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Sobre as Medidas

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Sobre as últimas medidas do governo relativas ao parto…

Ninguém tem interesse em restringir o direito de escolha para as mulheres. Isso não está escrito em nenhuma normativa do Ministério da Saúde e não há como interpretar dessa forma quando se conhece o texto e a intenção das medidas. Pelo contrário, o que se pretende é oferecer alternativas VERDADEIRAS, e não as falsas opções que nos acostumamos a ler e ouvir. Vemos com frequência as mulheres sendo obrigadas a optar por aquilo que não desejam, mas que são condicionadas a escolher, seja por um medo induzido, por pressões diversas e por uma cultura que criminaliza o parto de forma tão vigorosa que muitas mulheres acabam rechaçando uma função vital e um processo fisiológico natural como o nascimento pela via vaginal. As medidas do governo pretendem estancar a hemorragia de indicações cirúrgicas esdrúxulas, maquiadas com desculpas que tristemente conhecemos: “a dor é terrível” (mas a cesariana é bem mais dolorosa e a dor permanece por mais tempo), “a cesariana é segura” (verdade, mas o parto normal é MUITO mais seguro, para mães e bebês), “o cordão enrolado sufoca” (outra lorota, pois 38% dos bebês nascem com circulares e muito bem), “bebês grandes“, “bacias pequenas” (avaliados pelo “olho” do cirurgião), “falta de passagem” (leia-se “falta de paciência“), “sofrimento fetal” (excesso de intervenção, abandono, oxitocina e decúbito forçado) e tantas outras “viagens” que conhecemos.

Quanto às mulheres que optam por cesarianas, eu ainda acho que em nome do protagonismo pleno vale a pena aceitar esta escolha. Porém é preciso garantir que estas mulheres estejam informadas das vantagens e desvantagens dessa opção, e de que essa escolha AMPLIA os RISCOS tanto para ela quanto para o seu bebê. Todavia, eu ainda questiono se o SUS deve pagar esta conta. Uma cirurgia de nariz meramente estética (sem indicação médica curativa), ou de mamas, barriga, implante de cabelo, etc… não é custeada pelo SUS (isto é, todos NÓS), pois não é um tratamento médico, mas estético. Uma cesariana sem indicação clínica (física ou psicológica) poderia cair na mesma definição. Acho, entretanto, que se trata de um ponto aberto para o debate, e não acho que se deva fechar questão sobre este aspecto das medidas.

Uma mulher que deseja ser operada para o nascimento do seu filho pode fazer esta opção, que é válida e deve ser respeitada, por mais que me desagrade pessoalmente (mas a minha opinião não vale NADA diante da opção legítima de uma mulher). Entretanto não consigo enxergar um exagero ou uma pressão pelo parto normal. Vejo algumas mulheres ofendidas com a ênfase que se dá à fisiologia do nascimento, e se sentindo mal por escolherem o oposto que os estudos mostram, mas estas mulheres certamente pertencem aos 30% que escolhem cesarianas desde o princípio, e sobre ela pouco temos para agir, até porque respeitamos suas escolhas. Todavia, estas medidas se dirigem principalmente às outras SETENTA POR CENTO  de gestantes que desejam partos NORMAIS e acabam fazendo cesarianas, que NÃO foram a sua escolha inicial quando se souberam grávidas. Para as mulheres que escolhem a via cirúrgica mesmo depois de confrontadas com os riscos aumentados para ela e para o seu bebê, só podemos respeitar esta decisão, e sem julgamentos. Infelizmente muitas mulheres ainda acham que expor estatísticas e estudos é ofender sua opção, quando na verdade é apenas a tentativa de oferecer escolhas verdadeiras e éticas.

A propósito, o número de mulheres que PEDEM cesarianas no início de uma gravidez é de 30% no setor privado, mas muito menor no setor público. Mesmo aqui no Brasil a imensa maioria das mulheres escolhe respeitar a fisiologia de um parto. As mulheres mais pobres percebem facilmente como uma cesariana é de recuperação mais difícil e lenta. Ela também prejudica o seu trabalho diário de cuidar da casa e dos filhos. Estas bravas mulheres também conhecem as vantagens infinitas de um parto fisiológico sobre uma cirurgia. Mas… sabem qual é o percentual de mulheres que fazem a mesma opção na Inglaterra? Menos de 2% escolhem uma cesariana quando iniciam o pré-natal. E por quê? Certamente é porque elas não temem os maus tratos e o abandono que muitas mulheres relacionam com o parto normal. A violência obstétrica lá é uma coisa muito distante, enquanto aqui é o dia-a-dia. Para mudar a mentalidade antiga de “parto-sofrimento-dor-angústia-trauma” é necessário que transformemos a CULTURA através de medidas proativas, na direção que está sendo oferecida pelo governo. Algumas medidas podem ser impopulares entre os profissionais, podem irritar as corporações e as instituições que nunca aceitaram ser questionadas, mas seguramente são um avanço pela democracia plena no acesso à saúde e na ampliação do espectro de escolhas que as mulheres podem ter.

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Crise

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Como todo movimento social que ameaça poderes instituídos – em especial o biopoder – a humanização do nascimento cresce de forma lenta, consistente e continuada. Em muito lugares, apesar do recrudescimento de posturas autoritárias por parte de alguns profissionais, a proposta de rever criticamente o modelo de atenção ao parto mostra-se cada vez mais atual e forte. Novas doulas estão surgindo e novos profissionais – mais preparados para a “nova obstetrícia” – começam a tomar o lugar ocupado até então pelo velho paradigma.

Para atender o contingente cada vez maior de mulheres bem informadas sobre o tema a autoridade inquestionável do profissional já não é mais suficiente. Empatia, gentileza, respeito e atualização tornam-se, a partir de agora, elementos indispensáveis, ferramentas fundamentais na atuação profissional, junto com a parceria necessária com os outros profissionais que participam no parto.

Por outro lado, é constrangedor ver o que escrevem alguns representantes da categoria obstétrica. Ao invés de continuarmos afirmando absurdos – como a cesariana não causa mal – e se colocar de costas para o RESTO DO MUNDO que se preocupa com o excesso de cesarianas, melhor faríamos se tivéssemos uma postura crítica, dura e profunda, aproveitando o momento de crise que estamos vivendo na atualidade. Estas circunstâncias históricas nos proporcionam oportunidade de refletir sobre os rumos que a tecnocracia aplicada ao parto nos levou, e estamos perdendo tempo tentando tapar o sol com a peneira, caindo no ridículo e atrasando o progresso do debate.

Sim, cesarianas multiplicam a morbi-mortalidade de mães e bebês, e para isso temos boa ciência para confirmar acessível facilmente na Internet. Os próprios pacientes já sabem disso. Tentar usar refrões como “o direito de decidir” das pacientes apenas esconde o desejo de que as coisas se mantenham como estão, e que as pacientes continuem a realizar cesarianas (principalmente no setor da medicina suplementar) pela forte pressão psicológica que sofrem de todos os lados, inclusive dos profissionais.

O momento é ideal para a reavaliação dos rumos da assistência ao parto, exatamente pela crise de valores e pelo crescimento de uma postura mais consciente por parte dos pacientes. Não há mais como atender gestantes e acreditar que elas são ignorantes do significado amplo – psicológico, fisiológico, mecânico e espiritual – de um parto e de uma cesariana. Os novos médicos vão encontrar as “novas mulheres” que já cresceram com a Internet na ponta dos dedos e que sabem exatamente do que trata a medicina baseada em evidências e o que são direitos reprodutivos e sexuais.

Espero que estejam preparados.

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Progresso

Artemis

É importante ter em mente que a que a ideia de resgatar elementos perdidos na aventura tecnocrática humana em relação ao parto, amamentação e maternagem não deve nos seduzir em direção a uma visão nostálgica e ingênua do passado, aquele tempo “perfeito” e estável onde as mulheres podiam livremente amar e cuidar de seus filhos. O progresso (se é que ele existe, pois para cada avanço notável sofremos perdas invisíveis mas igualmente profundas) pressupõe mudança e entropia; choque, atrito, destruição e reconstrução.

O papel da mulher e – por conseguinte – da maternidade haveria de se transformar com o fim do paleolítico superior e a chegada do neolítico, com o sedentarismo, a posse – de coisas e pessoas, a religião, a guerra e o patriarcado. Assim estamos falando de uma transformação adaptativa obrigatória, e não uma mera escolha racional por caminhos distintos. As mulheres de hoje são um produto de milhares de pequenas transformações culturais adaptativas dos últimos cem séculos, que nos leva da “mãe essencial” à algo que se aproxima de Ártemis, a deusa tríplice.

Se é verdade que a forma como as mulheres pariam, amamentavam e cuidavam de suas crias nos tempos distantes nos causa saudade, também é verdadeiro que os avanços em termos de liberdade e autonomia garantidos hoje a elas nos impedem de voltar à ilusória estabilidade de outrora. Nosso desafio é encontrar um paradigma que, ao mesmo tempo que garanta as conquistas modernas de autonomia e segurança, também ofereça às mulheres a possibilidade de viver a maternidade com plenitude.

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Voar

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Os ânimos ficaram tensos ultimamente e algumas manifestações de selvageria explícita ocorreram por parte de colegas na Internet a partir das iniciativas do governo de coibir o avanço – até então impossível de sustar – das cesarianas. É preciso compreender o momento histórico em que estão ocorrendo. Primeiramente, os valores idealizados pelos proponentes das mudanças são apenas metas distantes pelas quais deveremos nos guiar, sem entendê-las como a obrigação de um valor fixo. Como eu digo há vários anos, este tipo de imposição só poderia nos levar à tragédia. Já não existem mais taxas de 15% de cesarianas, no mundo todo (exceção nos locais onde impera a desassistência), mas isso é em função do medo, da indústria, dos ambientes hospitalares, da pressão e do pânico dos profissionais. Em outras palavras, “não existe sujeito sem cultura e nem cultura sem sujeito“. Somos os algozes e as vítimas do mundo que construímos.

O pequeno universo que nos circunda molda os sujeitos que ali transitam, e estes, dialeticamente, transformam o ambiente que os contém. Em lugares onde a tensão no ar é tão densa que se pode cortá-la com uma faca, os partos serão sentidos de uma forma completamente diferente daqueles que ocorrem onde a suavidade acaricia nossas ações, as pacientes bailam ao som de seus hormônios e a descida do bebê pelo canal materno é embalada pela música que emana de seus gestos delicados. Posso me aventurar a pensar que, houvessem ambientes melhores e as taxas cairiam com muito mais facilidade. Minha ideia – e minha proposta – é cambiar o “campo simbólico” da cultura circundante, e não ingenuamente trocar apenas médicos ou hospitais. A mudança deve atingir lentamente todas as consciências.

Isso explica a razão de a parteira Ina May ter 2% de cesarianas em “The Farm“, porém posso ter certeza que ela teria 15 ou 20% de incidência de cesarianas por “falha de progressão” caso morasse em alguma grande cidade brasileira e tivesse que atender nos hospitais daqui, onde impera o medo e a tensão.

A Holanda também é do mundo ocidental, onde da mesma forma puderam entrar – mesmo que de forma menos violenta – a cultura do medo e a tecnocracia. Até ela sofre as agruras do mundo moderno.

O momento é de muita tensão, os médicos se sentem acuados, pressionados, culpados e desprezados. É como você reclamar do serviço que eles fizeram nos últimos 300 anos e achar que todas as conquistas da obstetrícia poderiam ter um resultado melhor. Isso é escutado como ofensa, e não como um convite à reflexão e à mudança. Alguns profissionais, normalmente os mais limitados, partem para a violência verbal, sem perceber que tais palavras apenas demonstram o despreparo para lidar com sua própria autoestima ferida.

A culpa não é dos médicos, mas da própria medicina e seu olhar objetual sobre os pacientes. Se esta objetualização pode ser entendida em um politraumatizado, ou numa paciente cirúrgica, ela é absolutamente anacrônica e inadequada em uma mulher saudável parindo seu filho. Como eu disse há alguns dias, a melhor metáfora para essa situação na atualidade é imaginar a cena do marido que recebe a notícia de que sua mulher vai deixá-lo.

Passada o susto e o choque da revelação ele, ainda surpreso, exclama:

– Mas porquê? Nada te falta. Tudo que fiz foi por você. Eu me dediquei por anos, trabalhando como um escravo, para que nada faltasse neste lar. Minha dedicação sempre foi para que sua vida fosse melhor, fosse tranquila, e que você pudesse ter seus filhos com segurança. Por quê agora me desprezas? Por quê me jogas fora como um papel velho, um pano imundo e imprestável? O que fiz de tão mal para ser expulso assim? Eu não bebo, não te maltrato e trago tudo para dentro desta casa!! Porque, afinal, você está insatisfeita?

Ela sorri com lábios tristes porque entende sua dor. Sabe que para ele as angústias e desejos – as quais carrega como um pesado fardo – são incompreensíveis. Para seu marido a mulher que sempre teve ao lado era um belo bibelô, uma linda boneca para satisfazer seus olhos. Para isso verdadeiramente se dedicava a ela, oferecendo-lhe o melhor que podia, com todo o seu amor e afinco. Entretanto, durante todos esses anos, mesmo que houvesse uma honesta atitude de ajuda, ele jamais conseguiu olhar aquele relacionamento pelos olhos de sua mulher. Qualquer reclamação de sua bela esposa seria incompreensível, porque a relação com ela sempre foi marcada pela objetualidade. Nunca, por nenhum momento, ele se permitiu perguntar: “afinal, o que você verdadeiramente deseja?“.

Ela se aproxima dele, o abraça e diz:

– Obrigado por tudo. Obrigado por toda a sua dedicação, seu zelo e seu amor, mas agora permita-me voar.

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Pororoca

Pororoca

Humanizar o nascimento é restituir protagonismo para as mulheres. Entender o nascimento como um evento social e humano, e não apenas médico. É reconhecer o nascimento como o evento apical da feminilidade, sobre o qual atuam forças sociais, emocionais, psicológicas, afetivas espirituais e – acima de tudo – numa configuração subjetiva, única e intransferível. Mais ainda: é ter uma visão interdisciplinar, com a devida consideração com os outros atores que fazem parte tanto da cena de parto quanto do debate sobre o significado dele na cultura. É respeitar as evidências científicas que norteiam e orientam o trabalho das equipes de assistência, as intervenções e o cuidado aplicado às mulheres durante este período tão criativo de suas vidas.

“Um parto é um mergulho para dentro de si, um encontro inexorável com as questões mais íntimas e subjetivas, nas águas revoltas e escuras do inconsciente. Todavia, é também um pulo no oceano de palavras que nos circundam, nos envolvem e nos dão significado. Ambos os mergulhos produzem suas revoluções, suas agitações e giros, mas do choque produzido por tais saltos emerge uma gigantesca onda, de cuja energia se produz a característica única e irreproduzível de cada nascimento.”

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As diferenças

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“Enquanto o parto humanizado for opção apenas para uma casta seleta, uma parcela da classe média que possui dinheiro e informação, nosso trabalho será incompleto e insuficiente. A humanização do nascimento não é uma moda, uma “onda” ou um capricho de mulheres burguesas. Parto com dignidade é direito fundamental, e faz parte das lutas pela democracia e pela liberdade. Nossa paixão pelo parto digno deve atingir a mulher do campo e da cidade, as ricas e as pobres, sem qualquer distinção. “Para mudar o mundo é preciso mudar a forma de nascer“, e isso precisa ocorrer em todos os níveis.”

Faz parte do processo de transformação em curso os desafios que encontramos agora na atenção oferecida por enfermeiras durante o parto. Mulheres imitaram os homens no raiar do feminismo, achando que elas também podiam usufruir do poder e da glória que o falo inspira. Eu curti o tempo do “unissex”, que nada mais era do que mulheres imitando homens, inclusive – e principalmente – nos seus defeitos. Levou tempo para as mulheres perceberem a verdade na frase que pendurei há muitos anos na parede do meu consultório: “Uma mulher que pretende imitar os homens carece de imaginação“.

Agora as mulheres percebem que, SIM, são diferentes e celebram esta diferença com a valorização de seus corpos sinuosos, suas gestações e mamas que produzem leite. Com as parteiras – as profissionais, mas também as tradicionais – ocorreu o mesmo. Pareceu por um bom tempo que imitar a ilusória superioridade tecnológica dos médicos lhes garantiria maior reconhecimento profissional. Enluvaram-se, enrouparam-se de verde, cobriram o rosto com a mascara do anonimato, usaram o aço que corta e a gaze que seca. Chamaram as mulheres de “maezinhas” e “minha filha“, olhando-as de cima a baixo para mostrar, afinal, quem é que manda.

Só agora as enfermeiras obstetras e obstetrizes percebem que não são “doutoras castradas”, mas profissionais cujo maior diferencial é a especial conexão afetiva e espiritual que protagonizam junto às mulheres. Dessa diferença é que surgirá a parteria do século XXI, que vai aliar conhecimento formal e científico com a ancestral capacidade de cuidar que receberam da linhagem de parteiras que se perde na poeira do tempo.

Quem viver, verá…

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Humanizar é…

Parteira Tradicional

Existe, inequivocamente, um crescente desconforto dos médicos quando se trata da palavra (ou do tema) humanização. Há alguns dias vi um médico fazer uma defesa apaixonada da medicina, quase às lágrimas, reclamando do uso da palavra humanização. Dizia ele que salvar pessoas, fazer cirurgias, aplicar o tratamento adequado, dar o remédio correto, dedicar-se ao estudo e atender seus pacientes com respeito e carinho era a VERDADEIRA humanização. Infelizmente esta é ainda a reação de muitas pessoas, mas este desconforto se baseia na incapacidade dos profissionais que trabalham com o parto de compreender a essência da humanização do nascimento. Essa dificuldade é notória em especial nos médicos, e muito menos presente nos profissionais das outras áreas (antropólogos, sociólogos, psicólogos, psicanalistas, etc.). O “black spot” da humanização se refere à incapacidade de reconhecer o paciente como SUJEITO, mantendo-se atrelado a uma postura que o considera como um objeto da nossa ação.

A postura que alguns médicos assumem diante dos pacientes muitas vezes me parece com aquela dos escravagistas, e com o mesmo tipo de surpresa honesta diante das queixas. “Como assim desumanos? Nós tiramos estes negros da África, onde estavam passando fome, e lhes demos roupas, comida, casa, um nome, um país e segurança. Como podem estar reclamando? O que mais podem querer?” Outro comportamento que me lembra esta situação é a queixa do marido dos anos 40 quando sua mulher lhe dizia que pretendia deixá-lo: “Mas porquê? Eu trago tudo para dentro de casa, não bato em você e não bebo! O que mais pode querer?“. Jamais passaria pela cabeça dessas pessoas (escravagistas conscientes e maridos) que eles – escravos e mulheres – pudessem desejar algo a mais do que aquilo que lhes era oferecido. Tal fato pode ser entendido porque a relação com tais personagens era objetual. Nunca se perguntava a um negro o quê desejava, o que almejava para sua vida e quais os seus valores. Para uma mulher os critérios eram sempre os masculinos, enquanto ela pudesse servi-lo, mas sem questionar suas aspirações e desejos.

Os pacientes são igualmente jogados neste lugar: patologias que precisam ser curadas, tumores a serem extirpados, bebês conduzidos à vida pela melhor via e remédios para todos males, mas através de uma visão que não leva em consideração o sujeito doente ou, no caso do parto, a mulher que está em sua travessia para o universo da maternidade.

Qualquer preocupação a respeito dos limites da autonomia de uma mulher é respeitável e compreensível. Entretanto, a tendência mundial é sempre permitir que as pessoas possam fazer escolhas baseadas em seus valores, sua visão de mundo e seus desejos. Essas histórias de “mulher que não quis deixar o médico fazer X ou Y“, questionando a autoridade médica, existem por aí, mas normalmente são um pouco diferentes do que se propaga. De qualquer maneira a existência de “radicais” nos deveria fazer pensar no tipo de atendimento que oferecemos em que uma mulher prefere parir SEM assistência do que com aquela que nós oferecemos. Um exemplo típico eu testemunhei em uma recente visita à Bulgária, quando conheci seu sistema de atenção ao parto. O movimento de humanização de lá precisa lidar com um número preocupante de mulheres que preferem parir escondidas com o auxílio de amigas do que enfrentar o sistema público (o único existente) de atenção ao parto, que obedece o modelo autoritário, punitivo e violento da medicina comunista. Mais do que criticá-las (e podemos fazer isso, sem problema) é preciso saber porque elas fogem da assistência oferecida. Assim sendo, nunca é demais repetir: se nós tivéssemos Casas de Parto e hospitais que respeitassem a autonomia e a autodeterminação das mulheres o número de gestantes optando por parto domiciliar cairia imediatamente, talvez para menos da metade, pois que boa parte delas quer um parto digno e sem violência, o que é difícil de encontrar na atualidade.

O caso Adelir traduz esta inabilidade nas suas últimas consequências. As doutoras que a atenderam até hoje acreditam piamente que fizeram o que era melhor, mas jamais pensaram na possibilidade de garantir à mulher o poder de decidir sobre como seu filho viria a nascer. Mesmo com todos os papéis e documentos assinados à gestante jamais foi oferecido o direito de decidir sobre seu parto.

Humanizar o nascimento é garantir o protagonismo à mulher. Sem isso teremos apenas tutela, a mesma que oferecemos às crianças e aos incapazes“.

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Toques

Toque

O toque vaginal de rotina durante as consultas de pré-natal cabe na definição de ritual que Robbie Davis-Floyd nos ofereceu. “Repetitivo, padronizado e simbólico, carregado de valor cultural“. Mas, com este viés da ritualística aplicada na atenção à saúde, qual o sentido inconsciente (é bom deixar claro) existente na rotina do toque que se realiza como parte da consulta?

Na minha opinião trata-se da submissão do outro ao seu saber. “Eu sei de algo sobre seu corpo que nem você mesma sabe“.

Um sujeito assim autorizado sente-se empoderado com a força que lhe é instituída a partir de um conhecimento superior, e isso aumenta sua distância com relação ao sujeito-paciente. É pela potência inconsciente dessas ações que elas permanecem vivas e fortes, mesmo com as evidências apontando para a direção oposta.

O exame de toque pode ser útil em várias circunstâncias, no pré-natal e no trabalho de parto. O que é preciso dizer é que realizá-lo de forma protocolar ou rotineira é um erro e não tem embasamento científico, caindo na definição de ritual. Além disso este é um ritual desagradável e possivelmente doloroso e constrangedor. Para ser realizado de forma adequada precisa ser explicado, e realizado apenas com consentimento explícito.

Somos movidos por um fluxo poderoso de emoções, onde nossa razão é muitas vezes um frágil barquinho de papel tentando navegar contra a corrente.

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Natal é Parto

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Não se esqueçam que o Natal nada mais é que a celebração de um parto.
Sim, um parto que pôde oferecer o começo de uma história, que plasmou no imaginário de tantos um modelo de sociedade centrado na fraternidade. Foi a partir deste ato que surgiu o “amarás ao próximo como a ti mesmo”.

Todavia, foi um parto, cheio de mistérios e nuances.

Mas fica a constatação de que o nascimento em si é apagado da narrativa. Depois de longa caminhada para realizar o recenseamento José e Maria, já estafados pela peregrinação, refugiam-se em uma estrebaria. Ali, na companhia dos animais e do seu marido, ela sente suas dores.

Fade out… a imagem obscurece e, quando volta a aparecer, o menino Jesus já está deitado na manjedoura, sob o olhar plácido dos bichos e a proteção de José. Em algumas imagens da cena primitiva do nascimento de Cristo ele ainda se mantém no berço improvisado, envolto no feno; em outros está já no colo de sua mãe, mas qualquer referência à amamentação também é sonegada.

Uma mãe virgem, que não gritou para parir e cujos seios se mantiveram cobertos para toda a eternidade. A cena do nascimento do Senhor estará sempre envolta em moralismo e sob a égide do patriarcado.

O trabalho de parto de Maria, com seu grito primal, seu suor e seu esforço, suas dores e contrações, além da força e a passagem que roubaria dela a virgindade, foi subtraído da imagem que se imortalizou no presépio natalino. Ficamos com o resultado, o produto oferecido pela ação do Espírito Santo, mas o trabalho genuinamente feminino e transformador de Maria se mantém esquecido.

Neste Natal, pensem um pouco em Maria e seus desafios. Melhor ainda, pensem em todas as Marias que ainda hoje lutam para que seus partos sejam dignos e respeitosos. Tenham na mente a imagem da mais famosa de todas elas, aquela que se dedicou para que seu filho pudesse nascer bem, no melhor lugar possível: onde ela se sentiu segura e amparada, com seu companheiro ao lado, e tendo silenciosos e compassivos animais como doulas.

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Epifanias

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A gente sempre tenta estabelecer uma data, um marco, um linha divisória entre dois momentos da nossa vida. Falar do momento exato em que acordamos para uma realidade pode ser difícil, e as vezes impossível. Eu costumo citar o nascimento dos meus filhos como este momento definitivo, mas por certo que quando eles nasceram não havia nenhuma noção clara de humanização do nascimento em minha mente. Sobrou apenas uma espécie de indignação e dor pelo que poderia ter sido. Quando atendi uma paciente no chão da sala de exames do hospital esta indignação tomou a forma de uma vergonha. Não era apenas um mal que existia; era uma mal que dependia de mim para existir.

Todavia, esses eventos são artificialmente construídos, e o são sempre a posteriori. Na verdade o que te leva a mudar de paradigma é um sequência de minúsculos fatos, muitos deles insignificantes quando vistos de forma isolada, mas que adquirem sentido quando formam um conjunto coerente. Essas mudanças estão frequentemente escondidas de nossa percepção mais grosseira mas as epifanias as expõe pelo intenso afluxo emocional que propiciam.

Nossas mudanças são determinadas pelo trabalho diário e subterrâneo da lava incandescente de nossas experiências cotidianas. Uma pequena fissura na crosta das convicções é capaz de fazer uma erupção transformadora em nossas vidas.

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