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Prisões

“A prisão mais efetiva é aquela que vem fantasiada de liberdade”.

Será uma tarefa difícil convencer a população de que a “liberdade” de escolher cesarianas em verdade esconde a subordinação das gestantes aos interesses de instituições e corporações. Tudo isso para que o nascimento continue propriedade dos profissionais e sob o controle da medicina.

Em verdade a falsa “liberdade de escolha” das gestantes que escolhem a cesariana tem tanto sentido quanto escolher o Bolsonaro pela sensação de ter votado contra o “sistema”.

Não… escolher cesariana é abraçar-se ao sistema mais alienante e que mais agrada ao modelo patriarcal dominante. Contrário senso, a escolha pelo sexo, pela alegria, pela indignação e pelo parto normal são opções de enfrentamento a um modelo social injusto em nome da liberdade e da autonomia.

Se você não conhece suas escolhas elas não são escolhas verdadeiras, mas opções que alguém determinou para você.

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Lacrar

A internet – e mais especificamente as mídias sociais – criaram o termo “lacração” e disseminaram o seu uso. É curioso que este termo muitas vezes é mal utilizado, dando a entender que a “lacração” se refere a um argumento tão bem utilizado, e que explica um determinado fenômeno de maneira tão completa, que é capaz de “lacrar”, fechar, terminar, colocar um ponto final, já que depois do que foi dito nada mais poderia ser acrescentado. Finis est…

Na verdade a “lacração” se refere a outro fenômeno muito mais complexo. Argumentos taxativos, brilhantes, completos e definitivos – se quisermos acreditar que isso existe – são apresentados desde o início da linguagem. Org teria dito para Uth, numa caverna há 40 mil anos: “Se você acredita que soprar é a magia está enganado. A magia está no atrito dos pauzinhos, seu otário“. Um argumento excelente, que podia inclusive ser demonstrado experimentalmente. Ele “lacrou”?

Não, porque “lacrar” não está relacionado à justeza do seu argumento, sua abrangência, sua lógica ou seu encadeamento de ideias. Também não está relacionado à sua qualidade argumentativa e nem às suas virtudes de convencimento.

Na verdade, a “lacração” está relacionada à plateia. É um jogo de cena, onde seus ouvintes, leitores ou telespectadores fazem parte do argumento. O sucesso de suas ideias depende do entusiasmo de quem as escutou. Uma ironia, um escárnio, um deboche ou uma resposta provocativa “lacram”, porque a plateia delira ao ver seu ídolo fazendo sucesso com sua fala.

No território das mídias sociais, onde as pessoas se escondem atrás de telas, a possibilidade de um debate centrado nas ideias se tornou cada dia mais difícil. Mais do que apresentar boas ideias, você precisa ser alguém que galvanize a simpatia de um número cada vez maior de fãs e simpatizantes, posto que a “lacração” dependerá disso, e não de seus argumentos e posturas. Isso acabou gerando um personagem novo: “o mendigo de likes“, pois que ele sabe que só poderá “lacrar” se tiver um grupo enorme de pessoas a lhe oferecer suporte e apoio.

Todavia, eu acho que esta fase vai passar. A “lacração” já é um fenômeno decadente e começa aos poucos a ser sinônimo de “argumento frágil e demagógico”. Sou um otimista….

Lacrei? Não….

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Teta

Vi há pouco o vídeo da movimentação da língua de um bebê recém-nascido dormindo, simulando os movimentos da amamentação. Minha observação foi:

“Sonhando com teta, um sonho que vai acompanhá-lo por toda a vida”.

A ideia por trás desta observação é de que nesses estratos primitivos pré-verbais é que se alicerça a sexualidade humana. Nessa fase, chamada de “fase oral”, a boca é a grande ferramenta de prazer sexual. Só bem depois, passada a longa infância humana e com a lenta maturação sexual, encontraremos prazer genital, o qual será fundamental para a vida adulta e a reprodução.

Entretanto, as marcas da oralidade manterão resquícios por toda a vida. Arrisco dizer que o beijo é a característica de expressão afetiva mais saliente nas culturas exatamente porque carrega as memórias prazerosas da amamentação. Não fosse por isso – nossa oralidade e a ligação ao seio como fonte de prazer – e teríamos uma humanidade sem bitocas, selinhos ou beijos “desentope-pia“.

É evidente que a amamentação carrega essa carga enorme de erotismo o qual vai entrelaçar de forma amorosa mãe e bebê. “Se amor existe, este é o sentimento de uma mãe pelo seu filho e todos os outros amores são dele derivados“, diria o mestre Freud. É ali na imbricação de mútuos prazeres que uma mãe cumpre seu mais alto fim: ensinar seu filho a amar. Não resta mais muita dúvida sobre esta questão.

Também é óbvio que na mente da criança haverá marcas indeléveis desse período. A fixação ancestral dos humanos pelos seios produziu um fenômeno único entre os mamíferos: as mulheres humanas são os únicos primatas que mantém a turgidez das mamas fora do período de amamentação. Olhe uma fêmea chimpanzé, gorila ou orangotango e se pergunte: “onde estão as mamas?

Ora… do ponto de vista evolutivo as mamas das fêmeas humanas se mantiveram grandes e túrgidas pelo forte apelo atrativo e sexual que desempenham na nossa espécie. Foi um processo seletivo que ocorreu nos últimos milhões de anos. No Museu de história natural de Nova York, Lucy (australopitecus afarensis) é retratada com as mamas murchinhas, dando a entender que a mama como objeto de desejo ainda custaria a aparecer. Quando então começou essa transformação? Homo erectus? Homo rudolphensis? Ou junto com a razão – no Homo sapiens sapiens?

Por isso podemos apostar na ideia de que o sonho dourado desse bebê vai se manter em sua mente por toda a vida. Essa experiência primitiva de prazer vai acompanhá-lo, mesmo que não perceba. A estética graciosa, redonda, macia e voluptuosa das mamas permanecerá como ícone máximo do prazer.

As mamas, no imaginário humano – em especial no Édipo masculino – vão nos seguir, guiando nossas escolhas, direcionando nossos olhares e construindo nossos sonhos – nem que venham disfarçadas, como balões, flores gigantes e até bolas de futebol (as gorduchinhas).

Pois bastou tocar com essa singela frase na questão da eroticidade da amamentação para – de novo – aparecerem ataques no sentido de questionar a “erotização das mamas”. Ataques, como sempre, violentos.

Claro… mea culpa, mea maxima culpa, respondi de forma exagerada aos ataques. Peço perdão por isso. Entretanto, sempre me assombro com a onda puritana da geração atual. A mera menção do desejo relacionado à amamentação faz com que essas pessoas reajam com ferocidade. A simples ideia de que homens (e mulheres) venerem as mamas como sublime objeto de desejo deixa furiosas(os) as(os) jovens ativistas.

Suspeito que o problema é desnudar a própria existência deste desejo e trazer à tona um gozo escondido, recôndito e dissimulado. O que emerge com tanta voluptuosidade é a denegação do prazer que brota quando se amamenta em liberdade.

Aos envolvidos minhas sinceras desculpas.

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A Perversidade da Riqueza Obscena

Conheço você há muitos anos, desde que fiquei grávida. Sempre admirei suas palavras, mas agora estou decepcionada. Nunca fui ao seu Facebook para criticar sua defesa ao Lula, então não vejo razão para você vir aqui esculhambar os posts que escrevo sobre o que acredito.

As palavras foram duras e a decepção parecia muito verdadeira. Apaguei o que havia escrito e pedi perdão pela intromissão. O post em questão tratava de uma exaltação do trabalho do Sr. Luciano Hang – o Véio da Havan – e sua distribuição de brinquedos para crianças pobres vestido como um Papai Noel azul – embutindo até nesse gesto uma crítica ao “comunismo”. A manifestação dessa minha amiga de Facebook sobre a notícia era ao estilo: “É desse tipo de pessoas que precisamos. Parabéns pela sua visão social“.

Minha frase de crítica havia sido simples e curta: “A tradicional hipocrisia do capitalismo“, mas foi suficiente para gerar ressentimento. Retirei imediatamente minha manifestação, mas fiquei absolutamente tomado pela curiosidade. A questão que não me deixava em paz era: “Por que continuamos a venerar a filantropia dos ricos? Por que acreditamos que um punhado de milionários como Bezos, Gates, Buffet, Musk, Lemann – e até o véio da Havan – tem algum compromisso em fazer um mundo melhor distribuindo uma fração microscópica de seus lucros com programas sociais?”

Somos herdeiros de uma tradição de castas, sejam elas explícitas, como na Índia, ou dissimuladas, imbricadas nas estruturas de poder de quaisquer sociedades. No topo da sociedade ocidental encontramos os europeus brancos; na base os negros, pardos, pobres. Pior ainda é quando naturalizamos essas diferenças e as colocamos como parte do destino, ou do “plano divino”. Ao lado disso, vemos que a distribuição de riquezas desse planeta – e nosso país em especial – é absolutamente perversa, onde a renda do 1% mais rico da população brasileira foi equivalente a 24% da renda total do país no período de 1926 a 2015, o que representa o dobro da concentração observada na maioria dos países do mundo. Apesar de todas as evidências de que a concentração de riqueza está piorando, continuamos a acreditar que a solução dos problemas do mundo pode recair sobre os ombros de milionários que CAUSARAM a maioria desses transtornos, e que consertariam um planeta disfuncional pela própria iniciativa, através da… caridade.

A injustiça estará sempre presente onde a caridade tomar o lugar da equidade.

Como diria Anand Giridharadas, jornalista e escritor americano, é como dar o emprego de bombeiro para o piromaníaco porque “ele sabe como manejar o fogo“. No Brasil, nossa economia é tradicionalmente entregue a banqueiros, mas agora nosso meio ambiente, a saúde da mulher, a agricultura e a educação foram entregues aos representantes da elite perversa que nos controla.

Para ser justo, neste caso não se tratava de uma “fascista” odiosa e inconsequente, apenas uma moça muito amável que acredita no fogo fátuo da benemerência dos bilionários. Alguém que acredita na fantasia de que a solução dos problemas ecológicos do planeta partirá da iniciativa de bilionários que vivem em bolhas de poder e abundância e que desconhecem a realidade da miséria no planeta.

Passados mais de dois séculos ainda confiamos em Marias Antonietas para dizer do que temos fome. Continuamos a aceitar passivamente o sistema de castas que nos oprime, até o dia em que não seremos mais tão facilmente manipulados. Espero que esse dia chegue através da democracia, pois que qualquer outra possibilidade será cara demais.

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Argumento suicida

Uma das coisas que mais me irrita é quando vejo uma pessoa que está do meu lado em uma causa (antirracismo, anti-machismo, anarco socialismo, abolicionismo penal, doulas, homeopatia, luta antimanicomial, parteria, palestina livre, direitos gays, direitos humanos, anticonsumismo, infância sem violência, desadultização de crianças, etc…) apresentando um argumento absolutamente suicida. Chamo de “argumento suicida” aquele que é capaz de produzir uma “lacração” momentânea, uma ilusão de vitória contra um oponente, o qual parece nos levar à derrota de uma perversidade social, mas que por sua incongruência profunda abre um flanco gigantesco em sua retaguarda que – em médio e longo prazos – oferecerá munição inesgotável para nossos oponentes.

Exemplos? Dizer que a fascista gay tem mais é que apanhar. Soltar rojão quando fascistas são mortos. Apoiar pena de morte (ou pena de prisão abusiva) contra nossos oponentes. Acreditar cegamente em qualquer relato apenas porque a vítima está do nosso lado. Apoiar qualquer atitude de vingança que literalmente nos nivela aos criminosos que tanto criticamos. Em suma: agir da mesma maneira que nossos adversários, o que retira toda a legitimidade do nosso discurso. Alias, como diria o genial energúmeno, “Sem uma educação libertadora o sonho do oprimido é virar opressor“.

Quando vejo isso acontecer fico realmente furioso…

Não se passaram 24h e acabei encontrando um belo exemplo: descobriu-se através dos vídeos que a menina Karol não foi vítima de homofobia como muita gente acreditou, mas foi, em verdade, a agressora de um rapaz em um quiosque na praia. Ao que tudo indica estava sob efeito de drogas. Usou a arma da namorada (que é policial) para fazer ameaças, tentou se passar por policial federal e ainda agrediu a namorada.

Nenhuma violência pode ser justificada, seja contra negros, brancos, mulheres e homens. É o que diz a lei. O fato dessa moça ter chutado, cuspido, atacado a socos e humilhado com palavras a este rapaz não pode ser perdoado apenas porque ela faz parte de uma minoria que sofre agressões e humilhações constantes. Não dá para passar pano para agressor….

Pois hoje eu li alguém argumentando que o homem era o “verdadeiro” agressor porque, sendo maior do que a Karol, deveria “se conter”. Em outras palavras, a culpa é dele, a vítima da agressão física, porque errou ao não se controlar e revidou aos ataques.

Sabe o que significaria aceitar esse como um argumento válido? Que os argumentos dos machistas passariam a ter valor quando culpam a vítima por suas agressões. “Se estivesse na Igreja não seria ofendida“, “Se controlasse melhor sua forma de vestir não receberia cantadas sujas“, “Se não tivesse esse decote não seria abusada“, ou ainda “Se tivesse medido as palavras o marido não perderia o controle“. Quem ainda consegue admitir como válida essa argumentação machista e oportunista?

Esse é o maior exemplo de argumento suicida. Nesse caso se tenta colocar a culpa na vítima – que por acaso foi um homem – ao invés de reconhecer que sua agressão é que iniciou toda a confusão. E lembrem: o fato de ela ter se machucado não a torna vítima, assim como um homem que quebra a mão ao agredir alguém também não se torna. Os ferimentos da Youtuber foram consequência direta de suas agressões e do seu destempero. Não há porque culpar ninguém mais.

Nesse caso o melhor é fazer o que as mulheres tanto aconselham os homens – e com justiça: “Não fique dando desculpas ou jogando a responsabilidade para a vítima. Aceite o erro e mantenha um silêncio respeitoso“.

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Dê a eles brioches

Uma história curtinha contada pela Ana Cris, mas que encerra bons ensinamentos sobre como funciona o pensamento biomédico.

“Diálogos surreais – esse entre uma obstetra humanista e um anestesista do plantão.

O que é esse negócio de balão?

Estou induzindo um parto, mas ela tem cesárea prévia, por isso usei esse balão que ajuda a preparar o colo.

Ué, e por que não pode fazer uma cesárea?”

Já eu acho que seria possível fazer uma tese de doutorado baseando-se na pergunta inocente deste anestesista. Em verdade, toda uma cosmologia se encerra neste questionamento que deixa explícita a incapacidade do médico em questão de enxergar do que estamos falando. Não à toa a pergunta veio de um anestesista, o profissional responsável por obliterar os sentidos e cujos pacientes são absolutamente passivos e inertes. Seria, por óbvio, o último a entender o que seja protagonismo e porque tanto o valorizamos.

Essa cena lembra duas outras. A primeira, Maria Antonieta ao responder um seu ministro que desse ao povo brioches, quando avisada que lhes faltava o pão e a fome destruía as famílias francesas. Não era desdém, era a incapacidade de enxergar para além da bolha palaciana.

A outra cena aconteceu comigo ha 25 anos no hospital da Brigada Militar numa reunião privada com o diretor do hospital, um pediatra de carreira. Dizia-lhe eu da importância de manter a equipe de enfermeiras obstetras no plantão como estratégia para diminuir o exagero nas indicações de cesariana. Ao ouvir minha inconformidade com as taxas elevadas de cirurgias ele exclamou:

Nao entendo o que chamas de “exagero”. Digo-lhe que em 26 anos atendendo salas de parto nunca vi uma cesariana ser mal indicada.

Duvido que essa frase, como a da Rainha francesa, tenha sido pronunciada com escárnio ou deboche. Nada disdo; era mesmo pura ignorância, mas uma falta de conhecimento que se assentava sobre o pilar fundamental que sustenta a prática da maioria dos profissionais que atendem o nascimento: a crença na incapacidade da mulher de parir com segurança e a aposta na suprema fragilidade dos recém-nascidos. Ambas, erros da natureza madrasta, só podem ser corrigidas pela intervenção fálica da tecnologia, mesmo que o preço seja a expropriação do parto de quem sempre o teve como seu.

Claro é que estas são construções que se fazem durante o “rito de passagem” do treinamento médico que ocorre desde o primeiro dia de aula até os últimos instantes da residência. Um saber subliminar, pervasivo, não expresso mas que contamina todo o olhar profissional. Algo de tamanha intensidade que coordena as ações, atitudes e o próprio entendimento sobre os pacientes.

Ao dizer “por que não faz uma cesariana” o profissional expressa de forma holofrástica todo um conceito relacionado não apenas à superioridade da tecnologia sobre a natureza, mas também a questão de gênero – pulsante e onipresente – que permeia toda a decisão médica sobre o corpo das mulheres.

A mesma incapacidade de responder ao pediatra do hospital da brigada eu tive nas vezes em que anestesistas me perguntavam (em suas infinitas variedades) a questão “o que está esperando para operar?”

Sem entender a transcendência de um nascimento e a imponderabilidade dos afetos e significados envolvidos não há como explicar a importância de garantir à mulher o direito de parir por suas próprias forças. É exatamente nesses espaço, neste vão de olhares, que se insere a humanização do nascimento, que vai mostrar sentido onde muitos enxergam apenas capricho.

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Presente de aniversário

Peguei um Uber para voltar para casa e – fato raro – a motorista era mulher. Mal entrei no carro e perguntei a ela se ainda escutava muito a piada “mulher no volante…” e ela deu risada dizendo que “muitas vezes”, mas que prefere levar na esportiva. Eu disse que a piada não cabe mais nos tempos de hoje. Ela concordou e me peguntou: “O senhor já pegou muita mulher?”

Não pude conter a gargalhada, mas antes que eu pudesse responder ela remendou dizendo “Como motorista, como motorista!!!“….

“Ufa”, disse eu… “perguntar isso pro velhinho, me deixa até constrangido…”

Depois dessa introdução, algo inusitado para um caramujo como eu, o papo desenrolou. Ela me disse que ontem, 17/11 foi o “dia do prematuro”, e passou a me contar do nascimento de sua filha, nascida prematura por bolsa rota às 35 semanas. É óbvio que aí a conversa engrenou de verdade. Falei a ela dos meus anos à frente da ideia de humanizar o nascimento e como era importante também humanizar o nascimento dos prematuros. Assunto vai, assunto vem e daí amamentação, bioma materno, cesariana, parto vertical, boas práticas, episiotomia e blá, blá, blá…

Depois de perceber para onde aquela conversa ía ela me disse: “Sabe, sou estudante de enfermagem do 7o semestre. Sim, da UFRGS, e meu sonho é trabalhar com nascimentos, partos, mães e bebês. Sempre me encantou esse tema. Minhas professoras preferidas são Jéssica Teles e Virginia Leismann Moretto. Elas são maravilhosas!!!”

Concordei em parte, deixando clara a ressalva relativa ao coloradismo da Virgínia, e exaltando o gremismo da Jéssica. No mais, exigi que mandasse um beijo para todas as suas professoras e que seguisse em frente com seu sonho de se dedicar à enfermagem obstétrica. Depois dessa conversa me deixou no portal da Comuna e me deu adeus com um largo sorriso.

Vadzê que esses encontros mágicos não são verdadeiros presentes de aniversário?

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Agressão brutal

A agressão ao obstetra em Itajaí é um ato que deve ser repudiado por todos. Covarde, desproporcional e absurdo. Nada pode justificar a violência contra os profissionais da linha de frente da atenção à saúde. A sociedade organizada precisa repudiar tal ato com toda a veemência.

De qualquer forma, partindo do repúdio total ao ato, é importante entender as circunstâncias da agressão que agora nos chegam pelo relato da polícia. O agressor – lutador de artes marciais com passagens anteriores por agressão – teria agredido o médico por “ciúme”, já que foi impedido de acompanhar a esposa durante a avaliação do profissional. Em função disso, talvez associado à tensão pelo trabalho de parto da sua esposa, agrediu violentamente o residente de plantão. Um ato bárbaro e inaceitável.

Aqui fica ainda mais evidente a urgência em respeitar os pressupostos da humanização do nascimento. Ao marido-agressor foi dito que ele não podia entrar na sala de exame pois havia outras pacientes na sala, e não apenas sua esposa. Isso foi o suficiente para um sujeito, perturbado e violento, perder o controle. A pergunta que cabe é: por que diabos não se respeita o direito das mulheres ficarem com seus acompanhantes de livre escolha durante TODO o processo, como recomendado por todas as instituições que estudam o processo de nascimento e como está explícito na própria LEI do acompanhante de 2005?

O médico acabou pagando por um erro ESTRUTURAL do hospital e, para seu azar, encontrou pela frente um sujeito furioso que consumou uma agressão brutal. Profissionais da saúde (enfermeiras sofrem esse assédio ainda mais que os médicos) não podem pagar pela insensibilidade dos serviços de saúde em garantir um atendimento humano e respeitoso.

O médico vítima dessa agressão talvez não seja o último. Outros sujeitos perturbados e violentos podem encontrar serviços que não respeitam os postulados da humanização e partam para a violência contra profissionais. Estes, que já lutam contra salários indignos e falta de segurança, não podem continuar a pagar o preço pela atenção anacrônica dos hospitais, que não garante assistência digna às mulheres e sua família.

Nunca como agora foi tão importante – em verdade essencial – lutar pela humanização do nascimento e assumir o compromisso pela sua implantação pelos serviços de saúde de todo o país.

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Childfree

Sobre páginas “Childfree” – grupo de pessoas que combatem a discriminação contra indivíduos sem filhos…

Minha percepção sobre estas comunidades nas mídias sociais é que TODAS essas páginas de grupos oprimidos passam pelo mesmo processo. Observe bem: se você fizer uma página de pessoas negras que lutam contra o preconceito racial com o tempo vai aparecer alguém que odeia brancos e deseja destilar todo o seu ódio contra essas pessoas, devolvendo a violência que sofre com mais violência – agora com sinal trocado. Certamente serão uma grande minoria, mas a veemência de seu discurso, fruto de dores continuadas, fará sua voz reverberar mais alto do que a maioria silente.

Da mesma forma, se um grupo feminista se une para combater a opressão machista vão inevitavelmente aparecer mulheres com discurso de ódio – e não contra os machistas, mas contra todos os homens. É fácil descobrir quem são: rapidamente dizem que o estupro é algo “natural” para todos os homens, são todos “esquerdomachos“, não passam de “escrotos” e não são dignos de nada. Escrevem sobre a superioridade moral de um gênero sobre o outro e, apesar de serem minoria, acabam contaminando os grupos com a potência do seu ressentimento. Devolvem a opressão que dizem sofrer com ódio, exclusão, violência e vingança.

Os grupos “childfree” eu pouco conheço. Minha posição de admiração ao parto e às crianças nunca me permitiu qualquer aproximação com pessoas que desprezam esses aspectos essenciais da vida. Entretanto, a escolha PESSOAL de não ter filhos é tão respeitável quanto qualquer outra. Eu não diria o mesmo de uma postura institucional ou proselitista – pois ela atenta contra a própria continuação da vida humana no planeta – porém, esta decisão pessoal, como qualquer outra, precisa ser respeitada.

Esse grupo não poderia fugir da sina de todos os outros. Se foi mesmo criado para combater o preconceito contra sujeitos que decidem não ter filhos, rapidamente atraiu pessoas cujos traumas pessoais as levam a odiar crianças, grávidas e casais que desejam engravidar. Não há como evitar que estes nichos se tornem atraentes para o deságue de ressentimentos e rancores antigos de pessoas cuja vida é salpicada de traumas.

Cabe a quem coordena tais ambientes depurá-los de indivíduos que usam uma boa causa – combate ao racismo, feminismo e preconceito contra sujeitos sem filhos – como palco para que seu drama pessoal seja encenado e onde possa distribuir sua mágoa destrutiva.

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Cultura do medo

The nurse relaxing Jerald before the milk challenge during the Labor Games.

Em “Media Representations of Pregnancy and Childbirth: An Analysis of Reality Television Programs in the United States”, os pesquisadores Morris e McInerney (2010) descreveram a resultados de sua análise de conteúdo de 85 reality shows que retrataram 123 nascimentos, exibidos nos EUA no “Discovery Health” e no “The Learning Channel” em novembro de 2007, concluindo que “os corpos das mulheres eram tipicamente exibidos como incapazes de dar a luz um bebê sem a intervenção médica “. (Ways of Knowing about Birth – Robbie Davis-Floyd, no prelo)

Não é de se admirar que, na cultura contemporânea, o parto seja visto como a “crônica de um desastre anunciado”. A sociedade, através de seus meios de controle social (a televisão em especial), cria e amplifica a ideia central da defectividade feminina e sua extremada dependência da ciência e da tecnologia para superar seus desafios fisiológicos. Nesta abordagem, os heróis são sempre os médicos e a tecnologia, responsáveis últimos pelo resgate das pobres e frágeis mulheres de sua natureza imperfeita e traiçoeira. Nos filmes, documentários e séries, a gestação é quase sempre retratada como um momento dramático, perigoso e causador de tragédias. Como dizia meu obscuro professor na residência, “uma grávida é um equilibrista nas alturas sobre a corda bamba, e vocês são a rede“. Por que tanto espanto quando as mulheres descrevem o parto como algo que lhes causa terror e medo? A quem cabe a culpa por uma “cultura de medo” sobre o nascimento?

A fragilidade do organismo das mulheres e sua incapacidade de parir com segurança sem a intervenção patriarcal da obstetrícia são mitos que sobrevivem ao tempo, mas cuja disseminação não se expressa num vácuo conceitual. Pelo contrário; são parte essencial do controle dos corpos, o biopoder e a dominação patriarcal sobre a sexualidade feminina.

A mudança na forma como entendemos o parto nas sociedades ocidentais não se fará pela simples disseminação de informação de qualidade, como ingenuamente acreditam os racionalistas. Esta transição é um processo cultural, e só se dará obedecendo os movimentos de fluxo e contrafluxo de qualquer outro fenômeno social. Na atual conjuntura, a abordagem intervencionista da obstetrícia ocidental ocorre por meio de um acordo mútuo entre as mulheres e seus médicos, que se baseia nos valores fundamentais e na abordagem geral da vida inserida na cultura tecnocrática.

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