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É possível mudar?

Eu não levo muita fé na pretensa mudança da essência profunda do sujeito. Estas são características basilares e formativas que não podem ser mudadas pelo simples confronto com a realidade. Acho difícil – quiçá impossível – as pessoas mudarem os princípios e o caráter; elas mudam tão somente os detalhes da forma, o embrulho que envolve sua estrutura de afetos. O caráter reacionário de Vargas Llhosa estará presente em sua obra, mas ele não precisa aparecer de forma explícita e sim camuflado, como os preconceitos de tanta gente que conhecemos. O racismo de Monteiro Lobato aparece em sua obra, apesar de ser um racismo diferente daquele que vemos hoje, há que contextualizar. Mas estava lá, desde sempre.

As vezes, na juventude, podemos deixar o brilho de algumas ideias mascararem nossa índole, mas na maturidade elas voltam. Reinaldo Azevedo foi trostskista na juventude, e muito reacionário que conheço costuma dizer “até já votei no PT” querendo nos fazer crer que “a maturidade os fez mudar”. Reinaldo nunca foi de esquerda e o voto no Lula de alguns conhecidos meus – se realmente ocorreu – foi por outras razões, e não por uma adesão ao ideário da esquerda.Essas experiências da juventude foram apenas arroubos para produzir outros efeitos até inconscientes (tipo contrariar um pai conservador ou impressionar uma garota de esquerda) mas jamais uma escolha definitiva e plenamente consciente. Confio mais na estabilidade dos valores do sujeito, algo que se forma do nascimento até o fim dos primeiros mil dias.

Deixo aqui uma pergunta: alguém acredita que o Lobão algum dia foi genuinamente de esquerda (para além das aparências e do discurso), maturou sua compreensão da realidade e hoje é esse reacionário icônico? Pois, pela minha tese, a fase “esquerdista” do Lobão era apenas um sintoma, uma forma de dar conta de elementos inconscientes que circunstancialmente o atormentavam.

Isso me lembra uma velha piada.

Um sujeito entra numa mecânica e pergunta ao sujeito deitado de costas embaixo de um fusca.

– O senhor tem leite?

O mecânico olha pro sujeito e diz secamente: “Sr, isso aqui é uma oficina. Vá incomodar outro!!!”

Ele dá de ombros e sai da oficina. Anda alguns metros e para na frente de uma borracharia. Chama o borracheiro e repete a pergunta:

– Por favor, o senhor tem leite?

O borracheiro olha o sujeito de cima a baixo e responde ainda confuso, de forma ríspida: “Isso aqui é uma borracharia. Temos pneus e câmaras. Só isso. Caia fora”.

O nosso herói segue seu caminho mais adiante até parar em uma loja de brinquedos. Abre a porta e faz mais uma vez a pergunta que resume sua busca:

– Por favor, a senhora por acaso teria leite?

A velha senhora, atendente da loja, educadamente explica que na loja não se vende leite e que ali só havia brinquedos, caso desejasse comprar algum ela teria prazer em lhe mostrar.

O senhor então dá de ombros, não diz uma palavra e sai da loja. Anda alguns metros e senta-se no meio fio da calçada. Coloca a mão no bolso do casaco e tira uma pequena garrafa de cachaça. Olha para o céu, suspira e exclama:

– Deus é testemunha do quanto eu tentei.

Para muitos de nós estas são buscas falsas. É o caso do cara que desiste da analise porque o analista é separado, ou chegou atrasado, ou não sorriu da sua piada. Na verdade, a confrontação com sua alienação era o real motivo da desistência. Somos pródigos em dar desculpas e produzir autoenganos, para satisfazer um superego cobrador.

Lobão bem que se esforçou para ser de esquerda, mas diante da primeira dificuldade da práxis política ele voltou para onde sempre esteve mais confortável.”

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PT 42 anos

Eu estava na Faculdade de medicina quando o PT foi fundado. Comentei com um colega “comunista” presidente do nosso centro acadêmico e sua resposta foi: “o que significa essa estrelinha vermelha na bandeira do PT?”.

Sua pergunta visava desmerecer a essência do PT, dizer que na verdade era de esquerda apenas na fachada, mas no fundo era um partido igual a qualquer outro. Curiosamente, anos depois encontro esse colega transformado num liberal de direita, um burguês típico.

Estive presente na eleição de Olívio Dutra à prefeitura de Porto Alegre, um momento histórico para a democracia. Um operário no poder!!! Saí às ruas com o bigodão do Olívio pela cidade agitando as bandeiras rubras do partido. Foi uma festa enorme da cidadania.

Sofri nas derrotas de Lula e vibrei com a vitória do partido em nível nacional em 2002. Vi as conquistas sociais, a volta da auto estima do povo e o retorno da esperança com os governos petistas. Junto com minha família chorei com a vitória do inominável em 2018.

Não sou filiado ao PT porque me situo à esquerda de suas ideias, mas reconheço no partido a potência transformadora de que precisamos agora, mais do que nunca.

Parabéns ao Partido dos Trabalhadores que hoje completa 42 anos de vida, sendo hoje o maior partido de esquerda do Ocidente, farol de liberdade e da democracia.

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Luis Inácio avisou…

Lula tinha razão; toda a instabilidade política que hoje estamos atravessando poderia ser abortada se os ministros do STF tivessem mantido a espinha ereta. Mas não; estavam empenhados nesse mesmo propósito de criminalizar a esquerda aceitando pela via da mentira e da fraude uma agenda neoliberal. A ação pusilânime da alta corte ofereceu espaço para que a escória autoritária alcançasse o poder. Deltan Dalanhol, Sérgio Moro e o próprio Bolsonaro são o resultado das ações de uma corte que jamais pensa na justiça ou na proteção da constituição, mas nas suas próprias convicções políticas e interesses corporativos.

E o golpe já estava anunciado para 2022; entretanto, as últimas pesquisas (que em 28 de julho prevê a vitória de Lula em primeiro turno) e o “Manifesto da Burguesia” que alcançou números recordes em muito pouco tempo significam um balde de água fria nas intenções golpistas. Bolsonaro não sabe para onde correr. Parece mirar na mobilização popular de 7 de setembro como derradeira tentativa de galvanizar forças para a luta eleitoral. Os números da eleição, todavia, parecem ser tremendamente desfavoráveis para ele. Uma das perguntas feitas era qual a chance de trocar de voto até o final da eleição e, entre os dois candidatos que pontuam a pesquisa, apenas 18% dizem que ainda poderiam trocar de candidato.

Mas vejam: nesta pesquisa a diferença entre Lula e Bolsonaro é de exatamente 18 pontos percentuais, o que significa que para uma reversão eleitoral todos os “indecisos” (em verdade aqueles que ainda poderiam trocar se algo grave ocorresse) precisariam votar no atual presidente, o que é impensável nas condições atuais. Não há dúvida de que a situação de Bolsonaro é dramática, o que aumenta consideravelmente o perigo; sabemos que as bestas acuadas se tornam violentas por acionarem os seus instintos mais básicos de sobrevivência,

Entretanto, mesmo aceitando de forma otimista o melhor dos cenários, ainda teremos algumas tarefas importantes para a reconstrução do Brasil. Existem tarefas urgentes, como a questão militar e a tarefa de enterrar o golpismo das forças armadas, cuja anistia nunca permitiu que se punissem adequadamente os crimes da caserna. Não menos importante é a questão política e a estrutura parlamentar brasileira frágil, que permite o golpismo, como o que foi feito contra a presidente Dilma. Sem a segurança de que não será golpeado – sem provas!! – por um parlamento oportunista e vendido nenhum governante poderá ter tranquilidade para exercer o poder sabendo que o congresso está tramando contra seu governo.

E, por fim, há a questão jurídica e o protagonismo criado pelo STF, que encampou os poderes legislativos em seu rol de ações. A ação do Ministro Alexandre de Moraes contra o PCO vai entrar para a lista dos mais graves ataques à constituição e à própria estrutura ética do Direito. Um ministro que age de ofício numa ação em que ele próprio se considera vítima é uma profunda aberração jurídica, mas que não recebeu o escândalo que merece pela inação da esquerda liberal – que enxerga nesse personagem uma proteção contra as diatribes de Bolsonaro. Os atuais ministros (mas os anteriores não merecem elogio algum) são reconhecidamente covardes, agem conforme os ventos da política e de seus compromissos anteriormente firmados. O próprio STF protagonizou momentos vergonhosos nos últimos anos, e por isso o ex-presidente Lula não titubeou em afirmar que se tratava de um poder “acovardado”.

No Brasil o STF aceita que existam leis para Dilma (pedaladas como crime de responsabilidade), outras exclusivas para Zé Dirceu (“não tenho provas mas a literatura me permite“) e algumas só aplicáveis à Lula (atos de ofício indeterminados, prisão em segunda instância). Manter o Brasil refém de um judiciário pusilânime e reacionário significa oferecer a estes atores sociais, que não são eleitos, um poder superior ao de todos os outros poderes. Sem que se faça uma revisão no judiciário brasileiro – que teve na ação corrupta do ex-juiz Moro apenas a ponta do iceberg – jamais teremos uma justiça isenta. E sem justiça temos o império da barbárie.

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Julgamentos

Em quase todas as vezes que se conta um fato a alguém a reação deste será determinada pelo tipo de identificação que se seguirá. Se você conta uma história de violência doméstica, a imensa maioria das mulheres se identifica com a agressão sofrida e se enxerga na pele de quem sofreu na história relatada. Se você conta uma história de um homem enganado – apenas para falar de um sofrimento tipicamente masculino – os homens se identificam com o “pobre rapaz” cujos sentimentos foram pisoteados por aquela ingrata e blá, blá, blá…

Digo isso apenas porque não confio em opiniões isentas. Todas as manifestações, com raríssimas exceções, são marcadas pela perspectiva PESSOAL de cada um que as escuta. Eu também sou assim: sempre que alguém me conta uma história eu me sinto com as roupas e a espada do personagem, sinto na pele o que ele sofreu e tento me situar diante dos dilemas que ele teve de suportar. E sempre imagino a dor de quem não tem voz, não tem força suficiente e nem pode enfrentar, com paridade de armas, o exército que se coloca contra si.

A única diferença é que eu sei da minha parcialidade e tento – dentro das minhas limitadas condições – criticar em mim mesmo esta tendência. Exercitar a paralaxe – deslocamento aparente de um objeto quando se muda o ponto de observação – tentando observar o mesmo fato por outra perspectiva é uma capacidade de poucos. Uma rara virtude muito difícil de encontrar. Fico sempre imaginando a opinião de um magistrado condenando ou inocentando um sujeito, tendo nas mãos seu destino, e sem autocrítica suficiente para perceber o quanto de sua sentença está moldada pelos seus preconceitos e por sua visão parcial do que realmente ocorreu.

Quando visitei a prisão de Lula em Curitiba com minha amiga Andréia, tive uma crise compulsiva de choro ao me aproximar do Prédio da Polícia Federal, que mais parecia um castelo medieval, com suas torres, grades, portões, e muros inexpugnáveis. Quando vi a estrutura monstruosa do outro lado da rua eu me desestruturei ao imaginar o ex presidente preso por um arranjo político, falso, cruel e desumano. Senti na pele o que Lula estava passando e desabei. Fui ajudado pelos companheiros da Vigília, gente simples e humilde, que se colocaram ao meu lado naquele momento de angústia. Todavia, para quem não tem dentro de si essa vazio, este tipo de dor não é capaz de produzir eco. Eu entendo e respeito o silêncio de muitos para quem eu contei essa história.

Sim, julgar é a coisa mais fácil do mundo; ser justo uma das tarefas mais árduas. Olhar o mundo com os olhos alheios é obra de uma vida inteira.

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Lula

O que me causa espanto (não deveria) é que a tropa de choque defendendo Guedes é mesma turma que chamava Lula de “ladrão” sem JAMAIS mostrar um fato, uma prova, os carros importados, as mansões suntuosas, uma loja de chocolate, uma rachadinha, uma conta no exterior, joias, contas milionárias, apartamento em Paris – na Avenue Foche, uma mudança no padrão de vida, família rica, promissórias e imóveis. Nunca fotografaram Lula ostentando qualquer aparência externa de riqueza.

O mistério do “ladrão” que rouba, mas só por diversão, porque JAMAIS gastou um tostão para si ou sua família…

Continuaram chamando Lula de ladrão sem provar nenhum roubo mesmo depois que se descobriu a corrupção de Moro e Dalanhol COM PROVAS materiais, gravações, áudios, a comprovação do grampo de advogados, escuta criminosa da presidente e tortura sistemática de delatores. E muita coisa existe ainda a revelar nos “processos de mentira” contra tanta gente.

Mas quando Guedes é pego com milhões fora do Brasil em paraísos fiscais a mesma turma passa pano, diz que é “legal” e se nega a reconhecer a imoralidade de ter essas contas no exterior e LUCRAR com o empobrecimento do Brasil.

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A morte da 3a via

Eu acho que o ódio às esquerdas (leia-se ódio à justiça social) é uma patologia digna de figurar no DSM – o código internacional de doenças. Claramente se manifesta pelo rechaço a tudo que é popular, que parte do povo, que tem cheiro de gente e que procura escutar o país como num todo, e não apenas os desejos de sua faixa média burguesa. Entre os sintomas dessa patologia está a classificação de todo líder emergente das faixas “inferiores” como “líder populista”, que seria um mentiroso, dissimulador, falso, mercenário e com uma agenda escusa de vantagens pessoais e corrupção. Um exemplo disso é a placa encontrada numa manifestação de direita onde se lia: “País sem corrupção é país onde rico manda, pois quem é rico não precisa roubar”. Claramente a ideia é de que um candidato do povo só poderia estar no poder para roubar…

Um sintoma dessa rejeição é a narrativa atual de que todos os que defendem Lula são “fanáticos”. Afinal, se ele é “ladrão”, só o fanatismo poderia nos fazer entender esse apoio. Entretanto, essa parcela da pequena burguesia hoje sente vergonha do profundo desastre ocorrido no governo Bolsonaro em todos os níveis: econômico, jurídico, ético e na imagem internacional do país. Em função disso, não aceitam Lula e seu odor de povo e também não querem se ligar ao horror anti civilizatório de Bolsonaro-Guedes.

É desse caldo que nasce o “nem Lula, nem Bolsonaro”, que nada mais é do que a “terceira via”, ou a viabilização de um candidato que burle essa dualidade não mudando nada na estrutura racista e classista da nação. Por isso a procura desesperada por um candidato que seja a cara do Centrão: homem, branco, burguês, rico e que guarde equidistância com PT e Bolsonaro, mas que seja bem visto pela elite exploradora e os militares oportunistas.

A terceira via, pela clara polarização e o clima de guerra que Bolsonaro sempre apostou como modus operandi da sua gestão, acabou por se inviabilizar e finalmente morrer de inanição. Não há como – agora – oferecer uma alternativa que impeça a eleição plebiscitária que teremos à frente. A terceira via morreu no primeiro dia do governo Bolsonaro, quando ele avisou que seu governo seria baseado no confronto, mas ainda há aqueles que tentam revivê-la gritando e chorando ao lado do seu corpo em decomposição.

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Estigmas

“Ele não passa de um alcoólatra”.

A propósito, modernize-se. A palavra “alcoólatra” caiu em desuso nos anos 80, pois antes disso se considerava o vício em bebida como um problema moral. As palavras certas hoje em dia para descrever este transtorno são “alcoolista” e “alcoolismo”, porque esta adição é considerada pela OMS uma doença e desta forma deve ser encarada e tratada.

Mas, nao é à toa que esta ofensa ainda é usada, em especial contra sujeitos que emergem das classes populares. Chamar pobre de “bêbado” é uma atitude antiga das classes dominantes para criar um estigma de falha moral entre aqueles que surgem do proletariado.

Pobre é bêbado, vagabundo e relaxado. Lula é “alcoólatra”, “bebum” e está sempre sob o efeito de álcool. A burguesia repete essas ofensas para reforçar o estigma e deixá-lo colado à pobreza. Desta forma mantém-se a fantasia de que os proletários, os pobres e os operários jamais poderão conduzir uma nação já que são prisioneiros do vício na bebida.

Manter essas mentiras é um ato criminoso, tão grave quanto o racismo ou a corrupção. Elas só servem à narrativa racista de uma burguesia canalha que se locupleta mantendo o povo controlado por factoides e mentiras deslavadas.

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Deixem o Lula…

Deixem Lula em paz…

Todo texto que começa esculachando o Lula para forjar credibilidade é no mínimo isentão. Lula é um perseguido político, como foram Mandela e Luther King. Vocês podem concordar ou discordar, mas desprezar e odiar é fazer o jogo do opressor. Atacar o Lula para se sentir autorizado a questionar psicopatas como Moro ou Bolsonaro é seguir a trilha marcada no chão pela elite perversa que criamos no Brasil, que tenta de todas as formas sufocar as lideranças populares.

Além disso, colocar Lula e Bolsonaro na mesma frase é uma ofensa para um líder reconhecido no mundo inteiro por seu combate à iniquidade e por sua luta contra a fome. Ninguém jamais diminuiu tanto as distâncias que separam os brasileiros como ele – mesmo sendo pouco diante do que precisa ser feito. Comparar políticos tão díspares é um desaforo e uma injustiça contra alguém que saiu da presidência com 87% de aprovação (um recorde mundial entre as democracias) e fez o maior governo da história da república.

Ahhh, e não sou petista nem lulista. Estou à esquerda de Lula. Sou anticapitalista, abolicionista penal, humanista, ecosocialista, marxista e comuna. Lula é um social democrata de centro esquerda.

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Desumanizar

“A forma clássica de justificar nossa brutalidade é desumanizar a quem odiamos. Todos os genocídios da história usaram esta estratégia. Congoleses, judeus, palestinos,, armênios, chineses, todos foram tratados como indignos da condição humana. Aqui em nosso meio, para poder continuar odiando o PT é preciso insinuar que os petistas não são “pessoas de bem”, portanto não há problema algum em destruir, difamar e – por que não? – até matar. A forma como tratam o ex-presidente Lula é apenas um aspecto dessa desumanização”.

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Inquisição

Chorei lendo. É longo, portanto só leia se a injustiça e a violência dos poderosos machuca sua alma. Marx tinha razão e a história se repete como farsa. Também tem razão o articulista ao dizer que o objetivo dos fascistas não é destruir apenas a esquerda, mas as próprias conquistas civilizatórias da Revolução Francesa. A treva que se abate sobre o mundo é densa, mas seremos semente.

Calas hoje se chama Lula ou Luís Inácio. Melhor, os dois. Está preso nas masmorras de Curitiba sem nenhuma prova, apenas delações de torturados e a convicção de julgadores fanáticos. Tem a alma inocente como Jean Calas, e seus ossos quebrados pela injustiça. Moro é o inquisidor estúpido preconceituoso e cruel que receberá da história o repúdio, o nojo e o desprezo.

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Lula está preso, Voltaire está morto. Babacas!

Por Rogério de Campos, publicado em Le Monde Diplomatique Brasil

O caso Calas é uma das pedras fundamentais daquilo que tem sido chamado sistema democrático ocidental. Quando o Brasil se coloca como parte da vanguarda do processo regressivo que pretende destruir tal sistema e as ambições do Iluminismo (Estado Laico, educação pública, liberdade de expressão…), podemos dizer ser inevitável ter seu caso Calas, que, qual em rituais esotéricos, deve ser conjurado e revertido simbolicamente.

O magistrado David Beaudrigue estava convicto: o jovem Marc-Antoine Calas fora assassinado pela própria família. O pai, a mãe e um dos irmãos, e também a empregada Jeanne Viguière e um jovem amigo da família, Gaubert Lavaysse: todos que estavam na casa naquela noite do dia 13 de outubro de 1761 diziam que ao descer da sala de jantar, que ficava no primeiro andar, para o térreo, encontraram o corpo de Marc-Antoine no chão. Falou-se de um desconhecido misterioso que fugira, sem ser identificado. Falou-se de uma punhalada. Mas o médico retirou a gravata de Marc-Antoine e ali estava a marca no pescoço: o rapaz fora enforcado ou estrangulado.

Na cidade de Toulouse, no sudoeste da França, Beaudrigue era mais que um magistrado comum: era um capitoul, ao mesmo tempo investigador, promotor e juiz. Usando sua autoridade, naquela mesma noite mandou para a prisão todos que estavam na casa, inclusive o cadáver.

No dia 15, a verdade veio à tona: Marc-Antoine se suicidara. Seu irmão, Pierre Calas, e Gaubert Lavaysse o encontraram enforcado. Desesperados, chamaram o pai, Jean Calas. Os três desceram o corpo para o chão. A mãe, Anne-Rose, ficou assustada com os gritos e pediu a Jeanne que fosse ver o que acontecera. Só depois Anne-Rose foi até lá. Em meio ao desespero, Jean Calas ordenou a todos que não contassem a ninguém que Marc-Antoine se suicidara. Temia o castigo que era tradicionalmente imposto aos suicidas: seu corpo era amarrado nu a uma grade (a claie d’infamie), arrastado pelas ruas da cidade, apedrejado, até ser jogado no depósito de lixo da cidade.

Mas, apesar dessa confissão, o capitoul Beaudrigue continuava convicto: a família, com a ajuda de Jeanne e de Lavaysse, assassinara Marc-Antoine. Ordenou que todos continuassem presos. Outro capitoul, Lisle Bribes, aconselhou ao colega um pouco de calma e questionou a regularidade daquela detenção. Impaciente, Beaudrigue respondeu:

– Isso é comigo, o que está em causa é a religião (“Je prends tout sur moi. C’est ici la cause de la religion”).

Beaudrigue era católico. A família Calas era protestante.

O capitoul aparentemente acreditava nos boatos que começaram a correr pela cidade segundo os quais Marc-Antoine fora assassinado pela família porque desejava se converter ao catolicismo.

O quanto havia de fanatismo religioso em Beaudrigue é difícil de determinar. Durante alguns séculos, ele foi visto por historiadores como um magistrado rígido, cruel e intolerante. Voltaire o considerava tudo isso e também um patife, mas não tinha provas para esta última acusação. Em 1927, Anatole Feugère, professor da Faculdade de Letras de Toulouse, pesquisando nos arquivos da Corte de Justiça da cidade, descobriu documentos de um antigo processo que revelaram o quanto a intuição do filósofo estava correta: os velhos papéis demonstraram que Beaudrigue pouca coisa fazia que não motivada por subornos ou interesses pessoais. Recebia dinheiro de donos de salões de jogos e prostíbulos para fazer vista grossa. Tomava para si cargas de vinho apreendidas de contrabandistas e, santarrão, até promovia orgias em sua casa de campo. Em uma ocasião, usou sua autoridade para punir duramente o ex-amante de sua amante.

Mas, mesmo sem as descobertas do professor Feugère, seria fácil suspeitar das motivações de Beaudrigue para ser tão cruel com os Calas. O poderoso cargo de capitoul era uma conquista que se fazia no campo das relações políticas. O mais poderoso ministro da França naquele momento era o conde de Saint-Florentin, hostil aos protestantes. Beaudrigue trocava correspondência com Saint-Florentin. Além disso, a elite de Toulouse era totalmente católica e o poder judiciário em boa parte dominado pelos Penitentes Brancos (uma irmandade católica). Matadores de protestantes costumavam ser celebrados como heróis. Ser intolerante com hereges era ótimo para a carreira de um capitoul.

Em Toulouse, que fora uma das capitais da heresia cátara no século XII e depois um centro importante do protestantismo na França, o catolicismo teve que se impor a ferro e fogo. Contra os cátaros foram necessárias três cruzadas. Foi em Toulouse que são Domingos criou a Inquisição. E em 1562 aconteceu um grande massacre de protestantes, no qual foram mortas entre 3.000 a 5.000 mil pessoas. Na época, todos os protestantes sobreviventes foram expulsos da cidade. O aniversário do massacre, comemorado no dia 17 de maio, foi uma das principais festividades da cidade até o século XIX. Nesse dia, como retribuição à luta da cidade contra o protestantismo, o papa concedia indulgências a quem fosse rezar na catedral ou na igreja de Saint-Sernin, na qual se encontra uma peça de madeira entalhada que mostra um porco no púlpito com a legenda: “Calvino, o porco, pregando” (“Calvin le porc, prêchant”).

A Inquisição de Goya

Em 1761, a população de Toulouse era formada por 50 mil católicos e 200 protestantes. Que conviviam mais ou menos pacificamente. O comerciante Jean Calas tinha negócios com católicos, os Calas tinham amigos católicos e a própria Jeanne, empregada da família há mais de 20 anos, era uma católica fervorosa. Mas haviam aqueles católicos mais que fervorosos, febris. Corria pela região a história de que os protestantes haviam se reunido em um sínodo, na cidade de Nimes, no qual decidiu-se que os pais e mães eram obrigados a matar seus filhos se esses tentassem mudar de religião. E os boatos diziam que Lavaysse fora enviado à casa dos Calas para ajuda-los a executar o filho.

Por mais absurdo que isso pareça, foi justamente essa história delirante de uma conspiração protestante para matar Marc-Antoine a base da argumentação da acusação:

“Calvino diz que todos os filhos que violem a autoridade paterna, quer através do desprezo, quer da rebelião, são monstros e não homens. E que, portanto, Nosso Senhor ordena que sejam condenados à morte todos os que desobedeçam a pai e mãe. Calvino é de opinião que o filho rebelde e desobediente seja morto”.

Calvino, segundo a acusação contra os Calas, teria se baseado em Deuterônimo 21:18: “Se alguém tiver um filho rebelde e indócil, que não obedece à voz de seu pai e à voz de sua mãe, e não os ouve mesmo quando o corrigem, então, seu pai e sua mãe pegarão nele, e o levarão aos anciãos da sua cidade e à porta do seu lugar, e dirão aos anciãos da cidade: ‘este nosso filho é rebelde e indócil, não dá ouvidos à nossa voz, é um devasso e beberrão’. Então, todos os homens da sua cidade o apedrejarão com pedras, até que morra”.

Os outros protestantes, de Toulouse e da região, ficaram escandalizados com tal acusação. Denunciaram que o suposto sínodo em Nimes nunca acontecera e que o documento em que Calvino exortara o assassinato de filhos rebeldes era falso. Mas Beaudrigue não lhes deu atenção. Ele tinha outra preocupação: se não havia qualquer prova de que os Calais haviam matado o filho era preciso ao menos provar que havia um motivo para que eles o tivessem feito, provar que Marc-Antoine de fato pretendia se converter ao catolicismo. E o capitoul não tinha nem essas provas. Tinha boatos e tinha sua convicção.

Beaudrigue decidiu então lançar uma “monitória”, uma espécie de chamamento para que pessoas que soubessem de algo sobre o caso aparecessem para depor. Pela monitória, se alguém soubesse algo e não se manifestasse estaria automaticamente excomungado. Em geral, as monitórias funcionavam: com medo de serem condenadas ao inferno, as pessoas que tinham alguma informação corriam para depor. Também em geral, as monitórias não costumavam especificar se queriam depoimentos a favor ou contra os réus. Não era o caso dessa emitida por Beaudrigue, claramente direcionada: queria ouvir quem soubesse algo da conversão de Marc-Antoine, das ameaças que os pais faziam a ele, de uma reunião em que se deliberou sua morte, daquela noite do dia 13 na qual “esta execrável deliberação foi executada, fazendo ajoelhar Marc-Antoine, o qual, pela surpresa ou pela força foi estrangulado ou enforcado” e, por fim, “todos os que saibam quem são os autores, cúmplices, implicados, aderentes deste crime, que é dos mais detestáveis”.

E aí apareceu de tudo, gente que viu Marc-Antoine em igrejas, rezando, e até uma moça que se dizia ex-protestante e que garantiu que o rapaz não só se convertera ao catolicismo, mas também a convertera (depois ficou claro que a história era fantasia da garota, que sempre havia sido católica).

Um exemplo de depoimento:

“Massaleng, viúva, declarou que sua filha lhe contou que o senhor Pagès havia contado à ela que M. Soulié havia contado a ele que a senhorita Guichardet contara a ele que a senhorita Journu havia dito algo a ela que a fez concluir que o padre Lerraut, um jesuíta, tinha sido o confessor de Marc-Antoine Calas”. O padre Lerraut foi convocado para depor e demonstrou que a história não era verdadeira.

Portanto, não havia provas e os testemunhos eram bem frágeis. Mas Beaudrigue tinha convicção e isso ele podia provar: ordenou que Marc-Antoine tivesse um pomposo enterro como mártir católico. Juntou-se uma multidão, vieram delegações de todas as ordens religiosas e todas as confrarias de penitentes. Ou seja, a hipótese de que Marc-Antoine tivesse se suicidado havia sido completamente descartada.

Condenados à morte na primeira instância, os Calas recorreram à segunda instância, que era a Corte de Justiça de Toulouse. Mas ali também não havia esperança: até porque diversos dos juízes eram da irmandade dos Penitentes Brancos. Um dos juízes chegou a dizer às duas filhas de Calais (que não estavam na casa no dia 13 de outubro, portanto não foram implicadas no caso): “Não tendes outro pai agora, senão Deus”.

Ainda assim, os juízes vacilavam: também tinham a convicção da culpa, mas viam que ela não estava demonstrada. Não havia provas. Então alguém teve a ideia de julgar e condenar Jean Calas separadamente. Acreditavam que ele, um pacato comerciante de 64 anos, não aguentaria as torturas que precediam a execução, muito menos encarar o cadafalso: iria confessar e entregar seus cúmplices.

Às quatro horas da manhã do dia 10 de março de 1762, depois de passar a noite na infernet (masmorra reservada aos condenados à morte) foi levado à câmara de torturas. Dois padres ainda tentaram convencê-lo a converter-se ao catolicismo, para assim salvar sua alma já que a vida estava perdida. Mas ele se recusou.

Beaudrigue o esperava na câmara e anunciou que aquele seria o último interrogatório. Calas foi torturado por horas, mas resistiu a todas as tentativas do capitoul de arrancar dele uma confissão. Por fim, foi levado para a praça de Saint-Georges, que já estava lotada pela multidão. O cadafalso estava montado. Jean Calas foi condenado a ser morto na roda, uma das mais cruéis formas de execução: a vítima é colocada sobre uma roda, seus ossos são quebrados e ela fica ali, às vezes sendo comida viva pelos corvos e aves de rapina, até que morra de dor ou que a autoridade tenha a misericórdia de dar o golpe final. Beaudrigue fez mais uma tentativa, pareceu vacilar em sua convicção e admitir que talvez outra pessoa tivesse assassinado Marc-Antoine:

– Calas, embora inocente, sabe talvez quais foram os autores do crime cometido contra a pessoa de Marc-Antoine?

– Não sei.

Calas ficou duas horas na agonizando naquela roda, até que o carrasco o estrangulou. Seu corpo então foi lançado a uma fogueira.

Conta-se que enquanto ele agonizava um padre chamado Bourges fez uma última tentativa de arrancar sua confissão. E o Calas respondeu irritado:

– Padre?! O quê?! Também acredita que se possa matar um filho?!

Talvez um tanto desnorteados com a inesperada firmeza de Jean Calas, os juízes liberaram os outros acusados dias depois. Pierre foi condenado a um simulacro de exílio perpétuo: foi levado para fora de um dos portões da cidade e então conduzido novamente para dentro da cidade, para o convento dos dominicanos onde ficou sob vigilância até o dia 4 de julho, quando fugiu.

Voltaire vivia do outro lado da França, em Ferney, na fronteira com a Suíça. Quando ouviu a história do protestante que matou o filho, chegou a fazer piada a respeito. O filósofo aceitava como fato que Jean Calas era um fanático que matou o filho porque este queria se tornar católico. Voltaire tinha tanto desprezo pela intolerância católica quanto pela protestante.

Mas um comerciante de Marseille, que vinha de Toulouse e estava de passagem por Ferney, contou a Voltaire a outra versão da história. O filósofo ainda assim, resistiu a acreditar que os juízes pudessem ter errado. Escreveu a um amigo que o crime de Calas lhe parecia pouco verossímil, “mas é menos verossímil ainda que os juízes, sem qualquer interesse, tenham feito perecer um inocente no suplício da roda”.

Voltaire começou uma espécie de investigação para chegar à verdade. Mandou cartas para amigos que podiam saber mais do caso. “Quero saber de que lado nesse caso está o horror do fanatismo”, diz em uma das cartas. Por fim, se convenceu da inocência de Calas. E iniciou a épica campanha para que a verdade viesse a público. Seu célebre Tratado sobre a Tolerância (Traité sur la tolérance à l’occasion de la mort de Jean Calas – 1763) é parte dessa campanha que alcançou a vitória no dia 9 de março de 1765, quando o Conselho Real, em Paris, reabilitou Jean Calas e sua família, que foi indenizada pelo rei. Exatamente três anos depois da sentença que condenou Calas à morte.

O ministro Saint-Florentin tratou de se desvincular discretamente do caso. Usou outra falha de Beaudrigue, em outro caso, como desculpa para destituí-lo. Beaudrigue enlouqueceu. Tentou suicídio duas vezes. Na segunda tentativa foi bem-sucedido.

Voltaire tinha 70 anos quando ouviu falar de Calas pela primeira vez. Já havia feito sua fama como filósofo. Mas o caso daquele comerciante de Toulouse revolucionou sua biografia: ele se tornou um herói, um campeão na defesa dos injustiçados. E se tantos bustos dele enfeitam bibliotecas até hoje é menos por causa de Cândido que por Calas. Nove de março de 1765 passou a ser o jour de gloire do iluminismo francês.

Para diversos historiadores, o caso Calas marca o início da campanha contra a pena de morte e contra a tortura. O caso virou o grande monumento ao princípio jurídico da Presunção da Inocência. Tal princípio já estava presente no Corpo do Direito Civil, de Justiniano: “Ei incumbit probatio qui dicit, non qui negat” (“Àquele que disse e não ao que nega incumbe à prova”), mas foi mais ou menos esquecido durante a Idade Média, que talvez tenha começado a acabar quando o cardeal e jurista francês Jean Lemoine escreveu “item quilbet presumitur innocens nisi probetur nocens” (“uma pessoa é considerada inocente até ser provada culpada”).

É também em 1765, ano da reabilitação de Calas, que William Blackstone publica Commentaries on the Laws of England com seu famoso ratio: “é melhor que dez culpados escapem à condenação que um inocente sofra”. Podemos pensar que isso foi coincidência, resultado da Inglaterra estar mais adiantada em seu caminho rumo à democracia. Mas é certo que é Calas quem está na memória dos autores da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (1789) quando eles escrevem o artigo 9: “Todo acusado é considerado inocente até ser declarado culpado e, se julgar indispensável prendê-lo, todo o rigor desnecessário à guarda da sua pessoa deverá ser severamente reprimido pela lei”.

É claro que os Judiciários do mundo inteiro seguiram cometendo as injustiças que lhes são próprias. Mas a passou a existir aquela monumental referência do que é certo.

O caso Calas é, portanto, uma das pedras fundamentais daquilo que tem sido chamado sistema democrático ocidental. Assim, quando o Brasil se coloca como parte da vanguarda desse processo regressivo que pretende destruir tal sistema e as ambições do Iluminismo (Estado Laico, educação pública, liberdade de expressão…), poderia se dizer que era quase inevitável ter seu caso Calas, que, qual em rituais esotéricos, deve ser conjurado e revertido simbolicamente. Como se o caso precisasse ser refeito para que todas as consequências que teve possam ser revertidas. Então a tragédia de Toulouse volta a acontecer em Curitiba, na forma de farsa.

Como em Toulouse, o capitoul Sergio Moro não tem provas que sustentem a condenação de Lula. Moro, como Beaudrigue no passado, sequer consegue provar que há um crime. Existem os depoimentos, alguns delirantes, alguns maliciosos e interessados, alguns depoimentos, em Toulouse, arrancados à custa de ameaças de excomunhão, vários em Curitiba arrancados às custas de torturas (e não é tortura manter um cidadão preso por meses até que ele confesse a suposta culpa de outro cidadão?).

Mas há a diferença fundamental para o primeiro caso Calas: agora ninguém perde de vista de que se trata de uma farsa. Sabem disso tantos os juízes do Supremo que se colocam como reféns dos ritos quanto o colunista de jornal para quem a condenação faz justiça ainda que o Lula não seja culpado dos crimes que a motivaram. Sabe disso até mesmo o nerd boçal que repete eufórico “Lula tá preso, babaca!” e comemora a prisão como o fanático torcedor comemora um gol de mão.

Chega a ser injusta a acusação de hipocrisia feita aos protagonistas dessa farsa. Porque eles não prestam tal respeito à virtude. Tudo está à vista, porque precisa ser à vista: só assim serve como aviso. O que demorou, talvez, a ficar claro é que o objetivo, como já se viu, não foi apenas impedir o que aparentemente era inevitável: a reeleição do ex-metalúrgico. Mas impedir a possibilidade de eleição de um metalúrgico. Não apenas destruir o legado do PT, ou da Esquerda, ou do Getulismo, mas destruir também o legado da Revolução Francesa.

E nós, da periferia do capitalismo, que tínhamos várias razões para duvidar da pertinência do termo Civilização Ocidental, vemos a Democracia, que mal tinha posto os pés aqui, voltar para o navio e partir.

* Rogério de Campos é editor, tradutor e autor dos livros Revanchismo, Dicionário do Vinho (Prêmio Jabuti) e Imageria (Prêmio HQ Mix). Seu livro mais recente, Super-Homem e o Romantismo de Aço (Ugra Press, 2018) fala da relação do gênero super-heróis com o fascismo

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