Millôr

Quando adolescente e jovem sempre fui fã do jornalista Millôr Fernandes, por seu humor ácido e por uma característica que acho admirável em escritores: assim como Oscar Wilde, ele era um genial frasista. Nesta época eu abria a Veja apenas para ler a coluna do Millôr. Gosto muito de uma frase sua, que uso até hoje, quando vejo um grupo de pessoas falando mal de alguém de forma inexorável e dura: “O mundo tem muitos canalhas, mas estão todos nas outras mesas” (pág. 100). Sendo ele um emérito frequentador de botecos cariocas, essa frase certamente a criou entre um e outro Chopp com os amigos. Ele tinha outra característica que eu achava criativa e original: escrevia uma simples frase e colocava abaixo uma nota de rodapé em caixa baixa do tamanho da folha. Ou seja: funcionava como algumas obras artísticas da pintura moderna, que se resumem a poucos rabiscos em uma tela branca, mas sobre as quais se escrevem gigantescas teses de doutorado, retirando delas muito mais do que o próprio autor seria capaz de imaginar.

Mas, para além de seu humor ácido, sua visão política cheia de ceticismo, e sua rixa histórica com outro ídolo meu, Chico Buarque (que chegou às vias de fato), ele também é uma imagem viva do jornalismo e da sociedade – carioca e brasileira – de sua época. Seus comentários e frases sobre a sociedade e, em especial, as mulheres, são uma forma muito clara de olhar a cultura dos anos 60-70. Por estas razões comprei o livro “Millôr Definitivo – A Bíblia do Caos” assim que foi lançado, pois ali se concentravam as suas melhores “tiradas”, seus pensamentos, sua perspectiva política (mesmo sobre fatos datados) e seu humor de acidez inconteste. Categorizados por palavras chave, estão listados 5142 pensamentos, máximas, conceitos, aforismos, devaneios, etc. para se poder absorver o que ele deixou como testemunho, registros de um astuto observador da realidade brasileira.

Entre as suas manifestações, uma me chamou a atenção: a forma como falava despudoradamente das meninas de Ipanema, pré-adolescentes com 13 anos de idade. Imaginem o furor que causaria essa manifestação de admiração sobre o corpo de “crianças” de 13 anos nos dias de hoje, descrevendo-as com sua “graça e sensualidade”. Certamente seria cancelado sem dó, e talvez fosse até criminalmente perseguido. Entretanto, a idade me permite recordar que, quando da publicação destas frases não havia a consciência que hoje temos sobre o tema. Não causou nenhum escândalo suas frases sobre meninas muito jovens, assim como à época não nos chocamos com Caetano ou Jerry Lee Lewis. Não existia a noção, que hoje temos, de proteger a sexualidade emergente das meninas, que ainda eram vistas da mesma forma como os antigos as viam: objetos para o deleite masculino, sem consideração sobre sua maturação afetiva, emocional, psíquica e até social. Ou seja: Millôr escreveu sobre sua época, sobre o entorno no qual se inseria e também com o material do campo simbólico que absorvia e vertia para o papel. É preciso ter com ele a mesma consideração que deveríamos ter com Allan Kardec, Fernando Pessoa e Monteiro Lobato quando se referiram à negritude em seus livros. Se suas obras podem ser criticadas hoje (e devem) elas merecem ser vistas sem anacronismo, inseridas em sua época e avaliadas pelo contexto no qual foram escritas.

De qualquer forma, Millôr continua sendo um dos meus escritores favoritos. Deixou um legado de crítica política inteligente e vigorosa, sem jamais abrir mão do humor como linha condutora de seus textos.

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Tortura

Não se produz justiça tratando desumanamente prisioneiros. Aliás, estes são atos que se chocam contra a carta de direitos humanos. Além disso, traficantes são o resultado de uma sociedade doente, não sua causa. Uma sociedade mais justa não produziria as multidões de drogados que se intoxicam para suportar a realidade, e nem os criaria traficantes que lucram com sua doença. Traficantes não são a causa primária do distúrbio; eles só aparecem para suprir a demanda do vício, criado pelo desequilíbrio social. Muito mais pessoas morrem por álcool e cigarro todos os dias do que por drogas ilegais, mas os “traficantes” (quem faz e vende tabaco e álcool) não são punidos. Curioso, não? E mesmo que fossem eles os causadores do distúrbio, mesmo que os traficantes tivessem criado também a demanda por drogas, nada justificaria a tortura a que eles são submetidos nas prisões. Exatamente por isso, as nações assinam tratados sobre direitos humanos.

Na mente dos direitistas existe um mundo dividido entre sujeitos “maus” e “cidadãos de bem”, mas a verdade é bem mais complexa e está bem longe disso. Nesse mundo de mentiras que criaram, ao se punir exemplarmente os “maus” – e até de forma cruel e definitiva, mas só a maldade dos pobres, por certo – o mundo ficaria melhor. Afinal, cortando as ervas daninhas o gramado ficaria verdejante, não é? Pois o mundo prova o contrário todos os dias. O país mais punitivista do mundo, com quase 2 milhões de prisioneiros, não diminui seus níveis de criminalidade, exatamente porque a iniquidade estrutural é a mãe destes crimes, e não uma chaga moral de uma parcela de seus habitantes. Ou seja: a visão da sociedade que estabelece os defeitos morais como as causas do crime, levando ao punitivismo inexorável como principal remédio, se mostrou uma grande mentira.

Divulga-se que famoso criminoso Marcinho VP está passando por uma preocupante crise psiquiátrica na penitenciária onde se encontra. Ora, o que se poderia esperar? Quem consegue manter a sanidade no sistema prisional brasileiro, onde os detentos são esquecidos e entregues à própria sorte? Não há dúvidas que muitos estão sendo torturados, jogados à própria sorte, mas quem se importa com as consequências psíquicas do confinamento e dos maus tratos? Na perspectiva do fascismo, a criminalidade é uma “infecção que se espalha”, porque seus seguidores não conseguem entender seus determinantes sociais. Se essa tolice de contaminação fosse verdade, porque não se manifesta criando criminosos da Noruega, Suécia, Japão ou Cuba? Por que tantos no Brasil, Argentina, México e Estados Unidos? Se olharmos para os níveis de criminalidade alarmantes desses países, o que salta aos olhos? O que tais países têm em comum? Sim: um capitalismo brutal que reforça desigualdades!! Ora, em sociedades mais igualitárias não há tanta necessidade para roubar, e por isso os níveis de crime são muito mais baixos. A razão de existir um Marcinho VP é a sociedade desigual onde vivemos e uma legislação estúpida e ineficiente sobre drogas. Prender para torturar um criminoso como esse em nada soluciona o problema, apenas cria novos líderes para substituir os trancafiados.

Torturar traficantes na prisão não diminuiu em nada o tráfico de drogas, apenas dá espaço para nossos sentimentos de vingança. Porém, os criminosos sabem das retaliações que receberão na prisão, e suas ações também levam em consideração a maldade que sofrem do sistema, num circo vicioso de culpa e crime, vingança e retaliação. Tratar prisioneiros com desumanidade, afirmando que eles “merecem”, por fazerem o “mal”, não soluciona nada e acrescenta lenha na fogueira da criminalidade.

Por fim, muitos acreditam que condenar a tortura física e psicológica de apenados é o mesmo que não punir. Para estes, tratar os prisioneiros com dignidade seria como absolvê-los de seus delitos, e que tal atitude representaria um estímulo ao crime, pela via da impunidade. Quem afirma isso não tem capacidade de entender que até mesmo os piores criminosos devem ser punidos dentro da lei, pois sem isso regredimos à idade média, aos linchamentos e aos apedrejamentos públicos que, como sabemos, nunca impediram as pessoas de cometerem crimes.

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Brits

Quando eu era pequeno, e ainda mais na infância do meu pai, a influência da Inglaterra era enorme na cultura do Brasil. Não foi a toa que minha família paterna saiu de Manchester e veio para cá há 100 anos: o império tinha muita influência por aqui. Dizer que um carro, um casaco ou um produto qualquer era inglês significava garantir sua qualidade. A Inglaterra, no ocaso da era vitoriana, era vista como o centro intelectual do mundo. Entre outras coisas eles, estabeleceram no Brasil uma prática chamada “preço inglês”. Hoje parece muito comum passar na frente de uma loja e olhar os preços de um produto, seja na vitrine ou na etiqueta com código de barras, mas nem sempre esse foi o padrão. Em países de cultura árabe, ainda se negociam os preços diretamente com os vendedores, hábeis artistas na arte da negociação e do desconto. Quando se viaja para alguns lugares – como o Marrocos – a gente percebe que o preço dos artesanatos, calçados, roupas só é definido na conversa com o vendedor. Já vi preços caírem de 100 para 10 nesse tipo de arte.

O problema é que esse tipo de negociação, onde o valor dos produtos varia de acordo com o comprador, exige muito do vendedor, em termos de talento e tempo. Com a evolução do comércio ficou mais fácil colocar uma etiqueta com uma margem variável de lucro e evitar tanta negociação e tanto tempo despendido para cada venda. Meu pai chamava isso de “preço inglês” e dizia que os jornais anunciavam as lojas da cidade garantindo que os produtos tinham essa precificação. Quem saia de casa já sabia o valor que pagaria por qualquer produto, sem precisar negociar com o vendedor.

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Lembrei disso porque países ligados à “British Commonwealth“, como a Índia e a África do Sul, decidiram não participar da reunião convocada pelo Rei Charles e comparecer à reunião dos BRICS, demonstrando a crescente perda de protagonismo britânico no planeta. Hoje em dia a Inglaterra não tem mais a influência de antes, e não passa de um “puxadinho” dos Estados Unidos, um cãozinho velho e banguela carregado na coleira pela política externa americana; os anos de glória da realeza britânica estão agora definitivamente no passado. O que outrora foi um Império sanguinário, poderoso e extenso – onde o sol jamais se punha – hoje não passa de uma nação decadente, com graves problemas internos, subserviente ao poder imperialista e sem a importância geopolítica de outrora.

Os declínios são da ordem natural das coisas. Primeiro os sumérios, fenícios e egípcios; depois com a Grécia e Roma na idade clássica; mais tarde os franceses, ingleses e agora os americanos. Quando vejo a derrocada da importância da Inglaterra no planeta fica ainda mais claro para mim que nenhum sistema opressivo é eterno, e o consórcio americano israelense, que durante 80 anos nos pareceu sólido, imponente e invencível, será derrubado mais cedo ou mais tarde. O planeta não aceitará por muito tempo a perspectiva supremacista, racista e genocida de Israel. Hoje este país já é um pária internacional, rejeitado por 90% da população do mundo, sendo apoiado apenas pelos governos imperialistas burgueses. Essa situação não pode se manter por muito tempo. Em que época do mundo um exército qualquer procurou as crianças como alvo para suas balas? A barbárie homicida de Israel um dia acabará, e o destino deste país está selado: pode levar mais um ano ou uma década, mas o sionismo será enterrado definitivamente, e o apartheid será apenas uma triste memória para o planeta.

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Xenofilia

Existe um tipo insuportável e nojento de brasileiro: o expatriado pequeno burguês que fala mal do seu país e que trata seus compatriotas como incultos, ignorantes, atrasados e corruptos por natureza. Sofrem do que eu chamo de “xenofilia“, uma doença que os faz adorar o estrangeiro e tudo que nao é brasileiro. Acomete sujeitos com caráter soberbo e que se apoiam ideologicamente numa espécie de supremacismo, sintoma que é muito comum na parte mais branca e de ascendência europeia do sul do Brasil.

Este sujeito se manifesta em muitas frentes. Posta fotos de museus e bibliotecas na Europa, descreve os livros que está lendo, cita autores europeus e os vinhos que mais gosta. Ao mesmo tempo comenta a falta de livros nas prateleiras dos brasileiros e sua índole preguiçosa para a leitura. No subtexto está implícito: “Ok, sou brasileiro, mas não sou como como essa malta ignóbil que tem por lá”. Outra característica é desmerecer continuamente nossas músicas, nossa cultura, nossa arte e compará-la com as produções artísticas das nações imperialistas. Sempre olha para o Brasil como o atraso, a incompetência, a preguiça e o oportunismo. Por certo que é incapaz de mergulhar com profundidade na origem de tais diferenças, e recorre quase sempre às explicações superficiais, descrevendo a nossa “índole” como uma maldição que nos condena ao atraso.

Lembrou alguém? Sim, Macunaíma – O herói sem nenhum caráter, que o modernista Mário de Andrade (1893-1945) publicou em 1928, há quase um século, que para estes pseudo-europeus é a imagem mais fidedigna dos habitantes do nosso país. Estes “xenofílicos” também se enxergam no personagem da música “Partido Alto“, do Chico Buarque, quando dizem: “Deus é um cara gozador, adora brincadeira, pois prá me botar no mundo, tinha o mundo inteiro, mas achou muito engraçado me botar cabreiro, na barriga da miséria nasci brasileiro”. Ou seja, eles estavam designados, por sua essência nobre e distinta, a nascer entre as luzes da civilização europeia, mas por obra do azar, nasceram nesse país mestiço e atrasado, inculto e corrupto, onde se sentem deslocados por serem “orquídeas entre as macegas”.

Não tenho mais paciência com essa gente arrogante, chata e presunçosa. Sempre que eu escuto um brazuca branquinho que mora na Europa falando da “lógica tacanha dos brasileiros” nesse tipo de xenofilia típica da pequena burguesia brasileira, eu tenho vontade de xingar de forma muito mais explícita, em especial os sujeitos “nem-nem” que se posicionam “contra todos os radicalismos”, que é a forma como os burgueses se expressam por aí. Geralmente ao encontrar estes personagem eu lanço mão da ironia, mas meu desejo sincero era ser chulo. Todos nós deveríamos nos sentir ofendidos quando estas pessoas tratam os brasileiros como inferiores e primitivos e quando nos classificam como “um povo atrasado”. Ficar calado diante dessa estupidez me parece indecente.

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Fim

Alguns dizem que a atitude de Antônio Cícero de sair do Brasil para por fim à sua vida de vontade própria se deu porque os políticos do Brasil são atrasados e não aceitam que alguém radicalize sua autonomia e a escolha do próprio destino. Não concordo. Alguém acha mesmo que um governo, por sua própria vontade, poderia liberar a eutanásia através de um canetaço? Poderia, pela mesma lógica, ocorrer a liberação do aborto pela vontade do presidente? Desculpe, mas isso é puro paternalismo. Aguardar que as autoridades públicas e os políticos tomem a iniciativa para este tipo de transformação cultural é uma enorme ingenuidade. As leis vem à reboque das demandas populares, e não o contrário. Essas modificações relacionadas ao direito à vida só podem tomar corpo através da mobilização popular.

Pergunto: pode um governo decidir contrariamente à vontade de seu povo? Pode ele um tomar decisões que contrariam os valores expressos da população? O direito de um sujeito tirar a própria vida pode ser debatido, ,as quero rtatar apenas das formas de fazer com que essa decisão seja levada aos termos da lei. Quero debater as vias pelas quais esta realidade pode ser modificada, levando-se em consideração a estrutura política e o sistema de poderes vigente. Aqui no Brasil, se você quiser dar ao sujeito o direito de matar alguém (mesmo que a si mesmo) é necessário um debate intenso com a sociedade, obrigando o choque benéfico e construtivo do contraditório. O fato do nosso governo (e a imensa maioria do mundo) se posicionar contra o suicídio assistido e a orthotanásia é porque ainda não houve interesse da população em debater esse tema. E não há mesmo!! Por certo que a eutanásia (ou a orthotanásia, um termo melhor) é um tema sério e importante mas, como eu disse, o apelo popular certamente ainda é minúsculo. Quantas pessoas estão interessados no tema da abreviação voluntária da vida? Poucos, muito poucos. Quantos se mobilizariam por esta causa? Quase ninguém. Já os governos são sempre reativos, assim como as leis: reagem às demandas populares. Não cabe ao governo tomar decisões impopulares sobre temas profundos baseado em abstrações ou ideologias.

Eu sou favorável ao suicídio assistido, mas reconheço minha condição de voz minoritária num pais de cultura pela vida. Na condição de médico participei de inumeros debates e todos eles se chocavam com a questão da proteção profissional, e esta mudança se dará somente através das leis, e estas estão na mãos dos legisladores eleitos pelo povo. Com a atual composição do legislativo brasileiro – conservador e até fasdcista – o que se poderia esperar? Portanto, de nada adianta chamar brasileiro de tacanho, atrasado ou paternalista se a única forma de transformação que funciona é a demanda popular fazendo pressão nas casas legislativas. Minha posição atual é acreditar que essas mudanças só podem surgir pelo embate protagonizado pela política. Os políticos são se adaptam às demandas e bandeiras populares. A orthotanasia não é popular, e desconfio que o aborto seguro tem não é. Se hoje fossem instituídos (por canetaço) haveria mobilização popular contrária à sua aplicação. Portanto, a solução não será por eles mas através deles, após a necessária pressão popular, e esta pressão vem da sociedade civil organizada. Ainda não há no Brasil massa crítica para essas transformações radicais em um tema tão delicado como o direito à vida.

Com o aborto ocorre a mesma lógica: quantas mulheres estão dispostas (como as argentinas) a sair às ruas para lutar pelo direito ao aborto? Num país onde Edir e Malafaia são ídolos populares fica difícil escapar das perspectivas conservadoras. Ainda há insuficiente mobilização pelo direito ao aborto. E tem outro problema, aliás, gigantesco: enquanto não houver proteção legal para as equipes tanto para o aborto quanto para a orthotanásia, nenhum médico vai se arriscar a uma ação, por mais humanista que seja, que em última análise poderá levá-lo à prisão. Para levar adiante estas iniciativas seria necessária uma nova mentalidade, que só pode ocorrer no seio da própria sociedade civil. Acho difícil para o temperamento afetivo, familiar, gregário e alegre do nosso povo que se levem adiante ações ligadas à morte, seja dos fetos, dos velhos ou dos doentes. Não é da nossa cultura, e por isso essas mudanças ocorrem primeiro em países germânicos, como Holanda, Suíça, Finlândia, etc. Seria preciso um debate nacional longo, demorado e profundo antes de se eleger um poder legislativo capaz de criar leis tão avançadas e promover tais mudanças.

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Continuum

Vou repetir: não existe movimento de aleitamento materno sem humanização do nascimento. A falha de um afeta os resultados do outro.

Explico: quando o nascimento já foi artificializado, muitas vezes por um desejo materno ou uma suposta falha do corpo da mulher para dar conta de de uma gestação fisiológica e um parto normal, o terreno já estará preparado para que a amamentação natural ceda terreno às alternativas artificiais. Diante das dificuldades naturais de adaptação à amamentação – inseguranças, dores, feridas, cansaço, medo, falta de confiança, etc. – o caminho para a desistência e para a adoçäo de uma alimentação artificial já estará pavimentado pelas escolhas ou imposições anteriores. Desistir de oferecer o peito fica muito mais fácil quando o parto já foi gerenciado com a ideologia tecnocrática.

O “continuum da humanização” – o parto fisiológico e a amamentação livre – são o caminho natural, seguro e fisiológico para iniciar a vida. Do ponto de vista científico, não há mais dúvida quanto a isso. Todavia, a postura de defesa das alternativas mais naturais sofrerá sempre o boicote daqueles que lucram com a alienação ligada ao abuso de cesarianas e ao uso indiscriminado de mamadeiras. Aqueles que lutam pela segurança das mulheres, por uma parto transformador e pela amamentação serão o eterno alvo dos sistemas de saúde atrelados ao dinheiro e à artificialização lucrativa da vida.

Isso não significa, em hipótese alguma, que as cesarianas impedem a amamentação. Entretanto, é errado dizer que uma cirurgia desse porte e significados não produz influências negativas nos desafios seguintes, sendo o mais importante a amamentação por livre demanda. Não apenas pelas condições físicas pós operatórias, com suas dores e limitação de movimentos, mas também pelos aspectos psicológicos subliminares que enfraquecem a autoestima feminina e dificultam sua vinculação ao aleitamento materno.

Espero ter sido claro…

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Evolução espiritual

“O objetivo do espiritismo é a reforma intima e a evolução dos espíritos?“

Não é como vejo. O objetivo do espiritismo é exatamente comprovar a sobrevivência do princípio espiritual, a reencarnação e a lei de causa e efeito. A transformação moral do sujeito – se é que seja possível – é apenas uma consequência do tempo alargado, das múltiplas vivências, da multiplicidade das experiências terrenas e da convivência com o outro. O espiritismo não é (ou não deveria ser) uma doutrina moralista, que estimula as pessoas a fazer o “bem” e o “amor ao próximo”. Nada disso; o espiritismo é uma perspectiva de mundo e de universo que engloba as realidades do espírito; nada mais do que isso. É a compreensão do mundo a partir da imortalidade da alma, mas não tem como objetivo mudar o sujeito, transformar a sociedade, da mesma forma que Newton não criou a lei de gravitação para amarmos ao criador e sermos a ele obedientes. O espiritismo fala de leis naturais, não “leis de Deus”.

Essa transformação só pode ocorrer pela materialidade da vida, pelos choques, pelo contraditório e pela dor. O espiritismo, enquanto se aproxima da carolice religiosa cristã, se afasta de sua essência científica, filosófica e renovadora. Esse espiritismo católico que temos nas Casas Espíritas é apenas uma seita espiritualista que contém os mesmos vícios moralizantes e alienantes de todas as religiões tradicionais. Não é à toa que os espíritas em grande número aderiram ao conservadorismo e ao radicalismo fascista embrionário. Figuras como Divaldo aderiram aos crimes da LavaJato assim como Chico apoiou a ditadura militar, porque seu espiritismo é conservador. O espiritismo, se realmente tiver algo a dizer, será muito diferente do discurso religioso que temos no Brasil contemporâneo.

“Seriam as manifestações espirituais – leia-se mediunidade – casos de esquizofrenia, dissimulação ou falsidade ideológoca?”

Não creio ser essa uma perspectiva justa. Acredito na possibilidade de auto engano, sugestão, wishful thinking ou desejo mascarado de informação. “Safadeza” pode existir, mas jamais explicaria o fenômeno. Existe em pessoas como enganadores profissionais, prestidigitadores, mágicos, etc., mas não em número considerável para ser a razão principal. Psicose e esquizofrenia seriam explicação para um número limitado de casos, mesmo sendo importante levar essa possibilidade sempre em consideração.

A mediunidade pode ser um fenômeno muito interessante a ser estudado. Se aceitamos a possibilidade de manutenção de um princípio espiritual, poderia haver influência entre os planos? Seria possível estabelecer uma linha que parte da mera influência sutil e chega às manifestações mais explícitas? Negar estes fenômenos e tratá-los como falhas morais – tipo safadeza, bandidagem, engodo, dissimulação – não me parece a forma mais adequada de encarar relatos de fatos tão antigos quanto a própria história. Eu prefiro ter a mente aberta para a possibilidade de tais fatos serem verdadeiros e que descortinam uma realidade ainda desconhecida.

Pelo espírito Odracir

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Censura

Agora o Facebook impõe a concepção imperialista de “organização terrorista”, que não está em sintonia com a visão do governo brasileiro. Essa é uma verdade cristalina que conhecemos há anos, desde o tempo em que o Facebook censurava imagens de amamentação baseado em concepções americanas de pudor, e não na forma como nós abordamos a naturalidade do aleitamento materno.

Isso é grave, porque o Facebook impõe censura a mando do governo americano através de suas instituições afiliadas, como Facebook e Google. Um país soberano não pode ser governado e regulado por legislações alheias à sua norma jurídica. É urgente que as redes sociais sejam entendidas pelo governo federal como concessões públicas, assim como acontece com as rádios e TVs, para que obedeçam às regras locais e não as regras dos seus países de origem. Terrorismo é o que fazem Israel e os Estados Unidos, matando mulheres e crianças, espalhando o terror e disseminando o horror e a destruição no mundo. Quem resiste a isso exerce o legitimo direito à vida e à dignidade.

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Sanguinários

Quando escuto as tradicionais acusações dos direitistas e liberais aos “ditadores” comunistas (ou não) e suas listas de mortes – cujos números são sempre criados em “freestyle” ou usando dados do instituto TireyDoku – eu exijo que qualquer avaliação da história destes personagens não ceda às pressões do anacronismo e avaliem o contexto em que estas revoluções foram estabelecidas.

Olhem, como exemplo claro, a história da China e o “século de humilhações” pelo qual passou. Anos de exploração estrangeira, repletos de abusos e o confisco de suas riquezas. Pensem nas derrotas humilhantes nas Guerras do Ópio, a pobreza do seu povo, a espoliação produzida pelos colonizadores ingleses e ficará mais fácil compreender a necessária reação para a liberdade do povo chinês. Sem entender a realidade das múltiplas invasões estrangeiras e as lutas internas fica mais complicado colocar em contexto a libertação da China em 1949 através da guerra civil e a “grande marcha” de Mao Zedong. Entretanto, a ninguém seria lícito imaginar que a entrega da China aos chineses seria feita sem os tradicionais massacres que as nações imperialistas impõem como punição aos povos dominados. É necessário também lembrar o que era a China em meados do século XX e o quanto sofreu durante a invasão japonesa, a perda da Manchúria na segunda guerra mundial e os 14 milhões de mortos que sucumbiram nessa guerra brutal contra o domínio nipônico.

Como não lembrar a história da Coreia, a ocupação japonesa, a tentativa de extermínio de sua língua, de sua história e até dos seus patronímicos? A invasão americana na “Guerra da Coreia” (ou Guerra da Libertação, como é referida na Coreia Popular) exterminou 1/3 da população civil, mandando o país para a idade da pedra com a destruição de todas a sua infraestrutura (a exemplo do que se faz hoje em Gaza) e só quando estudamos a crueldade assassina das forças imperialistas é possível entender a história de Kim Jong-Un, seu pai, seu avô, sua gente e a luta por liberdade e autonomia do povo coreano. Não é justo esquecer o que a França fez com o Haiti e com a Argélia, uma história de dominação repleta de atos da mais absoluta selvageria e covardia. Como apagar a história brutal do Congo, e os 10 milhões de mortos sob o domínio da Bélgica do Rei Leopoldo. Portanto, seria de esperar que a resistência pela liberdade em resposta à esta brutalidade só poderia ser igualmente feroz.

É preciso ter em mente que 14 nações invadiram a União Soviética durante a “guerra civil” (na verdade, guerra de independência) e isso facilita para entender a necessidade que havia de lutar de todas as formas possíveis, pois isso representava a única possibilidade de manter a unidade nacional. Que dizer dos 20 milhões de mortos da União Soviética na luta vitoriosa contra o nazismo de Adolf Hitler e o preço pago pelos soviéticos para que o mundo se livrasse do fascismo da Alemanha? Em Cuba a revolução se estabeleceu na luta contra um governo corrupto e burguês, que mantinha a ilha como um bordel americano e uma gigantesca fazenda de cana de açúcar, mantendo a população miserável, oprimida e subjugada pelos latifundiários e seu sistema semi-escravista. Por acaso estes poderosos, apoiados pelo governo americano, entregariam a soberania de Cuba para os cubanos sem luta e sem violência? Seria condenável a reação violenta de um povo que por séculos sofreu de forma desumana?

E o que falar sobre o Hamas, este partido politico e seu braço armado (a brigada Qassam) e os demais grupos de resistência palestina que lideram uma luta de 76 anos contra os canalhas sionistas, racistas e abusadores, terroristas da pior espécie, violadores e assassinos de crianças? Há como analisar suas ações, em especial o 7 de outubro de 2023, sem levar em consideração as humilhações impostas pelos invasores sionistas nas últimas sete décadas? Há como apagar uma parte da história e manter apenas aquela que nos interessa? Por acaso eram “terroristas” aqueles que atacaram a realeza na França na queda da Bastilha, criando as fundações do mundo burguês no qual hoje vivemos? Ou seriam eles tão somente os bravos lutadores que resistiram ao poder despótico e injusto da cleptocracia monárquica? E a resistência francesa que lutou contra os nazistas em Paris? Seriam terroristas aqueles que lideraram o levante do gueto de Varsóvia? Ou a história provou que eles eram lutadores pela liberdade de seus povos? Será mesmo que a independência dos Estados Unidos, libertando-se da Inglaterra, foi feita com abaixo-assinados, ou foi como todas as lutas libertárias – a ferro e fogo? Ora, não sejamos tolos e ingênuos.

Isso não significa que as guerras de libertação não contenham ações bárbaras violentas, abusivas e até criminosas. Porém, quando vejo críticas a estes eventos do passado é impossível não lembrar de Bertold Brecht: “Dos rios dizemos violentos, mas não dizemos violentas as margens que os oprimem”. Do Hamas reclamamos a fúria, mas fechamos os olhos diante dos 76 anos de massacres, torturas, assassinatos, sequestros, o extermínio de famílias inteiras, o apartheid e a dominação opressiva por parte do Estado terrorista de Israel. O mesmo se pode dizer de todos os grupos de resistência que se levantaram contra a opressão. É preciso aprender a história dos povos para entender suas lutas e seus dilemas. E por fim é fundamental conhecer os personagens que são criticados pelos reacionários para saber em qual contexto eles atuaram.

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Deus

Muitas vezes vejo pessoas falando dos ateus, seja elogiando ou criticando, mas percebo que em verdade estão se referindo aos agnósticos. Existem diferenças, ao meu ver, nas posições defendidas por ambos. O ateu (a-não, teo-Deus), via de regra, crê fervorosamente na não-existência de um criador. Acredita que o universo foi criado pelo processo expansivo brutal e violento do Big Bang, sem a interferência de uma entidade qualquer, uma “sabedoria suprema, causa primária de todas as coisas”. Já o agnóstico simplesmente não vê provas suficientes e definitivas para acreditar na existência de Deus, mas também não desacredita nela e nem a refuta peremptoriamente; ele apenas não consegue fazer qualquer afirmação sobre o tema, pela ausência de provas que atestem a existência de qualquer divindade.

A forma como imagino esse dilema é através desta simples analogia: é como postar-se diante de uma porta fechada. Diante do fato concreto – a existência de uma porta – cabe a pergunta: há alguém do outro lado? O crente diz que sim, pois se uma porta foi construída, e antes planejada, é porque ela serve de passagem e, por inferência, se há passagem alguém deve estar do outro lado. O ateu, por sua vez, afirma que não. Coloca o ouvido na porta, dá várias batidas, chama por socorro. Ninguém atende, nada se manifesta e ele conclui que não há ninguém do lado de lá. Já o agnóstico olha a porta e tenta abri-la. Não consegue, por mais que se esforce. Conversa com ambos, o ateu e o crente, e finalmente reconhece que é impossível ter qualquer certeza sobre se há alguém do outro lado – ou se nada existe para além do que nossos sentidos percebem.

Na falta de qualquer evidência conclusiva sobre a existência de uma causa primária e imaterial do universo, o agnóstico (a-não, gnosis-conhecimento) declarara-se incapaz de um veredito; a existência ou não de Deus está fora da sua capacidade de compreensão. Creio que essa definição pode ser parecida com aquela que muitos carregam consigo.

Para além disso, creio que a crença ou não em Deus – ou em um sentido último do universo, que para mim significa o mesmo – não ocorre pela via racional, mas afetiva. Da mesma forma como se dá a orientação sexual, ela não se constitui em uma opção racional, e não existe uma verdadeira escolha pela crença ou pela descrença em um Criador. Acreditar em Deus é um sentimento sustentado por alicerces profundamente assentados no inconsciente e, por esta razão, não será derrubado facilmente por uma abordagem racional. A irracionalidade dessas ideias é, em verdade, sua força mais poderosa, pois as afasta de uma derrocada pelas abordagens da lógica e da razão. Séculos de ciência explicando as origens naturais dos fenômenos que outrora acreditávamos divinos e isso não abalou em nada a crença em uma “faísca primitiva”, a força inicial, o motor primeiro para a criação do universo e das leis que o regem, apenas mudou a forma como conceituamos nosso Deus.

Para maiores informações sobre ateísmo e religião recomendo conhecer mais os “new atheists”. Comecem por Sam Harris, Christopher Hitchens e Richard Dawkins, para entender porque eles criaram uma seita niilista e islamofóbica. Aqui e aqui estão duas palestras fundamentais do jornalista Chris Hedges.

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