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Crime e Castigo

Hoje eu vi o vídeo do médico que teria dado um tapa na paciente em Manaus. Nada justifica uma agressão contra uma mulher em trabalho de parto e devemos cobrar que a violência obstétrica seja extirpada das salas de parto. Os hospitais continuam sendo as principais fontes de violência de gênero contra as mulheres e esse fato precisa ser denunciado.

Entretanto, neste caso em especial, o vídeo se presta muito mais para atacar a presença de acompanhantes em sala de parto do que para ser um libelo contra violência no parto. A presença de outra mulher na cena (a mãe?) ameaçando e constrangendo os profissionais e exigindo uma cesariana por puro despreparo emocional, é tudo que a corporação deseja para atacar nossas recentes conquistas, como a presença de acompanhantes de livre escolha.

Quem já trabalhou com parto em qualquer função – de doulas a obstetras, passando por anestesistas, enfermeiras, técnicas de enfermagem e neonatologistas – sabe como é tenso o momento que antecede o nascimento de uma criança. Ver uma familiar grosseiramente ameaçando a equipe de atenção é inadmissível. Ninguém consegue frieza e concentração para tomar decisões com este tipo de coação. Se há vilões nessa história podemos começar com a senhora que ameaça chamar a imprensa e tenta dar ordens para levar a paciente ao centro cirúrgico.

O que acontece depois é imperdoável, mas é possível ao menos tentar entender. O médico, diante da ameaça explícita da mulher na sala de parto, perde a cabeça e tem um gesto brusco e violento contra a paciente. Inadmissível e absurdo, mas é importante deixar claro que foi realizado após ter sido ameaçado, mesmo que isso jamais possa ser usado como desculpa.

Não tenho porque defender as atitudes desse profissional, o qual desconheço, até porque já me causa repulsa ver uma paciente parindo em posição de litotomia (deitada na cama) em pleno século XXI, um antifisiologismo anacrônico que, por si só, podia ser a causa principal pelo atraso do parto e o cansaço da mãe. Por outro lado, é impossível para qualquer parteiro trabalhar decentemente sob ameaças, ouvindo uma pessoa sem qualificação fazer “indicação de cirurgia” aos médicos presentes. Este foi o primeiro fato de gravidade que acabou produzindo todos os outros erros subsequentes.

Para humanizar o nascimento é fundamental também humanizar as famílias e garantir o respeito pelos profissionais, sem o qual cenas como esta se repetirão, infelizmente.

Não são só os médicos que precisam se humanizar. A sociedade que os forma e os sustenta também precisa beber na fonte da humanização. Médicos e sociedade não são instâncias separadas; são vasos comunicantes. A sociedade sempre tem os médicos que quer, assim como a polícia e os políticos que deseja. Quando me perguntam o porquê de tantas cesarianas abusivas podemos falar da formação tecnocrática dos profissionais, mas é bom dar uma ouvida atenta no discurso da “sogra” ameaçando os profissionais para entender como uma cesariana é, muitas vezes, o alívio ilusório de uma pressão indecente sobre os profissionais.

De nada adianta humanizar médicos e enfermeiras se estes estiverem inseridos em uma sociedade que cultua o mito escatológico da tecnologia redentora que se coloca acima da natureza.

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(Des)crença

Nada como o parto para desafiar nossas (des)crenças.

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Trauma de parto

-Ah, você é obstetra? Tive dois partos. O primeiro foi normal mas sofri demais e no segundo já marquei uma cesariana para não passar de novo por tudo aquilo. Resolvi ligar as trompas quando fiz a cesárea.

Quando eu pedia para me contar o que significava “tudo aquilo” que sofreu para parir vemos que a dor das contrações era apenas uma parcela minoritária do que descreviam como o sofrimento que atravessaram para dar a luz. Mesmo reconhecendo que uma sociedade hedonista não entende mais a dor – física ou psíquica – como aceitável, eu ainda me espanto com o fato de que as descrições dos “horrores” apontam para um modelo “misógino” de atenção, centrado na eficiência médica de resolver o “problema do tumor fetal abdominal” dentro de um tempo adequado para não atrapalhar a vida do médico e o funcionamento do centro obstétrico.

-Então, doutor, deixa eu lhe contar como foi…

“E aí fiquei sozinha com minhas dores, e não deixaram meu marido entrar que homem desmaia e teriam que costurar a cabeça dele se caísse no chão e a luz era forte e não havia chuveiro, a sala estava gelada e me mandaram para outra sala e entrou um grupo de jovens e o professor explicou minha situação para os alunos e não para mim, e eles fizeram exames, um após o outro, e saiu sangue e eu me apavorei e foi a moça da limpeza que me tranquilizou e chamei o médico e ele não veio e eu gritei e aí disseram para eu calar a boca que isso assustava as mulheres e disseram que na hora de fazer não foi assim que voltaria no próximo ano e não podia andar porque estava no soro e pedi para tirarem e disseram que era preciso e pedi a presença do médico e de novo ele não veio pois estava atendendo e levantei sozinha para ir no banheiro e fui xingada pela enfermeira e senti vontade de evacuar e não deixaram e fizeram um outro exame e começaram a gritar e correr e me colocaram na maca e fui para uma sala muito clara com uma mesa de parto no meio e diziam de novo para não fazer força que o médico não estava pronto mas eu não podia controlar e um médico apareceu e perguntou meu nome mas estava de máscaras e luvas e não vi quem era e me deitaram mas eu queria levantar e amarraram minhas pernas e passaram um líquido gelado na minha vagina e depois senti uma fincada e uma ardência forte e de novo eu gritei para ser novamente criticada pela enfermeira e ela pulou na minha barriga e fiquei sem respirar e eu estava tremendo de nervosa e suava mesmo na sala gelada e o médico gritava que o bebê estava preso que se eu não o ajudasse o bebê não ia sobreviver e de novo veio aqueles pensamentos de morte e pensei em nossa senhora com o menino Jesus e lembrei da minha mãe que é nervosa e a enfermeira subiu de novo com o cotovelo na minha barriga e eu senti o médico cortando minha vagina graças a Deus não senti muita dor – devia ser o pique – e senti o sangue escorrer pelas coxas e a cabeça do meu filho fazia um volume na vagina mas eu não tinha as forças e eu chorava e pedia ajuda a Deus e o tempo não passava e ele estava preso e a enfermeira passou um pano na minha testa e eu só gemia e daí veio a força e eles gritaram todos e contaram até 10 e força comprida não-para-não-para e segura o ar e disseram que eu estava fazendo a força errada e empurraram minha cabeça e o queixo tocou o peito e os olhos se fecharam e parei de respirar por horas e eu fiz aquela força mais forte, mais forte.

Ficou tudo escuro e o silêncio foi quebrado por um choro fino que foi diminuindo até desaparecer como se tivesse se afastado por uns 100 metros e a enfermeira disse tudo bem e o médico reclamou de alguma coisa que não entendi e outra enfermeira viu minha pressão e o médico falou do Botafogo e a enfermeira ao meu lado deu uma gargalhada ao ver que a injeção que aplicou no meu soro havia atravessado a borracha e molhado o lençol.

Quando perguntei do meu bebê me disseram já vem e na verdade não veio e eu conheci meu filho uma hora depois mas pensei que foi melhor que o meu marido que só viu muito tempo depois ainda acho que eles foram muito bons comigo e pediram um lanche e depois me deram uma coberta porque a sala estava gelada e deram banho no meu filho e tiraram aquelas sujeirinhas, vérnix que fala?”

E aí, depois de 20, 30 ou 40 anos ela volta a chorar e lembra que o momento mais lindo de sua feminilidade foi cercado de violências e humilhações.

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Frases

Toda mulher saber parir e todo bebê sabe nascer” é uma frase muito utilizada no mundo da humanização. Ela me parece uma boa frase, como tantas outras que usamos para nos alinhar a uma proposta. Fala da programação natural e inconsciente que todos possuímos para a garantia de nossas funções reprodutivas. Automática, inconsciente e natural. Em outras palavras, se deixarmos o processo ocorrer sem a interferência da consciência e da razão ele dará conta do desafio por si mesmo. Nosso corpo “sabe” o que faz e como faz.

Outras frases também nos servem de guias. “Tudo é possível àquele que crê“, “Ofereça a outra face“, “O amor cobre a multidão de pecado“. Entretanto, para serem bem usadas é necessário entender que são frases de estímulo e direcionamento, e não leis cósmicas imutáveis. Para usar qualquer uma delas é preciso bom senso e adequação. Tomadas literalmente e sem contexto são axiomas brutos e inúteis, que mais limitam e atrapalham do que auxiliam e apoiam.

A frase “Para mudar o mundo é necessário mudar a forma de nascer” é quase um lema da humanização do nascimento, mas pode ser facilmente mal utilizada se não a colocarmos no seu devido lugar. Usada com sensibilidade pode ser útil como um guia para as nossas atitudes diante da importância civilizatória de um nascimento digno e respeitoso. Todavia, se for usada como uma lei selvagem e rígida perderá todo seu valor e sua função.

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Mitos médicos

Como barrar um exame ritualístico que foi incorporado ao imaginário popular nas últimas três décadas? O sucesso das ultrasonografias ocorreu de forma avassaladora mesmo sem ter jamais comprovado seu impacto positivo sobre o parto, tanto para as mães quanto para seus bebês. Poderíamos chamar de “um case de sucesso“.

Entretanto, por agir sobre os mistérios que envolvem o amnionauta, jogando luz sobre as capas de escuridão que o envolvem, esse exame assumiu uma posição tão primordial quanto imerecida no cenário do pré-natal.

De lição nos resta o fato de que a medicina não se move por descobertas que vão imprimir qualidade e segurança aos pacientes, mas pelas mesmas regras que movem o capitalismo e o mercado. Muitas luzes e propaganda, quase nada de efeito real.

O que realmente tem valor no pré-natal é o contato, a vigilância sobre os possiveis desvios, o vínculo, poucos exames e medicamentos e uma atitude de confiança e positividade sobre o parto. Todavia, estas não são coisas que podem ser facilmente embrulhadas, colocadas em uma prateleira e vendidas aos clientes.

Veja aqui https://midwiferytoday.com/mt-articles/prenatal-ultrasound-does-not-improve-perinatal-outcomes/ os resultados das pesquisas sobre o uso de ecografias na gestação. 

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Depressão puerperal em Bird Box

Recomendo não ler antes de assistir o filme…

Logo depois que assisti o filme “Bird Box”, com Sandra Bullock como protagonista do drama de suspense, percebi que havia muita gente criticando a película, tacando pau, dizendo que o filme era fraco, insosso, sem sentido e enigmático demais. Todavia, eu percebi na possibilidade de interpretar o filme pela perspectiva da depressão puerperal uma forma muito interessante de compreensão, e me baseei em vários elementos contidos no filme, os quais comentarei abaixo.

Claro, é apenas uma interpretação e o próprio Josh Malerman – o cara que escreveu o livro – poderá amanhã dar uma entrevista dizendo que seu livro é uma metáfora da “guerra do Iraque” ou o “capitalismo desenfreado“… nunca se sabe. Entretanto, olhar uma obra sob um viés diferente do PRÓPRIO AUTOR não está errado, pelo contrário. Acredito até que o escritor de qualquer obra humana “pesca” significantes do campo simbólico e os aplica numa narrativa, mas nada nos impede de ressignificá-los sob outra perspectiva. Por que não?

Existem elementos muito chamativos que nos levam a pensar na depressão puerperal, pois muitas são as metáforas insinuadas no roteiro. O filme tem simbolismos muito atraentes que podem nos levar a esta interpretação. A impossibilidade de enxergar – mas apenas fora de casa – é um deles, o que nos remete à reclusão que as puérperas sofrem, permanecendo apenas confinadas em seus domínios, isto é, a casa. A ausência do marido, por abandono, desde o inicio do filme também é elemento forte e determinante na trama. A visita à obstetra que lhe pergunta se quer saber o sexo do bebê é o elemento que inaugura o desastre.

A morte da irmã simboliza o afastamento da família e ocorre bem no início da depressão, quando o mundo convulsiona. A visita ao supermercado e o encontro das provisões fala da redução do sujeito às suas necessidades básicas. As fugas às cegas simbolizam a ausência de orientação sobre o que fazer e para onde ir. Até o casal fazendo sexo, e o riso constrangido e triste que isso lhe provocou, nos faz pensar no seu afastamento do desejo físico.

A figura hipermasculinizada do herói negro que a protege, representa a necessidade de proteção e a fragilidade do puerpério. Os múltiplos desastres nos apontam para a ideia de labirinto sem saída, o desespero para encontrar alívio para suas dores na alma. O derradeiro desafio é no rio turbulento ao lado do “garoto” e da “garota”, como a sua luta definitiva para recuperar a sanidade perdida. Após a passagem pelo rio ela escuta vozes que a toda hora lhe orientam a tirar a venda dos olhos e mergulhar para sempre na depressão, mas ela a tudo isso resiste. “Saia de perto dos meus filhos“, responde ela à Voz. Logo após, o garoto lhe diz sobre sua “irmã” “ela está com medo de você“.

Outro aspecto, para mim determinante: a ausência de nome nas crianças, como se elas não pudessem ser nominadas pela protagonista, exatamente por sua incapacidade de formar vínculos com os filhos.

O final é que permite uma idéia mais clara da questão da depressão puerperal. Quem ela reencontra no instituto para cegos? Exatamente sua médica, como que a acolhendo no retorno do período tenebroso da depressão, alguém que esteve acompanhando em pensamentos e cuidados, aguardando sua volta. Só então seus filhos são “reconhecidos” e recebem o nome que sempre tiveram, mas que nunca receberam – pois que ela jamais os aceitara por completo.

Os olhos são a chave da depressão. O olhar melancólico é o primeiro sinal que nos permite diagnosticar a depressão puerperal. Foi assim que a equipe que os recebeu na clínica de cegos analisou se ela podia ou não entrar.

Percebam que o inimigo nunca é visto. Não é palpável e, por isso mesmo, dificilmente pode ser destruído. Não há elementos evidentes (é vidente) ou facilmente detectáveis e perceptíveis na depressão puerperal; o psiquismo não está abalado por elementos fáticos objetivos, como um abandono, perda de dinheiro, falta de atenção ou de carinho. Não… na imensa maioria das vezes esses elementos não estão claramente presentes e a causa é invisível; somente o sujeito que sofre pode sentir, mesmo sem captar conscientemente.

Eu achei sedutora esta perspectiva pois nos permite uma construção interessante sobre os dramas da protagonista. O filme mistura elementos de vários outros, por certo, mas esta abordagem continua me parecendo válida. A redenção, ao final, o encontro com a médica e os nomes oferecidos aos filhos junto com a frase “eles são meus filhos” foram os elementos determinantes que me permitiram aceitar essa possibilidade de interpretação.

PS: Mais ainda… o nome do sujeito que se comunica pelo rádio com os fugitivos, o mesmo que vai resgatá-la do mundo da escuridão, é Ric, e ele tem uma comunidade. Curioso, não?

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O Papel da Homeopatia no Parto

 

“Uma pergunta muito corriqueira é “qual a contribuição que a homeopatia pode trazer na atenção ao parto?”

As respostas são muitas, mas é importante deixar claro que a atenção ao parto é um processo que trabalha com mulheres (via de regra) saudáveis e no ápice de suas condições físicas. Muito mais do que medicar gestantes nossa tarefa é acompanhar seus passos e garantir que sua trajetória se mantenha na trilha da fisiologia. Entretanto, por seu um processo complexo e que se estabelece na interface entre sujeito e cultura, uma série de desacertos podem ocorrer durante a gestação, parto e o puerpério. Para tais transtornos a homeopatia pode oferecer um tratamento seguro, suave e sem efeitos colaterais.

A homeopatia parte de uma abordagem bem diversa sobre o binômio saúde-doença. Ela não se propõe a ser forma “alternativa” de tratar enfermidades conhecidas, como pneumonia, enxaqueca, gastrite ou anemia, mas uma forma diversificada de entender o sofrimento humano. Portanto, mais do que uma terapia, a homeopatia é um “modelo”, uma leitura diferente das aflições humanas, abrangendo através de sua visão holística tanto os aspectos físicos quanto os psíquicos. As formas de avaliação dos resultados obtidos pelos tratamentos homeopáticos serão, portanto, diferentes dos modelos biomédicos, da mesma forma como as ciências psíquicas o são. Como diz de forma categórica Thomas Kuhn, “As respostas que alcançamos vão depender das perguntas que fazemos”, e estas perguntas dependerão do paradigma adotado para analisar uma determinada ciência ou conhecimento.

Desta maneira, a homeopatia pode ser considerada um novo paradigma na atenção à saúde ao determinar uma nova leitura sobre a terapêutica, mudando de uma visão “maléfica” – como na medicina alopática hegemônica – para uma visão “benéfica”, considerando o conjunto reagente do sujeito como um movimento coerente no sentido da cura. Para analisar este novo paradigma é necessário entender o objeto de análise – o paciente – de uma forma distinta, de maneira integrativa e complexa, rompendo os limites do biologicismo cartesiano. Ao analisar os doentes como entidades onde a mente e o corpo atuam de forma conjugada as perguntas que avaliam uma ação terapêutica qualquer precisam ser modificadas, alteradas para captar a delicada tessitura da construção dos sintomas. A homeopatia vem mudar a visão da medicina tradicional ao reconhecer o organismo como dotado de um saber intrínseco e interno, cujas finalidades precisam ser respeitadas e, mais do que isso, seguidas. Ao lado da psicanálise – duas vertentes contemporâneas de visão endógena de adoecimento, se situam à margem dos modelos terapêuticos atuais exatamente por oferecerem essa visão da “doença dentro da linguagem”, afastando-se dos modelos da biomedicina que desconsideram a construção simbólica de nossas enfermidades.”

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Abayomi

Passei por uma experiência interessante e gratificante proporcionada por minha querida amiga Lucia Scalco. Resolvemos conversar com uma antiga “apanhadeira de bebês“, Dona Catarina (nome fictício), uma parteira tradicional urbana de 82 anos que trabalhou durante 38 anos num dos conhecidos bolsões de pobreza de Porto Alegre – RS. Atendeu seu último parto há 8 anos.

Catarina nos informou que sua formação veio pelo aprendizado com outra parteira que lhe cobrou (muito dinheiro, segundo ela) para a acompanhar e conhecer suas técnicas. Durante anos foi acompanhante desta sua “mestra” e depois seguiu em “carreira solo”. Não sabe quantos bebês nasceram sob seus cuidados, porque nunca se deteve a anotar ou contar, e não sobrou nenhum registro do seu trabalho. Vive em uma casa pobre com um parente que a ajuda, no coração da vila onde mora há mais de 4 décadas.

A entrevista foi valiosa por vários aspectos, em especial pela possibilidade de observar os ângulos mais sombrios da parteria. Ao invés de escutar um relato glamoroso e cheio de encantamentos e emoções, testemunhamos uma história de ressentimentos, dramas, dores e mágoas. Dona Catarina diz que seu ofício nunca foi recompensado, e que as pessoas a quem atendeu eram profundamente ingratas com seu trabalho. “Nem um muito obrigado elas me diziam. Viravam a cara quando me encontravam na rua“. Perguntada porque não era paga ela respondeu “Pagar com o que? Eram todos muito pobres. Tinham seus filhos em casa porque não podiam pagar um táxi para o hospital“. Perguntei se havia pagamentos simbólicos, como frutas, pães, galinhas, ovos, roupas ou mesmo um reconhecimento social, como é muito comum em comunidades do interior e ela negou. “Não me davam nada. Nunca ganhei para atender as pessoas“, disse.

Dona Catarina é pobre. Mora em uma casa de esquina no centro geográfico da vila, e sua história é cheia de pequenas e grandes tragédias. Ter seu trabalho explorado e não reconhecido é apenas uma delas, e das mais leves. Alguns de seus filhos se envolveram com drogas e chegaram a ser moradores de rua. O tempo inteiro se referiu a eles sem qualquer carinho, saudade ou doçura. É uma mulher pequena, miúda, aparentemente frágil, mas conta inúmeras histórias de lutas físicas contra agressores. Fala de uma briga em que enfrentou um vizinho alcoolizado de facão em punho, tendo lhe infligido um corte profundo no braço. Quando mais jovem levou um agressor ao hospital com golpes de madeira. Segundo ela, ficou um mês na UTI e veio a falecer. Conta a história sem qualquer remorso ou arrependimento. “Ela é uma fera, doutor. É pequena, mas muito brava.” Olha para ela e diz “Jesus manda perdoar também, viu?“, mas ela responde com um muxoxo.

Dona Catarina seguiu os passos de um contingente crescente da população de periferia no Brasil tendo se convertido a uma das inúmeras vertentes evangélicas que proliferam em sua comunidade. Agora diz-se “cristã”, mesmo tendo sido católica a vida inteira. Rompeu relacionamento com parentes e em especial com seus próprios filhos, alguns deles ligados a religiões de matriz africana. “Não existem duas águas boas para beber, só uma“, e esta sua visão de mundo é compartilhada pelo rapaz que nos acompanha na conversa, único parente que vive com ela. A Bíblia aberta sobre a mesa – ao lado do velho aparelho de som que toca música Gospel insistentemente – confirma suas palavras. “(Meus filhos) são batuqueiros do demônio. Quero distância deles“.

Quando perguntada sobre as mudanças que presenciou nos últimos anos em sua vila expressa a vontade de sair. “Vou vender o que tenho e ir embora daqui. Aqui só tem maconheiro, ladrão.” Parece profundamente consumida por ressentimentos e desconfianças.

Em relação ao seu trabalho dizia que usava luvas, cordão, tesoura e álcool. Nada de balanças/ “Eles iam pesar depois no armazém, mas já atendi muito bebê de mais de 5 kg“. Descreve suas habilidades com toques ginecológicos e repete mitos populares de “pentes fechados”, “bebês cansados”, “ossos que impedem o parto”, “bebês que engolem água do parto”. Conta um segredo: bafo de erva de chimarrão para facilitar os partos. A tudo termina com uma gargalhada, num sorriso em que nenhum dente sobrou para deixar testemunho.

Dona Catarina durante décadas era chamada a atender nas madrugadas, no frio, em lugares miseráveis e insalubres. Barro, sujeira, chuva, esgoto a céu aberto. Refere-se aos pobres da vila de invasões próxima de onde estávamos como “preguiçosos, vagabundos e acomodados”, para em seguida listar tudo o que conseguiu conquistar com seu esforço e determinação. Mesmo sendo muito pobre percebia nitidamente a diferença que a afastava destes outros, mais necessitados e despossuídos. Repetia um claro discurso meritocrático que coloca a pobreza como resultado da preguiça e da falta de vontade, uma fala muito usada pelos setores mais conservadores da sociedade, inclusive pela igrejas evangélicas.

Bradava sua independência como um grande valor pessoal. “Não preciso de homem nenhum, pra comida, pro serviço ou pra cama“. Vive de sua aposentadoria e refere o medo de que as pessoas que a cercam se aproveitem de si.

Dona Catarina sentir-se confiante com a nossa presença e por isso permitiu-se abrir o seu coração para a dor que acumulou durante tantos anos. Onde eu imaginava encontrar um anjo de doçura e transcendência encontrei uma mulher brava e indócil, que sobreviveu a um ambiente duro e violento usando as armas que lhe foram possíveis. Os nascimentos eram parte de sua tarefa, mas não como elemento de elevação espiritual ou como um “sacro ofício”. Não havia nada de sagrado ou superior nos partos que atendia, apenas uma tarefa “nem dura, nem fácil, mas para a qual era necessário ter conhecimento, para não ser como essas ‘parteiras facāo’ que estragam as mães e os bebês”.

Terminou nossa conversa dizendo que “parto não tem nada de bonito. É muita nojeira e sangue, mas não pode ter nojo e nem ter crise de nervos. Precisa coragem e se manter fria”.

Tomamos nosso café e nos abraçamos, mas ficou no meu coração o desejo de escutar por mais tempo a riqueza impressionante das histórias de dor e martírio de uma guerreira de partos, uma heroína tipicamente humana, com todos os defeitos e virtudes que compõem os nossos heróis.

Foto: Bonecas Abayomi. A palavra Abayomi significa “encontro precioso”, aquele que traz felicidade e alegria. Quando os negros vieram de África para o Brasil em navios Negreiros atravessavam o oceano Atlântico numa viagem penosa. As crianças choravam assustadas porque viam a dor e o desespero dos adultos. As mães negras, para acalentar suas crianças, rasgavam tiras de pano de suas saias para fazer bonecas para elas brincarem. Essas bonecas são chamadas de Abayomi. Quando você dá uma dessas bonecas a alguém significa que você está dando o melhor de você para essa pessoa. Este foi o presente que ganhei da comunidade que visitei.

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Rumos

Fatos que teremos de encarar nos próximos anos na atenção ao parto:

O modelo “um obstetra para uma gestante” está moribundo; é um doente terminal. Ele ainda sobrevive apenas a partir de 3 elementos:

  1. A indústria da cesariana
  2. O engodo do “parto normal se tudo der certo”, uma espécie de falsa propaganda criminosa.
  3. Meia dúzia de abnegados Kamikazes que aos poucos vão se aposentando, sendo excluídos, adoecendo, desistindo por exaustão e/ou desilusão.

“Não existe humanização do nascimento sem humanizar e proteger o trabalho dos cuidadores” já dizia meu colega Max há mais de 30 anos. O futuro aponta claramente para as “cooperativas” de parteiras profissionais ou para as Casas de Parto, com pré-natal coletivo e rodízio de cuidadores para atenção no momento do parto. O resto cai nas possibilidades acima.

Quando terminei meu sacerdócio pela humanização estava atendendo 80 pacientes por ano, o que ultrapassa em muito o número de excelência e qualidade. Não tinha férias tranquilas, nem descanso garantido e sequer paz de espírito em função do bullying. Portanto, o trabalho em equipe colaborativa não se trata sequer de uma escolha a ser dada aos pacientes, mas uma imposição para os próximos passos da atenção ao parto.

O tempo dos abnegados e daqueles movidos por pura paixão está no fim. Aceitemos isso e humanizemos (também) os humanizadores.

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Mensageiros Solitários

Fui lavar as mãos no lavabo de casa e percebi a pequena estatueta de vidro por sobre o balcão fazendo companhia à saboneteira e aos livros empilhados. O brilho imponente do objeto me jogou imediatamente para um espaço da memória distante e para uma cidade do interior do Brasil onde ela foi feita. A estatueta foi um presente que ganhei após fazer uma palestra em um hospital, algo que se repetiu mais de uma centena de vezes nos últimos 10 anos.

No último dia de estada na cidade a simpática esposa de um colega me ofereceu o objeto como presente pela minha exposição do dia anterior para um grupo de médicos, enfermeiras, e doulas da cidade. O tema foi “Amamentação e o continuum da Humanização“.

Este colega havia passado recentemente por uma espécie de “epifania humanizadora”, a exemplo de tantas outras que eu testemunhei em minha vida. A partir de experiências traumáticas pessoais ele conseguiu desfazer a capa de insensibilidade que construiu por sobre a atenção ao parto e percebeu o quanto dos seus insucessos eram devidos à inadequação e ao anacronismo de sua prática profissional. Acreditem, esta é a autocrítica mais penosa e dolorida. Também ele havia descoberto esta e tantas outras verdades ao se aproximar da prática das enfermeiras obstetras, as quais lhe ensinaram o valor superior do cuidado e da delicadeza. Marsden, Michel e eu mesmo passamos pela mesma experiência.

Suas ideias eram grandiloquentes e entusiásticas. Com vívida alegria me levou por um “tour” no novo centro obstétrico do pequeno hospital onde, por iniciativa sua, uma banheira de parto estava sendo instalada, assim como vários aparelhos simples e funcionais para o auxílio ao parto humanizado. Ele era puro entusiasmo. Na condição de diretor havia conquistado poder para fazer as mudanças. Falava dos partos ocorridos após sua “conversão” e as lágrimas lhe escapavam dos olhos. Disse que aquela pequena cidade em breve seria um polo de boas práticas para toda a região, a começar pela abolição das episiotomias de rotina, o parto na água, o trabalho das parteiras profissionais, as doulas, os acompanhantes, etc. Seu entusiasmo e sua energia eram contagiantes.

Despedi-me de sua família com a sensação do dever cumprido e com a esperança de que aquela cidade simpática do interior do Brasil pudesse realmente se tornar um exemplo para todo o estado – quiçá o país – irrigando com humanização a aridez tecnocrática daquelas maternidades.

Passam alguns poucos anos e encontrei a doula que estabeleceu o contato inicial entre o colega entusiasmado e eu. Perguntei-lhe como estava meu amigo e como iam os planos de renovação da maternidade e do centro obstétrico.

Sua resposta não poderia ser mais esclarecedora. Disse em apenas algumas palavras, mas que foram um grande ensinamento e uma importante aula de humildade.

– Não sobrou pedra sobre pedra, Ric. Mudou a direção do hospital e ele foi retirado da chefia da maternidade. O novo diretor mandou destruir tudo o que havia sido feito. Desfez a banheira de parto, impediu o trabalho livre das doulas e acabou com a relação de cooperação com as enfermeiras obstetras. Ao ser indagado o novo diretor disse que havia sido pressionado pelos médicos, os quais há tempos estavam insatisfeitos com as mudanças. Sinto muito.

“Mudanças de cima para baixo”, pensei. Meu colega, em seu surto humanizante, estava à frente do seu tempo. Estava inclusive adiante das próprias gestantes a quem desejava ajudar. Bastou ele ser afastado e tudo se perdeu. “Atire no mensageiro”, deviam ter dito seus colegas obstetras ao diretor. Sem ele a liderar as mudanças não haveria massa crítica e muito menos lideranças femininas para dar continuidade às suas mudanças. O tiro foi certeiro; com o mensageiro derrubado a mensagem se apagou junto com a última chama de entusiasmo que carregava.

Ficou doente, teve um AVC e se aposentou,  completou ela com resignação. Agora teremos que começar do zero.

Suspirei fundo e respondi que não seria do “zero”, pois agora já sabiam que nenhuma revolução pode florescer confinada em uma única cabeça. Agora já é possível entender que a luta precisa surgir do coração de cada mulher oprimida por um sistema violento e arbitrário. Se lutadores como o meu colega são importantes e bem-vindos muito mais essencial é cultivar um movimento que não dependa de uma única alma liberta e esclarecida. É preciso formar uma consciência tal que a troca de um líder não afete a progressão das mudanças.

A verdadeira revolução do parto virá das mulheres, ou não virá.

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