Arquivo do mês: novembro 2020

Estupro

Imagem meramente ilustrativa

Eu acabei me convencendo da possibilidade de “estupro culposo” (reconheço que o termo é horroroso) quando tomei conhecimento um caso rumoroso da Inglaterra amplamente divulgado há alguns anos. Inclusive fiquei sabendo do caso num fórum de feministas que estavam analisando o caso sem ódios ou revanchismos. Elas inclusive concordaram com o resultado do júri.

Imaginem a situação. Uma menina de 12 anos, junto com sua amiguinha, encontram um rapaz em uma parada de ônibus à meia noite de uma sexta feira no centro movimentado de uma grande cidade inglesa (Londres?). Ele conversa amistosamente com ambas e avisa que está indo para uma festa em outra parte da cidade. Ambas combinam encontrá-lo lá mais tarde e assim o fazem. A menina reencontra o rapaz na festa (que ocorria na casa de um amigo seu) e eventualmente eles mantém relações sexuais de forma claramente consensual. Ela pega no sono e pela manhã se despede do rapaz e vai para casa. Trinta dias depois os pais descobrem o que houve (ela confessou) e acusam o rapaz de estupro de vulnerável.

Estupro, não? Uma menina de 12 ANOS!!! Sem nenhum tipo de justificativa, certo?

Sim, mas há alguns detalhes que oferecem uma perspectiva ao menos atenuante para este caso. Na trajetória a partir do encontro na parada de ônibus, pela rua até o endereço determinado e dentro do local da própria festa – onde foi várias pessoas encontraram a menina – todos foram enfáticos em dizer que ela aparentava ao menos 20 ANOS DE IDADE. Todos os aspectos sexuais secundários eram de uma mulher sexualmente madura – tamanho, pelos, seios, cabelos, etc. Chama a atenção o depoimento do policial que indicou o endereço a elas: “Sim, lembro de ter ajudado duas moças, ao redor de 20 anos, a encontrar a rua, as 2h da manhã”.

Quando chegou à festa alguém perguntou sua idade, ao que ela respondeu “18 anos” provavelmente com medo de não poder ficar lá e ser convidada a se retirar. Algumas horas após chegar teve relações com o mesmo rapaz que havia encontrado anteriormente na parada do ônibus, e o fez de forma absolutamente consensual, sem despertar nele nenhuma dúvida sobre sua idade ou suas intenções.

Lembro bem da dúvida entre as feministas inglesas sobre esse caso. O rapaz era de ótima índole, estudioso e íntegro. Afirmou categoricamente ter sido enganado pela menina. As testemunhas TODAS afirmaram que ninguém poderia desconfiar que ela era menor de idade. O policial reafirmou isso, até porque se suspeitasse que se tratava de uma criança teria retido ambas as meninas por estarem numa rua movimentada no centro da cidade sem adultos por perto e às 2h da madrugada.

A conclusão do júri foi essa mesmo: estupro, porque foram relações com uma menor de idade, (mesmo que consensuais), mas culposo, porque a menina enganou a todos sobre sua idade. Não só pela aparência mas também ao anunciar na festa que tinha 18 anos (quando tinha, na realidade quase 13). Concluíram que, apesar de ser menor de idade, sua aparência não permitia que essa idade fosse revelada. Além disso, mais do que omitir, ela mentiu sua idade para poder permanecer na festa para qual havia sido convidada.

Relato esse caso em nome da correção do TERMO e não trazendo relação com o caso da menina em Santa Catarina, que tem características bem distintas (neste caso em Santa Catarina o estupro não estaria caracterizado pela idade, mas pela alcoolemia). Apenas me convenci que é possível haver tecnicamente um estupro (por ser a vítima menor de idade) sem intenção ou dolo (porque a vítima, mais do que omitir, falseou a sua idade).

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Tratamento Indigno

Eu acho que a função de um advogado é defender seu cliente com as armas possíveis dentro da lei. Portanto, sua fala ao atacar a vítima, apesar de absurda e violenta, pode ser entendida como estratégia de quem está sendo pago para defender. Entretanto, existe um juiz cuja função é exatamente IMPEDIR que a estratégia de humilhação e ataques à honra da vítima tenha seguimento. É por isso que ele está presente na audiência, que não pode ser entendida como “terra sem lei” ou como “vale tudo”.

Não se pode admitir isso. Se a ação do advogado foi nojenta e desprezível, a atitude do juiz foi CRIMINOSA, pois permitiu que o teatro macabro e estúpido de uma das partes tivesse espaço dentro de um lugar que deveria ser acolhedor para quem afirma ter sofrido uma violência.

Existem duas questões neste caso, e ambas são estarrecedoras. A primeira é a sentença aberrante e inacreditável, com a criação da entidade “estupro culposo” inédita e bizarra, mas que ainda precisa mais bem entendida, para que sua construção estranha (estupro + culposo) não cause confusão e acirre os debates.

A segunda – e muito mais importante – foi a forma indigna e aviltante de tratar uma depoente, que reclamava ser vítima de violência sexual, em um tribunal, como se fosse ela a abusadora e não aquela que pode ter sofrido o mal em seu corpo e sua alma. A cena nos remete ao circo romano, onde os homens na galeria se regozijavam com o sofrimento da pobre criatura entregue aos leões.

Agora, ao invés de se revoltarem com a carnificina oferecem apenas o ódio que escorre pelos cantos da boca, o deboche, o sarcasmo e a indiferença de quem, diante de tanta barbárie, silencia e permite que a matança continue.

PS: a expressão “estupro culposo” consta de uma fala obtusa e inconsequente do promotor, mas não está presente na sentença. E eu acho que a análise que foi feita por alguns especialistas mostra que a sentença está correta: não há elementos para produzir a convicção de culpa. Mas, mesmo reconhecendo o acerto da sentença, nada justifica o tratamento violento dispensado à menina. Não é necessário – muito menos correto – tratar uma mulher que presta esta queixa com tamanha agressividade.

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Espiritismo e Racismo

Seria absurdo imaginar que a doutrina espírita não estivesse embebida no caldo cultural do século XIX. Está foi a época áurea do colonialismo europeu em África e Ásia, o qual causou milhões de mortes e produz repercussões até os dias de hoje.

Seria surpreendente que Kardec, diferentemente de todos os pensadores europeus do seu entorno, tivesse uma posição diferente do racismo “científico” de sua época. Esta vertente do modo de pensar do século XIX desembocou na eugenia que invadiu ainda boa parte do século XX e contaminou o pensamento de inúmeros literatos, cientistas e pensadores de várias áreas, em especial a medicina.

Portanto, o espiritismo nascente era mesmo racista, como era toda a cultura europeia no tempo de seu surgimento. Não há porque negar este fato. Por outro lado, é necessário fugir do anacronismo simplório e entender qualquer sujeito e todo ramo de conhecimento inseridos nos valores vigentes em seu período de aparição. Criticar o espiritismo de meados do século XIX usando as regras de hoje não é correto ou justo.

Cabe aos espíritas atuais não apenas rejeitarem este racismo, mas serem vigorosos combatentes anti racistas exatamente pelo estudo do ideário espírita, que ao desvendar a realidade do espírito deixa qualquer diferença moral e intelectual de raça e gênero como sendo tola e sem sentido.

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1500

Hoje alcancei o artigo de número 1500 no meu humilde blog “Orelhas de Vidro”. Não é muito quando comparado às pessoas que realmente escrevem e sabem fazê-lo. Entretanto, eu comecei a escrever pelas razões mais clichês do mundo: uma grande angústia e a percepção clara do término que se aproxima. Achei que deveria deixar escritas as minhas ideias, assim mesmo escondidas em um blog, mas que poderiam produzir curiosidade em algum passante desavisado que se interessasse por isso no futuro.

Fui um “late bloomer”; comecei a escrever de verdade aos 40 anos e nunca mais parei. Escrevo freneticamente todos os dias. Não me preocupo com a qualidade, por certo, apenas em verter meus pensamentos para a escrita, como percebendo que, se não forem para o papel, estarão perdidos para sempre “como lágrimas na chuva”. Como diria meu irmão: “A qualidade é desprezível, o que importa é a quantidade”.

Há muitos anos uma paciente de seus 60 anos me contava de suas agruras, dores e desventuras. Morava com seu sobrinho de 20 anos de idade, “um menino muito complicado, doutor”. Disse-me que ele era a fonte de todas as suas preocupações – que acabavam vertendo para o corpo. O garoto veio morar com ela porque sua mãe – irmã da minha paciente – estava doente, com câncer, e não deveria durar muito pois o estado da doença era avançado.

– É por essa razão que ele é tão complexado, doutor. Ele não perdoa a mãe e reage com ódio, como se fosse se vingar dela atacando o mundo todo.

Pedi que continuasse…

– Ela engravidou com 15 anos doutor. Cuidamos da sua gravidez e depois ela passou a morar com nossa mãe e nosso pai. Dedicou-se a cuidar do seu filho e nunca mais quis saber de namorar. Depois que eles morreram ela continuou na casa cuidando dele, porém nunca aceitou nos contar quem é o pai. Na adolescência diante da insistência do meu sobrinho de encontrar seu pai biológico, ela disse: “Esse nome vai morrer comigo. Eu jamais direi quem é seu pai”. Havia muito ódio em suas palavras, mas o menino jamais aceitou esta negativa. Diante dos seus reiterados pedidos ela se fechou, a relação entre ambos se deteriorou e ele veio morar comigo, mas carrega consigo essa revolta, esse ódio. Por muitos anos tentei explicar à minha irmã que nenhum nome seria pior do que o seu silêncio, mas ela se manteve calada. Agora, doutor, ela está morrendo. O nome desse homem, como ela mesmo me disse, descerá ao túmulo com ela e meu sobrinho jamais poderá encontrar seu pai.

O peso dessas palavras eu sinto até hoje. O menino sabia que a morte da mãe enterraria um pedaço de si mesmo, e por isso não conseguia perdoá-la. A dor de ambos era violenta e corrosiva, mas podia ser sentida por mim, mesmo à distância.

Eu lembro dessa história porque é assim que me sinto a escrever. Cada história, cada piada, cada relato, cada lembrança vem carregado com o “nome do pai” que eu preciso dizer. Várias vezes, repetidas vezes. Escrevo porque não quero morrer sem dizer. Não quero descer à terra sem contar algo que só eu vi, uma perspectiva só minha ou uma ideia que me veio à mente repentinamente.

Escrevo apenas para dizer a mim mesmo que consigo enxergar, na curva da esquina, o dia em que estas ideias vão se desmanchar, perdidas no infinito cósmico. Como poeira de estrelas voltando ao sol.

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Valão

Há exatos 13 anos eu trabalhava em uma creche popular da capital fazendo trabalho voluntário. Essa instituição estava em uma vila extremamente pobre da cidade, uma zona de proliferação de doenças endêmicas, subnutrição e violência doméstica, cortada por um valão imundo e malcheiroso e controlada por uma facção poderosa do mundo das drogas. Uma vez uma equipe do Canadá veio me visitar para uma entrevista sobre humanização do nascimento no Brasil, e foi lá – no meio da miséria exposta de uma cidade grande – que resolveram gravar a matéria. Mas este é outro assunto…

Esta creche era controlada por uma freira extremamente carismática e poderosa. Próxima dos 70 anos, era extremamente respeitada na comunidade, inclusive pelos chefões das “bocas de fumo”, a quem recebia em sua salinha acanhada como uma verdadeira líder. Era também respeitada nos círculos da prefeitura e da Assistência Social do município, por ter uma personalidade forte, altiva e trabalhadora.

Um belo dia ela abre a minha sala de consultas com ar extremamente preocupado. Veio me dar uma notícia que considerava extremamente grave.

– Ele vai entrar com caminhões e retroescavadeiras, Ric. Vão invadir tudo aqui. Ele não tem respeito algum por nós, vai botar tudo abaixo!!”

Pedi que ela respirasse fundo e me contasse vagarosamente. “Ele”, era o prefeito, a ameaça atual. Prometera em uma reunião na qual ela esteve presente que um dos próximos projetos da prefeitura seria fechar o córrego imundo, o esgoto a céu aberto que dividia a comunidade, saneando a vila, acabando assim com as doenças surgidas da sujeira. Para isso precisaria derrubar e realocar os casebres que teimavam cair para dentro do valão.

– Mas irmã, ponderei, não é uma boa notícia? Não deveríamos estar felizes que a municipalidade resolveu finalmente olhar para essa parte esquecida da cidade? Não lhe parece uma bênção que um prefeito tenha finalmente prestado atenção em nossa existência?

Minhas palavras pareciam não fazer sentido para ela. Ela continuava ansiosa e agitada, e me descrevia a promessa como uma invasão, a destruição do seu lugar, da sua vila, da sua comunidade.

– Não confio nesse prefeito. Ele não tem boas intenções. Tudo o que ele quer é desmanchar nossa comunidade, botar tudo abaixo, fazer uma avenida cheia de carros cruzando aqui pelo meio, disse ela apontando para a margem do córrego.

Tentei mais uma vez argumentar, mas sem sucesso.

– Não me parece nada disso, irmã. Prefiro acreditar que essas coisas inevitavelmente aconteceriam. Um dia alguém daria um basta a esta vergonha, esta pobreza, esse descaso. Talvez, no futuro sequer será necessária a existência desta…

Parei. Foi nesse momento que olhei nos seus pequenos olhos azuis e percebi onde residia a sua angústia. Envergonhado, parei de falar sem terminar a frase. Ela, por caridade, fingiu não perceber que eu havia encontrado o âmago do seu desespero.

Uma vida toda ligada a curar feridas, oferecer comida aos famintos, ensinar meninos na arte da confeitaria, aulas de dança, creche e berçário para mulheres imersas na pobreza, acolhendo os viciados que a ela recorriam e se tornando a grande referência na comunidade, mais conhecida até que o próprio Papa, a quem devotava suas preces diárias. E agora, um prefeito janotinha pretendia acabar com a sua clientela. Os outrora famintos, desnutridos e ávidos de caridade poderiam receber pelas mãos do governo o que ela sempre ofereceu por caridade e amor. O progresso poderia acabar com sua importância, seu trabalho, sua missão de vida e até com sua identidade.

Pela primeira vez tive contato com esse sentimento paradoxal: a aceitação da dor alheia pelo gozo de ser o remédio. A irmã tratava os moradores da vila como seus próprios filhos e agora sofria as dores do abandono que se anunciava. Como toda mulher que vê os filhos saindo de casa, ela também sofria pela perda de sua família e sua função.

Em seus olhos pude ler, escrito com as tintas de suas lágrimas: “e se todos forem, o que será de mim?”, e pude entender sua dor e sua angústia.

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Racismo invisível

O sucesso do negro no Brasil é crime hediondo, insuportável. Digo também que o sucesso do nordestino pobre com dedo faltando também machuca aqueles que não aceitam a ascensão das camadas mais baixas da sociedade. Por isso Lula é atacado e Fernando Henrique, o “príncipe”, poupado. Por isso Pelé foi duramente ofendido (chamado de “ser humano desprezível”) no seu aniversário por seus problemas familiares (o reconhecimento de uma filha fora de seus casamentos), mas Simone, socióloga francesa, chique e branca, jamais foi atacada por sua defesa da pedofilia. Ou quando citam Marie Curie e não falam do abandono de seus filhos. Não, elas eram brancas demais para merecer o mesmo tipo de ataque destrutivo que o Rei do Futebol recebe há tantos anos. Afinal, para elas vale a regra: “os gênios são esquisitos mesmo”.

Não esqueçam que, antes do caso da filha que faleceu de câncer, Pelé era acusado de não ter ajudado Garrincha diante de suas mazelas com o alcoolismo e a falta de dinheiro – como se Pelé tivesse obrigações com o craque das pernas tortas. Isto é: Pelé jamais teria perdão, e o crime poderia ser escolhido dependendo do gosto do acusador.

Sim, diante da chuva de ataques ao Pelé por suas fragilidades e seus pecados, e diante da constatação de que isso nunca foi feito com os defeitos de Ayrton Senna (entre outros ídolos esportivos) fica inegável para mim que há também – mesmo que de forma inconsciente – um ataque a um “negro metido a besta”, que nunca aceitou seu lugar.

O racismo se assemelha à violência obstétrica nesse ponto: tanto mais forte quanto mais inconsciente e mais disseminado silenciosamente pelos “costumes”. E veja: pode-se ser racista travestido das melhores intenções, assim como as piores violências de gênero contra as gestantes podem ser cometidas ilustradas com a famosa frase “aceite, é o melhor para você”.

Para ver a fala de Emicida sobre o tema no “Papo de Segunda” do GNT, clique aqui.

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Gêmeos

Hoje é o dia da eleição americana mais importante deste século. Repito o que disse sobre a eleição americana há poucos dias: Biden e Trump são gêmeos, filhos dos mesmos pais: o capitalismo predatório e o imperialismo. Pior ainda: filhos de pais alcoolistas, decadentes e que estão desempregados, olhando pela janela o raiar do sol brilhante da China… comunista. Porém, como todos os gêmeos, eles não são iguais; uma política racial mais justa, uma proteção maior ao meio ambiente, o apoio aos pobres e aspectos na saúde pública fazem as sutis diferenças que os distinguem.

Entretanto, mais ingênuo do que dizer que são candidatos idênticos é afirmar que a imensa e gritante semelhança entre ambos é desprezível. Ambos representam o império, a força bruta militar, a infinidade de guerras por petróleo e os golpes na América Latina. Biden e a “Imperatriz Kamala” não sinalizam nenhuma mudança na política externa americana em direção à paz, e a experiência com os democratas no poder sinaliza o oposto. Portanto, é justo temer que o mundo estará mais inseguro com o senil Biden no poder, cuja única virtude inquestionável é “não ser Trump”.

E tem mais: Biden é menos pior que Trump, mesmo sendo líder da maior organização terrorista do planeta: o partido democrata americano. Nossa torcida ainda assim é por Biden pela promessa de desidratar o genocida que temos aqui, mas não tenham ilusões de que algum político americano terá condições de tirar dinheiro dos bilionários que controlam sua economia. Esse sistema eleitoral foi criado para impedir que o povo tenha acesso ao poder.

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Sussurro

No sofá do canto da sala ajeitei meus pés sobre o espaldar e deitei meu corpo sobre o chenille gasto. Apoiei a cabeça sobre a almofada enquanto ouvia no canto oposto a risada tímida e contida de Margareth. Seus olhos verdes e salientes ainda produziam o mesmo contraste com o nariz arrebitado que tanto me encantara. O jeito de rir das piadas, quebrando as palavras em suas sílabas, conjugado com sua vivacidade curiosa sempre me atraíram de forma magnética. Durante anos ela ocupara um lugar central em minhas fantasias, mas as circunstâncias haviam fatalmente nos afastado. Minha posição era, portanto, mais do que desconfortável. Enquanto ainda sorvia seus encantos, seu perfume, sua delicadeza e me banhava nas memórias cálidas de nossas conversas e cafés compartilhados, minha morte recente não me permitia mais do que o deleite solitário de suas qualidades e o brotar de lembranças envolventes.

O sujeito a cortejá-la poderia enganar a qualquer um. Bem-vestido e com cabelo vistoso, com madeixas descoloridas a lhe cair sobre a fronte, parecia um playboy clichê do cinema italiano. A Comissão sabia muito bem de suas intenções e do perigo que representava, e coube a mim a tarefa de estar próximo a Margareth nesse encontro. Nossa amizade e a indisfarçável atração que nutri por ela durante tantos anos, me faziam a pessoa adequada para esta tarefa. Mas, por certo, tornavam a missão igualmente dolorosa.

Como recém-chegado, eu ainda não tinha pleno domínio das habilidades de convencimento dos encarnados. Para piorar, o curto período de treinamento não era capaz de nos oferecer o talento de encarar nossas próprias fantasias ou de controlar os impulsos eróticos que (surpresa!!) não se desfaziam com a morte. Margareth repousou a mão sobre o joelho e ergueu o queixo em direção ao homem que segurava a pequena caixa adornada com fitas coloridas em suas mãos. Sua postura indicava a frouxidão de suas defesas, o arrebatamento iminente das últimas barreiras. Em questão de minutos ela estaria sob o domínio completo do homem que planejava, inconscientemente, destruí-la, como já havia feito com tantas outras.

Era o momento de me erguer, sussurrar em seu ouvido as palavras que o instrutor me fizera repetir por tantas vezes e esperar que o gelo da razão fizesse seu coração se acalmar. Se não foi possível dizer tudo o que desejava em vida, que dissesse agora, após morto, o que era preciso.

Lisbeth Ellsworth, “The Spiral of Lust”, ed. Latina, pág. 135

Lisbeth Ellsworth nasceu em Tegucigalpa, filha de pais americanos. Seu pai era bispo da Igreja Presbiteriana de Honduras, mas teve que voltar às pressas para os Estados Unidos durante as rebeliões patrocinadas pela CIA neste país – assim como toda a América latina – nos anos 80. A primeira infância de Lisbeth foi envolvida com atentados, bombas, greves e muito medo. Quando voltou com a família para os Estados Unidos foi morar em Corpus Christi, no Texas, e estudou na Callalen High School. Ao terminar o highschool ingressou na Universidade do Texas onde se graduou em literatura hispânica. Escreveu seu primeiro livro “Streets of Arcieri” ainda na escola secundária, ganhando o prêmio literário júnior ao falar sobre o bairro pobre onde se localizava a Igreja que seu pai comandava. Escreveu 4 livros de contos além de “Spiral of Lust”. Hoje mora em Los Angeles, tem dois filhos e é casada com o crítico de cinema Francis Hubbard.

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