O galãzinho da Globo disse em uma entrevista para a TV que não acha justa a obrigação de pagar as contas em um encontro com uma garota. Falou também que não se importa de pagar a conta do restaurante para amigos e namoradas, mas que se sente desconfortável com essa expectativa, como se esse ônus fosse obrigatório, e esta atitude seria “o que se espera de um homem”. Obviamente identitáries reclamaram do comentário.
Estranhamente eu vi este mesmo tipo de reclamação vindo exatamente das mulheres durante décadas, e sempre achei uma justa reivindicação. Muitas me diziam que não se importavam de cozinhar e/ou lavar a louça para o marido ou a família, mas se diziam indignadas com a naturalização que se criava sobre essa função, como se esse fosse o papel a ser desempenhado pelas mulheres. Como se ao ver uma pilha de louça suja na pia fosse natural e lógico que a obrigação de limpá-la recaísse sempre sobre elas.
Ora…. serei mais uma vez o “chato da equidade”. Se é possível reclamar de velhas construções sociais incidindo sobre as mulheres, porque seria injusto ou errado que os homens também questionassem seu papel de “pagadores compulsórios”?
Eu tenho a mesma posição em relação às pessoas ou instituições que sempre quiseram me pagar coisas. Nestes momentos eu lembrava das palavras do meu irmão, que sempre dizia: “Tudo que é de graça é muito caro”. Por isso a minha eterna posição rabugenta em relação às indústrias farmacêuticas e seus “presentinhos”. Eu sabia que jamais me dariam uma caneta, um jantar, uma viagem ou o ingresso em um congresso apenas pelos meus belos olhos; ele queriam a minha assinatura nas receitas pois sabiam que eu era a ligação fundamental entre o chão da fábrica de drogas e a boca do paciente. Seus agradinhos serviam para me seduzir a prescrever suas bugigangas, e para isso não titubeavam em me comprar com espelhinhos e miçangas.
Com o tempo eu fui abandonado por todas as empresas de medicamentos, a ponto de nunca mais receber nenhuma em meu consultório – o que me deixou muito orgulhoso.
“Ah, mas você vê maldade em tudo”. Não!!! Vejo a realidade da relação capitalista e me permito enxergar por detrás do meramente manifesto aos sentidos mais grosseiros. Muitas mulheres sacam rápido quando os homens pretendem exercer um poder sobre elas através do pagamento das contas, mas poucas se apercebem como será difícil contornar a situação depois de terem recebido a sua parte. “Ou dá ou desce”, sempre foi o mantra de quem tinha o volante nas mãos. Por trás destas dádivas (dos homens, das mulheres, das empresas, etc.) existe a expectativa de uma contrapartida, e quem se nega a enxergar isso é tolo ou perverso.
Só há uma forma de se proteger: não aceitar nada “de graça” se você desconfia que existe uma clara intenção de receber um “benefício” posterior, caso contrário a sua dívida ficará ativa. Mas, pra não dizer que não falei de flores, muitas vezes existem razões bem óbvias para deixar alguém lhe pagar, como por exemplo uma amiga que sabe que você está mal de grana, ou o namorado que acha que “é a sua vez de pagar”. Não é necessário criar um modelo de absoluta paranoia. No meu caso, quando as pessoas dizem “Deixa que eu pago, você é nosso convidado” eu aceito, porque sei que farei o mesmo quando for a minha vez de convidar.
Sei o quanto é desanimador e triste pensar isso, mas basta que o último verme consuma a derradeira fibra de nossas tripas e nada mais restará de nós nesse plano. Nosso carbono dividido entre as saprófitas será eventualmente parte da poeira das estrelas que migrará para outras galáxias e mundos. Deixamos para trás apenas um punhado de afetos, memórias e ideias que com o tempo igualmente irão se dissipar, vagando soltos pelo cosmos como os ventos dos sóis infinitos.
Certa feita estava em um evento social (isso soa quase como uma piada para um ermitão como eu) quando escutei uma voz conhecida me chamando alguns metros atrás de mim. Eu de imediato reconheci o timbre da voz, mas logo percebi que se tratava de alguém de um passado muito distante:
– Então Ric, as fases da lua realmente influenciam no parto?
Olhei para o lado e encontrei um colega de residência. Por alguns segundo fiquei tentando imaginar a razão de me fazer esta pergunta após algumas décadas sem nos vermos. Por que me perguntar da lua? Durante algumas frações de segundos eu busquei nos arquivos empoeirados da minha memória até conectar os pontos. A explicação para esta bizarra conexão me oportunizou refletir sobre padrões que utilizamos para valorar circunstâncias e personagens.
Durante a residência por diversas vezes eu fui confrontado com algumas informações a respeito do “gatilho do parto”, ou seja, quais os elementos internos e externos envolvidos na início do trabalho de parto. Hoje sabemos que o processo está relacionado à maturidade fetal, que é quem inicia este processo. Todavia, há mais de 3 décadas atrás, muito se discutia sobre fatores ambientais e circunstanciais – inclusive por aqueles que trabalhavam em maternidades – e era comum escutar que as fases da lua tinham um papel no desencadeamento de eventos que culminariam no nascimento de um bebê. Alguns colegas de outras especialidades me falavam que a lua, por sua gravidade, era capaz de mover extensas massas de água, no fenômeno conhecido como “marés”. Ora, se o ser humano é composto de 70% de água é natural imaginar que esta mesma água seria, de alguma forma, modulada pela força atrativa da lua. Lógico, não?
Essa pode ser até uma boa ideia, ou apenas mais uma fantasia colocada no catálogo interminável de crenças aplicadas sobre o evento do nascimento humano. Quando as pessoas me diziam sobre a experiência que tiveram com o plantão lotado em um dia de lua cheia eu perguntava se elas lembravam da luz cheia anterior, se também havia sido movimentado. A resposta era negativa, e eu argumentava que deveria se tratar apenas de “viés de confirmação” – a tendência de recordar, interpretar ou pesquisar por informações de maneira a confirmar crenças ou hipóteses iniciais – e não de uma correlação verdadeira entre eventos. Eu, particularmente, não acreditava nessa coincidência, mas também sabia que só poderia haver uma forma de comprovar seu acerto ou erro.
Sim, a aplicação de um método.
Desta forma resolvi analisar todos os partos do hospital escola ocorridos no ano anterior. Capturei as folhas da enfermagem do centro obstétrico e comecei a analisar os dados. O que primeiro me chamou a atenção foi o número enorme de internações fora do trabalho de parto, por indicações médicas variadas, além do uso de oxitocina, que poderia fazer um parto ocorrer antes do que estava programado para acontecer. Enquanto eu me ocupava com a elaboração de uma hipótese houve um encontro de residentes no hospital, e na oportunidade fui convidado a mostrar minha proposta de pesquisa. Afinal, muitos colegas ficaram vivamente entusiasmados em saber se, afinal, é verdade ou não esta suposta influência da lua sobre os nascimentos.
No dia da minha fala mostrei apenas alguns dados preliminares e expliquei que seria necessária uma depuração para que fosse possível ver a ação natural da lua sobre os eventos do parto. Porém, foi durante a breve apresentação que me dei conta da inutilidade da minha pesquisa solitária. Já naquela época eu estava me divorciando definitivamente da ideia do “parto natural”, um termo que desde então passei a combater. Não existe nada de “natural” no parto, se esta palavra for usada como contraposição às perspectivas culturais, portanto artificiais, e que não dizem respeito à pura ação biológica sobre o processo de expulsão fetal do claustro materno.
Para avaliar a influência da lua sobre os partos seria necessário realizar o isolamento das milhares de outras condicionantes socio-culturais-contextuais que agem sobre o parto, uma tarefa que eu percebi ser completamente impossível e inviável. Talvez há alguns séculos, em uma tribo de indígenas autóctones da Amazônia, seria possível retirar muitos destes condicionantes, mas nem assim seria o suficiente para retirar deles a linguagem – e como diria Lacan “a palavra matou o real”. O parto natural está restrito aos outros mamíferos, e mesmo para eles apenas quando estiverem em segurança, distantes do nosso olhar. A par deste meu desencanto, a influência da lua sobre partos acabou sendo desmentida por diversos estudos, e hoje resta pouca dúvida sobre a questão.
Eu me dei conta muito cedo que o real do corpo é inacessível para um universo simbólico, onde variáveis infinitas agem sobre o pensamento, e este sobre o corpo e suas funções. O desencadeamento de um parto pode até ocorrer pela lua mas é muito mais provável que hoje em dia seja mais condicionado pelo humor e pelas crenças do médico do que por qualquer alteração hormonal. Por esta razão a pesquisa logo se tornou absolutamente desinteressante, até porque a minha visão a partir de então estaria totalmente direcionada para as questões relacionadas ao protagonismo feminino no evento, o que consumiu praticamente toda a minha vida profissional. As influências da lua ficaram como uma curiosidade passageira da época do final da residência.
Entretanto, e aqui o ponto que eu achei interessante, a imagem do “jovem médico místico” preocupado com a influência das fases da lua ficou gravado na memória do meu colega, como se aquela imagem pudesse traduzir minha personalidade e os meus interesses. Nada poderia estar mais longe da verdade, como o resto da minha vida pode comprovar. Todavia, fiquei igualmente impactado ao me dar conta de que este tipo de comportamento é extremamente utilizado por todo mundo – inclusive por mim.
Comecei a lembrar de pessoas pelas quais tenho uma profunda antipatia por coisas feitas ou ditas em um passado distante e percebi que muitas vezes (quase todas) essa má impressão está ligada a pequenas coisas, posições que o sujeito teve no passado, e que podem estar completamente distantes de sua realidade atual. É possível que tenham abandonado por completo suas posturas, suas ideias, suas perspectivas de mundo e tenham se tornado bastante diferentes. Como a menina na praia de Copacabana que deu uma declaração preconceituosa e até racista para a extinta TV Manchete, mas que refez sua vida, estudou filosofia e hoje diz ter“horror de gente que pensa como ela pensava”.
Pessoas mudam, pessoas crescem, se modificam. Pessoas evoluem… o que era algo valioso no passado pode se tornar desinteressante em muito pouco tempo. Paixões se dissipam no ar sob a ação do sol, novos amores surgem, assim como novos interesses brotam da experiência cotidiana. É possível que, dentro de um tempo variável, todos sejamos compelidos a mudar o nosso foco, nossa visão da realidade, fazendo o interessante virar frugal, e o banal essencial.
Minha maior fantasia é ter um encontro com Jesus depois de morrer. Imagino encontrá-lo no plano espiritual, e, passado o susto por vê-lo, nossa conversa seria assim:
– Fala Nazareno!!! Feliz de te encontrar!! Meu, que honra…
– Obrigado, mas ninguém me chama mais de Nazareno há alguns séculos. Aqui acabei me dedicando a outras coisas, meu foco de atenção está em outros projetos. Nada contra aquela minha fase, que foi até bem legal. Fiz vários amigos e curti muito. Converso muito com os apóstolos ainda. Pedro, por exemplo, quando vem para cá sempre fica na minha casa, né Madalena?
Olho para o lado e Madalena concorda com um sorriso e um meneio de cabeça, enquanto passa um pano nos móveis da sala. Volto o olhar para o Messias e o vejo carregando com certa dificuldade uma sacola marrom.
– O que tem na sacola, Mestre? Precisa de ajuda?
– Ahh, tudo bem. Faz parte do treinamento. São meus halteres.
– Halteres?
– Sim, nos dois últimos séculos tenho me dedicado ao fisiculturismo. Percebi que este é um caminho muito mais interessante. Se eu estivesse bem fisicamente teria sido muito mais difícil para os romanos me pegarem. Essa é a minha paixão por ora…
Ok, uma fantasia, mas creio que manter-se com a fotografia estática de qualquer um – para o bem e para o mal – diminui a imensa adaptabilidade humana para encontrar novos caminhos, novas paixões e projetos.
Apenas para contextualizar… este é um post de uma pessoa com problemas de DNA (Data de Nascimento Antiga)
Antes de 1981 a chance de você assistir um filme de novo – por exemplo, 2001, Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick – apenas por saudade, curiosidade ou porque queria entender direito uma cena, era se a Globo resolvesse passar o filme às 3h da manhã de uma segunda feira na Sessão Cult. Outra possibilidade, bem mais remota, seria uma sessão/debate de cinema da faculdade, mas esta era uma possibilidade ainda mais difícil de acontecer. Não havia nenhuma outra forma de conseguir uma cópia do filme para assistir quando quisesse. Quanto melhor o filme – os chamados filmes cabeça – menor a possibilidade de você vê-lo de novo.
E quando, numa mesa de bar, alguém começava a debater os significados profundos da cena em 2001 – onde o antropoide utiliza uma ferramenta feita de osso para dominar o meio ambiente e depois esta mesma ferramenta se transforma numa espaçonave – e você nunca havia assistido o filme, o máximo que poderia fazer era pedir que trocassem de assunto, simular uma convulsão ou pedir outra cerveja em voz alta. Você só teria como conhecer a cena através do relato dos amigos…
2001 – Uma Odisseia no Espaço
Lembro bem dos telefonemas durante a semana avisando que “A Última Noite de Boris Gruchenko” ia passar de madrugada e por causa disso passávamos vários dias organizando nosso tempo para ser possível assistir. Hoje já é possível adquirir uma cópia digital de literalmente qualquer filme, assistir a hora que quiser, parar as cenas, estudar os detalhes e até fazer um gif para ilustrar seu ponto de vista, destacar uma passagem interessante ou melhorar uma aula.
O videocassete foi quem abriu as portas para este mundo de acesso imediato à informação, antes ainda da criação e disseminação dos computadores. Para mim, é uma maravilha cuja amplitude os novos não conseguem entender, porque já nasceram no tempo da informática e da rapidez quase instantânea das informações. Portanto, um viva para a revolução digital que se iniciava há quatro décadas e veio mudar o mundo como o conhecemos.
As séries americanas dos anos 60 e 70 que eu assisti na infância sempre passaram pano para o genocídio americano das população nativas, que veio associado à “Corrida do Ouro”, fluxo de deslocamento em direção ao pacífico anterior à guerra de secessão na segunda metade do século XIX. Entre os programas que eu assistia estavam Daniel Boone, Rin Tin Tin, Os Pioneiros, O Último dos Moicanos e muitos mais, sem mencionar os inúmeros filmes com John Wayne, Audie Murphy, Clint Eastwood, Randolph Scott, Glenn Ford, Lee Van Cleef e outros tantos artistas famosos de “bang-bang”, ou “western”. Todos eles poderiam ser caracterizados como filmes criados para a “exaltação da cultura branca europeia”.
Estas criações de Hollywood tinham como objetivo principal descrever os invasores brancos como “bravos e heroicos”, mas também para estereotipar os índios como violentos e traiçoeiros, ignorantes e bárbaros, ou para apresentar sua versão “civilizada”: o “bom índio”, que se tornou pacífico, subserviente, obediente e servil. Mingo (Ed Ames), o companheiro índio de Daniel Boone (Fess Parker) é o melhor exemplo de “índio bonzinho”.
Estas produções de Hollywood formaram toda uma legião de espectadores – toda a minha geração, que brincou de “Forte Apache” – manipulados pela visão colonialista americana, que escondeu durante mais de um século a barbárie e as matanças da “conquista do Oeste”.
Hoje, o que me resta é sentir vergonha de não ter percebido na época a maquiagem vergonhosa que impuseram à realidade…
“Filho nunca vai ser o atraso pra quem gosta de trabalhar… mulheres guerreiras tem meu respeito.”
A legenda dessa foto na internet, escrita por um homem, foi: “Filho nunca vai ser o atraso pra quem gosta de trabalhar… mulheres guerreiras tem meu respeito”.
A resposta de uma internauta indignada foi: “Sempre tem um macho que…”
A manifestação desse sujeito é obviamente idiota, e realmente está romantizando o trabalho escravo e desumano ao qual as mulheres se submetem. Não há nada de romântico ou nobre em trazer um filho pequeno para seu trabalho por absoluta falta de suporte, seja de creches ou de licenças especiais para a maternagem. Não há dúvida que esta mulher merece todo o nosso respeito, mas não apenas isso; ela merece justiça e valorização do seu trabalho. Não é sobre o respeito que devemos debater…
Entretanto, me incomoda muito quando alguém diz que isso foi dito por um “macho”, como se a motivação para escrever esta tolice foi pelo fato de pertencer ao gênero masculino. Aliás, por acaso causaria surpresa se essa frase fosse escrita por uma mulher? Por certo que não… E por que usar a palavra “macho”? Seria “macho” uma “acusação”, um humano com uma maneira equivocada e violenta de ser no mundo? Pois na minha perspectiva essa legenda não foi escrita porque seu autor é homem, mas porque foi a expressão de alguém que se deixa seduzir pela ideia da “meritocracia subserviente”, e foi escrita pelos mesmos que aplaudem quando meninos de 10 ou 12 anos saem para trabalhar na rua para sustentar suas famílias. Chamam a estes personagens de “trabalhadores”, “heróis”, “bravos guerreiros”, e deixam de enxergar o quanto de exploração e abuso criminoso existe nestas atitudes.
Acreditam mesmo que são os homens os inimigos, aqueles que estão na origem da iniquidade? Seriam eles a causa primeira desse problema? Quando vamos entender que no momento em que essa foto foi tirada havia um homem morrendo ao cair de um andaime, sendo baleado pela polícia, morrendo no trânsito, sofrendo um acidente de trabalho, mergulhando a 100 metros de profundidade para consertar um cano ou subindo a 200 metros de altura para ajustar um cabo de alta tensão? Alguns mergulham no esgoto, outros carregam o seu lixo nas ruas, sem falar nas guerras onde 99% dos mortos são homens ou nos suicídios em que 80% são cometidos por homens jovens. Esse tipo de ideia – de que o sofrimento das mulheres é causado pelos homens – é tolo, sem base, sem sentido e divisionista. Da mesma forma o sofrimento desses homens não pode recair sobre as mulheres, tão vitimadas quanto eles por um modelo cruel.
Esse desequilíbrio, essa dor, essa injustiça são causados por um sistema injusto que atinge a todos e se chama capitalismo, um modelo social perverso que divide as sociedades em classes, onde quem determina é o capital e não o sexo, o talento, a competência, a orientação sexual ou a capacidade. Culpar os homens – como se o fato de ser homem fosse crime – é indecente e errado, tão equivocado quanto ver um miserável negro apontando o dedo para o seu vizinho branco – e tão f*dido quanto ele – chamando-o de “opressor”. Esse tipo de acusação faz os ricos, os rentistas e a elite financeira darem gargalhadas. “Enquanto eles se acusam entre si não percebem que ferramos a todos”.
O identitarismo é um movimento de direita, importado dos imperialistas do partido democrata americano, cujo grande objetivo é dividir as sociedades em grupos de identidade, fazendo-os cegos à realidade das classes. Apostar nessa perspectiva de mundo é aceitar a dominação e a divisão e permitir que a subserviência ao imperialismo e ao capital sejam determinantes imutáveis.
A imagem mostra uma vitima das sociedade de classes, e não dos homens. Os homens são igualmente vítimas desse modelo e ficar debatendo quem é “mais vítima” é inútil quando temos uma tarefa muito mais nobre e importante pela frente: o fim do capitalismo e de toda a ideia de castas na sociedade.
Certa vez uma senhora, paciente de muitos anos, trouxe a sua filha adolescente para consultar comigo, mas pediu para entrar primeiro e dizer “umas palavrinhas” antes da consulta da garota. Ela então disse que achava que o namoro da filha com um rapaz da escola estava ficando muito “quente” e que seria bom ela tomar anticoncepcionais antes de ter relações, para evitar alguma “tragédia”.
– O senhor sabe como é na idade dela…. eles são tão novinhos.
Perguntei se a filha já estava tendo relações ao que a mãe falou: “Não, ainda não. Se ela estivesse tendo eu saberia. Confio na minha filha; ela conta tudo para mim. Somos grandes amigas”.
Fiquei em silêncio e avisei a secretária para deixar a menina entrar e solicitei que a mãe aguardasse na recepção. A mãe saiu e quando cruzou com a filha no hall que leva à recepção porta elas se abraçaram afetuosamente.
A menina entrou e sorriu. Perguntei a ela se achava que deveria se preocupar com anticoncepção e ela respondeu afirmativamente. Questionei se ela já estava tendo relações sexuais ou era um plano para o futuro. Ela respondeu sem titubear:
– Ahh, não doutor. Tenho relações há dois anos, mas agora estou namorando firme. Mas, é claro, a minha mãe não sabe dessa história toda.
Deixou cair sobre o rosto um sorriso maroto. Eu, cá com meus botões, pensei “Jesus seja louvado”.
Quer saber o que me deixava em pânico no consultório? Quando uma mulher madura, mãe de adolescente, me dizia: “Não tenho segredos com a minha filha. Ela me conta tudo; sou sua melhor amiga. Nunca houve mentiras entre nós”.
Eu, silenciosamente, pensava: “Como você permitiu que sua filha perdesse a preciosidade de uma mãe para ganhar a banalidade de uma amiga??” Como diria o sujeito aquele que foi buscar duas garrafas de Coca Cola na geladeira, “mãe só tem uma”, já os amigos a gente cria, se desfaz, reconquista, troca, esquece ou mantém com fervor. São instâncias de afeto completamente distintas, com pesos diferentes na constituição sujeito.
Assisti faz tempo a uma famosa entrevista onde uma repórter pergunta para Madonna, no auge de sua fama, se haveria alguma coisa pela qual ela trocaria todo o dinheiro e reconhecimento que havia alcançado nos últimos anos. Sem trocar o sorriso do rosto a cantora exclamou, sem titubear: “Uma mãe”. Madonna perdeu sua mãe muito cedo vítima de um câncer.
Mas, para além disso, como exigir que uma adolescente tenha seus segredos, paixões, desejos e fantasias expostos ao julgamento da mãe? E, pior ainda, como expor os jovens aos dramas e às dificuldades da vida adulta, em especial os dilemas da vida sexual e amorosa dos pais? Poucas coisas são mais cruéis do que essa promiscuidade afetiva. A “amizade” entre mãe e filha me parece sempre um sintoma materno produzido pelas dificuldades de ver os filhos indo embora. A amizade lhes ofereceria uma ilusória proteção diante dos seus dramas pessoais; agarram-se aos filhos abrindo mão até da maternidade, pelo amparo de que tanto necessitam.
Lembro bem do orgulho que senti quando, caminhando pela rua com meus filhos pré-adolescentes, eu lhes disse: “Sentiram esse cheiro? Isso é maconha”. Eles se entreolharam e deram gargalhadas, deixando-me com cara de bobo, por imaginar que estivesse lhes contando uma novidade. Ali percebi que havia para eles um universo que era para mim interditado, próprio, privado e que eles jamais haviam me contado. Ao lado da tristeza de perdê-los tive o vislumbre de que a vida madura se expressa por esses “fracassos”, distanciamentos que se impõem, permitindo assim que as subjetividades prevaleçam.
Há muitos anos eu estava de plantão no hospital quando chegou uma senhora carregando um bebê e gritando desesperadamente pelos corredores. Ajudei a colocar a criança sobre uma cama e me surpreendi com o fato de que não era um bebê, mas um jovem de 19 anos (soube depois) com o tamanho de um bebê e com o corpo totalmente atrofiado por uma doença congênita. O jovem sucumbiu por uma pneumonia devastadora em minutos e tivemos apenas tempo de vê-lo expirar diante de nós; nenhuma ação teve efeito diante do quadro gravíssimo no qual chegou. Depois de comunicado o óbito, a mãe entrou em desespero e passou a atacar a equipe do hospital, sendo contida pelo marido que pedia que se acalmasse.
Passados alguns minutos, e mais tranquila, ela se desculpou e veio me dizer que aquele filho significava tudo na sua vida, toda sua atenção e devoção desde que nasceu. Ele demandava cuidados diários intensivos e até estafantes para ela. “Ele inclusive dormia comigo na cama, ao meu lado”, disse ela.
Naquele exato momento me dei conta das razões recônditas do desespero, que extrapolavam em muito a perda de um filho querido. Sem seu filho amado a lhe servir de escudo, como enfrentar agora os dilemas de sua vida afetiva e seu envelhecimento inexorável? Como encarar a vida a dois sem seu “bebê” a lhe garantir o amparo afetivo? Sem sua presença, como enfrentar as demandas que, por certo, haveriam de ocorrer?
A maternidade, pelo seu poder e seu significado na perspectiva da espécie humana, tem o poder mítico de produzir tanto as luzes mais fulgurantes quanto as trevas mais obscuras.
Entenda meu lindinho, o amor é traiçoeiro. Ele deixa o feio bonito, o mau se transforma em bom e o horrendo remediado. Nunca permita, minha doçura, que ele lhe engane. Entretanto, não crie ilusões de que seu corpo e sua alma serão infensos aos seus efeitos devastadores”, disse minha mãe.
Lembro com precisão o choque que eu tive ao ver a capa desse livro ainda na adolescência e que confrontava a história oficial que era contada na escola sem qualquer contraponto. “Fomos atacados, revidamos e vencemos a guerra. Ora, qual o dilema moral?” Mal sabia eu da história não-contada, o significado da potência imperialista da época – a Inglaterra – e o papel do líder nacionalista e anti-imperialista Solano López, governante que buscava a autonomia da América Latina. Curiosamente a história do “revide” se repetiria, quase com o mesmo roteiro, distante dali, na Terra Santa.
A mesma sensação tive quando fui ao Rio de Janeiro no festival Internacional de Cinema em 2007 (para participar de uma mesa sobre o documentário que participei chamado “Orgasmic Birth“) e tive uma breve conversa com um cineasta Libanês do Hezbolah que apresentava um documentário sobre a invasão sionista no Líbano e a luta do povo libanês para expulsar os invasores e reconquistar sua terra. Eu estava pela primeira vez vendo essa guerra pelo lado da resistência anticolonial, e a paixão da resistência árabe me impactou.
Uma outra – e definitiva – oportunidade foi quando assisti ao documentário “5 câmeras quebradas” sobre a resistência Palestina na Cisjordânia, sua luta contra o apartheid sionista e a limpeza étnica que lá ocorre. Depois disso mergulhei na questão Palestina e me tornei um defensor incansável da causa. O impacto de ver a história contada de fora da imprensa oficial me fez enxergar muito do que fora escondido por décadas. Miko Peled descreve algo semelhante quando, na entrada da vida adulta, conheceu jovens palestinos nos Estados Unidos, o que fez mudar a sua trajetória para se encontrar no Movimento por uma Palestina Livre.
É bom estar sempre preparado para encontrar-se face a face com a verdade escondida em uma esquina qualquer do mundo.
Numa sociedade dividida em classes, onde existem bolhas que separam as castas sociais, bilionários são pessoas distantes do nosso convívio regular. Em função dessa distância, e da necessidade de essencializar as diferenças, os bilionários desenvolvem desprezo pelo povo, seus jeitos, seu cheiro, suas roupas, sua música, seu linguajar. Essa percepção que têm de nós surge do fato de que eles se isolam num universo onde apenas encontram seus iguais – outros bilionários – cuja fortuna foi certamente forjada na exploração do trabalho alheio, na pilhagem, no roubo, à sombra dos poderosos e com doses quase imperceptíveis de escrúpulos. O jornalista Chris Hedges tem um excelente ponto de vista no que diz respeito à “Patologia dos Ricos”, afirmando que nossa percepção dos muito ricos é baseada em propaganda e que não espelha a realidade da sociopatia que tal divisão de classes proporciona.
Muitos, e durante muito tempo, acreditaram que um dos principais problemas está na falta de educação do povo, o que faz com que tenhamos políticos despreparados para dar conta das coisas do país. Em verdade, os oligarcas brasileiros – e igualmente os americanos – são paridos nas melhores escolas e com a melhor educação que se conhece. O problema não é a falta de preparo e de educação, mas um sistema político que escolhe representantes nas classes dominantes sucumbindo à ilusão de que sua educação os faria agir de forma a produzir progresso e justiça social.
Atenção: o “biliardário” não é o seu vizinho que tem uma casa de dois andares na praia ou que tem uma Hylux na garagem. Esse é o “rico” da classe média. O biliardário é um sujeito que você nunca viu pessoalmente.
Bilionários vivem em bolhas de privilégios, em condomínios fechados de usura e abundância indecentes. As únicas pessoas normais a quem encontram são vassalos, serviçais, muitos deles esperando uma pequena migalha ou o sublime êxtase de dizerem-se próximos do “comendador” ou da “fulana, rica e extravagante”. São personagens que desde crianças foram ensinados dar ordens a adultos; empregadas, babás, motoristas, diaristas, etc, acostumado-se a olhar a quem trabalha de cima para baixo. O mundo das gentes normais é algo que assistem com certo desprezo, com distância, olhando através de suas gigantescas TVs panorâmicas de plasma. A tragédia ocorre quando sujeitos com essa formação assumem posições do poder, como a família Bush, os Clinton, Trump, os Kennedy ou Boris Johnson, pois que enxergam o povo com profundo menosprezo, como uma imensa massa de serviçais ao seu serviço – e não o oposto, como somos iludimos a pensar.
Por certo que não é preciso dizer que toda a riqueza obscena que os cerca desde o berço não é garantia alguma de felicidade, realização ou alegria. Vidas construídas sobre “coisas” frequentemente são tão frágeis quanto a matéria que constitui seus objetos, a qual se deprecia rapidamente. Acreditar na capacidade do dinheiro em produzir a realização plena do sujeito é desprezar as evidências cotidianas que nos mostram a inexistência dessa conexão.
Uma amiga doula americana certa feita foi convidada para atender um casal herdeiro de uma família bilionária de um país distante. Recebeu para isso altos honorários e todas as despesas pagas. Depois do atendimento ela descreveu o casal como pessoas extremamente simples, com hábitos mundanos e triviais, iguais aos de qualquer mortal. “Gente como nós”, disse ela com a doçura que lhe caracteriza.
Eu lhe respondi que até a Rainha da Inglaterra pareceria normal num contato trivial e ocasional. Entretanto, os valores do sujeito vão inexoravelmente aparecer quando forem colocados à prova – em especial num momento de crise. O sujeito que desprezou e xingou policiais na frente da sua casa, dizendo ganhar milhões enquanto eles não passavam de pobres funcionários públicos, apenas expôs seu espírito deteriorado em um momento de crise, deflagrado por uma quantidade razoável de álcool. Posso apostar que, no dia a dia, ele é um sujeito que dissimula e esconde com perfeição seus preconceitos e o desprezo que, em essência, nutre pelos que estão abaixo de si na pirâmide dos ganhos materiais.
Zardoz, filme de 1974 com Sean Connery
O mesmo posso imaginar do jovem casal de bilionários, que certamente vivem no Valhalla dos ricos, no Olimpo dos “diferenciados” e que não conhecem, como nós, o preço do quilo da alcatra e não se espanta com o preço do leite. O mundo contemporâneo criou o universo distópico de Zardoz, um obscuro filme de 1974 com Sean Connery, onde a população rica vive reclusa em redomas de vidro para se proteger da crescente massa de miseráveis. E não se trata de uma avaliação de ordem moral, mas uma perspectiva de classes, onde a separação econômica – cuja ligação se dá pela exploração – produz uma ideologia e uma conduta cotidiana que naturalizam essa distância entre os bilionários e o povo por eles explorados.
Estabelecer conceitos – para o bem e para o mal – baseado nas informações superficiais colhidas em contatos ocasionais é sempre um passo para o equívoco ou a injustiça. Diga aí: quanto tempo você levou para se dar conta que aquele ex-campeão de Fórmula 1 era um reacionário de primeira?