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Os botes cubanos

Não se passa um dia sequer que eu não escute ou leia de um liberal a seguinte frase, normalmente dita ou escrita com sofisticada empáfia, digna da mais absoluta lacração:

“Nunca vi um americano pegando um bote e fugindo pra Cuba”.

Esse é o mantra dos direitistas, que enxergam apenas a superfície dos fatos, sem entender o que leva as pessoas a fazer esse movimento dramático de fuga de seu país. Dica: não é em busca de liberdade. Até porque o migrante que vai dividir um quarto de 3×3 com 16 pessoas, depois de atravessar um deserto ou se jogar em um mar cheio de tubarões e ratos americanos para quase morrer de sede, não está preocupado com sua liberdade pessoal. O que deseja é uma chance de ascender.

Acham mesmo que um americano pobre da periferia das grandes cidades, nas favelas de Detroit, que urina em banheiro químico, sem teto que mora numa tenda de lona no bairro Skid Row em Los Angeles, não tem dinheiro pra tratar os dentes, tem uma qualidade de vida subsaariana, mora num deserto alimentar, não tem SUS e só pode ser atendido por caridade, seus filhos não tem escola decente e morre de medo de ser espancado e morto por gangues – ou, pior ainda, pela polícia – não aceitaria fugir para um país onde segurança, educação, saúde e moradia são garantidas pelo Estado? Acha mesmo que eles se importam com uma noção idealista de “liberdade” quando a materialidade de suas vidas apresenta a prisão da miséria? E sabe por que eles não fazem isso? Porque são tão miseráveis no capitalismo que não teriam condições sequer de comprar um bote, e também porque a sociedade cubana não poderia suportar os milhões de americanos que fariam essa travessia.

Parece exagero? Olhem para o norte do México e verão cidades inteiras onde o inglês virou a língua mais falada. Existe uma crescente emigração de aposentados americanos para cidades como San Miguel de Allende para que possam viver uma vida com clima melhor e com saúde mais barata do que aquela do sistema privado americano. Nos Estados Unidos mais de 70% dos americanos desejam uma modelo único de saúde, mas isso nunca esteve mais distante do que hoje, pois os governantes sonegam dos cidadãos esse sistema por interesses econômicos, e porque as eleições americanas são uma farsa comandada pelo deep state, onde os presidentes são apenas os CEOs de uma empresa cujos donos são os capitalistas.

“Ahh, mas os imigrantes nos Estados Unidos são atendidos através do Charity Care”. Sim, é verdade, porém é preciso entender que a caridade que eles recebem lhes transforma em cidadãos de segunda classe e que esse benefício recebido por eles é pago por toda a periferia do capitalismo que sustenta o império. Somos nós, o terceiro mundo, que garante – com seu trabalho e seus recursos – a opulência obscena dos países imperialistas. Acham mesmo que a qualidade de vida dos americanos – um modelo que vai esgotar os recursos do planeta em breve – é produzida pelo sistema capitalista concentrador de renda, que só é mantido através da violência e que condena milhões a não ter sequer o que comer, negando aos seus cidadãos abrigo e segurança? Não, isso é o resultado do imperialismo opressor, que condena a periferia ao servilismo.

Para quem acha o modelo socialista cubano ruim tenha ao menos a honestidade não o comparar com os países imperialistas, como o seu vizinho, os Estados Unidos – com seus 8 milhões de km2 e seus mais de 330 milhões de habitantes. Compare Cuba com o Haiti, com Honduras, com a Jamaica, com El Salvador ou a República Dominicana. Todos de origem étnica e história semelhantes; todos capitalistas e todos miseráveis – com exceção de Cuba, que ofereceu dignidade humana a quem mora lá. O Haiti, por exemplo, tem um PIB 10x menor que o de Cuba, e todos esses países capitalistas tem migrantes que fogem para os Estados Unidos, México e até mesmo para o Brasil.

Entendam… o socialismo tornou o país mais pobre da Europa – a Rússia – em uma potência nuclear e um player no debate político, econômico e cultural contemporâneo. O socialismo transformou o país mais pobre e mais explorado da Ásia – a China – em uma enorme potência econômica, industrial e tecnológica. Cuba se tornou um país melhor, sendo referência mundial em educação e saúde. Agora… tome 5 minutos para pensar como a ilha seria sem o embargo cruel dos americanos. Agora reserve outros 5 minutos para entender que o embargo é exatamente para que a ilha não possa florescer e mostrar ao mundo que um outro modelo político e outro estilo de vida é possível.

E por fim, não me venham falar de capitalismo e “liberdade”, pois que esse modelo se importa tão somente com a propriedade privada. Os capitalistas do mundo inteiro jamais se importaram que seu sistema abrigasse a escravidão, o apartheid e o jugo imperialista sobre outras nações. Por que se importariam com a real liberdade de seus cidadãos se ela representa o fim dos seus privilégios?

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A arena moral das esquerdas

Wokismo é um neologismo (e um anglicismo horroroso) que pode ser traduzido como “alerta”, “acordado” ou “consciente” e começou a ser utilizada no enfrentamento dos negros contra o racismo, mas passou também a designar as políticas progressistas que tratam de gênero, identidade e orientação sexuais, assim como os direitos trans. Apesar de sua aparência progressista é um movimento conservador, cujas disseminação e alastramento ocorreram por obra da CIA e do partido Democrata americano, que o exportam para várias partes do mundo com o objetivo de sabotar a união popular, dividir a luta proletária e fragmentar a frente anti imperialista e anti capitalista.

O wokismo foi motor das primaveras árabes, sendo utilizado no Irã (aproveitando-se de uma tragédia recente), em Israel (no pinkwashing) e no Afeganistão (onde garantir escola às meninas é mais importante do que desfazer a rede de prostituição e pedofilia acobertada pela invasão do exército yankee) fazendo o colonialismo genocida ser vendido como “defesa dos direitos humanos e pela diversidade”, mesmo que sua ação destruidora contenha apenas morte e submissão.

Não é por acaso o esforço e a quantidade imensa de dinheiro que o IREE, NED, irmãos Koch, Open Society de George Soros e outros órgãos do imperialismo empregam na captação, treinamento e formação de quadros oriundos de movimentos identitários. Também é prática frequente atacar pensadores progressistas e do campo da esquerda revolucionária através de seus códigos morais rígidos, produzindo cancelamentos e linchamentos de reputação. Como exemplo recente do significado amplo do wokismo podemos citar as críticas mordazes ao intelectual Boaventura Souza Santos encontradas no Twitter. Ele é um dos raros intelectuais europeus que se posicionou abertamente contra as ações do “Otanistão“, acusando o imperialismo americano de patrocinar a guerra fratricida na Ucrânia…

…. mas, “infelizmente não passa de um machista. Afinal, não cita mulheres em seus trabalhos, ou pelo menos não as cita na quantidade que deveria, segundo nossos critérios. Cancelem-no. Apaguem suas palavras”. Desta forma, sua importante voz contra o imperialismo assassino e armamentista é eclipsado por uma crítica moral sobre sua relação com a produção intelectual feminina.

Plim!! Ponto para o Tio Sam!!!

Cabe sempre lembrar que combater o identitarismo e o wokismo não significa desprezar as lutas anti racistas, anti machistas, contra a transfobia e a misoginia, dramas que ainda são prevalentes em nossa sociedade. Muito pelo contrário, significa reforçá-las e acrescentar a elas um claro elemento de enfrentamento à gênese dessas chagas sociais: a expropriação do trabalho pelo capital.

O combate a estes “mísseis imperialistas” jogados por drones de propaganda no seio da esquerda, travestidos de diversidade, é uma obrigação da esquerda raiz, e um objetivo claro para todos aqueles que desejam a unificação dos trabalhadores. Lutas identitárias sem consciência de classe são artifícios divisionistas que, ao fim e ao cabo, fazem um branco miserável e explorado ser odiado por um negro, ambos em igual condição depauperada e vítimas da mesma sociedade desigual, desumana e capitalista. Desunidos e fragmentados em infinitas identidades serão, por certo, muito mais facilmente controlados.

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Futebol e Política

Não há dúvida de que o futebol é um fato político, como qualquer outra atividade humana – pois que não há ação coletiva de pessoas que não seja politicamente determinada – mas o jogo deve ficar o mais distante possível da política, da filiação partidária e das escolhas e vinculações subjetivas de cada um dos participantes. Sem isso teremos a política contaminando o esporte, criando rótulos, vinculações, perseguições, boicotes e preferências que nada tem a ver com o jogo e suas regras, mas com fatores de outra ordem.

Quem acredita que o futebol pode sofrer interferências da política deveria aceitar quando um treinador comunista da nossa seleção fosse defenestrado por suas convicções em um governo de direita. João Saldanha foi vítima disso. Comunista, filiado ao PCB (ainda quando na ilegalidade), proferiu sua frase mais famosa ao ditador Emílio Médici: “Você comanda seu Ministério e eu organizo meu time”, impedindo que o presidente desse opiniões sobre a seleção brasileira. Pois eu pergunto: Seria justo demitir um treinador liberal num governo de esquerda? E o melhor jogador da seleção, poderia ser retirado do time por questões suas com o fisco?

Nossa seleção representa o povo brasileiro, e ainda é um símbolo para bilhões de torcedores espalhados pelo planeta inteiro que enxergam na camiseta canarinho a esperança dos povos oprimidos pelo imperialismo. Aceitar que a política doméstica possa interferir na nossa seleção é absurdo e imoral. Quem faz isso atua contra os interesses do país.

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Pinkwashing(ton)

Militante invadiu o campo com a bandeira do arco íris e a camiseta do Superman, com apoio às mulheres do Irã e o apoio à Ucrânia

Durante o jogo de Portugal contra o Uruguai pela Copa do Mundo de 2022 o jogo foi interrompido pela entrada de um manifestante vestindo uma camiseta do “Super Homem” contendo um explícito apoio aos gays e às mulheres do Irã. Entretanto, na sua camiseta à frente, em letras grandes apareciam os dizeres…. “Salvem a Ucrânia”. Claro, não poderia faltar o símbolo Tryzub do nacionalismo ucraniano no braço do ativista.

Sim, o objetivo era associar a luta pelos direitos gays e femininos com a guerra do Otanistão contra a Rússia. Para os novatos parece uma manifestação de apoio aos oprimidos, mas para quem conhece as manobras do poder hegemônico esta é uma tática antiga frequentemente utilizada. Entretanto, é inacreditável como ainda é fácil vender propaganda imperialista para identitários. Como sempre, de início a gente engole sem mastigar mas o problema depois é defecar todo essa mistura indigesta de boas causas com guerra e dominação ideológica e militar. Aliás, a camiseta do Superman é quase um deboche para as mentes ingênuas ou descrentes. Não há nada de nobre e de ingênuo nessa mistura de causas.

Neste caso, a defesa dos oprimidos vem acompanhada de propaganda para a manutenção do poder do Império criando, de forma esperta, um “combo” indissociável. Assim, se você é a favor da causa dos gays, trans, mulheres e qualquer outra minoria precisa estar associado à aventura belicista e russofóbica da guerra da Ucrânia, nem que para isso precise estar também apoiando os grupos nazistas mais violentos, brutais e abjetos da atualidade.

O mesmo é feito em qualquer invasão americana a países soberanos. A isca é sempre “direitos humanos”, “democracia” e “derrubada de tiranos sanguinários” – cujos feitos maléficos são fabricados nos laboratórios de fake news da imprensa hegemônica. Todavia, com isso compramos no “pacote” as guerras de dominação, que ao invadir para controlar o petróleo e outros recursos naturais deixamos um rastro de mais de 1 milhão de mortos durante a invasão no Iraque, grande parte deles de mulheres e crianças.

Aos identitários cabe uma boa parte de responsabilidade pela ingenuidade que os leva a comprar essa propaganda nojenta travestida de boas intenções. A nobre causa dos negros, trans, mulheres, gays, imigrantes, etc não pode ser tratada desta forma repugnante, prostituindo suas intenções originais em nome da garantia de privilégios ao Império. O exemplo do “pinkwashing sionista“* – que criou a falsa ideia de uma democracia sexual em Israel contra a “barbárie” do Islã para encobrir o massacre da população da Palestina – recebe de muitos brasileiros simpatia e apoio, como ocorreu com um ex deputado que defende a causa gay.

É contra esse tipo de engodo que a esquerda – e todos os grupos e partidos anti imperialistas – precisam se opor. Dar voz aos “Cavalos de Troia” que levam o imperialismo escondido no ventre de suas boas intenções aparentes é um crime contra a soberania dos povos.

* Pinkwashing (lavagem rosa ou lavagem de imagem rosa) é um empréstimo linguístico (do inglês pink, rosa, e whitewash, branquear ou encobrir) para referir-se, no contexto dos direitos LGBT, à variedade de estratégias políticas e de marketing dirigidas à promoção de instituições, países, pessoas, produtos ou empresas apelando a sua condição de simpatizante LGBT. A expressão é especialmente usada para referir à “lavagem de imagem” do Estado de Israel que, promovendo a sua população LGBT+, disfarça a violação sistêmica dos direitos humanos da população palestina. (wikipedia)

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Neimá

É importante não cair na sedução de misturar os dois temas: a pessoa e o jogador Neymar. Existe, sem dúvida, uma espécie de boicote a Neymar protagonizado pela imprensa (em especial o Casagrande), que insiste nas críticas ao comportamento do jogador, menospreza suas conquistas e ressalta de forma insistente os fracassos nas Copas. Essa rejeição também ocorre por uma parte grande da torcida, em especial a esquerda identitária e festeira, que mistura a figura pública com sua performance futebolística. No caso de Neymar, assim como na vida de muitos heróis e ídolos de muitos aspectos da cultura, há uma mistura entre “autor e obra”, mas sabemos o quanto existe de esforço para denegrir a obra de alguns autores quando sua mensagem interessa à burguesia, ao mesmo tempo que “passamos pano” e esquecemos falhas graves de muitas personalidades quando sua exaltação vai no mesmo sentido dos interesses da classe que está no poder. Sabemos do interesse do imperialismo em destruir ídolos e líderes nacionais, exatamente porque eles funcionam como canalizadores de desejos populares, que via de regra não coincidem com aqueles da burguesia. .

Destruir ídolos populares é um projeto colonialista de destruição dos seus heróis nacionais, através de uma iconoclastia que não surge da humanização desses personagens, mas como uma estratégia muito bem elaborada de “desprezo moralista”, com o claro objetivo de fomentar a dominação comandada pelo imperialismo. A perseguição injusta e covarde contra Lula é o exemplo mais simples e fácil para entender o quanto as grandes potências, interessadas na subserviência nacional, apostam nesta perseguição.

Porém, mesmo sabendo que existe interesse de alguns em atacar aspectos da personalidade Neymar Júnior, ainda acho que é apressado tratá-lo como o melhor jogador de futebol do mundo, acima de Cristiano Ronaldo, Messi, Modric, Lewandowski, Benzema, etc. Acho um exagero, uma “pachecada”, e não o vejo nessa posição. Ele é top 10, por certo, mas não me parece ter atingido o posto de melhor do mundo. Todavia, como dito acima, pode se tornar caso destrua nessa Copa. Messi, ao que tudo indica (escrevo essas palavras logo após a desastrosa estreia da Argentina para a Arábia Saudita), vai fracassar de novo.

Torço por Neymar e pela seleção, e não vou me deixar seduzir pela campanha de desprezo que alguns fazem contra nosso produto mais famoso e valioso.

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Adiós, Pablo

Mais do que um cantor cubano de músicas românticas e com sonoridades magníficas, Pablo Milanés era um artista de raro talento e múltiplas facetas. Pablo nasceu em 24 de fevereiro de 1943 em Bayamo, capital da província de Granma, uma das maiores cidades da região do Oriente da ilha. Pablo era filho de um soldado chamado Ángel Milanés e sua mãe, uma costureira na cidade, se chamava Conchita Arias.

Diz-se que sua mãe exigiu que a família se mudasse para Havana para que Pablo tivesse mais oportunidade de estudo, e a partir daí passou a frequentar o conservatório de música. A década de 1950 do século passado foi considerada por muitos como a fase de ouro da música cubana, com grandes músicos e intérpretes despontando inclusive na cena artística dos Estados Unidos. Nesta sua ida para Havana ele aprendeu piano com os grandes artistas da época, explorando harmonias e tonalidades que marcaram seu estilo musical.

Com a chegada dos grupos rebeldes, liderados por Fidel Castro, e com a subsequente queda do ditador Fulgêncio Batista em 1959, um movimento cultural e nacionalista floresceu, calcado nas ideias do nascente socialismo que se enraizava no povo cubano. Surge aí o movimento “Nova Trova“, criado por Pablo juntamente com baluartes da música cubana como Silvio Rodriguez e Noel Nicola. Pablo Milanés foi casado cinco vezes e foi em homenagem à sua segunda esposa, Yolanda Benet, sua música mais famosa, a qual compôs e que rodou o mundo em inúmeras versões. Também dedicou “Cuando tú no estás” à sua última esposa, a espanhola Nancy Pérez, com quem viveu na Espanha desde 2004.

A reputação de Pablo Milanés cresceu como um dos pioneiros desta novo movimento artístico, uma corrente profundamente associada à crescente onda de libertação na América Latina. Uma das marcas deste movimento foi sua temática anti imperialista, que criticava a política dos Estados Unidos em relação à América Latina.

Pablo Milanés, por fim, teve um desacerto com seu amigo Silvio Rodriguez (foto) em especial por declarações que Silvio considerou “grosseiras e implacáveis”, e “sem o menor compromisso com o afeto”, isso no ano de 2011, quando Pablo já estava vivendo fora de Cuba.

Hoje, 22 de novembro de 2022 – o dia do músico – morreu Pablo Milanés devido a problemas hematológicos, dos quais sofria há muitos anos. Desde 2017 mudou-se para Madri na Espanha para poder tratar melhor de sua doença. Hoje, aqui no Brasil, muitos dos que acompanharam sua carreira estão cantarolando mentalmente a belíssima canção “Yolanda” para homenageá-lo. Eu, entretanto, só consigo pensar em “Canción por la Unidad Latinoamericana“, que aparece nas vozes de Milton e Chico Buarque no espetacular disco “Clube da Esquina 2” de Milton Nascimento. Esta é a música que nos mostra um Pablo Milanés apaixonado pela visão anti imperialista, a qual buscava a unificação de todos os países da América Central, Sul e Caribe.

Na juventude eu costumava declamar os versos dessa canção só para me exibir, pois ela nos conclama para algo que as esquerdas sempre levaram como bandeira: a unidade dos povos da América para se contrapor ao imperialismo brutal, cruel, desumano e destrutivo aplicado a todos nós pelas nações do norte. É uma música que canta a esperança de um porvir de solidariedade entre os povos, exaltando a proximidade cultural que nos conecta – na religião, na cor, na música, nos costumes e no passado de lutas e exploração – e deixando claro que nossas diferenças são artificiais, construídas pelos colonizadores que exploram nossos povos.

Naquela época nós cantávamos a versão de Chico Buarque, que não tinha na letra os heróis da libertação que constam na versão original de Pablo Milanés, provavelmente porque a ditadura militar jamais permitiria a inclusão de personagens tão odiados pelas classes burguesas, cuja memória e evocação trazem pavor a todos os opressores. Deixo aqui, então, a letra que ele escreveu com a homenagem merecida a Bolívar, Martí y Fidel, grandes heróis da luta pela unidade das Américas, na busca pela liberdade, pela autonomia e em direção ao socialismo.

“…Lo pagará la unidad
De los pueblos en cuestión
Y al que niegue esa razón
La Historia condenará
La historia lleva su carro
y a muchos los montará
Por encima pasará
De aquel que quiera negarlo
Bolívar lanzó una estrella
que junto a Martí brilló
Fidel la dignificó
Para andar por estas tierras
Bolívar lanzó una estrella
que junto a Martí brilló
Fidel la dignificó
Para andar por estas tierras.”

Gracias Pablito, por tus sueños, tu alegria, tu passion e tu verdad!!!

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Ícaro

Ícaro, caindo ao solo, após se aproximar deslumbrado do sol que, pelo calor, derreteu suas asas de cera.

Nas duas últimas semanas o Brasil percebeu como era a vida antes do Bolsoverso ao entrarmos de novo no universo racional. Não houve lives amadoras, motociatas, jetskyatas, discursos e perdigotos no cercadinho, mentiras à granel, insinuações de golpe e ameaças à democracia. Pela primeira vez em 4 anos se dissipou a nuvem densa de autoritarismo, de violência e golpismo do campo simbólico da nação. Passamos a respirar um ar mais limpo.

Bolsonaro perdeu 94% das citações no twitter. Para um visitante recém chegado, parece que ele nunca existiu. Ninguém mais fala seu nome, e isso foi determinado pelos próprios ex bolsonaristas, pois a ideia é desvincular a extrema direita da figura de Bolsonaro. Afinal, ele sempre foi apenas tolerado, inclusive pelos militares, que nunca confiaram na sua capacidade de liderar seus interesses. Ainda reverbera em nossa lembrança o mantra de 4 anos atrás que repetia: “Não votei no Bolsonaro; votei no Guedes” ou “Ele é idiota e talvez corrupto, mas o importante é tirar o PT“. Pois agora, sem utilidade, a própria direita joga Bolsonaro na lata do lixo; não deixaram esse gostinho para a esquerda.

Não duvido que se repita com ele o mesmo que ocorreu com Eduardo Cunha. Durante muitos anos o baixo clero comeu na palma de sua mão, e a direita o adorava. Ele controlou, com muito dinheiro sujo, os votos do congresso para impor pautas bombas e sabotar o governo Dilma. Gritavam seu nome nas ruas e o tornaram ídolo dos golpistas. Hoje ele amarga um triste ostracismo depois de ter sido até preso, mas não se furtou de concorrer mais uma vez (desta vez perdeu) e declarar um apoio entusiasmado a Bolsonaro, explicando aos jornalistas que é um ferrenho “antipetista”. Ninguém mais se importa com o outrora poderoso presidente da Câmara.

Bolsonaro talvez tenha o mesmo destino. Depois de usado pelas forças burguesas para implementar um projeto entreguista e de destruição nacional – partindo da educação e passando pelo meio ambiente, segurança e indústria nacional – ele será jogado aos leões, feito carniça. Alguns dizem que está deprimido; outros (que o consideram psicopata), acreditam que está atuando, fugindo das consequências e se escondendo. De qualquer maneira, ele sabe o destino triste que o aguarda, em especial porque agora vem a “volta do cipó de aroeira” através dos processos que chegarão na primeira instância.

Eu creio que Bolsonaro e filhos devem estar pensando que estes 4 anos foram o mais absurdo dos erros. Poderiam continuar na obscuridade, gerenciando seu Império de rachadinhas e mantendo o controle das milícias cariocas. Todavia, como Ícaro, sua arrogância e deslumbramento os fez voar perto demais do Sol, derretendo suas frágeis asas de cera. Alçaram voos para os quais não tinham competência, e agora despencam de forma espetacular. Tivessem se mantido na sua segura mediocridade, estariam ainda hoje fazendo a política rasteira, homofóbica, racista e preconceituosa que sempre os caracterizou.

Por outro lado, não tenho ilusões em relação à direita e até sobre sua franja radical: os fascistas. São muitos e são organizados. A direita em suas múltiplas vertentes alcançou a assombrosa marca de 58 milhões de votos no Brasil. É evidente que estas marcas só puderam ser alcançadas pelas manobras eleitoreiras imorais e ilegais que ocorreram à revelia da Constituição vigente, mas ainda assim é um número que impressiona. São uma força política muito coesa no Brasil de hoje, basta ver as mobilizações dos seus elementos mais delirantes. Serão uma força muito organizada e forte nos próximos anos.

Para além disso, o namoro da mídia com Lula não vai durar muito. Em breve, ao ver seus privilégios ameaçados, a burguesia mostrará os dentes e o fascismo entrará de novo no cio. Agora mesmo, quando Lula sinaliza o combate à fome e a proteção às famílias mais pobres do Brasil, o “mercado”- leia-se os patrões, os rentistas, os financistas, a Faria Lima, os bancos e o agronegócio exportador – já ensaiam críticas e ataques ao projeto de regeneração nacional de Lula, mostrando que o caminho para recuperar a nação será árduo e espinhoso. Não será nada fácil, e a luta não será bonita de ver, mas a recuperação da imagem desse país necessita passar por esse embate.

A esquerda deverá estar preparada para o que virá no futuro, mas Bolsonaro já pode ir colocando “as barbas de molho”…

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O Ativismo do STF

Melhor falar agora para não ser chamado de oportunista no futuro. Esse protagonismo oferecido ao Alexandre de Morais, um notório antipetista, anticomunista, direitista e apadrinhado do Michel Temer custará caro no futuro. Estamos alimentando corvos, que no futuro podem vir atrás dos nossos olhos. Alexandre nunca foi um democrata; ele é cria do golpismo de Temer e da turma que derrubou Dilma. Colocá-lo em evidência, dando espaço para o ativismo judicial que ele incorpora, é um grave risco para a democracia.

Sou obrigado a concordar que muitas das queixas dos bolsonaristas fazem sentido, não porque eu concorde com suas intenções, mas é impossível que uma nação democrática e soberana coloque o controle do país nas mãos de um sujeito que jamais ganhou um voto e que só tem poder porque um golpista o colocou neste lugar. Permitir a intromissão de Alexandre em assuntos que não a defesa da constituição é inaceitável. E vamos apenas lembrar que quando deveria defendê-la – no julgamento de Lula – votou contra o seu artigo quinto, mostrando que sua ideologia é mais poderosa do que a proteção da Constituição.

Deixar que Alexandre atue fora da lei, baseando-se apenas em suas ideias e preconceitos, pode ser benéfico circunstancialmente para evitar a ação dos golpistas delirantes que pretendem dar um golpe no Brasil. Todavia, permitir que este ativismo político do STF se mantenha – inclusive pela implantação de censura – é um risco para a nossa frágil democracia.

A esquerda não pode cair nessa armadilha. Não é aceitável que criemos o nosso próprio Sérgio Moro, que agindo fora da lei, pelos seus interesses próprios e comandado por forças imperialistas, criou uma das piores crises institucionais no Brasil e manchou de forma indelével a imagem da justiça burguesa – ou talvez tenha apenas levantado o véu e desvelado suas entranhas.

Precisamos colocar um freio no Supremo Tribunal Federal, para que ele não crie asas. Foi a ação penal 470, o julgamento do Mensalão – uma farsa montada para atingir Lula – que colocou estes personagens em relevância. É hora de devolvê-los ao lugar a eles reservado.

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Perseguições

Vamos deixar uma coisa bem clara: Janja incomoda porque é a mulher do Lula, e não porque é uma “mulher livre”. Janja não será objeto de ódio porque “namora”, porque “transa”, ou porque está feliz e bem casada. Isso, inclusive, é tão sexista quanto falar das mulheres “mal amadas”, ou daquela que “está feliz porque transou”. Mulheres merecem ser tratadas com mais respeito: a vida delas não circula somente em torno da sua vida sexual. Minha mulher é livre, mas ninguém a ataca, e a razão disso é porque o marido dela é um pé rapado. As mulheres dos poderosos sofrem, e isso ocorre em qualquer lugar.

A mulher do Temer, “recatada e do lar”, foi muito atacada. Foi tratada como a “vitrine do atraso” das conquistas feministas. Foi chamada – sem dó – de interesseira por ter se casado com um idoso. A mulher do Bolsonaro foi bombardeada sem nenhuma pena, tratada por todos como a “Micheque“. Não havia uma semana sem um bombardeio, envolvendo sua religião, seu fanatismo, seu oportunismo evangélico, a respeito de Queiroz (e o tal cheque que lhe deu o apelido) e sua família com ficha corrida. Agora surgiu a suspeita, sem provas, de que ela apanha do marido, que ainda vai dar muito o que falar.

Dizer que Janja é atacada porque é “livre” não explica nada, apenas reforça o mito de que os homens “morrem de medo” das mulheres livres. Homens tem tanto medo de mulheres livres quanto as mulheres tem rejeição aos homens sensíveis e delicados. Estas figuras fogem dos modelos arcaicos da organização patriarcal, mas não estamos mais na idade média. O mundo mudou, e apenas uma minoria hoje em dia aceita se submeter a estes medos e estas rejeições.

Uma prova inquestionável é o que aconteceu com Dilma. Poucos mandatários foram tão atacados quanto ela, mas ela não tinha parceiro(a). Era solteira e não namorava – ao menos de forma explícita e pública. E também não acredito que Dilma ou Janja foram atacadas por serem mulheres. Elas foram e serão agredidas incansavelmente por se contraporem aos interesses da burguesia e do imperialismo e por estarem ligadas ao PT. Serem mulheres apenas acrescenta, mas por certo que não é o fator preponderante dos ataques. Existe muito mais no embate político do que esse machismo tacanho que algumas jornalistas tentam impor como narrativa preponderante. Sem dúvida ele existe, mas não com a importância que tentam apresentar.

Janja será inevitavelmente atacada por ser a mulher do presidente da República. Pior ainda, por ser um presidente de esquerda, assim como Dona Marisa o foi anteriormente, com todas as mentiras, falsidades, dinheiro da Avon, conta milionária e os múltiplos ataques que recebeu – que, ao meu ver, a levaram à morte prematura. Será alvo dos insatisfeitos e dos perversos como todas foram, e isso não acontece apenas aqui…. vide Trump e sua mulher Melania. Este é o preço da notoriedade.

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Antipolítica

A tese mais antiga que me acostumei a escutar no debate político é a tradicional “antipolítica”, típico discurso da direita travestido de niilismo. Nesta tese, todos os políticos são iguais. Se um dia foram pessoas normais a política destruiu seus princípios e sua honestidade, tornando-os ruins e corruptos. “O Poder corrompe”, diriam eles como inaudita novidade. Aliás, esse é o discurso bolsonarista clássico, que deseja tratar todos como se fossem iguais, mas não apenas isso: a política é uma só, esquerda e direita são ilusões, e só o que vale são os desejos mais egoísticos de quem assume o poder. Toda a classe política não passa de “peças no grande jogo de xadrez”, controlado alhures, por forças invisíveis (o comunismo internacional? George Soros?) o que torna o ato de votar em uma ação inútil e ridícula. “O jogo já está jogado”, dizem.

São os mesmos que, sendo incapazes de mostrar os crimes de Lula, apontam para o inquérito conduzido pelo juiz corrupto Moro, uma peça fraudulenta que o acusou de….. nada. Nem objeto do roubo está descrito (o famoso “objeto indeterminado”), já que o Triplex não poderia ser dado a ele porque sequer pertencia à OAS. São os mesmos que apostam nas fake news de “roubos do BNDEs”, mesmo quando o próprio Bolsonaro desistiu dessa fantasia. São eles que chamam Lula de ladrão sem JAMAIS mostrar um delito seguido de uma prova. Estes indivíduos (note que não estou fazendo julgamentos morais) acreditam que o Brasil deveria ser controlado por “técnicos”, sujeitos “neutros”, longe de “ideologias”, trabalhando pelo bem comum tendo a luz do “positivismo” como norte. Ou seja…. gente de direita, e até fascistas, como se pôde observar no governo de Bolsonaro.

Não há como continuar aceitando este tipo de discurso. Durante as eleições eles se uniram à turma do “nem-nem“, como que a chamar a todos nós de “massa manipulável”, já que nada poderia ser feito diante da desonestidade essencial e inexorável que existe na política e nos partidos. Arautos do apocalipse, sinalizam com a igualdade entre Bolsonaro e Lula, mas pretendem ser infensos às disputas, posto que se consideram “neutros e realistas”.

Não são; em verdade são agentes – mesmo sem o saber ou desejar – do conservadorismo mais reacionário e mais tacanho. Apostam no imobilismo e na inação como resposta…. mas acabam votando nos candidatos da direita mais abjeta por “praticidade”, ou porque acreditam serem os “menos piores”.

Essa não…. esse discurso está caindo de velho e não cabe mais nas sociedades que pretendem emergir do subdesenvolvimento no século XXI.

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