Nu com a mão no bolso

Em Barcelona a nudez não é criminalizada. Esta é uma postura da cidade muito antiga, conhecida por todos que a visitam. Se você quiser pode andar pelado na rua sem que isso seja tratado como delito. Existe um barcelonês (foto) peladão que ficou famoso por tatuar suas nádegas como se fosse um calção e que circula pela Rambla todos os dias. Ou seja: a nudez é um direito dos cidadãos e ninguém pode ser admoestado, criticado ou processado por andar nu. Também no norte da Europa, em especial na Suécia, é comum ver estudantes adolescentes (meninos e meninas) correndo nus pela rua festejando a chegada da primavera, como uma diversão juvenil, sem que isso seja visto como atentado ao pudor.

Enquanto isso, no Brasil, uma mulher foi presa por transitar pelo congresso em Brasília vestindo apenas a sua própria pele. Aqui, na minha cidade, o mesmo aconteceu há alguns anos com uma moça que adentrou um shopping usando sobre o corpo apenas batom e o esmalte das unhas. Ambas foram cercadas imediatamente, cobertas, levadas à delegacia e tratadas como criminosas. Afinal, como ousam desafiar os costumes mostrando suas vergonhas em público? Por certo que, fossem homens, e ainda levariam pipocos e um sonífero mata-leão. Caso alguma dessas cenas viesse a passar na televisão de Barcelona por certo que seus habitantes se espantariam com a ação policial em um caso de nudez. Alguns teriam mesmo se horrorizado com a atitude bárbara de agentes do Estado prendendo cidadãs apenas por terem passeado nuas pela cidade. “Por acaso o corpo é indecente, imoral ou agressivo aos olhos?”, perguntariam. “Não nascemos todos nus? Não andam nus os indígenas e os pequenos?”

No outro lado do mundo mulheres são criticadas e algumas até presas por não usarem o véu. Quando acontece no Irã muito se noticia cada vez que uma mulher sofre algum tipo de violência, física ou moral, por se contrapor aos costumes vigentes e à etiqueta islâmica ao vestir. Os jornais ocidentais escrevem infinitas colunas e imprimem manchetes escandalosas descrevendo a sociedade iraniana como machista, desrespeitosa com as mulheres e cerceadora de suas liberdades. Aqui no ocidente acreditamos ser esta uma violação inaceitável ao direito das mulheres – ou das pessoas em geral – de se vestirem como desejam. Criticamos, atacamos e acusamos os iranianos de serem machistas, atrasados e misóginos, porque não aceitamos que a sociedade determine o que uma mulher pode usar para se cobrir – ou não.

Para um sujeito de Barcelona deve ser confuso nos ver apontando os dedos acusatórios para a cultura iraniana por fazer – em essência – exatamente o mesmo que nós. O que os peitos e as nádegas têm de proibitivo aqui, as madeixas tem por lá. No fim, será sempre a tentativa de cercear a liberdade do outro de se expressar como bem entender. Somos diferentes na superfície e naquilo que censuramos, mas na essência somos por demais semelhantes.

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Madame Durocher

No teaser do filme sobre a Madame Durocher, pioneira na medicina do século retrasado – por ousar ser mulher e atuar em uma profissão historicamente dominada pelos homens – fui obrigado a ver mais uma vez os números fantasiosos atribuídos aos atendimentos realizados pelos profissionais do parto. Esta é uma prática comum, tanto entre parteiras quanto entre médicos. Sobre estas afirmações, peço apenas que façam a seguinte ponderação. À Madame Durocher foram atribuidos 8 mil nascimentos, um número redondo e grandiloquente que já deveria nos despertar atenção. A média de duração de um parto é de 8 horas para uma multigesta (que já teve filhos) e 12 horas para uma primigesta (que espera seu primeiro bebê). Isso se levarmos em consideração os partos atendidos no século XX, quando estas medições foram realizadas. Para alem disso, estamos falando de fatos ocorridos no século XIX onde a imensa maioria das crianças nascia em casa numa época onde não havia transporte rápido. Para atender essa quantidade de partos ela teria que passar por volta de 15 horas diárias entre a atenção ao parto e o deslocamento de ida e volta até a casa da paciente. Não havia hospitais de grande porte e muito menos plantões, que são invenções do seculo XX.

As pessoas que criam esses números (tipo 8 mil!!) não se dão conta do que seja atender essa quantidade imensa de partos. Para se ter uma ideia, isso significaria atender um parto por dia durante 27 anos seguidos, sem férias, descansando apenas um dia por semana. Num tempo onde os partos eram em sua imensa maioria domiciliares, determinando deslocamentos que por vezes demoravam horas, não haveria tempo para realizar essa atividade nessa frequência, e nenhuma parteira teria força ou saúde para realizar esta tarefa. Esses números são sempre falsos, inflados, criações fantásticas para garantir valor para o profissional; são criações numéricas mágicas, sem qualquer embasamento, porque quase nenhum médico tem anotações com o registro de cada paciente atendida. Além disso, se esta parteira atendeu um parto por dia durante décadas essa foi a única atividade que foi capaz de fazer durante esses anos todos; não poderia ter filhos, conquistar um marido, cozinhar, lavar roupas, namorar ou mesmo ler um livro para estudar e se atualizar. Simplesmente impossível.

“Ahh, mas talvez ela tenha atendido mais de um por dia” por menos tempo, mas isso é algo insano. Atender dois partos domiciliares no mesmo dia é uma tarefa gigantesca mesmo que você tenha carro e atenda na mesma cidade. Mais do que isso é loucura, mesmo se houvesse uma epidemia de partos “relâmpago”. Além disso, não se trata apenas do tempo entre as contrações e o nascimento; é importante levar em conta que após o parto é necessário pelo menos duas a três horas de observação do bebê e dos secundamentos maternos para garantir a segurança de ambos. O trabalho com o nascimento humano congrega em um só evento vida, morte e sexualidade. A carga imensa que esse trabalho gera produz um desgaste para além das questões físicas. Obstetras e parteiras trabalham se equilibrando sobre a fina lâmina que divide a vida e a morte, em um labor de profunda tensão, angústia, alegrias e tristezas profundas, onde o desgaste emocional é tão terrível quanto inevitável. Atender um parto por dia, mesmo que cada um deles durasse apenas 2 horas, já seria insano, insuportável na prática privada. Fazer isso durante décadas sem tirar férias é apenas impossível.

“Ahh, mas quem sabe em boa parte deles ela estava apenas acompanhando suas instrutoras”, mas nesse caso ela não seria a principal atendente do processo então não há como contabilizar como tendo “atendido” o parto. O número de partos funciona como a cicatriz do soldado que chega da guerra: é um sinal de valor e bravura. Infelizmente, entre os profissionais do parto, se criou o costume de inventar números para que isso seja a tradução explícita de sua experiência profissional e, portanto, do seu valor.

PS: faço essa observação apenas para alertar sobre os números fantásticos e fantasiosos que parteiras e obstetras apresentam como atendimentos realizados. De resto penso que esse tema e esse filme são especiais, pois mostram o trabalho árduo das parteiras e das pioneiras da medicina. Um filme que vale a pena ser visto. Parabéns aos realizadores.

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Antigamente

Se é verdade o adágio de que “o parto é um evento social que ocorre no corpo das mulheres”, teriam as mulheres no passado, recente ou longínquo, experenciado partos mais rápidos e fáceis? Quanto existe de real nas dificuldades do processo de nascimento e quanto há de cultura nestas dores? Se a sociedade inteira conspira para o nascimento, quais são as responsabilidades do campo simbólico – a forma como simbolizados os eventos – na construção do parto como sinônimo de “dificuldade”, “dor” e “sacrifício”? Como seriam os partos no século XVI? Inobstante sabermos que a ciência obstétrica salva vidas – inclusive e principalmente pela cesariana – qual o seu papel na desvalorização crescente do parto normal, da fisiologia feminina e dos mecanismos adaptativos que formataram o parto humano nos últimos milênios?

Estas são perguntas para entender a situação da assistência ao parto no início do seculo XXI. Hoje, a chance de uma mulher brasileira de classe média ter um parto normal no nosso contexto cesarista não passa de 10%. A cesariana triunfa de forma inconteste, em especial nas camadas mais abastadas da sociedade. Essa evidência demostra a distância entre as ideologias e a materialidade da vida. Teoricamente as mulheres ocidentais teriam uma ampla possibilidade de escolha: podem determinar como serão seus partos, desde nascimentos cirúrgicos até partos na segurança das suas casas. Todavia, a realidade se apresenta diferente e ela é condicionada pelo sistema de poderes que controla esses processos. Por isso as cesarianas já ultrapassam 59% dos nascimentos; no Brasil de hoje um parto fisiológico é a opção minoritária e, nas classes mais altas, a exceção.

Existe uma distância entre a liberdade teórica e a liberdade real, da mesma forma como o capitalismo oferece o “céu como limite”, mas sua realidade mostra a estagnação das classes e a dominação dos “de cima”. Para estes as opções são reais, sendo apenas teóricas para quem é “de baixo”. Quando analisamos friamente, é nítido que as mulheres são condenadas às cesarianas pelo modelo obstétrico “iatrocentrico” (centrado na figura do médico) e controlado pelas necessidades dos médicos, e não pelas reais condições e exigências do binômio mãebebê. Mesmo que, aparentemente, exista uma gama enorme de opções para as mulheres, elas são direcionadas subliminarmente àquelas que beneficiam os donos do poder.

A chance de um parto normal aumenta exponencialmente quando ocorre a decisão de ficar em casa, por exemplo, até 7 cm de dilatação; a forma como uma mulher chega ao hospital é o mais valioso elemento para prever o que vai lhe acontecer. Não deveria surpreender a ninguém que esse é o grande segredo: ficar o mais tempo possível longe dos ambientes insípidos e adrenalínicos do hospital. Desta forma cabe a pergunta, que me parece relevante: como seriam os trabalhos de parto sem a cultura da medicalização, que leva inexoravelmente à alienação das mulheres nos temas do parto e a amamentação? Sem uma cultura de parto formatada pelo medo (e a solução deste drama oferecida à tecnocracia), pairando sobre o parto como um abutre agourento, seriam os partos mais livres, mais rápidos, mas tranquilos e “naturais”?

Estas são as questões fundamentais: qual a parcela de responsabilidade da “cultura do medo” sobre o parto para a criação de um modelo alienante e tecnológico? Por que (ou para quem) as sociedades ocidentais criaram a atual narrativa do parto, que o descreve como violento, agressivo, doloroso e indigno da condição humana? Quem se beneficia com essa perspectiva? Quem ganha com a expropriação do parto e a transformação das mulheres em contêineres frágeis e indignos de confiança? As respostas a estas perguntas serão a narrativa para o nascimento humano no século XXI.

PS: No início deste século havia listas de discussão como a “parto nosso” e a “parto humanizado”. Elas foram fundamentais para o debate sobre as transformações que trazíamos como proposta. Eu escrevia um “tijolão” como esse cada dois dias, apresentando minha perspectiva sobre a assistência e os rumos para o nascimento humano. Quase ninguém lia, assim como quase ninguém vai ler o que está escrito nesse “tratado” aí em cima. Sim, em tempos de Facebook “tratado” é qualquer texto acima de dois parágrafos. Mas… a gente escreve por compulsão, não porque alguém porventura vá se interessar.

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O Levante de Gaza

Existem fatos cuja grandiosidade não é facilmente perceptível no momento em que ocorrem. Muitas vezes apenas o tempo, com seu sopro incansável, é capaz de lapidar os eventos e mostrar sua importância real. Por esta razão, não há dúvida que os livros de história contarão os acontecimentos de 7 de outubro de 2023 por uma perspectiva completamente distinta daquela que temos hoje. Como poderia ser diferente se temos a informação controlada pelas grandes corporações? Nosso jornalismo é colonizado pelos interesses imperialistas, impedindo que vejamos a realidade do que em realidade ocorreu. Todas as grandes empresas de comunicação do ocidente são francamente sionistas ou controladas por pessoas com laços econômicos com os Estados Unidos ou Israel, o que nos oferece uma perspectiva claramente facciosa dos fatos daquele dia. Só o tempo poderá desfazer a rede complexa de mentiras criadas para disfarçar os crimes horrendos do imperialismo contra os povos subjugados.

Entretanto, mesmo com as informações mentirosas que surgiram, descrevendo atrocidades contra os israelenses que festejavam ao lado do campo de concentração de Gaza – os abusos sexuais, as decapitações, as pessoas incineradas – ainda assim foi possível enxergar a verdade por trás destas versões falsificadas. Até a imprensa israelense foi obrigada a reconhecer as ações criminosas do seu exército e a insanidade da “diretriz Hannibal”, que sacrificou seus próprios cidadãos no intento de matar palestinos e evitar o aprisionamento de reféns. Entretanto, o futuro nos permitirá ver em perspectiva o “Levante de Gaza”, que estabeleceu um basta definitivo da população encarcerada da Palestina sobre os abusos dos invasores sionistas. Esta data será lembrada por gerações como o grito de liberdade de um povo subjugado há 76 anos pelas nações imperialistas, em especial os sionistas e os Estados Unidos.

Mas terão os palestinos, libaneses , iraquianos, iemenitas força para deter o exército tecnológico de Israel? Ora, quando dizem que o poder de fogo de Israel é invencível, nutrido pelos Estados Unidos que, por sua vez, é a maior força bélica do planeta, e que o Hamas e o Hezbollah serão aniquilados mais cedo ou mais tarde, é necessário lembrar o que ocorreu na Coreia Popular nos anos 50, no Vietnã nos anos 70 e há poucos meses no Afeganistão. Inobstante a disparidade incalculável de forças entre o exército imperialista e as forças de resistência, o resultado foi o mesmo: a vitória daqueles que lutavam pela liberdade e pela independência do seu povo. Portanto, a diferença de poder de fogo, apesar de imensa, não foi a determinante em longo prazo; as forças libertárias, mesmo que às custas de enormes sacrifícios, acabaram sempre vencendo no final.

Assim, por mais que Israel tenha apoio irrestrito do Império, a queda do regime sionista – racista, supremacista, teocrático, opressor e excludente – é uma questão de tempo. Mesmo que ocorresse algo improvável, como a derrota completa das forças resistentes do Líbano, Palestina, Síria, Iêmen, Irã e Iraque e todos os grupos que lhes dão suporte, ainda assim a imagem de Israel está profundamente deteriorada na percepção da população do mundo inteiro. As manifestações que denunciam os massacres covardes dos sionistas, contra crianças, mulheres, jornalistas, médicos, enfermeiras numa matança jamais vista no século XXI (e que nos faz lembrar dos horrores nazistas) deixaram claro que o planeta inteiro não aceitará mais a existência de um país que faz do racismo institucional seu principal cimento social.

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O horror sionista deixou uma marca indelével na memória de todos, que hoje em dia rejeita de forma clara a ideia de um “povo escolhido”. Por que razão o Criador escolheria como seu povo predileto aquele capaz de ações demoníacas, que contrariam todas as ideias de fraternidade e que aviltam a noção de civilização? O mundo não vai acordar amanhã esquecendo os horrores e a desumanidade promovidos pelos sionistas de Israel, e não há “hasbara” (propaganda sionista) forte o suficiente para produzir uma amnésia da barbárie contra a população civil que ocorre há 1 ano em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano. Portanto, nos anos vindouros o 7 de outubro será celebrado como o grande “uprising”, o “levante da Palestina”, o marco inicial da liberdade do povo que durante mais de sete décadas lutou contra um sistema opressivo, violento, injusto, racista e imoral. Será uma vitória importante das nações insurgentes contra o imperialismo brutal e assassino, um exemplo de coragem para todas as nações que buscam sua independência e sua autonomia. Essa dívida todos teremos com o povo palestino. Sua força e sua coragem, seu sacrifício e sua resiliência serão exemplo para todas as gerações vindouras.

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Bloqueio a Cuba

Os Estados Unidos são prisioneiros do embargo e não podem abandonar esta estratégia. Imaginem o que aconteceria se, findo o bloqueio a Cuba, a pequena ilha caribenha começasse a resplandecer, com investimentos, crescimento econômico, turismo, abertura comercial com o BRICS, etc. “Uma nação socialista “dando certo” a 100 km da costa da Flórida? Não podemos permitir!! Uma nação autônoma, independente e rebelde desafiando o imperialismo, sendo exemplo de educação, segurança e saúde sem baixar a cabeça para os gringos? Jamais!!”

Não, eles não vão aceitar. Entretanto, a maior prova do sucesso do socialismo é o próprio embargo americano. Se o socialismo fosse assim tão ruim e ineficiente, como afirmam os apologistas do capitalismo, bastaria deixá-lo se desmanchar por si mesmo, em Cuba e na Coreia Popular. Não… é necessário estrangular estes países para não dar chance ao poder popular. Porém, como o Império sabe a potencialidade de uma sociedade solidária, fraterna e planejada para o desenvolvimento das nações, sobra como estratégia sufocar a pequena ilha, impedindo-a de cumprir seus altos fins.

A votação da assembleia da ONU em outubro 2024, mais uma vez condenando quase que de forma unânime o embargo a Cuba, apenas confirma o fato de que o mundo inteiro repudia o imperialismo americano e que já não suporta mais sua intervenção no planeta. O voto de Israel, igualmente contrário ao fim do bloqueio, não é senão outra prova de que este país falso, imoral, corrupto e bandido é apenas um apêndice dos interesses dos Estados Unidos no Oriente Médio. Todavia, também nos dá a certeza de que mundo será muito melhor e pacífico sem a existência de Israel e sem as garras do imperialismo sugando as nações. Oxalá, mais cedo do que esperamos, isso será realidade.

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Rosebud

Há alguns dias, meu neto de 8 anos veio me pedir para ajudá-lo a fazer uma maquete para levar à escola. Era necessário unir 3 latas de café para fazer uma torre. Entregou para mim as latas para que fossem unidas com fita colante. Quando peguei as latas percebi que estavam vazias mas com as paredes ainda sujas de café.

– Precisa limpar, Zuki, senão vão ficar cheirando a café.

Levei até a pia e comecei a lavar. Ele ficou me olhando por alguns instantes, deu um sorriso e comentou:

– Que sorte eu pedir ajuda exatamente para o especialista.

Na divisão de tarefas da Comuna coube a mim a função de lavar a louça. Esta não era das tarefas mais disputadas entre as que estavam sobre a mesa; afinal já somos 11 comunas, fora os convidados esporádicos; por certo que era uma das funções menos desejadas. Entretanto, lavar a louca, nunca foi um peso para mim. Ao longo dos anos desenvolvi técnicas para fazer deste tempo algo produtivo. Coloco fones de ouvido e fico ouvindo podcasts, entrevistas, as notícias do dia, às vezes músicas e o tempo passa muito rápido.

Entretanto, esta é tão somente uma meia verdade; de certa forma é apenas uma racionalização barata. Mesmo sem as “técnicas”, a verdade é que eu gosto de lavar a louça. Gosto do barulho da água, de organizar os pratos, dos gestos repetitivos e calmantes com a esponja, do cheiro do sabão e de ver tudo limpo no final. Tenho o costume de lavar a própria pia após a tarefa, até deixá-la brilhando. Quando quis descobrir a chave para explicar este meu estranho gosto lembrei que quando criança minha mãe colocava eu e meu irmão mais velho a ajudá-la nas tarefas após o almoço. Era uma rotina diária, e só podíamos brincar depois de terminá-la. Quando bem pequenos ela contava histórias sobre as aventuras de dois garotos: Patrick e Bolão. Quando ficamos mais velhos, ela ligava o rádio e ficávamos escutando “2001”, um programa de ciência narrado por Flávio Alcaraz Gomes, ícone do rádio gaúcho, transmitido pela saudosa Rádio Guaíba (que ainda existe, mas se transformou em um antro bolsonarista). Aliás, foi ele quem adaptou para o rádio brasileiro a “Guerra dos Mundos“, de Orson Welles.

Por certo que a lembrança destas cenas de convívio com a minha mãe no passado criaram pontos de luz na memória, transformando uma tarefa enfadonha em uma atividade quase lúdica. Lá nas profundezas escuras do meu inconsciente profundo ainda escuto a voz da minha mãe contando as histórias enquanto passo detergente nas panelas. Na verdade, qualquer sujeito que procure atividades prazerosas em sua vida acabará encontrando conexões com fatos escondidos do passado.

Em Cidadão Kane o protagonista morre dizendo o nome do fabricante do trenó com o qual brincava no dia em que foi levado de casa para viver com a família que o adotou. Orson Welles desejava, mostrar que a construção do Império jornalístico de Charles Foster Kane (baseado no barão do jornalismo americano William Randolph Hearst) estava ancorada em um trauma do passado: o desligamento precoce dos laços que tinha com a mãe e a família. Aliás, o fato de Kane ter o nome do meio “Foster” (adotivo) já deveria nos acender um alerta. Sua fortuna imensa e seu poder estavam concentrados na solução da dor profunda criada naquele dia, como um buraco negro poderoso que o sugava de volta para aquele momento decisivo.

Todos carregamos nossos “Rosebud” particulares; eles podem ser vistos em nossas manias, fixações, desejos, fetiches, taras e prazeres. Somos constituídos por estas marcas feitas de lembranças do passado, que nos ligam ao prazer e à dor de forma intensa e vívida, mesmo quando a conexão consciente já foi há muito perdida na neblina do tempo.

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Caritas

A prática da caridade só é necessária pela existência injustiça social. Sem esse desequilíbrio na distribuição da riqueza a caridade seria desnecessária e inútil. Em um mundo justo e equilibrado onde cada um receberia de acordo com seu trabalho, para que serviria a caridade? Portanto, antes de ser caridoso seja ativista. É mais importante tratar a causa do que dedicar-se a amainar as dores que lhe seguem por consequência.

Madre Calcutá de Santa Teresa, Aforismos

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Ranking

Mais uma vez eu vi a expressão “pessoa de alto valor”, que é muito usada por esses coaches de relacionamento que instituíram uma espécie de métrica para os sujeitos no que diz respeito à sua capacidade de atrair. Funciona como se cada um de nós fosse um personagem de RPG que tem “x” pontos de beleza, outros de dinheiro, uma pontuação por sua família, outros pontos obtidos por formação, outros por carisma e no final o indivíduo tem um “score” que vai lhe garantir uma posição no ranking do seu gênero. Tudo isso parecendo um capítulo de “Black mirror”.

Isso funcionaria se os elementos perceptíveis e objetivos de cada um de nós fossem os únicos determinantes das escolhas sexuais. Entretanto, é enganoso pensar assim. Somos um gigantesco núcleo de medos, cobertos por uma capa de crenças inconscientes e irracionais, e sobre ela repousa uma fina e translúcida camada de racionalidade, uma fachada enganosa e diáfana, que nos oferece o diferencial da razão. Este fino verniz nos afasta dos medos criando uma sensação de controle sobre a natureza. A fina camada cinzenta que recobre nosso cérebro, uma novidade no processo evolutivo, oferece alternativas racionais às escolhas cotidianas, ao mesmo tempo em que nos ilude fazendo crer em uma luminescência apenas aparente.

Somos dominados pelas trevas do inconsciente, e o calabouço sombrio e úmido onde ele impera conduz nossas escolhas afetivas de forma muito mais efetiva que os elementos objetivos destes escores contemporâneos. Aliás, prefiro crer no “amor à primeira vista” e nas “almas gêmeas” do que acreditar que essas pontuações objetivas possam produzir qualquer vantagem na busca por um parceiro ou parceira para a vida. No que diz respeito ao amor, confio mais nos meus intestinos do que na minha cabeça.

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Incompatibilidade

Ciência e religião são realmente incompatíveis, mesmo quando ambas apontam para a mesma verdade. A religião se ocupa com o “porquê”, e a ciência com o “como”. Entretanto, a ciência precisa de método, enquanto a religião apenas fé. A ciência precisa ser falsificável, a religião não. A ciência não aceita dogmas, a religião se baseia neles. São incompatíveis porque seu objeto e seu caminho são distintos, mesmo quando encontram o mesmo fenômeno – ou a mesma Verdade. São incompatíveis pois tem objetos diferentes e caminhos distintos, mesmo quando chegam à mesma conclusão.

Exemplo: o espiritualismo crê na existência do Espírito, ou seja, na pré-existência e na sobrevivência da alma. Isso não tem respaldo na ciência, pelo menos até agora. Entretanto, com o progresso da técnica, seria possível imaginar no futuro um aparelho capaz de captar vozes, mensagens e imagens que atestassem esse fato, e desta forma a vida após a morte seria comprovável. O espiritismo e a ciência estariam apontando para o mesmo fato, mas por caminhos diversos, porque uma simplesmente acreditou, fez uso da fé, enquanto a outra só pôde aceitar tal informação após se render às necessárias evidências.

Quando os religiosos mostram que suas crenças estão baseadas em “revelações” estão provando meu ponto. Em ciência, como bem o sabemos, isso é um absurdo total. Imaginem Einstein explicando o espaço-tempo aos seus pares e afirmando: “Não se faz necessária qualquer lei ou equação que o explique. Acreditem em mim; trago-vos a revelação”. Ora, isso não faz sentido algum.

Mas essa é a lógica das religiões. Todas.

Athaide de Vermon, “Manuscritos”, Ed. Veritá, pág. 135

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Millôr

Quando adolescente e jovem sempre fui fã do jornalista Millôr Fernandes, por seu humor ácido e por uma característica que acho admirável em escritores: assim como Oscar Wilde, ele era um genial frasista. Nesta época eu abria a Veja apenas para ler a coluna do Millôr. Gosto muito de uma frase sua, que uso até hoje, quando vejo um grupo de pessoas falando mal de alguém de forma inexorável e dura: “O mundo tem muitos canalhas, mas estão todos nas outras mesas” (pág. 100). Sendo ele um emérito frequentador de botecos cariocas, essa frase certamente a criou entre um e outro Chopp com os amigos. Ele tinha outra característica que eu achava criativa e original: escrevia uma simples frase e colocava abaixo uma nota de rodapé em caixa baixa do tamanho da folha. Ou seja: funcionava como algumas obras artísticas da pintura moderna, que se resumem a poucos rabiscos em uma tela branca, mas sobre as quais se escrevem gigantescas teses de doutorado, retirando delas muito mais do que o próprio autor seria capaz de imaginar.

Mas, para além de seu humor ácido, sua visão política cheia de ceticismo, e sua rixa histórica com outro ídolo meu, Chico Buarque (que chegou às vias de fato), ele também é uma imagem viva do jornalismo e da sociedade – carioca e brasileira – de sua época. Seus comentários e frases sobre a sociedade e, em especial, as mulheres, são uma forma muito clara de olhar a cultura dos anos 60-70. Por estas razões comprei o livro Millôr Definitivo – A Bíblia do Caos” assim que foi lançado, pois ali se concentravam as suas melhores “tiradas”, seus pensamentos, sua perspectiva política (mesmo sobre fatos datados) e seu humor de acidez inconteste. Categorizados por palavras chave, estão listados 5142 pensamentos, máximas, conceitos, aforismos, devaneios, etc. para se poder absorver o que ele deixou como testemunho, registros de um astuto observador da realidade brasileira.

Entre as suas manifestações, uma me chamou a atenção: a forma como falava despudoradamente das meninas de Ipanema, pré-adolescentes com 13 anos de idade. Imaginem o furor que causaria essa manifestação de admiração sobre o corpo de “crianças” de 13 anos nos dias de hoje, descrevendo-as com sua “graça e sensualidade”. Certamente seria cancelado sem dó, e talvez fosse até criminalmente perseguido. Entretanto, a idade me permite recordar que, quando da publicação destas frases não havia a consciência que hoje temos sobre o tema. Não causou nenhum escândalo suas frases sobre meninas muito jovens, assim como à época não nos chocamos com Caetano ou Jerry Lee Lewis. Não existia a noção, que hoje temos, de proteger a sexualidade emergente das meninas, que ainda eram vistas da mesma forma como os antigos as viam: objetos para o deleite masculino, sem consideração sobre sua maturação afetiva, emocional, psíquica e até social. Ou seja: Millôr escreveu sobre sua época, sobre o entorno no qual se inseria e também com o material do campo simbólico que absorvia e vertia para o papel. É preciso ter com ele a mesma consideração que deveríamos ter com Allan Kardec, Fernando Pessoa e Monteiro Lobato quando se referiram à negritude em seus livros. Se suas obras podem ser criticadas hoje (e devem) elas merecem ser vistas sem anacronismo, inseridas em sua época e avaliadas pelo contexto no qual foram escritas.

De qualquer forma, Millôr continua sendo um dos meus escritores favoritos. Deixou um legado de crítica política inteligente e vigorosa, sem jamais abrir mão do humor como linha condutora de seus textos.

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