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Violência

Hoje me mandaram os vídeos e áudios de um caso de atenção violenta ao parto numa grande cidade brasileira. Não acho razoável que o nome do profissional seja citado por nós, e acredito que poderei explicar as razões para essa discrição nas linhas que se seguem abaixo.

Quando eu ouvi os diálogos na sala de parto fiquei espantado, mas talvez de uma forma diferente da maioria das pessoas. Em verdade, eu me senti como o cicerone de um campo de refugiados que mostra aos visitantes as condições precárias do lugar onde os exilados vivem. Para mim, algo banal, para os visitantes um quadro de horror. Assim, as cenas de violência verbal e abusos que eu escutei nada mais eram do que o padrão da assistência ao parto de que eu fui testemunha por tantos anos. Meu espanto não era pelo conteúdo, mas pelo fato de que ainda existem expressões dessa violência na terceira década do terceiro milênio depois de Cristo.

Eu bem sei o quanto o parto é estressante para os profissionais que o atendem. A configuração constrita das famílias contemporâneas produz uma concentração de expectativas e projeções inédita nos poucos filhos que nascem. Alie-se a isso o projeto da obstetrícia – desde sua criação – de produzir sobre o fenômeno fisiológico do parto todo o apavoramento possível, para assim garantir aos médicos – personagens da undécima hora na atenção a esse evento – a garantia do quinhão maior e mais suculento desse corpo esquartejado de mulher. Por estas razões, o parto no mundo ocidental opera sob o signo do medo, de um pânico que ultrapassa o medo natural das mulheres diante de fenômenos especiais que ocorrem em seu corpo. Esse medo atinge o parceiro, a família, a equipe, a instituição e toda a sociedade. Com todo esse estímulo ao pavor que circunda o nascimento é fácil entender porque ele se torna, muitas vezes, um circo de horrores.

Enganam-se aqueles que, com os archotes nas mãos, procuram no linchamento do profissional que usou da violência, da arrogância e do abuso como linguagem a solução punitivista – portanto equivocada – deste tipo de problema. Fazer isso seria tratá-lo como uma “exceção”, o que está longe da verdade. O problema não está com um profissional que perdeu o rumo da atenção, deixando que a sensação de impunidade, a ansiedade e a angústia dominassem seu discurso e contaminassem suas palavras com desdém e prepotência. Seria muito fácil se assim fosse; bastaria obrigá-lo a um processo de reeducação sobre a atenção à mulher, encaminhando-o a uma “reciclagem”. Mas, infelizmente, não é esse o drama que temos de encarar.

A verdadeira tragédia é o fato de que este é o discurso hegemônico da obstetrícia. Esta não é uma exceção. A atenção ao parto, conforme a sua vertente médica, tecnocrática e contemporânea, olha para a mulher como o estorvo do parto. A mulher e seu sistema defectivo e falho de gestar e parir, são os problemas que atrapalham a adequada atuação do médico. A incompetência essencial do organismo feminino é a responsável pelas demoras, falhas, complicações e tragédias, e não a incapacidade dos profissionais de lidar com esse evento.

Recordei agora de uma paciente grávida que me mostrou o vídeo do seu parto prévio. Nos momentos imediatamente anteriores à expulsão do bebê o médico perdeu o foco dos batimentos cardíacos, quando já estava ocorrendo o coroamento – talvez porque o peito do bebê estava atrás do púbis. Apavorado diante da falta de batimentos ele grita para a mãe: “Menina, faça força. Agora você precisa me ajudar!!”. Isto é, até aquele momento ele, o médico, havia trabalhado sozinho, mas a partir da pseudo emergência (o bebê nasceu em perfeitas condições) seria necessário que a mulher também colaborasse no nascimento da criança. Longe de ser um equívoco, tratava-se de um “freudian slip”, um ato falho, que demonstrava qual a posição que ele acreditava se encontrar no cenário do nascimento. Na percepção desse obstetra, ele estava parindo, enquanto a mulher representava as dificuldades que ele tinha a vencer para salvar a ambos, mãe e bebê.

O drama, que agora fica evidenciado pelo escândalo, se estabelece pelo fato de que, ao contrário das outras especialidades médicas – onde os pacientes são objetos inermes sob o controle do profissional – no parto é a mulher quem o faz acontecer. Assim, ela não é uma paciente – o nome “paciente” se refere àqueles que sofrem, que padecem – mas agente ativa do que está ocorrendo com seu corpo e suas reações. Ela não está doente, e nem está padecendo de nenhum mal, mas inobstante esse fato, é tratada pela medicina contemporânea como se assim o fosse, colocada numa posição objetual, negando-se a ela posição ativa no processo, impedindo-a de ser sujeito – e não objeto – de suas ações. Mas, para ser justo com os médicos, como pedir que eles passem anos objetualizando seus clientes para melhor intervir em seus corpos e, na obstetrícia, esta lógica se apresente a eles absolutamente invertida?

Na mentalidade médica contemporânea os insultos e os gritos estão colocados na posição do escalpelo e da tesoura, entendidos como instrumentos para subjugar um corpo que não colabora com os desejos e os tempos do médico e se contrapõem à lógica da medicina. Não deveria causar espanto que a adoção dessa perspectiva centrada nos cirurgiões invariavelmente redundaria na artificialização do nascimento e na expropriação do processo, retirando-o das mulheres e colocando-o nas mãos do médicos. Justo, parece, que eles reclamem quando as mulheres atrapalhem o “seu” trabalho.

Portanto, para que as violências verbais e os abusos contra a autonomia e a dignidade das mulheres deixem de ser o padrão não basta apenas utilizar a lógica serjomorista de “vigiar e punir”, imaginando que a punição, a exclusão e o linchamento público poderão produzir resultados positivos. A vingança é sempre traiçoeira; oferece um suave sabor ao ser consumida, mas uma inexorável indigestão depois de metabolizada. Mais demorado, mais custoso e mais difícil é colocar o dedo na ferida da atenção médica e institucional ao parto normal eutócico, questionando seus alicerces, denunciando suas falhas grotescas e seus resultados pífios. Apesar de mais complexo e demorado, este é o caminho mais seguro para garantir um valor revolucionário ao nascimento que, ao ser transformado (como bem o sabemos), transformará toda a sociedade.

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Dor do Parto

Analise a mensagem no cartaz ao lado e pense em seus significados. Sempre carreguei comigo esta curiosidade: alguém poderia explicar para mim o que exatamente é uma “unidade de dor”. Que aparelho mede isso? Gente, essas medidas são fantasias, uma tentativa ingênua de transformar dados subjetivos em unidades mensuráveis. Medir uma “unidade de dor” é quase tão ingênuo quanto avaliar “unidades de paixão”, “unidades de raiva” ou “nível de te(n)são”. Estas variáveis poderiam no máximo ser avaliadas em um mesmo indivíduo (e ainda assim seriam afetadas pelas emoções, contextos, circunstâncias, etc.), porém jamais entre duas pessoas diferentes em sua história e estrutura psíquica.

Essas medidas são pura imaginação descontrolada. Não deveríamos disseminar esse tipo de informação distorcida. Dor é um valor subjetivo, pessoal, único e não mensurável. Não há como comparar a dor de alguém com a dor de outro indivíduo, ou um tipo específico de dor com outra dor. As dores são sentimentos, envolvidos com fatores emocionais, e não apenas sensações químicas e neurais. Não existem dores puras em corpos simbólicos e erotizados.

Além disso, o parto pode ser um evento absolutamente INDOLOR para algumas mulheres. Em populações originárias o que chamamos de “dor de parto” sequer leva esse nome. E digo mais: as mulheres tem valor por serem humanas, dignas e respeitáveis tanto quanto os homens o são. Comparar dor de parto – algo tão subjetivo quanto gostos e preferências pessoais – não ajuda as mulheres e apenas sacraliza preconceitos e mitos.

E não garante nem biscoitos…

Este tipo de ideia, na cabeça de uma menina, pode produzir a imagem de que o parto só ocorre através de dores insuportáveis, dilacerantes e desumanas, deixando claro que apenas masoquistas e heroínas deveriam se submeter a elas. Será que é essa a ideia que desejamos transmitir às garotas sobre os desafios do parto?

A comparação da dor do parto com ossos quebrados e a mensuração da dor por “unidades de dor” é puro delírio e prejudica a compreensão que temos do parto e as leis que o regulam.

Fundamentalismo, em verdade, é acreditar no “mito da dor sobre-humana”, do “sacrifício”, da fantasia do “sofrimento insuportável para dar a vida aos seus filhos”. Isso sim é um fundamentalismo cultural baseado no “mito do amor maternal”, e está baseado num essencialismo que deve ser evitado e combatido. Uma mulher que não teve filhos – por escolha ou contingências – ao ler esse texto pode se achar menos digna, porque nunca passou pelo teste de coragem e de sacrifício das outras. Isso é cruel e injusto.

Não é correto acreditar que o questionamento e a visão crítica de mitos e ideias errôneas significa ser extremista. Não… Eu sou RADICAL, palavra derivada de “raiz”, na medida em que questiono os fundamentos, as raízes desses modelos patriarcais impostos às mulheres para garantir a elas posições estanques na sociedade, impedindo-as de questionar as outras inúmeras posturas e lugares que podem ocupar.

Entendam… esse texto DEPÕE contra as mães. Falseia a realidade, cria pânico em meninas, produz confusão conceitual e deseduca quem quer se aproximar do tema do parto e do nascimento.

Não há desculpa para usar medidas falsas ou as fantasiosas “unidades de dor”. Não duvido que a intenção do texto seja valorizar as mulheres, mas tal escolha não é correta pois se assenta em dados absurdos que não valorizam as mulheres pelo que verdadeiramente são: seres completos, dignos e complexos, cujo valor não pode ser medido tão somente pelo suposto sacrifício de suportar dores acima dos limites humanos. Depois de trabalhar 40 anos com gestantes não é possível olhar para este tipo de informação e ficar impassível.

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Abençoadas e Feridas

Foto tirada por Vanda Laurentino para ilustrar uma matéria sobre as doulas comunitárias (voluntárias) que atuam no Hospital Universitário da Universidade Federal da Grande Dourados (HU-UFGD). As “modelos” na foto, Pollyana Sena e Caroline Ribeiro são doulas e também voluntárias no hospital.

Existem, a grosso modo, dois tipos especiais de doulas: as que entram nesta seara porque foram abençoadas por partos maravilhosos e aquelas marcadas pela violência no momento mais significativo de suas vidas. As primeiras querem espalhar sua experiência positiva para suas irmãs de maternidade, enquanto as últimas querem evitar nestas as dores, humilhações e traumas que outrora sofreram.

Para as primeiras é necessário um choque de realidade. Nem todo parto será pleno de luz e realização. É preciso preparo emocional para lidar com as inevitáveis frustrações que o trato com o nascimento produz. Sem isso, cada resultado negativo terá um impacto por demais violento sobre o ânimo de quem assiste. Pés no chão e pensamento positivo. Preparar-se para o pior, enquanto mentaliza o melhor.

Para as “doulas feridas”, é fundamental que, antes de cuidar da tessitura delicada do nascimento, consigam curar os traumas que carregam, para que cada nascimento não seja uma revivescência das dores, das humilhações e da impotência impostas a ela no passado. Sem esse mergulho em sua história de mãe cada experiência de doulagem poderá produzir uma identificação com suas experiências pregressas, o que em nada ajuda a mãe que está para parir.

Doulas não devem brilhar e nem tomar para si as responsabilidades do parto; elas devem tão somente refletir a luz que emana da mulher em seu maior momento. As ações das doulas devem levar em consideração não apenas a mulher a quem atendem, mas todas as mulheres que precisam de uma imagem positiva das doulas para, a partir disso, confiarem no seu trabalho.

O movimento das doulas tem duas décadas no Brasil mas a ignorância de muitas mulheres – e algumas doulas – sobre os limites da atuação destas durante a atenção ao parto é preocupante. A confusão, que alertávamos há 20 anos, entre ativismo e atendimento direto à parturiente ainda se mantém. Esse tipo de fragilidade conceitual já produziu alguns atritos desnecessários e atrasou a implantação mais abrangente da proposta.

Não se faz ativismo em sala de parto; o ativismo só pode ser feito antes ou depois. Expor uma mulher em trabalho de parto a uma disputa de poderes é indecente. Doulas não podem usar o parto de suas clientes para resolver seus traumas com a assistência médica. Essa ação precisa ser feita em outras instâncias e tempos, sem envolver as parturiente e o momento do nascimento.

Criticar o ego inflado dos médicos transformando as doulas em adversárias destes pelo controle das mulheres é o avesso do que se espera de uma função transformadora para o parto e nascimento. Com a multiplicação de cursos de capacitação de doulas, resultado de sua popularização e a disseminação dessa função no imaginário coletivo, creio que precisamos reforçar os aspectos éticos da atuação destas na assistência ao parto hospitalar. A existência de pessoas que usam esta função milenar para fazer ativismo intra-parto, desafiar autoridades, resolver dramas pessoais e atacar desafetos é inaceitável. Nenhum sistema de saúde vai facilitar a entrada dessas auxiliares sem que haja um compromisso de respeito ao local de parto.

Ativismo se faz em todos os outros lugares, menos na maternidade e na sala de parto, às custas do ambiente adequado da maternidade. Doulas não são fiscais de comportamento médico; são agentes para o bem-estar das gestantes. O ativismo necessário deverá ser feito sem colocar em risco o bom resultado dos partos e da atuação das doulas. Esse é um aspecto que deve ser salientado em todo é qualquer curso de capacitação.

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Vergonha

Sobre a foto de uma médica que publicou os “nascimentos de novembro”, em que todos eram cesarianas.

Na minha perspectiva, atacar o intervencionismo de cesaristas, mostrando o efeito deletério de alienar as mães do processo de nascimento, não causa o resultado que esperamos. Temos a ilusão de confrontar o sujeito com uma realidade que lhe cause vergonha, mas raramente se consegue produzir este sentimento.

(A vergonha só ocorre entre os obstetras chamados “liberais”, ou seja, os que reconhecem o abuso mas se julgam impotentes para contê-lo. Segundo Marsden Wagner, estes são os mais perigosos. Conheci vários…)

Essa ideia de afrontar os defensores da tecnocracia tem, via de regra, o mesmo efeito de dizer para um apoiador de Moro que o ex juiz subverteu a lei, corrompeu sua imparcialidade, agiu ilegalmente apenas para tirar Lula do páreo e com isso elegeu Bolsonaro. Ao contrário de ficar constrangido, esse sujeito vai olhar para você surpreso e dirá: “Claro, mas é por isso mesmo que o apoiamos!!!”

Para muitos cesaristas, a cesariana é o aprimoramento natural do mecanismo de parto, artifício criado pela tecnologia humana para tirar as mulheres da barbárie e colocá-las na civilização. Esta cirurgia é aclamada por eles como um avanço inquestionável da ciência, da mesma forma que um cavalo avança sobre o andar a pé, o automóvel sobre a tração animal, e os aviões rompem os limites do solo. A cesariana é o destino natural do parto e questioná-la significa virar as costas para o próprio progresso humano.

Essa visão teleológica da tecnologia como processo libertário é ensinado e estimulado na escola médica – em especial na obstetrícia – como um dos pontos centrais do rito de transformação que ocorre com todo estudante de medicina. Se entendemos que a medicina se estabeleceu e fortaleceu exatamente pelo uso dessas técnicas e equipamentos, que sentido haveria de abandoná-los – ou mesmo criticá-los – após tantos séculos investindo no estabelecimento desse paradigma?

O uso da tecnologia em obstetrícia é o ponto nevrálgico que sustenta sua prática. Qualquer crítica ao seu uso será rechaçada como anátema ou aberração. Se a crítica vier de dentro, será heresia e traição.

Acho que os cesaristas não se ofendem; apenas lamentam nossa falta de amor pelas mulheres cujas cesarianas as salvaram do sofrimento imposto por uma natureza madrasta

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Denúncias

Em 2003, há quase 20 anos, fiz uma palestra num hospital de Cleveland em Ohio sobre uma novidade que estava surgindo no Brasil, da qual eu era – e ainda sou – um grande entusiasta: as Doulas. Minha amiga Robbie convidou para a conferência um médico já avançado em idade que foi humildemente escutar minhas palavras. Era nada menos do que o prof. John Kennell, aquele que, junto com Marshall e Phyllys Klauss, trouxe para o século XXI a ancestral figura das Doulas. Na palestra mostrei para o criador como estava sua criatura: o movimento de Doulas no Brasil. Ele a tudo escutou atentamente e mostrou um vívido interesse nas repercussões dessa “velha novidade” no país do seu amigo Moyses Paciornik. Entretanto, houve um único momento de tensão, e foi quando uma assistente – provavelmente uma doula – ergueu o braço e me perguntou:

– Dr, como agir no momento em que se testemunha um erro ou uma condução equivocada de um médico durante um trabalho de parto com uma paciente sob nossos cuidados?

Eu imaginava que esse tipo de questão ocorreria, visto que se iniciava no mundo inteiro um debate cada vez mais acirrado sobre algo que, desde aquela época, passou a ser chamado de “violência obstétrica”, entendida como uma variante da violência de gênero. Minha resposta poderia ser resumida assim:

– Não lhe cabe fazer nada. Doulas não tem competência para fiscalizar trabalho médico. Mesmo que você – por estudo ou experiência – perceba estar diante de um erro ou atitude maliciosa, não lhe cabe acusar ou apontar dedos para ninguém, pois você não foi contratada para esta função. Se a sua cliente lhe perguntar diretamente, transfira a questão ao médico responsável. Não atue sobre algo que não lhe diz respeito.

Achei que que havia sido suficientemente claro mas, para minha angústia, após dizer as últimas palavras o Dr. John Kennell levantou sua mão miúda e pediu a palavra. Congelei. Todavia, suas palavras foram simples e diretas:

– Concordo com o Dr. Ric, mas deixo claro que ainda há mais um aspecto. As Doulas são personagens novas na cena do parto. Pela perspectiva de médicos e enfermeiras elas são ‘invasoras’. Se uma doula resolve denunciar médicos, hospitais e enfermeiras não só a sua porta estará fechada, mas a de todas as suas outras colegas, pelo medo que os profissionais terão de alguém que age para além do cuidado e do bem estar da gestante, atuando em verdade como uma inoportuna espiã.

Percebi nas palavras do mestre uma preocupação nítida com a sobrevivência de um novo paradigma que precisava ser lentamente aceito pela comunidade de atendentes de parto, mais do que com a justiça a ser feita em casos pontuais. Havia sabedoria em suas palavras e ficou claro para mim, já passadas quase duas décadas, que a indignação e o sentimento de justiça devem ser controlados por quem se encontra nessa posição. Faz-se necessário ter em mente um bem maior. Aceitar denúncias de Doulas produziria o fim prematuro de um movimento, o que impediria milhões de mulheres de usufruírem do benefício que elas trazem ao nascimento. Assim, sempre que surgem Doulas envoltas em indignação por casos que testemunharam, eu acho justo que tenham noção da real função que elas desempenham na história e no futuro do parto, para que uma atitude intempestiva não coloque tanto esforço a perder

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Parto e Fotografia

Hoje é difícil de avaliar, mas o impacto há 20 anos passados dos primeiros slideshows sobre parto foi incrível. Eu lembro das lágrimas das pessoas quando assistiam nos congressos que eu participava, e como isso tocava a todos de forma tão intensa. O parto e sua estética foram redescobertos com a popularização das câmeras fotográficas digitais. Eu lembro de uma aula que fui dar sobre parto normal e parto de cócoras no Hospital da Aeronáutica em meados dos anos 90 e recordo a dificuldade que havia para conseguir imagens de parto. Qualquer uma. Era preciso procurar em livros, ou em revistas médicas para falar de posições, episiotomias, coroamento, etc. A iconografia do nascimento era inexistente, ou dificilmente acessível. A internet virou tudo isso de cabeça para baixo.

Naquela época, algumas mulheres me diziam no consultório que achavam bizarro ter um filho nessa posição “verticalizada” porque o bebê poderia “cair lá de cima”. Então eu me levantava e fazia como o Moyses Paciornik: ficava de cócoras com a bunda quase tocando o chão e dizia para elas fazerem o mesmo. Depois eu explicava que, para o bebê ter espaço para nascer, precisava até subir um pouco as nádegas. Essa demonstração, para muitas delas, era reveladora. A imagem era um fator impactante para um mundo onde o parto havia sido escondido das pessoas – inclusive as mulheres – pelo processo de medicalização e hospitalização. Quando foi possível enxergar de novo como era um parto, com toda sua potência crua e feminina, foi como um portal se abrindo.

Para poder mostrar às minhas pacientes como era o processo de partos pedi licença para fotografar algumas gestantes no plantão do SUS que eu fazia na época. Esses bebês hoje tem por volta de 25 anos de idade. Eram fotografias com câmera Kodak de filme de rolo comum, e as tenho até hoje, mas na época provocaram um forte impacto nos casais que as viram. Finalmente eu comprei uma máquina digital jurássica que meu irmão mandou dos Estados Unidos por volta de 1995. Era uma Kodak DC50, uma espécie de tijolo cinza, enorme, que podia tirar umas 7 ou 8 fotos antes de precisar descarregar no computador, e custou uma pequena fortuna (uns 250 dólares) em uma promoção. As imagens eram de baixíssima resolução, mas essa máquina me permitiu fazer os primeiros slideshows com um programinha que vinha em um CD vendido nas bancas de jornal.

Lembro bem da reação que eu tive ao terminar o meu primeiro projeto: estava sozinho no consultório e caí em um choro convulsivo depois de assistir. Então liguei para uma doula amiga minha – e que estava no parto fotografado – e disse a ela que tudo o que a gente passava de perseguição e violência valia a pena, pois o parto era um milagre, uma beleza sem fim. Sim, mais parecia papo de bêbado, mas minha droga era apenas ocitocina.

“Birth is all about rithym” já dizia Penny Simkyn, e a combinação da música com as imagens de parto oferecia a sintonia adequada para acompanhar as modificações fisiológicas, emocionais, psíquicas e espirituais que estavam acontecendo. As músicas, com as imagens sobrepostas, nos faziam viajar nas emoções do parto, reviver cada passo, cada sentimento, cada momento de tensão e cada emoção pela chegada de uma nova vida. Com o tempo foi possível filmar, mais do que apenas fotografar. Meu filho Lucas, que morava em Londres, comprou uma pequena filmadora e me deu de presente. A partir daí todos os partos eram filmados e todas as pacientes recebiam um CD de presente, o qual chamávamos de “resgate da memória”, para que ela pudesse ver e recordar cada momento que a amnésia da ocitocina lhe havia privado em seu parto.

De todas as coisas que sinto falta na atenção direta ao parto uma das mais significativas é a adrenalina de sentar na frente do computador e viver de novo cada instante do parto que tínhamos acabado de auxiliar. Uma sensação inefável, grandiosa e inesquecível. Por isso eu sempre digo que sou o sujeito mais afortunado do mundo. Apesar da violência com que minhas propostas foram recebidas, e das injustiças que tive de suportar, passar 34 anos cuidando de gestantes torna a vida de qualquer um valiosa e abençoada.

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Falhas femininas

Os termos “Falta de dilatação” e “falta de leite” são duas faces da mesma moeda, diagnósticos corriqueiros no ciclo gravido-puerperal que servem para desvalorizar o trabalho feminino e jogar as gestantes e mães nas mãos dos técnicos e dos especialistas.

Triste saber que a maior parte desses transtornos nada tem a ver com uma falha na fisiologia materna, mas pela crença na defectividade essencial das mulheres e na incapacidade do sistema de assistência de reconhecer e trabalhar com os aspectos psicológicos, afetivos, emocionais, sociais e espirituais de cada mulher que está a gestar e parir.

Gestação, parto e amamentação são fenômenos sociais e culturais que ocorrem no corpo de uma mulher. Não há como conceber o nascimento apartado do contexto em que ele ocorre. A forma como atendemos este ciclo vital é, em verdade, um espelho muito nítido da sociedade onde ele está inserido.

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Parteiras

Muitos ainda não perceberam a potencialidade revolucionária da parteria. Boa parte de nós ainda está aprisionado aos ícones de Sarah Gamp, uma velha enfermeira-parteira suja, deseducada, grosseira, alcoolista, mal treinada e mal humorada, personagem fictícia da obra “Martin Chuzzlewit” do escritor inglês Charles Dickens. Ou então, nas parteiras adocicadas, solícitas e domesticadas pela obstetrícia nascente do século XX, e talvez por isso mesmo agora seja o momento mais adequado para repensar as novas assistentes do parto. Depois da quase extinção, elas retornam ao cenário do nascimento no Novo Mundo com força renovada, já que na Europa, África e boa parte da Ásia não houve o mesmo extermínio que a tecnocracia por aqui impôs.

O que me parece claro é que a emergência das novas parteiras – que Robbie Davis-Floyd chama de “Parteiras pós-modernas” – vai impor a elas uma inexorável escolha. Podem se adaptar à tecnocracia e seguir a trilha dos médicos na utilização dos instrumentos, do linguajar e da postura. Podem também aceitar com docilidade a posição subalterna ao saber médico, com sua natural ênfase na etiologia. Por outro lado, elas poderão revolucionar a linguagem, a abordagem, a perspectiva e a conexão que estabelecem com as mulheres grávidas e aquelas que estão a parir.

Estar ao lado das mulheres no momento do parto, o qual conjuga em si morte, vida e sexualidade – como dizia Holly Richards – significa tangenciar o sagrado e o mais profundo mistério da vida. Desta forma, aquelas que protegem esse evento acabarão por reconhecer essa responsabilidade e sua destinação para a mudança, no sentido de transcender o patriarcado e, desta forma, transformar o mundo.

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Harpias e Gestantes

“Um criador diz que recebeu há alguns anos uma harpia repatriada da Alemanha. O animal foi trazido de volta ao Brasil porque estava doente e poderia morrer. Assim que chegou ao criatório, Azeredo notou que havia em torno do bico na altura do nariz da ave uma grande quantidade de abelhas. Algumas delas entravam nas narinas. Ao mesmo tempo, ele observou que a harpia passou a respirar cada vez melhor até sarar e que as abelhas retiravam das narinas da ave o material para usar no ninho. (Publicação original: Rogério Marcos Peres Lins, incluindo a foto principal. O texto foi extraído da matéria que pode ser acessada por este link)” A foto acima é de uma “águia cinzenta” e foi tirada pela fotógrafa Julia Santoucy Barros

Quando a harpia é retirada de seu habitat, onde ela estabelece relações de mutualismo positivas e benéficas com outras espécies, e deslocada para um lugar desconhecido – por mais sofisticado que seja – ela se desequilibra e tende a sofrer. Os cuidadores não conseguiram perceber a importância dos detalhes mínimos – como as pequenas abelhas que limpam suas narinas e as formigas que higienizam seu ninho – que interagem com as enormes harpias produzindo um meio ambiente positivo para ambos. Assim ocorre porque minimizamos os elementos invisíveis aos olhos desarmados e negamos sua relevância. As complexas relações da natureza são empobrecidas pela nossa incapacidade de perceber a teia imensa de conexões entre todos os seus elementos constituintes.

Pois me permitam avançar um pouco mais além nessa análise: o que dizer das parturientes deslocadas para lugares inóspitos e cuidadas por pessoas muitas vezes insensíveis às suas necessidades afetivas, emocionais, pessoais e subjetivas, pois que reduzem o ato de parir a um fenômeno meramente mecânico, para não dizer defectivo, problemático e perigoso?

Com este tipo de ideologia diminutiva sobre a capacidade feminina de gestar e parir e a negação dos elementos psíquicos envolvidos na parturição, não seria de se esperar que houvesse esse desequilíbrio que agora testemunhamos?

Por certo que sim, e a crise na atenção ao parto nos dias de hoje nada mais é do que a materialização deste tipo de desarmonia na ecologia sutil do nascimento…

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Medo ancestral

“O que transforma o parto em um evento cercado de medo e pânico é a “cultura do medo” que empodera instituições e corporações às custas do empobrecimento da experiência materna e da submissão à tecnocracia – a criação humana que mais se assemelha a uma religião planetária.”

Os médicos morrem de medo do parto.

A formação médica em obstetrícia é centrada na intervenção, até porque foi o uso das ferramentas (a começar pelo fórceps e depois pelo escalpelo na episiotomia) que separou a parteria da medicina. Quanto mais intervém, mais importante parece o trabalho do médico. A própria obstetrícia é – pelas suas origens – a negação da autonomia feminina na parturição. A medicina, ao intrometer-se no nascimento, produz um corte epistemológico profundo no próprio entendimento do nascimento. A partir de então a intervenção seria a regra, e as mulheres entendidas como inerentemente incapazes de dar conta de um evento inscrito em sua biologia. Defectivas, incapazes, incompletas – assim entendidas e assim vistas por si mesmas, as mulheres entregam-se docilmente à tecnocracia que poderá resgatá-las do destino cruel produzido por uma natureza madrasta.

Médicos são educados dentro dessa perspectiva. Julgam-se salvadores por resgatarem as mulheres das agruras do parto, um evento mal planejado e defeituoso em essência. “A natureza é uma péssima parteira”, já falava o patrono da obstetrícia brasileira, Fernando de Magalhães.

Como poderia ser diferente para um médico de pouca experiência onde a ênfase recebida da escola médica não é a normalidade do parto, mas suas franjas, as patologias, os casos raros, os desastres, e as circunstâncias em que podem se tornar heróis? Ao lado deste senso de importância desmedida existe o medo criado por uma visão catastrofista do parto. Mal percebem que a maior parte das catástrofes do parto ocorre pela própria intervenção intempestiva e injustificada no processo de nascimento, desde a patologia da palavra – a verbose – usada durante todo o pré-natal (onde a semente do medo é plantada) até as internações precoces, as drogas, o isolamento, a doentificação, a patologização etc…

Médicos encaram o parto com pavor, pois sabem – como dizia Holly Richards – que ele contempla os elementos mais temidos da cultura: vida, morte e sexualidade. Não por outra razão o atendimento hospitalar ao parto é totalmente ritualizado, sem nenhuma conexão com evidências, mas que usa da padronização, da repetição e do simbolismo para criar uma atmosfera de proteção mística, onde a ação do médico poderia gerar – mesmo que de forma fantasiosa – resultados positivos em um processo cujo resultado é sempre imprevisível.

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