Harpias e Gestantes

“Um criador diz que recebeu há alguns anos uma harpia repatriada da Alemanha. O animal foi trazido de volta ao Brasil porque estava doente e poderia morrer. Assim que chegou ao criatório, Azeredo notou que havia em torno do bico na altura do nariz da ave uma grande quantidade de abelhas. Algumas delas entravam nas narinas. Ao mesmo tempo, ele observou que a harpia passou a respirar cada vez melhor até sarar e que as abelhas retiravam das narinas da ave o material para usar no ninho. (Publicação original: Rogério Marcos Peres Lins, incluindo a foto principal. O texto foi extraído da matéria que pode ser acessada por este link)” A foto acima é de uma “águia cinzenta” e foi tirada pela fotógrafa Julia Santoucy Barros

Quando a harpia é retirada de seu habitat, onde ela estabelece relações de mutualismo positivas e benéficas com outras espécies, e deslocada para um lugar desconhecido – por mais sofisticado que seja – ela se desequilibra e tende a sofrer. Os cuidadores não conseguiram perceber a importância dos detalhes mínimos – como as pequenas abelhas que limpam suas narinas e as formigas que higienizam seu ninho – que interagem com as enormes harpias produzindo um meio ambiente positivo para ambos. Assim ocorre porque minimizamos os elementos invisíveis aos olhos desarmados e negamos sua relevância. As complexas relações da natureza são empobrecidas pela nossa incapacidade de perceber a teia imensa de conexões entre todos os seus elementos constituintes.

Pois me permitam avançar um pouco mais além nessa análise: o que dizer das parturientes deslocadas para lugares inóspitos e cuidadas por pessoas muitas vezes insensíveis às suas necessidades afetivas, emocionais, pessoais e subjetivas, pois que reduzem o ato de parir a um fenômeno meramente mecânico, para não dizer defectivo, problemático e perigoso?

Com este tipo de ideologia diminutiva sobre a capacidade feminina de gestar e parir e a negação dos elementos psíquicos envolvidos na parturição, não seria de se esperar que houvesse esse desequilíbrio que agora testemunhamos?

Por certo que sim, e a crise na atenção ao parto nos dias de hoje nada mais é do que a materialização deste tipo de desarmonia na ecologia sutil do nascimento…

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Somos nós

O perdão nada mais é do que a capacidade de produzir empatia, e esta só ocorre quando existe identificação. Por isso vemos tantos textos que perdoam a mãe que causou a morte do filho ao esquecê-lo e quase nenhum sobre o pai que perdeu a cabeça e bateu na mulher. Não é o crime, somos nós.

Do livro de Jeff Barrett, “Under my skin”, na voz do personagem Jack Menendez, ed. Parnaso, pág 135

Jeffrey Edmond Barrett é um escritor canadense, nascido em Regina no estado de Saskatchewan no Canadá em 1946. Foi amigo pessoal de Jack Kerouak e fez parte da geração de escritores de contestação surgida em meados do século passado. Homossexual assumido e panfletário, socialista e defensor dos direitos LGBT, foi preso na manifestação de 28 de junho de 1969 em Nova York, que se tornou conhecida como “Stonewall Uprising”. Ficou dois anos encarcerado, condenado por “chutar o rosto de um policial”, acusação nunca contestada e que carregou com orgulho por toda a vida. Tem uma larga produção literária na poesia, crônicas e contos. Escreveu “Under my Skin” – sua única obra de ficção – como um libelo contra a repressão sexual. Morreu de Aids em 1987.

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Silenciamentos

Como – e porque – funcionam os silenciamentos na Internet?

Vou apresentar um roteiro que conheço há mais de 20 anos debatendo em redes sociais, desde os “List Servers” até o Facebook. Não precisa muita elaboração para entender o funcionamento e você pode fazer o teste na sua própria rede social.

Procure um tema complexo e dramático e faça uma análise simples, pois não precisa sequer expressar uma posição contra-hegemônica, como em breve vão perceber. Depois disso termine com uma espécie de “chamado à ação”. Por exemplo:

*A mortalidade materna é alta no Brasil, em especial de mulheres negras e periféricas, o que denuncia nosso apartheid social. Seria importante que todos se dedicassem a encontrar a solução dessa tragédia, liderados por aquelas que são as mais interessadas nessa questão: as próprias mulheres das comunidades pobres desse país; unidas, fortalecidas e com o suporte do Estado.*

Pronto. Essa postagem de um simples parágrafo apresenta um problema (a mortalidade materna e seu viés de raça), acusa a iniquidade social pela tragédia (e não um grupo em especial), aponta um caminho (a ação social), chama o Estado à responsabilidade (pois ele é o grande motor de transformação) e coloca um grupo na liderança dessa proposta, por serem as vítimas e as principais interessadas na solução (as próprias mulheres, garantindo a elas o protagonismo).

Entretanto, qual a resposta?

Primeiro, antes de analisarem o conteúdo as pessoas olham QUEM o disse, pois um enunciado como esse só terá valor se quem o apresentar tiver uma espécie de “passe”, uma “autorização” social. Se você for do grupo dos “degredados” (homem, branco, cis, classe média) será imediatamente rechaçado, inobstante o que tenha dito. Sim… mesmo que concordem com você a primeira luta será para negar-lhe o direito de dizer. A partir daí se inicia uma saraivada de desqualificações.

– Lá vem o senhor de novo dizer o que as mulheres têm que fazer. Seu machista!!
– Sim, agora o burguesinho no seu apartamento com vista pro mar está preocupado com a pobre de periferia? Me poupe!!
– Mais um homem branco cagando regra para que os negros obedeçam. Chega de escravidão!!
– E os homens trans que também podem parir? Não tem vergonha dessa homofobia?
– 400 mil mortos por Covid e você vem falar de parto? Não tem vergonha?
– Mito2022 – “Chola mais” mortadela…

– Cala boca esquerdomacho, privilegiado, filho de papai, branquinho, heterochato

O que acabou se tornando muito claro para mim nesses anos todos é que as pessoas, diante de um post simples – e até banal – como este, jogam na internet os SEUS dramas pessoais, suas mágoas e seus ressentimentos a partir de algo que a condição do interlocutor (branco, hétero, flamenguista, gay, comunista, liberal, lésbica, etc) representa para si, fazendo com que a mensagem se torne absolutamente irrelevante. Não importa que estejam plenamente de acordo com o enunciado e a proposta; o conteúdo desaparece e só o que se vê é o inimigo à sua frente. E tudo isso, é óbvio, potencializado pelo manto de invisibilidade que as redes sociais oferecem.

– Eu odeio o que você representa na minha vida e vou discordar de qualquer coisa que você escreva. Vou ler “literalmente” cada palavra quando me interessar e “simbolicamente” quando precisar, de forma que qualquer frase escrita será torturada nos limites até que ela pareça ser a fiel tradução de sua imagem aos meus olhos: um monstro – e, claro, sem o direito de falar.

Diante desse dilema, o que fazer?

Quando lemos ou escutamos este bombardeio devemos aceitar o silenciamento – que parte muitas vezes de gente que jamais colocou-se na luta e não se empenhou para fazer qualquer coisa? É justo que os silenciadores se comportem como se sua condição de oprimido seja suficiente para lhes garantir autoridade e poder de veto? Por outro lado, devemos continuar lutando e apresentando propostas apesar dos ataques? É válido insistir em debater com pessoas que não aceitam outros participantes no enfrentamento de ideias? Ou devemos mesmo aceitar a mordaça do “lugar de fala” e silenciar? É preferível abandonar as lutas?

Ou será mais justo continuar apertando o botão do F*DA-SE?

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Beleza

Pois é… eu sempre penso que a beleza é um fardo muito pesado de carregar, tanto quanto o dinheiro e o poder. Pense nas mulheres lindas do cinema; raras foram as que foram felizes na sua vida pessoal. Muitas, como Marilyn Monroe, morreram muito cedo. Grace Kelly foi vítima de sua fantasia de princesa, tendo uma vida inteira de infelicidade ao lado de Rainier. Ava nunca se curou de Frank Sinatra, e Rita jamais superou Orson Welles. Guy Williams morreu aos 65 anos solitário em um hotel em Buenos Aires. Tanta gente cuja beleza jamais lhes garantiu o amor infinito que pareciam ter como certo.

Ao contrario da vida de sedução, charme e glamour que imaginamos, a regra para uma grande parte das beldades é o martírio, o abandono, a solidão, o desamor e a frustração.

Se me fosse dado escolher como transitar por esse mundo meu pedido seria simples: nem tão feio a ponto de ser repugnante, mas também não desejaria ser tão bonito a ponto de ofuscar qualquer outra virtude que pudesse ter ou desenvolver. Sim, minha opção seria um “não fede nem cheira” na estética, a mesma escolha que faria para a riqueza: nem tão pobre a ponto de passar necessidades, e nem rico a ponto de monetizar a vida e os afetos.

Creio ser mesmo verdade: para os lindos a atração é natural, mas para os feiosos é preciso esforço e dedicação, o que acaba produzindo um sujeito mais completo e integral. Acho charmoso alguém cujos defeitos e imperfeições lhe conferem autenticidade.

Ser lindo(a) e não se tornar arrogante e superficial é uma tarefa pesada demais, que poucos conseguem suportar. Deus, ao me brindar com está espetacular mediocridade, sabia bem o que estava fazendo.

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Semeadura

De que adianta gritar se ao redor só encontramos ouvidos moucos, afasia e desesperança?

A solução para este dilema é que, inobstante a falta de resultados visíveis no horizonte próximo, é importante lançar a semente da razão. Se não houver eco em suas palavras agora, alguém no futuro as lerá quando o solo das consciências estiver mais fértil. E assim seguimos; quase ninguém tem tempo em uma única existência de colher o fruto da sua semeadura mas, por outro lado, aproveitamos para colher as ideias de tantos que já se foram.

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R.I.P. Paulo Gustavo

Conheci seu trabalho a bordo de um voo da azul quando vi o personagem de uma mulher rica e superficial chamada Senhora dos Absurdos.

Quase morri de rir.

Na minha perspectiva de homem velho ele era um garoto ainda. Jovem, bonito, dois filhos e recém casado. A projeção do tanto que ele tinha para viver deixa a morte ainda mais dolorida.

Que siga em paz. Faça os anjos do céu rirem das suas piadas, assim como eu tanto gargalhei com você nas alturas.

Dentre as coisas positivas que é possível retirar da morte dramática do Paulo Gustavo creio que a mais significativa é a visibilidade de sua relação afetiva com o marido e os filhos, mostrando a inequívoca plasticidade do conceito de família – onde o único elemento essencial é o amor.

Espero que no meio de tanta tristeza pela partida abrupta sua vida nos ofereça ensinamento e contamine mentes ainda carregadas de preconceito. Tenho a esperança que a partir do seu exemplo mais casais de todas as configurações tenham direito à dignidade. Que assim seja.

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Greve de médicos

Em um seminário de fisiologia há 35 anos passados o nosso velho professor se dirigiu aos últimos 6 alunos que demoravam a sair da sala depois de encerrada a aula.

– Deixo a vocês um breve conselho: depois de se formarem em nenhuma hipótese façam greve.

Caminhando em direção ao bar pelos corredores da velha faculdade de Medicina debatemos o conselho do mestre. Metade de nós pensava que ele se referia a uma questão ética sobre a medicina e a saúde. Não caberia àqueles que cuidam do mais nobre objetivo – a vida e sua manutenção – paralisar o seu ofício por razões corporativas. Não seria moralmente lícito impedir o acesso à cura ou ao alívio dos sofrimentos apenas por dinheiro. “Está no código e no juramento!!”, diziam. A outra metade achava que ele se referia à inutilidade da greve como mecanismo de pressão em uma área repleta de representantes das elites e da burguesia diplomada. “Greve de janotinhas engravatados?”, diziam os outros, fazendo muxoxo.

Na semana seguinte aguardei o fim da aula e, não aguentando mais a dúvida, resolvi perguntar ao professor a razão para o seu rechaço aos movimentos paredistas na área da saúde. Expliquei a ele que metade de nós achava que sua manifestação se referia a uma questão ética e outra metade à dificuldade de mobilizar e manter uma greve com representantes da burguesia. Uma disputa, em última análise, entre o idealismo e o materialismo.

Diante da minha pergunta inusitada e fora do escopo da aula recém terminada, o velho mestre soltou uma risada e explicou.

– Nenhuma das duas. A razão é meramente estratégica.

– Como assim? perguntei…

– Ora, meu caro, quando os médicos entram em greve os pacientes melhoram. Quer propaganda pior do que esta?

Este foi meu primeiro contato com a Medicina Quaternária, muitos anos antes de se tornar modinha.

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Salário de Políticos

Que impacto seria produzido se cortássemos o salário dos políticos pela metade? O que isso representaria em dinheiro para o país? Por que deveríamos cortar o salário de políticos e não de presidentes de estatais, funcionários graduados, juízes e membros do MP?

Com sinceridade, a tese que coloca o salário dos políticos como “o problema” é uma bandeira da direita. O sonho dos extremistas do Estado Mínimo é que políticos trabalhem de graça, porque desta forma apenas os empresários e ricos poderiam exercer essa função, pois não precisam trabalhar para ganhar seu sustento.

Culpar desta forma os políticos e seus salários é um discurso que tenta atingir a POLÍTICA representativa liberal, e serve aos interesses autoritários.

PS: claro que alguns abusos devem ser cortados, como permitir que políticos populistas e reacionários aluguem BMW com dinheiro público. Ou as verbas de gasolina. Ou tantas outras falcatruas inaceitáveis. Mas culpar seu salário pelos problemas no Brasil é absurdo, ou oportunismo…

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Cristo

PPCV – Post Pequeno pra me Cancelar de Vez

Quero dizer que se Cristo voltasse à terra agora seria preto, pobre, moraria na comunidade periférica, trabalhador do IFood e filiado ao PCO, mas poucos estão preparados para essa verdade.

Ahhh…“Partido do Cristo Onisciente”? Pode até chamar assim, mas sua pregação seria (de novo) pela causa operária. Falaria em nome dos oprimidos, os pretos, os malditos, os miseráveis e os pobres. Apoiaria as put*s, os vi*dos e os trabalhadores precarizados mas seria de briga e de rua, enfrentaria policia racista e fascistas na porrada – e “tirando a roupa”.

Ele estaria na porta das fábricas e subindo em caixa de verdura no CEASA para falar para as massas. Seria um Cristo marginal, carismático, intenso. Uma mistura de Luther King, Che Guevara e Malcolm X. Aliás, três que, como Ele, morreram assassinados por seus opressores.

Seria um mais uma vez um Cristo da quebrada e do enfrentamento, e não um Cristo de amor e perdão. Mas… como eu disse, vocês ainda acreditam que ele seria loiro, de olhos azuis e pregaria a ideia fantasiosa de uma felicidade em outro mundo, longe daqui.

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Saúde Universal

Eu sempre disse para a minha mulher não se separar de mim porque qualquer coisa que venha depois da excelência gera frustração. “Nothing compares to me”.

Ok, mas essa introdução desnecessária era apenas para a gente no Brasil entender que ter um sistema universal de saúde como o SUS nos faz perder a perspectiva do que seja morar em um pais onde a saúde é um negócio, regido pelas leis de mercado, e não um direito humano básico e universal. Isto é: só depois da gente conhecer a insegurança e o risco de viver sem saúde garantida é que damos o real valor ao que temos em casa.

A destruição do SUS serve aos interesses dos tubarões do mercado da saúde, aos planos privados e às empresas que lucram com a doença, mas será um desastre para a população, em especial na base da pirâmide. Triste é saber que aqueles que decidem sobre o SUS tem dinheiro suficiente para pagar planos privados, que não passam de barreiras de classe que expõem nosso Apartheid social.

Em um país decente o trabalhador mais humilde se trata no mesmo hospital – e com os mesmos profissionais – que o presidente da República, até porque a vida dele não vale menos do que a de ninguém.

Defender o SUS e combater seus desvios é defender a democracia, a equidade e a justiça social. Atacar o SUS é ameaçar nossa soberania.

Como é a vida sem o SUS?

No gráfico abaixo vemos o número de pessoas que vão à falência TODOS os anos em razão de suas contas hospitalares e gastos com a saúde – tratamentos crônicos, medicamentos, acidentes, etc. No Brasil suspeito que o número também seja zero…

É para esse modelo que vamos trocar por causa de um Chicago Boy pinochetista?

Já aqui abaixo podemos lembrar da famosa conta para uma picada de Cascavel na gringolândia. Em dinheiro tupiniquim são R$ 820 mil golpitos, o preço de um maravilhoso apartamento em uma capital do país. Não há picadura que valha isso tudo (desculpem). No SUS o tratamento seria “gratuito” – em verdade sabemos que qualquer custo no Sistema Único de Saúde é pago pela nossa contribuição mensal ao sistema.

É para um sistema desumano e mercantilista que vamos migrar? Defender o SUS é defender a solidariedade como marco ético para o país.

Aqui temos outra famosa conta hospitalar gringa de um parto onde o ato de colocar o bebê em contato pele-a-pele com a mãe teve uma cobrança de 36 doletas. Quando uma ação simples, humana e banal – alcançar um bebê para sua mãe segurar – pode ser contabilizado, então não há limites para a mercantilização da própria vida.

É isso que desejamos para o Brasil?

Quando a “mão invisível do mercado” regula o preço dos medicamentos e dos procedimentos médicos sem qualquer interferência da população, podemos testemunhar a ganância e o desejo de lucro sobrepujarem os valores humanos e a fraternidade. É exatamente isso o que assistimos nos países onde a atenção à saúde é um comércio como a venda de celulares ou de bananas. O lucro estará acima dos valores essenciais de solidariedade e do amor ao próximo.

É esse o país que queremos deixar para os nossos filhos?

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