Arquivo da categoria: Violência

Dilema da Venezuela

No conflito venezuelano as oposições reclamam dos ataques aos direitos humanos. Entretanto, as táticas que usam (entre elas queimar chavistas na rua) nada tem de respeitosas. Quando o conflito entra nesse nível é impossível cobrar de um lado que seja nobre e compreensível enquanto seu oponente usa de todas as estratégias antiéticas e assassinas para aniquilá-lo. “Não se negocia com a cabeça na boca do tigre”.

Neste conflito, assim como no da Síria (ambos movidos por petróleo), depois de avaliar as demandas e as circunstâncias, eu passo a régua perguntando quais os interesses do império. Tanto lá quanto aqui do lado, o império está com a oposição e aliado às oligarquias exploradoras entreguistas. Portanto, ainda é melhor se aliar ao lado que luta pela independência e pela autonomia, mesmo sabendo que o que fazem está muito além do aceitável.

Não precisamos ir muito longe. Não esqueçam que os movimentos contra Dilma começaram sincronizados com as descobertas do pré-sal, as conversas com o Irã e a formação dos BRICS, todas atitudes que desafiam o império. Aqui foi necessário apenas treinar jovens em instituições americanas para que fossem os líderes de movimentos aparentemente renovadores, quando na verdade repetem o mesmo “anticomunismo” com uma roupagem jovial. Não foi preciso colocar tropas na rua pois nosso pais tem uma classe política tão corrupta que permitiu que o golpe ocorresse sem derramamento de sangue. Fomos vencidos sem esboçar reação.

A Venezuela, por sua vez, não cairá sem luta. O que vemos lá é o mesmo choque entre aqueles que estão cansados da exploração contra os velhos capatazes do império.

Deixe um comentário

Arquivado em Política, Violência

Polícia

A polícia do Brasil é a que mais mata no mundo. Não sei se é a que mais morre, mas isso é irrelevante. Morrem muitos policiais também, muitos mesmo, e isso é lamentável.

De qualquer forma, equipar as polícias e as transformar em máquinas de guerra não ajuda a solucionar a questão, tanto aqui quanto em lugar algum do mundo. Os Estados Unidos são um claro exemplo desse fracasso. O Japão e a China são exemplos do sucesso do desarmamento. O capitalismo americano – que conjuga opulência com miséria junto com concentração absurda de riqueza – gera o descontentamento e agressividade, semelhantes ao que vemos no Brasil. Tornar o Brasil um país-presídio, um estado policial, não funcionaria pois jamais teve sucesso em lugar algum do mundo.

“De acordo com os Centros de controle e prevenção de doenças, em 2013, armas de fogo foram usadas em 84.258 lesões não-fatais (26.65 por 100 mil habitantes dos Estados Unidos) e 11.208 mortes por homicídio (3.5 por 100.000 habitantes), 21.175 por suicídio com arma de fogo 505 mortes devidas a disparo acidental de arma.”

Nos EUA 85 mil pessoas são feridas por balas por ano e o país possui quase 3 milhões – um Uruguai inteiro – encarcerado. Criar prisões não soluciona o drama capitalista, assim como instituir leis severas ou diminuir idade penal também não. O punitivismo é um fracasso total e uma desumanidade absurda com os presos, basta olhar as masmorras em que jogamos nossos sujeitos indesejáveis. A solução é a que já conhecemos de alguns países europeus: equidade e justiça social.

Mas aí precisamos de um presidente que represente a massa dos excluídos, e isso a Casa Grande não aceita.

A alternativa é a convulsão social mas o resultado disso é morte e angústia.

Deixe um comentário

Arquivado em Violência

Abusos

Estive circulando na medicina por 39 anos e as atitudes desrespeitosas e abusivas dos estudantes, residentes, preceptores e professores sempre ocorreram. Não acredito que exista uma “crise” real surgida há poucas semanas ou meses, mas apenas uma publicidade maior para um problema centenário. Não há nada que me faça pensar que na minha época de estudante a atitude dos alunos em relação a pacientes e familiares era melhor. Em verdade, lembro de alguns episódios que seriam impensáveis nos dias de hoje, tamanho o desrespeito e o desprezo com as mulheres, em especial.

O que temos agora são mecanismos mais rápidos e eficientes de disseminar a informação e uma cultura mais madura para denunciar abusos, mas o comportamento dos estudantes e médicos continua o mesmo das últimas 4 décadas. O problema pode ser melhorado com a vigilância sobre a formação e o reforço de conteúdos éticos na faculdade (nada a ver com ética médica, que tem muito mais a ver com Maçonaria e lealdade corporativa), mas nada vai mudar de verdade sem questionarmos quem são os brancos (87%) classe média alta (80%), filhos ou irmãos de médicos (40%) que constituem o corpo discente da maioria das faculdades de medicina do país.

Esse perfil de entrada é a base para entendermos o brutal fosso de valores, ideias, visões de mundo, perspectivas e posturas que separa os médicos do universo de pacientes que são por eles atendidos. Sem que essa distância seja encurtada toda e qualquer transformação será apenas parcial e/ou paliativa.

Não basta aumentar a carga horária da disciplina de deontologia médica para “passar uma cal branca sobre a casa rachada“. Não é com este tipo de atitude que vamos fazer uma revolução paradigmática. Precisamos debater que médicos queremos e quem estamos formando. Como bem sabemos, os médicos chegam à faculdade egressos de um estrato social completamente diverso dos pacientes que virão a atender, mas a escola médica, ao invés de tentar consertar este desvio e esta perversão ainda reforça os preconceitos, assim como a visão classista e excludente dos alunos. Os exemplos vem de cima; o preconceito é uma cátedra sem professor titular, mas que todos os alunos conhecem desde o primeiro dia do curso. É por isso que as pessoas que já conviveram dentro de uma faculdade de medicina não se espantam com o relato de doutores recém formados (ou não) desprezando enfermeiras, doulas e funcionárias(os) ou tendo atitudes absolutamente machistas e abusivas com os pacientes, os mesmos a quem juraram proteger e curar. Esse ainda é o padrão de uma corporação que insiste em se manter na Casa Grande.

Minha sugestão – e desde já deixo claro que ainda utópica e sonhadora – é a criação de uma instituição que existe em outros países, salvo engano, a França: a “Ordem dos Pacientes” ou o “Conselho Federal dos Pacientes” que se ocuparia de receber as queixas de pacientes e estaria a serviço da sua proteção contra erros e equívocos de hospitais e profissionais de saúde. Pedir que os médicos façam o controle de seu próprio trabalho é ingenuidade. Os conselhos servem para proteger a medicina e os médicos, e isso não é uma acusação aos conselhos diante dessa importante e essencial função, mas o reconhecimento de que ela não é eficiente para auxiliar os pacientes. O “caso Adelir” é um bom exemplo. Para mim seria importante criar uma instância extrajudicial que pudesse fazer essa mediação antes de que os casos fossem enviados aos tribunais, diminuindo as demandas e fortalecendo as negociações, sem ser movida por um caráter primordialmente punitivo.

Não parece interessante? Eu, por conhecer os tribunais e seus conselheiros, percebo o quanto é ingênuo imaginar que os conselhos  de medicina possam deliberar contra si mesmos, cortar na própria carne e agir contra os poderes estabelecidos, os quais sempre beneficiam a categoria. Não faz sentido. Quando sou confrontado com esta minha desconfiança eu sempre pergunto aos amigos: “Na última eleição para o Conselho de Medicina, em quem você votou?“. Claro que as pessoas sempre respondem que só médicos votam nessa eleição. Então eu respondo: “E por que você acha que os conselheiros médicos favoreceriam os pacientes ao invés dos seus próprios eleitores?

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Medicina, Violência

Pena Capital

Sempre que eu leio ou escuto dos defensores da pena capital o argumento(?) “Ah, mas a pena de morte que os bandidos aplicam nas ‘pessoas de bem’ tu achas correto?” eu sempre escuto como um lamento ao estilo: “Ah… quando é pra gente se divertir não pode, só eles que podem, é?”

Pode ser um exagero, mas a mim parece que os defensores apaixonados da pena de morte (não aqueles que ao menos procuram um debate racional sobre sua efetividade) possuem um desejo inconfesso e recalcado de matar, uma violenta pulsão destrutiva, que foi obstaculizada por inúmeros fatores sociais, em especial a educação e os princípios religiosos.

Todavia, quando falam em pena de morte eles se transmutam, se alteram, ficam com a cara do personagem Dexter e pensam “E se eu pudesse dar vazão a estes instintos dentro da lei, não seria o máximo?

Certo que os traumas não totalmente resolvidos de algumas pessoas nos fazem entender este comportamento, mas a imensa maioria dos defensores da pena de morte nunca teve um episódio traumático – pessoal ou próximo – de violência extremada. Por isso penso que o discurso em favor “das pessoas de bem”, ou da “punição exemplar” é meramente encobridor de sentimentos muito mais primitivos, tão difíceis de aceitar quanto de confessar.

Deixe um comentário

Arquivado em Ativismo, Violência

Hipocrisia

Escuto todos os dias os radialistas populistas de direita com esse discurso de armar a “população de bem” para combater a onda de violência e acabar com os criminosos. Entretanto, eu lembro que essa indignação só emerge quando a vitima é branca, de classe média e o crime ocorreu em um bairro onde transitam as castas superiores. Só escuto silêncios quando morrem dezenas de negros e pobres nas ações da Polícia na periferia ou nas guerras entre as as facções que lutam pela primazia de abastecer a droga para estes mesmos cidadãos de bem. A morte só nos afeta quando próxima e as vidas ainda valem tanto quanto a cor de quem as carrega.

A hipocrisia agora é o idioma oficial da nação.

Esta hipocrisia contemporânea nos oferece a oportunidade de chorar pelo menino branco de tênis Nike morto na guerrilha urbana, mas nos anestesia para morte de uma legião de pretos e pobres que morrem todos os dias para nos garantir o direito de fumar aquele baseado em paz.

Edgar Alan Pontes, “Ruas de Fumaça” Ed, Bonett, pág 135.

Edgar Pontes é um colunista de jornais nascido em Curitiba em 1985. Escreveu no “Diário do Povo”, no “Correio Popular”, na “Folha de Maringá”, todos no Paraná. Dedicou-se ao jornalismo popular e policial, tanto para o jornal quanto para o rádio, e seu programa “A Hora do Crime” ficou famoso nos anos 70 por apresentar uma visão mais pessoal e intimista dos criminosos, apresentando-os como pessoas de verdade que se colocavam entre dilemas humanos e complexos. Recebeu críticas de ambos os lados: dos justiceiros sociais, punitivistas e apologistas da pena de morte e dos representantes dos direitos humanos. Depois do término do seu programa de rádio dedicou-se à literatura e escreveu “Ruas de Fumaça” onde mostra o lado mais perverso das delegacias, as torturas, o preconceito social, o racismo e a misoginia que permeiam o encontro dramático entre os sujeitos e as autoridades policiais. Seu livro foi celebrado como um “retorno” às suas origens humanistas e um rechaço à política de extermínio das polícias do país.

Deixe um comentário

Arquivado em Citações, Política, Violência

Violência exposta

“Da mesma forma como o horror do holocausto judeu da II Guerra ou o genocídio planejado de Palestinos em Gaza precisam ser mostrados para que do choque se faça consciência, também precisamos mostrar a indignidade e a violência (real e simbólica) contra as mulheres que procuram maternidades para dar à luz. Só assim exposta e visível a violência obstétrica poderá ser reconhecida, nominada, assumida e por fim combatida e eliminada”

Deixe um comentário

Arquivado em Parto, Violência

Muito Mais Agressividade

images-2

MMA não me parece esporte, por nenhum ângulo que eu procure observar. Para mim é apenas um processo contra-civilizatório típico da permissividade contemporânea de uma sociedade histérica. Não esqueçam que o boxe, com sua fidalguia, suas regras, luvas, protetores e protocolos foi exatamente o processo civilizador aplicado à pancadaria. Agora achamos que isso é bobagem e que o que vale mesmo é a carnificina, o sangue, a dor, o desmaio, a concussão cerebral, os narizes quebrados e as lesões cerebrais destrutivas e insidiosas. Sem capas, sem véus; a dor explícita e o sangue rubro, brilhante e verdadeiro jorrando na cara de uma turba ávida de violência explícita. Os gladiadores modernos entregando sua vida por instantes fugazes de glória encontram no caminho frustração, dor e martírio. Todavia, jamais perdem a esperança de vestir o cinturão cobiçado.

Para além das incapacitações permanentes não são poucos os casos de morte pela prática de esportes de luta. A regra é ficar no limite máximo do peso da categoria. Imediatamente após a pesagem volta-se a comer (e se come no máximo tolerável) o que causa a curiosa situação de que TODOS os lutadores estão fora do peso no dia da luta. Para uma boa ideia do absurdo desse sistema, vide aqui.

As injeções de diuréticos e as desidratações forçadas antes das lutas já mataram muitos lutadores. Isso lembra o filme “They shoot horses, don’t they?” e os bizarros concursos de dança nos anos 30, onde os casais dançavam sem parar até literalmente caírem de exaustão, pela oportunidade de ganhar um prêmio em dinheiro em uma época de profunda depressão econômica.  

Eles matam cavalos, não?

Deixe um comentário

Arquivado em Violência

Empatia

images-9

A primeira vez que me deparei com essa perspectiva foi há muitos anos quando li a história de um sociólogo americano que foi estudar as comunidades negras e latinas do Harlem, em Nova York, e sua vinculação com o crime. Seu interesse era saber quais as razões levavam os jovens a entrar no mundo do tráfico  de drogas.

Sua resposta a esta pergunta me chocou pela simplicidade. Ao invés de elencar as conhecidas explicações educacionais, familiares, morais etc. ele respondia com outra pergunta: “Por que deveriam eles NÃO entrar para este mundo?

O que ele testemunhou foi um universo de valores muito semelhante aos que controlavam nosso mundo branco e de classe média. As pessoas daquele espaço amavam, sofriam, cantavam, choravam, tinham ciúme e inveja e sonhavam como todos os humanos. Entretanto, ao contrário dos outros, eram marginalizados por não ter acesso ao consumo. Em uma sociedade em que a cidadania é constituída pela capacidade de consumir seu estatuto de pessoa era frágil, tornando-os sujeitos à margem.

Sim, marginais.

Nesse contexto, por que não aderir a uma proposta que poderia lhes oferecer acesso ao mundo do consumo, dando-lhes a possibilidade de ser, em fim, cidadãos?

“Mata!!”

“Bandido!!”

“Deixa apodrecer na cadeia!!”

Das virtudes humanas a que anda mais escassa é a empatia. Tão ocupados estamos com a periferia de nossos próprios umbigos que pouco tempo sobra para nos preocuparmos com a dor e o sofrimento alheios.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Política, Violência

Atire a primeira pedra

unnamed

Esta semana fomos atropelados pelas imagens angustiantes de uma dupla de jovens espancado violentamente um vendedor ambulante dentro de uma estação do metrô em São Paulo. O resultado foi a morte da vítima.

Muitas vezes eu acho as reações à violência tão danosas e doentias quanto os atos cruéis a que se reportam. A gente quase nunca é suficientemente testado na vida a ponto de poder afirmar “isso eu jamais faria”. Como diria Terêncio, “O que é humano não me é estranho”. De minha parte posso me ver em qualquer dos personagens: nas travestis, nos espancadores, na vítima, nos espectadores petrificados e até nos milhares de “juízes” que imediatamente condenaram os infratores. Não me sinto – em essência – diferente de nenhum deles.

Com uma breve pesquisa na memória posso lembrar de coisas que eu fiz na minha juventude que só não se tornaram tragédias por pura sorte. Quando tinha 15 anos estava em um Grenal e joguei uma laranja de longe em um torcedor rival. A chance de acertar era desprezível, mas mesmo assim arrisquei. Ela acabou se chocando contra a cabeça de um menino da minha idade, explodindo em mil fragmento alaranjados. Sei que nada grave ocorreu porque ele saiu correndo com sua turma. Fui cumprimentado por meus parceiros pela minha “pontaria” certeira mas passei os últimos 40 anos lamentando essa atitude, só por imaginar que poderia ter se tornado uma tragédia.

Mais de 99.9% das brigas de rua e espancamentos terminam com escoriações e orgulhos feridos; esta briga no metrô de São Paulo terminou em morte – por azar. Este azar poderia ter ocorrido comigo há 40 anos em uma tola partida de futebol. Diga aí quão melhor que aqueles espancadores você me considera. Eu coloco minha ação e a dos espancadores no mesmo nível… só o acaso nos separa.

Qual a minha motivação para jogar uma laranja na cabeça de um torcedor rival? A motivação dos  espancadores foi ódio, mas não apenas do ambulante, mas de toda uma sorte de frustrações, ódios, tristezas e rancores que não me cabe julgar. A minha foi ainda mais tola: machucar alguém cujas cores na camisa eram diferentes das minhas.

No caso do metrô foi azar, mas também foi homicídio. Na minha opinião eles não queriam matar, queriam bater, mas mataram, por isso são homicidas. Eles erraram a “pontaria”, sim. Não era o objetivo a morte do ambulante; era para dar socos, pontapés e machucar, como são 99.98% das brigas de rua.

Erraram, tiveram azar e mataram.

Quando brigamos de cabeça quente não se pensa racionalmente. Tive muitas brigas na vida e sei como fica nosso estado mental. Algumas pessoas acham confortável se afastar desses sujeitos, achando-os muito diferentes de si mesmos, desumanizando-os. Eu não, pois suas atitudes são semelhantes a muitas que já tive.

Para nós é mais fácil perdoar pessoas com quem conseguimos construir uma ponte de empatia. Posso me identificar com crimes hediondos que me falam de experiências em comum, mas não é fácil fazer o mesmo com erros distantes da minha realidade.

O que estamos, afinal, medindo? O crime em si ou  nossa capacidade de compreender os dramas e angústias alheias?

E vejam, os CRIMES precisam ser julgados, mas quem se acha em condições de julgar o criminoso, no emaranhado de significados e significantes que o constitui? Quem atira a primeira pedra?

Eu sei o quão tênue é a linha que separa a barbárie da civilização. Eu consigo perceber que, oferecidas as condições de contexto e circunstância, eu mataria, mesmo sem ter nenhuma intenção e nenhuma justificativa razoável para um ato extremo como esse.

As vezes a direção incerta de uma laranja arremessada de forma irresponsável e tola pode ser a diferença entre o criminoso e o menino abusado.

Deixe um comentário

Arquivado em Violência

Abusos e assédios

images-4

Há alguns dias rolou um vídeo (pode ser visto aqui) de uma jornalista e youtuber entrevistando o ator Vin Diesel, conhecido por filmes testosterônicos que misturam carros, mulheres, mortes, perseguições, etc. Em outras palavras, filmes de meninos. Neste vídeo ele tem um comportamento abusivo que chega a ser caracterizado como assédio. Alguns dias depois a jornalista vem a público denunciar o comportamento dele, mas, ato contínuo, aparecem falas dela se oferecendo para passar vaselina em outro machão lutador ou sentando no colo de outro ator. Com isso algumas pessoas teriam dito que caiu a “máscara de boa moça” da jornalista. Afinal…. como cobrar bom comportamento do Vin Diesel se ela é tão “liberal” com outros entrevistados?

Creio que o discurso machista ainda não percebeu o que está em jogo aqui e muitas pessoas continuam misturando as questões.

Existem DUAS ações que merecem ser analisadas separadamente. O fato de ela sentar no colo de um famoso (who?) e querer passar vaselina num lutador fortão (who?) podem ser julgadas por quem quiser. Se você quiser achar que é alegria e espontaneidade, este é um direito seu, assim como julgar que suas atitudes são vulgares e inapropriadas para uma mulher. Cada um com seus padrões morais e estéticos. Não me cabe julgar as lentes com as quais você olha o mundo. Vire-se com elas. Ponto.

Por outro lado, NADA da vida pregressa dessa moça pode AUTORIZAR o comportamento abusivo do “Mestre da Testosterona”. Ela pode muito bem dizer “sentei no colo do fulano porque gosto dele e não gosto de você” e este é um argumento absolutamente válido e justo, pois suas preferências e desejos não nos dizem respeito. Ela é dona do seu corpo e de suas escolhas. Ninguém pode cobrar ou exigir de uma mulher que ela se comporte de acordo com nossos padrões. Ponto.

E tem outra questão: se ela está usando esta situação para ficar famosa ou como um legítimo desabafo pelo constrangimento que passou eu não tenho como saber, mas isso TAMBÉM não pode servir como atenuante para a agressão que ela sofreu. Eu prefiro mesmo acreditar que ela está sendo sincera, e que sua súbita notoriedade é um efeito colateral, e não seu objetivo primeiro.

Não há porque vincular qualquer atitude dessa moça com o ato calhorda e abusivo cometido contra ela. Isso é o mesmo que justificar estupro por saia curta, decote, sensualidade ou porque ela “já saiu com muitos homens“.

Só ela pode  falar do seu desconforto com a situação. Respeitemos isso.

Deixe um comentário

Arquivado em Pensamentos, Violência