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Mulheres que Cuidam

As mãos, que não as suas, no colo entrelaçadas, enquanto a lágrima bruta rola da face lívida. A dor que sente num corpo que não é seu; a palavra que brilha no breu das dúvidas, abrindo um clarão de esperança na noite do corpo. A fadiga sentida como sua, as mesmas interrogações que outrora se fizera. A necessidade de gritar, que sente imperiosa na boca que se entreabre, e o lamento que escorre do olhar que recebe. O tempo que passa, como um navio que, pequenino no horizonte, se aproxima do porto com o vagar dos séculos. A hora sorrateira que se esconde por trás do relógio que, dissimulado, se finge paralítico. E o som de si mesma que silencia na garganta, mas que se escuta a cada dor, a cada onda e a cada movimento.  

Ela olha, observa, chora, lamenta e goza um gozo que não é seu, uma dor que fez para si, para retirar da irmã que, ao se lado, se contorce, transmuta, descasula e emerge.  “Sim, pensa ela. Se algo posso dar, que seja meu silêncio e minha humilde presença. Se algo tenho a oferecer, que seja minha esperança e meu amor. Se algo posso pedir, que me ofereças o privilégio de estar contigo enquanto, através de tuas dores, constróis o milagre cotidiano da vida se fazendo”  

Minha homenagem às mulheres que dedicam suas vidas a exaltar o feminino no nascimento humano, e cuidam de suas irmãs nos momentos mágicos e deslumbrantes do parto.   Mulheres que cuidam de Mulheres…

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Joaquin Phoenix, soberbo

Queria deixar aqui o meu voto para o premio de melhor ator para o Oscar 2013. Vi todos os filmes com os atores concorrentes ao Oscar desse ano: Denzel Washington (Flight), Daniel Day-Lewis (Lincoln), Bradley Cooper (Silver Linings Playbook), Hugh Jackman (Les Miserables) e Joaquin Phoenix (The Master), e todos com interpretações muito boas (inclusive Hugh Hackman cantando). Entretanto, nenhum dos outros quatro chega perto do desajustado e sequelado Freddie Quell interpretado por Joaquin Phoenix. O filme, ambientado no período de pós-guerra nos Estados Unidos, mostra o jovem Freddie, com problemas de adaptação depois de passar por experiências traumáticas na família, com um amor do passado (Doris), na guerra e com uma pessoa que ele “talvez tenha matado”. Alcoolista e inadaptado, acaba por encontrar-se com Dodd Lancaster, o “Mestre”, que comanda uma seita baseada em reencarnação, conhecimento de vidas passadas, cura de doenças e hipnotismo. O encontro desses dois personagens gera uma forte ligação de dependência entre eles, que é o centro de onde emerge toda a dramaticidade da história.

O filme me tocou de uma maneira especial e significativa por abordar a influência dos gurus, dos “mestres” dos “escolhidos” e dos “iluminados” , desnudando a alienação patrocinada por essas figuras carismáticas, que desemboca na anulação do desejo de um sujeito. A aversão sistemática à racionalidade, mesclada com o obscurantismo dos pressupostos defendidos, nos apresenta um “Mestre” – protagonizado pelo oscarizado Philip Seymour Hofman – humano e bondoso, ao mesmo tempo que tem um comportamento sedutor, manipulador e despótico.   Um desempenho espetacular de Joaquin Phoenix na personificação de um jovem consumido pelo álcool, dramas do passado, dívidas emocionais e carências afetivas. Um grande filme para quem se preocupa com a liberdade e com o desenvolvimento de uma das mais complexas virtudes: a capacidade de criticar as suas crenças mais profundas, mais arraigadas e sólidas.

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Amamentação e Continuum

O cenário de dificuldades criado pela crescente intervenção no ciclo gravido-puerperal através da utilização de tecnologia(s) não pode ser negligenciado. Para além das invasões sobre seu corpo, reflitamos sobre as questões emocionais e psicológicas que tomam conta desta mulher contemporânea. Um dos questionamentos mais naturais seria: “se não fui capaz de parir como as minhas antepassadas, porque conseguiria amamentar como elas?” Assim, ao mesmo tempo em que estimulamos a amamentação para qualquer puérpera que assim o deseje (inclusive as que foram submetidas a uma cesariana) devemos refletir insistentemente sobre o “continuum da humanização”. Não existe limite verdadeiro no processo de nascimento; gravidez, parto e amamentação devem manter-se conectados por uma linha de respeito à fisiologia e a autonomia, e na defesa da integridade do binômio mãe/bebê.

Uma cesariana é uma ruptura – brusca e violenta – neste processo, mesmo quando bem indicada. Apesar de não impedirem a amamentação, as intervenções intempestivas sobre o parto colocam-na sob evidente ameaça. Para discutir o acesso livre e facilitado ao aleitamento materno, é também imperioso debater tudo o que acontece antes deste bebê aproximar-se do seio, já sobre o ventre materno. Para que a semente da amamentação germine é fundamental que o solo esteja preparado e adubado com um nascimento digno e empoderador.

As intervenções sobre o parto, quaisquer que sejam, não o melhoram, servindo apenas para auxiliar nos desvios da normalidade. Qualquer interferência na delicada tessitura fisiológica do parto poderá ter consequências negativas sobre as etapas seguintes. Obstaculizar a livre manifestação dos eventos fisiológicos, psicológicos e emocionais que operam no processo de nascer tem como resultado previsível uma “cascata de repercussões” negativas na amamentação. E isso é um fato, e não uma especulação. Se quisermos uma amamentação plena, prazerosa e satisfatória, lutemos também por um parto livre de coerções e interferências inadequadas e intempestivas. Entendamos o “continuum da humanização” como um rio ao qual não interpomos nenhum obstáculo artificial, e cujo desaguar no oceano da saúde será a consequência natural e esperada.

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Fé inabalável

fé 03

E agora? Eu achei que ele foi muito mais coerente do que ela. Seus argumentos foram muito mais sólidos e precisos, mesmo carecendo de substância. Ela foi apenas indignação. Compreensível, mas desordenada. Aliás, ela ainda conseguiu ser mais arrogante do que ele. Entretanto, dentro da lógica específica que ele utiliza, que se baseia na observância cega de preceitos religiosos e uma leitura enviesada de textos “sagrados”, seus argumentos fazem sentido. Minha pergunta é: como pode alguém ser condenado por desenvolver, disseminar ou abraçar uma crença, por mais estranha que possa parecer? Como pode alguém ser perseguido por acreditar que determinado comportamento, seja qual for, é deletério, baseado tão somente na sua fé? Como coibir uma visão discriminatória do mundo, que – mesmo que não estimule a violência – estabelece que determinadas condutas humanas são pecaminosas?

Tenho uma amigo meu que criou uma teleologia na qual a figura do anticristo (ou demônio) assume um papel preponderante, alinhado com as doutrinas dualistas contemporâneas. Mais além de ressaltar a figura de Satanás ele afirma que o anticristo já teria nascido (ou reencarnado) e que escolheu a Argentina como país de nascença. Nosso vizinho do Prata seria a base de ação de sua doutrina e onde ocorreria a disseminação de seu anti-evangelho. Meu amigo não apresenta nenhum dado coerente para justificar essa crença, apenas sua fé cega nos “sinais” que captou do infinito cósmico. Criou, por sobre essa crença básica, uma série de entrelaçamentos fáticos que se correlacionam uns com os outros, fazendo sentido e lhe oferecendo confiança na correção de seus postulados.

Argumenta por sobre gráficos, coincidências de datas, signos, efemérides, números que se repetem. Se você reconheceu nessa descrição o filme “Uma Mente Brilhante“, meu caro amigo é uma espécie de equivalente tupiniquim do gênio da matemática John Nash. Para quem está dentro daquele sistema lógico, fechado e coerente, tudo faz sentido. Para quem está de fora, trata-se de uma confusão incoerente e inaceitável. Se é possível criticar os postulados, com base em dados, fatos, ciência, observação e análise aprofundada das evidências, eu acredito ser impossível condenar alguém cuja crença o levou a pensar dessa forma. Portanto, não se trata de combater suas ideias, porque para a sua crença as críticas não fazem sentido, já que não levam em consideração sua lógica pessoal, subjetiva, e que se baseia em elementos irracionais.

Minha posição é de que uma crença não é passível de julgamento, pois que é fruto de uma visão pessoal e subjetiva do sujeito que a adota. Para que ela seja combatida, é necessário que ela se solidifique em ação. Desta forma, eu continuo acreditando que a autonomia para pensar de forma bizarra deve ser preservada, desde que respeite os limites estabelecidos pela lei. A liberdade de criar uma visão pessoal para o sentido do universo (se é que ele existe) é muito mais importante do que a correção dessas ideias. Afinal, o que nos parecia bizarro e incoerente até poucas décadas, agora estava sendo defendido apaixonadamente pela loira de olhos azuis…

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Empresários da Intolerância

Eu prefiro ver a emergência de sentimentos discriminatórios nas últimas entrevistas com “pastores” de igrejas evangélicas através de uma análise mais mercadológica. Os tais defensores dessas visões homofóbicas sabem que existe uma parcela minoritária da população que simpatiza com as teses de extrema direita. Os consumidores desse tipo de visão de mundo são frequentemente sexistas e preconceituosos, brancos, moralistas e muitas vezes ligados a uma religião. Fundamentalistas e oportunistas, tentam explicar a sua condição social superior através de uma espécie de “essencialismo”, ao estilo de Calvin Candie em Django Livre, que justifica as diferenças sociais ligadas às raças com explicações genéticas e frenológicas estapafúrdias. Para esse grupo “reacionário” sempre haverá prepostos, “escolhidos” para levar adiante suas ideias. E essa escolha por um “nicho de mercado” está relacionada aos 20 bilhões de reais que verteram para as igrejas brasileiras no ano de 2011. Muito dinheiro para ser dividido entre alguns poucos empresários da fé.

Bolsonaro, militar aposentado e deputado do Rio de Janeiro, é popular por essa mesma razão: ele representa essa parcela minoritária – mas significativa – da população. Os disseminadores das teses da direita falam àqueles que se sentem amedrontados com o surgimento de uma maior liberdade sexual. Quanto mais livre a sexualidade, mas ela é ameaçante à vista de alguns. Enquanto o homossexualismo era a explicação mais fácil, tornado desvio e doença pela oficialidade que redigia o DSM, ele estava restrito aos consultórios médicos. Após a queda do “Muro de Pedra” (Stonewall, boate gay de Nova York que foi invadida pela polícia no início dos anos 70), e a consequente reação do universo homoerótico, o mundo não seria mais o mesmo. Surgia a homossexualidade e os conceitos de “opção” e posteriormente “orientação sexual”.

Mas a liberdade cobra seus preços. Entre eles a “homofobia”, fruto da abertura sexual, exatamente porque a liberdade de expressão é opressiva para aqueles que se julgam ameaçados pela pluralidade de opções. Esses grupos reacionários normalmente atacam o que mais temem, e usam explicações de ordem religiosa (assim como Calvin Candie usou a Genética, em Django Livre, para explicar a escravidão) para levar adiante suas ideias segregacionistas. Minha posição, diante dessa especial visão do problema, é ignorar os arautos da “decência sexual”, não dar publicidade aos seus pressupostos e não difundir suas ideias (que é exatamente o que eles querem quando expõem suas declarações escandalosas). E isso não é omissão, pelo contrário. Trata-se de uma estratégia para manter esses grupos como minoritários, e não permitir que suas ideias grosseiras e discriminatórias se propaguem.

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Paralaxe

Apesar dos avanços democráticos, e da disseminação exponencial de conceitos e visões de mundo, ainda não estamos plenamente preparados para escutar o que o outro tem a dizer. Liberdade de expressão e de pensamento é uma utopia. Acreditamos que temos a verdade e a liberdade como meta, mas basta que pisem nos nossos calos para que viremos feras. Algumas palavras dissonantes de nossas crenças profundas são suficientes para que, em poucos minutos, o mais aberto dos democratas esteja pegando em armas, ou impedindo seu oponente de falar. É duro escutar o que o outro tem a dizer, principalmente quando isso agride crenças arraigadas, que acalentamos de forma muito intensa.

Meu pai sempre me dizia para estar preparado para escutar as pessoas que tinham ideias bastante diferentes da minha. Fui além: construí uma vida inteira de marginalidade, exercitando-me a pensar de forma diversa dos outros. Pensar alternativamente é um exercício, como ir à academia; precisa persistência, e além de tudo força de vontade. E resiliência, sem a qual facilmente mergulhamos no oceano de ideias confortáveis e acalentadoras.

Outra coisa que meu pai dizia: “Pense em algo que acreditas com todo o fervor. Pode ser a visão humanista, a igualdade dos povos e gêneros, a ideia de fraternidade ou a importância das instâncias psíquicas na conformação do sujeito. Pensou? Então agora, relativize-as, critique-as, coloque-as como simples ideias dentro de uma panela gigantesca de pensamentos controversos, com visões ora próximas, ora distantes da sua. Olhe para seus conceitos como elementos relativos, passageiros, frágeis e diáfanos. Está realmente preparado para olhar para suas crenças como figuras tão frágeis? Ou ainda vai precisar tratá-las como dogmas por muito tempo?

Escutar a voz do outro, sua visão específica do mundo, suas posturas diversas é uma forma muito complexa de gerir a vida. É preciso uma vigilância constante, um exercício brutal de alteridade e um esforço hercúleo de paralaxe. Para olhar o mundo com uma visão abrangente faz-se necessário um cuidado constante com a segurança fugidia que encontramos na dogmatização. Se ela por um lado acalma nossas angústias, oferecendo um caminho unívoco, ao mesmo tempo paralisa nossa natural criatividade. Os pensamentos consensuais muitas vezes produzem o mesmo efeito; se por um lado produzem unidade, por outro refreiam nosso pendor transformador. Construir um mundo mais digno e justo para todos que aqui vivem é tarefa de todos nós. Permitir que as vozes distantes da nossa sejam ouvidas é um ato de coragem. Somente se pudermos enfrentar a razão alheia poderemos ter certeza da correção de nossa rota. Caso contrário, teremos apenas uma visão parcial, pessoal e única, que não poderá ser oferecida aos outros que nos acompanham.

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Sinceras Malvadezas

Na minha ótica particular um sujeito que “diz o que pensa” está normalmente camuflando com palavras sua crueldade, sua indelicadeza ou a sua brutal falta de respeito pelos outros. Para ser sincero (ops, até eu?), nunca consegui encontrar alguém que se autodenomina “franco”, “verdadeiro”, “sincero” ou “direto” que não seja um tremendo arrogante, e que faz uso das palavras para agredir seus interlocutores.

A verdadeira sinceridade é de outra liga: ela diz o que é para ser dito sem “segundas intenções” – isto é, sem ferir, machucar ou magoar. A sinceridade pura tenta ajudar o outro com a verdade, e não destrui-lo. A sinceridade será “do bem” quando puder auxiliar o outro a descobrir, por si mesmo, onde está seu erro, sua falha e onde se localiza o ponto cego de sua autocrítica. Eu sempre desconfio dos arautos da verdade ao estilo “direto”, pois eles normalmente são perversos que manipulam a (sua) verdade como ferramenta de tortura.

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Tragédia de Santa Maria

Nesse momento de dor e sofrimento, em que estamos consternados e tristes pela tragédia que vitimou tantos jovens em Santa Maria, eu fico feliz em escutar minha filha falando da sua especial maneira de analisar o que ocorreu. Infelizmente muitas pessoas gastam seu tempo no justiciamento, na raiva, no ódio e com pensamentos de vingança. O que aconteceu para os proprietários dessa casa noturna, assim como para o jovem da banda (cujos nomes eu não quero saber), TAMBÉM foi uma tragédia, e nem os mais empedernidos e raivosos fascistas acreditam que eles, por algum momento, imaginavam que isso pudesse ocorrer, e muito menos que tinham o desejo de carregar o peso de tantas mortes pelo resto de suas existências. Mesmo reconhecendo como fundamental a apuração de TODOS os fatos relevantes deste caso, o que inclui a adequada punição dos culpados, o desejo de linchamento que eu percebo em muitas pessoas (inclusive jornalistas) é lamentável.

Pior ainda: quanto mais tentamos colocar as culpas nas pessoas (pois tal atitude parece nos confortar de alguma estranha forma) menos lições positivas tiramos do caso. A tragédia de Santa Maria precisa ser vista como um marco, a partir do qual as condições que lá estavam presentes não se repitam. Enquanto Fulano e Sicrano forem os culpados não se torna necessário olhar para dentro de nós e descobrir o que precisa ser mudado, o que está equivocado, inclusive nas nossas próprias atitudes.

Bebel me disse: “Perdemos tempo demais em atitudes ruins, pensamentos raivosos, disseminando as “energias negativas” do ódio, rancor e mágoa. Não vejo razão em odiar alguém em meio a tanta dor, e estes sentimentos jamais construíram algo de bom para a humanidade. Os responsáveis devem ser punidos pela lei, mas apenas para que suas culpas (onde houver) sejam reconhecidas e nos ajudem a evitar mais desastres, e não pelo prazer de ver mais gente sofrendo.

Nenhum ódio é capaz de trazer essas vidas de volta. Nenhum linchamento, físico ou moral, poderá nos ajudar. Espero que, entre as lições que a tragédia possa nos dar, o perdão e a compreensão possam estar presentes, tanto quanto a necessária e indispensável justiça para aqueles que cometeram erros.

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A Internet de todos nós

A internet mostra o pior e o melhor de todos nós. Todos ficamos estupefatos com a realidade da pedofilia, problema social que sempre existiu, mas que a Internet tornou uma calamidade global. Entretanto, ela só apareceu porque agora os pedófilos podem ficar incógnitos atrás do manto protetor do anonimato. Os perversos de toda ordem encontram abrigo nas ondas cibernéticas da rede, fazendo dela um escoadouro de suas mazelas pessoais, disseminando rancor, mágoa e violência. Os exemplos estão por toda parte. Qualquer matéria criminal produz de imediato uma onda de ódio, raiva, violência e clamores por vingança (que as pessoas normalmente confundem com “justiça”). Basta ler uma matéria nos jornais, com reportagens interativas, para ver os comentários.

Há algumas semanas, diante da notícia de um jovem de 20 anos que morreu de acidente de automóvel durante a madrugada, eu li alguns comentários, logo abaixo do corpo da informação. O primeiro deles era: “Já vai tarde, bêbado“…

Argumentei com o cidadão de que ele não sabia as circunstâncias do acidente, e mesmo que fosse o que ele acusava, deveria se lembrar que havia uma família enlutada, sofrendo o martírio da perda de um filho, um irmão e um amigo. Ler essas palavras, ditas por um estranho e alguém que não tinha suficientes informações para acusar dessa maneira, poderia ter um efeito terrível aos olhos de quem conhecera a vítima. Recebi do sujeito uma série de gargalhadas como réplica. Os reacionários, os perversos, os machistas, os grosseiros, os pedófilos e tantos outros doentes encontraram na escuridão da internet – pela primeira vez na história em grande escala – a possibilidade de externar seu ódio, seu preconceito e seus desejos descontrolados. Por outro lado, nunca houve tanta disseminação de afeto, boa informação, debate sério, contraditório e discussão “do bem”, o que nos deixa com uma ferramenta que, por ser meramente utilitária, pode nos levar para a paz ou para a violência. Nós é que escolhemos.

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Brilhar ou Refletir

Minha mãe sempre dizia que as “palavras carregam energia”, mas Freud já dizia isso antes dela. As palavras desnudam nossos conceitos, que por sua vez modulam nossas atitudes. Quando, mesmo há muitos anos durante a residência, um colega me dizia que havia “feito cinco partos no último plantão” aquilo me informava de forma muito clara como era o específico olhar desse profissional sobre seu trabalho. Uma das questões mais delicadas sobre o ofício das doulas (mas também funciona sobre o trabalho de parteiras e médicos) se relaciona com o protagonismo dos profissionais no cenário do parto. Eu conheço muitas doulas que falam exatamente isso que foi dito aqui em cima: “minhas mãezinhas”, “minhas barrigas”, etc., e isso me parece uma necessidade (absolutamente humana, por certo) de ser protagonista do evento, junto com a mãe. Mesmo entendendo essa necessidade eu acredito que tais questões devem ser educadas e controladas em todos aqueles que trabalham com nascimento humano.

Max sempre me disse que “parteiros não devem ser os que brilham, mas os que refletem a luz”. Portanto concordo plenamente com a ideia de que precisamos nos educar para uma essencial humildade sobre nosso papel como cuidadores do parto. E gosto de pensar que quando brilhamos demais sempre é à custa de um desaparecimento da luz que emana de quem está parindo. Claro que muitas vezes o protagonismo dos profissionais é necessário, como no caso de uma medicação adequada ou uma cesariana salvadora. Entretanto, tal expropriação pode ocorrer de forma abusiva, como a alienação que brota de uma cesariana desnecessária e as consequências funestas que ela pode trazer para uma mulher que realmente deseja parir, mas também pode ser através de uma palavra mal colocada que, mesmo sutilmente, desloca a gestante do centro de nossas atenções, retirando dela a liberdade e o poder de tomar decisões.

Por parte dos profissionais de saúde ocorre uma intromissão (sempre bem intencionada, por certo) numa relação que apenas se inicia: a família que se forma em frente aos nossos olhos. Para além das questões relacionadas com a mãe, a construção da paternidade é ainda mais delicada do que a da maternidade, porque nossa (masculina) participação (ao contrário da materna) é dispensável e (portanto) frágil. Dessa forma, por nos faltar a materialidade visceral dessa ligação, ela precisa ser construída pelas palavras. Entretanto, muitas vezes os profissionais de saúde – que deveriam ser elementos facilitadores dessa ligação – funcionam como os principais obstáculos para a elaboração da conexão pai-filho. Se essa intromissão é ruim para a mulher, deslocada do centro das decisões, para o pai pode ter um efeito decisivo e dramático, que poderá se tornar o capítulo final de um afastamento que talvez nunca mais possa ser consertado. Nós, os profissionais da saúde, nos encontramos exatamente no vértice dessa encruzilhada, e temos a possibilidade de levar nossos clientes a uma experiência positiva de ligação afetiva. Todavia, nossas atitudes e nossas palavras podem se tornar desastrosas e produzir marcas profundas de afastamento.

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