Morte e inexistência

Minha pergunta é bem simples: qual seria o sentido de uma vida ética onde não se pode constatar nenhuma recompensa? Essa lógica não faz sentido no universo imediato que nos rodeia, onde nossas ações – inclusive as mais altruísticas – são em verdade, mediadas por interesses pessoais – mais ou menos evidentes. O ato de ajudar um pobre alivia nossas culpas burguesas, o ato de amar nos promete (mesmo que ilusoriamente) sermos amados em retorno, o ato de compaixão traz a promessa de ser cuidado de volta, nossa luta pelas causas nos oferecem um sentido de viver, etc. A própria solidariedade é questionável pois em cada ato fraterno existe a fagulha egocêntrica que dispara a ação.

Portanto, agir para o bem alheio acreditando verdadeiramente na inexistência de uma vida após a morte agride essa lógica. Repetindo: se para a posteridade não faz NENHUMA diferença o bem que se fez, se não resta culpa, remorso, tristeza, saudade ou lembrança qualquer, quem racionalmente agiria contra seu gozo e satisfação imediatos? Por que? Qual o sentido dessa ação?

Não creio em éticas fora da construção humana. Um leão despedaça uma gazela sem dó. Só o humano enxerga nisso algo cruel. Como explicar a fraternidade fora de um sentido absolutamente egoístico?

Pois eu digo que diante da morte o que nos move é a incerteza. Ninguém aqui tem certeza absoluta e inquebrantável do nada que o aguarda. A ninguém é dado esse saber, transformado em confiança pétrea na inexistência póstuma. Por isso, por ter consigo escondida essa dúvida sobre as consequências últimas de nossas ações, escolhemos a solidariedade, a fraternidade, o amor ao próximo. Não por uma ética natural, por uma moral adaptada de uma força incorpórea da natureza, mas pela dúvida, pela incerteza corrosiva do destino que nos aguarda.

Por isso a pergunta, que para mim continua válida: se o nada nos aguarda, qual o sentido de uma ética voltada ao outro?

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Cabiria

Agora falando sério…

Há algumas semanas eu escrevi um conto onde o personagem principal não tinha nome. Quando fui descrever sua principal obra, precisei escolher um nome para o personagem e uma palavra veio à minha cabeça: “Cabiria”. O livro desse escritor fictício (chamado James Wilbur) então se chamou “Echoes of Cabíria”.

Depois que escrevi isso fiquei pensando porque havia escolhido esse palavra que brotou espontaneamente na minha cabeça (que eu não sabia sequer se era um lugar ou uma pessoa).
Depois que terminei de escrever o conto fui procurar no Google e me surpreendi com o que descobri. Cabiria é o nome da personagem principal do filme de Federico Fellini “Le notti do Cabiria” (As Noites de Cabiria) de 1957, estrelado por Giulietta Masina (que na época era esposa de Fellini) e que conta as desventuras de Cabiria, uma prostituta de uma pequena cidade italiana. O filme é belíssimo ao apresentar a fantasia romântica das mulheres, o culto ao amor, o sofrimento, as decepções, a tristeza e a esperança que teima em resistir mesmo diante de todas as adversidades.

A atuação de Giulietta Masina é impressionante. Umas das atuações femininas do cinema que mais me marcaram. Quem é mais velho vai lembrar de Dirce Migliaccio como uma das “irmãs Cajazeiras” da novela O Bem Amado de Dias Gomes. Ambas elétricas, engraçadas e pequeninas. Cabiria é vibrante, firme, forte, enérgica, “barraqueira” e ao mesmo tempo feminina, dócil, frágil, delicada e doce. O filme ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro de 1958, e não poderia ser mais merecido.

Passei muito tempo tentando entender por qual razão esse nome brotou do meu inconsciente. Por certo havia um “saber não sabido” que me direcionou para essa escolha, mas por quê? O que me atraía num filme que jamais havia assistido? E por que me impressionou tanto?

A verdade é que, ao terminar o filme, eu fui obrigado a exclamar:
– Put* que p*riu, que filme!!! Que atriz, que história, que beleza…

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Dos Olhos para Dentro

Muito vi no consultório, em especial atendendo pacientes carentes na Liga Homeopática, mulheres que me descreviam situações de maus tratos, grosseria, abuso financeiro e até agressões físicas no ambiente doméstico. Diante de histórias de colorido trágico a tentação era sempre se posicionar ao lado da suposta (porque até uma construção fantasmática seria possível) vítima e orientá-la a romper esse laço. Quem não se deixaria tocar pela injustiça transformada em violência e abuso? E por certo que avancei o sinal algumas vezes embarcando junto com elas em sua narrativa de dor, angústia, mágoa e ressentimento.

Entretanto, com o tempo percebi que o máximo a fazer é oferecer ouvidos compassivos, uma atenção respeitosa e encaminhá-las para uma instância de proteção, quando necessário. Tentar orientar, aconselhar, interpretar e desbaratar os laços contraditórios e caóticos que amarram o desejo é uma tarefa que não me cabia. Nessas horas eu olhava para a face sofrida dessas mulheres e pensava no infinito que se encerrava de suas retinas para dentro, o mundo de cores, dores, alegrias, aflições, gozos e tragédias que todas carregam. Qualquer conselho seria um desrespeito com sua história, sua subjetividade e sua unicidade.

Cada um sabe onde seu sapato aperta, cada um conhece seu desejo, ou percebe para onde ele aponta. Ou, com o diria Caetano Veloso…

“Eu não sou cachorro não
A gente não sabe o lugar certo
onde colocar o desejo
Todo beijo, todo medo,
todo corpo em movimento
está cheio de inferno e céu
Todo santo, todo canto, todo pranto,
todo manto está cheio de inferno e céu
O que fazer com o Deus nos deu
O que foi que nos aconteceu
Quando a gente volta o rosto
para o céu e diz
olhos nos olhos da imensidão
Eu não sou cachorro não….”

(Pecado original) 

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Nada

Meus avós morreram há 30 anos. Lembro ainda, mas meus filhos quase nada guardam deles. Em três décadas eles foram sendo lentamente apagados da lembrança direta de quase todos. Quando eu e meus irmãos – e alguns poucos primos – morrermos as últimas imagens de nossos avós descerão à tumba conosco. Ficarão em algum livro, numa foto em preto e branco, num registro fotográfico perdido em um sótao.

Minha avó paterna, um pouco antes de morrer com mais de 90 anos, me dizia “Eu tive oito filhos, mas queria ter doze. Sammy foi quem não quis mais”. Ela me ensinou que não se pode julgar os valores de alguém fora do contexto em que estavam inseridos. Hoje em dia suas escolhas seriam escândalo; em sua época, um reforço da sua feminidade e um sentido de propósito nobre e belo. Nunca esqueci aquela curta conversa à beira do seu leito enquanto ela me falava de suas vida e seus tesouros. Minhas avós ainda estão guardadas na minha mente, com carinho e saudade, mas sou da última geração que ainda vai carregá-las na lembrança.

Em pouco tempo eu também vou abandonar este plano terreno e bem o sei que em alguns poucos anos ninguém se lembrará de mim. Vejo meus netos pequenos e fico nutrindo a ilusão que eles se lembrarão de mim, contarão as minhas histórias, guardarão minhas piadas e caretas. Desejo avidamente que eles guardem algo de mim, mas sei que não é justo pedir isso a eles; não há como querer que eles me garantam a imortalidade. O meu destino – o nosso – é virar esse fragmento, esse pedaço ínfimo de alma que constitui cada um que segue nossos caminhos.

Falo ainda bastante dos meus pais para os meus filhos, como a dizer “guardem eles com vocês quando eu me for”, mas sei o quanto o tempo é cruel – e sábio – ao nos fazer esquecer um pouquinho dos antigos amores a cada dia que se passa. Daqui a pouco nada restará de mim. Ninguém saberá quem fui e o que fiz. Nenhuma pessoa terá a menor ideia de minha curta passagem por aqui. Serei um minúsculo ponto apagado, sem luz. Por esta razão, creio que o momento de agora é o único que temos para oferecer algum sentido à nossa vida. No fim nada ficará, nada restará por muito tempo.

Nada.

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Padaria

Ideia para padaria hipster:

“Pão de Mia”

**Venha se contaminar com nossas especialidades. Uma epidemia de sabores e variedades. Covid seus amigos e venha nos conhecer.**

Nossas especialidades:
Massa acrítica
Fermento Pfizer
Receita Moderna
Responsabilidade técnica, chef Eva Sinah

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Olavão

Muitos chamam Olavão de burro, ignorante e idiota. Acusam-no de ser um embusteiro e um farsante. Acho isso bastante errado. Olavo de Carvalho escrevia muito bem – mesmo seus críticos admitem – e tinha cultura e erudição incomuns. Leu muito mais autores clássicos do que 99% dos seus críticos.

Burrice e ignorância vem da falta de conhecimento e de informação, o que não é o caso dele. Olavo tinha outros perversão do saber, um conhecimento e uma erudição a serviço de ideias fixas, controladas por uma personalidade paranoica. Isso não é burrice, é o uso doentio do conhencimento. Sua cultura era uma ferramenta de guerra, uma arma para destruir, não para iluminar. Mas, assim como inumeros outros personagens da história, está longe de ter sido um sujeito ignorante.

Agora Olavão morreu, ainda jovem (mais jovem que Lula, por exemplo). Não há como negar a importância de Olavo de Carvalho no pensamento conservador no Brasil e não se trata de execrá-lo (muito menos exaltá-lo) em sua morte. A mim interessa mais entender porque um sujeito como ele fez tanto sucesso. A extensão e o significado de suas ideias no pensamento de uma parcela da população é algo que precisa ser entendido. Conheci alguns de seus seguidores e vejo o quanto de fascinação ele exercia sobre essas pessoas.

Olavo deixa uma importante lição. Uma não, centenas. Um sujeito que elege um presidente pela força de suas ideias tem muito a ensinar. Se a gente não prestar atenção em Olavão, suas estratégias e a sedução que exerceu sobre milhões de pessoas, seremos obrigados a repetir o drama de sua influência.

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Redondo

“Aqueles que acreditam na terra plana estão redondamente enganados”

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Gado à esquerda

A esquerda da brasileira está cheia de democratas que gritam por “cadeia neles”, que acreditam em “chamar a polícia” e que acham que a censura é um “assunto delicado” que em certas situações – tipo, fazer perguntas incômodas sobre vacinas, questionar identitários ou tecer críticas pesadas à Suprema Corte – deve ser levada em consideração. Acreditam igualmente na lisura das instituições burguesas e aplaudem decisões tomadas por personagens claramente contrários ao ideário que defendemos.

Daniel Silveira

Sim, a esquerda também tem seu gado, e ela está recheada de punitivistas e autoritários que andam por aí achando que basta usar a sua camiseta “Lula Livre” para torná-los automaticamente membros da vanguarda revolucionária. Agora vemos estes mesmos esquerdistas comemorando a prisão do fascista com esteroides aplaudindo figuras golpistas e macabras como Alexandre de Morais. Para se vingar dos personagens mais mesquinhos da política nacional aceitam exaltar um STF cheio de golpistas e reacionários. É muito triste ver a “Esquerda Cirandeira” batendo palmas pro Ministro que cortava pé de maconha com facão e que foi indicado para Ministro pelo golpista Temer…

Estamos cavando nossa própria cova. A sentença de 9 anos de prisão é absurda e claramente um exagero, tornando o caso do Daniel em um ato emblemático da arrogância do STF. Quem agora comemora este tipo de ação autoritária que brota de uma suprema corte reacionária deve pensar que muito em breve estas sentenças abusivas dos Ministros que julgam em causa própria vão se voltar contra a esquerda. Da mesma forma como cruzaram os braços diante do golpe parlamentar contra a presidente Dilma, agora igualmente cancelam os votos de milhares de votantes, apenas porque tiveram seu orgulho ferido.

Alexandre de Morais

Não esqueçam que estes mesmos Ministros foram os responsáveis não apenas pelo golpe contra Dilma, mas principalmente pela prisão do Lula – ambas ações criminosas e ilegais, afrontosas à constituição. Aplaudir Alexandre de Moraes agora é pura estupidez, comparável a alegria que estes ingênuos esquerdistas têm com os editoriais lidos pelo porta voz da Rede Globo – William Bonner – atacando Bolsonaro. Exaltar uma força reacionária para atacar outra é um erro estratégico que a esquerda não pode se dar ao luxo de cometer. Não importa que os personagens da bolha fascista sejam idiotas e golpistas, precisamos pensar adiante, tendo como norte os princípios que defendemos, e não ações oportunistas desprovidas de uma visão em longo prazo.

Estamos abrindo uma porta que não seremos capazes de fechar. Muitos desses esquerdistas que agora aplaudem a Suprema Corte por suas atitudes abusivas são apenas direitistas com distúrbio de lateralidade.

Steve Bannon

Por causa dessa ação Bolsonaro emitiu uma nota concedendo perdão para o “halterofascista”. Até nisso o Bolsonaro é um “Trump Genérico”. Fez para o Daniel o mesmo que o ex-presidente americano fez com Steve Bannon – outro notável bandido, personagem dos mais nefastos da política direitista internacional. Esses presidentes da direita adoram ter os seus bandidões de estimação e, pelo que se pode ver, sentem-se acima da justiça e da lei. Imagina agora como está se sentindo o tal bombadinho. “Quem se meter comigo eu mando chamar o Bolsonaro“. Mais capítulos dessa novela estão por vir, e ainda não se sabe qual a reação do STF com essa guerra aberta do executivo contra o judiciário, mas é certo que os verdadeiros marxistas não devem se associar a nenhuma dessas forças retrógradas sob pena de sermos as vítimas em um futuro próximo.

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Véio

Conversando banalidades com meu genro e filhos na Comuna eu disse que o Véio da Havan e o Haddad tinham a mesma idade mas só o comerciante era chamado de “véio”. Eu disse que isso era preconceito com os carecas. Ninguém chama o Haddad de “o Véio do PT”. Para me contrapor, minha filha disse que ninguém chama o Bruce Willys de “Véio Wyllis”, portanto não era pela careca, mas pela personalidade.

Foi então que eu perguntei: “Se o Bruce Willys fosse um super herói que voa ele poderia ser chamado de Aero Willys???”

Ra ra ra ra ra ra ….

Ri sozinho. Ninguém entendeu. Fui obrigado a mostrar a foto do carro.

Sim, eu sou o Véio Ric

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O Tempo se contempla…

Na minha infância os relógios eram considerados acessórios chiques, objetos importantes do vestuário. Na escola havia uma aula especial para aprender a “ver as horas”. Ter um bom relógio era uma marca de distinção, talvez algo parecido com o “O Capote” de Nikolai Gógol. Ainda hoje eu tenho resquícios dessa época: guardo meus relógios velhos numa caixa, sem coragem de me desfazer deles, porém, há muitos anos não uso nenhum.

Na minha família havia uma tradição que foi inaugurada com meu irmão mais velho. Quando alguém passava no “exame de admissão” – saída do primário e entrada no ginásio – o meu pai dava para o vitorioso um relógio de presente. Esse fato acontecia na entrada da adolescência, por volta dos 11 para 12 anos. Ganhar um relógio significava ser adulto o suficiente para cuidar de um objeto delicado como este. Mais do que uma tradição este presente marcava um ritual de passagem, a saída da infância e a entrada em um tempo em que ele, o tempo, passaria a ter cada vez mais controle sobre a vida.

Quando meu pai chegou em casa e entregou a caixa onde estava o relógio era visível a emoção do meu irmão. Naquele tempo os relógios tinham marcas que as pessoas conheciam, da mesma forma como hoje as crianças sabem as marcas de smartphone. Os melhores eram os suíços, “de dar corda”, cuja importância desabou quando apareceram os relógios de tecnologia mais avançada. O Japão destruiu a indústria suíça em menos de uma década. Mas a gente conhecia Patek Phillippe, Rolex, Technos, Ômega, Seiko, etc, e alguns deles eram mesmo pérolas da tecnologia e da mecânica.

Plenamente extasiado, meu irmão olhou o relógio demoradamente e depois, com a ajuda do meu pai, ajustou-o na extremidade do braço esquerdo. Encantado, ficou durante vários minutos olhando para o próprio punho, com o cotovelo dobrado, os olhos arregalados e fixando-se em cada detalhe da jóia.

Passados alguns minutos ele se levanta da mesa de jantar e diz que vai para o seu quarto. Como ainda era muito cedo, perguntei o que ele ia fazer, ao que ele respondeu sem titubear:

– Vou me deitar e olhar o tempo passar… 

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