ataque a outros países, a exploração dos trabalhadores, a concentração insana de riquezas, o lucro sem controle, etc), mas discutem de forma violenta e agressiva questões periféricas como os pronomes, os banheiros unissex, os direitos gays, os direitos indígenas, o racismo, as campanhas para a comunidade trans, as leis de imigração, leis de proteção às mulheres, etc.
E assim o fazem de uma forma tão intensa e agressiva que todos terão certeza de que esses dois partidos não foram originados daquele partido único, burguês e patronal, e não restará dúvida alguma de que se trata de partidos legitimamente diferentes – e até mesmo antagônicos. Por isso a ação deve ser articulada com a mídia e com o judiciário, para que ninguém desconfie que só um único grupo de pessoas governa esse país desde sempre.
Que acham da minha ideia? Original, não?
Arquivado em Política
O gosto da vitória está inexoravelmente conectado ao esforço. Não se trata de “romantizar o sofrimento”, mas valorizar a intensidade e o sentido do trabalho dispendido. Algo recebido sem esforço não adquire valor. O ouro só é valioso pelo trabalho intenso para encontrá-lo; os diamantes também. Já o ferro e o cobre são obtidos com muito menos “sofrimento” – ou esforço, e é altamente por isso que estes metais valem muito menos.
Equilíbrio entre a dor de avançar e os resultados obtidos é outro tema. O esforço é o que dá valor às nossas conquistas. Ou, como diria meu irmão, “tudo que é de graça custa muito caro”, pois que não está conectado com nossa dedicação ao objeto construído.
Aqueles que não reconhecem o significado das conquistas difíceis e das batalhas heroicas não conhecem futebol e nunca vivenciaram uma vitória épica do seu time (recomendo ler sobre a Batalha dos Aflitos) e nunca tiveram que sofrer diante dos seus medos e inseguranças para conquistar a mulher por quem estão apaixonado. “Quanto mais fácil melhor” é um absurdo colossal; na verdade, o oposto está muito mais próximo da verdade: quanto mais difícil, maior o prazer da conquista…
Arquivado em Pensamentos

Nunca vou esquecer as palavras de um amigo que mora em um rico país europeu quando conversávamos sobre trabalho e dinheiro. Seu salário era excelente e seu trabalho estava ligado (que surpresa) a uma instituição bancária sólida e imponente, em um país conhecido por ter um sistema bancário que recebia dinheiro de fontes obscuras do mundo inteiro. No meio da conversa ele olhou para mim e disse:
– Nem imagina o quanto invejo o trabalho artesanal que vocês fazem cuidando de gestantes, bebês, famílias, etc.
Espantado, respondi:
– E por que você invejaria uma atividade tão simples como a nossa e que não remunera sequer 1/5 do que você ganha?
Sua resposta foi simples e direta:
– Vocês podem ver o resultado imediato do trabalho que fazem. Tanto o dinheiro que ganham quanto os agradecimentos são direcionados diretamente a vocês. Já eu trabalho em uma esteira de produção financeira onde o resultado final depende de tantas circunstâncias que não é possível traçar uma linha direta entre meu trabalho e um bom resultado observado. Além disso, trabalho para que piratas internacionais, bandidos de ternos Armani, gente sem escrúpulos e sem ética fique ainda mais rica. Isso é muito deprimente.
Essa declaração, que colocava um sentido transcendental ao trabalho, muito me impactou. Dinheiro realmente não pode ser a medida de todas as coisas.
Arquivado em Histórias Pessoais
As paixões nos fazem ver o grande onde habita a miudeza, e pequenez onde existe portentosa grandeza. Existe mentira a preencher a distância entre a retina e a realidade que se posta à frente. Confiar nos sentidos e nas emoções é o pecado dos incautos.
Teophrásio de Aquila, “Moralis vita angelorum”, Ed. Parnaso, pág. 135
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