Atentado

Meu irmão Roger Jones caminhava hoje pelo centro de Happy Harbor voltando para o trabalho após o almoço quando notou que o cadarço do seu tênis estava solto. Próximo à Rua da Praia agachou-se para amarrá-lo quando escutou um tiro. Sentiu um baque surdo no seu braço direito e caiu ao solo.

Ainda assustado e desnorteado, viu uma pequena multidão aproximar-se, enquanto ele tentava entender o que havia acontecido. Passou a mão no braço e notou um pequeno ferimento, mas quase não havia sangue. O tiro havia passado de raspão. Imediatamente se deu conta que o cadarço solto havia salvado sua vida.

Os transeuntes apontavam para o carro tentando anotar a placa, mas ele disparou em alta velocidade. No volante dois terroristas ainda não identificados provavelmente lamentavam o erro. No mundo do terrorismo internacional não se admitem erros, e cabeças rolariam, por certo

Pela graça concedida ao meu irmão, que Deus seja louvado.

PS: na realidade um carro passou por cima de uma pedra e a lançou em direção ao Roger. O pedregulho raspou no seu braço enquanto estava agachado amarrando o cadarço. O som realmente foi semelhante a um tiro, e esta foi sua primeira impressão, que apenas foi desfeita quando ele, e os demais transeuntes, repararam a pequena rocha ao seu lado. Esta é a verdade; entretanto acredito que a minha versão da história acabou sendo muito mais interessante.

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Nordeste

Eu conheci o nordeste muito tarde em minha vida. Já tinha conhecido os Estados Unidos e a Europa antes de ser convidado para uma consultoria em Humanização do Nascimento em um hospital da periferia de Recife (divisa com Olinda) cuja diretora era uma médica filiada ao PCdoB e com ideias muito avançadas para a época. O ano era 2001, o primeiro ano do resto da minha vida.

Minha perspectiva do Nordeste era …. Tieta do Agreste. Sim, eu olhava o nordeste como um americano médio olha para um país chamado “África” sem saber que este continente abriga países, culturas e tipos físicos tão distintos quanto um khoikhoi, um hamer e um tuareg. O nordeste, em minha imagem mental, era negro como na Bahia e…. pobre e atrasado. E todos falavam como os atores globais nas novelas.

Minha primeira visita foi a convite da Universidade, e os meus contatos foram com os médicos do hospital. Foram, por certo, encontros muito ricos para a minha compreensão do significado político do movimento do Parto Humanizado, mas tenho certeza que minha presença como consultor teve um impacto pífio no desempenho do hospital. Revoluções não se fazem com forasteiros munidos de belas ideias; elas são construídas lentamente de baixo para cima através da lenta sedimentação de conceitos e pela consciência de classe. Talvez uma semente, não muito mais do que isso. A transformação do Parto não se fará com ideias, mas com ações e lutas.

No hospital militar onde trabalhei havia um colega que tinha servido no hospital da FAB em Natal – RN. Um dia ele me contou que a frase “Doutor, tenho dor!!” poderia ser dita de forma muito distinta por cada um dos habitantes dos estados nordestinos. Depois me disse a frase com o sotaque de cada um deles e, pela primeira vez na vida, eu pude perceber a imensa diferença entre a forma de falar de um pernambucano e um baiano, um alagoano e um cearense.

A partir desse primeiro contato, ocorrido há mais de 20 anos, se iniciou minha verdadeira imersão no nordeste. Passei a viajar com regularidade para cursos, aulas, palestras, seminários e congressos. Visitei diversas vezes Natal, Campina Grande, Fortaleza, Recife, Salvador e Maceió para encontrar ativistas e levar o evangelho da Humanização. A partir desses encontros passei a ter uma admiração mesclada com uma real paixão pelo povo, a cultura, a comida, o idioma e a alma nordestinas. Fiz amigos, conheci lugares incríveis e aprofundei minha visão de Brasil. Acima de tudo, abandonei uma perspectiva branca, europeia, sulista e preconceituosa em relação ao nordeste, trocando esse sentimento primitivo por uma verdadeira paixão por tudo que essa região representa para o país.

Meu pai pernambucano sempre dizia que “a primeira regra da vida é viver; a segunda é conviver”. Conviver com as pessoas que nos parecem estranhas – ou diferentes em seus jeitos e valores – é a maior e melhor forma de reconhecer nelas similitudes e parecências, encontrando nelas a mesma humanidade que habita em nós. Por esse contato constante, minha trajetória nas últimas duas décadas pelas terras nordestinas me ensinou muito sobre brasilidade, acolhimento, calor humano e diversidades múltiplas.

Por esta razão repudio todo e qualquer preconceito com os nordestinos, pois sei que o nordeste é a máquina propulsora das mudanças profundas que este país precisará passar em um futuro próximo. Deixo aqui expresso meu profundo amor pelo povo nordestino e o imenso orgulho de ser filho de um homem dessa terra.

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Desamor

Eu creio que todos nós acreditamos que o amor que oferecemos é um bem muito precioso. E é mesmo; mas não é um ativo sobre o qual se possa exigir reciprocidade. Uma mulher abandonada vai dizer “e o amor, a dedicação, os filhos, os cuidados da casa, os sonhos compartilhados, a minha fidelidade? Vou ficar sem nada?” Cobram por essa carga enorme de afeto que foi por elas entregue, mas por certo esperando o retorno de quem um dia amaram.

Os homens da mesma forma vão falar do dinheiro, do tempo investido, do cuidado, do amor, da atenção e tudo que dedicaram à mulher a quem amaram – ou ainda amam.

Amores homoafetivos também não tem razão para serem diferentes. Quem é abandonado cobra a parte que lhe faltou na economia do amor. Essa é uma reação humana à mais antiga das dores – a dor crua e dilacerante do desamor.

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Astronautas

Eu era um garoto de 9 anos (a idade atual do meu neto Oliver) quando assisti pela TV a chegada do homem à lua. A missão Apolo 11 levava 3 astronautas: Armstrong, Aldrin e Collins. Os dois primeiros pisaram na lua, enquanto Collins ficou dando a volta na quadra esperando eles terminarem as compras.

Armstrong e Aldrin tinham 39 anos quando viajaram à lua; Collins era 2 anos mais jovem. Quando meu pai (que na data tinha exatamente essa idade) me contou esse detalhe, ainda com o olhar grudado na TV, eu imediatamente perguntei:

– Por que levaram gente tão velha para uma missão tão importante?

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Armadilhas

Acho que é essencial esclarecer que os conceitos de “direita” e “esquerda” nada tem a ver com moral, costumes, sexualidade, aborto, feminismo, drogas, combate à criminalidade etc. Sua origem está no parlamento francês na época da Revolução Francesa, onde os jacobinos – exaltados e radicais representantes dos pequeno-burgueses – sentavam-se à esquerda enquanto os girondinos – considerados mais moderados e conciliadores, representantes interesses comerciais e a visão de mundo da burguesia ilustrada, que oscilava entre a monarquia constitucional e a república – sentavam-se à direita. Os conceitos clássicos de esquerda e direita tem a ver com o tamanho do estado e o foco que se dá ao proletariado e à burguesia no conflito de classes. Também se relaciona com o valor da propriedade e as questões que envolvem o valor do indivíduo e sua inserção nas forças produtivas de uma determinada sociedade.

A partir desse entendimento, é plenamente possível a um direitista ser um ferrenho defensor da liberação e descriminalização do aborto. Aliás, é o que os liberais pregavam: cada sujeito é dono do seu corpo e do seu destino. O mesmo pode ocorrer com a liberação das drogas, tratada como uma decisão pessoal que só diz respeito à quem usa. Da mesma forma nada impede a um comunista ser contra a liberação do aborto por questões pessoais e religiosas, até porque as crenças de cada sujeito em nada impedem alguém de adotar o socialismo como ideário de lutas.

Essa confusão ocorre apenas porque se criou a ideia de que as formas de organização social e econômica devem se misturar com posições religiosas, sexuais e de costumes. Esta confusão não foi natural; ela foi induzida pelos capitalistas americanos para dividir a consciência nacional entre republicanos e democratas. De um lado os conservadores “wasp” (anglo saxão branco protestante) no “Bible Belt” (cinturão da Bíblia)do meio-oeste americano, religiosos e anti-gays, contra a liberação das drogas, contrários ao aborto, etc. Do outro lado feministas, pró-escolha (pro choice), negros, gays, trans, usuários de maconha, universitários, professores, etc.

Nessa configuração as elites americanas retiraram do campo simbólico de disputas os debates relativos à saúde universal, brutalidade policial, moradia, pobres, moradores de rua, epidemia de narcóticos, despesas militares e passariam a ditar a narrativa, estimulando o debate sobre pronomes neutros, censura, ataques às piadas machistas, representatividade negra, feminina, trans, etc. Seria a arena da moralidade e dos costumes.

Assim, todos concordariam com o “fim da história” de Francis Fukuyama, com a vitória definitiva do capitalismo, a livre iniciativa, o imperialismo, a invasão de outros países, as classes sociais, a meritocracia, o militarismo, os golpes, os ataques por procuração, o massacre dos palestinos etc, mas teríamos um espaço enorme para debater se um professor deve ser expulso da escola por chamar uma aluna trans pelo nome que consta na chamada.

O mesmo ocorre desde sempre no Brasil. A direita historicamente procura as pautas morais no sentido de criar pânico na população. Desde o “mar de lama” de Getúlio, o apartamento de Juscelino, “Lula é abortista“, “Lula vai fechar igrejas“, “o PT é ladrão”, “mamadeira de piroca“, “ideologia de gênero nas escolas“, “kit gay” e agora o “banheiro unissex“. Essas são pautas plantadas no debate nacional como manobra diversionista, para que não se discuta financiamento do SUS, salário mínimo, suporte às universidades públicas, ensino de qualidade, salário de professores, fomento do pequeno produtor, política de preservação ambiental, papel das Forças Armadas, reforma tributária, reforma política e do judiciário, desindustrialização, BRICS e controle público das mídias, entre tantas outras questões essenciais para o país.

Enquanto a extrema direita mais reacionária se afasta dos temas realmente relevantes, ela insiste em empurrar o debate para a arena que escolhe – e nós frequentemente caímos nessa armadilha. Não é por acaso que sempre ao se aproximarem as eleições surgem os assuntos e as “fake news” relacionadas ao “satanismo” de pessoas da esquerda, o tema do fechamento (ou tributação) das igrejas, dos direitos das pessoas trans, do casamento gay, dos costumes “depravados” nas universidades, de Nossa Senhora, de Jesus na goiabeira, etc.

É tempo de educar as pessoas, em especial do campo progressista, que o socialismo não é uma doutrina que se importa com o rabo de qualquer um de nós, mas um modelo de sociedade pautado na colaboração, na solidariedade e na definitiva eliminação das classes sociais que nos dividem.

Chega dessa p*rra de moralismo f*did* do caralh*.

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Religião e alienação

“Ahh, mas o Brasil não é o coração do mundo e a pátria do Evangelho? Há de existir uma intencionalidade dos planos espirituais para o nosso país. Não ficaremos órfãos de cristandade”.

Esse é o papo dos espíritas de hoje. Sinto muita tristeza em dizer isso, mas uma improvável vitória de Bolsonaro nestas eleições levaria o Brasil à morte, à violência e, por fim, à confrontação em níveis nacionais. Não é uma ameaça, mas um temor bem fundamentado. A hipnose a que se submete o povo brasileiro não pode durar indefinidamente. Com o tempo – que vai depender da nossa consciência e poder de reação – teremos de despertar desse sono. A fome voltou, o desemprego não baixa, os programas sociais já foram exterminados, o desmatamento prosseguirá, o extermínio dos índios idem.

O ódio é o idioma falado pelos bolsonaristas nas ruas, vários ativistas de esquerda já foram mortos, inimigos (e ex parceiros) de Bolsonaro desaparecem, e o Congresso se verga às decisões que desejam transformar o Brasil em um fazendão, onde os latifundiários, os rentistas, os especuladores e os banqueiros terão sempre a última palavra sobre os destinos do país. Estes assassinatos que estamos vendo agora poderão se tornar o padrão daqui por diante. A tensão entre o Brasil pobre e os donos do poder se acentuará e os conflitos inevitavelmente explodirão. Não há como conter o desencanto indefinidamente. O auxílio criminoso eleitoreiro vai acabar. Se Bolsonaro fosse eleito em janeiro tudo voltaria ao terror de sempre, mas aí já seria muito tarde.

Para os espíritas eu apenas posso dizer que Jesus era um socialista pregando revisionismo judaico e mobilização política para judeus que sonhavam com um levante contra Roma. Ele jamais foi o “governador da Terra”, uma afirmação corrente entre alguns espíritas iludidos com um pretenso destino especial deste país. Esse tipo de ficção ufanista agride a realidade dos fatos e nada mais é do que um dos mantenedores do nosso atraso social e econômico. NÃO SOMOS ESPECIAIS. Nós brasileiros não somos melhores, não somos predestinados a nada. Construímos a estrada à medida que andamos. O Brasil foi o último país a exterminar a escravidão, o país que mais concentra renda na mão de poucos bilionários (que sequer vivem no país), temos a elite mais racista e perversa entre os países emergentes, e somos a nação que mais mata gays, pretos e pobres pelas mãos do Estado. Temos uma das polícias mais violentas do mundo e matamos mais brasileiros do que muitas das guerras contemporâneas, todo santo dia. Não é honesto ou lícito falar de religião, de espíritos superiores ou de um Cristo apaixonado pelo Brasil; em verdade precisamos extirpar a perversidade entranhada na estrutura de poderes deste país, e isso é uma tarefa para este mundo e não para o plano celestial. Não seremos salvos pelo retorno do Cristo em uma carruagem dourada, retirando do planeta os “maus” e mantendo apenas os “cidadãos de bem”. Se existe algum futuro para o Brasil ele virá através do trabalho dos seus cidadãos na busca por equidade e justiça social. É necessário abandonar definitivamente as perspectivas messiânicas e salvacionistas, pois que o resultado desse pensamento é a alienação e a inação.

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Divisões

Em termos políticos e sociológicos, dividir para conquistar (ou dividir para reinar) consiste em ganhar e manter o controle de uma determinada região por meio da fragmentação das maiores concentrações de poder, impedindo sua unidade e força. Esse conceito foi utilizado pelo governante romano César (divide et impera), Filipe II da Macedônia e o imperador francês Napoleão (divide ut regnes). Maquiavel cita uma estratégia semelhante em “A Arte da Guerra” (Dell’arte della guerra), dizendo da importância imperiosa em fragmentar as forças inimigas. Divisões sempre foram o maior interesse do Imperialismo. O sonho do Império Atlantista – ou Otanistão – liderado pelos Estados Unidos, era uma Iugoslávia dividida, e para isso fomentou a guerra fratricida do Kosovo, destruindo o sonho de Tito de uma nação eslava forte e unida. O desejo americano sempre foi uma Alemanha dividida, o que conseguiu por um certo tempo. O interesse do Império sempre foi dividir o Vietnã, a Coreia e a Rússia, assim como tentou com a China durante todo o século XIX. Para a América Latina – como bem cantou Pablo Milanés – ocorreu uma divisão artificial produzida pelo Império Britânico, contrária aos sonhos de Simón Bolivar. Mais modernamente, o Sudão foi dividido arbitrariamente com esta mesma lógica, claramente estimulado pelas nações colonialistas.

Até hoje se estimulam rivalidades e até guerras regionais na América Latina, como os ataques a Cuba, Nicarágua e Venezuela, não por acaso os três países que se impuseram orgulhosamente contra as determinações do Império Americano e, por isto, sofrem boicotes, ataques, sanções, atentados e golpes frequentes, todos eles financiados pelo grande capital internacional.

O próprio identitarismo parte da mesma percepção de mundo, e a través da estratégia de estímulo ao divisionismo como forma de enfraquecer a reação ao domínio. Uma sociedade pulverizada por identidades regradas por identidade sexual, raça, orientação sexual, etnias – onde um negro miserável se sente inimigo do branco explorado e pobre, a quem chama de “opressor” – também foi uma estratégia de sucesso do capitalismo americano, através do “leftismo” do partido democrata que, ao invés de abraçar as pautas socialistas e progressistas (eliminação da miséria, fim dos sem teto, sistema único de saúde, estímulo à reindustrialização), se entregou à defesa das minorias oprimidas, fragmentadas e divididas, assim como da “diversidade”, colocando operários e trabalhadores uns contra os outros como se a cor de sua pele ou sua sexualidade fossem reais barreiras para a integração, mais importantes do que a sua condição de classe.

É curioso que agora tantos falem no Brasil que “eles querem impor a divisão”. A frase é verdadeira, desde que se defina quem são eles. Falta a estes, que agora atacam os nordestinos pelo seu maciço apoio à candidatura de Lula, a percepção geopolítica de que “eles” se refere ao IMPERIALISMO, força que aqui no Brasil está ligada à extrema direita – Bolsonaro e seus seguidores. Quem realmente aposta na união nacional são os partidos da esquerda revolucionária e internacionalista, os quais reconhecem a importância da união dos povos em torno das pautas de apoio e de fortalecimento do operariado. É importante também, em meio a tantos ataques xenofóbicos contra o nordeste, entender o significado desta região para a construção do que hoje entendemos como Brasil. Nossa mensagem deve ir direto ao coração do eleitorado do sul e sudeste, este que deram seus votos a um racista declarado – Bolsonaro – e que agora depreciam o nordeste tratando esta parte do Brasil como subdesenvolvida e atrasada.

Os nordestinos salvaram o Brasil do fascismo que está presente em toda a história e as ações de Bolsonaro e – também por isso – seremos desta região eternamente devedores.

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Reflexões pós 1º turno

Claro que o primeiro turno foi decepcionante. A direita brasileira também fracassou de forma retumbante, mas estamos vendo o fortalecimento da extrema direita fascista, se fortaleceu no Senado e no Congresso. O Brasil ruma para se transformar em um evangelistão atrasado e violento. Metade da Câmara será de extrema direita, e praticamente todo o Senado da República. Entretanto ainda é tempo de conquistar o governo federal fortalecendo Lula para o segundo turno.

Porém…

Precisamos conversar sobre a esquerda identitária, a “esquerda” do amor e da diversidade. Precisamos voltar a ter uma esquerda dos trabalhadores, do proletariado, dos homens e mulheres pobres do Brasil. Enquanto tivermos uma esquerda do “amor”, da paz, sem luta, sem porta de fábrica, sem enfrentamento, sem peitar as forças repressoras do Estado, sem greve e sem povo na rua estaremos perdidos e o Brasil vai rumar para seu destino catastrófico: será uma grande fazenda controlada pelo capitalismo internacional.

Eu sei que não está tudo perdido. Precisamos manter o queixo erguido.

Nesta eleição, em especial, mas repetindo o que fizera em 2018, Ciro alio-se à corrente do atraso que cresceu na reta final da eleição. Ao ser “linha auxiliar” de Bolsonaro ele foi o principal responsável por não vencermos no primeiro turno. O voto útil foi usado, mas para Bolsonaro usando os votos de Ciro, que foi o maior apoiador de Bolsonaro durante os debates. Espero que ele desapareça da política.

A grande votação da extrema direita reflete a decadência moral e econômica do capitalismo. Aconteceu o mesmo na Europa. Estejamos preparados para o pior. Agora eu me sinto como se estivesse em janeiro de 1933 na Alemanha, vendo o meu país às vésperas de tomar uma decisão desastrosa para milhões de pessoas, a maioria delas com os olhos vidrados, acreditando nas palavras sedutoras do fascismo, saudando um líder fanático e com total desprezo pela vida humana. Pior ainda é perceber que estamos caminhando para um desastre ambiental, social e ético de proporções catastróficas, e não saber o que pode ser feito.

Viramos isso mesmo, um evangelistão. Seremos governados por pastores degenerados que controlam multidões de cordeiros, que por sua vez vão assistir o Brasil virar um enorme pasto para os interesses dos ricos e do capital internacional. o Brasil continuará a ser visto no mundo inteiro como o pais da miséria e da exploração perversa.

Todavia, enquanto aguardamos pelo segundo turno, é o momento de reunir os cacos, lutar por Lula e começar a pensar em um futuro para o Brasil. Precisamos mudar nossas estratégias e nossa retórica. Precisamos voltar a ser uma esquerda OPERÁRIA, de luta, de base e revolucionária.

O passo inicial é eliminar as pautas identitárias. Exterminar o discurso do “amor vencendo o ódio”. Abandonar os símbolos do amor e da paz e admitir que é preciso LUTAR será imperioso. Jogar fora toda a nossa carga de identitarismo é algo que precisa ser feito a partir de hoje. Isso significa abrir mão de figuras deletérias da esquerda, “esquerdistas” identitários de universidade, com suas pautas divisionistas, anti-operariado, que sabotam a destinação libertadora e anti sistema da esquerda. É preciso colocar a esquerda universitária no seu lugar, voltar para as fábricas, para as vilas e para as comunidades periféricas.

Afinal, que Jesus é esse que os bolsonaristas seguem? Benedita também pode ser incluída entre os evangélicos engolidos pela onda conservadora. Na verdade esse cristianismo bolsonarista não tem nada a ver com o Cristo, com seus valores morais do perdão e da solidariedade e nem mesmo com os ensinamentos contidos no Evangelho. O Jesus dos bolsonaristas tem arma na cintura e não tem apóstolos; formou sua milícia. O cristianismo dessa extrema direita é apenas uma identidade que perdeu suas raízes e hoje prega o oposto do que um dia foi seu ideário.

Hoje só tenho pensamentos tristes. Elegemos um senado ultra reacionário. Premiamos notórios bandidos como o ex juiz e o procurador da LavaJato. Colocamos um militar no Senado do RS e um astronauta fake em SP. Um chefe de milícias é o governador do RJ. Nossos representantes espelham o que existe de pior no Brasil. No fundo do buraco do bolsonarismo havia um alçapão, e lá dentro está a sombra de um futuro terrível. E os pobres? E a fome? E desemprego? E a devastação ambiental? Se tudo isso que vimos nesses últimos 6 anos de neoliberalismo não foi o suficiente para entendermos a rota suicida do país, o que nos fará acordar? Um hecatombe social?

Ainda temos o segundo turno. Nossa esperança é ter Lula como contrapeso para o desastre que o sul e o sudeste determinaram para a imagem do país. Vamos nos agarrar com todas as forças nessa esperança.

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Diplomas

Concordo com o com os textos que tentam demonstrar que a aquisição de um diploma – em especial mestrado e doutorado – não garante excelência, apesar de reconhecer que, de certa forma, tais manifestações podem parecer antipáticas e dar a falsa ideia de que os títulos acadêmicos são inúteis. Não, eles não são. Pelo contrário, são fundamentais para o crescimento científico. São aprofundamentos em pontos específicos do conhecimento humano e auxiliam na compreensão de infinitas questões.

O problema é o valor exagerado que se pode dar a eles. Imaginar que um sujeito tenha mais virtudes morais por causa de um título acadêmico é absurdo. Acreditar que esse título lhe dá mais capacidade de resolver questões outras, as quais fogem do escopo de seu estudo, também. Na área médica isso é muito comum. Médicos com formação acadêmica não são melhores (e nem piores) do que aqueles profissionais com formação básica para o atendimento aos pacientes, a não ser na área específica à qual se dedicaram.

O mesmo vai ocorrer no direito, na enfermagem, na sociologia, na filosofia, etc. Na teoria, a formação acadêmica existiria basicamente para formar professores nos cursos superiores, mas hoje se tornou uma extensão do curso superior, e visa gabaritar o sujeito para a realização de concursos.

Quando eu cursei medicina os professores ainda não tinham essa formação. Depois esses cursos foram sendo exigidos, mas a qualidade das aulas não melhorou. A arte de dar aulas é um talento que a formação acadêmica é incapaz de produzir, assim como a o talento para a pintura ou o futebol. Também não é capaz de oferecer curiosidade, cultura abrangente, abertura para o novo, posição crítica diante do mundo e (por certo) não oferece consciência de classe.

Os cursos de mestrado e doutorado oferecem classes de estatística, de teoria da ciência, de pedagogia e muitas outras coisas, além de um funil poderoso para estudar aspectos do conhecimento. Estes sujeitos tornam-se Reis e Rainhas de seus minúsculos castelos, mas por vezes alienam-se da realidade ao redor, criando uma visão unívoca do universo – uma sedução onipresente.

Não esqueçam que as figuras mais nefastas do cenário político atual são doutores em suas áreas, o que não impediu que tratassem esposas por “conges“, além de outras aberrações absurdas e inconsequentes.”

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O diamante e a madeira

Há poucos dias fui atropelado por essa ideia: em uma perspectiva cósmica um pedaço rudimentar e tosco de madeira é infinitamente mais raro e muito mais bonito do que um enorme diamante. Para que esta pedra preciosa seja formada por átomos puros de carbono em condições de cristalização basta que este elemento sofra pressões fortes o suficiente para transmutá-lo. Já para criar os simples blocos de madeira que forram as paredes de um barraco humilde são necessários bilhões de anos de sofisticada elaboração no processo evolutivo.

Os diamantes serão encontrados de forma corriqueira nos planetas onde sequer os mais simples microrganismos existem. Todavia, para que um simples pedaço de pau exista é preciso uma gigantesca engenharia produtora de vida, que leva milhões de anos de elaboração minuciosa e exaustiva adaptação. As metáforas para esta simples constatação são infinitas, mas fico apenas com esta: a beleza física existe em abundância no planeta, mas a grandeza da alma é produto de demorado e sofisticado processo de evolução, através das grandes quedas, pequenas vitórias, inúmeros erros e a construção infatigável da humildade.

As almas nobres são as pessoas “madeira“, enquanto as outras, lindas e exuberantes, são as pessoas “diamante“. As primeiras são raras e sofisticadas, mas poucos conseguem observar seu valor em um mundo que valoriza muito mais a luz exuberante e ofuscante da beleza exterior. Por isso é importante a atenção e uma análise apurada para que não nos deixemos seduzir pelo brilho fátuo que tão facilmente nos seduz.

Amália Dominguez Chacón, “Crônicas do Sol Poente”, ed. Pacific Press, pág, 135

Amália Chacón é uma poetisa e ensaísta peruana. Nasceu em Arequipa, o “oásis do deserto” em 1951, aos pés do Vulcão Misti. Filha de uma família abastada da região mudou-se para Lima no início dos anos 70 para estudar. Foi lá que se interessou por política e iniciou seu curso de sociologia na Universidad de Lima. Nesta época conheceu Abimael Guzmán, professor de Filosofia da Universidade Nacional de San Cristóbal de Huamanga e, a partir desse encontro e dos ensinamentos que dele surgiram, começou seu percurso dentro do Partido Comunista do Perú e posteriormente pelo Sendero Luminoso. Durante mais de 20 anos esteve atuando na guerrilha e na clandestinidade. Foi casada com o Comandante Quispe, com quem teve dois filhos ainda enquanto foragida: Miguel e Alejandro. Escreveu muitos livros de poesia que eram vendidos nas universidades por alunos que encontravam cópias mimeografadas de seus escritos. Sua poesia era dura, triste, humana, mas sempre trazendo uma perspectiva otimista para o seu país e o mundo. Seus escritos, ensaios, crônicas e poesias falavam da vida em reclusão, da dura labuta na selva e da importância de um país livre do imperialismo e da exploração fundiária. Amália veio a falecer de leucemia em 1982, após ser entregue pela guerrilha às tropas do governo para tratamento médico.

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