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Pânico no Império

Só quem sofreu lavagem cerebral não entende porque estamos vivenciando um forte e consistente surto de propaganda contra os BRICS nos últimos tempos. Os ataques à Rússia e à China estão cada vez mais frequentes, mas é importante entender a razão dessa violência – recheada de mentiras e fake news – contra as duas principais potências que enfrentam o imperialismo.

A Rússia era o país mais miserável da Europa na primeira década do século XX, sendo governada por um Czar assassino e um modelo feudal de produção. Bastaram 50 anos da revolução socialista para a União Soviética colocar um homem em órbita na Terra, ainda antes dos americanos. E isso depois de perder 20 milhões dos seus habitantes na guerra que venceu por todos nós. Hoje a Rússia é o terceiro país do mundo por paridade de consumo, graças ao que sobrou de socialismo àquele país e às alianças formadas com a China. Já a China foi invadida, saqueada e roubada pelos europeus (em especial o Império Britânico) até quando promoveu sua revolução em 1949. Foi destruída e subjugada pelo exército japonês durante a segunda guerra mundial e hoje é a economia mais forte e pujante do mundo – em pouco tempo ultrapassará os Estados Unidos.

A China em 30 anos tirou 800 milhões de pessoas da fome, mais que o dobro da população americana. Vietnã é um estado próspero e superou o Brasil na produção de Café. Cuba é socialista e independente do imperialismo, e apesar de ser pobre, tem um PIB 10x superior ao seus vizinhos capitalistas como El Salvador, Rep Dominicana, Haiti, Belize, Honduras etc. E ainda sofre bloqueios terríveis há 60 anos que interrompem seu crescimento. É triste lembrar que até 1997 a China tinha um PIB menor que o do Brasil. O que houve com eles que não ocorreu conosco?

Quem não se importa com a pobreza é quem a produz: a exploração capitalista, sua ética do lucro e a exploração infinita através da escravização dos povos. O discurso antissocialista, pró capitalista e de suporte ao imperialismo só viceja naqueles cujas mentes foram lavadas e escovadas pela propaganda imperialista durante décadas, gente que trabalha para comer e sobreviver apenas para que os donos do poder possam continuar milionários.

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O Arrependimento de Palocci

Eu estava em um restaurante com a TV ligada na Globo durante o Jornal Nacional quando aquele bunda mole do Bonner anunciou que o juiz Moro havia liberado a delação de Palocci, exatamente uma semana antes das eleições. O mesmo Moro que suspendeu uma audiência de Lula antes do pleito para evitar “interferência eleitoral”. Sim a mesma delação que havia sido rejeitada pelos procuradores por não conter nenhuma informação importante e respaldada por provas materiais. Muitos bolsonaristas comemoraram esta delação, achando que ela seria a “pá de cal” na vida pública de Lula.

Na época eu – e muitos da esquerda – desconfiamos de imediato. Por que Palocci? Por que agora? Parecia uma jogada eleitoreira de um juiz corrupto e imoral, com o interesse de mudar os rumos de uma eleição que mostrava a (tímida, mas consistente) reação de Haddad na luta contra Bolsonaro, mas o clima já era muito desfavorável. O povo estava contaminado pelo discurso punitivista, “Lula ladrão”, cano de esgoto na Globo, mentiras infundadas, fake news, disparos de WhatsApp, Cambridge Analytica, depoimentos fajutos, acusações infundadas, o powerpoint criminoso de Dalanhol, e as ações abusivas e fascistas da Lava Jato. A população, movida por intensa propaganda e financiamento externo, estava apoiando um nazista como Bolsonaro da mesma forma como as massas no passado gritaram Barrabás ou H*tler. Erguer-se contra essa flagrante desrespeito às leis era pregar no deserto. Parece que as linhas da história já estavam escritas, e era necessário que Lula subisse ao Calvário para poder ressurgir depois, nos braços do povo. Bolsonaro – e o desastre de sua administração – pareciam ser inevitáveis para que o país tivesse a maturidade para entender a tragédia que se anunciava através de suas palavras.

Palocci foi constrangido, torturado, ameaçado pelos procuradores corruptos e pelo juiz que chefiava a quadrilha. Agora, passados mais de 4 anos, ele deseja rever sua posição, afirmando que sua delação foi forçada. Sabemos agora o quanto isso foi prejudicial ao país, mas ainda é preciso que os responsáveis sejam punidos, sob pena de sermos condenados a repetir os erros que tanto mal fizeram ao Brasil. É importante que Palocci diga a verdade, pois esta é a última chance de limpar sua biografia, inexoravelmente manchada por sua covardia.

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Lula e o imperialismo

A chegada do Sergey Lavrov ao Brasil acendeu as sirenes de alerta da direita e daqueles comprometidos com a influência americana no “sul global”. Entretanto, sobraram também algumas críticas da esquerda às declarações “salomônicas” de Lula sobre a guerra na Ucrânia. A declaração de Lula de que “A decisão da guerra foi tomada por dois países” se insere em uma postura diplomática bem clara e evidente dos representantes brasileiros. Por certo que a Rússia, ao invadir a Ucrânia para salvar os russos étnicos do massacre programado no Donbass pelo Batalhão Azov, tem 1% da culpa nessa guerra (que já estava acontecendo há pelo menos oito anos, desde o Euromaidan, e contabilizando já inúmeras vítimas). Os outros 99% da culpa cabem à OTAN, a Zelensky e ao naziterrorismo ucraniano, em especial às milícias do Pravyi Sektor e do Azov. Todavia, mesmo que desgoste os mais afoitos, Lula tem plena razão em se colocar à equidistante nesse conflito. Sua posição de condenar a invasão da Ucrânia pelas tropas russas é protocolar: visa demonstrar sua filiação às normativas mestras da ONU, as quais condenam as invasões de espaço territorial de outros países. Sem essa postura da nossa diplomacia, como criticar as demais ações imperialistas – como as invasões atlantistas no Oriente Médio? Por outro lado, todas as suas atitudes posteriores estão alinhadas com os parceiros dos BRICS e a perspectiva da criação de um novo bloco, que detém 25% do PIB do planeta e 40% de sua população, o que significa um mercado gigantesco e uma perspectiva de crescimento inédita. Também a fala posterior, onde Lula questiona a supremacia do dólar, e mais ainda a eleição de Dilma Rousseff como presidente do banco dos BRICS, desempenham um importante passo no sentido dessa integração e um afastamento significativo dos interesses do FMI e do imperialismo.

Nada me orgulha e estimula mais em “Lula III – o Retorno” do que sua posição anti-imperialista. O apoio aos Brics, em especial às posições de Putin, é o melhor exemplo da postura de enfrentamento ao Império. A formação de um bloco independente da ação predatória do imperialismo nos países satélites passa pelo apoio ao presidente Putin, por mais que sejamos contrários a algumas de suas posições em território russo. A posição legítima e precípua de esquerda é pela autonomia dos países, algo contrário aos interesses da OTAN e dos Estados Unidos. Porém, é assombroso testemunhar que muitos ainda apoiam a posição ucraniana, mesmo à esquerda no espectro político. Ao comprarem a versão do “Putin malvadão” e da “Rússia expansionista” – duas peças descaradas de propaganda imperialista – não tiveram nenhum pudor em oferecer total apoio (ou virar o rosto para não ver) os nazistas da Ucrânia, o Pravyi Sektor, o Batalhão Azov, a exaltação do nazista e antissemita Stefan Bandera, o massacre dos russos étnicos no Donbass, os 14 mil mortos no conflito em Donetsk e Lugansk, o assassinato dos 42 ativistas e sindicalistas (muitos deles queimados vivos) em Odessa e as ameaças da utilização da Ucrânia como base de mísseis contra Moscou pelos nazistas que chegaram ao poder na Ucrânia após o golpe do Euromaidan. Quem, ainda hoje, consegue aceitar a posição da Ucrânia e da OTAN e condenar a ação russa de proteção de sua integridade territorial?

Mais ainda: enquanto aceitam como válidas as críticas contra Putin permitem que os maiores invasores do mundo – os Estados Unidos – venham a pregar “moral de cuecas”. Ver americanos acusando russos de “expansionistas” é mais do que ridículo; é produto de lavagem cerebral, um trabalho produzidos por décadas de invasão nos países do terceiro mundo, produzindo o conhecido “excepcionalismo americano”, que permite que este país realize exatamente o que critica e combate nos outros. Lula percebeu a russofobia que permeia esta guerra e também percebeu o quanto apostar no imperialismo seria contrário aos reais interesses do Brasil, no que diz respeito à sua industrialização, autonomia e na produção de um planeta multilateral. Na verdade, a posição de Lula é quase irretocável, algo característico da sua genialidade política. Acreditar no risco de invasões russas na região é ignorar que a Crimeia não foi anexada, ela votou pelo retorno à Rússia, com mais de 95% de votos favoráveis. A Rússia tão somente protegeu a vontade soberana do povo da Crimeia – uma região historicamente ligada à Rússia, e onde ocorreu a conhecida “Guerra da Crimeia” que envolveu a Rússia czarista contra uma coalisão de países europeus e o Império Otomano. Da mesma maneira, o povo do Donbass também votou de forma massiva, quase 90% de votos, em sua independência da Ucrânia, posteriormente transformada em reunificação com a Rússia.

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Dalai

Não vi e nem quero ver o vídeo do Dalai, mas vamos combinar que, a despeito do que ocorreu, esse é um personagem que foi exaltado pelos Estados Unidos como parte de uma propaganda anti-China. Não há – e nunca houve – nada de muito especial neste personagem. Quase tudo o que se diz sobre ele faz parte de uma narrativa construída para tratar os chineses como vilões e o pobre Dalai como uma vítima dos malvadões comunas.

“O XIV Dalai Lama é um anticomunista ferrenho que herdou o trono do território do Tibet e criou a resistência pró-imperialista a partir do Chushi Gangdruk, uma milícia guerrilheira apoiada pelo governo fantoche chinês de Chiang Kai Chek e o partido vassalo Kuomintang (partidos que se refugiaram na ilha de Taiwan). O “pacifista” Dalai Lama, com apoio do Presidente dos Estados Unidos Dwight D. Eisenhower (e com uso da CIA), forneceu armas, munições e treinou Gang Chushidruk, a fim de fortalecer a guerra por procuração contra Mao Tsé Tung. Além dessa milícia pró-ocidental, a CIA apoiou outros grupos de guerrilha no local”. (Via DCO)

Apesar de ele ser o líder no exílio de uma teocracia violenta, medieval e criminosa no Tibet, o Dalai foi tratado pelo ocidente como se fosse um homem de rara sabedoria e elevação espiritual. Nunca produziu nada além de conselhos vagos sobre “amor” e justiça social – algo que não havia no feudo que comandava na Ásia. Talvez se a Rússia tivesse agido na operação especial contra seu vizinho nazista da mesma forma como os cães raivosos americanos atuaram em suas invasões – usado a estratégia “shock and awe” – para expulsar Zelenski da Ucrânia, hoje o comediante estaria nos Estados Unidos sendo celebrado e tratado a pão de ló como um “guru ucraniano no exílio”, falando trivialidades e escrevendo livros de autoajuda (talvez usando um ghost writer para isso), dando especial enfoque à paz, à liberdade e à “autonomia dos povos”.

Se você acha a comparação “forçada”, pense em como Adolf, Tio Joe, Sadam Hussein, Osama Bin Laden e tantos outros foram tratados como heróis por um tempo, e depois como vilões terríveis pelo Império, dependendo se agradavam ou não os interesses imperialistas.

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Ilusões

Já é hora de parar com a mania que a esquerda liberal tem de fazer elogios rasgados e imerecidos ao STF. O supremo tribunal é uma instituição pusilânime, que referendou todos os golpes no Brasil, e Lula tinha razão quando denunciou sua covardia. Em 1964 estiveram ao lado dos interesses americanos e dos militares golpistas e lhes ofereceram o arcabouço jurídico para as suas ações. Em 2016 chancelaram o golpe contra a presidenta Dilma sem que houvesse qualquer crime de responsabilidade. Sim, e o agora exaltado Lewandowski estava à frente desta aberração.

Não tenho qualquer ilusão com esta instituição burguesa, onde um conhecido antipetista autoritário, cortador de pés de maconha, e preferido do golpista Temer, virou “herói” nacional. “Cria cuervos” é só o que digo sobre Alexandre de Moraes. Não tenho dúvida alguma de que, mesmo depois do desastre Temer/Bozo ocorrido nos últimos 6 anos, os ministros do STF estarão ao lado do sistema financeiro e das instituições burguesas – como sempre fizeram – caso estejamos diante de uma nova crise institucional.

Não há como esquecer que foram eles que promoveram o golpe de 64, produziram a farsa do Mensalão, bloquearam Lula de assumir um ministério no governo Dilma, permitiram o golpe contra a presidente eleita, assim como o impedimento da candidatura de Lula e sua posterior prisão. Só liberaram Lula quando o fracasso retumbante do governo Bolsonaro era evidente e estava prejudicando a imagem externa do Brasil. Se dependesse de figuras como Xandão, Toffoli, Fuchs, Rosa Weber, Carmem Lúcia e Fachin, Lula permaneceria preso, ainda que comprovadamente inocente e mesmo depois da VazaJato.

E sim… precisamos entender que Bolsonaro é o resultado do processo acelerado de falência do capitalismo, e não sua origem. Bolsonaro não tem capacidade para ser o criador de nada. Se não fosse Bolsonaro seria outro a ocupar o posto de liderança do fascismo brasileiro; Mourão, Braga Neto, Moro, Dalanhol, General Heleno entre outros poderiam estar em seu lugar. Estes personagens são provavelmente muito mais perigosos que Bolsonaro, exatamente por não serem tão incompetentes e ignorantes quanto este. De nada adianta prender o ex presidente por seus múltiplos crimes sem enfrentar o bolsonarismo, o nazifascismo tupiniquim e a extrema direita imperialista, que floresceram no Brasil como reflexo das crises do Imperialismo.

A esquerda precisa entender que não podemos esperar que uma instituição criada para proteger a burguesia e seus interesses – o STF – seja capaz de liderar mudanças marcantes na estrutura perversa do capitalismo brasileiro. Abandonar nossas ilusões infantis sobre tais instituições arcaicas é um dever de quem deseja a transformação radical no mundo.

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Mentiras

Afinal, o que é uma mentira?

O conhecido aforismo de Friedrich Nietzsche, em um fragmento de 1887, onde afirma que “não existem fatos, apenas interpretações”, deve ser entendido como a submissão do real ao simbólico, a ideia de que a verdade não existe como um ente absoluto e positivo e, acima de tudo, como um alerta crítico de que a verdade não é definitiva, muito menos imutável, e que o que consideramos verdade hoje merece ser criticado e sofrer o devido contraditório. Muitas vezes estas verdades sólidas se desmancham no ar, necessitando para isso apenas a passagem do tempo. Afinal, o que é uma mentira? Se houvesse uma Verdade Absoluta – e portanto mentiras definitivas – quem decide sua essência e como ela se configura? Quem são os vestais, acima do bem e do mal, que podem objetivamente decidir o que é verdadeiro e o que não é?

É disso que se trata agora, quando tantos afirmam serem favoráveis à censura para barrar as mentiras disseminadas pelas redes sociais. Quanto mais você retira essa decisão do povo e a coloca sob o escrutínio das instituições do Estado burguês – um sistema de poder criado para calar as ambições populares – mais a esquerda será penalizada, mesmo que circunstancialmente a extrema direita possa estar sofrendo seu ataque.

A censura sempre vai favorecer os poderosos, e negar isso significa não compreender a origem e a estrutura da própria democracia liberal. Estimular a censura (mesmo quando maquiada de democracia e até quando bem intencionada) é uma estratégia conservadora, que fatalmente acaba se voltando contra as aspirações do povo. A lei anti terror, a lei da ficha limpa, a lei contra fake News…. todas elas foram aparentemente bem intencionadas e chegaram até ser usadas para punir membros da direita, mas todas – mais cedo ou mais tarde – acabaram sendo usadas para atacar as forças políticas populares e de esquerda. Lula, por exemplo, foi atacado, punido e impedido de concorrer às eleições de 2018 pela lei da ficha limpa. Poderíamos pensar que, talvez, desde o início ela foi pensada para, eventualmente, ser usada contra a esquerda em uma situação limite – como a volta de um líder popular ao governo do Brasil.

Não podemos ser vítimas dessa farsa… mais uma vez.

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Leftismo

Acho curioso que, ao ser perguntado, sempre informo que sou um sujeito de esquerda. Mas isso acontece apenas quando estou no Brasil; se estivesse nos Estados Unidos eu jamais poderia sequer imaginar me associar aos movimentos da esquerda americana. Apesar de entender a dicotomia da política americana – onde um partido único de direita se separa em dois, sendo um chamado “right” e outro “left” – ainda acredito que não existe nada mais reacionário do que ser um “leftist” do partido liberal (democrata) de lá.

Nos Estados Unidos ficou muito evidente a aposta no “fim da história” preconizada por Francis Fukuyama. No ano de 1989, quando o mundo viu caírem os muros que separavam Berlim, o cientista político e economista americano Francis Fukuyama publicava seu famoso artigo com o provocativo nome de “O fim da história?” na revista The National Interest. Nele o economista antevia que a disseminação sem contraposição das democracias liberais e do capitalismo de mercado eram os sinais inequívocos de que estávamos dando um passo definitivo para o progresso econômico e cultural da humanidade, sendo o modelo disseminado pelo Império Americano aquele se seria o fim da nossa busca por um sistema global de justiça social. Três anos mais tarde, Fukuyama publicaria o livro “O fim da História e o Último Homem”, onde explorava com mais profundidade essas ideias.

Por esta razão, o bipartidarismo americano se assenta sobre essa premissa: nenhum dos partidos tem necessidade em debater a estrutura liberal da sociedade, pois se trata de um debate morto, solapado pelo tempo e pelo fracasso do socialismo real. Todavia, para manter a face enganosa de “duas propostas” políticas, dividem-se pelas questões de costumes como aborto, direitos para gays, negros, transexuais, imigrantes, etc. Para qualquer observador atento, fica claro que se trata da mesma proposta capitalista e imperialista que está presente no “ethos” de ambos partidos, o que se pode ver facilmente pela política externa, onde o imperialismo, o apoio a Israel, o incentivo à guerra e o controle do planeta com mãos de ferro são inequívocos pontos de confluência.

Aqui no Brasil é possível ver muitos reflexos do “leftismo” importado dos americanos no debate político contemporâneo. Partidos ditos de esquerda estão apostando muito mais do debate identitário do que no combate ao capitalismo, no imperialismo e suas mazelas. A exemplo do que ocorreu com o partido Democrata, parecem que apostam em pequenas reformas e na representatividade de setores ditos oprimidos para que a base da injustiça social não seja tangenciada. Aqui, suas pautas se expressam no identitarismo e no wokismo que, infelizmente, contaminaram setores significativos dos seus militantes. Para levar adiante suas propostas e sua visão de mundo não se envergonham de estabelecer contatos profundos e íntimos com instituições imperialistas e golpistas, como a CIA, USAID e NED. Os focos principais são as instituições em defesa das mulheres, do antirracismo, as que oferecem apoio à comunidade gay e aos transexuais, financiados pelas onipresentes “Fundação Ford”, “Gates Institute”, “Open Society” e aquelas ligadas aos irmãos Koch.

Se Lula não conseguir se livrar dessa armadilha o seu governo será inexoravelmente controlado pela esta direita mascarada de progressista, da mesma forma como estes grupos controlam o governo americano agora.

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Indignação Seletiva

Parte da esquerda festiva do Brasil agora debocha das solicitações que os bolsominions presos na Papuda e na Colmeia fazem sobre as péssimas condições dos presídios. Usam a mesma retórica da direita punitivista e repetem a frase infeliz do Imperador Alexandre quando este diz que “cadeia não é colônia de férias”, dando risadas dos pedidos que alguns prisioneiros fazem sobre sua dieta – determinada por condições médicas. Outros, entre gargalhadas, insinuam que os golpistas “apodreçam na cadeia”, atitudes que demonstram que boa parte da esquerda nada mais é que uma direita de sinal trocado, incapaz de oferecer uma perspectiva civilizatória, não revanchista e progressista.

Eu prefiro olhar de outra forma. Talvez essa seja uma rara oportunidade, um momento especial para o Brasil branco e de classe média sentir na pele a dureza e a crueldade do sistema prisional medieval que vigora no Brasil. Agora, aqueles que davam risada da prisão injusta e ilegal de Lula, tem a chance de entender o quanto é indigna a vida no cárcere e porque é urgente para a sociedade debater a perspectiva do encarceramento em massa que este país emprega. Muitos relutam em aceitar que não existe justificativa para a desumanidade, e nenhuma desculpa há para o tratamento cruel, violento e degradante oferecido aos detentos nas masmorras brasileiras.

Se a melhoria das condições das penitenciárias e cadeias precisou da entrada abrupta dessa gente branca e limpinha, que assim seja. Desejar que eles sejam mal tratados – da mesma forma como a população preta e pobre sempre foi – é nivelar por baixo ao imitar a crueldade que tanto acusamos, perdendo a oportunidade histórica de mudar as condições de todos os brasileiros presos, inobstante a cor, o gênero, a religião ou o crime cometido.

Não cabe ao Estado ser uma instância de vingança e veículo para nossos instintos mais baixos. Os direitos humanos representam a conquista das sociedades contra a violência do poder absolutista sobre os cidadãos. Jogar fora estes avanços é mergulhar num medievalismo suicida.

Chocar-se – com justiça!!! – pela miséria dos Yanomamis e ao mesmo tempo fechar os olhos para a indignidade dos presídios é hipocrisia ou indignação seletiva, acreditando que alguns sujeitos são mais dignos de direitos humanos básicos do que outros.

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Capengas

William Waack – aquele do comentário racista – afirmou que a ideia expressa por Lula “quem produz é o empregado, não o empresário” foi derrubada há mais de 50 anos. Eu pergunto: quem derrubou isso? Por qual decreto? Qual a lei da produção capitalista foi revogada sem que tenhamos sido informados? Quem é William Waack na fila do pão das teorias do trabalho e capital?

Em verdade o que vem caindo insidiosamente no último meio século é a ideia romântica do empreendedor, do desbravador, do “self made man”, do sujeito que “veio de baixo”, que cria empregos e oferece graciosamente às pessoas, visando o progresso das comunidades. O que desaparece lentamente é a visão desses capitalistas como vetores de progresso e desenvolvimento capitalista, e de que eles seriam a prova da “diferença essencial” que justifica a sociedade de classes. É esse personagem de ficção, montado através dos gigantescos sistemas de propaganda, que está aos poucos erodindo do imaginário social.

O episódio das Lojas Americanas mostra o quanto esses mega empresários não se importaram em levar à falência inúmeras pequenas empresas e seus próprios empregados, maquiando criminosamente balanços da empresa para conseguir mais lucros para si mesmos – sempre às custas da miséria alheia. Mostra também que não passam de aproveitadores, exploradores, cuja única qualidade é o acúmulo de capital.

Sujeitos de moral cambaleante, não tem qualquer pudor em desmerecer o país que produziu o lucro que os enriquece e beneficia, tratando esta nação como um sub-país condenado eternamente à condição de vassalo ou figurante no espetáculo das nações. Beijam as botas do imperialismo sem nenhum pudor, tratando os cães raivosos do capitalismo destruidor como vestais, uma raça superior, onde impera a justiça e a competência. Não se incomodam de se ajoelhar aos senhores do mercado mundial, nem que para isso acabem mostrando suas lustrosas bundas para todos nós.

É chegado o tempo de enxergar esses exploradores como verdadeiramente são. Não passam de abusadores, acumuladores, moralmente capengas, socialmente irresponsáveis e criminosos. É hora de responsabilizá-los pelo mal que fazem ao desenvolvimento do País.

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Tolerância

Uma dica para aqueles que aceitam (ou mesmo gostam e aprovam) da “censura do bem” que parece consenso entre os formadores de opinião da esquerda: leiam em qual contexto Karl Popper – um liberal profundamente anticomunista – proferiu sua famosa frase. Entendam que a perspectiva de “não tolerar os intolerantes” pressupõe que alguém terá o poder de arbitrar a intolerância. Para Popper existe uma instância acima das demais que poderá arbitrar o que se constitui “intolerável” para ser expresso publicamente. Quem seriam os vestais a determinar quais palavras são permitidas e quais devem ser proibidas? Quem, dentre nós, está acima do bem e do mal?

No caso do Brasil o ministro Alexandre de Moraes – ou o STF inteiro, que inclui Fux, Fachin, Kassio Nunes Marques, André Mendonça – tem o poder de determinar que algo (ou alguém) rompeu os limites da livre expressão. Ou seja: no caso recente, quem determinou o limite da tolerância é um sujeito que foi colocado na posição de Ministro da Suprema Corte através de um presidente que chegou ao cargo por um golpe de Estado. É justo admitirmos isso? Ultimamente temos testemunhado um crescente complacência com a censura, que teoricamente estaria empenhada em combater “fake news”. O influencer Monark teve suas contas pessoais bloqueadas no âmbito do inquérito que investiga os atos de vandalismo de 8 de janeiro nos quais foram invadidos e depredados os prédios que abrigam os três poderes. Em abril último, Moraes proibiu o influencer de espalhar fake news sobre a atuação do Supremo ou do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para além disso lhe aplicou uma multa de 300 mil reais. Porém, é justo impedir que ele tenha qualquer produção de conteúdo proibida pela justiça, apenas porque suas tolices desagradam os encastelados donos do poder? Desde quando oferecemos o poder de censura para ministros do supremo?

No caso de Popper “intolerância” seria a defesa do socialismo e eliminação do controle privado dos meios de produção – algo intolerável para um liberal. Mas quem é Popper na fila do pão da democracia? Sua visão de “Sociedades abertas” é uma clara contraposição ao marxismo e ao totalitarismo, mas é um caminho de liberalismo burguês que conduziu o planeta à destruição que testemunhamos e ao neofeudalismo corporativo que se estabelece sobre o planeta.

Não esqueçam que a “intolerância com os intolerantes” é o mantra das forças de ocupação de Israel, que usam dessa mesma lógica para dizimar os “intolerantes palestinos”. Na Arábia Saudita cabeças rolam contra “intolerantes” que atentam contra o poder absoluto de seus monarcas. No Brasil essa estratégia será usada sempre que houver vozes contrárias à democracia burguesa, controlada pelas corporações e a elite financeira. Esse é o principal tropeço da esquerda liberal: não perceber que essa censura a certos termos, temas e expressões serve sempre aos poderes constituídos; é uma manobra intrinsecamente conservadora, e que mais cedo ou mais tarde será usada – como tantas vezes foi no passado – para atacar a organização dos trabalhadores e dos partidos de raiz operária.

Por fim, diante dos descalabros notáveis dos ministros do STF durante toda a sua história, sempre se aliando aos golpes e aos tiranos da ocasião, podemos dizer que Alexandre de Moraes tem méritos em salvaguardar a nossa frágil democracia diante dos ataques explícitos de Bolsonaro e sua quadrilha. Fosse Fux, ou Facchin e talvez a farra golpista seria ainda pior, Entretanto, não fez nada além da obrigação de punir como crime o que realmente é crime. Todavia, acreditar que ele é o guardião moral dos nossos valores democráticos não faz sentido algum. Alexandre representa os velhos valores da direita, o conservadorismo mais tacanho e a perspectiva punitivista mais anacrônica do direito. A distância entre Alexandre e Moro é muito menor do que imaginamos, e inclusive o primeiro já deu total apoio ao segundo.

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