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Jacarezinho

A primeira vez que fui ao Rio de Janeiro tinha 23 anos e fui assaltado numa espécie de arrastão apenas uns 20 minutos após ter chegado na rodoviária para subir em outro ônibus com destino a Botafogo. Um motorista amedrontado abriu a porta para que três meninos armados pedissem relógios e dinheiro. O total do que eu perdi naquele dia seria equivalente hoje a uns 50 reais, mas passei dias com raiva pela impotência de ser roubado na frente da mulher e do filho pequeno sem poder fazer nada. Não foi, por certo, um bom cartão de visitas.

A cidade do Rio de Janeiro me impressionou pela sua história, a arquitetura, a natureza, os morros, o jeito do carioca falar, as praias. Dizem – Luis Fernando Veríssimo tem uma bela história – que gaúchos adoram o Rio e os(as) cariocas, pois nossa bronca mesmo é com São Paulo, transformada em “capital do Brasil” por iniciativa – adivinhem – de um gaúcho de São Borja, Getúlio Dornelles Vargas. Aqui no pago é comum as pessoas se derreterem por samba de raiz e escolas de samba, além de se exibirem recitando a ordem das praia cariocas, como Tim Maia o fez.

A primeira impressão, entretanto, é a que fica. O Rio ficou para mim eternamente com a imagem das favelas, aliás, o que mais se conhece do Brasil no exterior. Até Michael Jackson quis conhecê-las. Mas para mim as “comunidades” e o Rio de Janeiro são o choque real entre o povo criativo e alegre com a brutalidade da exclusão capitalista. E o resultado que se mostra no cotidiano é a indignação solitária, dividida, minúscula de garotos assaltantes roubando bugigangas como nos conta Chico Buarque, ou os núcleos controlados por milícias fazendo o papel de um Estado pusilânime ou inexistente.

As chacinas, as balas perdidas, as milícias, a “gaiola das loucas”, o “Vivendas da Barra”, matadores de aluguel, Marielle, Jacarezinho, as igrejas pilantras, o massacre da Candelária são como feridas abertas que sangram todos os dias. Essa é a imagem que tenho hoje do Rio, uma beleza amaldiçoada pela iniquidade, pela injustiça social e que só terá solução com o fim da barbárie capitalista.

O Rio não é para amadores. A notícia alarmante para quem gosta dessa cidade é que a população do Rio está deixando em primeiro lugar nas pesquisas de preferência o atual governador Cláudio Castro, do PL, ligado ao justiceiro Witzel e às forças mais reacionárias que governam o Estado há décadas. A distância é pequena com o segundo colocado, o que nos permite dizer que existe um empate técnico com o deputado Freixo que vem logo a seguir. É por essas tragédias que eu às vezes penso que o Rio de Janeiro não tem salvação e que o império das milícias, das oligarquias e das igrejas evangélicas não vai acabar antes de uma hecatombe social. Mas o meu coração comunista teima em ter esperança…

Da minha cabeça nunca sairá a imagem do levante popular. Nos meus devaneios vejo o povo descendo o morro organizado, exigindo seu direito à cidadania, à alegria, ao sorriso, à educação, à saúde e exigindo que as maravilhas dessa cidade não continuem sendo saqueadas pela elite tosca que a compõe. Quem sabe seja como no samba de Wilson das Neves, “O dia em que o Morro descer e não for Carnaval”

“O tema do enredo vai ser a cidade partida
No dia em que o couro comer na avenida
Se o morro descer e não for carnaval
O povo virá de cortiço, alagado e favela
Mostrando a miséria sobre a passarela
Sem a fantasia que sai no jornal”

Espero o dia em que o Rio seja a Cidade Maravilhosa e segura que eu gostaria de conhecer. Entretanto, enquanto nossa sociedade foi brutalizada por um modelo excludente, Candelária, Jacarezinho e tantas outras chacinas serão apenas historias tristes e trágicas sobre a cidade mais linda e mais desigual do mundo.

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Preconceito

É curiosa a nossa percepção de preconceito, e sobre essa questão já me debrucei diversas vezes. A definição de “pré-conceito” seria o conceito prévio, aquilo que trazemos como verdade antes do fato ser julgado, sentimento de hostilidade baseado em uma generalização após uma experiência pessoal (ou mais de uma) ou imposta pelo meio; uma espécie de intolerância por fatos já acontecidos. Aqui é importante diferenciar “preconceito” de “discriminação”. O preconceito é um sentimento, enquanto a discriminação é uma ação de desmerecimento de pessoas ou grupos baseada em preconceitos.

Pois eu afirmo que, na realidade, ninguém é contra os preconceitos. Todo mundo os tem e os usa todos os dias. “Vamos por este caminho para não termos que cruzar pelo bairro perigoso”. Quem nunca disse isso? Quem se aproxima sem cuidado de um cachorro desconhecido? Ora, pode ser mansinho, mas experiências anteriores nos dizem que ele pode morder. Temos preconceito com cães e com a “barra pesada”. O genial Oscar Wilde já nos dizia “A vantagem de brincar com fogo é aprender a não se queimar”.

Esta semana um sujeito nos Estados Unidos expulsou uma passageira que teve uma atitude racista no seu Uber. Teria dito: “ainda bem que você é branco, fala inglês”. O jovem ficou furioso e exigiu que ela se retirasse. Foi aplaudido por todos, inclusive por mim, que acho essas atitudes odiosas e injustificadas.

A gente não sabe se essa moça já teve experiências ruins com imigrantes de pele escura – uma, duas ou mais. Não importa: seu preconceito contra negros e imigrantes é intolerável. É consenso que as experiências prévias dela não podem justificar um julgamento sobre toda uma identidade (raça, origem, identidade e orientação sexual, gênero, etc.). Guardem essa última frase.

Agora pergunto: se ela tivesse dito “Ainda bem que você é mulher”, produzindo um claro e evidente preconceito de gênero contra os homens, acaso seria maltratada e expulsa? Seria admoestada por produzir uma generalização apressada, um sentimento de hostilidade contra um grupo, intolerância com a identidade dos motoristas homens?

Não, não seria. Vi mulheres expressando isso de forma clara e até orgulhosa. Ter preconceito contra homens NÃO É um problema, não é socialmente repreensível e não causaria nenhuma comoção caso seja expressado publicamente. Todo mundo já testemunhou isso sendo feito dezenas de vezes. Assim, fica claro que não é o preconceito que deploramos, mas apenas quando o uso de generalizações negativas recai sobre grupos socialmente desfavorecidos. O preconceito em nossa cultura é LIBERADO, o que não pode ser tolerado socialmente é seu uso para estigmatizar segmentos ou identidades que já são atacados ou desmerecidos.

Falar mal de homens, brancos, cis, heterossexuais etc, é absolutamente permitido e até estimulado. Não há problema algum tratarmos brancos como um bloco uniforme chamando-os de “branquesia”, tratar os homens por “mascus” ou “macharedo” ou desmerecer a heterossexualidade. Não há problema algum em enxergar todos os homens como versões de Fred Flintstone ou Homer Simpson. Não existe nenhuma revolta pelas generalizações sobre estes grupos; pelo contrário, são até elogiadas.

Não esqueçam que racismo é preconceito de raça e o que a passageira do Uber fez foi preconceito. Não há distinção. Também não há como deduzir que ela NÃO teve mais experiências negativas porque estava rindo. O comportamento diante dessa interação é errático e não segue padrões. Talvez quisesse apenas que ele se associasse a ela no preconceito. Mas veja…. boa parte das mulheres manterão sua perspectiva de que não há problema ter preconceito de gênero com os homens porque eles são realmente maus, abusadores e violentos, mesmo que 99.99999% das interações das mulheres com os homens seja absolutamente pacífica. Minha tese, que eu gostaria que fosse debatida, é sobre o fato de que não temos problema algum – enquanto cultura – em assumir posturas preconceituosas. O problema é contra quem é o preconceito é exercido, e não o julgamento pregresso que temos de pessoas, grupos ou identidades.

E vejam, eu não reclamo dessas características da cultura sobre a forma como os grupos são tratados, e entendo o preconceito contra os grupos vistos como poderosos – brancos, homens, heterossexuais, cis gênero, etc, mas apenas acredito ser errado criar sobre estas identidades uma falha moral, como se pertencer a elas fosse errado ou indecente, o que permitiria que fossem tratados de forma generalizada como inferiores, maléficos, degenerados ou violentos. Da mesma maneira, acredito ser absurdo imaginar que a condição de oprimido garanta uma vantagem moral sobre grupos opressores. Acho também que qualquer preconceito contra identidades é deplorável, e não apenas aqueles socialmente estimulados.

E… não é necessário concordar comigo; segundo meu ídolo Oscar Wilde, “Quando as pessoas concordam comigo, tenho sempre a impressão de que devo estar enganado.”

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Marionetes

Diante da minha necessidade em treinar a escrita no idioma inglês eu costumo participar de debates no Facebook sobre assuntos variados, e minha diversão é expressar teses polêmicas em notícias de empresas de “news”, como Insider Presents, Daily Mail, Washington Post, etc.

Vendo os comentários de americanos sobre a guerra na Ucrânia eu fortaleço a minha crença de que o cidadão médio dos Estados Unidos é o grupo humano mais manipulado que existe. A visão que eles têm sobre o conflito é um retrato fiel da avalanche de fake news e visões distorcidas despejadas pelas suas empresas de comunicação. Para estes espectadores, a Ucrânia está vencendo a guerra, a Rússia sofrendo derrotas humilhantes diariamente, a guerra é uma ação honrada da Ucrânia e essa história de nazistas, batalhão Azov, Pravyy Sektor e golpe de estado “não é bem assim”, e o verdadeiro nazista é Putin, o açougueiro.

Sobre as motivações da guerra, falam quase em uníssono sobre o absurdo da Rússia invadir uma “nação soberana” mas, quando confrontados com o fato do seu país fazer isso em todo o planeta, sendo responsável pela morte de 11 milhões de pessoas nos últimos 30 anos em suas buscas por petróleo e controle geopolítico, eles afirmam que isso ocorre para derrubar genocidas sanguinários e liberar os povos oprimidos, e as mortes seriam “efeitos colaterais”, um preço pequeno a pagar para levar a democracia liberal ao mundo.

O sujeito médio americano é um marionete da mídia corporativa, condicionado a repetir tolices da TV conservadora e condenado a aceitar as ações imperialistas determinadas pelos oligarcas americanos e o estado profundo.

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A Vanguarda do Retrocesso

Foto – Internet

Ainda repercutem as manifestações do Secretário de Atenção Primária do Ministério da Saúde, Sr. Raphael Câmara, ao anunciar a nova caderneta da gestante. Com a truculência habitual, o representante da pasta apresentou uma série de retrocessos que servem mais para reforçar o poder da medicina e barrar os avanços no sentido de uma maior autonomia das mulheres, o protagonismo delas sobre os partos e também para impedir o crescimento de visões alternativas sobre o nascimento, em especial o trabalho oferecido pelas parteiras profissionais – enfermeiras obstetras e obstetrizes.

A figura do médico Raphael Câmara serve também para criar uma ponte entre os interesses da categoria e o bolsonarismo, já que o referido profissional milita nas duas causas. Não é de hoje que ele é um crítico feroz da atenção ao parto oferecido pelas enfermeiras obstetras, contrário ao programa Mais Médicos, avesso às propostas da humanização do nascimento e à Rede Cegonha. Da mesma forma faz parte do seu arsenal de ataques o enfrentamento ao uso do termo “violência obstétrica”.

Entre as defesas de procedimentos médicos que fez quando do lançamento da nova caderneta ele falou com especial ênfase da manobra de Kristeller e da episiotomia, para ambas guardando o seguinte comentário: “É importante eu, como obstetra, falar que dependendo da situação e, eu concordo, em casos excepcionais, eles podem e devem ser feitos, e quem define isso é o médico. Não são leigos, não são militantes”. É interessante – e de extrema gravidade – que estas afirmações sejam expressas ao se referir a duas intervenções proscritas pela boa medicina. Em outras palavras, para o Sr Raphael, as evidências científicas sucumbem diante do valor ilimitado do poder médico sobre o corpo das mulheres, que não pode ser desafiado por nenhum poder externo à Medicina – como as pesquisas e metanálises realizadas sobre o tema.

A manobra de Kristeller é basicamente a pressão sobre o fundo do útero (vide foto acima), realizada para apressar o parto. É uma manobra cheia de riscos, entre eles fraturas de costelas, rupturas de fígado, baço, útero e que podem até levar à morte. É proibida pelo conselho de enfermagem, mas ainda é frequentemente utilizada nos hospitais brasileiros, muitas vezes causada pela inabilidade ou impaciência dos médicos em aguardar o momento mais adequado do nascimento.

Já a episiotomia é uma cirurgia que corta o períneo com um bisturi ou uma tesoura para alargar a pele e os tecidos subcutâneos da vagina, visando alargar e “facilitar” a passagem do bebê. É chamada popularmente de “pique”, e foi disseminada nos Estados Unidos nos anos 20 do século passado pelo obstetra Joseph De Lee, que também foi o propagador do “fórceps profilático”, ambas as intervenções baseadas em sua visão particular do parto como patologia. Segundo De Lee, “os partos são eventos decididamente patológicos, semelhantes a cair por sobre um ancinho”. Os trabalhos definitivos que mostram a inutilidade desta cirurgia usada como rotina obstétrica e os riscos relacionados a ela tem quase 40 anos de idade, mas no Brasil elas ainda ocorrem em quase 60% dos partos.

A episiotomia tem uma representatividade simbólica para a obstetrícia – desde sua origem – que ultrapassa seus efeitos clínicos. Ela é a cirurgia da onipotência, do poder fálico do escalpelo, a assinatura médica no corpo da mulher, a tomada de posse, a marcação do nome do autor na obra, mostrando quem realmente a produziu. Não é à toa que os médicos dizem que “fizeram” os partos de suas pacientes.

Foto – UOL Notícias

Sem entender as motivações inconscientes que nos levam a cortar o corpo de uma mulher no nascimento de seus filhos, nenhum estudo terá significado, pois enxergará apenas aquilo que a luz da pesquisa ilumina, deixando a chave dessa invasão ainda para ser descoberta, pois que se esconde na parte obscura da cena.

As episiotomias se mantém vivas na prática médica porque sua entrada na rotina dos nascimentos não se deu por questões racionais ou através de pesquisas científicas; em verdade ela teve seu início triunfante na rotina dos médicos por se adaptar às necessidades da obstetrícia nascente que via na aplicação dessa cirurgia a possibilidade de afastar as enfermeiras – suas concorrentes no cenário do parto – valorizando uma habilidade que apenas a eles era permitida exercer. Para isso era necessário apostar na ideologia da defectividade essencial das mulheres e do seu mecanismo de parto como a justificativa perfeita para que os cirurgiões pudessem usar sua arte para consertar e dar funcionalidade aos corpos equivocados, mal feitos, disfuncionais e essencialmente perigosos das mulheres. No Brasil a profissão das parteiras profissionais foi quase extinta, assim como nos Estados Unidos, e foi somente durante os movimentos de contracultura dos anos 60 que a atuação das parteiras conseguiu uma maior visibilidade para, a partir de então, iniciar seu lento renascimento.

Foto – Pragmatismo Político

O paradoxo entre as pesquisas mostrando a inutilidade no uso rotineiro dessa cirurgia (há mais de três décadas) e sua sobrevivência no imaginário e na prática obstétrica contemporânea só pode ser entendido se levarmos em conta as motivações poderosas – conscientes e inconscientes – que controlam a prática médica, assim como a percepção que a cultura tem das mulheres e seus corpos.

Foto Revista Época

A criação da RAMI – Rede de Atenção Materna e Infantil – se configura como um retrocesso brutal na proposta da assistência às mães e seus bebês, pois substitui uma das mais bem sucedidas iniciativas dos governos petistas por esta versão de ideologia autoritária aplicada à medicina, uma política pública que foi duramente criticada pelo Conselho Nacional de Secretários de Saúde, pelo Conselho Nacional de Secretarias Municipais de Saúde e por organizações feministas. É uma manobra para resgatar o poder dos médicos, que se sentiram traídos pelos governos populares. Foi da categoria médica – representante da pequena burguesia nacional – de onde partiram alguns dos mais violentos ataques contra o governo Dilma, em especial quando do lançamento do programa “Mais Médicos”.

Para garantir uma assistência ao parto de qualidade, alicerçada em seus pontos mais expressivos, quais sejam a garantia do protagonismo à mulher, a visão interdisciplinar e a assistência baseada em evidências será necessário que os próximos governos revertam as iniciativas autoritárias e violentas que agora estão sendo implementadas, trazendo novamente para o debate os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres e o entendimento da violência obstétrica como um mal que precisa ser combatido com vigor.

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Planeta dos Macacos

Não vejo problema algum em debater filmes clássicos e questionar as curvas lógicas que precisam ser feitas para oferecer ao espectador uma narrativa coerente. Em ficção científica isso é sempre um desafio mas é comum que muitos filmes tenham falhas lógicas, enquanto outros produzem “rombos” que ficam difíceis de ignorar. Um dos filmes que eu sempre comento (quem assistiu os cursos de Doulas sabe bem) é o filme “O Planeta dos Macacos” – o original, de 1968. Esta película – que aliás, eu adoro – tem um claro “misconception“, ou concepção equivocada do processo evolutivo, mas só os atentos percebem. Ou, no meu caso, os chatos.

Minha maior discordância é que, caso os macacos (na verdade os antropoides) realmente evoluíssem a ponto de desenvolver razão e linguagem, ainda assim seriam incapazes de estabelecer linguagem articulada. Ou seja, seriam mudos, incapazes de falar. Entretanto, Zira (Kim Hunter) e Cornélius (Roddy MacDowall), que contracenaram com o astronauta George Taylor (Charlton Heston), não só falavam como tinham uma bela voz. A de Zira ainda era sensual e aveludada.

Mas por qual razão eles não poderiam falar? Pois a resposta curta seria que seus pelos abundantes – que denunciam a falta das estratégias metabólicas e adaptativas que fomos obrigados a utilizar para sobreviver enquanto espécie – seriam um impeditivo para essa função superior.

Ou seja: é impossível ser peludo daquela forma e falar.

Sim, todo mundo nesse momento diz “Ok, mas e o Tony Ramos??” Estamos falando de uma espécie, não de um sujeito, certo? Entendam que os condicionantes para a necessária perda de pelos na nossa espécie são razoavelmente simples. Eles podem ser didaticamente divididos em 6 passos essenciais:

1- Bipedalidade – domínio do meio ambiente;
2- Dieta onívora – mudança dietética;
3- Controle do fogo;
4- Melhor absorção de proteína animal – carne;
5- Encefalização – crescimento cerebral;
6- Resfriamento cerebral obrigatório;
7- Fetação – mudança da estratégia gestacional.

Portanto, enquanto ocorriam essas mudanças surgiu a necessidade crescente de um sistema de arrefecimento de temperatura para a grande produção de calor produzida pelo cérebro. Saímos de um cérebro de 600 ml de um australopitecino (há 4 milhões de anos), passando pelo Homo erectus com 1200 ml (há 2 milhões de anos passados) até 1450 ml para um homo sapiens adulto. O cérebro, apesar de mal passar de 1kg, produz 20% do calor produzido pelo organismo. Acima de 42 graus de temperatura corporal ocorre degradação proteica e o cérebro “apaga”.

Assim sendo, para existir um cérebro gigante como o humano seria necessário diminuir com eficiência essa temperatura. A forma como solucionamos o dilema foi através da despilificação progressiva e a melhoria gradual do sistema de perda de temperatura por irradiação. O mecanismo fisiológico da evaporação do suor produzido se tornou responsável por mais de 80% do calor dissipado durante uma atividade física.

Por essa linha de raciocínio é possível se dizer que o processo de encefalização se tornou evidente e inquestionável com o surgimento do Pitecanthropus erectus – ou Homo erectus – que já vinha de fábrica com uma cabeça absolutamente desproporcional e aberrante. É ele quem vai inaugurar o nosso gênero. Ele era tão humano quanto nós, apesar de inegavelmente uma criatura bestial.

Entretanto, para existir o cérebro do Homo erectus já seria necessária uma despilificação significativa, e por isso a iconografia sobre eles sempre os mostra como “homens das cavernas”, porém claramente muito menos peludos do que os australopitecinos, o Sahelanthropus ou mesmo o Ardipithecus. E assim o é porque porque, pela ideia do sistema de arrefecimento central, perdemos os pelos de forma continuada desde há 2 milhões de anos.

Já a linguagem articulada – a fala – teria talvez 100 mil anos, se concordarmos com Chomsky e sua teoria de “descontinuidade” – basicamente a possibilidade de mutações genéticas serem as principais responsáveis por esse processo. Portanto, há um gap de 1.900.000 anos entre perder pelos e falar de forma articulada e com sintaxe. Estes eventos não podem ser colocados próximos um do outro. Em verdade, a tese que eu sigo assevera que a fala só poderia ocorrer porque muitos milênios antes desenvolvemos um processo de arrefecimento de temperatura para comportar um cérebro imenso, que por sua vez culminou na possibilidade de falarmos. A distância entre esses processos é gigantesca.

Foi a cabeça gigante a responsável pela perda dos pelos, porque precisávamos melhorar a transpiração, e para isso era fundamental deixar a pele glabra, sem pelos, para facilitar a evaporação. Outros mamíferos também tem glândulas sudoríparas, mas em quantidade muito menor e pouco efetivas para dissipar calor. Os mamíferos superiores dissipam calor pela …. língua. Olhem para um cachorro, um gato, uma vaca, um cavalo ou um chimpanzé. Cobertos de pelos só lhes resta a respiração para jogar para o meio ambiente o excesso de calor. Mas como eles têm cérebros pequenos, isso não é um grande problema.

Portanto, a minha posição quando revi o filme muitos anos depois da estreia – e após estudar os mecanismo de adaptação do ser humano até o surgimento da linguagem articulada – foi:

1- Se são inteligentes e possuem linguagem precisariam ter cérebros grandes e neocórtex;
2- Se o cérebro fosse grande precisaria de um refrigerador;
3- Se eles continuassem peludos o calor só poderia ser expelido pela boca;
4- Se fosse pela boca passariam dia e noite jogando calor para fora, tamanha a necessidade para resfriar seu cérebro enorme;
5- Se passassem tanto tempo exalando calor não desenvolveriam a capacidade de falar e sequer conseguiriam realizar a articulação de frases com os movimentos respiratórios, algo que só os sapiens conseguem fazer.

Desta forma – e abusando um pouco do humor – dá para dizer que “ser peludo impede o sujeito de falar”. Claro que a frase é provocativa, mas serve para responder uma bela pergunta: qual o sentido de perdermos pelos enquanto os grandes antropoides se mantiveram cobertos por eles?

A resposta, como visto, é a nossa cabeça enorme. Aliás, foi por causa dessa cabeça grande – e pela fetação – que se comemora o dia das mães, mas essa é outra história.

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Sedução e alienação

Líder espiritual que tem 400 retiros espalhados por 19 países foi sentenciado à prisão perpétua por estupro.

Qualquer sujeito dotado de poder, magnetismo, beleza física e carisma pode facilmente ser envolvido em um caso de abuso. Diga lá: quantas mulheres se interessariam por um envolvimento com sujeitos nessa posição? Milhares, eu me arrisco a dizer. Quantas investiriam em uma aproximação? Por certo que muitas. Quantas avançaram o sinal?

Pois é exatamente nesse encontro que ocorrem as maiores perversões e tragédias.

O abuso que ocorre por parte dos gurus pressupõe duas pontas: o sujeito que acredita na sua qualidade superior, por lhe faltar a necessária castração, e aquele outro que aceita se submeter ao poder fálico de quem tudo sabe sobre si. Esse encontro é explosivo e frequentemente catastrófico. Quando vi o documentário sobre o Osho eu não me surpreendi com seu magnetismo ou seu poder de mobilizar milhões (de seguidores e de dólares) mas a quantidade inacreditável de sujeitos solicitando avidamente para serem submetidos a esse poder magnético e essa dominação; legiões de masoquistas imersos no gozo da subserviência e à ordenação do mestre supremo.

Em minha imaginação eu me perguntava o que havia faltado a essas pessoas em sua infância mais precoce para precisarem, já adultos, de um cabresto místico a guiar cada um de seus passos. Do que são carentes essas mulheres que pulam de forma hipnótica nos braços de um abusador, cujo carisma magnético as atrai como abelhas no mel? O que falta a estes jovens rapazes para se sentirem tão atraídos para a obediência cega aos ditames do mestre? Por que se tornam impenetráveis à razão e às evidências? Por que tamanha necessidade de acreditar?

Desenvolvi desde cedo uma alergia a qualquer tipo de sujeito que assuma a posição de guru, em especial aqueles que evitam o nome, mas se comportam como se assim o fossem. De todos eles procuro distância, desde os religiosos, passando pelos cientistas, os médicos ou os artistas. Todo sujeito que é colocado nessa posição e se sente confortável neste lugar, recebe de mim o imediato rechaço. Não acredito em gênios verdadeiros que, desprezando Sócrates, pensam saber de tudo mas negam a imensidão do quanto ignoram. A verdadeira sabedoria é humilde exatamente pela constatação da infinita ignorância que carregamos como marca.

O segredo, digo eu, é o exercício constante de desinstituir-se, retirar-se constantemente da posição de mestre, para não permitir o esvaziamento da potencialidade do pupilo. “Para a existência de um guru repleto de saber há que existir um aluno esvaziado dele”..

A análise permite ao sujeito a fuga da alienação e o exercício do pensamento crítico, em especial sobre si mesmo. Resistir a tentação dos gurus é uma ato de fervor em nome da autonomia e da liberdade

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Os amores

Mas… quem poderia imaginar que sexo, entre humanos, seja algo “natural”? Precisa ser ingênuo para pensar que existe algo de natural em nós. Lacan já dizia há mais de 50 anos que “a palavra matou o real”.

Somos construções das palavras, não mais de moléculas e átomos. Desde que levantamos para comer a fruta da razão o sexo não seguiu mais as regras da biologia e da reprodução, mas da teia intrincada surgida da ruptura bizarra da ordem cósmica a qual chamamos amor.

Este só surgiu do despejo abrupto do feto distópico, incompetente massa amorfa, rodeado de espaço sufocante e carente de afago. Foi ali, no desamparo, na perda angustiosa do idílio perfeito, que a treva se produziu pelo brilho intenso das duas estrelas que, piscando, lhe dizem “meu filho querido”.

E dessa conexão se fez o amor, pois que se ele existe foi aí semeado, e de tanto amor todos os outros amores são desse princípio derivados.

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Messianismo

Muitos ainda cultuam uma visão messiânica da medicina, cuja crise na área da obstetrícia poderia ser explicada pelo fato de estar sendo “atacada por hordas de bruxas que odeiam a ciência”.

Mal sabem eles que a atenção ao parto oferecida pelas enfermeiras obstétricas e obstetrizes é ciência de ponta, enquanto o parto atendido pela tecnocracia médica é um resquício autoritário que ainda se mantém pela força do poder econômico e da propaganda.

A assistência ao parto realizada por parteiras profissionais é a verdadeira revolução sexual feminista que, ao mesmo tempo em que exige a autonomia e o protagonismo garantido às mulheres, não se permite abrir mão das especificidades femininas de gestar e parir, encontrando nestas funções fonte de realização e empoderamento

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A Sedução do Totalitarismo

Em relação à compra do Twitter pelo bilionário “dandi” Elon Musk, não se trata abolir a responsabilidade sobre o que é publicado. Aliás, NINGUÉM fala sobre isso. Todos concordam que mentiras, falsidades, injúrias e difamações precisam ser punidas quando comprovadas. O que se fala – e com toda a razão – é da censura, bloqueios, silenciamentos e controle moral sobre o que se escreve e pública. O que não me permito aceitar é que as pessoas sejam bloqueadas pelo autoritarismo dos proprietários de um bem de comunicação. E mais: as plataformas digitais NUNCA respeitaram as leis dos países, e sim a sua lei interna, adaptada às leis locais. Um exemplo claro são as fotos de amamentação proibidas por aqui pelo Facebook, pelo seu código moral próprio.

Deveríamos estar falando do fato de que Washington Post, Twitter, Facebook, Instagram, Google e WhatsApp, que atingem quase toda a humanidade – a China conseguiu se livrar disso antes de ser impossível – pertencem a três mega bilionários, que se tornaram proprietários de toda a comunicação do planeta. Essa é a verdadeira obscenidade, e não as diatribes e as fake news de Trump ou Bozo.

Aliás, minha convicção é de que as pessoas, com o tempo, vão aprender a lidar com mentiras da internet. Vão parar de acreditar em qualquer coisa e desenvolverão um senso crítico mais apurado. O remédio para as mentiras nunca será o silêncio, e muito menos a aprovação por um “conselho de notáveis” que decidirão por nós o que podemos ou não ler e ver.

“Censura do bem” não existe, assim como não há “ditadores de bom caráter”. Em longo prazo censurar é sempre um desastre, pois esta estratégia jamais conseguiu soterrar boas os más ideias, pois que elas, na escuridão, vicejam com mais força.

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“Não me decepcione”

A frase foi escrita para mim depois de ter postado nas redes sociais uma das minhas teses controversas. A pessoa que a escreveu acompanhava os meus escritos há muitos anos e dizia mesmo que gostava do que eu publicava. Mas quando ela respondeu daquela forma à minha postagem soou uma sirene na minha cabeça. Por que deveria eu me preocupar em não decepcioná-la? Que lugar era esse em que ela havia me colocado?

Quando temos admiração por uma personalidade qualquer, desde um presidente, uma artista famosa ou até o marido da sua tia construímos em nossa cabeça sua imagem virtuosa. Devotamos a ela nosso afeto, reconhecimento e amor. Por outro lado, essa carga afetiva dada de forma espontânea exige uma contrapartida: queremos que o nosso afeto e nossa devoção sejam pagos de maneira equivalente ao amor que oferecemos. Uma forma de pagar é exigir que se mantenha fiel à imagem que dele fazemos.

Este tipo de cobrança me traz à memória a morte da cantora Selena Quintanilla, uma grande diva da música Latina, morta em 1995 pela chefe do seu fã clube, Yolanda Saldívar. Por certo que, para Yolanda, havia uma dívida imensa de amor que jamais foi paga por Selena, e esta foi a razão principal de sua atitude tresloucada: a dolorosa decepção pela falta da contrapartida do afeto oferecido. “Onde há amor demais, afaste-se”, diria o sábio.

Também com os nossos ídolos é assim. Demandamos deles que sejam sempre como nossa imaginação e o nosso desejo determinam. Queremos que pensem como nós, não se afastem dos nossos valores, e que sejam um exemplo de vida impoluto e sem qualquer mácula. Essa é o pagamento que lhes cabe para saldar a dívida que acumulam conosco.

Com o tempo me dei conta do quanto essa devoção é aprisionante. Quando escrevia textos controversos – alguns até exagerados – acostumei a encontrar manifestações do tipo “sempre curti o que você escrevia, mas agora não dá mais para aguentar, seu….” e colocavam um adjetivo demeritório. Claro que isso me afetava e muitas vezes troquei termos, expressões e o até sentido de uma frase para não ser violento em demasia. Por outro lado eu sentia um enorme temor de mudar algo dos meus pensamentos mais sinceros apenas pela pressão em cumprir o desejo de alguém.

Hoje eu sou obrigado a reconhecer que a sensação de alívio que acompanha essa libertação é inegável. Falar, escrever, cantar, gritar e se manifestar livre de qualquer constrangimento é uma sensação única, e merece ser tratada como um real objetivo de vida. Como dizia meu pai “Liberdade é nossa meta última”.

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