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O Jardineiro Fiel

No corredor comprido e gelado do Hospital escola subitamente escuto uma voz ao meu lado, de alguém que acompanhava meus passos.

Ricardinho, disse ele. Quanto tempo!!

Olhei para o lado e encontrei um rosto conhecido. Sim, Gustavo – ou Guta – um amigo de infância, colega de escola. Jogamos muita bola juntos. Ele tinha um irmão mais moço, cujo nome não lembrava. Percebi que ele carregava uma enorme pasta, quase uma mala, e estava vestido de terno e gravata. O sorriso fácil estampado no rosto não deixava dúvidas: ele era um propagandista da indústria farmacêutica, profissionais que circulam dos hospitais fazendo publicidade dos seus remédios e oferecendo brindes, presentes, amostras grátis e outras facilidades para os médicos.

Foi muito cedo que eu conheci a Ciranda de benefícios, agrados e presentes que cercam os médicos nesta junção entre medicina e capitalismo. Ainda na faculdade assistíamos as apresentações dos propagandistas nos intervalos das aulas no hospital. Já naquela época recebíamos deles todo o tipo de agrado. Quando estava no último ano da Escola Médica, prestes a me formar, fomos em um grupo de doutorandos e residentes de ginecologia para um congresso sobre DST no Uruguai, onde um trabalho nosso seria apresentado. A viagem de ônibus – assim como os jantares, os lanches e até a bebida – foram pagos pelos laboratórios farmacêuticos. Era a semeadura, para que depois pudessem fazer a colheita.

– Conheces o Dr. F. aqui do hospital? perguntou meu amigo.

– Por certo que sim, Gustavo. Ele é o chefe do serviço. A equipe dele se reúne todas as segundas feiras. Precisas falar com ele?

– Ahh, se você pudesse me arranjar um encontro, mesmo informal aqui na cafeteria, isso seria o máximo. Eu represento o Laboratório N* e estamos lançando uma nova droga. Chama-se…

Ele me descreveu com pormenores o remédio que estava querendo apresentar ao meu chefe. Tratava-se de um medicamento anti-inflamatório não esteroidal, algo que nos próximos anos se tornaria um tremendo sucesso. Ele parecia excitado em me falar dessa droga, de tudo o que ela prometia, e como era importante que ela fosse padronizada na prescrição do hospital escola.

– Guta, disse eu, não passo de um mísero residente. Não tenho influência alguma sobre um médico famoso e importante como ele. Não creio que possa lhe oferecer ajuda.

Ele continuou com seu sorriso largo e explicou:

– Preciso chegar lá em cima, Ricardinho, nos chefes. É assim que funciona esse meu trabalho. Ele é um formador de opinião; se ele resolver padronizar “meu” remédio aqui e, mais ainda, se ele incorporar esta nova droga ao seu receituário pessoal não será sequer necessário falar com vocês. Ele é o “Papa”, e aquilo que o Papa escreve, os padres e as freiras copiam. Sacou? Por isso preciso “pegar” ele, o peixe grande.

Sorri para o meu velho amigo e o abracei. Desejei boa sorte e sucesso em sua empreitada. Hoje sei que foi plena de sucesso, já que o seu remédio se tornou um negócio multi milionário e um campeão de vendas. Mas, não foi a publicidade da droga o que ficou guardado em minha mente, nem a gravata extravagante ou o sorriso sedutor de meu amigo. O que eu nunca mais esqueci foi que aquela foi a primeira vez que me vi como “gado”, a ponta de lança de um negócio gigantesco, milionário e – muitas vezes – corrupto.

Depois de alguns anos desenvolvi um completo rechaço à mercantilização medicamentosa da saúde. Percebi o quão danosa esta relação entre dinheiro e saúde poderia ser e passei a ter uma visão crítica e – por vezes – ácida sobre estas questões. Com o tempo os propagandistas de medicamentos foram aos poucos deixando de me procurar, apesar de sempre tê-los tratado com educação e gentileza. Eu não era mais alguém em quem valia a pena investir tempo ou dinheiro.

Todavia, sempre fui fascinado por esse aspecto sombrio da medicina. Os propagandistas eram todos muito jovens (e os coroas, joviais), graduados na universidade, excelentes salários, bonitos, simpáticos, educados. Depois de alguns anos chegaram as mulheres. Uau, algumas eram de tirar o fôlego: sensuais, reservadas, simpáticas, lindas, conhecedoras do assunto. Todos eles nos envolviam magicamente apresentando os remédios com estudos de questionável qualidade, estatísticas igualmente frágeis, mas acompanhados de uma apresentação impecável.

Com os propagandistas aprendi muito. Não sobre drogas e seus usos, mas sobre o submundo da medicina. Depois de muitos anos eles acabavam criando confiança em mim e contavam o que ouviam nos consultórios.

– Um colega seu, aqui da Rua da Praia, ontem mesmo me disse: “Eu sempre prescrevi seu concorrente, mas posso mudar minhas receitas. O que você tem a me oferecer? Uma passagem de avião para o próximo congresso? A inscrição? Diga, o que eu ganho por esta troca?

– Sério? O pessoal trata vocês assim? Pedem agrados, presentinhos, passagens, inscrições….. propina? Em troca de uma mudança de receituário?

– Sim, claro. Nem sabe como é para montar os congressos. A jogada é assim: quando compram um “stand” de promoção de seus produtos isso lhes dá direito a uma palestra para promover um determinado medicamento. Podem convidar os seus próprios pesquisadores, sejam daqui ou do exterior. Acredite, sempre rola muita grana nesses eventos.

– Claro, mas esses agrados são só para os grandes, os “chefes de serviço”, os formadores de opinião. A chinelagem, o gado…. recebe uma caneta com o nome do remédio.

Dizia isso e mostrava para eles a canetinha que acabara de ganhar. Eles davam uma risada constrangida, tentavam explicar, mas era óbvio que eu era a ponta menos importante da equação das vendas. Peixe pequeno quando comparado àqueles que devotavam boa parte da sua energia para ocupar estes postos de poder. Agora eu entendia de onde vinha tanta energia para as disputas ferozes e violentas que meus colegas empreendiam para subir de importância dentro da corporação.

Com o tempo estes personagens foram escasseando da minha sala. Não vinham mais nem para tomar o sagrado cafezinho. Na volta do almoço eu os via aglomerados esperando os meus colegas de andar voltarem para as consultas da tarde. Eu ficava tentando imaginar como eles me enxergavam. Talvez como o tolo, o iludido, o ingênuo, o burro. Afinal, que mal poderia haver em receber estas amostras grátis, as suas belas palavras, suas agendas e seus porta-canetas?

Minha explicação para eles sempre foi: “Ninguém faz propaganda de pastel. Se estas empresas precisam contratar alguém como vocês para me fazer prescrever esta droga é porque, sem toda essa sedução, ela não se sustentaria”.

Já nesta época já me vinha à cabeça uma frase que me acompanhou até meu último dia de consultório: “Se a saúde baseada em evidências fosse realmente levada a sério a medicina praticada a partir de então seria um espetáculo completamente irreconhecível por nós”. Nenhuma propaganda seria necessária e os poucos medicamentos administrados seriam facilmente encontrados e muito baratos. As consultas seriam ricas de detalhes, plenas de envolvimento afetivo, orientação, exercícios, educação sobre caminhadas, comida de verdade, sexo, alegria, família, futebol, gargalhadas, etc.

Porém, nunca me deixei iludir. Eu bem sabia que a nossa medicina, capitalista e decadente, ainda reinaria por muitos anos, lucrando com nossas doenças e com nossa infelicidade.

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Idealizações

Toda a paixão por uma causa leva fatalmente à idealização. Mulheres, negros, índios, partos, gays, trans, socialismo, religião e todas as outras causas nobres sucumbem – mais cedo ou mais tarde – a este tipo de arapuca.

Não há como evitar. Se o motor é a paixão, e sendo ela irracional, como evitar que estas ideias fujam das rédeas frágeis da razão? Com o tempo o ativista percebe que seus pés se afastaram tanto do chão firme que não existe mais contato possível com a realidade. Tudo em volta é etéreo e moldável, como o desejo, e a realidade é vista através de um funil que tanto focaliza um fato quanto apaga o mundo ao redor

A maturidade de uma luta parte do arrefecimento desse afã juvenil, que tanto impulsiona quanto oblitera a visão. Amadurecer é aceitar o recuo das paixões para que se estabeleça um contato mais racional com nossas causas e propostas.

Como no amor.

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Divisionismo

Esse é o divisionismo que me irrita. Grupos contra hegemônicos normalmente tem divisões internas, algumas relevantes e outras não. O feminismo se fragmenta, o movimento negro também e os LGBT também, o que não é necessariamente ruim, mas deve ser colocado em perspectiva quando existe uma luta comum a todos dentro do grupo, como o racismo, o patriarcado, a homo e transfobia, etc.

Essa é a tática, tão antiga quanto atual, e que ainda funciona: dividir para conquistar. Colocar mulheres contra si, negros odiando negros, latinos desprezando latinos, gays atacando outros gays.

No fim aparece alguém com coragem suficiente para desagradar uma parte do seu grupo em nome de fazer algo, dar um passo à frente e mudar a paisagem, elevando o debate para um novo patamar.

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Iconografia

A expressão do rosto de ambos é o que deveria ser mostrado nas novelas, nos filmes e apresentado para as crianças na escola. A felicidade contagiante da imagem conta mais sobre a realidade profunda do parto do que compêndios de obstetricia, por conjugar de forma holográfica uma serie de verdades escondidas. A iconografia do parto, desde que a Medicina se apoderou do evento patologizando-o no seu intento expropriativo, nos deixou como legado as imagens da dor, do abandono, do sofrimento, do medo e do horror. Por muitas décadas a face do parto foi a emergência, a tragédia, o drama e a defectividade essencial do processo. A culpa seria, a partir de então, das das mulheres e seu mecanismo falho, seus úteros débeis e suas vaginas dentadas.

Por outro lado, desde a emergência da especialidade médica no parto, o canto de sereia da alienação feminina do evento se fez ouvir. Primeiro ao admitir que cirurgiões operando na lógica da intervenção tomassem conta de um evento fisiológico, onde a regra deveria ser da não-intervenção, do respeito aos ciclos e da paciência com os tempos. Depois retiraram das mulheres a ambiência calorosa e reasseguradora que por milênios as cercou, levando-as para hospitais frios e assépticos, onde a lógica que contamina suas paredes é a da doença e das ações etiocêntricas.

Ato contínuo, a família foi apartada da gestante, os bebês de suas mães, o leite foi separado do peito e os cirurgiões se tornaram os intermediários entre os núcleos familiares e a cultura patriarcal, usando o momento de pura energia transformativa como uma porta de entrada para doutrinar mães e bebês para seu lugar submisso na cultura.

A obstetricia, assim estabelecida, vem a se tornar um braço poderoso do patriarcado na cultura do Ocidente.

A partir desses dois pontos – os cirurgiões no comando e o parto hospitalar – o caminho para a total alienação do parto estava pavimentado. O controle panóptico do pré-natal, as drogas, os exames, as ultrassonografias (em sua maioria) inúteis e invasivas, a ilusão biologicista do controle total e a mecanização extrema de todo o processo foram os seguimentos naturais.

A foto perturbadora de um casal sorrindo e feliz no momento do nascimento, experimentando essa passagem com êxtase e alegria, causa espanto porque o modelo obstétrico, ao tornar esse momento um “ato médico” não consegue apreender a gama infinita de manifestações sociais, fisiológicas, emocionais, psicológicas e espirituais que esse evento comporta. Ao se ater apenas nas questões mecânicas e biológicas, com foco especial na patologia e cobertos pelo manto do medo, é natural que as cesarianas – com sua imagem ilusória de segurança, limpeza, ciência e silêncio – se tornassem a fotografia padrão dos nascimentos no Brasil.

Criamos um mapa tão distante da realidade que a essência profunda do parto desapareceu e, quando sua real imagem aparece na tela da cultura, ela causa espanto e assombro.

Para mudar a cultura do parto também é necessário mudar sua iconografia. Cabe a nós, testemunhas do milagre, retratá-lo em sua mais completa grandiloquência.

Foto de Anna Galafrio

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Jean Wyllys e a Palestina

Eu gosto de algumas posições do Jean e muitas das causas que ele defende, apesar de ser critico de algumas outras. Por isso mesmo, por admirar sua coragem e apoiar algumas pautas (como a humanização do nascimento), eu fiquei profundamente decepcionado com sua ida à Palestina, através de um convite mequetrefe da Universidade para debater “diversidade”, caindo no alçapão do pinkwashing sionista. Enquanto estava lá, no “convescote racista” do qual participou, ele chegou a escrever alguns textos defendendo sua presença no seminário. As explicações eram eivadas do mais primário dos relativismos, ao estilo “os dois lados tem suas culpas”, “é preciso paz“, “o terrorismo precisa acabar“, “Israel tem o direito de existir“, “não aceitamos antissemitismo“, etc. Para terminar oferece a novidade de propor a “solução de dois Estados”, um judeu e outro árabe palestino.

Ora, qualquer um que se debruça sobre o tema sabe que a solução de dois Estados foi boicotada por Israel. O plano SEMPRE foi, desde 1948, a limpeza étnica e o genocídio. Hoje, com as invasões sistemáticas da linha verde, a solução de dois Estados é impossível, e só resta a solução de UMA Palestina – como nação multiétnica. Uma nação, vários povos. Como a Bélgica ou a Suíça, por exemplo, ou mesmo a África do Sul, que venceu o Apartheid. Jean é o representante da esquerda sionista no Brasil que precisa ser confrontada, que precisa parar de beber da propaganda de Israel e reconhecer os crimes à humanidade perpetrados contra a população Palestina nativa.

Entretanto, por Jean ser homossexual e negro, ele sabe muito bem o que é preconceito, racismo e exclusão. Tenho a esperança de que esta conversa com Lula seja mais um tijolo a edificar uma troca de postura diante da causa Palestina. As pessoas podem aprender com seus erros e rever suas posturas.

Espero que Jean tenha a sabedoria para apagar esta mácula em sua biografia.

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Filmagens

Sobre permitir filmagens de hospital somente mediante autorização. Para debater…

Sim, mas já pensou quem dá autorização para que o hospital seja filmado e fiscalizado? O delegado? O diretor do hospital? O diretor da maternidade? E dará em que circunstâncias?

Eu acredito que o melhor para o serviço público é ser absolutamente transparente. Como nos Estados Unidos (nas poucas coisas que eu concordo com as leis de lá): pode filmar tudo que seus olhos puderem enxergar em espaços PÚBLICOS. Não há expectativa de privacidade quando se está na rua ou em lugar de livre acesso. Qualquer cidadão com um celular na mão tem prerrogativas de “imprensa” e pode controlar e registrar o que é feito com o seu dinheiro aplicado nos impostos. Cada cidadão se torna um FISCAL do uso do dinheiro público.

Isto é: Pode filmar a polícia, os hospitais, a prefeitura, o trabalho dos funcionários públicos, desde que (e aqui o ponto FUNDAMENTAL) esteja em um local aberto ao público. Assim, você não pode invadir a sala de parto ou a sala cirúrgica de um hospital, mesmo que sejam hospitais PÚBLICOS. Não pode invadir a sala de interrogatório de uma delegacia de polícia ou a sala do prefeito, pois são espaços (de acesso) RESTRITOS, usados apenas por quem lá trabalha.

Uma medida como essa parece ser de proteção aos profissionais da saúde que são ameaçados por familiares pacientes – em especial os bolsonaristas hoje em dia. Entretanto, a resposta da sociedade para proteger profissionais e o seu trabalho não pode ser ESCONDER ou impedir que sejam registradas as suas ações que são públicas. Este tipo de “censura” serve muito bem aos governos totalitários que dificultam o acesso às informações do que ocorre dentro de espaços que, em última análise, pertencem a todos nós.

E vejam só…. percebam o que ocorreu com a assistência ao parto quando os centros obstétricos foram lentamente “invadidos”, primeiro pelos pais e acompanhantes nos anos 80, e depois pelas doulas neste século. Quantas transformações ocorreram exatamente porque as ações dentro do centro obstétrico puderam ser vistas, testemunhadas, fiscalizadas e registradas.

Mesmo que muitos profissionais tenham sido prejudicados por esta vigilância o saldo para a população é positivo. Muito mais importante é descrever as alas restritas dos hospitais e permitir que seja registrado o que está acontecendo, porque o segredo e a censura nunca são estratégias positivas em longo prazo.

Sobre o projeto de lei que deseja proibir as filmagens, clique AQUI.

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Fechamento

Sobre o fechamento de setores do Hospital da PUC de Porto Alegre (obstetrícia, neonatologia, pediatria e cirurgia pediátrica) escreve abaixo um médico que lá trabalhou por vários anos. Acredito apenas que seu diagnóstico final está equivocado; não é “neoliberalismo” o nome dessa doença, mas CAPITALISMO. Esse modelo econômico, quando aplicado à saúde é trágico e desumano. Como fica bem claro no texto, partos, nascimentos e crianças “não dão lucro”. Agora o hospital vai centrar suas ações na áreas que dão mais dinheiro e, via de regra, aquelas que produzem menos impacto na saúde da população. Ou alguém ainda vai discutir que um bom nascimento e uma boa infância são os caminhos mais seguros para uma vida saudável?

Ahhh, não sei se é o caso do colega, mas quando lembro do apoio entusiasmado dessa corporação em favor de Aécio, depois os ataques contra Dilma, pela prisão injusta de Lula e finalmente a favor da eleição de Bolsonaro eu fico pensando… o que esperavam depois de tantas escolhas insensatas e umbigocêntricas?

A partir de agora sugiro aos guardas do hospital que, quando forem obrigados a mandar uma grávida ou uma criança doente à procura de outro hospital, que orientem os pacientes para que peçam ajuda à “mão invisível do mercado”. Talvez assim eles mesmos passem a entender que saúde NÃO é negócio. Talvez pela dor possam compreender que assistência à saúde é um direito humano básico, essencial e inalienável, a que todos devem ter direito, não obstante sua condição econômica.

E viva o SUS.


Texto de José Beltrame Cusco

“Hoje é um dia muito triste para mim. Daqui a pouco vou para o Hospital São Lucas da PUC-RS para o que será o meu último plantão na instituição – e dentro de poucos dias serei demitido, juntamente com outros colegas. Trabalho no Centro Obstétrico e este será fechado, extinto, como também os serviços de Pediatria, neonatologia e Cirurgia Pediátrica. A justificativa? É porque estes serviços “não dão lucro para o hospital.” Alguns colegas, professores com muitos anos de casa e um trabalho de qualidade notável já foram demitidos sem a menor consideração, inclusive pegos de surpresa, porque ninguém da direção teve a mínima decência de consultar os profissionais.

No aspecto pessoal, vou perder uns 30% dos meus ganhos, o que causa impacto mas não chega a ser nenhuma tragédia, porque ainda dará pra ter um padrão de vida confortável. Muito pior é para alguns profissionais que trabalham exclusivamente lá. E muito pior é o impacto no sistema de saúde pública da cidade, e para as pacientes do SUS que atendemos sempre com toda a atenção e o cuidado que elas merecem. E para as crianças e seus pais aflitos com as doenças que atingem os pequenos. E agora? Que se virem, que procurem outros hospitais – que vão ficar ainda mais sobrecarregados.

Há prejuízo também para os médicos residentes, que prestaram um concurso difícil para fazer sua especialização no hospital de sua escolha, com qualidade, e que serão realocados para outros hospitais que jamais escolheriam. E prejuízo ao alunos do curso de Medicina da PUC, que não terão onde acompanhar atividades práticas em duas áreas importantíssimas da medicina (pediatria e obstetrícia) e terão que “pipocar” por outras instituições… O curso de Medicina da PUC, com mensalidade caríssima, já foi considerado o melhor curso entre as universidades particulares – e vai deixar de ser. Mas a mensalidade não vai baixar, é óbvio.

Eu fiz minha formação como especialista no Hospital de Clínicas, que felizmente tem outra cultura e outra visão como instituição, mas trabalho no hospital da PUC praticamente desde sempre, desde que acabei minha formação. Eu fico muito triste com isso, mas a indignação é maior que a tristeza. O nome disso?

Neoliberalismo.”

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Simpatia

Eu sempre disse que na próxima encarnação vou escolher a simpatia como a minha mais expressiva virtude. Mas não bonito, porque um cara simpático e bonito está a um passo de se tornar um canalha, ou um chato insuportável. Muita tentação…

Digo isso porque, ora, chega de ser antipático. Essa é uma sina horrível. Ninguém jamais se lembra de você pensando “Ah, que legal ele, que simpatia!!”. No máximo dizem “Um cara gente boa, apesar daquela antipatia colossal, mas láááááá no fundo se descobre uma boa pessoa”.

Para todas as pessoas da área médica que se aproximavam de mim – entre emocionadas ou apenas interessadas – depois de uma palestra sobre o tema da humanização eu apresentava a mesma cara sem entusiasmo, e até com certa reserva. Antipático, diriam… mas era de propósito uma apatia forçada, apenas porque eu sabia muito bem o preço de ser o que se é.

Eu tinha plena consciência de que falar de parto mobilizava emoções e que as pessoas poderiam ficar prisioneiras destes sentimentos. Não queria ouvir declarações de amor como as que acontecem a bordo de Cruzeiros no Caribe, mas que se dissolvem mal encontram a crueza do chão firme ao atracar no cais.

Sim, eu afastava de caso pensado os curiosos e os emocionados, esperando reter apenas aqueles que entendiam o projeto da parteria com a razão, e a seara da humanização como uma terra árida e inóspita. Muitos foram os casos em que vi colegas desistindo diante do primeiro nariz torcido ou diante de uma “egípcia” recebida dos colegas. “É muito bacana isso tudo, mas tenho uma carreira e uma família. Não tenho sua coragem“, diziam eles.

Como discordar dessa sinceridade? Como condenar o desejo de ter uma vida tranquila onde bastaria levantar os braços e aguardar que a própria corrente de águas cálidas o levasse adiante? Por que deveria eu insistir para que dedicassem sua vida a uma proposta que os deixaria desprotegidos, sem dinheiro, sem horas de folga, sem respeito dos colegas e sujeito a todo tipo de acusações? Seria injusto…

Como um psicanalista velho eu avisava: “Você está muito bem adaptado. Volte quando estiver em pedaços”.

Meu olhar seco carregava uma mensagem: “Se a vida dentro do paradigma hegemônico lhe permite uma vida boa, sem culpas e sem angústias, não o abandone por minhas palavras cheias de paixão reformista. Siga seu caminho em paz e seja feliz. Entretanto, se a sua atitude profissional lhe causa dor, se a cada cesariana realizada você sofre a oportunidade perdida, se a expropriação do momento máximo da feminilidade é sentido com vergonha, então nenhuma cara feia vai fazer você parar. Minha carranca e minhas palavras insossas não impedirão que busque seu caminho.”

Assim foi por 20 anos de trajetória, fugindo da simpatia sedutora e dos caminhos mais fáceis, exatamente porque nunca duvidei da potência renovadora da humanização e do protagonismo garantido às mulheres, mas sempre soube que jamais seria perdoado por pensar assim.

Para Caroline Chiarelli

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Esboço de uma historiografia da Humanização do Nascimento

Foi em 1999 eu encontrei pela primeira vez as pessoas da minha tribo. Após atender o parto de Cristina Balzano Guimarães em Porto Alegre ela me contou saber da existência de um congresso que se realizava todos os anos no Rio de Janeiro, apenas com pessoas que desejavam trabalhar com a humanização do nascimento. Nesse congresso apareciam pessoas de várias áreas de conhecimento não apenas da medicina. Suas palavras reforçavam minha ideia, há muito acalentada, de que o parto não era um ato médico como fui levado a acreditar na Escola de Medicina, mas um evento para muito além dessa caixa pequena da medicina. Parto era um evento humano, onde concorriam muitas formas de saber, e cuja complexidade não poderia jamais ser amarrada a uma forma apenas de entendimento.

Até o aparecimento desse convite de Cristina foram 13 anos da mais absurda solidão, sem contato com nenhum outro profissional que tivesse ideias semelhantes às minhas. Nunca houve durante a minha formação profissional qualquer médico que ousasse questionar a exclusividade da atenção ao parto na mão dos médicos. Jamais algum profissional – entre professores e colegas – questionou as múltiplas intervenções sobre o corpo da gestante, quanto mais o direito de recusa e consentimento informados por parte dela ou da família. Toda forma dissidente de compreensão do parto era tratada com escárnio, deboche e menosprezo. Não havia sequer espaço para a contestação: o parto humanizado era o terraplanismo da obstetrícia.

Por certo que nos meus anos de formação não havia internet, nem redes sociais. “Rede social” era “rádio corredor”, que era a “fofoca institucionalizada”. Aliás, o nível tóxico de maledicência, vaidade, luta por poder e fogueira de vaidades durante a minha passagem pela universidade foram parte das razões por ter fugido da vida acadêmica, apesar dos inúmeros convites para fazê-lo. Para além disso, eu reconhecia a maldição que meu pai havia vaticinado há muitos anos sobre a minha pessoa: a marca da rebeldia. Não, não tomem como elogio, era algo realmente maldito, uma força compulsiva de questionar os poderes estabelecidos, a incapacidade de receber ordens, a fúria pelas injustiças e a sede de transformação. Todavia, pelos relatos até de familiares meus que ingressaram nessa carreira, a vida acadêmica se mostrava muito mais próxima de uma organização eclesiástica do que com uma fonte de ideias renovadoras e criativas. Não foi difícil para mim perceber a característica conservadora da Academia e, mais ainda, seu sistema de poderes. Achei que viver sob a pressão que se produzia nas Universidades não se encaixava no meu temperamento, mas ainda hoje tenho profunda admiração por muitos colegas que lá trabalham e militam.

Nos “anos heroicos” da humanização do nascimento o “congresso da Fadynha” era o nosso porto seguro. Eu sempre comparei minhas idas a este encontro anual como um jovem homossexual que, vivendo numa cidade do interior, pela primeira vez entra num “club gay” e descobre que existem outros que pensam e sentem como ele. O congresso era muito pequeno, talvez 100 e no máximo 200 pessoas, absolutamente artesanal. Tudo recaía nas costas da organizadora, Maria de Lourdes, chamada carinhosamente de Fadynha, uma hippie sobrevivente dos anos “paz e amor”, que dedicou sua vida na defesa do parto livre. O ambiente era absolutamente “bicho grilo”, o que para mim era desconfortável na época, mas que nas memórias aparece como uma das características mais deliciosas dos encontros. Sim, tinha Hare Krishna, tinha gente de manto, tinha turbante, tinha culto ecumênico, tinha sessão de Yôga. Era um clima de abertura sensorial, como um pedido aberto para os participante se questionarem “se o parto pudesse ser diferente, abra sua mente e imagine o cenário perfeito“.

Na época as viagens eram muito mais complicadas. A gente marcava hotel por telefone, comprava passagem de avião na loja da Varig no centro da cidade, pagava o congresso na hora (em dinheiro ou cheque) mas era sagrado participar do congresso da Fadynha. Não tinha dinheiro para estadia ou para pagar a viagem, e os palestrantes tinham que pagar sua inscrição também. Os temas eram simples, muito mais depoimentos de profissionais que estavam atuando de forma mais “fisiológica” do que debates técnicos com autoridades nacionais ou internacionais. Éramos muito singelos na forma de pensar, e os congressos funcionavam como uma catarse em grupo para desovar indignações e sonhos. Alguns temas seriam considerados absurdos hoje em dia. Lembro uma vez que uma advogada do grupo “SOS Erro Médico” foi chamada a palestrar e o tema de sua fala foi “processar médicos que deixam passar da hora e não fazem cesariana por cordão enrolado no pescoço“. Ai, ai, ai… Ficava claro que a pura indignação diante dos desmandos da obstetrícia contemporânea e da falta de vinculação com as evidências científicas eram insuficientes para levar adiante um projeto de renovação na atenção ao nascimento.

Neste tempo, início do milênio, também não havia uma clareza sobre partos conduzidos por enfermeiras e o tema do parto domiciliar era quase desconhecido. Vivíamos o debate ainda da “Casa de Parto 9 Luas”, uma experiência interessante mas que sucumbiu por questões administrativas – foi assim que lembro até hoje – mas que não era uma Casa de Parto (no conceito de parteria que temos hoje), e sim uma clínica de nascimentos que tinha até bloco cirúrgico.

Parto domiciliar era tabu, e a grande estrela desse tema uma moça que morava na Itália e pariu no Rio de Janeiro com uma obstetra chamada Stella. Certamente que ela teve sua importância na emergência desse debate. Éramos todos entusiasmados e profundamente ingênuos. Sabíamos o que não queríamos, mas não exatamente qual era o nosso Norte. Não se falava em “protagonismo” da mulher – essa vinculação com o conceito de autonomia estava ainda muito embrionário – mas em boas práticas, como abolir episiotomias, diminuir cesarianas, parto de cócoras, marido presente, etc.

O movimento de doulas (apesar de já existirem doulas, como Fadynha e Lucia Caldeyro, entre outras) surgiu em 2002 quando Maria Helena Bastos trouxe a Debra Pascali-Bonaro para um curso de formadoras no Rio, e a partir deste ponto o movimento explodiu como um rastilho chegando no barril de pólvora. A partir da entrada de um gigantesco contingente de mulheres leigas, fora do mundo da assistência ao parto, o movimento ganhou as ruas, as vozes se multiplicaram e as mulheres foram finalmente incorporadas mais diretamente ao debate. Depois disso, a criação da Escola de Obstetrizes da EACH (USP Leste) foi outro grande passo, protagonizado pela professora Dulce Gualda.

A criação dessa história corria paralelo nas listas de discussão nesta ferramenta fantástica criada pelos List Servers. Ali se brigava, se xingava, se debatia, se conhecia gente, se exibia, se crescia nos conceitos. Foi outro fabuloso propagador da boa nova, no alvorecer do milênio.

Já está na hora da história da humanização do nascimento ser escrita, mas o medo que sempre tive foi com a parcialidade dos relatos. O que escrevi acima é um bom exemplo. Está foi a minha perspectiva, de um profissional da medicina, do sul do país, isolado e numa época em que os contatos pessoais eram muito difíceis. Essa história poderia ser coordenada por alguém de qualquer área ou latitude, mas precisaria contemplar as múltiplas perspectivas deste movimento nascente. Como aconteceu esse movimento nos diferentes estados, quais as diferenças locais que produziram entraves e facilitações? Quais as personalidades que produziram mudanças reais e quais não – e por quê?

Esta historiografia seria fundamental para que nossa experiência acumulada de lutas pudesse frutificar, mas precisaria ser um trabalho coletivo. Nesse aspecto, esquecer nomes pode ter um efeito dramático. Como eu disse anteriormente, somos dotados dessa capacidade (única na espécie humana) de acreditar sermos mais importantes do que realmente somos, e isso faz com que pequenos esquecimentos possam produzir grandes transtornos e mágoas.

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ACOG e doulas

“Dados publicados mostram que uma das mais efetivas ferramentas para melhorar os resultados de trabalho de parto e parto é a presença contínua de uma pessoa de apoio, como a Doula” American College of Obstetricians nas Gynecologists.

Durante 20 anos a comunidade do médica e o pessoal hospitalar (com notáveis e maravilhosas exceções) boicotou a presença de doulas, mesmo quando os dados já estavam presentes mostrando a efetividade destas na atenção ao parto. Para essa negativa, nunca houve uma real preocupação com a proteção da gestante, a qualidade do atendimento ou a preservação do espaço hospitalar. Jamais a preocupação foi a experiência subjetiva da gestante ou sua proteção. Não era esse o medo…

A REAL questão em jogo era o poder, o domínio inquestionável e sem obstáculos sobre o corpo da gestante. A presença da doulas – por mais silente e reservada que fosse – representava a vigilância da sociedade sobre esta apropriação. A presença doulas inibe abusos, impõe que o consentimento informado seja obedecido e exige respeito dos profissionais sobre direitos reprodutivos e sexuais. Para além disso, elas usam técnicas de conforto, alívio da dor e reasseguramento emocional que muitas vezes são a grande diferença na experiência subjetiva de parto da mulher. Algumas que conheci eram verdadeiras rochas de confiança e segurança para os momentos de fraqueza (até dos profissionais).

O reconhecimento público do valor das Doulas feito por uma instituição de caráter conservador e fortemente corporativista como a ACOG mostra que não era mais possível esconder (como fizeram por mais de 20 anos) a qualidade superior do atendimento que se alcança com o trabalho das doulas. Isso coloca as doulas em outro patamar, próximo das palavras proféticas de John Kennell:

“Se doulas fosse uma medicação, seria antiético não utilizá-las”.

Agora, qualquer obstaculização ao livre trabalho destas auxiliares nos hospitais deve ser denunciado ao Ministério Público da mesma forma como se denuncia uma injustificável negativa de socorro.

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