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Os limites da razão

Para os lacradores

Apesar de saudar o contraditório e as racionalidades explicitadas sobre a importância da liberação do aborto é fácil perceber que o aborto não será descriminalizado por uma súbita “lacração” de uma ativista. Não será através de um discurso, uma ideia, uma metáfora ou uma sacada genial. Não é assim que funciona em um mundo imerso no oceano das emoções e que mantém apenas o nariz de fora para, eventualmente, respirar o ar da razão.

Não foi preciso nenhum discurso que a homossexualidade foi descriminalizada – nos livros, ao menos – e nem por uma postagem brilhante, citando Freud ou Butler. Não foi por uma palestra maravilhosa na Academia que os livros pararam de exaltar a fórmula láctea. As ideias pavimentam o chão, mas são imóveis. Nossos pés é que produzem transformação e mudança.

Se a razão tivesse esse poder Lula estaria livre e a humanização do nascimento seria a regra em todos os hospitais. Não haveria violência de gênero e ninguém abusaria de drogas. Mas não somos governados pelo entendimento; somos presas de nossas emoções.

A solução passa necessariamente pela mobilização popular. É o que se fala de Lula, do aborto, da democracia e o que se tem como experiência sobre câmbios sociais profundos.

Nosso problema é de culinária: falta ainda “massa crítica“. Olhem para baixo, para o Chile e a Argentina, e entendam que essa é a única forma de avançar na questão do aborto.

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Outing

Na minha juventude o meu grupo de jovens espíritas era formado por um grande contingente de homossexuais. Todos estavam vivendo a gigantesca angústia da transição, do “outing“, da dolorosa saída do armário. A maioria não se reconhecia gay e achava que seus pensamentos eram influências espirituais maléficas e perturbadoras, vindas das profundezas do Umbral e os seus sentimentos homoafetivos eram perturbações kármicas. Todos, sem exceção, acreditavam que o espiritismo poderia funcionar como um “torniquete afetivo” capaz de impedir a hemorragia erótica que se anunciava para breve. Naquela época, fim dos anos 70, a homossexualidade ainda guardava uma relação com mácula moral, fraqueza, obsessão e pecado. Talvez também isso explique muito de sua invisibilidade.

Até mesmo nós, amigos e companheiros, acreditávamos nessa fantasia, que nos garantia que a fé e a contenção poderiam funcionar para endireitar o comportamento – assim entendido – errôneo e doentio. Seria como um “gays anônimos“. Pensávamos que a imersão num mundo de crenças místicas associadas à ideia da reencarnação poderia causar dois resultados: o fim das ideias obsessivas em relação ao mesmo sexo ou – no caso de falha – uma ajuda no penoso processo de contenção e castidade. Afinal, se Chico e Divaldo recomendavam “sublimar” seus impulsos em nome da moral, do trabalho e das promessas realizadas antes do nascimento, por que haveriam eles de sucumbir?

Todos os meus amigos, gays espíritas da juventude, romperam com o movimento espírita com graus variáveis de violência logo após a saída da adolescência ou mesmo durante essa fase. Muitos deles sequer aceitam falar no assunto. Muitos pediram acolhimento na Umbanda e alguns se tornaram agnósticos. Todos se sentiram oprimidos e pouco acolhidos nas hostes espíritas, e hoje posso reconhecer que tinham boas razões. Eu mesmo testemunhei palestras catastróficas em Centros Espíritas sobre o tema e senti na pele a ardência da rejeição quando, ao ser convidado para um seminário, falei de forma mais compreensiva e acolhedora sobre o tema. Em algumas vezes pensei, logo após uma palestra que praticamente criminalizava a homossexualidade: “se eu fosse gay só me restaria uma vida de culpa imobilizante ou o suicídio“.

Meus amigos precisaram abandonar o espiritismo mesmo mantendo suas crenças na reencarnação, mediunidade, na sobrevivência do espírito ou nas leis de causa e efeito, pois o convívio com o moralismo cristão espírita foi tóxico demais para suas vidas. É uma pena que tal barreira ainda permaneça no seio de uma filosofia que deveria ser progressista e apta a comandar a transição para uma compreensão mais alargada sobre tais fenômenos.

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Mãe de “Pet”

Gostar de pets (outro anglicismo horroroso) não me parece doentio, e penso que tenho autoridade para falar isso porque nasci sem o “chip” do amor aos animais domésticos. Meu amor é pela natureza, e não só pelos animais com os quais podemos nos identificar. Mas o debate sobre “maternidade pet” sim é doentio. Mais do que uma discussão sobre direitos dos animais ou a responsabilidades dos humanos sobre eles esta discussão mostra o quanto estamos distantes de um entendimento mais profundo dos cuidados parentais. É como debater homossexualidade. A orientação sexual em si não tem nenhum grande problema; por ser estabelecida para aquém da consciência ela não pode ser julgada por quem quer que seja, mas o debate que se estabelece sobre a sexualidade alheia sim, este é revelador dos valores de uma sociedade.

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Principiante

Doutor

Primeiros dias de trabalho no primeiro emprego. Não tinha mais de 27 anos mas carregava uma cara de 20. Trabalhava nesta clínica privada durante a manhã, enquanto à tarde atendia no hospital da aeronáutica. A essas “clínicas de passagem” (“fico aqui até achar algo melhor”) chamávamos “trambiclínicas“. Estão em extinção nos dias de hoje, mas quando me formei havia muitas.

Abri a porta e chamei por um nome de menina. Ela entrou, acabrunhada e tímida. Talvez não imaginasse um doutor adolescente. Quem sabe tivesse medo de me dizer algo, ou escutar alguma coisa que não queria.

Falou de umas dores no seio e algumas outras questões menos importantes. Ela era bonita como são as meninas nessa idade, e seu sorriso era tímido e juvenil. Tinha 19 anos e era estudante. Morava com o pai, e mãe e uma irmã.

Antes de pedir exames, colher o papanicolau e escrever uma receita protocolar resolvi perguntar-lhe sobre sua vida. Talvez houvesse ali algo a dizer.

– Como é sua vida sexual?, perguntei, fingindo uma maturidade e isenção que somente a idade garante.

Ela me olhou sem pestanejar e respondeu “boa”.

– Algum problema com as relações?

– Nenhum, disse ela, parecendo querer abreviar a conversa. Comecei a ter relações há 4 anos e nunca tive problemas.

– Anticoncepcional?, insisti

– Não tomo anticoncepcional, doutor.

Meu semblante ficou severo. Sua resposta de alguma forma me irritou. Esse sentimento pude sentir muitas vezes na vida. Uma mulher que não cumpre nossas “ordens” não está apenas prejudicando sua saúde, está desafiando nosso poder. Aprendi isso de uma maneira brutal ao tentar entender a raiva – às vezes ódio – que os profissionais sentem ao ver pessoas que se recusam a fazer uma cirurgia, tomar uma droga, ou ir para um hospital para ter um filho. Tais recusas são tomadas como ofensas e desconsideração com a autoridade do profissional. Nossa resposta, que deveria ser de acolhimento e respeito pelas decisões soberanas de quem nos procura, em geral é estruturada como violência. Não é lícito aos pacientes desmerecem nosso saber.

– Camisinha? Diafragma? Coito interrompido? DIU? Tabelinha?

A todas estas me respondeu negativamente, sem piscar um olho.

Resolvi agir com a delicadeza de um viking à mesa do jantar após uma batalha.

– Filha (iniciei com a arrogância típica dos donos da verdade, médicos e bispos), você não acha que é muita irresponsabilidade da sua parte agir desta forma em relação à sua vida sexual? Tem 19 anos, estuda, vive com os pais, não tem emprego, não tem renda, tem relações há 4 anos e não usa nenhuma proteção contra uma gravidez indesejada. Você acha certo agir assim? Acha justo que uma gravidez arruíne a sua vida e entristeça sua família? Não lhe parece uma atitude sem juízo?

Ela ficou por alguns instantes me olhando sem nada dizer. Finalmente arqueou as sobrancelhas e me respondeu com uma expressão de desconforto:

– Doutor, eu só tenho relações com meninas.

Silêncio. Passados alguns instantes percebi cada centímetro da minha pele ruborizar. Na minha face o vermelho brilhante denunciava a falha, a incompetência e o preconceito. Tentei falar algo, mas a voz não saía. Queria dizer algo para dar a impressão que “tudo estava bem” e que eu achava “a coisa mais normal do mundo”. Afinal somos treinados para estas situações.

Mentira. Somos produzidos em série para interpretar exames e cuidar de um corpo falsamente biológico. Achamos o erro na molécula, o equívoco no hormônio, a fissura no osso mas na arte do enfrentamento com a crueza da palavra somos garotos que, diante de uma mulher de verdade, nada sabem dizer. Falta-nos a voz. Para saber como enfrentar o choque da fala do outro somente se conquistarmos a mais excelsa das virtudes de um medico: a idade, que por vezes nos brinda com a sabedoria.

O constrangimento havia me roubado a voz e a pose. Dos frangalhos de uma arrogância tola, filha da insegurança infinita que jamais me abandonou, consigo forças para uma última frase, que poderia abrir – ou não – as portas para um novo contato, certo que o anterior havia morrido em sua última fala. Depois de um breve suspiro, pergunto:

– Desculpe. Podemos começar tudo de novo?

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Religião e sexualidade


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Eu tenho queridos amigos muito religiosos, cujas vidas são plenas de harmonia e respeito ao próximo. Eles são os melhores exemplos de uma vida dedicada à família, e por eles nutro grande carinho e admiração.

Entretanto, fico feliz de ver uma manifestação tão expressiva como a desvinculação coletiva em Salt Lake City, de membros da congregação contrários aos valores mais anacrônicos da moralidade humana. Como bem disse uma amiga da minha, estas religiões discriminam pessoas por algo que não é passível de escolha. Talvez seja possível impedir um sujeito de exercer livremente a sua sexualidade através de um torniquete mental, a exemplo do que ocorre nas igrejas evangélicas, mas as custas de um brutal sofrimento e uma violação dos sentimentos mais profundos de carinho e afeto. Pior, através da supressão daquilo que constitui o próprio sujeito.

Por outro lado, nenhuma dessas religiões poderá – por mais que a pressão seja violenta e cruel – penetrar no espírito de alguém e vigiar os caminhos por onde transita seu desejo. Assim, as barreiras moralistas das crenças mal conseguem mudar a fina superfície da expressão sexual, produzindo uma fachada de normalidade, que nos afugenta do medo espelhar ao nos oferecer uma ilusão.

Encarar a riqueza da diversidade sexual seria um salto adiante, um impulso de liberdade, mas para o qual a maioria das religiões não está preparada. Afinal, é provável que “religião” e “liberdade” sejam conceitos antagônicos, em essência e inexoravelmente distantes. Quem procura uma, está abrindo mão da outra.

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O que foi feito de R.?

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O que foi feito de R.?

R. era meigo, afável e delicado. Não gostava de futebol. Não sabia o nome dos jogadores e não sabia dar um chute sequer numa bola. Era franzino e pálido. Tinha as mãos suaves, dedos finos, sorriso tímido. Seus cabelos negros eram sempre bem penteados. Não conversava muito conosco, e não acompanhava nossas brincadeiras bobas de garotos de 16 anos. Ele era reservado, mas dono de uma inteligência viva e ágil. Era culto, lia livros, falava em voz baixa e melodiosa, conhecia as ciências e as artes.

R. estava sempre rodeado pelas meninas, que gostavam de suas histórias. Seu sorriso era característico, e seus comentários espirituosos. Entretanto, nós não entendíamos a sua “fraqueza”. R. era frágil como uma borboleta. Seus passos eram leves, inaudíveis; ele levitava pelos corredores da escola sem que seu caminhar pudesse ser ouvido. Ele tinha um olhar triste, mas não sabíamos o que era. Havia um mistério, mas talvez o segredo que R. escondia era tão bem guardado que mesmo ele não tinha acesso.

O que houve com R.? O que aconteceu com o menino tímido, de caminhar contido e cabelos negros?

Hoje, passados 30 anos, eu sei do que R. sofria. Na época éramos todos cegos, e sua condição ficava invisível aos nossos olhos.

Desculpe, R., pela nossa profunda insensibilidade.

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Coligay

Coligay

Para todos que me perguntam se era verdade, aqui está a prova documentada no livro de Leo Gerchmann. Houve um tempo, há 35 anos, que não havia homofobia no futebol. Existia uma torcida alegre, “gay”, assumidamente gremista e que circulava no estádio sem nenhum constrangimento. Essa era a Coligay, mistura de “Coli”, da boate gay Coliseu que havia na cidade e “Gay” que vem do fato de serem…. alegres. Isso acabou, e uma torcida assim em qualquer canto do Brasil seria repudiada pelos homófobos, muitos deles – como Freud ensinou – nada mais do que “meninas que tem medo de seus próprios impulsos”. Mas como explicar essa mudança radical, para o lado oposto do que se imaginaria pela sofisticação da cultura, em direção ao preconceito e à intolerância?

A “culpa”, ao meu ver é da própria conscientização da comunidade gay. Quando o “homossexualismo” caducou e deu origem à homossexualidade, deixando os manicômios e consultórios para ocupar as casas e ruas, a antiga “doença” deixou de existir, dando lugar a uma simples variação da infinita diversidade da orientação sexual humana. Sendo assim, o que era patologia virou comportamento, fazendo com que todos nós estivéssemos sujeitos a ele, e não apenas os “pederastas”, degenerados e doentes. A partir desse novo conceito a homossexualidade virou uma ameaça para o cidadão comum. Ninguém estava livre de que alguém descobrisse um pensamento, um desejo escondido ou uma vontade inconfessa. A masculinidade precisava ser constantemente provada, nem que para isso fosse necessário usar da nossa costumeira brutalidade testosterônica. Era preciso exorcizar tal perigo, uma ameaça terrível à nossa persona social. E qual seria a melhor forma de se livrar desse peso?

Ora, expurgando e negando os desejos, jogando-os no outro. Os outros. A torcida adversária, os gaymistas, os coloridos, as Marias, as frangas, os pó de arroz, bambies, etc. A liberação dos costumes e a aceitação da homossexualidade como uma orientação de objeto sexual deixou-nos a todos inseguros. Este pânico, em especial nos jovens que frequentam futebol, manifestou-se como flagrante sentimento homofóbico.

Eu sonho com o dia em que renasça a Coligay, e juro por Alah que no dia que ela aparecer no estádio estarei ao lado, seja para torcer alegremente ou para fazer um círculo de proteção aos gays que desejam expressar seu amor pelo time do coração. Sei que Bebel, minha filha, estará lá comigo. Talvez esse dia, em que ultrapassarmos o preconceito e a miséria humana, nem esteja tão longe de acontecer. Será uma data memorável, e queria muito que meu time fosse, mais uma vez, pioneiro.

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Empresários da Intolerância

Eu prefiro ver a emergência de sentimentos discriminatórios nas últimas entrevistas com “pastores” de igrejas evangélicas através de uma análise mais mercadológica. Os tais defensores dessas visões homofóbicas sabem que existe uma parcela minoritária da população que simpatiza com as teses de extrema direita. Os consumidores desse tipo de visão de mundo são frequentemente sexistas e preconceituosos, brancos, moralistas e muitas vezes ligados a uma religião. Fundamentalistas e oportunistas, tentam explicar a sua condição social superior através de uma espécie de “essencialismo”, ao estilo de Calvin Candie em Django Livre, que justifica as diferenças sociais ligadas às raças com explicações genéticas e frenológicas estapafúrdias. Para esse grupo “reacionário” sempre haverá prepostos, “escolhidos” para levar adiante suas ideias. E essa escolha por um “nicho de mercado” está relacionada aos 20 bilhões de reais que verteram para as igrejas brasileiras no ano de 2011. Muito dinheiro para ser dividido entre alguns poucos empresários da fé.

Bolsonaro, militar aposentado e deputado do Rio de Janeiro, é popular por essa mesma razão: ele representa essa parcela minoritária – mas significativa – da população. Os disseminadores das teses da direita falam àqueles que se sentem amedrontados com o surgimento de uma maior liberdade sexual. Quanto mais livre a sexualidade, mas ela é ameaçante à vista de alguns. Enquanto o homossexualismo era a explicação mais fácil, tornado desvio e doença pela oficialidade que redigia o DSM, ele estava restrito aos consultórios médicos. Após a queda do “Muro de Pedra” (Stonewall, boate gay de Nova York que foi invadida pela polícia no início dos anos 70), e a consequente reação do universo homoerótico, o mundo não seria mais o mesmo. Surgia a homossexualidade e os conceitos de “opção” e posteriormente “orientação sexual”.

Mas a liberdade cobra seus preços. Entre eles a “homofobia”, fruto da abertura sexual, exatamente porque a liberdade de expressão é opressiva para aqueles que se julgam ameaçados pela pluralidade de opções. Esses grupos reacionários normalmente atacam o que mais temem, e usam explicações de ordem religiosa (assim como Calvin Candie usou a Genética, em Django Livre, para explicar a escravidão) para levar adiante suas ideias segregacionistas. Minha posição, diante dessa especial visão do problema, é ignorar os arautos da “decência sexual”, não dar publicidade aos seus pressupostos e não difundir suas ideias (que é exatamente o que eles querem quando expõem suas declarações escandalosas). E isso não é omissão, pelo contrário. Trata-se de uma estratégia para manter esses grupos como minoritários, e não permitir que suas ideias grosseiras e discriminatórias se propaguem.

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