A ciência

Quem trabalhou como eu durante 40 anos em um ramo que se percebe científico, mas que funciona com os mesmos dogmas e sistemas de poder como qualquer igreja, entenderia mais facilmente minha crítica à ciência como expressão humana. Falo da ciência com “c” minúsculo, aquela construção humana, e não a “Ciência” abstrata, o conhecimento racional. A primeira é uma produção contemporânea, feita por mentes humanas e carregada com sua falibilidade e corrupção; já a segunda é o ideal racional, a ferramenta da transcendência humana, mas que quase nada existe no mundo real, sendo uma habitante do mundo das ideias.

Existem fatos inequívocos que mostram a veracidade dessa visão cética sobre a ciência. Estudos demonstram que metade das condutas médicas correntes não tem uma conexão com as evidências científicas. Outras pesquisas denunciam que que as próprias pesquisas – que deveriam dar suporte às condutas médicas – não são tão confiáveis como gostaríamos de acreditar. Veja aqui.

Por vezes parece que existe um totalitarismo dos cientistas, que seguem uma espécie de “ciência soviética”, a qual produz um monobloco de visões que se colocam na posição de saber acima de todos os demais, e que condena todos os outros saberes à extinção.

Isso torna a ciência a irmã dileta da religião…

Lembro de um encontro da UNIMED do Paraná em que fui convidado a falar sobre humanização do nascimento, um evento perdulário que se realiza todos os anos. No jantar fui colocado à mesa junto com uma psiquiatra que me falou: “Há muitos avanços na psiquiatria no mundo todo, mas nenhum maior do que a extinção de todo o resquício de pensamento freudiano. Hoje sabemos que tudo o que pensamos e sentimos se resume a alterações bioquímicas dentro do cérebro. Isso inclui dor, prazer e até o sabor dessa sobremesa“.

Fiquei esperando ela terminar dizendo “… e Fiel é o Senhor”, mas ela apenas sorriu com um olhar que apenas aqueles que falam de uma posição de certeza e fé inabalável possuem.

Quando trabalhamos dentro de um hospital ou de um laboratório é muito mais simples perceber de forma clara as incongruências e paradoxos do sistema. Da mesma forma, se você trabalhar na justiça verá que a mulher que segura a balança NUNCA está usando vendas e estará sempre com os olhos bem abertos para manter e garantir o poder para quem tradicionalmente o controla: as castas superiores que detém o domínio sobre os recursos e a produção.

E digo mais: quem trabalhou por muitos anos em traduções sabe que as traduções são realmente “traições” e não existe uma sequer que seja “isenta” ou “neutra”; sempre haverá a ideologia do tradutor na obra que traduz. A ideia positivista de uma tradução sem viés é tão ingênua quanto a de uma medicina ou uma justiça não ideológicas.

Por isso não é difícil dizer que na ciência não poderia ser diferente. O quê – e como – investigamos, assim como os próprios resultados que atingimos, são determinados pelas nossas ideologias e sustentadas pelos dois grandes pilares da civilização contemporânea: o capitalismo e o patriarcado. Ambos decadentes, mas ainda vigorosos o suficiente para ditarem as regras para o mundo em que vivemos. Enxergar a ciência pelo que ela verdadeiramente é, sem as fantasias de isenção ou neutralidade, não a diminui, mas a conduz à condição de criação social digna dos valores do seu tempo.

Perceber a complexidade da cultura é fundamental para não nos deixarmos engolir pelas visões ingênuas de imparcialidade que nos tentam impor. A decisão de passar um bisturi e rasgar a pele de um doente, ou de bater o martelo para condenar são produzidas no âmago de nossas convicções mais profundas, mais afetivas e menos racionais. Somos governados por nosso fígado, pelos nossos instintos menos nobres como medo, angústia e egoísmo, muito mais do que pela tênue camada de massa cinzenta que envolve nosso cérebro.

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Papa

Na boa… não precisa ficar dando sermão dizendo que o Francisco também é “humano” como cada um de nós. Não tem justificativa para o que ele fez. Está errado, e muito. Ele é exemplo para o mundo inteiro. Se fosse ele um cantor de Heavy Metal estaria errado, seria atacado por comentaristas de música e entretenimento do mundo todo, mas para um líder mundial que prega a “paz e a tolerância entre os povos”… nem se fala.

Sejamos francos: a atitude dele foi absurda, grosseira, violenta e injustificável. Quanto mais eu vejo a fúria nos seus olhos mais eu me assombro com o seu despreparo para a fama e a posição de líder espiritual de mais de 1 bilhão de pessoas. Mas, como sempre, tem gente passando pano, perdoando, chamando-o de “humano” e ressaltando que ele é o primeiro Papa que pediu desculpas publicamente, o que demonstra que quando gostamos e admiramos alguém TUDO pode ser perdoado e contextualizado, mas quando não gostamos até o mais banal dos deslizes passa a ser um pecado capital.

Não seria necessário bater na mão mulher. Os seguranças já estavam a postos. Quando explicamos que não se bate em criança ou que desprezamos a violência é DISSO que estamos falando. Quando falamos que agressões não educam é a esse tipo de ato que nos referimos. Quando dizemos que a violência nunca é a melhor resposta, ou quando lembramos de “dar a outra face”, é sobre este tipo de atitude.

Portanto, não precisa defender tanto o Papa porque até ele está envergonhado do péssimo exemplo que deu. E tem mais: ele já pediu desculpas e o reconhecimento do erro é essencial. Já vi textos por aí insinuando que ele se “machucou” com o puxão (??) e que a moça era uma “fanática”. Sério? Por segurar a mão do seu ídolo? Que absurdo.

Que o Papa aprenda essa lição e seja mais humilde. Aliás, por que não convidam esta senhora para um café com o Sumo Pontífice como um gesto de desculpas públicas?

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Dois papas

A caracterização dos dois papas foi soberba. A interpretação de Bento XVI por Anthony Hopkins foi genial. Os diálogos foram bem construídos e a trajetória de Francisco elegantemente traçada. Depois de ver o filme a gente sente saudade da Igreja engajada, da Teologia da Libertação e das Comunidades Eclesiásticas de Base. É muito triste ver o cristianismo e sua potência renovadora serem dominados por canalhas pentecostais, aproveitadores, vendilhões do templo e mercadores da fé.

Apesar de não ter religião sinto que o catolicismo pode ser um ponto de inflexão para a volta a uma religiosidade a favor dos pobres, famintos, miseráveis e desvalidos que são produzidos pelo capitalismo. Para isso o Papa Francisco pode desempenhar um papel fundamental.

É evidente que eu acredito existirem inúmeros elementos ficcionais no roteiro, incluindo as conversas – que seguramente foram construídas a partir de relatos unilaterais ou mesmo especulações sobre diálogos privados. A própria causa da renúncia de Bento XVI apontada no filme – o descontrole sobre os escândalos sexuais que manchavam como nunca a reputação da Igreja – é controversa. Alguns dizem que as razões pela renúncia recaem sobre questões mais mundanas, como os escândalos do Banco do Vaticano e a prisão do seu auxiliar direto. Entretanto, é evidente que a trajetória de Francisco está centrada no retorno da Igreja para as reivindicações do povo. Foi a escolha clara de uma Igreja que testemunha o grave enxugamento de quadros e a perda de fiéis para o pentecostalismo.

O retorno para os “braços do povo” seria o movimento óbvio de uma Igreja que perdeu sua conexão com os pobres, assim como se preconiza a mesma volta às origens para a esquerda brasileira. A própria escolha do “nome fantasia” do novo papa nos aponta nessa direção, além da origem jesuíta e terceiromundista do Bispo Bertoglio. Também não duvido que haja um claro “passar de pano” para a possível condescendência do padre Bertoglio com a repressão brutal na Argentina, mas sobre isso pouco mais se pode especular.

Ainda prefiro acreditar no papa quando diz “Eu mudei“.

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Consciência de Classe

Marx dizia que a identificação de classe de um sujeito é onde ele está, e não de onde veio. Para reconhecer-se como originário de uma classe à qual não mais pertence é necessário um esforço que só se produz com uma enorme dose de humildade. Tenho conhecidos próximos cuja origem é muito simples, próxima até da pobreza, mas suas habilidades, talentos e uma boa dose de ajuda externa os fizeram subir na escala social. Em sua história pessoal nota-se uma mistura de aspirações, capacidades e privilégios ocultos que produziram a potencialização de suas chances de sucesso.

Hoje são sujeitos de classe média alta, com curso superior e viajam pelo mundo inteiro. Não são ricos, pois essa classe dificilmente permite intrusos. Todavia, apesar da origem cercada de muitas necessidades, ostentam um olhar aristocrático, um desprezo pelo Brazil, uma visão superior e um rechaço à toda e qualquer iniciativa de equidade social. Odeiam o PT e as “esmolas” oferecidas em nome da distribuição de renda. As esquerdas são, para eles, antros de fracassados e invejosos. “Façam como eu“, dizem eles, sem reconhecer a imensa ajuda que obtiveram de circunstâncias e pessoas diversas em suas vidas, ajudando-os, assim, a alcançar e usufruir do estrato social em que se encontram.

Muitos são o espelho fiel do “oprimido que se identifica com o opressor“, a velha história do sujeito que, ao alcançar o tão sonhado sucesso, esquece sua origem, seu sotaque, suas histórias, sua família, sua vila e sua memória. “Eu venci, e tudo isso devo apenas a mim”.

Isso me faz lembrar a antiga piada do anglófilo brasileiro, cujo sonho era ser um perfeito britânico e morar em Londres. Depois de uma vida inteira estudando o idioma, os dialetos londrinos, a culinária, sua história e geografia, visita a cidade pela primeira vez. Deslumbrado com o cenário, sai à rua vestindo um casaco de tweed, uma calça de lã, um chapéu anos 40 e assim desfila pelas calçadas próximas de Picadilly Circus. Depois desse mergulho no coração da capital do Império Britânico resolve voltar ao hotel e gesticula para um táxi, um black cab, modelo Austin FX4, pintado de preto e levemente azulado, característico de Londres.

Qual não foi sua surpresa quando, ao entrar no carro, o motorista volta o pescoço para trás e comenta:

– Fala patrício!! Deixa eu adivinhar… paulista? Mineiro? Ou será catarina? Gaúcho talvez? Deixa ver…. gremista ou colorado?

Estupefato e desapontado, nosso herói exclama:

– Bloody hell, my dear!!! Como você descobriu que eu era brasileiro antes mesmo de falar qualquer coisa??? For God’s sake!!! How disappointing…

O motorista “brazuca” dá uma risada e diz:

– Olha, veja bem… o chapéu está ótimo, o guarda chuva perfeito, o casaco trespassado de tweed muito chique, a gravata, o lenço branco no bolso, tudo maravilhoso, mas….. aquela coçadinha no saco parado na esquina revelou na hora qual o seu verdadeiro CEP…

Para os meus amigos, novos ricos e esnobes, que debocham das lutas sociais e desprezam sua origem humilde, a coçadinha no saco é a falta de consciência de classe. Ela é a marca mais persistente de subdesenvolvimento…

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Nobel

Um excelente químico deveria se manter fazendo experimentos em seu laboratório e não se aventurar na filosofia, pois que nesse ramo sua ignorância fica evidente

Dizer que a religião se tornará supérflua, inútil ou desnecessária é acreditar que um dia todas as dúvidas existenciais serão respondidas, todas as questões morais solucionadas, não restará nenhuma pergunta a ser feita e todo o sentido do universo caberá em uma fórmula química. Tal arrogância e prepotência só cabe nas mentes irracionais.

Imaginar tal cenário é o mesmo que olhar para o universo acreditar que tudo à nossa frente um dia caberá nos livros de exatas. Para pensar assim é necessário produzir um mergulho obscurantista nas doutrinas ateístas, que nada mais são que religiões niilistas baseadas na fixação pelo nada.

Isso não quer dizer que as religiões sejam justas e boas, ou que não sejam obscurantistas e atrasadas. Apenas afirmo que as religiões são da natureza humana, surgem de necessidades humanas, pela incessante inquietude por respostas e pela angústia do desconhecido. Anseiam por sentido e produzem modelos para o que não foi ainda descoberto. Imaginar um mundo sem essa inquietação é tão somente acreditar no fim do desejo humano. Quanto mais ele despreza as religiões mais precisa criar uma para sustentar sua (des)crença.

Aos químicos, a química; aos filósofos, poetas e sonhadores tudo o que ainda resta descobrir.

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Silêncio

Não, Petra, você está enganada. Não há paralisia neste silêncio que paira no ar. Não confunda com apatia a mudez da tempestade que antecede o trovão. Em verdade esse vazio nada mais é que a reverência da vida ao estrondo das mudanças inevitáveis.

Karl Batterman, “The Neverending War”, ed. Capri, pág. 135

Karl Batterman é um escritor inglês nascido em Leicester em 1869. Filho de pai operário e de uma família de 10 irmãos (entre eles o líder do “Labour Representation Committee” Jeffrey Batterman, morto na revolta dos trabalhadores de Manchester em 1902), escreveu várias novelas que eram publicadas em jornais de Londres. Contemporâneo de Sir Arthur Conan Doyle, rivalizava com ele na preferência popular. Escreveu “A Study in White” como uma sátira à obra de seu compatriota, falando da história do Inspetor Legendre, um policial beberrão e desastrado que, com muita sorte e ações do acaso, conseguia desvendar casos em que a polícia inteira fracassava. Sua obra “The Neverending War”, escrita em 1905, foi tomada por muitos críticos posteriores como uma previsão sarcástica dos fatos que redundaram na eclosão de duas grandes guerras mundiais. De uma certa forma, seus personagens agiam diante da inevitabilidade de uma catástrofe iminente, o que, de fato, acabou tragicamente ocorrendo. Morreu em Suffolk em 1915.

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Arquivado em Citações, Contos, Pag 135

Benevolência

Ainda sobre as iniciativas pessoais para a ajuda aos necessitados…

Peço apenas cuidado com a exaltação (justa) de pessoas que ocupam o lugar que deveria ser do Estado democrático. Esta veneração ao sujeito bom e ao “herói” contemporâneo pode nos dar a entender que a solução para os desdentados, os famintos, os necessitados, os doentes e os pobres é a multiplicação de pessoas que usam seu tempo livre para fazer o que deveria ser feito pelos governos. O mesmo olhar reservado devemos lançar à benevolência dos bilionários que ajudam os necessitados com cestas básicas, atendimentos à saúde ou presentes de qualquer tipo.

Sim, é bom e bonito no varejo, mas cobra um preço muito alto no atacado. Tais ações insinuam ser correto colocar os deveres do Estado como “dádivas” de quem tem tempo e dinheiro para fazer caridade. Ao exaltar estas iniciativas colocamos dentes, comida, saúde, habitação, moradia e outras garantias da civilização como graças recebidas, e não como direitos que todos temos, pelos quais cabe luta e empenho pela sua universalização.

Temos vários exemplos disso que nos chegam pelos jornais diariamente, mas o resultado é sempre o mesmo: valorizamos o ato de benevolência e esquecemos suas raízes – a pobreza – e as repercussões em médio e longo prazo: colocar as obrigações do Estado como dádivas oferecidas por “anjos” com tempo e dinheiro para fazer tais ofertas, muitos até fazendo estas doações movidos por interesses menos nobres, como publicidade pessoal.

Se é justo aplaudir quem se dedica ao próximo mais importante ainda é cobrar do Estado que cumpra sua função de diminuir o sofrimento dos desassistidos e lutar por uma verdadeira justiça social.

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Mãe Floresta

O mundo não verá nenhuma mudança significativa através da caridade interesseira dos bilionários, por aplicativos maravilhosos que facilitam a vida burguesa, pelas doações de 1% de sua bebida predileta para os pobres da África, pela eliminação de canudinhos ou banhos de chuveiro mais rápidos. Nenhuma das transformações superficiais de que somos estimulados a participar tem capacidade de produzir qualquer impacto real na vida deste planeta, mas cumpre a função de nos enganar de que algo está sendo feito, o que permite ao capitalismo continuar a exploração do planeta de forma predatória, destruidora e injusta.

O que poderá mudar nosso destino serão coisas antigas e fora de moda: política, leis, mobilização popular e a penalização da usura através da taxação das fortunas. Tudo isso da base para o topo, através da conscientização das massas para que deixem de ser manobradas pelas elites, as mesmas que hoje espoliam o planeta em nome da imobilidade das castas – da qual são beneficiárias.

Kabir Patel, “एक हेरानका दा मोए फ्लोरस्टा”(A Herança da Mãe Floresta), Ed. Aichologi, pag. 135

Kabir Padel é um escritor indiano nascido em Lucknow, em Uttar Pradesh na Índia em 1962. Cresceu entre a alta sociedade da casta brahmane porque seu pai era um industrial da área de tecidos e sua mãe uma artista plástica. Muito cedo foi morar na Inglaterra para estudar economia a pedido do seu pai, mas rapidamente se deu conta que seu caminho não era nas salas climatizadas das empresas do pai, ou comandando empregados nas fábricas de corantes. Seu percurso seria compreender as disparidades da sociedade onde cresceu, nos limites da Índia, quase na divisa com o Nepal. Sentiu a necessidade de investigar as estruturas que sustentam tamanhas diferenças, onde a opulência e o desperdício convivem com a escassez e a miséria. Abandonou os estudos de economia e entrou para a faculdade de Sociologia onde passou a estudar os elementos de organização popular, em especial os grupos de mães e mulheres que surgem espontaneamente nas comunidades indianas. Escreveu um livro baseado na sua tese de doutorado, “Matriarcado na Índia Rural”, que foi muito bem recebido pela crítica e abriu suas portas para o interesse de outras editoras. Em “A Herança da Mãe Terra” Kabir traça uma linha entre a pobreza extrema de algumas regiões da Índia e o modelo neoliberal que pauperiza milhões em nome da acumulação predatória de poucos, dentro de um contexto de destruição sistemática da natureza que ameaça a própria sustentabilidade de Gaia.

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Unanimidade

Unanimidades são a marca indefectível da mediocridade. Se você faz algo realmente marcante e significativo deverá ameaçar uma legião de pessoas que resistem à mudança que você representa. Não desista pelas críticas ferozes que recebe. Analise seus objetivos com franqueza, refaça seus caminhos se necessário e siga adiante com sua missão. Acima de tudo não tema a ferocidade dos ataques. Pelo contrário: exalte seu aparecimento, pois apenas os medíocres agradam a todos. Não há como ser um vetor de mudanças se não houver discordância; toda luz que se forma produz sombra.

Jeremy Ash, “A Tree is Not a Chair”, ed. Pergus pág. 135

Jeremy Ash é um escritor americano nascido em Cedar City em Utah em 1956. Escreve livros de autoajuda e sobre temas religiosos. Foi adepto da religião Mórmon até 2015 quando decidir se retirar junto com centenas de adeptos dessa religião nos Estados Unidos que foi ocasionada pela controvérsia a respeito do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Jeremy Ash tem um irmão gay, líder do “Gay Christian Group Utah” e por essa razão cortou todas as relações com a comunidade mórmon onde cresceu. É casado com a cantora de música religiosa cristã Maya Albrecht. Tem 6 filhos biológicos e mais 4 adotivos. Mora em Salt Lake City.

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A Perversidade da Riqueza Obscena

– Conheço você há muitos anos, desde que fiquei grávida. Sempre admirei suas palavras, mas agora estou decepcionada. Nunca fui ao seu Facebook para criticar sua defesa ao Lula, então não vejo razão para você vir aqui esculhambar os posts que escrevo sobre o que acredito.

As palavras foram duras e a decepção parecia muito verdadeira. Apaguei o que havia escrito e pedi perdão pela intromissão. O post em questão tratava de uma exaltação do trabalho do Sr. Luciano Hang – o Véio da Havan – e sua distribuição de brinquedos para crianças pobres vestido como um Papai Noel azul – embutindo até nesse gesto uma crítica ao “comunismo”. A manifestação dessa minha amiga de Facebook sobre a notícia era ao estilo: “É desse tipo de pessoas que precisamos. Parabéns pela sua visão social“.

Minha frase de crítica havia sido simples e curta: “A tradicional hipocrisia do capitalismo“, mas foi suficiente para gerar ressentimento. Retirei imediatamente minha manifestação, mas fiquei absolutamente tomado pela curiosidade. A questão que não me deixava em paz era: “Por que continuamos a venerar a filantropia dos ricos? Por que acreditamos que um punhado de milionários como Bezos, Gates, Buffet, Musk, Lemann – e até o véio da Havan – tem algum compromisso em fazer um mundo melhor distribuindo uma fração microscópica de seus lucros com programas sociais?”

Somos herdeiros de uma tradição de castas, sejam elas explícitas, como na Índia, ou dissimuladas, imbricadas nas estruturas de poder de quaisquer sociedades. No topo da sociedade ocidental encontramos os europeus brancos; na base os negros, pardos, pobres. Pior ainda é quando naturalizamos essas diferenças e as colocamos como parte do destino, ou do “plano divino”. Ao lado disso, vemos que a distribuição de riquezas desse planeta – e nosso país em especial – é absolutamente perversa, onde a renda do 1% mais rico da população brasileira foi equivalente a 24% da renda total do país no período de 1926 a 2015, o que representa o dobro da concentração observada na maioria dos países do mundo. Apesar de todas as evidências de que a concentração de riqueza está piorando, continuamos a acreditar que a solução dos problemas do mundo pode recair sobre os ombros de milionários que CAUSARAM a maioria desses transtornos, e que consertariam um planeta disfuncional pela própria iniciativa, através da… caridade.

A injustiça estará sempre presente onde a caridade tomar o lugar da equidade.

Como diria Anand Giridharadas, jornalista e escritor americano, é como dar o emprego de bombeiro para o piromaníaco porque “ele sabe como manejar o fogo“. No Brasil, nossa economia é tradicionalmente entregue a banqueiros, mas agora nosso meio ambiente, a saúde da mulher, a agricultura e a educação foram entregues aos representantes da elite perversa que nos controla.

Para ser justo, neste caso não se tratava de uma “fascista” odiosa e inconsequente, apenas uma moça muito amável que acredita no fogo fátuo da benemerência dos bilionários. Alguém que acredita na fantasia de que a solução dos problemas ecológicos do planeta partirá da iniciativa de bilionários que vivem em bolhas de poder e abundância e que desconhecem a realidade da miséria no planeta.

Passados mais de dois séculos ainda confiamos em Marias Antonietas para dizer do que temos fome. Continuamos a aceitar passivamente o sistema de castas que nos oprime, até o dia em que não seremos mais tão facilmente manipulados. Espero que esse dia chegue através da democracia, pois que qualquer outra possibilidade será cara demais.

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