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Medicina e medo

Heis aqui algo que denuncio há 30 anos: “Médicos são treinados a SE proteger em primeiro lugar, e só depois disso a resguardar a saúde de seus pacientes“. Este é um problema ético basilar em uma profissão que é regulada pelo medo, pelas pressões e pela mão do capitalismo.

A disfuncionalidade do sistema é evidente e escandalosa. Pacientes, enquanto consumidores de produtos e serviços, são estimulados a um consumo abusivo, insensato e perdulário. Para constatar isso basta ficar 20 minutos sentado na sala de espera de uma emergência. O nível de equívocos por parte de pacientes e médicos é inacreditável.

Os profissionais também estimulam o uso exagerado dos seus próprios serviços ao determinarem regras sem evidências científicas que as embasem, através de chavões como “consulte seu médico regularmente“, ou “não esqueça de fazer o exame preventivo” e mesmo com os famosos Setembro isso, Outubro aquilo, Dezembro etc… colocando aí qualquer cor e fazendo pacientes frequentarem serviços especializados movidos pelo medo culturalmente instilado por estas campanhas publicitárias.

Realmente, a responsabilidade dos administradores dos sistemas de saúde é inequívoca. Aliás a ideia corrente que os chama de “praga” é maldosa, mas não está muito longe da verdade. Entretanto, como direi mais adiante, trocar administradores não resolveria a questão, apenas criaria outra crise. É preciso ir muito mais além, e modificar uma cultura médica anacrônica, alienante, objetualizante e cientificamente defasada.

Médicos são, via de regra, muito medrosos. Se borram de medo dos seus conselhos profissionais. Não ousam arriscar sua pele, e para isso não se importam de arriscar a dos seus pacientes. A cesariana é um bom exemplo dessa disfuncionalidade. Todo obstetra sabe que os riscos são maiores em curto e longo prazo com a realização de uma cesariana – tanto para a mãe quanto para os bebês. Precisaria ser muito alienado – ou inescrupuloso – para negar as evidências claras e insofismável a esse respeito. Entretanto, é inegável – e facilmente constatável – que a cesariana é MUITO MAIS SEGURA para os profissionais, exatamente porque a cultura tecnocrática criou o mito da “transcendência tecnológica” e com isso produziu uma atitude profissional chamada “imperativo tecnológico” que diz que “na existência de uma tecnologia, ela deve ser usada“, inobstante sua inutilidade ou mesmo o aumento dos riscos para o paciente com sua utilização. Médicos são premidos pelo medo a usar recursos para além da natureza, como operar e medicar, mesmo quando as evidências mostram que não fazer nada seria a melhor escolha. O resultado é uma epidemia de cesarianas, uso irrestrito de uma tecnologia que deveria ser usada apenas na exceção, e o aumento de mortes em decorrência dos maiores riscos envolvidos.

Os Conselhos de Medicina (CRMs), por sua vez, são órgão de proteção da corporação, e não dos pacientes ou da boa prática médica, como os próprios clientes dos serviços de saúde são levados a pensar. Para lá afluem médicos sequiosos de poder ou que trabalham em áreas complexas, onde precisam de “carta branca” para atuarem – a qual pode ser conseguida tornando-se um julgador de médicos. Os conselheiros são temidos por usarem seu poder como uma arma apontada contra inimigos ideológicos e contra todo aquele que questione o poder abusivo da medicina. Geralmente os profissionais que trabalham no Conselho são os que falharam no objetivo de conquistar poder através da sua prática, seja na atuação privada ou na academia. São violentos, sem grande brilho profissional e abusam do poder de aterrorizar colegas. São como policiais de ronda, sabedores de suas limitações, mas ávidos para exercer seu poder sobre o cidadão comum. São os tiranos dos “pequenos poderes

Parafraseando Napoleão Bonaparte, “São tantos os detalhes e as questões subjetivas envolvidas num atendimento médico que nenhum profissional está livre de ser massacrado por um conselho que antagoniza suas ideias ou posturas”. (“Há tantas leis que ninguém pode se julgar livre de ser enforcado” – Napoleão). Sem dúvida, a forma como um caso qualquer será visto nestes tribunais profissionais dependerá de fatores extra-médicos como poder, influência, dinheiro e – acima de tudo – o quanto o caso em debate vai ofender os pilares sagrados da relevância social do médico. O que julga os médicos é sempre o sentimento de ameaça que os conselheiros percebem em sua prática, e não o dano que possa causar aos pacientes.

Marco Bobbio no livro “O Doente Imaginado” fala muito dessas questões políticas e econômicas determinando a conduta médica, deixando a saúde e a segurança dos pacientes em plano secundário. A propaganda médica, os medos dos tribunais, a pressão insana a que são submetidos tudo isso produz uma medicina bizarra, onde o elemento chave para a sua compreensão é o MEDO, e a ideia de que médicos e pacientes estão distantes, julgando-se mutuamente como inimigos em uma arena de ameaças.

O grande problema, para mim, é o fato de que não é suficiente que se modifiquem os administradores, e que se lhe capacite a atuação para que seja mais científica e embasada. Isso apenas não funcionaria, assim como a oficialização da “humanização do nascimento” como prática padrão nos hospitais do Brasil poderia gerar caos e até mesmo tragédias, pelo simples fato de que os próprios PACIENTES ainda não estão prontos para uma medicina centrada na ciência e no uso racional de recursos – entre eles a tecnologia.

Para que isso seja realidade é necessário que ocorra uma revolução cultural, de baixo para cima, onde os médicos e administradores serão forçados pelo novo paradigma a revisitar os seus conceitos e práticas.

Para finalizar, o comentário sobre a frase de John Kenneth Galbraith “Toda a revolução é um pontapé em uma porta podre” feita pelo meu amigo, o professor Francisco Ferreira Carmo: “As pessoas acham que a revolução é dar o pontapé… sou da opinião que é fazer apodrecer a porta.

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Vacinas à jato

Está todo mundo comemorando um remédio produzido às pressas, sem controle, sem avaliação de segurança, sem padrões mínimos de efetividade garantida e após uma onda de desinformação e pânico mundiais que foi no mínimo “estranha”? Isso me lembra o Tamiflu, que gerou milhões de dólares para a empresa farmacêutica do Donald Rumsfeld, e que agora sabemos tinha a mesma eficácia do AAS…

Não acham que estão comemorando um “negócio da China”, mas não para nós? Quem vai lucrar com o nosso medo, mais uma vez?

Lembram da pílula do Câncer que foi detonada até no Fantástico por não seguir as normas e os tempos determinados pela boa pesquisa médica para um uso seguro e uma eficiência comprovada? Pois agora, os mesmos que detonaram seu uso saúdam quando em poucos DIAS uma empresa israelense avisa que tem uma vacina para o corona vírus.

Coerência, Senhor, coerência.

Parece que o que vale mesmo são os zilhões de dólares de lucro pela venda de uma droga sem eficácia ou segurança comprovadas que chega ao imaginário popular após uma “campanha” muito consistente de pânico mortal pelos inimigos invisíveis de sempre. Primeiro instala -se o pânico; depois vende-se a cura sem nenhuma comprovação, apenas premidos pela urgência. Antes foi o Tamiflu a enriquecer muita gente, agora serão vacinas feitas nas coxas.

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Doula é Conexão

Percebam que os grandes estudos envolvendo o trabalho de doulas, como na África do Sul e nos Estados Unidos, utilizaram amigas, tias, irmãs, parceiras, mães e sogras sem qualquer tipo de preparo ou formação específica. O “efeito doula” ocorria a despeito de qualquer conhecimento técnico operacional. Não há nenhuma obrigatoriedade – pelo menos no que diz respeito às evidências científicas – de que doulas tenham formação na área da saúde, que conheçam ciclos femininos, entendam da anatomia envolvida, aprendam a fisiologia do parto ou mesmo que tenham educação formal. Doulas podem ser (e muitas são) analfabetas, e mesmo assim serem doulas maravilhosas .

O efeito positivo das doulas não se dá pela via técnica ou cognitiva. Seu efeito ocorre majoritariamente como apaziguadoras de tensões, pela identificação com a mulher e sua crise vital e através do suporte incondicional que oferecem. Todo o resto – as massagens, posturas, posicionamentos, técnicas de alívio da dor, acupressura etc. – são o verniz intelectual, uma fachada racional que pode ser extremamente útil, mas que jamais será o centro da ação das doulas ou a razão essencial para o sucesso obtido com o auxílio que prestam.

Um médico pode ter todos os equipamentos e as técnicas, mas se não tiver o conceito de “fraternidade instrumentalizada” como norte de sua atuação jamais deixará de ser um “técnico em medicina”. O mesmo ocorre com as doulas; sem a vinculação emocional, afetiva, psicológica e espiritual as doulas não passam de “auxiliares técnicas”, cuja eficiência sempre poderá ser barrada pelos corpos que se fecham pela falta de sintonia.

O segredo da doula está nessa vinculação emocional, profundamente feminina. Toda técnica será meramente acessória e poderá até ser inútil caso não venha acompanhada da conexão psíquica e íntima que ocorre no parto entre uma doula e a mulher em suas dores.

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Aprender

Imagina um sujeito que questionava as rotinas insensatas da atenção ao parto – como as episiotomias, o kristeller, as cesarianas abusivas, o corte prematuro de cordão, o afastamento precoce da mãe e do bebê, as vacinas usadas imediatamente após o parto, as rotinas de afastamento etc. – há 30 anos e demonstrava que todas elas faziam parte de uma mitologia médica sem qualquer evidência científica que as justificasse, que apenas serviam aos interesses de uma corporação e ao patriarcado na sua missão de expropriar o parto da mulher. O que aconteceria com um profissional assim? Não é difícil de imaginar…

Pois esta semana eu li um conceito que me chamou a atenção, e que veio em forma de questionamento. Era sobre a ideia – felizmente ainda não colocada em prática – de colocar crianças na escola aos 6 meses de idade e ensiná-las a caminhar com a ajuda de professores e através de equipamentos sofisticados de “auxílio à marcha”. O que aconteceria se as crianças aprendessem a andar com esses profissionais, em vez de o fazerem junto à sua família, em suas casas, como uma experiência afetiva e familiar?

Pois eu afirmo que bastariam duas gerações para passarmos a acreditar que somente com uma escola especializada seriam os bebês capazes de aprender a andar. O ensino domiciliar poderia até ser proibido.

Imagina, aprender em casa, sem professores, sem equipamentos!! E se uma criança cair? E se um bebê morrer? Aprender em casa é coisa da idade média!!! Estamos no século XXI, não podemos mais aceitar modismos perigosos!!

Parece familiar?

Não seriam necessárias mais do que poucas décadas para que o aprendizado “natural” e “fisiológico” de andar – que sempre foi feito através do afeto e respeitando aos tempos subjetivos (10 meses? 11 meses? 1 ano? Qual a diferença?) – desaparecesse por completo. Os estudos sobre o mecanismo da marcha seriam feitos apenas em escolas, comparando métodos de ensino entre si, mas negando a existência de um método multi milenar que sempre nos acompanhou, pois que este agora seria tratado como exemplo de atraso e perigo.

Sabe qual o resultado óbvio dessa aventura tecnocrática? “Disfunção de marcha“, atraso no desenvolvimento, problemas de equilíbrio e desenvolvimento muscular, da mesma forma como a intervenção médica abusiva sobre os ciclos vitais criou os problemas no parto e estimulou o desmame precoce. Pior, nós acabaríamos formando mais especialistas para tratar os graves problemas de marcha e equilíbrio que criamos, porém não de forma crítica e responsável, mas acrescentando ainda mais intervenções para manter intocado o poder sobre os corpos, desnaturalizando dramaticamente nossas experiências de vida.

A crítica aos limites da intervenção só pode ser feita com coragem e determinação. A expropriação da natureza humana em nome do poder consagrado aos “especialistas” precisa ser desafiada, para que não destruamos o pouco de humano que ainda resta em nós.

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Parto e Privacidade

Diante da explosão de emoções suscitadas por um parto me parece justo que a equipe possa descrevê-lo a partir de SUA perspectiva, até porque um parto sempre terá inúmeras interpretações. Sem dúvida que as mais importantes são as “de dentro” e todas as outras “de fora”.

Uma equipe pode falar que um parto foi maravilhoso ou problemático, desde que o descreva do ponto de vista da atenção prestada. Só uma mulher pode falar de como se sentiu ou como digeriu sua experiência de parir.

Para além disso, nem a descrição que a mulher faz do próprio parto pode ser considerada “a definitiva”. Apesar da primazia de suas percepções – já que é a óbvia protagonista – suas expectativas e projeções subjetivas podem obscurecer a realidade dos fatos, fazendo com que muitas vezes ela descreva seu parto de uma forma completamente diferente de outras perspectivas.

Um parto, por ser um evento humano e multifacetado, sempre comportará várias interpretações e vieses. Além disso, é um dos eventos mais complexos da existência humana, que conjuga em sua essência vida, morte e sexualidade. Exatamente por essas características o nascimento será um processo sensível e reservado. As pessoas convidadas a participar dele precisam entender a importância de resguardar sua privacidade. Assim, não faz sentido que aqueles que o testemunham revelem suas particularidades sem a aquiescência da protagonista, e isso deve ser um consenso entre os cuidadores.

Não se trata de determinar a existência de uma única verdade no parto, a perspectiva justa e certa, pois que isso não existe. Parto só pode ser entendido pela paralaxe de múltiplas visões, em que todas completam o todo interpretativo de um evento múltiplo. Porém, as características pessoais de cada nascimento impõem a reserva e o respeito de todos os que dele participam.

Resguardar a sacralidade do parto depende do preparo dos assistentes e da capacidade de entender sua posição subjetiva como auxiliares de um evento cujas repercussões estão muito além da nossa compreensão.

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Verdades

Não existe “verdade ou mentira. Aliás, não existem sequer fatos, apenas perspectivas. A “verdade” é uma ficção contada por quem controla a narrativa, por aqueles que detém o discurso hegemônico.

Verdade e mentira se inserem nessa luta pelo discurso autoritativo, e não podem ser analisados de forma positiva. Sempre existirá uma disputa por narrativas, pois que essa é a essência humana. Já a verdade é uma construção coletiva que depende de poder e persuasão para estabelecer hegemonias. A construção da “verdade” nunca é solitária e pessoal, mas uma construção de uma coletividade. Você pode ter sua opinião pessoal e seu viés, mas não pode produzir seus próprios fatos. A disputa por versões da realidade é inalienável do humano. As muitas versões construídas sobre qualquer tema estabelecem uma disputa entre perspectivas e julgamentos. Vence a versão mais poderosa, mesmo quando falsa.

É óbvio que nosso ego sempre cultivará a ilusão de tudo saber, basta escutar qualquer sujeito falando de suas perspectivas Entretanto, a “verdade” não é uma construção subjetiva ou pessoal; ela se constrói socialmente nos choques paradigmáticos tão bem descritos por Thomas Kuhn em sua obra “A Estrutura das Revoluções Científicas”.

Por isso a verdade contemporânea é de que a terra é esférica, mesmo que visões pessoais a tratem como plana. Não esqueça que o terraplanismo já foi a vertente hegemônica de saber sobre a forma da terra!!!

Assim como no modelo darwiniano de sobrevivência das espécies, a sobrevivência das ideias também obedece as mesmas regras. Não são os mais fortes ou os “corretos” que sobrevivem na natureza, mas os mais adaptados. Mutatis mutandis, algumas ideias toscas – e inclusive comprovadamente falsas – sobrevivem pela sua maleabilidade e pelos poderes e interesses que a sustentam.

O capitalismo é apenas uma dessas ideias que sobrevivem pela força e pelo poder de quem o mantém, mesmo dando sinais inequívocos de decadência e incapacidade de solucionar os graves entraves do planeta.

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Cavalo de Troia

Diante do efeito dominó nas casas legislativas do país em acatar a ideia das “cesarianas a pedido”, creio que as instituições de proteção à mulher – em especial aquelas que defendem a humanização do nascimento – precisam olhar para o fenômeno com muito cuidado, toda a delicadeza e a devida responsabilidade que ele demanda.

Apesar da frustração inicial e pela perspectiva de vermos aprofundar o intervencionismo obstétrico em nosso país, creio que nossa ação – da ReHuNa e outras instituições afins – deve ser antropofágica. Quero dizer: comer a realidade que nos foi imposta, digerir a nova condição, ruminar suas circunstâncias e contextos e finalmente incorporar essa nova fase, onde a (ilusória) autonomia das mulheres, determinada pela pressão dos profissionais e instituições, será tomada como guia.

Sabemos do “Cavalo de Troia” que está por trás dessa falsa liberdade de escolha. Simone Diniz explicava há muitos anos sobre a estratégia de “oferecer partos violentos para vender cesarianas“. Pior ainda, agora vemos a própria legislação travestir a opção pela cesariana – que nada mais é que uma “escolha pela dignidade” em contextos de violência obstétrica – como um avanço nos direitos humanos e uma vitória para as reivindicações históricas das mulheres.

Temos plena consciência de que estamos diante de um embuste e um retrocesso, mas é difícil fazer esta informação chegar na ponta da atenção para o conhecimento das gestantes e suas famílias.

Todavia, não há como retroceder. Qualquer movimento para obstaculizar esta medida será levada ao público como retrocesso e como insistência na tutela sobre os corpos femininos. Para a imensa maioria das gestantes, embebidas na cultura do “imperativo tecnológico”, a cesariana representa o futuro, a ciência, o progresso e o fim de suas “dores excruciantes”. Bem sabemos o quanto isso está longe da verdade, mas também temos noção do quanto educar mulheres sobre os benefícios do parto fisiológico é tarefa que dura gerações.

O que é necessário agora é absorver o golpe, aceitar o aumento de cesarianas como um resultado inevitável, cuidar dos feridos e dos mutilados (entre pacientes, médicos e parteiras) e continuar nossa campanha incessante e firme por uma pedagogia verdadeiramente libertária para as mulheres, desde a mais tenra idade.

Para as mulheres que se deixaram seduzir pelo canto mavioso da sereia tecnocrática só podemos dizer:

“Se você deseja uma cesariana para fugir da dor, ou porque está consumida por medos, esta é uma escolha sua. Todavia, se deseja saber o quanto custará esta decisão, e os riscos envolvidos nela, pode nos procurar, pois estaremos sempre aqui para ajudar”.

Leia mais sobre este tema aqui

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Opressões

Grupos historicamente oprimidos, que usam ofensas aos adversários como retórica de combate, nos mostram que não basta mudar o opressor para transformar o sistema opressivo. Sem que os oprimidos compreendam as raízes da opressão eles naturalmente ocupam o lugar de seus antigos algozes.

Jeremy O. “The Roots of Evil”, ed. Barbacoa, pág 135

Jeremy O. é um escritor americano nascido em Boston em 1972, filho de um pastor presbiteriano e uma dona de casa. Desde muito cedo militou nos grupos LGBT tendo sido preso diversas vezes por desordem e resistência à prisão. Durante muitos anos de militância escondeu sua orientação sexual, mas causou certo furor quando em 2002 casou-se com a cantora Gospel Mary Divine, em uma cerimônia restrita e reservada no condado de Nantucket, Massachussets. Chamado de “traidor” por alguns correligionários e de “falsário” por outros, foi a partir dessa ação que conclamou a parcela heterossexual da sociedade a se unir nos esforços pelo fim de qualquer opressão direcionada à comunidade gay. Mora em Nova York e tem dois filhos, Hope e Faith.

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A angústia necessária

Para que um obstetra procure transformar sua prática é essencial que sua forma de conceber a assistência ao nascimento entre em crise. O choque doloroso entre conceitos precisa ser a tônica do processo. Esta transformação a partir do legado da Escola Médica (tecnocrática e intervencionista) em busca de maneiras mais democráticas de atuação jamais ocorre sem angústia …. e dor. Despir-se dos valores duramente adquiridos no período de formação só pode ocorrer através de sacrifício.

Sacro ofício, trabalho sagrado.

Todavia, é preciso que a humanização, a abordagem suave e a garantia da autonomia à mulher ocorram a partir da dor, pois ela é a energia motriz mais efetiva. A partir disso, a promessa de alívio desse sofrimento assegura a coragem necessária para efetuar as mudanças. A transformação sempre ocorrerá nos estratos emocionais e afetivos do sujeito. O arcabouço teórico só chega bem depois, para dar suporte à reconstrução do nosso proceder, agora sob outras bases.

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“Para que a psicanálise seja eficaz, é necessário que quem se analisa reúna as seguintes características: que sofra, que não suporte mais sofrer, que se interrogue sobre as causas de seu sofrimento e que tenha a esperança de que o profissional que vai tratá-lo será capaz de livrá-lo de seu tormento.”

J. D. Nasio, psicanalista (Apud Maury Gutierrez)

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Partidos identitários

O que pensar disso? Um partido feminista? Ou seja, um partido de mulheres. O que pensar de um partido que se produz pela exclusão de um gênero? Mas se isso for realidade, por que não um partido só de negros ou gays, pelas mesmas razões? Que tal um só de judeus? Isso me parece o identitarismo levado às últimas consequências, em uma sociedade de “cada um por si”, pelo seu grupo, cada vez mais isolados com propostas centradas em seus minúsculos segmentos.

Minúsculos mesmo, até porque dentro do “partido feminista” haverá uma ala gay. E também uma ala negra. E dentro dela uma ala negra-gay. E mais uma ala feminista trans. E todas vão se odiar e se combater porque é da natureza humana lutar por visibilidade e espaço. É o que vemos dentro do feminismo, mas também no movimento negro, no socialismo e no liberalismo. A fragmentação infinita leva ao grupo de si mesmo.

Se a luta feminista é válida e nobre ela também é uma luta de mulheres e para mulheres, e não necessariamente uma luta pela sociedade. Para isso existem propostas mais abrangentes que não nos separam em sexo, raça, cor de pele ou religião. Um partido feminista seria, para mim, uma profunda aberração, tanto quanto o seria um partido negro ou gay. No meu ver as mulheres deveriam tomar de assalto os partidos centrados em ideias e propostas para a sociedade inteira, e não para um gênero. Também não por qualquer outra identidade. O fato da luta ser “nobre” não torna um partido em seu nome justo ou adequado.

Alias… o partido feminista seria de direita? Esquerda? Pró ecologia? Socialista? Mas… Como votaria uma feminista ferrenha de esquerda num partido feminista de orientação liberal? O que pesaria mais, sua filiação com o feminismo ou sua visão de sociedade? Como se insere este partido na questão da luta de classes? Um partido feminista, no meu modesto ver, composto apenas por mulheres de forma institucional (e não como é hoje, onde as mulheres têm pleno acesso, e apenas são menos votadas por questões da cultura patriarcal) é um absurdo. Será nanico exatamente por enxergar a sociedade por um funil de gênero, tão inaceitável quanto um partido constituído apenas por imigrantes, aposentados, negros ou gays. Na minha opinião, é um desserviço ao próprio ideário feminista, que prega pela diversidade e pela inclusão. .

O fato de haver um problema sério e as lutas por equidade e justiça serem nobres e necessárias não impede que as propostas na defesa desses temas possa ser errada. Um partido construído com base na exclusão seria um fracasso. Entretanto, acho surpreendente que algumas pessoas se deixem seduzir por este tipo de identitarismo radical. Sabe onde encontramos isso? Em Israel. Sabe onde ele se desenvolveu a partir de 1948? Na África do Sul. Na origem havia um sentimento nobre de proteger uma parcela oprimida (judeus na Europa e uma minoria branca da sociedade africaner), mas o que se criou foi monstruoso. Sabem que na Rússia foi criado um partido dos bebedores de cerveja? Pergunto: o que isso significou de positivo para a política russa?

Um partido deve ser promotor de propostas para a sociedade como um todo e não para representar apenas um segmento dela, mesmo que majoritário!!! Eu não vejo nenhum problema em que as mulheres criem movimentos, ONGs, frentes parlamentares, associações cívicas e o escambau. O que não posso aceitar é um partido cuja proposta seja excludente (olha o Paulo Freire aí de novo) e que governe apenas para a parcela a qual representa.

Alias… quem diz isso é Bolsonaro quando vocifera “As minorias devem se curvar às maiorias”. É Bolsonaro que diz governar apenas para quem votou nele. Um partido feminista é um partido para as mulheres e não para a sociedade. Isso, no meu modesto ver, é inaceitável e agride as próprias bases do feminismo. Como eu já disse, apesar de ser uma trajetória lenta, negros, mulheres e gays deveriam tomar de assalto os parlamentos através das agremiações políticas e por meio de propostas para a sociedade, e não apenas através de sua visão identitária.

“Ahhh, mas é demorado. Ahhh mas o mundo é machista”. É verdade, mas um partido como esse jamais acabaria com o machismo. Pelo contrário, produziria um efeito rebote contrário na sociedade.

A propósito… É claro que há espaço nos partidos para as mulheres!!! Por lei 30% dos candidatos precisam ser mulheres!!! Muitas são catadas à unha para preencher as vagas. O problema é a relutância das próprias mulheres em votar em mulher, mas isso não termina com decreto, e sim com educação, paciência, formação e combate sistemático ao modelo patriarcal excludente da sociedade. Creio mesmo que os políticos fazem menos do que deviam, mas são votados por gente que não se importa muito com isso. As minorias deveriam se revoltar, mas não através de projetos anti democráticos ou excludentes. Aliás…. essa é a visão anti política de Bolsonaro. “Já que os políticos são uma porcaria vamos governar de forma autoritária e com militares”.

É isso que queremos?

Para exigir respeito não é necessário criar um partido excludente. Isso é absurdo. Além do mais é da essência dos partidos dominar a cena política para implementar suas ideias para toda a população – e não apenas uma parte dela, mesmo que majoritária.

A criação de um partido de mulheres, feminista e excludente é, para mim, um anátema e uma quimera. Não é a toa que foi rejeitado pelas democracias de todo o mundo. Um partido assim seria como o Nasionale

Não se acaba com a violência com mais violência e não se extermina a exclusão com mais exclusão. Paz e inclusão são as respostas, mesmo quando mais são reconhecidamente mais demoradas.

Os “homens cis” adorariam esse partido. Finalmente poderão dizer que seus medos tinham fundamento. Dirão, e com razão, que as mulheres ameaçam a democracia criando um partido que, se for vitorioso, governará apenas para uma parcela da população, marginalizando metade do país – que jamais poderá participar das decisões.

Pensem nisso…

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