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O Corte

O fato de haver uma parte considerável da população que na terceira década do século XXI ainda debate a necessidade das episiotomias – corte no períneo para alargar o espaço de saída do bebê – dá a exata dimensão da misoginia estrutural da nossa cultura. Esta impressão fica mais intensa quando os próprios profissionais do parto confiam mais na superioridade da técnica do que na ancestral capacidade feminina de parir.

A episiotomia inicialmente proposta por Sir Fielding Ould, em seu livro Treatise of Midwifery in Three Parts, publicado no ano de 1742 na língua inglesa.Entretanto, somente em 1799, Michaelis afirmou ter realizado uma incisão perineal durante o nascimento de um bebê. O termo episiotomia foi criado no ano de 1857 por Carl Von Braun, na Áustria, mas foi tornado popular por Joseph De Lee no início do século XX. A partir do início do século passado o nascimento passou a ser visto como evento perigoso (elevada morbidade e mortalidade materna e perinatal) mas, ao contrário do que acontecia até então, passou a requerer obrigatória assistência médica para prevenir riscos e reduzir morbidade e mortalidade materna e neonatal. A episiotomia se encaixava nesta visão ao oferecer aos médicos o controle sobre o curso do nascimento, garantindo-lhes autoridade e protagonismo.

Todavia, a observação cuidadosa do resultado desta intervenção demonstrou de forma definitiva que ela não oferece o que promete. Não encurta o período expulsivo do parto, não protege o períneo e muito menos produz resultados positivos sobre o bebê, e os estudos sobre a inutilidade das episiotomias foram publicados por Thacker & Banta em 1987, há mais de 30 anos. Assim sendo, como é possível entender que uma intervenção cirúrgica – incapaz de comprovar sua utilidade – manteve-se na prática médica cotidiana por mais de um século? Como pode uma especialidade médica, que se pretende racional e científica, utilizar técnicas sem qualquer evidência científica positiva de seu uso?

Há alguns tomei conhecimento de um vídeo onde professores da Faculdade de Medicina da minha cidade informavam a decisão de realizar um estudo randomizado sobre episiotomias. O antigo professor (e chefe do serviço) argumentava sobre a importância de se realizar uma análise para confirmar – ou não – pesquisas realizados em outros países. Achei surpreendente a decisão porque mais de 30 anos haviam se passado desde as pesquisas conclusivas sobre a ineficácia das episiotomias de rotina. Todavia, ficava claro que havia a esperança de se encontrar algum dado revelador no estudo realizado aqui no canto sul do planeta, além do desejo – inconfesso e inconsciente – de que algo surgisse para que fosse possível manter acesa a tênue chama de sua necessidade.

Em verdade, a falta de crítica sobre os significados últimos dos procedimentos médicos está na origem dessa aparente “curiosidade científica”. A episiotomia tem uma representatividade simbólica para a obstetrícia – desde sua origem – que ultrapassa a operacionalidade de seus efeitos clínicos. Ela é a cirurgia da onipotência, do poder fálico do escalpelo, a assinatura do patriarcado sobre o corpo da mulher, a chave que abre as portas do nascimento, a assinatura do autor na obra, grafando na carne a autoria de quem, usando os mais claros elementos da “couvade“, expropria o evento de quem realmente o produziu.

Sem entender as motivações inconscientes que nos levam a cortar o corpo de uma mulher no nascimento de seus filhos, nenhum estudo terá significado, pois enxergará apenas aquilo que a luz da pesquisa ilumina, deixando a chave dessa invasão ainda para ser descoberta, pois que se esconde na parte obscura da cena.

As episiotomias se mantém porque sua entrada na rotina dos nascimentos não se deu por questões racionais ou científicas; em verdade ela teve seu início triunfante por se adaptar às necessidades da obstetrícia nascente, que via na pretensa defectividade essencial das mulheres e seu mecanismo de parto a justificativa perfeita para que os cirurgiões pudessem usar sua arte para consertar e dar funcionalidade aos corpos equivocados, mal feitos, disfuncionais e essencialmente perigosos das mulheres. As episiotomias foram a desculpa perfeita para afastar da disputa as parteiras, profissionais que trataram das mulheres durante milênios, oferecendo seu tempo e sua dedicação à arte de cuidá-las. Para tomar posse destes corpos era necessário mostrar o valor das intervenções, sua superioridade e sua eficiência (mesmo que ilusória) e descrever a natureza como vilã traiçoeira, que escolhia as mulheres como suas vítimas contumazes.

O paradoxo entre as pesquisas mostrando a inutilidade dessa cirurgia (há mais de três décadas) e sua sobrevivência no imaginário e na prática obstétrica contemporânea só pode ser entendido se levarmos em conta as perspectivas que controlam a prática médica, assim como a percepção que a cultura tem das mulheres e seus corpos nos últimos 80 séculos. A verdadeira motivação – inconsciente, porém não menos poderosa – para a prática desta cirurgia mutilatória e ritualística da medicina ocidental é a manutenção do controle sobre a sexualidade feminina, pois que ela é essencial para a estrutura social, onde o patriarcado e o capitalismo desempenham a função de estruturas fundamentais para sua sustentação.

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Doulas e Psicanalistas

Sobre a polêmica de cursos de graduação em psicanálise creio que esta discussão é a EXATA reprise de um debate que eu iniciei há mais de 10 anos sobre “cursos de formação de Doulas”, os quais pretendiam sua transformação em profissão regulamentada e desejavam tornar a doula uma “profissional da saúde” – como médicos, enfermeiras, fisioterapeutas, etc.

Quando me posicionei sobre o tema – fazendo oposição à tentativa de encaixar as doulas no nosso modelo acadêmico e trabalhista – fui atacado, xingando, cancelado e tratado como “traidor”. Claro, ainda tive que escutar o famoso “lugar de fala”, mesmo que eu estivesse presente desde os primeiros cursos de capacitação de doulas no Brasil. Mas isso não foi suficiente para me fazer mudar de opinião.

Agora o debate é sobre um ramo centenário do conhecimento humano, a psicanálise. Entretanto, percebi que os argumentos que sustentam a ideia dos “Cursos de Graduação em Psicanálise” visando uma formação acadêmica na área tem os mesmo problemas estruturais que eu questionava na formação de Doulas. Tomo aqui emprestadas as palavras de Diogo Fagundes em um texto que circula na internet sobre a “domesticação” da psicanálise, mudando apenas o campo ao qual ele se refere.

“Graduação em Doulagem oferecida pelo Estado – ou pior, empresas de educação privada visando lucro – é algo análogo à possibilidade hipotética de graduação em marxismo. Faz sentido haver escolas de doulas (aliás, desejo muito isto) associadas a organizações ligadas à humanização do nascimento, grupos de mulheres ou clubes de mães, mas não cursos de graduação estabelecidos pelo Estado ou proprietários privados em busca de dinheiro fácil.

Ambos – doulas e psicanalistas – são formas de pensamento implicados na construção de um sujeito não necessariamente ligados ao que Lacan chama de “discurso da universidade” – não à toa o francês recusou chefiar o departamento de psicanálise (o primeiro da França) quando convidado por Foucault na criação da Paris VIII.

Na prática, vai haver um monte de biboca de esquina transformando o trabalho das doulas em “coaching de gestação”, autoajuda e coisas do gênero. Entretanto, a formação não pode prescindir de habilidades humanas e acompanhamento pessoal, uma experiência subjetiva complexa não balizada por prazos e exercícios determinados burocraticamente.”

Como pode ser visto, a mesma ideia de criar cursos de formação em psicanálise ou formação de doulas esbarra no fato de que ambas as funções sociais não são aprendidas exclusivamente nos bancos escolares mas pressupõe uma vivência no trabalho direto com os clientes, um mergulho na subjetividade destes, um aprendizado que surge do atrito com a infinita diversidade dos clientes, a alegria e o sofrimento com as vitórias e frustrações que esta função nos impõe. A academia e seus diplomas são incapazes de fornecer este tipo de construção, o qual não pode ser delimitada no tempo ou na carga teórica de conhecimento oferecida.

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Parto e Transformação

Parto é encruzilhada, momento de decisão. Pode jogar para cima tanto quanto pode dizimar perspectivas. Parto pode ser transformador, mas pode confirmar o mau destino que o mundo havia prescrito. Parto não trata de sobrevivência, mas sobre a vivência de um momento ímpar, absoluto e apoteótico, ápice da feminilidade.

Não há como cursar seu túnel sombrio e tortuoso sem ser tocado por sua energia. Os partos são as causas de grandes traumas e grandes metamorfoses. Podem arremessar seus personagens ao chão impiedosamente, mas da mesma forma podem alçá-los ao infinito.

Aqueles que porventura dele se ocupam precisam saber que estão situados precisamente na quina do cruzamento. Suas ações, posturas, ideias e palavras podem levar estas mulheres às escolhas diminutivas, ressaltando sua velha companheira – a menosvalia. Por outro lado, também podem ser o trampolim para o voo mais alto de suas vidas, aquele que vai desfazer a maldição sobre um corpo chamado imperfeito.

Para estes últimos, as palavras de minha mãe: “Cuida como vives, o que fazes e dizes; talvez sejas o único Evangelho que teu irmão lê”.

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Histórias de Horror

As “Histórias Horríveis de Parto” (gênero literário muito comum na cultura ocidental) via de regra se baseiam em narrativas de terror onde as pacientes são objetos da ação de uma natureza traiçoeira. São histórias de pânico e terror, que são oferecidas às gestantes na medida em que avançam a gestação e, depois, o trabalho de parto.

Na conclusão final destas histórias surgem duas verdades cristalinas: de um lado a defectividade assassina dos corpos fracos e mal feitos das mulheres e do outro lado a capacidades excelsa dos médicos para agir e salvar vidas, que certamente seriam ceifadas caso o nascimento ficasse somente nas mãos delas.

Escutei essas histórias durante 40 anos e até já fui testemunha de casos em que médicos astutos e corajosos efetivamente salvaram vidas, mas posso lhes garantir que na maioria esmagadora das vezes os profissionais se limitavam a consertar os estragos que não existiriam sem a a interferência indevida dos profissionais e das instituições no processo fisiológico do parto.

Acreditar cegamente nas histórias contadas pelos atores que detém o controle sobre o parto é sucumbir ao poder que eles têm de valorar esta narrativa. Este é um caminho certo para a submissão. Ter uma postura crítica diante desse tipo de histórias é importante para olhar o fenômeno do nascimento sem as capas espessas que a cultura construiu ao seu redor.

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Ainda Fogueiras

Apesar de não gostar de fogueiras, creio que o debate nacional sobre violência obstétrica é oportuno e essencial, em especial por meio de um programa de tamanha audiência como este, o Fantástico na Globo. Espero que, mais do que uma ação punitivista, este seja um passo importante para a consolidação de propostas para a erradicação da violência de gênero, em especial no parto e nascimento.

Creio que precisamos de mais participação da família, escolhas informadas, pré-natal de qualidade, confiança nos profissionais (e nos pacientes), uma mídia consciente, um judiciário atento às evidências científicas e mais parteiras e doulas na atenção ao parto de risco habitual. Precisamos também de uma mídia menos sensacionalista e mais responsável, assim como uma maior proteção aos profissionais humanistas, pontas de lança das transformações no cenário do parto.

Acho que um passo – a exposição crua da realidade triste da violência obstétrica – foi dado hoje. Espero que tenha sido um momento decisivo em direção a uma interação mais respeitosa entre cuidadores e gestantes.

Que assim seja.

PS: Agora fica difícil conter a pressão dos ressentimentos represados. Espero apenas que a mobilização (que infelizmente vem pelo escândalo) não se contente com o mero punitivismo, mas ofereça uma perspectiva de sairmos desse processo histórico de violência de gênero. Assim estes fatos tristes não mais ocorrerão com tanta frequência. Porém, é importante tomar cuidado; muitas vezes as punições são uma forma de não-mudar, de conter a transformação, colocando as falhas estruturais nas costas de um único sujeito, para que as pessoas não percebam a arquitetura corroída que sustenta todo o sistema. O que precisamos mudar é o modelo autoritário de atenção ao parto que não ocorre de forma isolada; pelo contrário, é uma das marcas da assistência ao parto no Brasil.

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Punições

Pessoalmente, não vejo punição maior do que a que já foi feita, e não vejo valor algum em punir esse sujeito para além disso. O mesmo eu disse para o jovem médico que fez piadinhas indecentes para uma garota no Egito. Ambos sucumbiram à mesma cilada na qual tantos tropeçam: um brutal sentido de “entitlement” (qual a melhor tradução?), a ideia de que sua posição “superior” lhes permitiria fazer qualquer coisa, dizer qualquer bobagem, no limite do desrespeito e da humilhação. Afinal, quem ousaria enfrentá-los? Quem apontaria o dedo para um ídolo, um exemplo de sucesso e excelência? Quem se atreveria?

Infelizmente eles não percebem que as luzes da ribalta, de tão intensas, produzem uma sombra muito escura. Nesta sombra se acumulam sentimentos pesados que estes personagens carregam por onde vão, a segui-los impiedosamente, na espreita do momento em que a luz se apagará, quanto então a escuridão tomara conta de todo o espaço. Augusto dos Anjos já nos dizia:

“Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.”

Mal sabiam eles que a admiração e a adulação cobram um alto preço. Nenhum amor é oferecido sem contrapartida. Uma vez que se desfazem as capas da idolatria resta apenas o buraco de um afeto sem resposta, e a cobrança será inevitavelmente dura. Espero sinceramente que eles tenham recebido o golpe e feito um bom uso dele. Muitas vezes tais impactos produzem apenas dor, indignação, sofrimento, tristeza e depressão. Porém, em outras oportunidades elas podem deflagrar o parto de um novo sujeito, que só pôde nascer através da dolorosa contração de uma queda narcísica. Espero que a árdua lição os faça transformar, e que seu trabalho siga em um novo patamar.

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As Armadilhas da Identidade

Há muitos anos me debato com a questão do identitarismo, até porque sempre fui um homem imerso em um universo absolutamente feminino, e seria normal e compreensível que sempre fosse visto com uma certa estranheza. Por esta razão, não foram poucas as vezes que me defrontei com silenciamentos, exclusões e com o indefectível argumento do “lugar de fala”.

Por certo que muita besteira eu disse nessas três décadas de debates sobre partos, amamentação, puerpério e os próprios aspectos da sexualidade ligada ao parto, mas eu via nas inúmeras interdições – veladas e explícitas – um cancelamento indevido de vozes cuja aparente dissonância em verdade oferecia a possibilidade de se criar uma melodia muito mais rica e complexa. Sempre acreditei que estes múltiplos pontos de vista poderiam compor uma paralaxe benéfica para fortalecimento das ideias. Todavia, muitas vezes preguei no deserto.

Assim, o livro “Armadilhas da Identidade” de Asad Haider, caiu como uma luva sobre minhas inquietações, em especial porque trazia a resposta para uma antiga indagação. Em uma parte do livro – onde comenta sobre a realidade do racismo que atinge os negros americanos – ele observa que em muitos lugares (como em Milwakee, por exemplo) a maioria dos policiais é negro. Surge então a questão: como poderia a polícia se manter violenta e racista se os indivíduos que a compõem são do mesmo grupo vitimado por esta instituição?

Quando li isso me veio à mente outra violência que acompanhei diuturnamente durante mais de três décadas: a violência de gênero que se expressa na assistência ao parto, onde a imensa maioria das atendentes – inclusive as obstetras, que se situam no ápice do sistema de poderes – é composta por mulheres. Aqui sempre esteve presente a mesma pergunta: por que mantemos uma assistência violenta e misógina mesmo depois da obstetrícia se tornar majoritariamente feminina?

Não seria de se esperar que a violência diminuísse a partir do momento em que negros vigiassem negros e mulheres acolhessem mulheres? Não haveria uma obrigatória identificação com o outro, objeto de nossa ação?

O resultado dessa maior representação – conforme testemunhei durante décadas – foi ausente ou pífio. Não há até hoje nenhuma diferença mensurável entre as ações de policiais negros ou de obstetras mulheres no que diz respeito à violência de sua prática. A explicação para esse fenômeno é porque, muito mais importante do que os sujeitos que estão presentes nestes atos, são as instituições e os valores que elas representam. A polícia existe para impor à sociedade pela força uma divisão brutal de classes, enquanto a obstetrícia vai marcar as mulheres com o signo da submissão feminina dentro da sociedade patriarcal, inobstante os atores que emprestam seus corpos e mentes para essa função.

Colocar indivíduos negros na polícia e mulheres na obstetrícia – garantindo a esses grupos uma maior representatividade – em nada auxilia na transformação radical do sistema que os sustenta. Em verdade, as políticas identitárias que se resumem a colocar mulheres e negros em posição de destaque são parte do sistema de dominação – e não sua real oposição.

O grande equívoco é mantermos nossa visão obscurecida pelo gênero e raça e não percebermos a estrutura capitalista que subjaz, a mesma que fabrica a misoginia, o racismo e outros preconceitos como ferramentas para manter a sociedade de classes. Esse erro se espalha e se reproduz quando colocamos a culpa no branco e no homem, como se estes personagens fossem os culpados pelo sistema de opressão do qual eles também são vítimas. Por esta razão creio que um movimento unificado que suplante os identitarismos seria a grande saída para o fortalecimento das lutas. Aliás, a proposta de colocar homens, cis, brancos e heterossexuais como “os inimigos a serem destruídos” é um roteiro que só pode levar ao fracasso, como visto até agora.

O fim do racismo e do machismo vai ocorrer quando houver a superação da sociedade de classes através da luta de todos, acima das identidades, em direção a uma sociedade sem divisões artificiais.

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A Essência do Parto

O caso da influencer que teve sua história exposta pela mídia a partir das queixas que ela fez sobre o atendimento grosseiro que recebeu durante o parto dominou os noticiários por algumas semanas e suscitou alguns debates interessantes sobre os limites da atuação médica. Por outro lado também acabou produzindo um efeito catártico, servindo para o deságue de mágoas e ressentimentos de muitas pessoas que reviveram violências sofridas no passado. O fato também possui um aspecto deletério para a cultura do parto: continuamos a mostrar o nascimento como cenário de guerra, local de gritaria, abusos, invasões da privacidade, intervenções descabidas e exercício exagerado de poder. Acredito que o debate sobre estas múltiplas violências – mais do que o ataque a profissionais – deve vir acompanhado de um esclarecimento de que a assistência ao parto não precisa ser assim e que esta não é a essência do parto. Colocar toda a nossa energia em ataques pessoais (mesmo que compreensíveis) ajuda muito pouco, quando é a própria a estrutura viciosa da atenção que produz esse tipo de problema.

O que temos é um problema sistêmico de violência ao parto, e não a sequência de “fatos isolados” que se acumulam. Tal como os tiroteios americanos que se sucedem de forma macabra, não é a caça aos degenerados que fará o problema desaparecer, mas quando a sociedade perceber que eles são consequência, e não origem, do problema estrutural da sociedade capitalista e individualista. Da mesma forma, o que testemunhamos hoje nada mais é do que a “degenerescência da assistência”, causada pela falha do sistema médico das sociedades ocidentais de reconhecer e trabalhar com as necessidades afetivas, emocionais, sociais e espirituais do parto e nascimento. Esse evento foi violentado em nossa cultura, afastado de sua essência de cuidado, jogado na lógica da intervenção e da patologia, controlado por cirurgiões treinados na intervenção e gerenciado por interesses capitalistas. Como poderia um projeto como esse prosperar sem a criação de um clima artificial de pânico a lhe envolver, fazendo desse medo a base ideológica de tanta submissão e – como consequência – tantos abusos?

Praticamente tudo o que se vê na atenção ao parto – do local do parto aos procedimentos, passando pelo local de nascer e pelos acompanhantes – é artificial e ideológico. Quase nada (com raras e notáveis exceções) está baseado em evidências científicas sólidas. Entretanto, a encenação de um nascimento segue um roteiro bem estabelecido de submissão e poder, que obedece a um ordenamento opressivo sobre as mulheres – tratadas como contêineres fetais, e seus bebês – vistos como o produtos da cultura.

Há poucos dias um casal amigo planejou um parto hospitalar, mas o bebê nasceu muito rápido e acabou chegando a este mundo pelas mãos das parteiras que os acompanhavam em casa. Decidiriam ir ao hospital conforme combinado para terminar a avaliação, e lá foram tratados com atitudes típicas de retaliação por alguns profissionais, motivadas pela “ofensa” de permitir a um bebê nascer em sua própria casa. Na saída do hospital o casal me confidenciou: “o saldo foi positivo, pois só uma médica plantonista e uma enfermeira chefe foram “terroristas” conosco. Os outros foram bem gentis e educados”.

Ainda acho que somos demasiado condescendentes com este tipo de violência, tão comum quanto disseminada. Aceitamos um mínimo de dignidade como se fosse um presente e ainda engolimos sapos para não criar confusão. Estamos inseridos em uma sociedade onde questionar o poder abusivo é visto como “desacato”, como atitude de enfrentamento e comportamento não colaborativo. Somos doutrinados a naturalizar ações agressivas por parte de equipes médicas pela crença de que “é para o nosso próprio bem”. Não, não é em nosso benefício; é apenas para manter os pacientes dóceis e submissos às ordenações criadas para facilitar a vida e os ganhos de profissionais e instituições. A própria existência de abusos na indicação de cesarianas é a prova de que existe uma tendência de que as ações nos hospitais sejam conduzidas no sentido de proteger a ação dos profissionais e dos hospitais, e não no benefício primordial de mães e bebês.

Ainda assim, mais do que fazer justiça, é fundamental ampliar o debate sobre os descaminhos da assistência ao parto através das críticas aos seus fundamentos e sua conexão com a visão alienante do modelo patriarcal que visa o controle da sexualidade feminina em todos os seus aspectos. Para revolucionar a assistência ao parto e nascimento é essencial desconstruir a visão centenária do parto como “ato médico” e reconstruí-la através de uma visão transdisciplinar, integrativa e baseada em evidências científicas consistentes.

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Fogueira

Vou me repetir mas apenas porque nesses momentos é fundamental ser didático e não perder a oportunidade de educar as pessoas sobre os limites da ação médica e a importância de reforçar a luta pelos direitos dos pacientes.

Existe um fenômeno na escola chamado “eleição do courinho”. É evidentemente uma escolha informal, sem votos expressos, mas consensual. Esse personagem na escola é escolhido para receber a maior carga de bullying por parte dos colegas, geralmente por ter algum tipo de defectividade: são eleitos quase sempre os gordos, os baixinhos, os magricelas, os lentos, os de óculos, os desengonçados, etc. Esse sujeito, a exemplo do “comedor de pecados”, vai atrair para si todas as máculas que carregamos, concentrá-las em si mesmo e sofrê-las, como um Cristo a garantir nossa salvação expiando os pecados do mundo.

Este “courinho” (em quem todos batem) produz um efeito apaziguador de nossas fragilidades. Se eu sou gordinho ninguém vai notar, porque não sou tão gordo quanto o “bola”. Se eu sou baixinho não importa pois ainda sou um pouco maior que o “tampinha”. Se sou feio ainda assim não assusto tanto quanto o “rascunho”. Se uso óculos, pelo menos não uso um “fundo de garrafa” como o meu colega “4 olho”.
Se eu faço uma episiotomia sem indicação, pelo menos não mostro para o marido, como alguns por aí. Sim, eu grito, bastante até, mas não digo “pohaaa” como aquele outro. Se assumo o protagonismo e exproprio o parto das pacientes, pelo menos não posto no Instagram. Se “faço os partos” pelo menos tenho menos cesarianas que aquele outro colega. Se desmereço a capacidade da mulher, pelo menos não falo “viadinha” como fiquei sabendo por aí.

Esses personagens são exaltados para carregar as NOSSAS FALHAS, nossos erros, nossa violência estrutural cotidiana, e acima de tudo para esconder o quanto estamos todos envolvidos em um modelo misógino, que desmerece as capacidades inatas das mulheres de gestar e parir com segurança. Criar um culpado serve para desviar o foco da enfermidade crônica da obstetrícia ocidental.

As coisas que esse doutor fazia, aparentemente com mais de uma paciente – tipo comentar sobre a vagina delas, falar palavras impróprias, mostrar a laceração para o marido, assumir o protagonismo do parto, fazer publicidade exagerada do seu trabalho nas redes sociais – não deveriam ser tratadas como uma “caça às bruxas”, tentando colocar a culpa nessas práticas em apenas um sujeito de comportamento “desviante. Estes erros são, em verdade, um catálogo das falhas cotidianas que estão espalhadas por todos os profissionais, os quais estão imersos em um paradigma de atenção inerentemente violento.

Toda caça às bruxas, todo linchamento e todo julgamento inquisitorial carregam essas características: mostram muito mais quem julga do que quem é julgado. Não se trata de desculpar suas atitudes e falhas, mas penas não se permitir desviar do foco: a mudança profunda no modelo de atenção ao parto.

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Violência

Hoje me mandaram os vídeos e áudios de um caso de atenção violenta ao parto numa grande cidade brasileira. Não acho razoável que o nome do profissional seja citado por nós, e acredito que poderei explicar as razões para essa discrição nas linhas que se seguem abaixo.

Quando eu ouvi os diálogos na sala de parto fiquei espantado, mas talvez de uma forma diferente da maioria das pessoas. Em verdade, eu me senti como o cicerone de um campo de refugiados que mostra aos visitantes as condições precárias do lugar onde os exilados vivem. Para mim, algo banal, para os visitantes um quadro de horror. Assim, as cenas de violência verbal e abusos que eu escutei nada mais eram do que o padrão da assistência ao parto de que eu fui testemunha por tantos anos. Meu espanto não era pelo conteúdo, mas pelo fato de que ainda existem expressões dessa violência na terceira década do terceiro milênio depois de Cristo.

Eu bem sei o quanto o parto é estressante para os profissionais que o atendem. A configuração constrita das famílias contemporâneas produz uma concentração de expectativas e projeções inédita nos poucos filhos que nascem. Alie-se a isso o projeto da obstetrícia – desde sua criação – de produzir sobre o fenômeno fisiológico do parto todo o apavoramento possível, para assim garantir aos médicos – personagens da undécima hora na atenção a esse evento – a garantia do quinhão maior e mais suculento desse corpo esquartejado de mulher. Por estas razões, o parto no mundo ocidental opera sob o signo do medo, de um pânico que ultrapassa o medo natural das mulheres diante de fenômenos especiais que ocorrem em seu corpo. Esse medo atinge o parceiro, a família, a equipe, a instituição e toda a sociedade. Com todo esse estímulo ao pavor que circunda o nascimento é fácil entender porque ele se torna, muitas vezes, um circo de horrores.

Enganam-se aqueles que, com os archotes nas mãos, procuram no linchamento do profissional que usou da violência, da arrogância e do abuso como linguagem a solução punitivista – portanto equivocada – deste tipo de problema. Fazer isso seria tratá-lo como uma “exceção”, o que está longe da verdade. O problema não está com um profissional que perdeu o rumo da atenção, deixando que a sensação de impunidade, a ansiedade e a angústia dominassem seu discurso e contaminassem suas palavras com desdém e prepotência. Seria muito fácil se assim fosse; bastaria obrigá-lo a um processo de reeducação sobre a atenção à mulher, encaminhando-o a uma “reciclagem”. Mas, infelizmente, não é esse o drama que temos de encarar.

A verdadeira tragédia é o fato de que este é o discurso hegemônico da obstetrícia. Esta não é uma exceção. A atenção ao parto, conforme a sua vertente médica, tecnocrática e contemporânea, olha para a mulher como o estorvo do parto. A mulher e seu sistema defectivo e falho de gestar e parir, são os problemas que atrapalham a adequada atuação do médico. A incompetência essencial do organismo feminino é a responsável pelas demoras, falhas, complicações e tragédias, e não a incapacidade dos profissionais de lidar com esse evento.

Recordei agora de uma paciente grávida que me mostrou o vídeo do seu parto prévio. Nos momentos imediatamente anteriores à expulsão do bebê o médico perdeu o foco dos batimentos cardíacos, quando já estava ocorrendo o coroamento – talvez porque o peito do bebê estava atrás do púbis. Apavorado diante da falta de batimentos ele grita para a mãe: “Menina, faça força. Agora você precisa me ajudar!!”. Isto é, até aquele momento ele, o médico, havia trabalhado sozinho, mas a partir da pseudo emergência (o bebê nasceu em perfeitas condições) seria necessário que a mulher também colaborasse no nascimento da criança. Longe de ser um equívoco, tratava-se de um “freudian slip”, um ato falho, que demonstrava qual a posição que ele acreditava se encontrar no cenário do nascimento. Na percepção desse obstetra, ele estava parindo, enquanto a mulher representava as dificuldades que ele tinha a vencer para salvar a ambos, mãe e bebê.

O drama, que agora fica evidenciado pelo escândalo, se estabelece pelo fato de que, ao contrário das outras especialidades médicas – onde os pacientes são objetos inermes sob o controle do profissional – no parto é a mulher quem o faz acontecer. Assim, ela não é uma paciente – o nome “paciente” se refere àqueles que sofrem, que padecem – mas agente ativa do que está ocorrendo com seu corpo e suas reações. Ela não está doente, e nem está padecendo de nenhum mal, mas inobstante esse fato, é tratada pela medicina contemporânea como se assim o fosse, colocada numa posição objetual, negando-se a ela posição ativa no processo, impedindo-a de ser sujeito – e não objeto – de suas ações. Mas, para ser justo com os médicos, como pedir que eles passem anos objetualizando seus clientes para melhor intervir em seus corpos e, na obstetrícia, esta lógica se apresente a eles absolutamente invertida?

Na mentalidade médica contemporânea os insultos e os gritos estão colocados na posição do escalpelo e da tesoura, entendidos como instrumentos para subjugar um corpo que não colabora com os desejos e os tempos do médico e se contrapõem à lógica da medicina. Não deveria causar espanto que a adoção dessa perspectiva centrada nos cirurgiões invariavelmente redundaria na artificialização do nascimento e na expropriação do processo, retirando-o das mulheres e colocando-o nas mãos do médicos. Justo, parece, que eles reclamem quando as mulheres atrapalhem o “seu” trabalho.

Portanto, para que as violências verbais e os abusos contra a autonomia e a dignidade das mulheres deixem de ser o padrão não basta apenas utilizar a lógica serjomorista de “vigiar e punir”, imaginando que a punição, a exclusão e o linchamento público poderão produzir resultados positivos. A vingança é sempre traiçoeira; oferece um suave sabor ao ser consumida, mas uma inexorável indigestão depois de metabolizada. Mais demorado, mais custoso e mais difícil é colocar o dedo na ferida da atenção médica e institucional ao parto normal eutócico, questionando seus alicerces, denunciando suas falhas grotescas e seus resultados pífios. Apesar de mais complexo e demorado, este é o caminho mais seguro para garantir um valor revolucionário ao nascimento que, ao ser transformado (como bem o sabemos), transformará toda a sociedade.

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