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Parto humanizado e mídias sociais

Eu as vezes sou convidado a assistir palestras sobre obstetrícia que tratam de temas que há muitos anos debatemos no movimento de Humanização do Parto e Nascimento. Nesta semana assisti mais uma vez o mestre Michel Odent – pensador e escritor francês de 91 anos – falar de suas teses centrais, como o “imprint” e a importância de oferecer à mulher um entorno de proteção, intimidade e privacidade para que a “entrega” seja a mais tranquila possível. Ter sido contemporâneo de Michel é um grande privilégio para qualquer pessoa que um dia trilhou pelos caminhos da humanização. Posso estar cometendo um sacrilégio mas, na minha perspectiva, os trabalhos de Odent e Robbie Davis-Floyd no campo da compreensão dos significados últimos e inconscientes do processo de nascer adquirem uma importância ainda maior do que aqueles conceitos sobre o “nascimento sem violência” oferecidos a nós um pouco antes por Frederick Leboyer, outro baluarte da grande revolução do parto.

Escutei também o comediante Rafinha Bastos falando sobre partos e doulas, na entrevista que fez com sua irmã – que é doula e professora de Yoga – e achei que sua visão superficial, preconceituosa, jocosa e até debochada do processo de nascimento é uma amostra razoavelmente adequada do pensamento médio dos homens brasileiros. Sua ignorância a respeito de elementos mínimos da proposta de humanização, sua repulsa com tudo o que existe de selvagem e essencialmente humano no parto – além da sua exaltação da “praticidade e limpeza” das cesarianas – são muito demonstrativas da visão majoritária que ainda é prevalente entre os homens. Acho lamentável sua percepção sobre um tema tão delicado, mas saber que ele se dispôs a escutar é algo que devemos saudar como positivo. Quando trocamos ideias com os companheiros das mulheres que nos procuram pela expectativa de um parto humanizado é importante ter em conta que estes sujeitos representam uma fatia francamente minoritária nesta sociedade.

Um pouco depois escutei a aula de uma enfermeira obstetra que falou sobre o tema da violência obstétrica para alunos universitários, um tema que a cada dia assume uma importância maior nos debates de gênero na Internet. Na minha perspectiva ela falou de uma forma bastante superficial, talvez um pouco mais do que o necessário, mas entendo que ela imaginava se dirigir a uma plateia ainda muito desinformada sobre o tema e, portanto, preferiu uma abordagem mais geral e simplificada.

Em verdade eu prefiro as perspectivas sobre o parto que são mais complexas, mais obscuras e menos debatidas e sobre as quais pouco se fala, em especial no que diz respeito à atenção ao parto como evento da sexualidade. Entretanto, tocar nesse ponto é arriscado e perigoso. Vivemos em uma sociedade de cancelamentos onde as ideias sucumbem à interpretação que se pode fazer delas, e onde a verdade é menos importante do que a aceitação e o reconhecimento das nossas “personas sociais”. Fugir de certos maniqueísmos é tarefa complexa, e seria um risco muito grande tratar desse tema para um grupo tão heterogêneo.

Nas perguntas que se seguiram à sua exposição chamou minha atenção algo que vi repetidas vezes quando tratei publicamente deste tema. Percebi que, o que muitas mulheres chamam de “violência obstétrica” é, na verdade, tão somente a ponta de um imenso iceberg, uma fração menor do que seja a violência que ocorre no parto. A maioria das mulheres (e também seus parceiros) aponta como violência apenas aquilo se que tornou visível e palpável, a parte que ultrapassa a linha das ondas e emerge do oceano como barbárie. Da mesma forma, a violência do encarceramento obsceno das sociedades capitalistas aparece sob a forma de desumanidade, tortura e morte, para só então ser condenada. Parece que a nós somente quando a brutalidade estrutural e ideológica submersa se torna evidente pelo exagero de um processo – que já é violento por natureza – temos a possibilidade de denunciar sua existência.

Ainda espero das jovens ativistas uma definição mais clara, concisa e firme do que seja “parto humanizado”. Parece faltar uma percepção mais elaborada, que fuja da ideia de “parto gentil”, “parto delicado”, “parto adequado”, “obediência às evidências científicas”, que são elementos importantes deste processo, mas que não contemplam o cerne da definição, o qual está visceralmente ligado à ideia de “garantia de protagonismo” às mulheres. Precisamos falar mais sobre a história desse movimento social, debater seus pilares de sustentação e entender que esta proposta surgiu muito recentemente como uma contraposição ao modelo tecnocrático hegemônico, que despersonaliza e objetualiza as gestantes, uma condição que se fortaleceu pela dominação do paradigma biomédico estabelecido de forma marcante a partir do século XX.

Na palestra da jovem professora ela elogiou as Casas de Parto e deixou claro para todos a importância das enfermeiras como cuidadoras primordiais do parto, o que é muito bom. Para além disso, eu me surpreendi com as perguntas feitas pelos estudantes a ela, o que sugeriu que ela poderia ter ido mais fundo nas definições, contradições e dificuldades no combate à violência obstétrica. Talvez ela tenha subestimado mais do que devia a capacidade de crítica dos alunos presentes à sua palestra.

Saber que esse tema toma a Internet hoje em dia me oferece a esperança de que estivemos fazendo certo em denunciar um modelo anacrônico de atenção ao parto e de mostrar que há perspectivas mais humanas e dignas de trazer as pessoas ao mundo.

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Conservadores

Hoje me perguntaram o que eu achava da atuação de uma obstetra da minha cidade. Em verdade, muito pouco a vi na minha vida. Ela tinha a fama de ser contra o abuso de cesarianas, e deve ter alguns 6 ou 7 anos a mais do que eu; portanto, quase centenária. Todavia, achei curiosa a forma como tive que explicar seu trabalho e como categorizá-lo.

Bem, ela não é cesarista. Talvez tenha entre 60 a 70% de cesarianas em seu consultório, mas os cesaristas tem geralmente taxas acima de 90. Ela por certo não é uma médica humanizada; deve desprezar Doulas, ou não trabalha com elas. É conhecida por ser autoritária e até grosseira algumas vezes, mas tem mais partos normais do que seus parceiros. Tem um discurso de “parto normal é melhor, mas nem sempre é possível”, conjugado com as famosas “hoje as mulheres são muito mais fracas que antigamente“.

Há algumas décadas ela seria chamada de “vaginalista“, mas esse termo é difícil de usar para alguém com tantas cesarianas. Talvez o termo “conservadora” fosse mais adequado, pois ela parece mais uma obstetra tradicionalista, que nos anos 80 eram aqueles profissionais que consideravam a cesariana um modismo que atingia as novas gerações, mas que nivelava por baixo as competências requeridas para a atenção ao parto. “Cesariana qualquer um faz; atender um parto precisa habilidade“, diziam alguns velhos professores.

Ela sequer pode cair no grupo dos “tecnocratas conscientes”, que são aqueles que reconhecem os malefícios da tecnocracia e do abuso das intervenções, mas acreditam que o contexto os obriga a esta postura em função da pressão social e dos seus pares. Não, ela apenas valoriza alguns saberes que eram a matéria prima dos antigos parteiros, e acredita que estas ferramentas sejam um diferencial importante para uma atenção mais efetiva ao nascimento.

Sim, o parto é deitado. “Preciso enxergar o que vou fazer e não tenho mais idade para ficar de joelhos“. A episiotomia usa quase sempre, senão “rasga tudo, já vi acontecer“. Ocitocina quase sempre, comandos tipo “fecha a boca e faz força de cocô” em todos os partos. Entrega rápido o bebê ao neonatologista pois “nunca se sabe se ele está mesmo bem”.

De maneira geral você terá mais chance de um parto vaginal com ela, mas não pense que sua experiência será “baseada em evidências”; ela vai ser mais próxima da sua fisiologia, mas ainda longe do que poderíamos esperar desse evento.

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Idiomas distintos

Os médicos que ultimamente discursam contra o uso do termo “violência obstétrica” tem argumentos que eu consigo entender perfeitamente. Convido a uma reflexão.

Imagine que você passa 30, 40 anos trabalhando apenas em hospitais, atendendo bebês que não conseguem nascer de parto normal, tratando diabéticas, aprendendo sobre as drogas a usar, cuidando de hipertensas, gestações ameaçadas pela pré-eclâmpsia, analisando o melhor momento para intervir, operar, retirar um bebê pela via cirúrgica, depois costurar e aguardar a cicatrização adequada da ferida operatória. E fazer tudo isso com genuíno interesse de cuidar, muitas vezes conseguindo até salvar as vidas em risco.

Não apenas isso, mas há que contabilizar anos de dedicação, aulas na faculdade, provas, estágio, residência. Plantões intermináveis, noites mal dormidas, dedicação absoluta, pagamento escasso, crises familiares, angústia, medo, filhos sem pai ou mãe no aniversário. Estresse.

E aí aparece um monte de mulheres furiosas dizendo que o que você faz é violência obstétrica, como se tudo o que é feito pela medicina fosse carregado de egoísmo e maldade. Como se as ações realizadas não passassem de agressões dissimuladas, e igualmente destrutivas. E as vidas salvas? E os bebês resgatados de uma morte certa? E as mães que sucumbiriam sem esta ajuda?

Tente se colocar dentro dos sapatos dos médicos e andar mil km com deles. Só então poderá entender esta indignação.

Não há como negar esta perspectiva e não é necessário, da mesma forma, pintar os profissionais que atendem parto como seres cruéis e insensíveis. A questão não é moral, é sensorial e sistêmica.

A verdade é que estes velhos obstetras, apesar da idade, jamais se permitiram tocar por um nascimento fora do universo conceitual da biomedicina ocidental. É o único paradigma que lhes foi permitido conhecer. Para eles, parto e nascimento se esgotam no conhecimento técnico, focado na patologia, na figura do profissional médico e encerrado dentro dos hospitais. Carecem eles de uma perspectiva mais sensível e emocional, social e espiritual, psicológica e humana, elementos que compõe a complexidade desse evento. Essa perspectiva complexa e abrangente não é oferecida na escola de Medicina porque se contrapõe à ordem da obstetrícia, a qual se estabelece a partir da defectividade essencial feminina e do imperativo tecnocrático.

Em verdade as pessoas continuam cometendo equívocos mesmo depois de saberem que estão erradas ou ultrapassadas, pois as forças inconscientes que mantém estas condutas são mais fortes do que aquelas que as impelem à mudança. Só a dor produz transformação. Por outro lado, é preciso entender e acolher. Em verdade, creio que fazendo nós mesmos o que exigimos deles será o melhor caminho. Porém, lembre que “entender” não significa “aceitar” ou “concordar”.

Por certo que existe sentido em responsabilizar a Universidade, mas sejamos sinceros; os alunos repetem e incorporam como rotina o que escutam nas aulas ou que observam de seus referenciais profissionais? No meu tempo (espero que seja diferente hoje) os professores davam aulas (via de regra muito ruins) sobre fisiologia de parto e depois traziam pacientes particulares para serem operadas sem qualquer justificativa médica em hospitais públicos no plantão do hospital escola em que fazíamos residência. Todos nós sabíamos que os consultórios privados deles eram uma fábrica de cesarianas. Alguns davam aula e sequer trabalhavam com obstetrícia, mas aceitavam cesarianas com “hora marcada”.

Os alunos aprendem, acima de tudo, pelo exemplo!!! Alguns contratados da residência respondiam com risadas ao comentarem sua prática e diziam de forma cínica “lá fora o mundo não é acadêmico”. Esse exemplo entra direto no coração dos alunos: lutar pelo parto normal é “academicismo”; o mundo real é diferente do que se escuta em aula.

Sei que existem profissionais de qualidade hoje em dia, mas a realidade dos abusos, das múltiplas violências e da epidemia de cesarianas não pode ser encarada como ocasional. Ela é fabricada coletivamente pela cultura, e executada pelos profissionais. Pacientes envolvidos em medo e desinformação produzem médicos amedrontados e que apostam nessa mesma desinformação como forma de proteção. Um círculo vicioso que só se quebra com ação política e informação.

Há muitos anos que não me deixo seduzir pela ilusão de que é possível educar médicos para que tenham uma prática mais baseada em evidências no que diz respeito à obstetrícia. Não há como treinar profissionais durante 9 anos pela ideologia da intervenção e depois solicitar que sua prática se contraponha a isso. Todavia, eu cobro dos médicos pela situação absurda que vivemos, em função de sua posição de autoridade e pelo conhecimento que deveriam ter. Deveria partir dos médicos a reflexão necessária, mas o que fazem? Montam seminários pomposos para combater o termo “violência obstétrica”, ao invés de aceitar as críticas, reconhecer os desvios e lutar por uma reforma obstétrica – a exemplo do que ocorreu com a psiquiatria.

Para estes velhos médicos é incompreensível o que escutam das mulheres, porque jamais conseguiram entender o parto por um viés diferente do que receberam. Trata-se de um debate “lost in translation”; as mulheres exigem ser tratadas como sujeitos e protagonistas de seu destino, mas falam em um idioma que eles não entendem. Para entender essa língua estranha é preciso olhar com outros olhos, mudar a perspectiva, e com isso desafiar todo o seu conhecimento. Esta mudança de postura, desenvolvendo uma forma desafiante de sentir o parto, demanda coragem.

E isso também não se aprende na escola.

A revolução do parto, portanto, não virá de uma melhor compreensão dos médicos sobre o processo de nascimento, e nem de uma obediência rígida aos avanços da ciência por parte deles, no que tange ao respeito à fisiologia do parto. Não, a transformação virá da união da sociedade civil exigindo que a atenção ao parto seja conduzida da melhor forma e pelos melhores profissionais; será, sem dúvida, pela luta das mulheres.

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Feito em casa

Temas instigantes…

“Muitas pessoas entendem a opção pelo parto domiciliar em analogia com o ensino doméstico, já que ambos desinstitucionalizam estes processos, oferecendo liberdade para que a família possa afirmar seus valores, tanto no nascimento quanto na educação. Eu acho que se trata de um equívoco, já que são coisas bem distintas. Um parto é mesmo um evento da família, e pode ser realizado em casa obedecendo-se critérios conhecidos de segurança. Já a educação tem outros valores e sua institucionalização tem um sentido oposto, e serve exatamente para retirar a criança do círculo doméstico, socializando-a e servindo de reforço à formação sua identidade e independência. A função da escola é resgatar a criança de um mundo aconchegante – mas que também pode ser dramático e ameaçador – e apresentá-la ao mundo”

Maximilian Trebreh, comunicação pessoal, abril 1986

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Palmadas

Os esforços da corporação médica por subverter palavras e esconder as ações que elas descrevem – no ataque sistemático que fazem ao uso do termo “violência obstétrica” – são produzidos por duas vertentes majoritárias: a dos ignorantes e a dos cínicos.

Permitam-me uma analogia simples: eu acredito que muitos bateram em seus filhos na infância por pura ignorância, por acreditarem que a violência poderia produzir neles os limites necessarios à vida social. Minha geração esteve nesse exato ponto de inflexão: foi a última que apanhou como regra, e a primeira que resolveu não bater. Hoje o pensamento se direciona todo à condenação das palmadas, da surras e das violências psicológicas, mesmo que as agressões contra a crianças ainda sejam recorrente em nossa cultura. Estes pais de outrora ignoravam o mal que causavam aos seus filhos e a evidência de sua própria sobrevivência lhes oferecia a certeza de que “uma palmada bem dada corrige uma criança”.

O segundo grupo é formado pelos cínicos, que bateram e ainda defendem esta violência, mas se negam a receber o rótulo de violentos – por julgarem injusto. Afinal, como poderiam ser eles os salvadores, os pais amorosos e poderosos os mesmos a impor este tipo de opressão aos pequenos? Não “violência” é uma palavra por demais injusta.

Faço essa digressão porque as grávidas – pela sua fragilidade e sua posição de dependência do cuidado de adultos – muitas vezes se encontram nessa posição fragilizada e infantilizada, na mesma posição em que as crianças enfrentam o longo período da infância. A posição infantil das gestantes é um “projeto”, porque – assim minimalizadas – tornam-se muito mais facilmente manipuladas, controladas e conduzidas. Desta forma as parturiente colocam-se nas mãos desses profissionais e esperam deles o cuidado que uma garota espera de seus pais.

Todavia, o medo como pano de fundo e a assimetria de poderes são o caldo de cultura ideal para os abusos. A realidade – dura de admitir – é que o nascimento institucional é palco de violências múltiplas, onde a infantilização da mulher e seu desempoderamento, conjugados com a exaltação da autoridade dos médicos (e da Medicina) produzem o quadro atual.

Entre os velhos professores de Medicina estão os representantes da última geração que bateu impunemente. Cinicamente se defendem, exigindo que suas ações violentas sejam vistas e julgadas dentro de um contexto de “necessidade”; parecem repetir “ad eternum” o adágio: “acredite, é para o seu próprio bem”. Mas para se livrarem desse rótulo se obrigam a negar as dores, o silenciamento, os cortes e tantas feridas produzidas na alma. Tentam esconder o que as lágrimas de milhões de mulheres nos revelam todos os dias, acreditando que a simples ocultação de uma palavra poderá mudar uma realidade cruel e injusta.

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Escolha parir…

Hoje deu saudade do meu pai falando:

“Gosto quando você escreve sobre parto. Deixe a política de lado…”

Não dá pai… tudo é político, em especial ousar nascer livre em um mundo que adora correntes. Poucas coisas são mais desafiadoras e perigosas para a estrutura social do que uma mulher parindo em liberdade. “Um parto sem amarras é um liquidificador ligado às 3 da madrugada no condomínio”. Não há como se manter dormindo diante dessa potência.

Parir em paz, liberando as forças selvagens do nascimento, é uma decisão política. Não afeta apenas esta mãe e seu bebê, mas todo o entorno. Sua família, seu bairro, sua cidade e o planeta inteiro. Parir sem medo é desafiar a ordem patriarcal e buscar um novo mundo possível.

Escolha parir…

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Intervenção intempestiva

Mas afinal, porque o parto sofre tantas intervenções na obstetrícia contemporânea?

É impossível analisar a importância da episiotomia na cultura ocidental sem levar em consideração a emergência da medicina no cenário da atenção e nos cuidados com o parto contrapondo-se à parteira no início do século XX. Para eliminar as parteiras do cenário do parto e tomar para si o cuidado do parto e nascimento fazia-se necessário convencer a sociedade dos perigos terríveis do parto quando deixado à própria sorte ou sob o cuidado das próprias mulheres – mães e parteiras.

Assim, era necessário fazer valer suas técnicas cirúrgicas exclusivas que visavam curar ou consertar um corpo entendido como defectivo. Toda a obstetrícia surge dessa elaboração ideológica que passa a entender as mulheres como intrinsecamente incompetentes e defectivas para as tarefas do parto. Como consequência, a obstetrícia expropria o parto e o nascimento das mulheres – os médicos passam a “fazer” os partos – domesticado sua potencialidade selvagem, por entender necessário impor às mulheres a realização de infinitas intervenções técnicas para deixar esse corpo – defeituoso, mal feito, fraco e perigoso – mais afeito ao nascimento seguro dos bebês, produtos sociais que usam as mães como contêiner temporário.

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Gravidez e Desejo

Não existe gravidez indesejada.

Ok, aquelas gestações resultando de estupro poderiam ser as exceções, mas são estatisticamente insignificantes. O que existem são gestações onde o desejo não é reconhecido ou explícito. Eu, por exemplo, tive dois filhos de duas gravidezes não planejadas, mas plenas de desejo, um elemento sorrateiro, caótico e inconsciente – como haveria de ser.

A ideia de centrar esforços sobre “gestações conscientes” sempre me pareceu um delírio racionalista. Escuto isso desde os bancos escolares, antes ainda da escola de Medicina. Passa pela ideia de que, mais bem informadas e “orientadas” as meninas teriam uma capacidade maior de evitar gestações inadequadas, fora de hora, prematuras, indesejadas ou inconvenientes.

Eu rejeito a ideia de que esta ação poderia trazer benefícios para além de mudanças marginais, locais, pontuais e absolutamente pouco significativas. E digo isso porque não acredito que estas escolhas sejam majoritariamente controladas por elementos conscientes, os únicos que poderiam ser transformados pela educação e a informação. Ou seja, não se transforma racionalmente uma pulsão de origem irracional.

Minha namorada engravidou aos 22 anos, em plena faculdade de enfermagem, e seu namorado (eu) era estudante de medicina, ambos de classe média. A gestação, como eu disse, não foi planejada. Aliás quem planejaria ter um filho aos 21 anos, sem emprego, morando na casa dos pais? Pois mesmo assim, com toda a informação possível, com toda a educação necessária, uma gestação ocorreu – e logo depois outra.

Por quê? Ora… porque a informação não é capaz de mudar o desejo. Havia um desejo que transitava por detrás das palavras e gestos, como uma sombra, percorrendo caminhos para se expressar. Afinal, ele está onde não devia estar, ele “desacata a gente que é revelia, pois é feito estar doente de uma folia, como uma aguardente que não sacia, e nem dez mandamentos vão conciliar”, e nem todas as aulas, palestras, desenhos, gráficos, filmes vão tornar o sagrado em profano ou transformar o quente no frio.

Nas comunidades mais pobres as meninas não engravidam por serem burras ou pouco educadas nas questões do sexo. Ora, que ingenuidade. Elas sabem como evitar uma gestação, e desde muito cedo na vida. Aprendem nas quebradas e nos cochichos, encostadas no muro da escola. Aprendem da mãe, e até do pai. Ensinam-se uns aos outros na escola da vida cotidiana. A questão da gestação na adolescência passa longe de uma abordagem cognitiva, apesar desta não ser uma perspectiva desprezível; ela é apenas insuficiente e não produz efeitos consideráveis.

A questão passa pelo reconhecimento das pulsões sexuais como forças propulsoras da criatividade humana, muito mais fortes e potentes do que qualquer abordagem racional e educativa, mas também pela percepção da questão social que subjaz, muito mais significativa e que regula a política dos corpos nas estruturas sociais exploradas, como as comunidades onde a gestação na adolescência é prevalente.

Lá, nas quebradas, a gestação da menina de 15 anos tem uma repercussão completamente diferente da garota burguesa grávida nessa idade e que mora na zona sul. A ausência de perspectivas de crescimento pessoal que caracteriza a primeira se choca com as inúmeras portas que se fecham à segunda diante de uma gestação “fora de hora”. São realidades sociais extremamente díspares, criadas por contextos diferentes e produzindo consequências divergentes.

Por isso, não há como uma abordagem autoritária (na minha época se planejou dar injeções de progesterona em meninas de vilas populares) ou meramente educativa produzir resultados relevantes. Por mais que os ginecologistas se sintam desprestigiados a realidade é que a diminuição de casos de gestação na adolescência quase nada tem a ver com a ação médica que eles poderiam produzir. A solução – atenção para o spoiler – é política, e tem a ver com a superação do capitalismo, em direção à construção de uma estrutura social igualitária. Enquanto não houver uma transformação social, através de uma nova forma de organização das cidades, da renda, da moradia, da educação e do emprego, continuaremos a ver gestações que ocorrem em épocas muito precoces, o que acarreta um custo social e familiar muito grande.

Uma percentagem ínfima de gestações são planejadas, no sentido racional do termo. Quando uma mulher diz “não foi planejado” fica explícito para mim que ela apenas permitiu que seu desejo tomasse as rédeas do processo, sem a interferência da razão.

“Quem pensa não casa”, já dizia o velho adágio. Já pensou nesse ditado de forma mais profunda, tentando encontrar o que está escrito por detrás das palavras? Se você puder entender “casar” como um conceito amplo – que inclui amar alguém e ter filhos – a frase fica ainda mais interessante. Assim, para casar – amar, procriar, cuidar – é necessário não pensar, não racionalizar e permitir-se desejar. O amor é exatamente isso, uma perda do controle, uma submissão ao desejo.

Por certo que faz sentido orientar meninas sobre anticoncepção, gestação na adolescência, métodos alternativos, drogas para evitar, riscos e benefícios. Médicos deveriam ser essencialmente pedagogos (e não meros despachantes de drogas). Entretanto, para mim é evidente que essa estratégia é incapaz de mudar a situação porque se baseia numa ilusão racionalista. Parte do princípio que o sexo e a própria reprodução podem ser controlados – ou domesticados – pela informação. Isso é puro delírio médico, uma onipotência de controle.

Eu escuto essa queixa sobre a gestação na adolescência há 40 anos e sempre do mesmo jeito. Não muda uma vírgula do que os médicos dizem há 4 décadas, apesar de todas as evidências mostrarem que a abordagem usada por todo esse tempo está apenas equivocada. É duro aceitar, mas os médicos não tem quase nenhuma importância nessa equação, porque gestação na adolescência não é um problema médico, é um sintoma social – mesmo que, por certo, produza repercussões médicas.

A ideia de campanhas, injeções compulsórias em populações vulneráveis, educação nas escolas e distribuição de anticoncepcionais jamais solucionaram o problema. E a razão é simples: gestação na adolescência se adapta ao microcosmo das populações exploradas. Para que essa escolha inconsciente desapareça do horizonte das meninas é preciso transformar a própria sociedade e a cultura onde elas estão inseridas. Quando a pobreza for exterminada a gestação “não planejada” cairá vertiginosamente sem qualquer campanha, exatamente porque estas meninas, historicamente roubadas em suas alternativas, verão o futuro de si mesmas com outros olhos.

Muitas vezes reclamamos das gestações precoces como o faz um médico indignado com as verminoses no posto de saúde. Sua inquietude e sua legítima angústia diante dos casos que se avolumam o faz cobrar uma ação médica, imaginando que a verminose é um problema que pode ser medicamente solucionado.

Agora imagine ele passar 40 anos exigindo novas drogas, lutando para educar crianças a lavar as mãos e as frutas que vão comer, dando palestras na escola do bairro etc. e sem jamais perceber qualquer diminuição nos casos, porque nunca se dispôs a visitar a casa desses pacientes situadas à beira do valão imundo que os circunda. Verminose é um problema médico como a desnutrição, mas nenhuma destas doenças tem uma solução médica. Pois só no dia em que ele enxergar a questão social que produz há décadas essas enfermidades ele poderá abandonar seu discurso ingênuo e sua crença racionalista inocente.

Eu, pessoalmente, cansei desses discursos médicos que estão apartados da sociologia e da politica. São palavras vazias que nada acrescentam ao tema, pois as soluções apontadas são comprovadamente inúteis por colocarem nas mãos dos médicos uma solução que lhes é impossível. Isso apenas alimenta a frustração, causada pela onipotência da corporação.

Os nossos esforços deveriam estar direcionados muito mais à luta política para a erradicação da pobreza do que ficar tapando seus furos, tal como fazem os médicos abnegados que oferecem vermífugos às toneladas para crianças que moram em situação de miséria, excluídos da sociedade. Melhor fariam oferecendo injeções de indignação e pílulas de consciência de classe para que, desta forma, pudessem combater em conjunto as verdadeiras enfermidades: a iniquidade e a injustiça social.

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O Corte

O fato de haver uma parte considerável da população que na terceira década do século XXI ainda debate a necessidade das episiotomias – corte no períneo para alargar o espaço de saída do bebê – dá a exata dimensão da misoginia estrutural da nossa cultura. Esta impressão fica mais intensa quando os próprios profissionais do parto confiam mais na superioridade da técnica do que na ancestral capacidade feminina de parir.

A episiotomia inicialmente proposta por Sir Fielding Ould, em seu livro Treatise of Midwifery in Three Parts, publicado no ano de 1742 na língua inglesa.Entretanto, somente em 1799, Michaelis afirmou ter realizado uma incisão perineal durante o nascimento de um bebê. O termo episiotomia foi criado no ano de 1857 por Carl Von Braun, na Áustria, mas foi tornado popular por Joseph De Lee no início do século XX. A partir do início do século passado o nascimento passou a ser visto como evento perigoso (elevada morbidade e mortalidade materna e perinatal) mas, ao contrário do que acontecia até então, passou a requerer obrigatória assistência médica para prevenir riscos e reduzir morbidade e mortalidade materna e neonatal. A episiotomia se encaixava nesta visão ao oferecer aos médicos o controle sobre o curso do nascimento, garantindo-lhes autoridade e protagonismo.

Todavia, a observação cuidadosa do resultado desta intervenção demonstrou de forma definitiva que ela não oferece o que promete. Não encurta o período expulsivo do parto, não protege o períneo e muito menos produz resultados positivos sobre o bebê, e os estudos sobre a inutilidade das episiotomias foram publicados por Thacker & Banta em 1987, há mais de 30 anos. Assim sendo, como é possível entender que uma intervenção cirúrgica – incapaz de comprovar sua utilidade – manteve-se na prática médica cotidiana por mais de um século? Como pode uma especialidade médica, que se pretende racional e científica, utilizar técnicas sem qualquer evidência científica positiva de seu uso?

Há alguns tomei conhecimento de um vídeo onde professores da Faculdade de Medicina da minha cidade informavam a decisão de realizar um estudo randomizado sobre episiotomias. O antigo professor (e chefe do serviço) argumentava sobre a importância de se realizar uma análise para confirmar – ou não – pesquisas realizados em outros países. Achei surpreendente a decisão porque mais de 30 anos haviam se passado desde as pesquisas conclusivas sobre a ineficácia das episiotomias de rotina. Todavia, ficava claro que havia a esperança de se encontrar algum dado revelador no estudo realizado aqui no canto sul do planeta, além do desejo – inconfesso e inconsciente – de que algo surgisse para que fosse possível manter acesa a tênue chama de sua necessidade.

Em verdade, a falta de crítica sobre os significados últimos dos procedimentos médicos está na origem dessa aparente “curiosidade científica”. A episiotomia tem uma representatividade simbólica para a obstetrícia – desde sua origem – que ultrapassa a operacionalidade de seus efeitos clínicos. Ela é a cirurgia da onipotência, do poder fálico do escalpelo, a assinatura do patriarcado sobre o corpo da mulher, a chave que abre as portas do nascimento, a assinatura do autor na obra, grafando na carne a autoria de quem, usando os mais claros elementos da “couvade“, expropria o evento de quem realmente o produziu.

Sem entender as motivações inconscientes que nos levam a cortar o corpo de uma mulher no nascimento de seus filhos, nenhum estudo terá significado, pois enxergará apenas aquilo que a luz da pesquisa ilumina, deixando a chave dessa invasão ainda para ser descoberta, pois que se esconde na parte obscura da cena.

As episiotomias se mantém porque sua entrada na rotina dos nascimentos não se deu por questões racionais ou científicas; em verdade ela teve seu início triunfante por se adaptar às necessidades da obstetrícia nascente, que via na pretensa defectividade essencial das mulheres e seu mecanismo de parto a justificativa perfeita para que os cirurgiões pudessem usar sua arte para consertar e dar funcionalidade aos corpos equivocados, mal feitos, disfuncionais e essencialmente perigosos das mulheres. As episiotomias foram a desculpa perfeita para afastar da disputa as parteiras, profissionais que trataram das mulheres durante milênios, oferecendo seu tempo e sua dedicação à arte de cuidá-las. Para tomar posse destes corpos era necessário mostrar o valor das intervenções, sua superioridade e sua eficiência (mesmo que ilusória) e descrever a natureza como vilã traiçoeira, que escolhia as mulheres como suas vítimas contumazes.

O paradoxo entre as pesquisas mostrando a inutilidade dessa cirurgia (há mais de três décadas) e sua sobrevivência no imaginário e na prática obstétrica contemporânea só pode ser entendido se levarmos em conta as perspectivas que controlam a prática médica, assim como a percepção que a cultura tem das mulheres e seus corpos nos últimos 80 séculos. A verdadeira motivação – inconsciente, porém não menos poderosa – para a prática desta cirurgia mutilatória e ritualística da medicina ocidental é a manutenção do controle sobre a sexualidade feminina, pois que ela é essencial para a estrutura social, onde o patriarcado e o capitalismo desempenham a função de estruturas fundamentais para sua sustentação.

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Doulas e Psicanalistas

Sobre a polêmica de cursos de graduação em psicanálise creio que esta discussão é a EXATA reprise de um debate que eu iniciei há mais de 10 anos sobre “cursos de formação de Doulas”, os quais pretendiam sua transformação em profissão regulamentada e desejavam tornar a doula uma “profissional da saúde” – como médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, etc.

Quando me posicionei sobre o tema – fazendo oposição à tentativa de encaixar as doulas no nosso modelo acadêmico e trabalhista – fui atacado, xingando, cancelado e tratado como “traidor”. Claro, ainda tive que escutar o famoso “lugar de fala”, mesmo que eu estivesse presente desde os primeiros cursos de capacitação de doulas no Brasil. Mas isso não foi suficiente para me fazer mudar de opinião.

Agora o debate é sobre um ramo centenário do conhecimento humano, a psicanálise. Entretanto, percebi que os argumentos que sustentam a ideia dos “Cursos de Graduação em Psicanálise” visando uma formação acadêmica na área tem os mesmo problemas estruturais que eu questionava na formação de Doulas. Tomo aqui emprestadas as palavras de Diogo Fagundes em um texto que circula na internet sobre a “domesticação” da psicanálise, mudando apenas o campo ao qual ele se refere.

“Graduação em Doulagem oferecida pelo Estado – ou pior, empresas de educação privada visando lucro – é algo análogo à possibilidade hipotética de graduação em marxismo. Faz sentido haver escolas de doulas (aliás, desejo muito isto) associadas a organizações ligadas à humanização do nascimento, grupos de mulheres ou clubes de mães, mas não cursos de graduação estabelecidos pelo Estado ou proprietários privados em busca de dinheiro fácil.

Ambos – doulas e psicanalistas – são formas de pensamento implicados na construção de um sujeito não necessariamente ligados ao que Lacan chama de “discurso da universidade” – não à toa o francês recusou chefiar o departamento de psicanálise (o primeiro da França) quando convidado por Foucault na criação da Paris VIII.

Na prática, vai haver um monte de biboca de esquina transformando o trabalho das doulas em “coaching de gestação”, autoajuda e coisas do gênero. Entretanto, a formação não pode prescindir de habilidades humanas e acompanhamento pessoal, uma experiência subjetiva complexa não balizada por prazos e exercícios determinados burocraticamente.”

Como pode ser visto, a mesma ideia de criar cursos de formação em psicanálise ou formação de doulas esbarra no fato de que ambas as funções sociais não são aprendidas exclusivamente nos bancos escolares mas pressupõe uma vivência no trabalho direto com os clientes, um mergulho na subjetividade destes, um aprendizado que surge do atrito com a infinita diversidade dos clientes, a alegria e o sofrimento com as vitórias e frustrações que esta função nos impõe. A academia e seus diplomas são incapazes de fornecer este tipo de construção, o qual não pode ser delimitada no tempo ou na carga teórica de conhecimento oferecida.

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