Arquivo da categoria: Pensamentos

Diferenças

Tenho uma tese que carrego há décadas. As divergências morais e intelectuais entre os humanos são muito pequenas. Assim como nas minúsculas diferenças genéticas que temos com nossos primos primatas, as distâncias entre gênios e sujeitos comuns são ainda menores. No grande espectro são desprezíveis. As nossas discrepâncias são muito menores do que as semelhanças. Ainda mais posso dizer entre gêneros e “raças”. Não há qualquer diferença moral ou intelectual entre homens e mulheres, ou entre qualquer etnia.

A diversidade observada pode ser facilmente explicada pela história e pela geopolítica dos últimos 80 séculos, o que não é nada se levarmos em conta que isso representa menos de 5% do tempo em que vivemos na Terra. Exaltar um grupo especial ou desmerecer outro com essencialismos provou-se tolo e sem embasamento. Acreditar que homens são mais burros ou violentos que mulheres e que negros são mais nobres que brancos – e vice-versa – só serve a quem semeia divisões e mentiras.

Não é apenas a quantidade de informação o elemento essencial para a valorização de um profissional, mas o valor que se dá às pessoas que realizam estas funções. Não fosse assim um astrofísico ganharia mais do que um astro… de futebol, e uma professora ganharia o mesmo que um médico e assim por diante. A valoração que damos é muito mais política e cultural do que baseada no acúmulo de saberes e técnicas.

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Especismo

Chorar por um golfinho ou uma baleia mortos na praia é um sentimento nobre; já saborear um atum não causa nenhuma crise de consciência na imensa maioria de nós. São todos grandes animais aquáticos, mas um deles não desperta empatia. Por quê?

Não é “amor aos animais” o que nos faz sofrer por eles, pois amamos apenas alguns. Cães, gatos, cavalos, baleias, golfinhos, mas jamais ratos, baratas, mosquitos, gambás, cobras e escorpiões. Nossa seletividade ocorre porque nosso amor é por nós mesmos, pois nosso sentimento só se revela quando é possível SE VER no animal. No fundo é a identificação quem determina o afeto.

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Psicologia da violência

Essa “brincadeira” vai e volta nas redes sociais. Tudo bem, entendo o humor, mas cabe uma resposta mais séria.

“Estes são apenas antigos aparelhos de tortura infantil. Deixam marcas na alma sempre; no corpo às vezes. Deveriam ser expostas em um museu para as pessoas entenderem que o espancamento de crianças produziu uma geração que votou em alguém que acha a tortura aceitável.”

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Em Busca da LUZ

Meu amigo Túlio Ceci Vilaça escreveu sobre o poder e a sedução que existe em construções fantasmáticas de mentes criativas, algo mentiroso e falso mas que é apresentado como “A VERDADE que eles escondem de você”. Tipo, o bordão “Isso a globolixo não mostra!!!”

Sim, entendi e concordo. Tenho um conhecido muito querido meu que, quando adolescente, me falava de teorias conspiratórias sobre quase tudo: de ETs, de ninjas, da China, da “grande conspiração internacional” e do comunismo do dia-a-dia, mas quando você mostrava uma séria contradição a essa arquitetura de causas e efeitos (tipo, “se o STF é de esquerda, porque mantiveram o Lula preso e o impediram até de dar entrevistas?”) ele respondia com uma frase que ficou clássica entre os seus conhecidos: “Isso é exatamente o que eles querem que tu acredite”.

Essa pessoa é muito querida, e eu particularmente gosto muito dela, mas sei que estas crenças são adquiridas em estratos muito primitivos da mente, e não estão sujeitas a análises racionais. É inútil retirar o véu da falsidade para mostrar a verdade que se esconde por baixo, porque a realidade é menos importante do que o desejo. Ou, como diriam os filósofos “o intelecto do homem não é páreo para a sua vontade”.

Eu ainda entendo que a este tipo de vinculação com as teorias conspiratórias, ou a busca de um sentido recôndito, como uma maquinaria superior a coordenar as nossas vidas e através de uma ultra estrutura cósmica que coordena cada um de nossos passos apenas representa o desejo de encontrar sentido no caos, que nada mais é do que uma das mais nobres aspirações humanas.

A diferença é que alguns suportam – com maior ou menos grau de sofrimento – a angústia do desconhecido e das perguntas sem resposta, enquanto outros, por medos atávicos do desamparo, procuram estas respostas de forma compulsiva e irreflexiva, e acabam encontrando nos gurus, nas seitas, nas drogas, nos planos cósmicos mirabolantes e nas teorias conspiratórias mais elaboradas um alívio para este tipo especial de ansiedade.

Oferecer para eles (melhor dizendo, para nós) a saída dessa armadilha do desejo, não será através da ferramenta da razão. Apenas o afeto tem esse poder transformador.

PS: Ahhh, mas não esqueçam que o fato de um sujeito ser paranoico não impede que ele esteja MESMO sendo perseguido. Além disso, a pior de todas as teorias conspiratórias é acreditar que não há nenhuma conspiração.

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Crescer

Tão preocupados estamos em vencer as barreiras constritivas da infância que não percebemos o amadurecimento dos nossos próprios pais. Todavia, uma busca mais consistente pela memória e percebemos as nuances do crescimento que eles enfrentam. Meu pai aos 50 anos era muito diferente do que se tornou aos 90. Ele dizia, próximo do final da vida, uma de suas frases mais marcantes: “Não se passa um dia sequer que eu não escute o ruído estrondoso da queda de uma das minhas antigas convicções”. Ele não diria isso aos 50, mas aos 90 foi capaz de se postar de forma humilde diante do conhecimento e da verdade.

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Pudor

Há alguns anos, quando a exaltação da imagem e da individualidade ainda engatinhavam na Internet (antes do Instagram), eu escrevi uma frase provocativa no Facebook. Apesar de ser um convite ao debate, foi uma frase sincera, já que sempre foi a minha real percepção: “De todas as qualidades femininas, a que eu mais acho atraente é o pudor”. Sim, eu sei, era para provocar e para transgredir, fazendo um percurso no contrafluxo da cultura. Claro que muitas pessoas entenderam como um “conselho” para que as mulheres fossem “recatadas”, o que estava longe da verdade. Não se tratava de uma regra geral, uma prescrição ou uma análise de valor. Era tão somente o reconhecimento de uma característica minha, pessoal e subjetiva: o pudor é, para mim, atrativo. Pudor é sexy…

Entendo o pudor como a tendência a proteger a intimidade do indivíduo das invasões e dos comprometimentos. Na Grécia e Roma antigas, o conceito de pudor confundia-se com a modéstia, e para estas virtudes havia uma deusa, Aedos ou Aidôs. Em louvor a esta divindade existe um altar em Atenas e dois santuários em Roma. Ela – a modéstia – é uma das virtudes mais atacadas na modernidade, uma das mais desprezadas, sendo até confundida com falta de amor próprio. Para mim ela está mais bem representada na modéstia de Pitágoras:

“A modéstia de Pitágoras é muito sábia, pois que a profundeza e a dificuldade das verdades supremas, assim como a fraqueza da natureza humana, “escrava sob tantos pontos de vista”, são causa de que a sabedoria “não seja um bem recebido pelo homem a título de posse” ou de propriedade, isto é, um bem que ele possa empregar de modo inteiramente livre”. (apud Maritain)

O grande líder da Revolução chinesa, Mao Zedong, já nos dizia que “Só progride quem é modesto. O orgulho nos obriga a dar passos para trás.” Já o pintor e pós-impressionista francês Paul Cézanne mostrava que a modéstia, em verdade, nos aponta para a percepção de nosso lugar no mundo ao dizer que “A consciência da nossa própria força faz-nos modestos.” Por fim, o escritor e enciclopedista Charles Pinot Duclós escreveu que “A modéstia é o único esplendor que se pode acrescentar à glória. Ela é um véu transparente, que atrai e fixa os olhares”. Acho interessante debater a modéstia em um mundo de exaltação individualista e diante dos debates que sempre surgem a partir dos enfrentamentos entre o ocidente e o oriente. Passei a pensar sobre os véus exatamente por esta perspectiva: o que é mais “moderno” e em consonância com a liberdade, expor-se para todos ou mostrar-se apenas para quem você mesmo escolhe?

Hoje em dia eu, ao percorrer o Youtube, vejo a manifestação de atores, subcelebridades, personagens da mídia e pessoas comuns manifestando a absoluta falta de reserva no trato de sua vida íntima. Vejam, não se trata de abordar qualquer assunto – como sexualidade, política, feminismo, liberdade, direitos humanos, etc – mas da exposição desabrida da SUA intimidade. Mulheres descrevendo de forma realista e pormenorizada suas relações sexuais, homens falando de suas funções orgânicas da forma mais grosseira possível em uma exaltação escatológica, gente descrevendo as relações familiares (muitas vezes abusivas) sem qualquer reserva, expondo seus ódios, suas fantasias, suas vergonhas e seus amores para o mundo. Sem nenhum pudor.

Confesso que este tipo de exposição me incomoda, mas não se trata de “proibir” ou mesmo de “condenar”. Posso saudar a liberdade que temos de fazer estas exposições, mas ao mesmo tempo questionar qual o sentido do absoluto despudor. A quem interessam estas manifestações que rompem totalmente os limites entre a vida pública e privada? Muitos, dirão, movidos pela curiosidade mórbida, a mesma que nos faz diminuir a marcha do carro ao passar por um acidente. Sim, mas que serventia tem essa abertura da vida íntima para quem se expõe? Além da fama fugaz, o que sobra de sujeito a ser desvendado quando não há mais nenhuma intimidade a ser desvelada? Há alguns anos uma amiga me disse algo que me fez questionar minha posição sobre o “despudor”.

– Tenho um segredo que jamais contei para ninguém, e acho que não gostaria de morrer com ele. Posso lhe falar o que é?

Ela me contou o seu segredo, e o guardo até hoje. Entretanto, o fato de ser o guardião de sua história, algo que lhe produziu alívio e paz, me tornou muito mais próximo dela e de sua história. Fosse um relato corriqueiro, do conhecimento de todos, talvez não produzisse tamanha conexão. A modéstia, o pudor, a escolha precisa para quem se aventurar na exposição de suas coisas mais íntimas é o que produz essa sensação de ser especial para alguém.

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Violência doméstica

Em relação às violências domésticas em que o homem é a vítima eu lembro de uma história contada há mais de uma década, mas que me marcou muito. Quem me contou o caso foi uma paciente, advogada que trabalhava como defensora pública, o qual me fez repensar os estereótipos de “homens maus, mulheres inocentes”.

Neste relato ela diz que um homem veio lhe procurar pedindo ajuda. Era um senhor idoso, por volta de 80 anos, casado com uma mulher bem mais jovem, por volta dos 50, a qual por sua vez tinha uma filha adolescente de outro relacionamento. Esta mulher era uma cuidadora de idosos e havia tomado conta da falecida esposa do homem durante sua doença, e após a morte desta eles resolveram se casar, até para que ele tivesse alguém para passar sua pensão de militar. O homem dizia que, durante a doença da esposa, se afeiçoou muito à sua cuidadora, e resolveu ficar com ela depois do falecimento da companheira para garantir um futuro para sua filha pequena, agora adolescente.

Depois de alguns poucos anos ela passou a maltratá-lo, pedindo que saísse de casa (que era a sua casa) e exigindo que mantivesse o sustento da mãe e da filha. Batia constantemente no idoso por qualquer razão e não tinha nenhum pudor em chamá-lo de “velho”, “traste”, “impotente” e de deixar claro que não tinha qualquer interesse sexual nele. É óbvio que, por vergonha e por pudor, ele jamais pensou em dar queixa da mulher pelos maus tratos que recebia. Isso simplesmente não cabia na sua imagem de homem e militar.

Um dia esta mulher chegou à delegacia com os braços queimados e fez uma queixa de violência doméstica. Disse que o idoso, seu marido, havia jogado uma panela de água fervente nela, visando queimá-la e talvez até causar sua morte. Imediatamente depois deste relato foram tomadas as ações de praxe nessas situações: afastamento, impedimento de entrar na sua própria casa (construída por ele mesmo com a ajuda da falecida esposa), ordens restritivas e um processo por tentativa de homicídio. Assim dita a Lei Maria da Penha.

Felizmente, por morarem em uma rua de casas muito próximas, um vizinho presenciou toda a briga e contou para a advogada que a verdadeira história da agressão e das queimaduras era bem diferente da versão contada pela mulher. Em verdade, naquele dia ela teve um novo surto de violência contra o marido, mais uma vez baseado em banalidades. Agrediu verbalmente e depois partiu para os ataques físicos, com tapas e socos. Como ele era muito menor, conseguia apenas se defender com os braços. Num ápice de raiva, ela pegou uma panela com água quente no fogão e jogou sobre ele, mas errou o alvo e a água derramou sobre os seus próprios braços.

Parecia mesmo que ela desejava alguma reação violenta dele que deixasse uma marca física no corpo – um soco, um tapa ou, porque não, uma queimadura – para poder materializar a queixa que desejava fazer na delegacia da mulher. Quando viu seus braços vermelhos e ardentes, percebeu que isso já era suficiente. Foi à delegacia e as funcionárias de lá imediatamente compraram sua versão falsa da história, acreditando que seu marido de 80 anos era o agressor e ela a pobre vítima.

Eu entendo que, diante de uma história como essa, a tendência é acreditar na mulher. Afinal, de cada 100 queixas que chegam numa delegacia da mulher, talvez uma apenas seria referente à agressão de uma mulher no ambiente doméstico. As outras todas seriam violências masculinas, tendo a mulher como vítima. Por outro lado, sempre que julgamos alguém em função da religião, da cor da pele, da orientação sexual, colocando esse pertencimento acima dos fatos, isso tem um nome: “pré-conceito”. Neste caso, a mulher se aproveitou do fato de a violência doméstica ser predominantemente masculina para criar uma falsa narrativa, cujo objetivo era expulsar um idoso de sua própria casa. Num ambiente pré-conceituoso – onde as palavras e a versão das mulheres têm valor de verdade – é fácil perceber como os abusos se tornam sedutores.

É claro, como eu já disse, que a violência doméstica contra a mulher na vigência do patriarcado é um problema muito mais urgente e muito mais dramático do que as agressões provenientes das mulheres. Entretanto, essa maior prevalência de agressões na direção “homem —> mulher” não pode nos deixar cegos à existência crescente de violências e até mortes na direção oposta.

Se rejeitamos preconceitos de cor, orientação sexual, identidade sexual e religião é importante que não nos deixemos levar por preconceitos de gênero, até porque mulheres e homens são igualmente capazes de mentir, fraudar e enganar, tanto quanto de seguirem uma conduta verdadeira, honesta ética e amorosa. Qualquer ideia que se afaste desta realidade é puramente sexista.

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Cartinhas

Sem nenhuma surpresa a resposta de Alexandria Ocasio-Cortez às críticas que recebeu sobre sua performance na festa de milionários da qual participou (usando o vestido “Tax the Rich”) cumpriu o padrão identitário conhecido. Referiu-se aos críticos como “machistas e racistas que não suportam ver mulheres negras em posição de destaque”.

Ora, não há dúvida que o racismo e o machismo são problemas reais e urgentes em países que adotaram a escravidão como sistema durante séculos e que ainda mantém suas sociedades conectadas ao modelo patriarcal. Da mesma forma, é fácil perceber que o antissemitismo permanece na cultura ocidental como discurso segregacionista, tanto quanto a homofobia multiplica vítimas no mundo todo.

Entretanto, usar essas feridas sociais para blindar qualquer crítica aos membros desses grupos traz como consequência o desgaste da retórica, prejudicando aquelas pessoas que realmente sofrem discriminação e até morrem por estas práticas. Durante 70 anos as práticas genocidas de Israel foram respondidas pelos apoiadores dessa colônia com o “holocaust card” (vejam o discurso de Norman Finkelstein sobre essa prática). Hoje em dia, questionar as ações de representantes do mundo gay – como dizer que uma cantora trans desafina – é tratado como crime. Criticar um político negro, como Holiday, passa a ser racismo. Reclamar da ação de algumas mulheres, mesmo de esquerda, torna-se um ato “machista”, e assim por diante.

O resultado dessa prática é que hoje ninguém mais presta atenção numa acusação de antissemitismo porque esse termo foi usado durante tantos anos para acobertar os massacres palestinos que os verdadeiros antissemitas se sentem protegidos. O mau uso do termo – abusivo e oportunista – o transformou em palavra vazia. Gasto, inútil, sem poder algum. Quando você chama um garoto de 18 anos que fez duas partidas de futebol de qualidade de “craque” que palavra precisaria usar para se referir a Pelé, Zico, Sócrates ou Messi?

O mesmo acontece com a “defesa” encontrada por AOC para rechaçar seus críticos: partir para o contra-ataque puxando as cartinhas fáceis que rotulam os adversários de “racistas” e “machistas”. Só faltou o “You shall not pass!!!”, ou “Não passarão!!”.

A resposta de Glenn Greenwald a esta réplica de AOC foi brilhante. Ele, um judeu gay e de centro-esquerda, não deixou barato e afirmou que o uso dessas expressões e acusações aos críticos da sua atuação de forma oportunista prejudica as milhares de mulheres e negras do mundo inteiro que sofrem reais e inequívocos ataques por seu gênero e cor. Gastar estas acusações para se livrar de críticas justas à sua atuação política é uma ação criminosa, e as vítimas são as próprias mulheres negras que ela deveria defender.

PS: Já fui chamado de “machista” várias vezes por críticas que eu fiz a algumas mulheres. Não discuto a validade destas acusações, mas se você chama a mim e a um espancador de mulheres com a mesma palavra, algo está errado. E esse erro, que produz o desgaste da palavra, só beneficia os brutos e agressores. https://youtu.be/ZMQMPhnvb4g

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Os gays e as culturas

Segundo Joseph Ratzinger, “o conceito de casamento homossexual está em contradição com todas as culturas da humanidade”.

Não vou me deter a pesquisar a totalidade das culturas do mundo para avaliar a veracidade dessa afirmação porque ela me parece irrelevante. O mundo todo já acreditou na Terra plana e tivemos a ousadia suficiente para romper com estas crenças guiados pela luz de novos conhecimentos. Já acreditamos na Lava Jato, que ocorreu há poucos anos, e pudemos ver sua falsidade. Por que haveríamos de manter crenças anacrônicas sobre a sexualidade que, como uma roupa velha, já não nos servem mais?

A visão que as sociedades humanas até hoje tiveram da sexualidade não precisa ser uma cláusula pétrea para o comportamento sexual. Ela foi forjada na vigência do patriarcado e tinha funções que já não condizem com a cultura contemporânea. Diante de novas descobertas, e da evidente decadência do patriarcado – além das pressões pela livre expressão da sexualidade – o mais justo é rever posturas antigas e recalcitrantes, que nada ajudam na felicidade e na realização dos sujeitos sexuais.

Sugiro ao Papa que deixe de lado seus bloqueios e se permita perceber o mundo por cima de sua perspectiva dogmática. Sua Bíblia já foi por tantas vezes confrontada com os avanços humanos e esta não seria a primeira vez, e nem de longe a última, que seria necessário rever suas orientações.

Um beijo Ratz!!!!

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O Amor

Elize foi condenada pela assassinato de Marcos Matsunaga, que foi morto e esquartejado por ela em 2012, num crime que escandalizou o país.

Surpresos? Pois aceitem, o amor tem dessas coisas. Não vejo nenhuma contradição em uma assassina confessa declarar, de forma explícita e desvelada, seu amor por alguém, em especial sua filha. Em verdade, o amor (e seus desvios) é capaz de produzir o horror, o drama e a tragédia, pois que é tecido pelas finas tramas do desejo. A declaração dela pode ser legítima e sincera – e assim acredito que seja – o que não apaga seus crimes ou suas falhas. O amor, em sendo humano, é cheio de contradições e repleto de paradoxos.

Entretanto, o que de pior podemos fazer a um condenado é desumanizá-lo, e retirar dele a capacidade de amar; é negar-lhe a condição mais primitiva que nos constitui. Retirar de uma prisioneira a possibilidade de “amar para além da vida” significa tirar dela a esperança, o fio tênue que pode fazê-la suportar a vida que lhe restou. O curioso é ver uma declaração de amor banal como esta ser tratada com espanto, como se a nossa própria estrutura psíquica mais profunda não contivesse as dualidades conflituosas de amor e ódio, horror e transcendência.

Minha única crítica é que parece fácil “perdoar” a Eliza humanizando-a, colocando-se no seu lugar, olhando o mundo pelos seus olhos, caminhando pelas trilhas da vida, calçando seus sapatos. Muito justo. Entretanto, por que só Eluize e não Nardoni, Bruno ou mesmo o marido de Maria da Penha? Por que só alguns podem ser humanizados enquanto os outros são condenados à monstruosidade eterna?

Identificação é a chave.

Pois, “tudo quanto seja humano não me será estranho”, como diria o poeta e dramaturgo romano Publius Tererentius Afer. Consigo me identificar com os monstros tanto quanto com os anjos, pois sei que ambos habitam em mim, e também em cada um de nós.

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