Durante muitos anos assisti espíritas explicando a “necessidade” da exploração, da iniquidade e da injustiça social como “campo de expiação” para a humanidade. Em outras palavras, tratavam o mal, a ignorância, o erro, a iniquidade e a dor como ações benfazejas do Criador para que, através delas, pudesse o ser humano evoluir e depurar suas falhas e erros. Assim, a “pedra de tropeço” da desigualdade seria “adequada” para as experiências humanas, oferecendo um desnível que, para a trajetória evolutiva, seria essencialmente pedagógico.
Por esta razão (entre tantas outras) é fundamental a crítica incessante contra o conservadorismo inerente às religiões. É preciso colocar o dedo na ferida das posturas alienantes que negam a importância crucial da luta de classes. É inadmissível que uma corrente de pensamento inerentemente progressista como o espiritismo seja vista como um dos principais focos de conservadorismo do cenário religioso brasileiro. A ação humana é sempre propositiva, jamais passiva e alienada. Teremos o futuro que for por nós construído, e não aquele oferecido por Deus ou pelo “andar da humanidade”. Sem esse contraponto, as religiões ocuparão a linha de frente das posições mais reacionárias, impedindo o desenvolvimento social e travando a luta por igualdade. Exatamente o que vemos entre os adeptos do neopentecostalismo.
A chuva de fake News não para…. mas isso sinaliza o pânico das hostes bolsonaristas. Sabe o que é isso? Quando não há argumentos para atacar alguém a gente cria um espantalho, um inimigo falso, fajuto, fantasioso, criado à nossa própria semelhança, para que possa ser atacado com mais facilidade. Na falta de algo concreto para atacar sua honra e religiosidade, vamos inventar um Lula o mais parecido possível com… o próprio Bolsonaro.
Respondam: foi o Lula que planejou comer carne humana? Foi o Lula que admitiu zoofilia? Foi o Lula que tinha “apartamento pra comer gente”? Foi o Lula que assumir ter determinado à esposa abortar o 04 – Renan Gamer lobista? Foi o Lula que mediu negros em arrobas? Foi o Lula que disse que precisavam matar 30 mil – inocentes, inclusive? Foi Lula que declarou “sonegar tudo que pode”? Foi o Lula que disse preferir um filho morto a um filho gay? Foi o Lula que disse que espancar criança – dar um couro – conserta sua orientação sexual? Foi o Lula que disse que seus filhos eram educados e não namorariam uma negra? Foi o Lula que chamou a própria filha de “fraquejada”?
Foi o ex-presidente Lula quem comprou 107 imóveis, 51 deles em dinheiro vivo?
E vocês acham Bolsonaro …. cristão????
A gente não precisa espantalho; basta mostrar o que o próprio Bolsonaro declara.
Clark Gable e Vivien Leigh em “Gone with the Wind”….
Passei os últimos 27 anos viajando para o Centro do Império, em especial para o Texas, e sempre admirei muito a fabulosa máquina de propaganda que hipnotiza os americanos, tornando-os os cidadãos mais controlados e manipulados do mundo. Entretanto, percebi também que as pessoas de lá são iguais a todas as outras de qualquer lugar do mundo – quando observamos sua essência e os sentimentos que a todos nós pertencem.
Todavia, a capacidade de transformar seus pecados em virtudes para consumo interno é assombrosa. Poucos países são tão iludidos quanto a si mesmos quanto os gringos. E mais: para todos os desastres que protagonizam eles produzem arte, muitas vezes de alta qualidade, mas com o claro interesse de mascarar as atrocidades e crimes hediondos cometidos em nome da consolidação e manutenção do Império.
Assim, diante do fato de que a guerra civil americana matou 600.000 em uma disputa fratricida que tinha a garantia da mão de obra escrava como “leimotif“, eles revisaram a narrativa e fizeram “E o Vento Levou“. Depois da violência descomunal e o genocídio da “Corrida do Ouro“, que levou à morte mais de 18 milhões de indígenas, eles fizeram “Daniel Boone” e “Os Pioneiros“, limpando a barra dos invasores brancos que protagonizaram uma matança inédita em terras do novo mundo. Quando 1/3 da população civil da Coreia foi morta pelas bombas americanas -que jogaram mais bombas nos 3 anos de guerra lá do que em toda a II Guerra Mundial – e a infraestrutura do país ficou completamente destruída, eles fizeram “M*A*S*H” uma das comédias de TV de maior sucesso da história.
Um cidadão médio americano acredita piamente que o exército americano foi o responsável pela derrota nazista, uma guerra onde 400 mil americanos morreram, mas que matou mais de 20 milhões de soviéticos. E isso porque a sociedade americana é bombardeada por este tipo de informação falsa (a exemplo das “armas de destruição em massa”), que também chega via Hollywood e TV. Quem não lembra de “Guerra Sombra e Água Fresca” (Hogan’s Heroes), que pintava de comédia a ação americana na guerra e “Combate“, que mostrava os americanos como nobres e corajosos e os alemães como covardes e traiçoeiros? Como não acreditar que os heróis dessa guerra foram eles?
Desmerecer a força poderosa da informação e da propaganda – imaginando que “a verdade no fim prevalecerá” – é uma ingenuidade que a esquerda não pode aceitar. Combater todas estas informações mentirosas é fundamental para criar um mundo livre e que reconheça o valor da justiça social.
Eu confesso que torci pelo Biden na última eleição presidencial americana. Sei que a vitória de Trump poderia significar um estreitamento da relação entre o genocida daqui e o idiota de lá, então atirei no Trump para acertar no Bolsonaro. Entretanto, nada mais elucidativo do funcionamento do Imperialismo do que a vitória de Biden. Para quem, como nós, observa de fora, é impossível perceber qualquer diferença significativa entre a administração destes dois presidentes, mas se houver alguma, será no sentido de desmerecer o atual governante.
O anúncio das tensões crescentes na Ucrânia nos demonstra que qualquer presidente americano terá como objetivo principal o incremento do poder imperialista sobre o planeta, tanto quanto qualquer um dos seus antecessores – igualmente violentos. Não importa a quantidade de cadáveres de gente de língua estranha e de pele mais escura; o importante é manter a hegemonia, esta mesma que determina o “american way of life”. Não é possível notar diferença significativa na política externa, nas guerras e golpes, inobstante o vencedor das eleições americanas ser qualquer uma das sublegendas do imperialismo, a “direita A” ou a “direita B“. O mesmo ocorre há 70 anos em Israel: não importa quem vença as eleições por lá, a política de massacre e limpeza étnica dos palestinos será igual; o sionismo não é projeto de governo, mas uma política de Estado.
Existem coisas que fazem parte da essência do país, como o imperialismo e o sionismo. Da mesma forma, não faz diferença onde o capitalismo se instale; sua essência é o empobrecimento da população, a concentração de renda, a destruição do meio ambiente e a tendência à formação de grandes oligopólios e monopólios. Depois disso, uma máquina absurda de propaganda e a instalação de um Estado policial de brutalidade crescente será institucionalizada, para desta forma manter a classe operária comportada e satisfeita com as migalhas recebidas.
Assim como a paz mundial não será decidida pelas eleições americanas e o futuro da Palestina não estará nas cadeiras conquistadas no Knesset, o desenvolvimento das potencialidades humanas, a divisão equânime das riquezas e a solidariedade entre os povos deste planeta jamais chegará através do modelo capitalista, pois que o caráter predatório do capitalismo está entranhado inexoravelmente em sua essência mais profunda. Não será fazendo concessões à classe burguesa que conquistaremos a justiça e o equilíbrio.
E lembrando: também não haverá humanização do nascimento e respeito à fisiologia das mulheres enquanto o parto for controlado por cirurgiões. Afinal, intervir sobre os corpos está na essência destes profissionais. Como seria possível que agissem contra suas mais profundas inclinações? Uma política de “reformismo” e a manutenção do sistema de poderes nos levou a situação de agora. Desta forma, por que deveríamos continuar numa rota que jamais nos levou a mudanças consistentes?
Eu fico impressionado com a quantidade de amigos que compartilham o meu DNA (data de nascimento antiga) que justificam seu voto no Cramulhão por causa do “comunismo”, da “Coreia do Norte”, medo de virar uma “Venezuela” ou para não perderem a “liberdade” do capitalismo, usando os mesmos discursos macartistas dos anos 50.
Mais assustador é que, depois de 5 minutos de conversa, fica evidente que eles não conhecem absolutamente nada da organização política (menos ainda da história) dos países que citam, e seus conceitos de democracia e liberdade são absolutamente primários.
Mais 5 minutos de conversa e os argumentos se tornam morais, absolutamente descolados dos conceitos de socialismo ou comunismo, e aí aparecem os clichês do kit gay, de ensinar masturbação para crianças, roubalheira, petralhas, mortadelas, etc.
O que será que assusta tanto essas pessoas? Por que a simples ameaça de justiça social é capaz de produzir pânico entre estes senhores e senhoras? Por que mesmo sendo da geração que sofreu com a ditadura eles continuam apoiando regimes de força, militarismo, punitivismo e medidas contrárias à organizações dos trabalhadores?
Esta semana a direção da UDV, União do Vegetal – uma seita cristã criada por Mestre Irineu usando plantas (Mariri e Chacrona) para fazer um chá usado de forma iniciática, declarou apoio ao atual presidente da República, Jair Bolsonaro. Do pouco que conheci do perfil dos frequentadores desta religião (eu mesmo já escrevi sobre o tema e já participei de um encontro), eu tive um nível zero de surpresa com essa declaração de voto. A mesma sensação que tive ao testemunhar o bolsonarismo dos espíritas. Percebam; há um padrão de conexão entre as religiões dos países imperialistas com os valores conservadores. Por esta razão a UDV, os evangélicos, os espíritas cristãos, muitos católicos e outros estão todos ligados pelos fios invisíveis do conservadorismo brasileiro, uma estrutura social que namora com o fascismo. Creio que já escrevi muito sobre minha desilusão com os religiosos, e ainda lembrei com dos amigos de infância que se tornaram bolsonaristas, defensores do Jesus com arma na cintura, desconsiderando as falas racistas, violentas, misóginas, homofóbicas e genocidas do líder. Para mim ainda é inacreditável que, aqueles mesmos que falavam do Jesus que oferece a outra face, justificam abertamente as ações racistas, homofóbicas e terroristas do atual presidente.
A justificativa? O fantasma comunismo, por certo, que serve como um “homem do saco” para adultos. Mas também se encontra com frequência a associação de Lula com “ditaduras”, como a Venezuela, Cuba e a Coreia Popular (um trio que é tanto usado pela direita quanto desconhecido por ela), em especial no que diz respeito ao envio de dinheiro para estas “ditaduras”, assim como a “ladroagem de Lula” (que só não foi condenado porque houve um erro no CEP – uma tecnicalidade). Todavia, estes mesmos moralistas desconversam quando questionados sobre as fotos do presidente Bolsonaro com o Sheik da Arábia Saudita, este sim um ditador sanguinário e cruel, ou os inúmeros casos de corrupção no seu governo.
Entre estes aficionados do capitão encontramos gente educada, estudiosa, com curso superior, pais de família, diretores de Centros Espíritas, pastores, padres, crentes de todo tipo; todos irmanados em uma luta contra os “vermelhos”, os vagabundos dos sindicatos, os invasores de terra, os ativistas do MST (que mal sabem usar uma enxada) e os indefectíveis “socialistas de IPhone”.
“Vai pra Cuba”, “Empacote tudo que você tem e distribua para os pobres”, “Ahh, reclama do capitalismo mas usa luz elétrica(??), celular(??) e computador(??)”. “Quer ficar como a Venezuela? Na Coreia do Norte é proibido cortar o cabelo igual ao Kim, e na China você é condenado à morte em 30 dias e a família ainda precisa pagar a bala. Quer isso no nosso país?”
Somos bombardeados todos os dias por uma avalanche impressionate de propaganda via redes sociais, que em muitos causa uma profunda lavagem cerebral. “Credo quia absurdum“, como diria Agostinho, “acredito nas fake News porque são absurdas, e isso prova minha fé e o meu engajamento”. São 80 anos de propaganda anticomunista diária subliminar, insidiosa, camuflada, sub-reptícia e constante. Não importa o quão ridículas são as fake news sobre “comunistas que comem criancinhas“, ou “Na Coreia Popular mentem que a seleção venceu o Brasil na Copa do Mundo“. Todo santo dia, martelando na cabeça, criando ficções ridículas (como estas acima), produzindo narrativas baseadas em delações falsas, estrangulado as economias socialistas com boicotes, sanções e bloqueios. Condenando quem denuncia os crimes do Imperialismo – como foi feito com Edward Snowden, Chelsea Manning e Julian Assange – atacando (e matando) líderes dos direitos humanos (como na Colômbia) e usando religião como um escudo, uma identidade que precisa ser preservada dos ataques insanos dos depravados, gayzistas, abortistas e ateus, tudo pelo bem dos nossos valores e do santo nome de nosso senhor Jesus Cristo, amém.
Sobre esta ligação dos religiosos em geral com o conservadorismo e a propaganda anticomunista acho que o sobrinho de Freud, Edward Louis Bernays, tem mais a dizer do que Hippolyte Rivail, o filósofo de Lyon. Edward Bernays dizia que “somos controlados, nossas mentes são moldadas, nossos gostos são formadas e nossas ideias são sugestionadas”. Ele foi quem primeiro entendeu a importância da propaganda na criação do que passou a ser chamado de “Consenso Manufaturado”, um conceito primeiramente criado por Walter Lippmann em 1922 e posteriormente disseminado pelo intelectual americano Noam Chomsky. . Não se pode desprezar décadas de propaganda violenta que, junto com os aparatos de repressão do Estado, tentam evitar a explosão inevitável da barragem produzida pelas lágrimas de milhões que são excluídos pelos privilegiados do capitalismo. Propaganda e Estado policial. Publicidade e Forças armadas a serviço do Império. Salve-nos Luke Skywalker…
Praticamente todas as religiões derivadas do cristianismo – enquanto fenômeno social, não como doutrina – replicam uma visão individualista do progresso onde cada um, através da penitência, da fé, da “reforma intima”, do sacrifício, da dedicação à Igreja e o pagamento do dízimo, será responsável pela evolução espiritual do planeta, um conceito que se adapta maravilhosamente à meritocracia do nosso modelo capitalista. Assim, as mudanças vão ocorrer na dependência de ações individuais, inobstante os modelos sociais a que estamos submetidos. Outro fator é o pacifismo alienante de muitos religiosos, um idealismo paralisante que os impede de aceitar a sociedade de classes como o resultado inexorável do capitalismo, a qual só será derrubada através da luta de classes e do enfrentamento.
Quando eu vejo o “cristão mediano”, frequentador da sua Igreja, que toma passes, faz comunhão, se confessa, toma hóstia ou água fluida e entoa os cânticos não consigo perceber nenhuma diferença substancial entre todas as modalidades de fé cristã. Todos eles reproduzem condicionamentos sobre costumes e política, da mesma forma como qualquer um que tenha sido intoxicado por oito décadas de violenta propaganda contra a luta organizada dos trabalhadores. Espíritas, católicos, protestantes em suas diversas denominações são semelhantes demais aos “crentes” e os neopentecostais nesse terreno para que se perceba qualquer diferença. A religião, no dizer de Hegel em “Crítica da Filosofia do Direito, , é o “Ópio do Povo” (Die Religion … Sie ist das Opium des Volkes), canalizando a energia de milhões para a contemplação e a aceitação das mazelas, ao invés de seguir as palavras de Cristo e agir objetivamente para diminuir a iniquidade no planeta e a dor de seus semelhantes.
Eu conheci o nordeste muito tarde em minha vida. Já tinha conhecido os Estados Unidos e a Europa antes de ser convidado para uma consultoria em Humanização do Nascimento em um hospital da periferia de Recife (divisa com Olinda) cuja diretora era uma médica filiada ao PCdoB e com ideias muito avançadas para a época. O ano era 2001, o primeiro ano do resto da minha vida.
Minha perspectiva do Nordeste era …. Tieta do Agreste. Sim, eu olhava o nordeste como um americano médio olha para um país chamado “África” sem saber que este continente abriga países, culturas e tipos físicos tão distintos quanto um khoikhoi, um hamer e um tuareg. O nordeste, em minha imagem mental, era negro como na Bahia e…. pobre e atrasado. E todos falavam como os atores globais nas novelas.
Minha primeira visita foi a convite da Universidade, e os meus contatos foram com os médicos do hospital. Foram, por certo, encontros muito ricos para a minha compreensão do significado político do movimento do Parto Humanizado, mas tenho certeza que minha presença como consultor teve um impacto pífio no desempenho do hospital. Revoluções não se fazem com forasteiros munidos de belas ideias; elas são construídas lentamente de baixo para cima através da lenta sedimentação de conceitos e pela consciência de classe. Talvez uma semente, não muito mais do que isso. A transformação do Parto não se fará com ideias, mas com ações e lutas.
No hospital militar onde trabalhei havia um colega que tinha servido no hospital da FAB em Natal – RN. Um dia ele me contou que a frase “Doutor, tenho dor!!” poderia ser dita de forma muito distinta por cada um dos habitantes dos estados nordestinos. Depois me disse a frase com o sotaque de cada um deles e, pela primeira vez na vida, eu pude perceber a imensa diferença entre a forma de falar de um pernambucano e um baiano, um alagoano e um cearense.
A partir desse primeiro contato, ocorrido há mais de 20 anos, se iniciou minha verdadeira imersão no nordeste. Passei a viajar com regularidade para cursos, aulas, palestras, seminários e congressos. Visitei diversas vezes Natal, Campina Grande, Fortaleza, Recife, Salvador e Maceió para encontrar ativistas e levar o evangelho da Humanização. A partir desses encontros passei a ter uma admiração mesclada com uma real paixão pelo povo, a cultura, a comida, o idioma e a alma nordestinas. Fiz amigos, conheci lugares incríveis e aprofundei minha visão de Brasil. Acima de tudo, abandonei uma perspectiva branca, europeia, sulista e preconceituosa em relação ao nordeste, trocando esse sentimento primitivo por uma verdadeira paixão por tudo que essa região representa para o país.
Meu pai pernambucano sempre dizia que “a primeira regra da vida é viver; a segunda é conviver”. Conviver com as pessoas que nos parecem estranhas – ou diferentes em seus jeitos e valores – é a maior e melhor forma de reconhecer nelas similitudes e parecências, encontrando nelas a mesma humanidade que habita em nós. Por esse contato constante, minha trajetória nas últimas duas décadas pelas terras nordestinas me ensinou muito sobre brasilidade, acolhimento, calor humano e diversidades múltiplas.
Por esta razão repudio todo e qualquer preconceito com os nordestinos, pois sei que o nordeste é a máquina propulsora das mudanças profundas que este país precisará passar em um futuro próximo. Deixo aqui expresso meu profundo amor pelo povo nordestino e o imenso orgulho de ser filho de um homem dessa terra.
Acho que é essencial esclarecer que os conceitos de “direita” e “esquerda” nada tem a ver com moral, costumes, sexualidade, aborto, feminismo, drogas, combate à criminalidade etc. Sua origem está no parlamento francês na época da Revolução Francesa, onde os jacobinos – exaltados e radicais representantes dos pequeno-burgueses – sentavam-se à esquerda enquanto os girondinos – considerados mais moderados e conciliadores, representantes interesses comerciais e a visão de mundo da burguesia ilustrada, que oscilava entre a monarquia constitucional e a república – sentavam-se à direita. Os conceitos clássicos de esquerda e direita tem a ver com o tamanho do estado e o foco que se dá ao proletariado e à burguesia no conflito de classes. Também se relaciona com o valor da propriedade e as questões que envolvem o valor do indivíduo e sua inserção nas forças produtivas de uma determinada sociedade.
A partir desse entendimento, é plenamente possível a um direitista ser um ferrenho defensor da liberação e descriminalização do aborto. Aliás, é o que os liberais pregavam: cada sujeito é dono do seu corpo e do seu destino. O mesmo pode ocorrer com a liberação das drogas, tratada como uma decisão pessoal que só diz respeito à quem usa. Da mesma forma nada impede a um comunista ser contra a liberação do aborto por questões pessoais e religiosas, até porque as crenças de cada sujeito em nada impedem alguém de adotar o socialismo como ideário de lutas.
Essa confusão ocorre apenas porque se criou a ideia de que as formas de organização social e econômica devem se misturar com posições religiosas, sexuais e de costumes. Esta confusão não foi natural; ela foi induzida pelos capitalistas americanos para dividir a consciência nacional entre republicanos e democratas. De um lado os conservadores “wasp” (anglo saxão branco protestante) no “Bible Belt” (cinturão da Bíblia)do meio-oeste americano, religiosos e anti-gays, contra a liberação das drogas, contrários ao aborto, etc. Do outro lado feministas, pró-escolha (pro choice), negros, gays, trans, usuários de maconha, universitários, professores, etc.
Nessa configuração as elites americanas retiraram do campo simbólico de disputas os debates relativos à saúde universal, brutalidade policial, moradia, pobres, moradores de rua, epidemia de narcóticos, despesas militares e passariam a ditar a narrativa, estimulando o debate sobre pronomes neutros, censura, ataques às piadas machistas, representatividade negra, feminina, trans, etc. Seria a arena da moralidade e dos costumes.
Assim, todos concordariam com o “fim da história” de Francis Fukuyama, com a vitória definitiva do capitalismo, a livre iniciativa, o imperialismo, a invasão de outros países, as classes sociais, a meritocracia, o militarismo, os golpes, os ataques por procuração, o massacre dos palestinos etc, mas teríamos um espaço enorme para debater se um professor deve ser expulso da escola por chamar uma aluna trans pelo nome que consta na chamada.
O mesmo ocorre desde sempre no Brasil. A direita historicamente procura as pautas morais no sentido de criar pânico na população. Desde o “mar de lama” de Getúlio, o apartamento de Juscelino, “Lula é abortista“, “Lula vai fechar igrejas“, “o PT é ladrão”, “mamadeira de piroca“, “ideologia de gênero nas escolas“, “kit gay” e agora o “banheiro unissex“. Essas são pautas plantadas no debate nacional como manobra diversionista, para que não se discuta financiamento do SUS, salário mínimo, suporte às universidades públicas, ensino de qualidade, salário de professores, fomento do pequeno produtor, política de preservação ambiental, papel das Forças Armadas, reforma tributária, reforma política e do judiciário, desindustrialização, BRICS e controle público das mídias, entre tantas outras questões essenciais para o país.
Enquanto a extrema direita mais reacionária se afasta dos temas realmente relevantes, ela insiste em empurrar o debate para a arena que escolhe – e nós frequentemente caímos nessa armadilha. Não é por acaso que sempre ao se aproximarem as eleições surgem os assuntos e as “fake news” relacionadas ao “satanismo” de pessoas da esquerda, o tema do fechamento (ou tributação) das igrejas, dos direitos das pessoas trans, do casamento gay, dos costumes “depravados” nas universidades, de Nossa Senhora, de Jesus na goiabeira, etc.
É tempo de educar as pessoas, em especial do campo progressista, que o socialismo não é uma doutrina que se importa com o rabo de qualquer um de nós, mas um modelo de sociedade pautado na colaboração, na solidariedade e na definitiva eliminação das classes sociais que nos dividem.
Em termos políticos e sociológicos, dividir para conquistar (ou dividir para reinar) consiste em ganhar e manter o controle de uma determinada região por meio da fragmentação das maiores concentrações de poder, impedindo sua unidade e força. Esse conceito foi utilizado pelo governante romano César (divide et impera), Filipe II da Macedônia e o imperador francês Napoleão (divide ut regnes). Maquiavel cita uma estratégia semelhante em “A Arte da Guerra” (Dell’arte della guerra), dizendo da importância imperiosa em fragmentar as forças inimigas. Divisões sempre foram o maior interesse do Imperialismo. O sonho do Império Atlantista – ou Otanistão – liderado pelos Estados Unidos, era uma Iugoslávia dividida, e para isso fomentou a guerra fratricida do Kosovo, destruindo o sonho de Tito de uma nação eslava forte e unida. O desejo americano sempre foi uma Alemanha dividida, o que conseguiu por um certo tempo. O interesse do Império sempre foi dividir o Vietnã, a Coreia e a Rússia, assim como tentou com a China durante todo o século XIX. Para a América Latina – como bem cantou Pablo Milanés – ocorreu uma divisão artificial produzida pelo Império Britânico, contrária aos sonhos de Simón Bolivar. Mais modernamente, o Sudão foi dividido arbitrariamente com esta mesma lógica, claramente estimulado pelas nações colonialistas.
Até hoje se estimulam rivalidades e até guerras regionais na América Latina, como os ataques a Cuba, Nicarágua e Venezuela, não por acaso os três países que se impuseram orgulhosamente contra as determinações do Império Americano e, por isto, sofrem boicotes, ataques, sanções, atentados e golpes frequentes, todos eles financiados pelo grande capital internacional.
O próprio identitarismo parte da mesma percepção de mundo, e a través da estratégia de estímulo ao divisionismo como forma de enfraquecer a reação ao domínio. Uma sociedade pulverizada por identidades regradas por identidade sexual, raça, orientação sexual, etnias – onde um negro miserável se sente inimigo do branco explorado e pobre, a quem chama de “opressor” – também foi uma estratégia de sucesso do capitalismo americano, através do “leftismo” do partido democrata que, ao invés de abraçar as pautas socialistas e progressistas (eliminação da miséria, fim dos sem teto, sistema único de saúde, estímulo à reindustrialização), se entregou à defesa das minorias oprimidas, fragmentadas e divididas, assim como da “diversidade”, colocando operários e trabalhadores uns contra os outros como se a cor de sua pele ou sua sexualidade fossem reais barreiras para a integração, mais importantes do que a sua condição de classe.
É curioso que agora tantos falem no Brasil que “eles querem impor a divisão”. A frase é verdadeira, desde que se defina quem são eles. Falta a estes, que agora atacam os nordestinos pelo seu maciço apoio à candidatura de Lula, a percepção geopolítica de que “eles” se refere ao IMPERIALISMO, força que aqui no Brasil está ligada à extrema direita – Bolsonaro e seus seguidores. Quem realmente aposta na união nacional são os partidos da esquerda revolucionária e internacionalista, os quais reconhecem a importância da união dos povos em torno das pautas de apoio e de fortalecimento do operariado. É importante também, em meio a tantos ataques xenofóbicos contra o nordeste, entender o significado desta região para a construção do que hoje entendemos como Brasil. Nossa mensagem deve ir direto ao coração do eleitorado do sul e sudeste, este que deram seus votos a um racista declarado – Bolsonaro – e que agora depreciam o nordeste tratando esta parte do Brasil como subdesenvolvida e atrasada.
Os nordestinos salvaram o Brasil do fascismo que está presente em toda a história e as ações de Bolsonaro e – também por isso – seremos desta região eternamente devedores.
Claro que o primeiro turno foi decepcionante. A direita brasileira também fracassou de forma retumbante, mas estamos vendo o fortalecimento da extrema direita fascista, se fortaleceu no Senado e no Congresso. O Brasil ruma para se transformar em um evangelistão atrasado e violento. Metade da Câmara será de extrema direita, e praticamente todo o Senado da República. Entretanto ainda é tempo de conquistar o governo federal fortalecendo Lula para o segundo turno.
Porém…
Precisamos conversar sobre a esquerda identitária, a “esquerda” do amor e da diversidade. Precisamos voltar a ter uma esquerda dos trabalhadores, do proletariado, dos homens e mulheres pobres do Brasil. Enquanto tivermos uma esquerda do “amor”, da paz, sem luta, sem porta de fábrica, sem enfrentamento, sem peitar as forças repressoras do Estado, sem greve e sem povo na rua estaremos perdidos e o Brasil vai rumar para seu destino catastrófico: será uma grande fazenda controlada pelo capitalismo internacional.
Eu sei que não está tudo perdido. Precisamos manter o queixo erguido.
Nesta eleição, em especial, mas repetindo o que fizera em 2018, Ciro alio-se à corrente do atraso que cresceu na reta final da eleição. Ao ser “linha auxiliar” de Bolsonaro ele foi o principal responsável por não vencermos no primeiro turno. O voto útil foi usado, mas para Bolsonaro usando os votos de Ciro, que foi o maior apoiador de Bolsonaro durante os debates. Espero que ele desapareça da política.
A grande votação da extrema direita reflete a decadência moral e econômica do capitalismo. Aconteceu o mesmo na Europa. Estejamos preparados para o pior. Agora eu me sinto como se estivesse em janeiro de 1933 na Alemanha, vendo o meu país às vésperas de tomar uma decisão desastrosa para milhões de pessoas, a maioria delas com os olhos vidrados, acreditando nas palavras sedutoras do fascismo, saudando um líder fanático e com total desprezo pela vida humana. Pior ainda é perceber que estamos caminhando para um desastre ambiental, social e ético de proporções catastróficas, e não saber o que pode ser feito.
Viramos isso mesmo, um evangelistão. Seremos governados por pastores degenerados que controlam multidões de cordeiros, que por sua vez vão assistir o Brasil virar um enorme pasto para os interesses dos ricos e do capital internacional. o Brasil continuará a ser visto no mundo inteiro como o pais da miséria e da exploração perversa.
Todavia, enquanto aguardamos pelo segundo turno, é o momento de reunir os cacos, lutar por Lula e começar a pensar em um futuro para o Brasil. Precisamos mudar nossas estratégias e nossa retórica. Precisamos voltar a ser uma esquerda OPERÁRIA, de luta, de base e revolucionária.
O passo inicial é eliminar as pautas identitárias. Exterminar o discurso do “amor vencendo o ódio”. Abandonar os símbolos do amor e da paz e admitir que é preciso LUTAR será imperioso. Jogar fora toda a nossa carga de identitarismo é algo que precisa ser feito a partir de hoje. Isso significa abrir mão de figuras deletérias da esquerda, “esquerdistas” identitários de universidade, com suas pautas divisionistas, anti-operariado, que sabotam a destinação libertadora e anti sistema da esquerda. É preciso colocar a esquerda universitária no seu lugar, voltar para as fábricas, para as vilas e para as comunidades periféricas.
Afinal, que Jesus é esse que os bolsonaristas seguem? Benedita também pode ser incluída entre os evangélicos engolidos pela onda conservadora. Na verdade esse cristianismo bolsonarista não tem nada a ver com o Cristo, com seus valores morais do perdão e da solidariedade e nem mesmo com os ensinamentos contidos no Evangelho. O Jesus dos bolsonaristas tem arma na cintura e não tem apóstolos; formou sua milícia. O cristianismo dessa extrema direita é apenas uma identidade que perdeu suas raízes e hoje prega o oposto do que um dia foi seu ideário.
Hoje só tenho pensamentos tristes. Elegemos um senado ultra reacionário. Premiamos notórios bandidos como o ex juiz e o procurador da LavaJato. Colocamos um militar no Senado do RS e um astronauta fake em SP. Um chefe de milícias é o governador do RJ. Nossos representantes espelham o que existe de pior no Brasil. No fundo do buraco do bolsonarismo havia um alçapão, e lá dentro está a sombra de um futuro terrível. E os pobres? E a fome? E desemprego? E a devastação ambiental? Se tudo isso que vimos nesses últimos 6 anos de neoliberalismo não foi o suficiente para entendermos a rota suicida do país, o que nos fará acordar? Um hecatombe social?
Ainda temos o segundo turno. Nossa esperança é ter Lula como contrapeso para o desastre que o sul e o sudeste determinaram para a imagem do país. Vamos nos agarrar com todas as forças nessa esperança.