Melhor falar agora para não ser chamado de oportunista no futuro. Esse protagonismo oferecido ao Alexandre de Morais, um notório antipetista, anticomunista, direitista e apadrinhado do Michel Temer custará caro no futuro. Estamos alimentando corvos, que no futuro podem vir atrás dos nossos olhos. Alexandre nunca foi um democrata; ele é cria do golpismo de Temer e da turma que derrubou Dilma. Colocá-lo em evidência, dando espaço para o ativismo judicial que ele incorpora, é um grave risco para a democracia.
Sou obrigado a concordar que muitas das queixas dos bolsonaristas fazem sentido, não porque eu concorde com suas intenções, mas é impossível que uma nação democrática e soberana coloque o controle do país nas mãos de um sujeito que jamais ganhou um voto e que só tem poder porque um golpista o colocou neste lugar. Permitir a intromissão de Alexandre em assuntos que não a defesa da constituição é inaceitável. E vamos apenas lembrar que quando deveria defendê-la – no julgamento de Lula – votou contra o seu artigo quinto, mostrando que sua ideologia é mais poderosa do que a proteção da Constituição.
Deixar que Alexandre atue fora da lei, baseando-se apenas em suas ideias e preconceitos, pode ser benéfico circunstancialmente para evitar a ação dos golpistas delirantes que pretendem dar um golpe no Brasil. Todavia, permitir que este ativismo político do STF se mantenha – inclusive pela implantação de censura – é um risco para a nossa frágil democracia.
A esquerda não pode cair nessa armadilha. Não é aceitável que criemos o nosso próprio Sérgio Moro, que agindo fora da lei, pelos seus interesses próprios e comandado por forças imperialistas, criou uma das piores crises institucionais no Brasil e manchou de forma indelével a imagem da justiça burguesa – ou talvez tenha apenas levantado o véu e desvelado suas entranhas.
Precisamos colocar um freio no Supremo Tribunal Federal, para que ele não crie asas. Foi a ação penal 470, o julgamento do Mensalão – uma farsa montada para atingir Lula – que colocou estes personagens em relevância. É hora de devolvê-los ao lugar a eles reservado.
Vamos deixar uma coisa bem clara: Janja incomoda porque é a mulher do Lula, e não porque é uma “mulher livre”. Janja não será objeto de ódio porque “namora”, porque “transa”, ou porque está feliz e bem casada. Isso, inclusive, é tão sexista quanto falar das mulheres “mal amadas”, ou daquela que “está feliz porque transou”. Mulheres merecem ser tratadas com mais respeito: a vida delas não circula somente em torno da sua vida sexual. Minha mulher é livre, mas ninguém a ataca, e a razão disso é porque o marido dela é um pé rapado. As mulheres dos poderosos sofrem, e isso ocorre em qualquer lugar.
A mulher do Temer, “recatada e do lar”, foi muito atacada. Foi tratada como a “vitrine do atraso” das conquistas feministas. Foi chamada – sem dó – de interesseira por ter se casado com um idoso. A mulher do Bolsonaro foi bombardeada sem nenhuma pena, tratada por todos como a “Micheque“. Não havia uma semana sem um bombardeio, envolvendo sua religião, seu fanatismo, seu oportunismo evangélico, a respeito de Queiroz (e o tal cheque que lhe deu o apelido) e sua família com ficha corrida. Agora surgiu a suspeita, sem provas, de que ela apanha do marido, que ainda vai dar muito o que falar.
Dizer que Janja é atacada porque é “livre” não explica nada, apenas reforça o mito de que os homens “morrem de medo” das mulheres livres. Homens tem tanto medo de mulheres livres quanto as mulheres tem rejeição aos homens sensíveis e delicados. Estas figuras fogem dos modelos arcaicos da organização patriarcal, mas não estamos mais na idade média. O mundo mudou, e apenas uma minoria hoje em dia aceita se submeter a estes medos e estas rejeições.
Uma prova inquestionável é o que aconteceu com Dilma. Poucos mandatários foram tão atacados quanto ela, mas ela não tinha parceiro(a). Era solteira e não namorava – ao menos de forma explícita e pública. E também não acredito que Dilma ou Janja foram atacadas por serem mulheres. Elas foram e serão agredidas incansavelmente por se contraporem aos interesses da burguesia e do imperialismo e por estarem ligadas ao PT. Serem mulheres apenas acrescenta, mas por certo que não é o fator preponderante dos ataques. Existe muito mais no embate político do que esse machismo tacanho que algumas jornalistas tentam impor como narrativa preponderante. Sem dúvida ele existe, mas não com a importância que tentam apresentar.
Janja será inevitavelmente atacada por ser a mulher do presidente da República. Pior ainda, por ser um presidente de esquerda, assim como Dona Marisa o foi anteriormente, com todas as mentiras, falsidades, dinheiro da Avon, conta milionária e os múltiplos ataques que recebeu – que, ao meu ver, a levaram à morte prematura. Será alvo dos insatisfeitos e dos perversos como todas foram, e isso não acontece apenas aqui…. vide Trump e sua mulher Melania. Este é o preço da notoriedade.
A tese mais antiga que me acostumei a escutar no debate político é a tradicional “antipolítica”, típico discurso da direita travestido de niilismo. Nesta tese, todos os políticos são iguais. Se um dia foram pessoas normais a política destruiu seus princípios e sua honestidade, tornando-os ruins e corruptos. “O Poder corrompe”, diriam eles como inaudita novidade. Aliás, esse é o discurso bolsonarista clássico, que deseja tratar todos como se fossem iguais, mas não apenas isso: a política é uma só, esquerda e direita são ilusões, e só o que vale são os desejos mais egoísticos de quem assume o poder. Toda a classe política não passa de “peças no grande jogo de xadrez”, controlado alhures, por forças invisíveis (o comunismo internacional? George Soros?) o que torna o ato de votar em uma ação inútil e ridícula. “O jogo já está jogado”, dizem.
São os mesmos que, sendo incapazes de mostrar os crimes de Lula, apontam para o inquérito conduzido pelo juiz corrupto Moro, uma peça fraudulenta que o acusou de….. nada. Nem objeto do roubo está descrito (o famoso “objeto indeterminado”), já que o Triplex não poderia ser dado a ele porque sequer pertencia à OAS. São os mesmos que apostam nas fake news de “roubos do BNDEs”, mesmo quando o próprio Bolsonaro desistiu dessa fantasia. São eles que chamam Lula de ladrão sem JAMAIS mostrar um delito seguido de uma prova. Estes indivíduos (note que não estou fazendo julgamentos morais) acreditam que o Brasil deveria ser controlado por “técnicos”, sujeitos “neutros”, longe de “ideologias”, trabalhando pelo bem comum tendo a luz do “positivismo” como norte. Ou seja…. gente de direita, e até fascistas, como se pôde observar no governo de Bolsonaro.
Não há como continuar aceitando este tipo de discurso. Durante as eleições eles se uniram à turma do “nem-nem“, como que a chamar a todos nós de “massa manipulável”, já que nada poderia ser feito diante da desonestidade essencial e inexorável que existe na política e nos partidos. Arautos do apocalipse, sinalizam com a igualdade entre Bolsonaro e Lula, mas pretendem ser infensos às disputas, posto que se consideram “neutros e realistas”.
Não são; em verdade são agentes – mesmo sem o saber ou desejar – do conservadorismo mais reacionário e mais tacanho. Apostam no imobilismo e na inação como resposta…. mas acabam votando nos candidatos da direita mais abjeta por “praticidade”, ou porque acreditam serem os “menos piores”.
Essa não…. esse discurso está caindo de velho e não cabe mais nas sociedades que pretendem emergir do subdesenvolvimento no século XXI.
Muito ainda vai se falar sobre a derrota do trumpismo nas eleições de “mid terms” e, por consequência, da extrema direita de inspiração fascista na América. As derrotas de Bolsonaro e de Trump podem estar anunciando a decadência inequívoca do modelo extremista de direita no mundo, e tal ocorreu pela falência deste paradigma em oferecer o progresso, a justiça social e o desenvolvimento que prometiam. O mundo volta-se lentamente à esquerda – apesar da força das direitas no mundo todo – e se afasta do fundamentalismo religioso que caracterizou os governos de Trump e seu fac-símile tupiniquim. Oxalá não seja apenas o balançar do pêndulo político, mas uma real tendência de maior consciência de classe a inspirar as pessoas no mundo inteiro, cada vez mais alertas para a decadência inexorável do capitalismo.
Na adolescência eu sempre perguntava aos meus amigos gays como eles sabiam que outro sujeito era gay. Eles caiam na gargalhada com a minha pergunta ingênua e tola, e a resposta que me davam era… “pelo olhar“, o que hoje se chama “gaydar“.
O que eles tentavam me dizer é que o desejo do sujeito transparecia nas fissuras do discurso, nos detalhes, nos mínimos gestos, nas sugestões, nos sorrisos, na escolha das palavras e nos silêncios. Tudo o que levamos para fora de nós mesmos é mensagem, inclusive a roupa – ou mesmo a falta estratégica de tecido a desvelar os corpos.
Mas se os amores se encontram pelos sinais não-verbais, também as patologias fazem match…
Não haveria como ser diferente. Da mesma forma, os psicopatas se comunicam por estes detalhes minúsculos e imperceptíveis aos olhos desarmados. Na juventude eu me impressionava com as histórias de Bonnie & Clyde, e tantos outros casais unidos pelo crime. Algumas duplas eram capazes de perversidades impensáveis, que conjugavam tortura, morte e obsessões sexuais. Na época eu pensava: como estes perversos conseguiram se encontrar? Como acharam suas almas gêmeas sem expor publicamente suas paixões criminosas?
Se os amantes conseguem se encontrar pelo desejo, buscando sinalizadores nas filigranas do comportamento, também as mais bizarras perversões saem à tona por estes meios. O desejo não se contém nos limites do corpo e poreja através de cada detalhe, cada frase, cada pausa no discurso. Se o humano precisasse da linguagem articulada para se expressar ainda estaríamos na floresta, morando nas árvores. Somente há poucos milênios usamos as palavras para enviar mensagens, mas nossa história com as formas mais sutis de comunicação já tem alguns milhões de anos.
Por isso é que nós humanos – em especial as mulheres, mas essa é outra questão – desenvolvemos as habilidades de ler o outro através dos sinais enviados de forma velada e codificada. Estas são, por certo, as mais importantes ferramentas do nosso lento processo evolutivo.
Escutei apenas alguns flashes da entrevista do Roberto Justus para o programa “Flow” e me surpreendi (não deveria) com a quantidade de tolices que ele disse. Sobre Lula, sobre Bolsonaro, sobre o mito dos “ministros técnicos”, sobre a “culpa” de Lula, sobre o governo e sobre o país. O fato de ser milionário e bem relacionado não garante a ninguém a capacidade de enxergar o país acima das perspectivas de seu grupo. Ele é um representante legítimo do que existe de mais atrasado, mesquinho e medíocre nas classes abastadas do Brasil
Entretanto, é forçoso reconhecer que ele, ao contrário de uma parte majoritária da população brasileira, sabe a classe à qual pertence. Ele percebe com precisão que as falas do Lula em direção ao povo mais pobre e no combate à fome, atingem sua classe, o poder e a hegemonia tão arduamente conquistadas pela burguesia. Ele entende que se Lula fizer uma guinada à esquerda – como muitos de nós desejamos – os financistas, os rentistas e a burguesia calhorda desse país serão afetados. Roberto Justus – um troglodita com ternos caros e botox – tem a consciência de classe que eu exijo do proletariado e das classes trabalhadoras.
Gal Costa era casada com Wilma, e com ela tinha um filho. Entretanto, negava-se a falar publicamente sobre o assunto. Apesar de ser algo de conhecimento popular, ela nunca “saiu do armário” publicamente, declarando-se abertamente homossexual. Algumas pessoas chamaram sua atitude de “auto preconceito”, típica de alguém que não se aceitava. Outros elogiaram o sigilo, exaltando a importância da inviolabilidade da vida privada.
Esse diagnóstico é arriscado. Não há como saber o que exatamente a fez manter privada sua orientação. Pode ter sido por vergonha, assim como pode ter sido motivada por pudor. Ahhh, o pudor, o mais belo (e raro) dos atributos em uma sociedade saturada de hiper exposição.
Talvez a escolha por manter fechado esse aspecto de sua vida seja a simples postura de valorizar sua arte e não permitir que sua sexualidade ocupasse mais as manchetes do que o seu cantar. Muitas mulheres voluptuosamente bonitas se sentem constrangidas ao notar que sua beleza ofusca seus outros talentos, escondidos atrás de uma formosura estonteante. Alguns atores e atrizes ficam até feios de propósito com o objetivo de demonstrar virtudes para além da beleza, como o fizeram magistralmente Tom Cruise em “Trovão Tropical”, Charlize Theron em “Monsters”, Jared Leto em “Capítulo 27” e Christian Bale em “O Maquinista”. Talvez Gal desejasse que sua música fosse a razão única para ser admirada.
A tese que mais me seduz é de que ela pode ter tentado tão somente proteger seu amor, que seria um alvo fácil da imprensa de escândalos. Manter incógnito seu afeto pode ter o objetivo singelo de garantir que sua parceira não seria perseguida, constrangida e invadida pelas hordas de gente interessada em puro voyeurismo de celebridades.
Não há como saber o que realmente leva as pessoas a esconder uma parte tão significativa de suas vidas. Além disso, não há como agradar um público sedento por identificações. O julgamento destas atitudes vai depender sempre de elementos afetivos. Se você não gosta da pessoa vai dizer que ela foi covarde e que a exposição de sua vida amorosa ajudaria outras pessoas a não sentirem vergonha de amarem igualmente desta forma “especial”. Já se você a admira, vai preferir acreditar que todos temos o direito sagrado à privacidade, e que o exercício deste direito por parte dela demonstra o valor que dá à sua arte, impedindo que seja eclipsada pela imprensa que sobrevive de fofocas.
Como sou um sujeito reservado, entendo perfeitamente o silêncio de Gal Costa. Responderia da mesma forma a qualquer intromissão que julgasse indevida. “Não estou vendendo exposições da minha privacidade. Ofereço minha arte e minha emoção. Caso não a queiram, não me peçam um escândalo em troca”, seriam minhas palavras. E acho que foi exatamente o que Gal tentou dizer….
A China é um lugar fascinante e com uma culinária especial, mas de difícil adaptação para o paladar ocidental. Vou explicar com um exemplo bem simples das nossas diferenças: imagine você morar num lugar onde não existe leite ou laticínios (leite, manteiga, creme de leite, leite Moça, queijos, etc), a carne de vaca é inexistente nos mercados e o pão é um produto raro, sem qualidade e escondido no fundo do supermercado.
Lembro de entrar num gigantesco supermercado com Zeza e procurar algum leite, só por curiosidade. Encontrei em um canto escondido sob a placa “produtos importados” e o preço era o mesmo com que se compra aqui uma garrafa de bom vinho chileno. Queijo nem procurei. Carne apenas de porco e galinha, em grande quantidade. Picanha, então….. nem pensar. O pão e os biscoitos eram muito simples e mal feitos; não existe uma cultura panificadora na China. Chocolates são pura gordura vegetal hidrogenada, sem leite. Entretanto, para quem gosta de frutos do mar, este é o paraíso. Peixes de todo tipo, cor e tamanho.
Durante uma das minhas inúmeras visitas a maternidades e centros obstétricos de várias cidades eu tomei um “porre” de um vinho chinês muito forte à noite, num jantar após o ciclo de palestras no hospital. Depois de ficar tonto desatei a falar das minhas experiências na China, sua gente, sua cultura, sua língua, seus costumes e das diferenças com o meu país. Eles tem uma enorme curiosidade sobre o Brasil e sempre pediam para que eu contasse como é a vida aqui. Para eles o Brasil é um paraíso de luzes, sol, praia, mulheres bonitas, futebol e florestas. A imagem que eles têm é que aqui tudo é bom e tudo dá certo, e que as pessoas são muito felizes. Falei, por certo, da comida, e em especial da falta de leite e derivados, que fazem parte do café da manhã de todo brasileiro. Eles ficaram muito surpresos ao saber o quanto era popular o hábito de tomar o leite de outros mamíferos, algo quase nojento para a cultura local.
Na manhã seguinte – minha despedida da cidade – anunciaram que haveria uma surpresa para mim no café da manhã. Cheia de pompa e circunstância, uma cozinheira do hospital entrou na sala de refeições com uma bandeja dourada na qual se via uma vasilha contendo… leite!!! Fiquei emocionado de pensar o esforço que fizeram para trazer uma especiaria da minha terra só para me deixar feliz. Gente muito boa esses chineses…
Detalhe: odeio leite cru, mas tomei com cara de felicidade, para não fazer desfeita, uma atitude que poderia causar um grave incidente diplomático.
A palavra é composta de “pornos” (prostituta) e “graphô” (escrever gravar). Acho interessante esta origem, porque remete ao comércio do sexo, mas que agora é o comércio das expressões auditivas e visuais do sexo. Ou seja, da materialidade para a virtualidade.
Muitas vezes encontro na internet postagens que condenam a pornografia, dizendo que ela na verdade “perverte” a sexualidade “natural”, ou “normal”, por sua agressividade, seu culto à performance e, mais ainda, por relegar às mulheres um papel secundário e submisso. Sempre achei esse debate fascinante porque nos obriga a pensar nos limites da fantasia e da própria expressão sexual dos humanos. Aqui caberia uma discussão de 3 mil páginas sobre o que é “sexualidade normal” (para quem?), “sexualidade natural” (não há nada de natural no sexo e no parto) e sobre “fantasia e realidade”. Um homem masculino, vigoroso, forte, poderoso pode ter a fantasia sexual de se vestir de mulher e ser passivo e dócil em suas relações, sem que isso implique ser submisso na sua vida cotidiana, certo Sr. Hoover?
Um livro que li na juventude me chamou muito à atenção sobre o tema. Já no prefácio de “O Erotismo” de um psicólogo italiano chamado Francesco Alberoni, ele nos convoca a debruçar sobre o fenômeno da pornografia. Ele chamava a atenção para as bancas de revista onde, de um lado se escondia a “pornografia masculina”, com suas capas veladas, dentro de plásticos invioláveis, contendo a expressão crua do ato sexual ou, ao menos, mulheres exuberantes com pouca ou nenhuma cobertura além da pele aveludada e sedosa que as cobria. Eram o sonho dos garotos adolescentes, extasiados com a magia do sexo que ainda desconheciam. Todavia, na frente das bancas, sem nenhum pudor ou invólucro a lhe cobrir a capa, estavam as revistas de “pornografia feminina”. Sim, lado a lado, com capas cor-de-rosa ou azul claro, estavam as revistas Júlia, Sabrina e revistas “pornográficas” como “Sétimo Céu”, com suas fotonovelas românticas.
Para este autor, a pornografia se expressava de maneira diversa entre os homens e as mulheres tanto por razões essenciais (aqui Freud poderia nos ensinar muito) e também culturais. Para ele, descartadas quaisquer avaliações de caráter moral – e afastando as questões sociológicas ligadas à indústria da pornografia – ambas tinham o mesmo valor, e se ligavam aos desejos mais profundos e constitutivos dos sujeitos. Não há pornografia “suja” e “limpa”, “moral”ou “imoral”, mas apenas variações relacionadas aos conteúdos fantasmáticos de cada um.
Desta forma, causa estranheza falar de homens “destruídos” pela pornografia, como vejo em tantos lugares, como se a pornografia pudesse – por si só – destruir a sexualidade de um sujeito, condicionando-o às suas práticas espetaculosas, performáticas e agressivas. Da mesma forma poderíamos dizer que é muito pouco provável que o consumo de pornografia feminina seria capaz de “destruir” as relações afetivas e amorosas de mulheres, fazendo com que o “fetiche” do amor romântico destrua sua capacidade de se relacionar livre e prazerosamente com seus parceiros.
De maneira geral, pornografia é consequência, não causa. Colocar a pornografia com causadora dos distúrbios da sexualidade de alguém é culpar o suor pelo cansaço. O que leva o sujeito a procurar pornografia está imbricado na estrutura constitutiva do próprio sujeito. Não se trata de um “mau hábito”, mas de uma fixação em elementos psíquicos muito precoces que o estruturam.
Combater a pornografia é tão pouco efetivo quanto eram as campanhas contra a masturbação nos anos 50. Também teria tão pouco efeito quanto a falida guerra contra as drogas, porque sempre partimos da crença de que a droga é a “causa”, quando em verdade é o resultado do desajuste social do sujeito. Nesse caso o proibicionismo tem o mesmo efeito da “lei seca”. Elimina-se a manifestação do desequilíbrio, não sua causa, e com isso o sujeito se obriga a burlar a proibição ou procurar outra solução igualmente aditiva.
Mais uma vez repito: não estou me referindo à “indústria da pornografia”, que é um debate totalmente diferente, e que inclui, por certo, questões como bandidagem, opressão, tráfico de pessoas, exploração, drogas, máfia, etc. Não me aventuro a debater as questões sociológicas que estão relacionadas a esta indústria, mas tão somente aos elementos psíquicos e subjetivos. Falo apenas da excitação produzida por imagens, que não me parece que possa ser combatida por campanhas. Pessoas que procuram na pornografia satisfação devem encontrar dentro de si as respostas para esta dependência, que as faz buscar na pletora de imagens e cenas a satisfação de seus desejos. Tratar o resultado disso como o mal em si é um erro.
É preciso ter cuidado com as armadilhas que tentam fazer o povo brasileiro odiar a própria seleção…
Sim, a maioria dos jogadores (e também da seleção) é formada por bolsonaristas, um fenômeno bem explicado não só pelas características clássicas do “pobre que vira rico” e se associa com os antigos opressores, mas também porque estas pessoas tem negócios, investimentos, dívidas, processos, grana preta que aparece de forma obscura e, portanto, só existe vantagem em se associar ao poder e àqueles que controlam as finanças de um país. Chamá-los de “fascistas” é um passo muito adiante, e este epíteto deve ser reservado apenas àqueles ativistas, que fazem arminha e que se associam às propostas claramente violentas e antidemocráticas do Sr. Jair.
“Sim, mas são todos fanáticos religiosos”, como foi dito em um texto que está circulando pelas redes sociais. Outro erro grave: estes sujeitos não são fanáticos; são crentes e assumem uma postura bem característica das igrejas evangélicas que frequentam. A atitude deles é uma derivação da “doutrina da graça”, criada por Santo Agostinho de Hipona. No século V, o concílio de Cartago (418) afirmou que, por causa do pecado original, a Graça de Deus se tornou um artifício fundamental para a salvação da alma. O Concílio de Éfeso (431) confirmou esta perspectiva. Agostinho condenava frontalmente o “pelagianismo”, doutrina criada pelo monge inglês Pelagius da Bretanha. Este religioso se estabeleceu na sede do império Romano ao redor de 405, tendo posteriormente viajado para o norte da África e Palestina. Escreveu dois livros sobre o pecado, o livre-arbítrio e a graça: Da natureza e Do livre-arbítrio.
Santo Agostinho de Hipona
Para Pelagius o livre arbítrio que o ser humano possuía lhe oferecia a condição de alcançar a santidade e a virtude pelas próprias forças, sem que lhe fosse oferecida qualquer “graça”. Agostinho se opunha de forma intensa a esta ideia. Dizia ele: “está errado qualquer um que afirme que, (…) se a graça não fosse dada, ainda assim poderíamos, embora com menos facilidade, observar os mandamentos de Deus sem ela”.
Pelagius da Bretanha
Portanto, a santidade (inclusive no futebol) só pode ser alcançada através de uma ação divina específica, que ofereça uma condição especial e diferenciada àquele por ela alcançado. Segundo esta perspectiva, não é possível a um jogador de futebol ter sucesso em sua carreira sem que Deus o tenha escolhido. Por esta razão dizem sempre diante das vitórias: “foi o Senhor quem permitiu”, “em primeiro lugar agradeço à Deus”, “Jesus me ajudou neste caminho”, “não fui eu, foi Deus”, “Deus no comando”, “Deus é fiel”. E mesmo nas derrotas a postura é a mesma: “Deus está esperando um momento melhor para mim”, “Deus escreve certo por linhas tortas”, “Deus vai me agraciar no futuro”, etc. exatamente porque esta é a visão disseminada nas igrejas evangélicas, aferradas aos conceitos Agostinianos e que rejeitam o viés pelagianista. Essa visão, por certo, também tem efeitos claros de manter o fiel cativo, sem autonomia para se dedicar à sua fé. A “graça” sempre pressupõe intermediários.
Portanto, não são fanáticos, nem mesmo são religiosos; apenas reproduzem um conceito muito disseminado no meio evangélico no qual convivem. Tratá-los como insanos não ajuda a seleção e muito menos o Brasil. O Imperialismo está sempre querendo que o mundo periférico despreze seus heróis e seus símbolos. Não é de hoje que percebemos o interesse de desmerecer e menosprezar qualquer líder ou ídolo efetivamente oriundo das classes populares. Fizeram assim com Garrincha, Pelé e agora Neymar. A Seleção Brasileira de futebol também é alvo de críticas infundadas, tentando nos fazer olhar para cada jogador que tenha emigrado para o futebol mais valorizado no mundo como se fossem traidores, interesseiros e dinheiristas. Ou seja: um sujeito pobre que – através de um esforço imenso – consegue a ascensão social só pode ser admirado se abrir mão da justa recompensa pelo seu talento e assumir uma vida modesta ou pobre. Parece que a riqueza só é garantida à minoria composta pelos membros das castas superiores, os burgueses, agraciados por Deus com sua fortuna, mesmo que nenhum esforço tenha sido empreendido para conquistar esta posição. Destruir ídolos populares é um projeto colonialista de destruição dos seus heróis nacionais, através de uma iconoclastia que não surge da humanização desses personagens, mas como uma estratégia muito bem elaborada de desprezo moralista, com o claro objetivo de fomentar a dominação comandada pelo imperialismo. A perseguição injusta e covarde contra Lula é o exemplo mais simples e fácil para entender o quanto as grandes potências, interessadas na subserviência nacional, apostam nesta ação. Fiquemos atentos.