Uma mulher deitada de costas é como uma tartaruga encalhada. Nessa posição a tartaruga não consegue chutar, lutar, arranhar e correr tão facilmente. Quando a mulher está deitada de costas, a estrela do show se torna o “cuidador”. Afaste este personagem – ou faça-o agir apenas quando deve – e ela se tornará a “estrela” em seu próprio parto. Para o cuidador é importante manter aquela parturiente de costas, submissa, pois esta é a forma de manter o controle sobre ela. Não por acaso a posição “civilizada” de parir é idêntica a todas as formas de submissão entre mamíferos superiores. Por esta razão, mais do que um ato operacional, a posição de decúbito dorsal tem um importante valor simbólico no sentido de controlar e domesticar as forças reprodutivas.
Claro que é possível analisar o caso de uma mulher, uma conhecida e rica influencer, que mostra o embrião recém-expelido para as câmeras, numa postagem que se tornou viral nas redes sociais e propiciou debates. Podemos olhar este caso pela ótica da mulher, e se perguntar qual o quinhão de sofrimento que uma mulher experimenta diante deste tipo de perda. É verdade que apenas quem passou por essa dor tem plena capacidade de entendê-la. A perda de um embrião é muito mais do que uma gestação interrompida: é o fracasso de um projeto, a perda de uma esperança, um soco na autoestima e a desconfiança em suas capacidades de gestar e parir com segurança.
Um fato como esse abala a vida de uma mulher, e disso fui testemunha em centenas de pacientes. Além disso, este fato tem repercussões para toda a vida; a gestação que se segue é sempre muito delicada, cheia de medos, desconfianças, angústia e ansiedade. Muitas vezes terminam pela alternativa cirúrgica, pois a falha no pré-natal faz com que elas acabem depositando mais confiança na tecnologia do que na sua própria fisiologia, que lhes parece indigna de confiança. Uma gestação após perda – gravidez arco-íris – sempre é delicada, precisando de um suporte psicológico muito consistente. Ou, no mínimo, que esta gestação seja atendida por um cuidador paciente, consciencioso e atento às questões emocionais e espirituais envolvidas.
Entretanto, neste caso de agora a questão mais relevante não recai sobre as repercussões na vida da mulher e da família diante de uma perda que, apesar de potencialmente devastadora, é muito mais comum do que parece. O que acho digno de debater, pois que é o fato incomum e mais chamativo, é que um influencer usa um embrião recém-saído do corpo de sua mulher para capitalizar nas redes sociais, para conquistar seguidores e, desta forma, ganhar ainda mais dinheiro. O que deveria ser debatido é o limite da exposição; deveríamos questionar a fronteira desta busca insana por notoriedade e avaliar com o devido rigor a necessidade de espetacularizar a própria vida, tornando até fatos tristes – como a perda de uma gestação – em uma oportunidade de faturar, explorando de forma mórbida a intimidade de quem passa por tais dramas.
Por certo que estas pessoas têm o direito de fazer o que bem entendem, desde que se mantenham dentro da lei. Não se trata de criminalizar o exibicionismo macabro, até porque isso seria impossível. Todavia, creio ser importante questionar o tipo de sociedade que valoriza e aplaude tais atitudes. O resultado direto postagem mórbida do casal foi o aumento do número de seguidores – a nova moeda do mundo cibernético – que se seguiu à exposição do embrião. Ou seja: do ponto de vista do sujeito que ganha a vida vendendo cursos de como ficar rico e que, poucos dias antes, havia prometido que seu filho se aposentaria antes dos 18 anos, o resultado foi ótimo. Nesta lógica, sempre vale a pena se o desfecho é financeiramente positivo.
Para aqueles que acreditam que esta foi uma oportunidade de dar voz a uma mulher que, de outra forma, ficaria com sua dor presa no peito e incapacitada de manifestar sua dor, eu digo que existem milhares de maneiras de fazer isso sem expor seu embrião à exposição pública e dando vazão à curiosidade das massas. Para isso existem grupos de mulheres, como o Grupo Transformação, que escutam mulheres e famílias que passaram por perdas gestacionais e/ou neonatais, e que tantas mulheres já auxiliaram. Quem já passou por isso – inclusive pessoas da família – sabe o valor de ser escutada e acolhida quando estão atordoadas pela tristeza.
Em verdade, assim como ocorre nas rupturas de relacionamento amorosos, quanto mais exposição pública dos fatos relacionados ao desenlace, mais claro fica que não houve um rompimento maduro e saudável. É falsa a ideia de que a solução para os problemas é a vulgarização escandalosa de nossas dores; a maturidade se expressa por vias muito mais sutis. Não se trata, muito menos, de exaltar o sofrimento silencioso, mas de entender que a monetização da vida privada – em especial nossos dramas e dores – é um sinal de falência dos valores, desintegrados pelo capitalismo decadente.
O Imperador do STF Alexandre de Moraes, conhecido como Xandão, disse que quem “comemorar” o 8 de janeiro estará praticando crime. Fico imaginando como ele situa isso no código penal freestyle que ele criou dentro da sua cabeça. Segundo ele disse, essa comemoração significaria “instigar golpe de Estado”. Peço, ao renomado Ministro, que defina o que é “instigar”. Por acaso comemorar o fim da II Guerra Mundial seria instigar ódio aos alemães? As pessoas ainda não entenderam que Alexandre de Morais é da mesma turma dos bolsonaristas, mas de um clã diferente. O ódio de Alexandre é porque ele estava com o nome no caderninho dos matadores contratados por Bolsonaro e sua turma. Não é o amor pela democracia e muito menos pela justiça o que o move: é amor a si, autopreservação, vaidade e desejo de protagonismo.
O ativismo jurídico que ele agora exerce apenas circunstancialmente nos beneficia. Na primeira vez que a esquerda resolver parar o país exigindo mudanças profundas, ele vai se voltar contra a classe trabalhadora e vai interpretar a greve – ou a passeata, manifestação, paralisação, ocupação- como “incitação ao golpe de Estado”. Pronto: prende Lula, prende os parlamentares, prende o trabalhador, encarcera senhoras de idade, e tudo aparentemente para salvaguardar a democracia.
Sabem por quê? Porque ele pode tudo e ninguém diz nada!!! Esse sujeito, apesar de não ter votos, manda no país mais do que o presidente, criando da sua cabeça leis que não existem (como todas as interpretações absurdas da lei do racismo “por inferência”), atropelando a constituição para impedir Lula de concorrer, julgando casos onde ele é (pasmem!!) vítima e juiz ao mesmo tempo, e agindo como um imperador, sem precisar dar satisfações a quem quer que seja.
Quem defende o Ministro Alexandre sofre de “síndrome de Estocolmo”. Criaram a fantasia de que ele “salvou a eleição”, quando, em verdade, ele impediu a eleição de Lula quatro anos antes através do seu golpe no STF, no qual rasgaram a constituição para impedi-lo de concorrer. Anotem aí: muito antes do que se espera haverá um golpe de Alexandre contra alguma manifestação popular da esquerda. O mesmo autoritário que cortava pés de maconha vai atacar a livre manifestação do povo por um governo melhor e mais justo.
Durante anos eu li artigos e vi documentários que abordavam a hipotese ficcional de um mundo no qual o nazismo havia vencido a segunda guerra mundial. Por certo que junto com a vitória militar das forças nazistas haveria o controle da produção e da comunicação. Os países europeus estariam em frangalhos, com governos fantoches comandados por Berlim, e seus governos estariam enfraquecidos pelo gigantismo da Alemanha. Comunistas seriam inimigos mortais, caçados em toda a Europa e os Estados Unidos teriam o status de país do novo mundo, um bom fabricante de geladeiras. Todavia, não tenho dúvida alguma que o controle da imprensa, e o fato de que a história é sempre contada pelos vitoriosos, contaria a vitória da Alemanha como a coquista do “bem contra o mal” e a destruição de judeus, ciganos e comunistas seria tão somente a limpeza necessária de terroristas e bandidos comuns que ameaçavam a democracia nazista.
Quando vejo mundo de hoje e percebo o que os Estados Unidos fazem do mundo, me vem à cabeça a pergunta: estamos muito diferentes do que seria o mundo se Adolf tivesse vencido? Não seriam os ataques aos países do Oriente Médio, patrocinados pelo imperialismo, o mesmo sentido da dominação sangrenta e racista do III Reich? Não seriam os palestinos de hoje os judeus de outrora? Não seriam a Síria, o Iraque, o Afeganistão os países tomados pelas “blitzkrieg” de Hitler? Não seria a propaganda de hoje, pelos veículos sionistas que controlam a informação, uma forma de pintar de ruim o que é nobre e de bom o que é perverso? Da mesma forma como descrevíamos o “judeu maligno” de outrora fazemos hoje, pelo massacre da mídia, a imagem falsa do povo palestino como terrorista. Estamos muito distantes da ficção sombria da vitória dos nazistas?
O imperialismo, com sua dominação de espectro total, não difere muito de um totalitarismo planetário. Um mundo de equilíbrio não pode conviver com essa barbárie. A tarefa primeira do revolucionário é combater o imperialismo e seus tentáculos.
A Umbanda é uma religião afro-brasileira criada no início do século XX, no Rio de Janeiro, a partir da associação de crenças e ritos do candomblé, o catolicismo e o espiritismo. A palavra “umbanda” tem origem no idioma Bantu e significa “lugar de culto” ou “sacerdote”. Umbanda é, portanto, uma religião cristã, criada do sincretismo entre tradições africanas (como o Candomblé) e o cristianismo, numa das mais bonitas mesclas entre as iconografias cristã e africana, fazendo uso também do mediunismo como expressão, elemento característico da herança africana.
Eu sou espírita laico, portanto não tenho e não sigo nenhuma religião. Entretanto, quando analisamos as manifestações culturais de um país gigante como o Brasil é forçoso reconhecer a Umbanda é uma das mais bonitas páginas da cultura religiosa brasileira, com seus ritos, suas vestimentas, seus orixás, seu sincretismo, sua música e a mistura criativa entre África e Ocidente. Além disso, a Umbanda é a religião mais respeitosa com o universo LGBT, e uma das que mais concentra – junto com o Candomblé – pretos e pobres do Brasil, a classe de trabalhadores explorados que levarão adiante a nossa revolução proletária. A Umbanda tem um valor cultural imenso para o Brasil e, assim como as outras religiões surgidas dos mitos africanos, é um maravilhoso patrimônio cultural desse planeta.
Por certo que existem pessoas que usam das religiões para enganar e ludibriar pessoas em necessidade, mas isso ocorre em todas as religiões. É comum ver “médiuns” querendo ganhar dinheiro explorando a crendice e o misticismo de gente crédula ou desesperada. Ao mesmo tempo está cheio de “sensitivos” que recebe mensagem falsa dos mortos, desonestos que usam a Cabala, picaretas do xintoísmo, dos ciganos, do espiritismo, dos exorcistas católicos, etc. Ou seja, esse não é um problema da Umbanda, mas dos humanos. Porém, o fato de mesclar tradições de África com santos católicos não é uma falha ou fraqueza de suas tradições; em verdade é a magia do sincretismo. Não é à bossa nova o sincretismo do jazz com o samba? Não é o blues a mistura da tristeza e da musicalidade negra com os ritmos ocidentais? Não seria o Rock o filho parido de tantas mães? Não seria a própria humanização do nascimento uma espécie de sincretismo entre o “free birth” e as práticas tecnocráticas de assistência ao parto, alimentando-se de ambas as experiências para produzir uma síntese que tende a melhorar a experiência e a segurança do parto? Desta forma, para “não morrer” tudo precisa se transformar e se adaptar. Seria justo dizer para os passarinhos que eles são “pobres dinossauros fracassados, que precisaram diminuir para não acabar”? Ou que o seu sucesso surgiu de sua adaptabilidade a um mundo em transformação?
A música “Banda Um” do genial do Gilberto Gil é uma ode ao sincretismo, uma elegia ao pote de raças e culturas que se produziu no Brasil como uma de suas maiores riquezas. A Umbanda é a melhor síntese de brasilidade!! Viva a Umbanda, a religião mais brasileira e mais revolucionária das Américas!!!
“Banda um que toca um balanço parecendo polka Banda um que toca um balanço parecendo rumba Banda um que é África, que é báltica, que é céltica UmBanda América do Sul Banda um que evoca um bailado de todo planeta Banda pra tocar por aí No Zanzibar Pro negro zanzibárbaro dançar Pra agitar o Baixo Leblon O Cariri Pra loura blumenáutica dançar Banda um que soa um barato pra qualquer pessoa UmBanda pessoa afins Banda um que voa, uma asa delta sobre o mundo UmBanda sobre patins Banda um surfística nas ondas da manhã nascente UmBanda, banda feliz Banda um que ecoa uma cachoeira desabando UmBandaum, bandas mis”
Esta é uma verdade cristalina. Nas cinco gerações que tive contato, desde os meus avós até os meus netos, o envolvimento dos pais (homens) na gestação, parto, educação, tarefas, aconselhamento etc. é muito maior agora do que já foi outrora. Meu pai jamais pensou em auxiliar no parto dos filhos, nunca conferia boletins da escola e tinha um contato conosco muito mais restrito. Sua função era de provedor e, na velhice, conselheiro. Eu já fui um pai um pouco mais presente, mas com um papel muito menor do que meu filho e meu genro desempenham na vida dos meus netos. Por certo que falo de um recorte de classe média mas, guardadas as proporções, não há porque essa novidade não se expressar também nas classes baixas e altas. Esse é um fenômeno muito novo na cultura, mas uma tendência sem volta.
Meu pai costumava achar engraçado quando eu falava que os casais iam juntos à consulta de pré-Natal. Para ele isso era uma novidade chocante. “O que um homem tem a ver com essas coisas?”. dizia. Para ele a presença do pai nas consultas e no parto só poderia atrapalhar. Ele me contou que só se preocupava que o seu carro (um DKW) tivesse gasolina suficiente para ir ao hospital quando chegassem as dores. O cuidado com os filhos não era uma tarefa dos homens; eles não poderiam deixar de lado a missão de construir e controlar a civilização para cuidar, alimentar e educar de gente miúda. Já os homens de hoje são muito mais presentes e participativos nas tarefas domésticas e no cuidado de crianças, mesmo as muito pequenas. Fui testemunha disso nas histórias contadas dos pacientes mas também com o que vivenciei na minha casa, comparando com o que testemunhei nas gerações passadas. Por certo que o envolvimento masculino de hoje não é o ideal – até porque jamais será o suficiente, como bem o sabemos – mas não se pode comparar o nível de atuação dos pais atuais ao lado dos filhos com o papel da paternagem que vi a partir dos anos 60.
A realidade contemporânea que hoje temos, quando pela primeira vez vemos os pais (homens) sendo uma fonte de afeto (e não apenas recursos e limites) para seus filhos, é uma novidade no mundo ocidental e, na minha modesta opinião, eles estão se saindo muito bem nesta nova tarefa, mesmo sabendo da dificuldade que a nova distribuição de funções imprime na dinâmica social. Isso se expressa inclusive no número cada vez maior de filhos que optam em morar com o pai depois de uma separação, algo que não existia na minha infância. De qualquer forma é um período de grande aprendizado para os novos pais, e de grandes transformações para o nosso conceito de paternidade.
Eu sabia há muito tempo que o Antony Blinken era cidadão israelense. Na época que descobri perguntei como podia um sujeito na sua posição – algo como o Ministro de Relações Exteriores – ter cidadania de outro país. É a questão que fica no ar: como um sujeito que serve a dois senhores se situa quando existem conflitos de interesses evidentes. Por exemplo, nas relações com os países árabes ou de inimigos de Israel. Existe um evidente constrangimento, pois um secretário de Estado de uma país não pode ter compromissos com outro, pois as chances de desacordos não são desprezíveis. O mesmo aconteceria se Bolsonaro conseguisse cidadania italiana quando teve essa ideia – e efetivamente tentou – para usar posteriormente como rota de fuga. Felizmente os italianos não caíram no truque. Como ele se posicionaria se houvesse alguma disputa com os italianos – como efetivamente houve há poucos anos no caso Batistti?
Outra questão é o fato de jovens judeus de outros países estarem combatendo no exército de Israel. É o caso do líder sionista no Brasil que atuou como soldado em Israel, André Lajst. Como permitem isso? E se o Brasil tiver um conflito com Israel? Como podemos aceitar um soldado de outro país aqui no Brasil, sendo cidadão brasileiro, com direito ao voto e até com a possibilidade de concorrer como candidato nas eleições, de vereador a presidente?
Por outro lado, a existência de um israelense como secretário de Estado americano, demonstra a força do lobby sionista nos Estados Unidos. Apesar de os judeus serem apenas 2.4% da população americana – por volta de 7,5 milhões de pessoas – seu poder é gigantesco, e se expressa através do dinheiro, capaz de comprar quase todos os parlamentares das duas câmaras americanas. Assim, se você não beijar a mão do AIPAC (o mais poderoso lobby sionista) sua carreira política é exterminada, seja porque não terá recursos para uma campanha milionária, seja porque haverá um empenho brutal na destruição de sua reputação por parte das redes de comunicação ou mesmo da brutal inteligência israelense – o Mossad. E não são poucos os exemplos de sujeitos destruídos por esse lobby.
Ou seja: a fachada democrática nos Estados Unidos, através de sua democracia liberal, serve para esconder uma evidente ditadura burguesa, um totalitarismo estabelecido pelo dinheiro, deixando o controle do país inteiro para frações minúsculas da sociedade, que comandam a vida de todos. Isso se expressa inclusive na imprensa americana, quase totalmente dominada por sionistas. As grandes redes são grandemente interessadas na manutenção de um entreposto americano no oriente médio, mesmo que às custas de limpeza étnica, colonialismo, apartheid, holocausto palestino e o assassinato sistemático de crianças e mulheres. Os Estados Unidos e Israel acabam produzindo, na prática, um único grande estado sionista, controlado por uma minoria de sionistas judeus e apoiado por cristãos americanos do “cinturão da Bíblia” que aceitam a mitologia supremacista e racista do “povo escolhido de Deus”. Para um país que tinha seu próprio Apartheid até meados dos anos 60 do século XX, isso em nada deveria surpreender.
O indicador no canto inferior direito do computador apontava 31 de dezembro, anunciando os estertores do ano que se preparava para findar. Solitária em sua casa, Leah terminara as tarefas de limpeza e se preparava para uma noite solitária na frente da TV. Resolveu como última ação, olhar sua caixa de e-mails. No meio de uma lista infindável de “promoções imperdíveis”, encontrou a mensagem de Karen, uma amiga de muitos anos. Abriu o e-mail e leu a curta mensagem.
Terminou de ler o e-mail e manteve os olhos parados na fissura entre o marco da porta e a parede descascada de seu velho apartamento. Sentada à frente da tela do computador e tendo a janela mais ao lado, podia ver os carros desviando uns dos outros na sua frenética busca por espaço, tentando chegar em casa para a ceia de ano novo. Nada naquela tarde prenunciava o que ocorreria a seguir. A notícia a pegou de surpresa, como uma tempestade de turbulências e tremores que aparece no meio de um dia normal de verão.
“Patrick está morrendo”, dizia o texto curto que ainda jazia parado na tela do computador. Karen obteve informações de seu estado por intermédio de amigos comuns. “Leucemia, estágio final”, continuava o texto, que terminava com um “achei que você gostaria de saber”. Os sentimentos dentro de Leah estavam em ebulição, num profundo contraste com sua face inexpressiva e o olhar que teimava em se manter fixado na pequena rachadura ao lado do marco da janela, como se a procurar algo, escondido ali, que pudesse lhe dizer como deveria reagir.
“Patrick sempre foi um covarde, um traidor”. Era só o que podia pensar. “Não havia em seu ser nenhuma fibra de virtude, nenhuma célula capaz de metabolizar honra e respeito. Todos os humanos recebem, pelo menos uma vez na vida, um teste para provar seu caráter. Patrick teve em suas mãos o grande desafio, e falhou miseravelmente. Diante do júri, sabendo que seu depoimento seria fundamental para estabelecer a verdade, escondeu-se, mentiu com seu silêncio, deixou-se covardemente silenciar, por medo de que a verdade o pudesse comprometer”. Leah ainda tentou fixar em seus olhos, enquanto lhe faziam a pergunta que mudaria o destino dela, mas ele baixou a cabeça diante do seu olhar. “Um covarde, cuja mentira flui por todos os poros”.
Depois de alguns instantes tentando descobrir o que pensar e fazer, abriu sua bolsa e dela retirou o celular. Com rápidos golpes na tela descobriu o nome de seu ex-amigo, que depois desses anos todos ainda dormia na sua lista de números. Ficou olhando para os dígitos à sua frente por alguns momentos até que seu dedo pressionou a combinação numérica. Não era justo que ele morresse sem que fosse possível dizer do desprezo profundo que sentia por ele. Era preciso dizer que seu silêncio, sua mentira muda, sua covardia a haviam marcado por todos esses anos. Queria lhe dizer o quanto de mal havia lhe causado, não apenas com sua separação e os danos financeiros, mas também por sua autoestima destruída, sua descrença na justiça e sua falta de fé na humanidade. Patrick simbolizava o que de pior houvera em sua vida. Uma amizade destroçada pela fraqueza de caráter e a falta de escrúpulos. Uma vida cheia de projetos jogada no lixo, desperdiçada como um papel sujo.
Depois de alguns segundos, ouviu o sinal de chamada. Alguém atendeu do outro lado, uma mulher. Uma namorada, enfermeira, familiar; já não tinha nenhuma importância. Leah disse que era uma “velha amiga” e desejava falar com Patrick. A mulher disse que ele estava muito fraco, mas colocaria o telefone em seu ouvido. Ouviu o som do telefone tocar o ouvido de Patrick e sua voz, mais grave do que se acostumara a ouvir.
– Olá, quem é?
Leah manteve-se em silêncio por instantes, tentando entender seus sentimentos. Do outro lado da linha estava o homem que mais odiou em toda sua vida, um amigo cuja amizade foi degenerada por acontecimentos desastrosos, mas que traiu sua confiança e sua amizade, deixando caírem sobre ela as culpas que, na verdade, lhe pertenciam. Por isso Leah teve a vida destroçada e os seus sonhos sepultados. Era o momento de dizer a ele o quanto de dor ainda carregava, e o quanto a morte prematura que ele enfrentava iluminaria seu espírito. Com voz quase sussurrava, ela respondeu:
– Sou eu, Leah.
Ele ficou em silêncio, talvez chocado pela surpresa. Um tempo depois, respondeu.
– O que deseja Leah?
Agora as lágrimas tomavam conta do seu rosto, correndo livremente pelas suas bochechas rosadas e caindo como uma fina cachoeira de ressentimento sobre o teclado do computador. Suas mãos tremiam e seus dentes crispavam, mas não conseguia dizer palavra alguma. Finalmente, após respirar profundamente, respondeu…
– Apenas desejar um feliz ano novo. Boa sorte.
Não esperou sua resposta e desligou. Colocou as mãos na cabeça e chorou profusamente. Talvez, seu desejo de um ano novo feliz tenha sido a mais sofisticada forma de crueldade que foi capaz de formular. Uma vingança dura e quase tão silenciosa quanto aquela da qual foi vítima.
Edgar Kensington Moore, “Happy New Year” da coletânea “Tales from the Fireplace” (Contos da Lareira), Ed. Rutherford, pag. 135
Edgar Kensington Moore foi um escritor britânico nascido em Sheffield em 1937. Estudou artes cênicas na Escola de Teatro William Shakespeare, na sua cidade natal, ainda quando cursava o ensino médio. Aos 21 anos casou-se com Melinda Fergusson e foram morar em Manchester, onde criaram seus três filhos. Foi em Manchester que Edgar produziu seus livros, em especial seus contos sobre a classe operária inglesa. Em “Tales from the Fireplace”, seu último livro publicado, ele mostra uma coletânea de contos relacionados à solidão das grandes cidades, sendo cada capítulo dedicado aos pequenos dramas cotidianos que surpreendem os solitários, desde o anúncio da morte de um desafeto, um bolo de aniversário para tia Betsy e até um acidente doméstico com o gato “Sparky”. Em todos os contos a temática é a dor e a angústia que se encontram acompanhadas da solitude, a dolorosa falta de um ombro para apoiar nossa cabeça ou para secar as inevitáveis lágrimas. Todas as suas personagens são mulheres, desde adolescentes até as idosas que apenas esperam a morte. É possível que este livro tenha como inspiração sua própria mãe, cujo marido faleceu na Batalha da Inglaterra em 1940, fazendo da viuvez precoce que testemunhou em sua mãe uma cicatriz em sua própria vida. Sua mãe criou seus dois filhos (Edgar e seu irmão mais velho George) solitariamente e jamais se envolveu novamente com homem algum. Pouco antes de morrer em 2020, Edgar contou que ver sua mãe sozinha escutando o rádio, costurando e ajeitando os filhos para a escola o marcou profundamente, em todos os sentidos, e talvez tenha sido por isso que escolheu o ofício da escrita, onde a solidão é a companheira mais constante. Edgar faleceu em 2020 de pneumonia, aos 83 anos, em sua casa em Manchester. Deixou a mulher Melinda e os filhos Harvey, Jeffrey e Andrew.
O espiritismo surgiu da investigação sobre fenômenos extraordinários que ocorriam em Paris em meados do século XIX. Hippolyte Léon Denizard Rivail, pedagogo francês, nascido em Lyon, diante do desafio de encontrar uma resposta racional e lógica para estes fatos, desenvolveu uma metodologia para a busca do entendimento do que ocorria. “Se as mesas carecem de músculos, nervos e discernimento, alguma força inteligente as move”, teria dito o professor Rivail. Caberia à curiosidade, acrescentada de método científico, a tarefa de esclarecer a origem das “mesas girantes”.
Entretanto, a busca de uma explicação para estes fatos de forma alguma demandaria a criação de uma religião. Seria como imaginar que Isaac Newton, propondo que os objetos são atraídos pela massa dos planetas e das estrelas pela teoria da gravitação, tivesse como objetivo o amor ao próximo, a fraternidade, a existência de Deus ou a evolução espiritual. Não, por certo que Newton era movido tao somente pela busca da verdade. A existência de espíritos, ou sua manifestação neste plano, não precisa ser investigada por meio das religiões que, por sua vez, acabam por criar códigos de comportamento e proibições de toda ordem, em especial sobre as múltiplas manifestações da sexualidade.
A ideia de uma “religião dos espíritos” nunca foi o objetivo inicial do espiritismo, que se propunha a investigar sua existência, criando a “ciência dos espíritos”. A mescla dessa proposta primordial com o cristianismo está na origem da cisão atual entre o espiritismo cristão e o espiritismo laico, mas também na imensa disseminação das ideias espíritas, em especial no Brasil, através do sincretismo tão característico do nosso caldeirão cultural.
Tenho visto nas redes sociais que os argumentos que criticam o filme “Ainda estou aqui” são equivocados em sua maioria, apesar de estarem corretos em um certo sentido. Isso ocorre em especial entre o pessoal da esquerda, que faz críticas injustas ao filme, muitas vezes usando chavões identitários. O que o Chavoso da USP (ativista de esquerda) argumenta em sua crítica, que assumiu certa notoriedade no YouTube, é que o filme não contemplou as camadas pobres da população, e só mostrou as dores de brancos e pequenos burgueses da sociedade de classe média carioca. Segundo ele, o que a família de Rubens Paiva sofreu nos anos 70 é o que os pobres sofrem, ainda hoje e cotidianamente, nas mãos da polícia. Os abusos denunciados no filme tomam relevância pela classe social dos protagonistas e pela cor de sua pele, enquanto os pretos e pobres continuam a receber o mesmo tipo de violência, mas sem a glamorização oferecida pelo filme.
Ora, não há como negar que a crítica é justa… mas não ao filme!!! A crítica poderia ser feita com propriedade à cinematografia nacional que não faz mais filmes para denunciar a barbárie aplicada sobre pretos e pobres que sofreram nas mãos da ditadura (e hoje nas mãos da polícia), mas não para um sujeito que pretende contar o sofrimento da sua mãe e sua família por conta do golpe militar que ocorreu no Brasil. Não cabe a um cineasta – ou um compositor, pintor, escritor – cobrir todos os aspectos possíveis de um drama qualquer. “Ora, o Rubens Paiva era carioca, e os gaúchos como eu, que sofreram nas mãos da ditadura, não serão representados? Ahhh, e ele era homem, e as mulheres presas e torturadas pela ditadura? E os gays, e os negros?“
Poderia ficar horas citando todos os setores da sociedade e todas as camadas não contemplados pelo filme, mas sei o quanto isso é desonestidade intelectual. Um filme deve ser cobrado pelo que faz e diz e não pelo que não mostra – a menos que o filme sirva para esconder algo, ou ocultar a verdade por meio de uma perspectiva falsa. Digo isso porque nenhum filme ou obra artística tem a capacidade de dar conta de todas as perspectivas da realidade. Portanto, é possível que a crítica do Chavoso (entre outros) seja adequada sobre a produção do cinema nacional, pela importância do resgate da memória nacional do segmento mais pobre e sem voz do país, mas injusta ao criticar o filme por não mostrar tudo o que desejava ver.