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Os gays na caserna

Quando vejo os trejeitos do presidente, sua fixação anal, seus temores expressos e seu horror à homossexualidade misturados com suas piadas e declarações homofóbicas eu lembro do tempo em que fui militar – tenente médico da gloriosa Força Aérea Brasileira – e pude observar por dentro da caserna como estas questões eram vistas e tratadas.

Minha turma de oficiais da reserva era formada por garotos de 24 a 32 anos recém formados em medicina, odontologia, cartografia e engenharia. Éramos não mais que meninos que durante o treinamento nos comportávamos como adolescentes. Moleques, alegres, entusiasmados, curiosos e arrojados, tínhamos a vida inteira pela frente, com toda a carga de expectativas, sonhos e dúvidas.

O mais velho dos aspirantes era de fora do estado e tinha um comportamento curioso. Era afetivo e brincalhão, porém exagerava nas piadinhas sobre gays, machos, “bonecas”, “maricas” e tamanho de pinto, as mesmas que qualquer bando de adolescentes costuma contar. Havia estudado no interior, era casado e pai de três meninas. No último dia do estágio me cumprimentou e disse lamentar que nossa amizade não tivesse avançado para “outro nível”. Seu colega de faculdade, que presenciou a cena de longe, me puxou para um canto e disse: “É isso mesmo que você está pensando“.

Havia um outro rapaz no nosso pequeno grupo que era delicado, sorridente, bonito e vaidoso, algo que se adaptava ao “estereótipo gay”. Claro, ele tinha uma noiva, e às vezes me falava dos seus sonhos de casar, ter filhos e morar no interior, talvez em Santa Catarina. Por alguma razão ele se sentia seguro em me confiar estes planos, uma conversa pouco comum entre homens. Alguns anos depois de sair da aeronáutica eu o encontrei passeando em Balneário Camboriú, e ao seu lado alguém que não deixava dúvidas de ser seu namorado: o telefonista do quartel onde fizemos nosso estágio para o oficialato.

Nessa mesma época recebi um telefonema anônimo para minha casa tarde da noite. Não reconheci a voz, mas era de um jovem dizendo me conhecer do quartel. Ele parecia saber muitos detalhes da minha vida, inclusive sobre meus filhos pequenos. Quando foi pressionado para se identificar, respondeu: “Sou alguém que você bobeou e perdeu“. Quase enxerguei pelo telefone a “egípcia” que se seguiu a esta frase. Nunca soube quem era, mas evidentemente era alguém da caserna.

Havia entre os profissionais do hospital dois homossexuais inconfessos. Um deles tinha uma postura máscula, voz grossa, um homem forte, bonito e atlético. Tinha consultório na cidade e fazia grande sucesso na sua especialidade. Discreto, jamais foi visto com qualquer soldado sem alguém próximo, e nunca oferecia caronas até a estação do trem – algo que eu fazia todos os dias. Tinha 42 anos e era solteiro. Todavia, ele tinha uma particularidade muito incomum; para além de ser militar era…. bailarino. Sim, bailarino clássico de uma companhia da capital, mas nunca falava abertamente sobre esta sua “outra vida”. Era uma espécie de segredo que poucos conheciam. Esse colega também era muito chegado a mim e ao nosso amigo em comum, o “Derma”. Certa vez, no término do expediente, quando estávamos os três no vestiário nos preparando para sair, nosso parceiro Derma lhe disse:

– Fulano, faz aquele giro que os bailarinos fazem na ponta dos pés. A gente quer ver. Por favor… uma pirueta!!

Ele se negou. Depois disse que não podia por causa do sapato. Depois sorriu envergonhado, dizendo que precisaria aquecer, mas por fim, depois da insistência, cedeu e nos ofereceu um pouco da sua arte. Não há como esquecer; foi a mais bela e emocionante “Pirouette dedans” que jamais vi ao vivo.

Este colega resolveu se mudar para o Rio. Foi nesse dia que, para mim, fez sua confissão. Disse-lhe eu que ele devia ficar. Seu horário no hospital era folgado, a semana era de 4 dias, não fazia mais plantões (pois era capitão) e seu consultório estava lotado de pacientes. “Vida tranquila e sucesso profissional“, falei.

Seu sorriso foi, então, revelador. Mais do que uma confissão explícita ou um flagrante constrangedor, ele abriu um sorriso tímido, me olhou nos olhos e disse “Existem outras coisas na vida para além da tranquilidade e do sucesso. Vou ao Rio para encontrá-las“. Diante dessa declaração, sorri como resposta e disse: “Vá em paz, brother“. Dei-lhe um forte abraço e nunca mais o vi.

O outro colega gay – cuja especialidade não convém dizer – era um homossexual muito sofrido. Também quarentão, igualmente solteiro, mas jamais exibia a jovialidade e o humor debochado do colega bailarino. Era duro, sério, fechado até obtuso. Foi ele quem, num lampejo de “sinceridade”, uma tarde me abordou no cafezinho do hospital e disse que não conseguia aceitar que as mulheres ganhassem seus filhos naquela posição (cócoras) que eu havia introduzido no hospital. “Acocoradas como bichos, pareciam estar defecando; ou como galinhas botando ovo“, disse ele, com nojo indisfarçável.

Sem dúvida. Animalizadas, despojadas de sua capa cultural asséptica, moderna, limpa e higiênica… essa era a imagem insuportável de uma mulher. Uma mulher parindo lhe obrigava a ver o que seus olhos evitavam: a imanente e poderosa força selvagem e sexual do parto – e de uma mulher.

Em um ambiente de pura testosterona era natural que essas manifestações fossem perceptíveis nas fissuras, nas rachaduras abertas no discurso, rompendo as capas de proteção criadas para impedir a expressão de sentimentos conflituosos. Nesse ambiente marcadamente masculino a homossexualidade era latente, porém suprimida e sufocada. Nenhum desses personagens jamais admitiu abertamente sua orientação sexual, mesmo diante das pistas que deixavam por todos os lugares por onde transitavam. Eram segredos, vozes que ecoavam em solilóquio, maldições escondidas.

Para a formação dos aspirantes oficiais, depois de alguns meses de treinamento físico e militar, era necessário fazer uma palestra para os colegas, como prova de conclusão do “curso de oratória”, algo ingênuo e inútil, mas obrigatório. Aliás, foi nesse curso que um oficial professor me disse uma frase que jamais esqueci: “Marx era um homem inteligente, mas um péssimo pai de família“. Nada mais natural de se ouvir em um quartel apenas poucos anos após o fim da ditadura.

Não tive muita dificuldade em escolher o tema. “Se é para agitar, vamos chacoalhar“, pensei. Meu tema escolhido foi “Homossexualidade em tempos de Aids“, exatamente durante a histeria pelo seu aparecimento nos Estados Unidos. Na minha breve palestra, que misturava questões médicas da síndrome com conceitos (avançados para a época, acreditem) de diversidade e liberdade de escolha, eu lembro de ter olhado firme nos olhos destes colegas e amigos como que a lhes dizer que “existe vida fora do armário“, mas que eu conseguia compreender porque lá dentro ainda parecia tão mais seguro.

Terminei minha palestra dizendo que estávamos no limiar de um novo tempo e era necessário nos adaptar a ele. Os homossexuais estavam adquirindo seus direitos e se apresentavam à luta. Citei para eles meu episódio predileto: “O Levante de Stonewall” e disse-lhes que devíamos entender que os gays não sofriam de nenhum distúrbio de ordem moral, mas aqueles que menosprezavam sua dignidade humana, sim.

Nunca encontrei meus amigos no Facebook, já passados 30 anos dessas histórias. Gostaria de poder dizer a eles que tive muita honra de conhecê-los para entender o peso que carregavam pela vida que tinham. Espero que hoje sejam homens felizes e realizados e que tenham aproveitado as últimas três décadas com a mesma alegria adolescente da época dourada em que nos conhecemos.

Amém

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Morrer

Minha mãe morreu em casa, como todos que têm a possibilidade de escolher deveriam cogitar.

Em verdade, esta escolha se fez há alguns anos quando de sua última internação por um problema neurológico. Muito piores que as dores e angústias do seu transtorno físico foram as burocracias relacionadas à internação. Apesar do notável o esforço da equipe de enfermagem em diminuir o desconforto com a situação, nada foi suficiente diante da objetualização natural a que passam todos os velhos confinados em hospital.

“Para um velho a rotina é um alívio”, diz meu pai. Seu argumento é de que a mudança de um padrão diário de atividades produz a inevitável necessidade de readaptação às novidades. Esse exercício de mudança é simples e estimulante para os jovens, mas angustiante e até mesmo aterrador para os velhos. Quando minha mãe acordava de madrugada e não encontrava meu pai ao seu lado isso produzia um sofrimento diretamente proporcional ao seu grau de confusão. Este foi apenas um dos múltiplos efeitos da internação; as medicações estupefacientes, a falta de luz solar, as pessoas uniformizadas ao seu redor, a impessoalidade, as visitas restritas, a cerimônia, a “papelada”… tudo contribui para a piora do quadro psíquico dos idosos.

Com o meu pai ocorreu o mesmo. Quando de sua internação por um AVC o drama foi muito mais o hospital do que a própria doença. As visitas, as rotinas, as drogas, a troca da equipe de enfermagem, as avaliações médicas relâmpago, o atraso dos neurologistas e as “normas de segurança” tornaram a internação um suplício, tanto para ele quanto para nós, os familiares.

Não quero demonizar hospitais e profissionais que lá trabalham, mas alertar apenas do custo muito alto de manter pessoas idosas em tais lugares. A escolha para levar e manter idosos no hospital deveria ser por exclusão. No hospital deveriam permanecer apenas quem dele pode se beneficiar.

Por isso nos mantivemos firmes em não internar minha mãe diante da sua piora e da proximidade do seu quadro final. Mesmo sabendo da dificuldade de suportar a tensão do último suspiro de quem tanto amamos, a escolha de permitir que a passagem se faça com suavidade e na paz do lar vale o sacrifício.

Assim como nascer, a morte deveria ser um momento pleno de afeto e cuidado, e junto aos seus. Os polos da vida se encontram na necessidade de oferecer significado aos momentos mais importantes da nossa breve estada. Nascer e morrer deveriam ser momentos sagrados, resguardados da intervenção exagerada dos sistemas de poder.

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Luz

“Minha mãe foi um Flamboyant, sua árvore preferida. Uma planta frondosa e gentil, cuja copa robusta e larga sempre ofereceu sombra e proteção aos seus. Teve uma vida nobre e digna e cumpriu sua missão com coragem e dedicação.”

Provavelmente tudo o que sei passou pelo filtro da minha mãe. Nada mais natural que uma mãe seja a tradutora mestra dos significados do mundo para seus filhos. Minhas recordações mais antigas se referem a ela explicando coisas simples e banais do dia-a-dia, como o rótulo de um produto na mesa ou o que estava escrito em um outdoor na rua.

Minha mãe foi um produto do seu tempo, mas também pareceu ter passado incólume por uma revolução cujos significados e consequências estamos longe de desvendar por completo. Ela era uma mulher muito feminina, delicada, bela, recatada e do lar e tinha uma profunda devoção à família e ao seu companheiro. Desde o momento em que se casou assumiu o cuidado de sua casa e a tarefa de zelar pelos seus filhos, como faziam as mulheres atingidas pela maternidade nos anos 60.

Hoje é fácil notar o estranhamento que causa uma mulher se definir como “recatada e do lar”. Em uma sociedade que cultua o individualismo o cuidado do lar significa o cuidado com o “outro”, portanto o “descuido” de si mesma. O recato, inserido em uma cultura de exaltação do sujeito, coloca o pudor como defeito grave, a timidez como doença e a simplicidade como anomalia, dignas de serem extirpadas por terapias ou drogas. Entretanto, havia algo na personalidade da minha mãe que me permitiu questionar valores desta cultura muito tempo depois de ter abandonado o calor reconfortante de suas asas. Minha mãe era uma “cuidadora”, na melhor acepção da palavra. Sua missão era cuidar de seus filhos e de seu marido, oferecendo a estes a melhor possibilidade de alçar voos mais grandiosos. Para ela nunca exigiu holofotes ou ribaltas; satisfazia-se com o brilho que conseguia vislumbrar naqueles a quem se dedicou.

Essa perspectiva de mundo foi muito importante para que eu pudesse entender algumas posições subjetivas que não são facilmente compreendidas em um mundo histérico e individualista. Muito cedo entendi que a função de um obstetra não deveria ser a de assumir o protagonismo dos nascimento. “Um obstetra não é aquele que brilha, mas o que reflete a luz que emana do nascimento“, já dizia meu amigo Max, com rara sabedoria. Não caberia a ele “fazer partos”, mas meramente estar ao lado, ajudar, auxiliar e cuidar – “ob stare“. Da mesma forma, não deveria ser esta a função das doulas, cuja ação reconfortante não permitiria brilhos, mas onde a doce presença infundiria confiança e tranquilidade.

Na homeopatia, ramo centenário da medicina, herdeiro das visões hipocráticas e vitalistas da arte de curar, o médico se situa na posição humilde de tradutor dos sintomas para sua posterior interpretação medicamentosa, mas sempre sabendo que a cura só se processa através do sujeito, sem o qual qualquer terapia é inútil e enganosa. Até mesmo a psicanálise – e seus silêncios – sugere a importância primordial de fugir da sedução inebriante da interpretação sagaz, relegando-se a uma condutora silenciosa da alma – um Caronte a levar à luz todo aquele que se aventura a encarar seu próprio inferno.

O exercício mais profundamente desgastante e tormentoso de qualquer sujeito é a supressão de seu Eu, já nos diziam as tradições milenares. Com minha mãe pude ver o sentido divino de diminuir sua luz para que ela não ofuscasse a dos demais. Com ela pude entender a importância de ser simples e reconhecer a grandeza de viver para exaltar a quem admiramos. Viver para os outros, para fazê-los felizes, também é um ato de grandeza e amor. Este foi o exemplo máximo que recebi de minha mãe. Siga em paz e obrigado….

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Vaidades

Há alguns anos eu vi uma cena que até hoje me faz refletir. Nela havia um fusca estacionado no meio fio, enquanto um jovem se ocupava em lhe dar um banho de mangueira e passar uma esponja com sabão. Nada mais singelo e banal, não fosse o fato de que esse fusca era o carro mais enferrujado que já existiu sobre o planeta. Era todo amassado e com marcas gigantes de ferrugem que chegavam a carcomer a carroceria até atravessar em vários pontos. Era um caco velho, mas o jovem o estava cuidando, ajeitando e deixando limpo com todo o carinho, como se fosse um BMW.

Diante da cena tocante eu me perguntei em solilóquio: “que diferença faz estar limpo um carro TÃO deteriorado?”

Curiosamente eu sempre lembro dessa cena quando me olho no espelho e começo a pentear meus “cabelos”…

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Rua de Ramalhetes

Cada um olha para o que quer, e talvez essa paralaxe seja o que explique os humores, as dores, as paixões e as tristezas concentradas. Pois eu prefiro olhar para o arco-íris da minha infância e juventude, mesmo reconhecendo o quanto de injustiça ainda havia. Eu olho para os Beatles, os hippies, o “women’s liberation front“, o maio de 68, a pílula anticoncepcional, o movimento de mulheres, a minissaia, a moda unissex, o amor livre, a rua com seus ramalhetes, o parto humanizado nascendo no ventre do movimento beatnik, Ina May, Woodstock, Jimmy Hendrix, Genesis, Yes…

Tempo de chegar à lua, de beijar na boca em público, de expor a barriga na praia como Leila, de ver gente pelada no “Hair”, de cantar com os Rolling Stones, de ser antropofágico com Caetano e seguir a banda com Chico.

Não havia encantamento no seu tempo” Quanta arrogância!!! Praticamente TUDO que se usufrui hoje, inclusive – e principalmente – tantos direitos para as mulheres, veio das conquistas de homens e mulheres dessa época maravilhosa, que acordaram para a necessidade de equidade e começaram uma luta que ainda está recém engatinhando, mas que ofereceu já tantas coisas.

No seu tempo o amor era apenas falso moralismo“. É assim que podemos classificar o amor dos nossos pais, de onde todos saímos? É assim que classificamos essa atração irresistível dos corpos que ultrapassa os tempos e nos mantém aqui neste planeta?

Não consigo ajeitar no meu horizonte de compreensão tanto rancor com o tempo que se foi. Respeito o sofrimento e a perspectiva de vida de quem não enxerga como eu, mas permitam que eu me espante com o ressentimento que não nos permite enxergar a rosa ao fim do caule espinhento.

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Filhos, quando

Tive filhos muito cedo. Fui pai aos 21 anos, mas sei que o capitalismo não aceita mais estas escolhas. “É cedo demais, precisa terminar os estudos”, dizem. Depois se estabelecer, fazer mestrado, doutorado, viajar e conhecer o mundo. Filhos se tornaram acessórios e perderam a prioridade. Devemos ainda ter filhos? Creio que sim, mas sei que pela primeira vez na história minha opinião pode ser contestada. Porém, para além da decisão de tê-los outra pergunta se impõe: “Ok, mas quando?

Muitos dirão: “Apenas quando tiver maturidade e condições (financeiras) para esse empreendimento“.

Isso só vai acontecer para a classe média bem depois dos 30 anos. Muitos se aproximam perigosamente dos 40 anos, quando os riscos genéticos se associam à natural queda da fertilidade. Assim sendo, do ponto de vista genético, orgânico e fisiológico, a época mais adequada para ter filhos é a terceira década, mas não é a mais escolhida por fatores culturais. Mesmo sendo socialmente mais seguro, ter filhos mais tarde é muito pesado.

Tive meus filhos ao acaso, por descuido, mas creio que se não fosse assim teria logo depois. A paternidade sempre foi um objetivo primordial na minha vida. Hoje percebo que o que à época pareceu “azar” foi, em verdade, muita sorte. Devo muito do que sou ao aprendizado com meus filhos. Tive ainda a chance de ser avô aos 52 anos, e ter tempo e saúde para ajudar na educação dos meus netos. Quando vejo amigos de quase 50 anos encarando a dureza da paternidade – com muito menos energia que eu tive – só posso sentir pena. Não é fácil e demanda muita força e dedicação. Por isso digo que a melhor época para ter filhos nessa sociedade é quando guardamos a energia necessária para uma tarefa de tamanha magnitude.

Aliás, ao dizer que tive filhos “por descuido” ou , “ao acaso” cometo uma simplificação, ou mesmo uma mentira. Essas ações são sempre carregadas de desejo, seja ele inconsciente ou não. Há sempre uma volição escondida sob a tênue camada de racionalidade que nos abriga de medos ancestrais. Excetuando-se os casos de violência, sempre há intenção nesses deslizes. A pulsão de vida não se importa muito com nossa frágil racionalidade. Sua força e potência é necessária para a manutenção da vida e, portanto, não seria essa conquista tão recente forte o suficiente para ameaçá-la.

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Renovação

Minha nora entrou no centro obstétrico com contrações esparsas, bolsa rota, aumento de temperatura e uma ansiedade que compartilhava com todos ao redor. Dos atingidos pela angústia eu era o mais aflito – e o mais dissimulado. Por trás de uma máscara de tranquilidade, dúvidas e perguntas. Por que não desce? O que está havendo? Por que a temperatura subiu? Por que eu?

Não era para estar ali. Sempre deixei isso claro. Pedi a todos o direito de ser apenas avô, mas não foi possível. A gestação de mais de 42 semanas e as férias da obstetra que aceitou atender um parto normal nessas condições me colocavam como única esperança. Senti vergonha pela minha cidade, incompetente para produzir parteiros. Mais de 39 anos depois de “Nascer Sorrindo” de Leboyer e o cenário obstétrico continuava praticamente inalterado, com as mesmas visões anacrônicas dos anos 40. Um atraso que ainda levaremos décadas para recuperar.

Quando ela chegou ao centro obstétrico eu já estava lá esperando, como sempre fazia. Avisei algumas técnicas de enfermagem “amigas da causa” que a esposa do meu filho chegaria carregando meu neto, ainda no ventre. Foram elas que, com ingênua euforia, deixaram que a informação chegasse aos ouvidos da enfermeira chefe.

Sobrinha de uma das diretoras-freiras do hospital ela fazia o papel das antigas “enfermeironas” dos anos 50. Tinha uma política muito clara: favorecia os médicos que não “atrapalhavam” o serviço (os cesaristas). Era simpática e cordial com eles mas guardava todo seu azedume e ressentimento para os profissionais que trabalhavam fora do paradigma tecnocrático, aqueles que ousavam investir na condução natural (fisiológica) dos partos a despeito do tempo despendido para tal.

Nunca escondeu sua desaprovação por mim e pelas teses da humanização. Foi a primeira enfermeira a me dizer claramente que não aceitava o trabalho das doulas e durante os anos que trabalhamos no mesmo serviço sempre deixou explícito seu desprezo pela humanização do nascimento. “Vamos acabar com a farra das doulas“, me disse certa vez.

Quando viu minha nora entrar no centro obstétrico – segurando sua barriga entre as contrações – imediatamente barrou a entrada da doula. Inventou uma mentira ao insinuar que esta teria dito “se eu não entrar a paciente também não entra“. Usou de uma inverdade absurda para justificar sua atitude autoritária e vingativa. Precisei negociar a entrada dela e do meu filho, fazendo um enorme exercício de apaziguamento – exatamente no meio de uma brutal crise existencial.

Acabamos optando pela cesariana, por razões múltiplas, mas essencialmente por uma parada de progressão de várias horas. Depois da cirurgia a enfermeira chefe cruzou comigo pelo corredor do hospital e disse “Não sabia que era sua nora; se soubesse abriria uma exceção“.

Essa frase me deixou ainda mais furioso, mas nada disse para ela. Engoli em seco, como me acostumei a fazer durante 30 anos de bullying. Ela não só agiu de forma cruel tentando impedir o trabalho valioso da doula como confessou que teria se comportado diferente caso soubesse que era meu neto que estava por nascer. Eu pergunto: o que me faria merecer esta deferência? Por acaso neto de médico é diferente dos outros humanos?

Passados quase 7 anos desta cena, ainda guardo muita mágoa e culpa pelo silêncio que me impus – minha condição frágil no hospital não me permitia confrontações. Hoje fiquei sabendo que esta enfermeira-chefe saiu do hospital. Não sei as razões, mas espero que estejam relacionadas à discordância dos seus superiores com sua incapacidade de reconhecer a transcendência dos partos na história de tantos personagens: mãe, pai, bebê e família.

Em seu lugar assume uma enfermeira que sempre guardava um sorriso para receber bebês e recém mães. Que a história desse hospital possa mudar e uma página nova possa ser escrita. Que os pressupostos da humanização possam, finalmente, florescer.

Apesar de tudo, meu neto está aí, mostrando que o clima ruim construído ao redor de um nascimento pode ser revertido.

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Presente de aniversário

Peguei um Uber para voltar para casa e – fato raro – a motorista era mulher. Mal entrei no carro e perguntei a ela se ainda escutava muito a piada “mulher no volante…” e ela deu risada dizendo que “muitas vezes”, mas que prefere levar na esportiva. Eu disse que a piada não cabe mais nos tempos de hoje. Ela concordou e me peguntou: “O senhor já pegou muita mulher?”

Não pude conter a gargalhada, mas antes que eu pudesse responder ela remendou dizendo “Como motorista, como motorista!!!“….

“Ufa”, disse eu… “perguntar isso pro velhinho, me deixa até constrangido…”

Depois dessa introdução, algo inusitado para um caramujo como eu, o papo desenrolou. Ela me disse que ontem, 17/11 foi o “dia do prematuro”, e passou a me contar do nascimento de sua filha, nascida prematura por bolsa rota às 35 semanas. É óbvio que aí a conversa engrenou de verdade. Falei a ela dos meus anos à frente da ideia de humanizar o nascimento e como era importante também humanizar o nascimento dos prematuros. Assunto vai, assunto vem e daí amamentação, bioma materno, cesariana, parto vertical, boas práticas, episiotomia e blá, blá, blá…

Depois de perceber para onde aquela conversa ía ela me disse: “Sabe, sou estudante de enfermagem do 7o semestre. Sim, da UFRGS, e meu sonho é trabalhar com nascimentos, partos, mães e bebês. Sempre me encantou esse tema. Minhas professoras preferidas são Jéssica Teles e Virginia Leismann Moretto. Elas são maravilhosas!!!”

Concordei em parte, deixando clara a ressalva relativa ao coloradismo da Virgínia, e exaltando o gremismo da Jéssica. No mais, exigi que mandasse um beijo para todas as suas professoras e que seguisse em frente com seu sonho de se dedicar à enfermagem obstétrica. Depois dessa conversa me deixou no portal da Comuna e me deu adeus com um largo sorriso.

Vadzê que esses encontros mágicos não são verdadeiros presentes de aniversário?

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Autoestima

Hoje fui buscar meu neto Oliver na sua casa para tomar café com as crianças que haviam chegado para visitar a Comuna, e o argumento que usei para tirá-lo de casa foi:

– Levanta, moleque!!! Puxa, estão todos lá esperando ansiosos para lhe encontrar. Você é muito especial. Venha!!

Ele olhou pra mim um pouco desconfiado e incrédulo, mas, assim mesmo, resolveu se levantar, vestindo um sorriso e vencendo a preguiça e a insegurança que teimavam em lhe amarrar na cama.

Minhas palavras me transportaram para mais de 40 anos no passado, quando minha turma de adolescentes resolveu marcar uma festa. Diante da minha resistência em participar do encontro, um amigo mais velho me disse:

– Como assim “não sabe se vai”? Você é a pessoa mais importante desta festa!! Sem você não vai ter nenhuma graça!!

Ainda lembro do seu sorriso maroto dizendo isso. Era pura encenação, hoje sei, mas na época me pareceu tão autêntico quanto um “eu nunca mais amarei ninguém” depois da primeira frustração amorosa. A verdade é que, passadas já quatro décadas, a cena permanece colada em minha memória de forma ainda vívida e forte. Talvez a intenção do meu amigo, ao perceber minha timidez e insegurança, fosse mostrar algo de mim que eu mesmo desconhecia. É pelos outros que mapeamos nossa alma; é o olhar alheio quem melhor nos descreve. Suas palavras de estímulo serviram para reforçar minha confiança titubeante diante da natural fragilidade adolescente com os desafios da vida.

Achei que meu neto poderia vencer suas vergonhas e medos com uma pitada homeopática de autoestima. Talvez ele possa, com o tempo, enxergar a maravilha que é desfrutar da vida sentindo-se amado e respeitado.

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O Fim das listas

O Yahooo anuncia que as listas de discussão serão apagadas no dia 14 de dezembro, enterrando as memórias do surgimento de um dos mais importantes movimentos sociais ocorridos na virada do século, no bojo dos debates de gênero e sexualidade.

Não é justo dizer que a humanização do nascimento “nasceu” com os grupos de discussão da Internet. Afinal, a inconformidade já existia, os “encontros da Fadynha” todos os anos no Rio de Janeiro também e a ReHuNa havia sido criada em 1993, em Campinas. Porém, foi com a cumplicidade compartilhada via internet que essa grande massa de pessoas da classe média conseguiu um canal para o escoamento de ideias, propostas, indignações, reclamações, sonhos e projetos. Deixo claro meu reconhecimento de que os grupos de discussão foram, mesmo, um fenômeno burguês. Mulheres – em sua imensa maioria – que dispunham de tempo e recursos (no final do século passado um computador era uma pequena fortuna) começaram a debater sobre suas frustrações com os partos e com o que elas imaginavam ser um futuro possível. Eu sempre tive essa certeza das limitações de nosso discurso, mas antevia que essa narrativa um dia tomaria uma mudança radical. Certa feita, durante uma palestra na Bahia, fui confrontado educadamente por uma negra ativista e feminista que, diante do meu entusiasmo com as possibilidades oferecidas pela Internet na sedimentação do nosso ideário de humanização, me contestou, com um sorriso emoldurado por um cabelo cheio de contas multicoloridas: “Muito bonita sua proposta, doutor, mas quando isto será realidade para as mulheres pobres e faveladas da periferia de Salvador?

Minha resposta foi curta e simples: “Se essa proposta se revelar uma modinha para mulheres de classe média, que dispõem de um computador para desaguar suas insatisfações, será bom que termine rápido, como são as cores e roupas de verão. Entretanto, se for um projeto para destituir “podres poderes” que abusam da autonomia e da liberdade de escolha das mulheres sobre seus corpos, deverá atingir a todas as mulheres, em especial as destituídas e esquecidas de quaisquer periferias“.

Eu fui arrastado para este universo por desenvolver duas paixões – pelos computadores e pelo parto humanizado. Imediatamente me envolvi nos debates das listas que surgiram, sendo as mais expressivas a Partonatural, a Amigasdoparto e a sua sucedânea, a Partonosso. Foi neste espaço virtual que se solidificaram lideranças, amizades e – impossível evitar – algumas grandes inimizades. Como eu sempre disse, os espaços entre os dígitos de uma tela são preenchidos da mesma forma que os versículos da Bíblia, onde mais inserimos nossos valores, medos, frustrações, ressentimentos e (pre)conceitos do que retiramos ensinamentos. De qualquer modo, se não foi a semente da humanização, as listas de discussão rapidamente se tornaram o grande adubo para o crescimento desse movimento que, a cada dia que passa, se torna uma ameaça mais vívida aos poderes patriarcais estabelecidos sobre o controle dos corpos e sobre a expropriação espúria dos nascimentos.

Com os debates das listas de discussão do Yahoo serão enterradas as lembranças mais cálidas dos momentos de heroísmo de um movimento nascente. O que hoje é um consenso – por exemplo, o direito ao parto domiciliar planejado – naquela época era cercado de dúvidas e incertezas. Debatíamos questões hoje soterradas pelas evidências, como episiotomias e direito a acompanhante. Foi lá onde, pela primeira vez, houve um debate aberto e extensivo sobre um personagem que aos poucos se tornou o epicentro dos ressentimentos da classe médica: as doulas, mas que hoje são quase uma unanimidade entre os pesquisadores do bem-estar materno.

É triste ver uma parte da nossa história ser enterrada, mas também temos que comemorar o que esta etapa significou em nossas vidas. Sem estas listas talvez não houvesse SIAPARTO (Ana Cris seria uma mega-empresária no ramo de flores), não haveria um movimento nacional de doulas, não teríamos amigos de quase duas décadas morando a milhares de km e muitos contatos que hoje fazem parte dos nossos amigos mais presentes e calorosos estariam ainda distantes, guardando para si mesmos e seus parceiros ideias que, por este veículo, hoje encantam a todos.

Para todos os “herois da resistência” que enfrentaram os leões do patriarcado obstétrico, meu abraço e meu reconhecimento pela história que ajudaram a escrever. Para as pessoas com quem briguei, espero que me perdoem. Afinal, não se faz uma revolução como fizemos com tapinhas nas costas; algum nível de atrito sempre haverá. Para todos aqueles que aprendi a amar e admirar através das nossas listas, digo apenas que foi uma grande honra poder compartilhar essa aventura com vocês.

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