“Sem que você tenha trabalhado nesta área durante 30 anos, em três turnos, não terá direito de me criticar”
Não é verdade. Você pode opinar sobre o trabalho de alguém mesmo sem ter trabalhado dessa forma e com essa intensidade. Esse tipo de postura é prejudicial para o progresso e serve apenas para calar a boca dos críticos e permitir que um mau profissional continue fazendo um trabalho ruim apenas porque é velho (ou experiente) e trabalhou demais. Quando Galileu Galilei expôs sua teoria heliocêntrica contrapôs inúmeros pensadores da época com muito mais experiência que ele. Deveria se curvar à autoridade destes? Ou a própria ciência é produzida e criada através da ousadia de alguns pensadores munidos de sua criatividade?
Não é justo se blindar das críticas selecionando quem pode lhe questionar. A todos é garantido o exercício necessário da crítica, mas é verdade também que estas serão levadas em consideração – com maior ou menor crédito – a partir do lugar de onde são emitidas. Por certo que um sujeito com ampla experiência terá mais condições de questionar, mas isso não impede que esteja por vezes (muito) errado. A ninguém parece justo ser impedido de criticar Bolsonaro com a desculpa “seja parlamentar da direita por 30 anos e só depois venha me criticar”. Não, isso seria indecente.
Por fim, experiência não é tudo, apesar de ser importantíssimo. É perfeitamente plausível que alguém tenha formas melhores de realizar um trabalho ainda que não tenha dispensado o mesmo tempo que outro sujeito mais experiente. Se isso fosse verdade, e pudéssemos silenciar a voz daqueles que cuja opinião não nos agrada, quase ninguém teria condições de criticar a qualidade do trabalho alheio, e seríamos prisioneiros de uma gerontocracia que só atrapalha a renovação das ideias. Assim, não estou afirmando que a experiência é inútil; apenas afirmo que ela não pode ser o escudo perfeito para a incompetência e a blindagem definitiva para as críticas.
Quando eu era criança e adolescente nos anos 70 aqui em Porto Alegre o Inter reinava soberano no RS. Era um time muito bom, a geração Falcão, Batista, Figueroa, Lula, Valdomiro, etc. Não só isso; tinham construído um estádio moderno depois de 15 anos vendo o Estádio Olimpico empilhar campeonatos com os times gremistas de Alcindo, Juarez, Lumumba, Airton Pavilhão, Joãozinho, Babá etc. Pois no mesmo ano que o estádio foi inaugurado inicia-se uma “senda de vitórias” com um time colorado que fez história. Quando da inauguração do estádio foi colocado na marquise a famosa frase “A maior torcida do Rio Grande do Sul”. Na época ninguém reclamou oficialmente, porque o sucesso da época – e o estádio cheio – nos faziam pensar assim.
Todavia, este tipo de impressão – sem avaliação metodológica – era o que regulava os conceitos na era pré-científica. Quando finalmente surgiram as primeiras pesquisas, cientificamente controladas, sobre o tamanho das torcidas, os resultados mostraram (além da grandeza de Flamengo e Corinthians no cenário nacional) que a torcida do Grêmio era bem maior do que a do Inter. O resultado da investigação foi um choque na imprensa da província. Foi surpreendente até aqui entre os torcedores da aldeia, e os colorados, em especial, ficaram estupefatos. Eles realmente acreditavam ser a maior torcida, porque nos anos 70 foi uma festa com Beira Rio, octa, tricampeonato CBD, etc. Parecia mesmo uma torcida grande e, mais importante que isso, maior que a do rival.
Eu ainda lembro do dia que a pesquisa bombástica do Ibope saiu e lembro ainda mais da manifestação do Cacalo no Sala de Redação. O Kenny Braga respondeu dizendo que era mentira, e o que valia mesmo era quem frequentava o estádio. Colocou a cabeça na terra e não quis encarar a realidade. Aliás, os colorados até hoje usam essa retórica, questionando “o que seria considerado um torcedor?”. A verdade é que durante os anos seguintes, e durante as décadas que se seguiram, todas as pesquisas mostraram uma superioridade da torcida do Grêmio sobre a do Inter. Mais ainda, isso se expressa em todas as camadas sociais, desde os muito pobres até os milionários. O Grêmio domina a preferência tanto da torcida da periferia afastada do capitalismo até a mais abastada centralidade da burguesia.
Hoje ninguém mais questiona a superioridade numérica da torcida tricolor. Ainda existe uma guerra de sócios, mas todos sabemos que, apesar de importante economicamente, isso é secundário para avaliar o tamanho da torcida. Entretanto, isso não torna pequena a torcida do Inter; ela é a 8ª ou 9ª maior do Brasil, uma massa enorme de gente que torce por um time. Porém, a ciência das pesquisas resgatou uma verdade histórica que sucumbia a uma narrativa sem embasamento na realidade dos fatos: o Grêmio é a maior torcida do Sul do Brasil.
Nos anos 90 eu estava em Camboriú – antes de se tornar a cidade cafona e cheia de novos ricos de agora – com a minha família. Na época meus filhos tinham 8 e 5 anos. Resolvemos voltar para casa depois do almoço, no final das férias de 1 semana no litoral catarinense. Aproveitamos a manhã para tomar o último banho de mar, depois almoçamos e tomei um banho para começar a viagem.
Bem, este foi o problema. Como na época eu tinha um cabelo farto e rebelde, percebi que se saísse para dirigir com o cabelo molhado ele se tornaria um emaranhado obsceno de cabelos, com cada fio apontando para uma localidade distinta do universo. Para evitar isso, resolvi colocar uma touca cirúrgica que guardava comigo para secar o cabelo. Dito e feito: coloquei as malas no carro, ajeitei as crianças e saímos para a estrada, usando minha touca cirúrgia para secar o cabelo.
Alguns quilômetros adiante, já próximo de Florianópolis, percebi ao longe um acidente na estrada. Era possível ver uma fumaça saindo dos veículos envolvidos no acidente enquanto uma fila de carros se formava, diminuindo a velocidade para assistir a cena. Quando me aproximei, percebi que só havia policiais no local e nenhuma ambulância. Fiquei preocupado que houvesse feridos que estariam aguardando a chegada de auxílio e resolvi me apresentar para ajudar. Imediatamente parei ao lado do policial que coordenava o trânsito e gritei:
– Hei, policial!! Eu sou médico. Vocês precisam de alguma ajuda?
O patrulheiro se aproximou do vidro do carro e ficou me olhando por alguns instantes. Depois de um tempo respondeu laconicamente:
– Não precisamos de ajuda. Não houve feridos, apenas danos materiais. Obrigado.
Só me dei conta quando Zeza começou a rir. Ela disse: “O guarda deve ter pensado que tu és um maluco que pensa ser uma mistura de médico com Batman”. Foi então que me dei conta que estava usando aquele bizarro gorro cirúrgico e que o policial teria todo o direito de imaginar que eu era um psicótico que sai de carro pelas ruas procurando avidamente casos para atender.
Talvez minha calvície tenha sido uma forma que Deus criou para eu não pagar mais estes micos
Não deveria causar espanto o fato de que estas meninas parecem estar esnobando os rapazes com quem marcam encontros. Nessa idade – a adolescência – as mulheres são muito poderosas. Em verdade, não haverá momento algum em suas vidas em que serão tão valiosas aos olhos de todos. Todas as heroínas das histórias infantis – de Branca de Neve. Cinderella e até Julieta Capuleto de Verona – eram garotas no fulgor de sua adolescência. O mercado é francamente favorável a elas. Os homens estão por toda parte ávidos por encontrá-las; são desejadas, procuradas, exaltadas, admiradas e têm o mundo aos seus pés. A virada dos 30 anos é, para muitas, um divisor de águas. Na antiguidade quase nenhuma mulher chegava a esta idade sem filhos, o que nos deveria fazer pensar com uma certa estranheza sobre os tempos atuais, quando a maioria ainda não teve filhos. O certo é que, depois de ultrapassada esta barreira, seu valor (aqui entendido como a atração, não os valores morais ou intelectuais) cai progressivamente.
Quando as mulheres de mais idade, por mais lindas e inteligentes que sejam, dizem que não recebem o reconhecimento devido apenas por serem “maduras”, estão apenas dizendo que não ganham mais a atenção desproporcional e exagerada que recebiam no pleno vigor erótico da juventude. Na verdade, estas mulheres maduras sentem na pele algo que os meninos conhecem muito bem: elas passam a ganhar os mesmos olhares que um garoto de 16 anos recebe das mulheres de 20. Lembrem-se: por mais duro que seja aceitar, somos seres destinados à reprodução. Quanto mais nos afastamos da janela reprodutiva menos valor obtemos do entorno social. Apesar da nossa racionalidade ainda funcionamos como uma espécie sofisticada de primatas sem pelos, e nossas atitudes continuam conectadas aos estratos mais primitivos da mente, os quais, fortuitamente, nos garantem a sobrevivência.
Se a sua parceira não tivesse os defeitos que tanto lhe incomodam, ainda assim lhe escolheria para partilhar a vida? Sem as imperfeições que ela carrega, ainda assim você seria útil ou atraente para ela?
Talvez você não fosse mais interessante para ela, nem necessário. Não é justo abandonar essa perspectiva. Se ela não fosse gordinha, estaria com você? Se ela não fosse pobre, ainda assim se encantaria pela sua “personalidade”? Se ela não fosse insegura, continuaria ao seu lado? Se ela não fosse desequilibrada, ainda sim estaria consigo? Sem sua extremada carência, ainda assim lhe olharia com ternura e carinho?
Agora mude os gêneros acima e pergunte: se você não fosse gordo, feio, pobre, inseguro, frágil, angustiado, dependente ainda assim estaria com sua atual companheira(o)? Pense nisso. Quem seria você se não tivesse as amarras que o prendem ao mundo da contenção? Não há como saber sem passar pela prova, mas existem vários exemplos para nos mostrar o que nos tornamos quando perdemos alguns desses “defeitos”. Pensem no jogador de futebol que aos 24 anos faz seu grande contrato e fica milionário – literalmente da noite para o dia. Olhe a cantora sertaneja que “estoura” nas paradas de sucesso e passa a contar seus milhões. Olhe para o pobre funcionário que ganha na loteria. Depois desses eventos, como ficaram suas vidas? Como ficaram seus valores e suas exigências?
Como nos ensinava Marx, temos os valores da classe em que estamos, não daquela de onde viemos. Somos produto do entorno, do campo simbólico que nos rodeia, e somos uma chama de vida nutrida pelo desejo. Somente podem criticar aqueles que abusam do poder os que, tendo visitado o reino da opulência, colocaram cera nos ouvidos para não escutar suas sereias. Todos os outros se iludem com seus reais valores e limites, que muito mais refletem o quanto podemos do que o valor que realmente temos.
A ideia ultimamente difundida de que o fascismo surgiria pela proliferação dos “machos inseguros”, produzidos por uma sociedade onde as mulheres estão assumindo cada dia mais postos de comando, é outra tolice que vem sendo espalhada pela camada nas redes sociais, em especial nas franjas mais religiosas e beatas das esquerdas liberais. A redução dos problemas sociais a transtornos ou dificuldades dos indivíduos é uma bobagem que deve ser combatida por quem se situa na porção radical da esquerda, pois que nada mais é que um novo golpe identitário, cujo objetivo é atacar as bases do movimento operário. Isso é infantil demais até para ser debatido.
Por certo que o fascismo encontra um terreno fértil entre os “machos inseguros”, mas nem todos os machinhos em crise reunidos do planeta seriam capazes de criar um modelo de opressão burguesa sobre as massas operárias, usando o aparato repressivo do Estado e da polícia. Isso é puro suco de ideologia. Essa “psicologização” dos fenômenos sociais serve apenas para desviar o foco das questões estruturais que nos impedem de progredir e da inevitabilidade da luta de classes.
A tendência contemporânea de interpretar as tendências sociais em direção ao fascismo utilizando o ferramental produzido pela psicanálise é muito sedutora, e por esta razão largamente usada pelos identitários. Para estes, o rechaço à cultura “woke” não passaria de uma reação aos direitos recentemente conquistados pelas comunidades oprimidas, e os ataques partiriam do opressor-mor da nossa sociedade: o macho branco, cis e heterossexual. Se é verdade que existem homens que não suportam qualquer ideia de equidade, desprezando e se sentindo ameaçados pela maior visibilidade e reconhecimento do trabalho das mulheres, estes não seriam capazes de criar um movimento de supressão das liberdades em direção a um controle opressivo do Estado, como se pode ver nos fascismos clássicos. Tais “machos inseguros” normalmente se reúnem nos bolsões bolsonaristas e nos “chans” compostos por supremacistas e incels, mas não representam uma ameaça concreta, a não ser que se unam aos burgueses que, encampando suas ideias, os usam como massa de manobra para atacar a classe trabalhadora.
Para os apologistas desta perspectiva o fim do fascismo ocorreria com a abordagem psicanalítica dos seus constituintes individuais ou, quem sabe, por um “outing coletivo”, quando milhões de machos reprimidos e multidões de machistas com comportamentos odiosos e vingativos sairiam do armário, dando vazão aos seus impulsos homoeróticos. Ora, nada poderia ser mais ingênuo e errado do que isso.
O fascismo se combate com política, força, consciência de classe, união popular e revolução. O resto é papo furado.
E aí encaminharam a mulher em direção a um grande muro de pedra. Seu corpo seminu e o cabelo raspado contrastavam com a dureza da rocha por detrás. Era jovem e, apesar dos castigos, mantinha ainda uma formosura de traços. Seus olhos eram fundos, como fundas era sua dor e sua angústia. As mãos trêmulas seguravam o resto que sobrara de suas vestes, destapando os pés magros e sujos. Seu pranto era seco; seu olhar perdia-se por detrás da multidão que ora gritava. Parecia procurar na distância infinita algo ou alguém que de antemão sabia que não viria. Seu olhar vítreo vagava por sobre as cabeças, desatento aos detalhes. Finalmente, voltou seu rosto para baixo e seus joelhos dobraram-se pela exaustão.
— Vadia! — disse alguém, imerso na confusão de vozes.
— Vagabunda! — gritaram outros, e essas palavras ricochetearam na pedra bruta, golpeando-lhe nas costas. A dor das sílabas ferozes era maior do que as dores que seu corpo esquálido já suportara.
A adúltera esperava o seu final. A espuma de ódio no canto dos lábios dos que ali se perfilavam com pedras nas mãos mostrava-lhe que nada poderia impedi-los. Seu fim estava próximo.A leitura da sentença fora breve, assim como breves foram seus pecados. A mão dura da lei repousaria sobre seu corpo e seu espírito. Assim estava escrito, assim se cumpriria.As mãos carregadas de pedras se ergueram para o alto, à espera do aviso. Um silêncio. A pedra dura, o corpo vergado. A cabeça baixa. O pranto surdo. Ninguém falou, ninguém respirou. O mundo, entre um segundo e outro, parou para assistir.À espera do sinal esperado por todas as raivas; o aviso para que as pedras se lançassem ao ar, cruzassem o espaço e esmagassem o corpo frágil da pobre mulher. Ela mantinha seu olhar parado, sabendo que nenhuma palavra seria suficiente, nenhum gesto ajudaria. Seu destino estava determinado pela incompreensão e pelo ódio despertado. Ninguém poderia salvá-la. Aguardava com resignação silente o seu momento derradeiro.
Sua cabeça baixa ergueu-se pela última vez. Seu olhar perdido fixou-se em um horizonte que jazia próximo de onde as coisas começam e terminam. O corpo aprumou-se e os lábios moveram-se sutilmente. Naquele momento de espera, naquele fragmento de instante antes da tempestade de rochas, ela fechou os olhos e…
Sorriu…
Sorriu a dor de perder a vida. Sorriu a dor de morrer por ter amado. Sorriu a dor do prazer. Sorriu a dor da liberdade. Sorriu o adeus aos seus. Sorriu porque lembrou daquele breve momento em que amou de verdade, transgrediu e gozou. Sorriu o riso dos loucos e dos libertários, o riso da graça e da desgraça.Seu sorriso era o sinal. Um sinal da culpa; uma confissão. Sorriu também pelos filhos que não tivera e pelos que sempre quis acalentar. Sorriu pelo leite que não verteu de seus belos seios, e das noites que não dormiria aconchegando seus filhos. Sorriu pelos homens, bons e maus, a quem seu corpo ofereceu repouso e sossego. Sorriu por tantos que auxiliara entregando seu carinho e seu calor.Naquele exato instante, ela se libertou. Olhou para a multidão com as pedras alçadas ao ar e pôde entender com clareza o significado de sua dor. Não mais padeceria por desconhecer o significado e o sentido no seu sofrer. Era seu momento de ascensão. Liberta, já podia desembaraçar-se do fardo de seu corpo cansado.
Mas seu sorriso foi também o sinal que liberou a torrente de ódio. As pedras rasgaram o ar, assobiando uma música feroz. Uma chuva de cascalho e rancor. No ar, o cheiro do sangue misturava-se lentamente com a poeira. A multidão aos poucos se aproximava da mulher, para não desperdiçarem nenhuma rocha lançada.A carne dilacerada. O corpo aos poucos se desfazendo. Terra, lágrimas, sangue.Mas o alvo já nem era mais seu corpo. Aqueles que estavam presentes procuravam aniquilar aquele sorriso, que se mantinha vivo e instigante. Por mais que as pedras procurassem atingi-lo, ele continuava ali, incólume. Saiu do rosto da pobre mulher, volitando por entre a multidão, e fixou-se nas retinas de cada um. As pedras já não mais o alcançavam.
Os executores ainda gritavam excitados, vociferavam, levantavam as mãos para o alto. Da pobre pecadora já não se ouvia a respiração. Nenhum movimento se percebia em seu corpo. A torrente de pedras e gritos parou depois de alguns minutos.Aproximaram-se do corpo imóvel. Um silêncio machucou os ouvidos, para observar se a vida ainda habitava naquele ser.Nada. O rosto disforme, as carnes abertas. O brilho da espada do soldado reluziu no peito. Seus seios à mostra ainda tinham o viço e a cor de outrora. Seu busto nada sofreu, como que poupado por sua beleza. Consumada a execução, seu corpo morto agora era carregado para longe.Os presentes aos poucos iam se afastando. As pessoas, de cabeça baixa, tentavam tirar de sua lembrança aquele sorriso, aquele enigma. O que a fez sorrir? Por que alguém arriscaria tudo, até a própria vida por um momento.
Max deixou o pedaço manuscrito de papel sobre a mesa enquanto nos olhava, aguardando os comentários. Nadine havia avisado que seriam nossos últimos momentos juntos naquele dia, porque a noite já havia colocado seu negro cobertor sobre nossas cabeças. Max insistira em que déssemos nossa opinião sobre o texto que guardara para nos apresentar. Disse-nos que este seria um capítulo do livro que estava a escrever. Precisava da opinião dos amigos.
Nadine olhou-o, ainda repousando a mão sobre o queixo, e lhe disse:
— Querido colega… Entendo a dramaticidade do que você descreveu. Cheguei a sentir na pele a dor de morrer assim. Penso que todos levamos conosco um pouco da memória planetária, que faz com que tenhamos impressas em nossos corpos e mentes as sensações que nossos antepassados vivenciaram. Acho que a história carrega uma metáfora poderosa. Ela trata da possibilidade heroica de transgredirmos os nossos limites em nome de algo superior e nobre. No caso da adúltera pecadora, o amor era esse limite. Ela sabia que “amar/pecar” seria entendido como uma agressão ao modelo patriarcal estabelecido, e que mesmo diante da possibilidade de morrer ela preferiu arriscar, em nome de algo que ela entendia como sublime e valioso.
Resolvi também comentar o texto de Max. Sabia que era hora de ir, pois o escuro já dificultava nossa visão dos letreiros da rua em frente. O dia foi de intensas emoções de reencontro, e penso que Max deixara a leitura de seu texto para o fim porque queria nossa opinião sobre seu projeto de escrever um livro.
— Acho que podemos inserir sua metáfora em muitas circunstâncias banais e corriqueiras de nossa vida. A pecadora pode ser qualquer um de nós defrontando-se com as nossas paixões. O próprio nascimento humano pode ser visto nesse contexto, se pudermos entendê-lo como um processo de profunda capacidade transformativa para uma mulher. E o nascimento humano carrega essa potencialidade, desde que se entenda a possibilidade libertária e empoderadora que ele traz consigo. Para uma mulher ser protagonista de seu próprio parto, ela precisa desafiar os limites impostos por uma sociedade que se assenta sobre valores outros, e que não admite que esses sejam subvertidos. A pecadora, em uma visão humanista, é aquela mulher que se decidiu por aceitar e incorporar por inteiro a tarefa de ser mãe, com tudo o que isso possa significar. É apoderar-se de um evento que sempre foi seu, mas que a sociedade tecnocrática acabou afastando dela. Esse resgate é inegavelmente um gerador de conflito, e por isso muitas são vistas como “radicais”, “egoístas” ou outros adjetivos negativos que a sociedade utiliza para quem tenta desobedecer a seus ditames.
Nadine sorriu para mim, e Max terminou sua cerveja.
— “Pecadores”, entretanto, são também os médicos — continuei — que oferecem suporte e atenção a essas mulheres na sua busca por partos mais seguros e empoderadores. Oferecer seu trabalho, sua profissão e sua face aos ataques de todos aqueles que se sentem prejudicados com essa transferência de poder os coloca igualmente na condição de hereges transgressores. Entregar às mulheres essa força e essa possibilidade de protagonismo é considerado por muitos uma afronta. Muitos não hesitariam e apedrejariam sem nenhuma piedade. Outra metáfora que me parece criativa é o momento de ascensão. Esse momento está presente em inúmeras tradições religiosas, como a cristã, a budista e outras, e nos fala da possibilidade de alçar um patamar superior de compreensão da vida através da dor, da provação e do martírio. A pobre pecadora, diante do sofrimento que lhe foi imposto, teve a oportunidade de entender a vida e suas infinitas conexões no momento em que estava se despedindo dela. Essa possibilidade transformadora e renovadora está presente em muitos desafios que enfrentamos pela vida, principalmente no nosso contato com a morte. O parto pode ser também entendido como um momento de profunda provação, em que os valores humanos são colocados à prova. Nesse complexo rito de passagem, muitas mulheres se “descobrem” e ascendem a um estágio superior em suas vidas. Esse talvez seja um dos aspectos mais fascinantes do nascimento humano: seu potencial criativo e transformador.
Max mantivera-se em silêncio. Queria nos mostrar seu ponto, sua preocupação e talvez uma dor. Sabia que uma sociedade tecnocrática como a que vivemos não perdoa as pessoas que oferecem uma visão alternativa ao modelo dominante. “É duro passar a vida remando contra a maré, meu caro”, dizia-me ele. Bem sei disso. A postura contra-hegemônica na área da saúde é vista como algo intimidante, e tanto Max quanto eu já havíamos sentido a dureza das pedras lançadas por aqueles que não aceitam desvio dos dogmas fundamentais que sustentam nosso sistema de crenças. Nadine mesmo falava que, apesar de acreditar em muito do que dizíamos, não tinha coragem de assumir uma postura franca em direção ao humanismo, exatamente porque não existe um sistema de suporte aos médicos que agem orientados pela medicina baseada em evidências. Ela dizia: “Se você assistir partos normais, corre o risco de ser processado e cair em desgraça. O mesmo não ocorre se você fizer cesarianas, mesmo que tenha resultados muito piores”. Ela temia ser apedrejada, mesmo seguindo normas seguras, superiores e atualizadas.
Impossível não compreender suas razões. Não conseguimos ainda criar um modelo que proteja aqueles que buscam o melhor para seus pacientes através de uma abordagem sistemática e científica. Quando problemas inevitáveis ocorrem durante o transcorrer de um parto, somos julgados por nossos pares, que na maioria das vezes estão a defender o seu modelo, o seu paradigma, que em geral se assenta exclusivamente na manutenção do poder sobre o nascimento. Sem uma integração entre mídia, entidades médicas, ministério público e judiciário, nunca conseguiremos nos proteger do oportunismo que cerca boa parte dos processos contra obstetras.
Max tinha enorme preocupação com isso, e dizia que apenas um esforço muito grande de toda a sociedade seria capaz de nos livrar do horizonte negro que se aproximava. Nossa taxa de cesarianas ainda era uma das maiores do mundo, assim como as taxas de morbi-mortalidade neonatal. A associação entre esses dois medidores de excelência em assistência nunca foi encarada por Max como uma coincidência. O sistema de seguro médico ameaçava entrar no Brasil com sua potencialidade destruidora, a exemplo do que ocorreu com os Estados Unidos, onde a “indústria do erro médico” solapou toda e qualquer possibilidade de modificação das péssimas cifras de atenção materna e neonatal a curto prazo. Apesar de os Estados Unidos terem o maior orçamento de saúde do mundo, não estão entre os 40 países com os menores índices de mortalidade materna. Lá principalmente, mas também gradualmente no nosso país, médicos trabalham com medo, apavorados e distantes de um envolvimento com seus pacientes. Nada mais afastado do ideal de cumplicidade e auxílio apregoado pela profissão médica.
Max sentia na pele a dor das injustiças. Sabia que trilhar o seu caminho de desafios lhe custara um preço demasiado alto. As pedras eram os olhares, as críticas injustas e infundadas, os comentários maldosos na sua ausência, a desconsideração de alguns colegas. Entretanto, percebera também que não havia escolha, porque a estrada pela qual se decidira era de mão única. Diante das pedradas que a estrada da vida lhe ofereceu, seu único recurso era oferecer seu sorriso e sua compreensão.
Olhei meu amigo abraçar-se a Nadine. Era hora de ir. Lá fora a noite nos convidava para o repouso. Nadine estava com os olhos úmidos. Abraçava-se a Max como a tentar agarrar um pedaço de seu passado, onde tudo eram esperanças e sonhos. Max sorria e dizia que voltaríamos a visitá-la em breve. Olhei Nadine mais uma vez e tentei descobrir qual dor se escondia por detrás do azul dos seus olhos. Deixei minha curiosidade de lado e abracei minha querida amiga, sentindo seu coração perto do meu.
— Ric — disse ela. — Voltem mais vezes. Temos tanto a conversar, tanto a lembrar…
Eu também trazia meus olhos mareados, e prometi que voltaríamos a nos ver em breve. Max me aguardava na porta e juntos saímos do hospital. Olhei Nadine mais uma vez e lhe acenei. Ela devolveu o aceno com um sorriso. Max despediu-se de mim na primeira esquina. Abracei meu parceiro e combinamos mais uma vez reencontrar Nadine e reviver os velhos e bons tempos. Antes de se afastar, ele ainda me falou:
— Você não falou de sua dor para Nadine. Por quê?
Olhei para meu velho amigo e lancei-lhe um sorriso triste, que brotava das feridas profundas que cada um de nós carrega.
— Não gostaria que a tristeza pela injustiça que passei contaminasse nosso reencontro. Fiquei tão feliz de ver de novo meus velhos companheiros que não queria que nossa conversa fosse dominada pela indignação ou pela mágoa. Nadine é uma doce amiga, não queria que se entristecesse por minha causa.
Max bateu nas minhas costas e segurou fortemente meu ombro.
— Prometa que vai escrever aquele livro. Você não pode sofrer em silêncio. Muitos colegas poderão entender o que aconteceu com você. Sua indignação não pode ser silente, pois dessa forma não conseguiremos modificar o modelo anacrônico e machista que controla a nossa obstetrícia. Escreva, meu amigo; escreva tudo. Prometa.
Balanço a cabeça afirmativamente, prometendo diminuir o peso da injustiça que carregava, descarregando-o nas páginas escritas. Max despede-se de mim na primeira esquina. Abracei meu parceiro mais uma vez. A rua à minha frente está mais escura do que de costume. Os faróis e as buzinas me atrapalham quando revivo mentalmente as cenas do dia. Relembro as piadas e as histórias de Max e não consigo evitar uma risada. Senti um pouco de cansaço e certa sonolência, para logo depois lembrar que ainda havia centenas de e-mails para responder em casa. Meu celular toca uma única vez e recebo o aviso de uma mensagem de texto. Aperto as teclas do aparelho e leio no visor de cristal líquido:
Tentei fazer a ligação do meu mouse no computador novo, mas percebi que a conexão era inadequada. Inútil insistir. Com as mãos na cintura, eu vislumbrava o ventre cibernético do computador aberto à minha frente. Suas entranhas expostas não me traziam esperanças, mas me ofereciam a ilusão ingênua de controlar seu funcionamento. A conclusão era dura e inevitável: meu dispositivo era PS2, e a única porta acessível era uma serial. Eu necessitava de um adaptador, e talvez pudesse encontrá-lo no shopping. Ok, pensei eu, já conformado com o meu passeio compulsório. Aproveito e visito uma livraria. Quem sabe encontro alguma novidade, ou pelo menos leio o meu livro enquanto tomo um café expresso. Tento acordar Bebel para me fazer companhia, mas a festa da noite anterior a mantinha agarrada aos braços de Morfeu. Mais tarde agradeci por ela estar presa a este sono de pedra.
A tarde fria já mostrava seus estertores, colorindo de púrpura o céu da cidade. O vento cantava uma fria melodia na fresta aberta da janela do carro, enquanto os faróis dos automóveis lentamente iam se acendendo, produzindo uma dissonância ofuscante de luzes. O rádio é a companhia que me resta, e acompanho o som das músicas com minha voz desafinada. “E é só você que tem a cura do meu vício de insistir nessa saudade que eu sinto de tudo que eu ainda não vi”. Renato Russo fala da saudade daquilo que ainda não vivera, enquanto eu forço a vista para poder enxergar a mudança nas tonalidades da rua. Penso na força de um ídolo que se foi, e que, ao morrer, tinha a mesma idade que eu. Novo, pensei. Vítima do desregramento que atinge os mais sensíveis, ainda jovem sucumbiu a um turbilhão de paixões avassaladoras. Sua poesia ainda encanta os “meninos e meninas” da geração que nem chegou a conhecer.
Meu caminho em direção ao shopping necessariamente passava pelo estádio de futebol. Aos poucos, vislumbro o topo das torres imensas que guardam os holofotes, e sua visão me trouxe à memória minha velha tese de que os estádios tentam reproduzir a estrutura dos castelos medievais, em uma intrigante fidelidade à arquitetura das cidadelas. O fosso, as torres sentinelas, a ponte levadiça, os guardas, o povo alucinado e os exércitos digladiantes: tudo isso me aparecia de forma evidente nas partidas de futebol. Ali os clãs se reuniam para as batalhas, que o processo civilizatório sublimou nos jogos esportivos. Entretanto, o calor dos embates futebolísticos frequentemente produzia em mim a memória corpórea de um tempo passado nem tão distante, em que os “gols” eram muito mais sangrentos e as vitórias, realmente “arrasadoras”. Felizmente nossa impulsividade testosterônica e guerreira já havia encontrado outras formas mais sutis de expressão.
Quase em frente à curva do estádio, a intuição me fez mudar de rumo. Empurrada por uma vontade repentina, minha mão escorregou no volante e decidi não contornar o velho campo de futebol pela esquerda, mas manter uma linha reta e seguir em frente para somente mais adiante virar em direção ao shopping. Poucos minutos depois, eu ainda questionaria as razões pelas quais tomamos decisões fortuitas, mas que posteriormente nos instigam a imaginação por guardarem uma causalidade aparentemente inexplicável. Ao passar o semáforo, percebi uma aglomeração próxima a um “bailão”, que é uma espécie de boate gauchesca muito ao gosto do povo. Uma pequena multidão acotovelava-se em frente a um posto de gasolina. Diminuí a marcha e me aproximei para ver do que se tratava. Havia um popular, não um policial ou agente de trânsito, a pedir que os carros desviassem. Logo percebi que as pessoas se amontoavam em torno de um corpo caído ao chão. A ausência de agentes policiais me alertou para o fato de que o acidente devia ter ocorrido há alguns minutos apenas, e sequer houvera tempo para que alguma autoridade fosse acionada. Os transeuntes se agrupavam em torno da pessoa caída, me impedindo de ver detalhes do que havia acontecido. Abri o vidro do carona e gritei para o senhor que, com um lenço, fazia sinal para os carros que trafegavam:
— Amigo, eu sou médico. Alguém aí precisa de auxílio?
Ele curvou o corpo para frente, e forçou a vista para me enxergar dentro do carro. Ajustou os óculos com a mão que não segurava o lenço, ainda balançante, e respondeu incontinenti:
—- O senhor é médico? Sim, acho que precisamos. Houve um atropelamento. — Voltou-se para trás e, dirigindo-se à turba, gritou:
— Afastem-se. Este senhor é médico. Abram espaço!
Manobro meu carro no posto de gasolina em frente. Corro em direção à multidão, mas ainda preciso avisar: “Sou médico, deixem-me chegar perto”. Uma mulher jazia imóvel no asfalto. Minha experiência com atendimentos na rua é estranha. Parece que as coisas sempre acontecem ao meu lado. Já fui socorrista de muitos acidentes de carro e já auxiliei inúmeras pessoas vítimas do trânsito caótico. Parece uma imantação, ou talvez o fato de que aparentemente eupreciso me aproximar dos acidentes. Pareço ter uma vocação para “anjo da guarda”, o que talvez seja uma boa oportunidade de emprego depois que eu partir “desta para uma melhor”.
Desta vez não foi diferente de várias outras. O acidente havia ocorrido alguns minutos atrás apenas. Depois de esbarrar nos indefectíveis curiosos, chego ao lado da pessoa que estava caída. Ajoelho-me ao lado do corpo e sinto a dureza do asfalto contra minhas rótulas. Instintivamente coloco uma mão no pulso e a outra sobre sua testa. Uma mulher, passando dos 50 anos. Vestia roupas simples, mas os sapatos bonitos e reluzentes pareciam novos. Sua calça estava rasgada próximo ao joelho, por onde se podia observar o amarelo subcutâneo de um profundo corte. Havia uma fratura exposta na altura do fêmur distal, e espículas ósseas agrediam as bordas da pele. Minha visão fixou-se na perna da mulher, à procura de sangue, mas não havia nenhum sinal. Como poderia um corte tão profundo, associado a uma fratura, não sangrar?
Pensei no pior. Olhei sua cabeça que, de lado, parecia tentar escutar o negro asfalto. Uma poça de sangue coloria de rubro o chão escuro. Sem movimentá-la, abri bem seus olhos e não percebi nenhuma reação das pupilas, que se encontravam imóveis. A dobra de sua orelha estava azulada e fria, mas o resto do seu corpo ainda mantinha o calor. Tinha uma extensa lesão por abrasão nas costas, de um vermelho intenso. Seus olhos, agora semiabertos, pareciam querer olhar um ponto qualquer do outro lado da rua. O som dos automóveis passava por entre as pernas das pessoas, e o círculo ao redor do corpo ia se tornando menor. Por entres os espectros dos curiosos amontoados ao meu redor, eu podia ver os vidros dos carros se abrindo para que cabeças fossem impulsionadas para fora, na ânsia de verem do que se tratava. Ao seu lado, uma senhora me falava:
— Ela é mãe da doutora Fulana, que é ginecologista. O genro dela é o doutor Fulano. O senhor os conhece?
Os médicos a quem ela se referia eram meus colegas. Sua filha era da mesma especialidade que eu, curiosa coincidência. O genro, outra coincidência, tinha um dos nomes igual ao meu. Não era meu amigo, mas sabe-se lá quantas vezes já havíamos nos cruzado nas galerias dos hospitais. A filha era provavelmente mais jovem do que eu, porque não reconheci seu nome.
— Ela está bem doutor? Estávamos atravessando a rua quando esta motocicleta apareceu de algum lugar. Ela não viu. Como ela está, doutor?
Não havia nenhum movimento respiratório. As pupilas estavam fixas, os olhos imóveis. Parecia ainda procurar algo do outro lado da rua, fixada em um ponto perdido entre a calçada e o horizonte purpúreo. Botei mais uma vez minha mão no seu pescoço na esperança de encontrar pulso carotídeo. Nada. Nem um mínimo sinal de vida. Olho para a amiga, que ao meu lado chora, e vejo nos seus olhos uma súplica. Pede uma esperança, uma chance. É uma bela mulher, passada também dos 50 anos. Está vestida com um casaco de couro marrom claro, e um batom vermelho vivo cobre seus lábios.
— Sua amiga morreu. Não há um sinal qualquer de vida. O trauma na cabeça, ou alguma lesão interna, deve ter sido o causador. Eu sinto muito.
Ela abraça-se a mim e chora. Seu soluço é baixo, mas sua dor é algo que sinto na pele. Os curiosos se aproximam mais ainda, e os ônibus diminuem a marcha próximo ao acidente para poder democraticamente saciar a sede das pessoas pelos espetáculos mórbidos. Pessoas me perguntam se ela ainda está viva, e eu digo que devemos esperar a ambulância. O motoqueiro se aproxima e vejo espanto na sua expressão. Parece não acreditar no que vê. Seu olhar procura uma reação na mulher, mas esta não se move. A amiga continua a falar, tentando extravasar sua ansiedade. Diz que não consegue ligar para a filha da amiga, mas penso que ela na verdade estava sem coragem para isso. Pouca coisa no mundo é mais difícil do que dar uma notícia como essa. Continuo a olhar a pobre senhora, cujo corpo rapidamente parece esfriar junto com a noite outonal que se aproxima.
— Ela saiu para dançar. Estava atravessando a rua para uma aula de dança de salão. Ela está bem, doutor?
Quem me dirigiu a palavra foi um senhor gordo com uma camisa vermelha, já passado dos 70 anos. Talvez fosse um colega de aula; quem sabe um antigo amigo. Finalmente consigo entender para onde a mulher parecia olhar. Do outro lado da avenida um cartaz jazia, pendurado à parede de cimento cru: “Aulas de Dança de Salão”. Seu olhar continuava fixado no cartaz, como que a negar o que o destino lhe impusera. Apoiei a mão no ombro do senhor de camisa vermelha e disse-lhe em voz baixa:
— Ela faleceu, meu amigo. Não há mais nada a fazer.
Minha voz saiu como um sussurro proposital, para não criar confusão. Ele apenas falou “Meu Deus…”. Pedi que trouxesse do bar que existe em frente uma toalha para cobrir a senhora. Não conseguia aceitar os olhares dos passantes, que teimavam em chegar bem perto como que para ver a morte o mais próximo possível. Curvei-me mais uma vez em sua direção. Coloquei minha mão no seu rosto e fechei-lhe as pálpebras, tentando entender o que se passou. Uma pessoa sai de casa para uma aula de dança. Seus sapatos novos e reluzentes me diziam que ela era uma mulher vaidosa, caprichosa. Seu cabelo castanho pintado tentava disfarçar os fios brancos que teimavam em aparecer bem próximos à raiz. Quem sabe estava procurando um namorado, uma companhia, ou apenas diversão e risadas marotas com as antigas amigas. Encontrou a morte ao atravessar a rua.
A fragilidade da vida é o que lhe empresta grandeza e fascínio. O fato de que podemos nos retirar bruscamente dessa existência é o que nos faz pensar que cada momento é único, porque irreprodutível, e que a cada instante travamos uma luta contra nossa finitude. Com minha mão em sua face, tentei mentalizar sua passagem. Imaginei o cortejo espiritual que ao nosso lado deveria estar se realizando. Certamente ela teve em sua vida amigos, amores, familiares e pessoas que, já tendo passado para o lado de lá, a estariam auxiliando. Provavelmente ao meu lado haveria algum tipo de “Serviço de Recepção e Auxílio”, para ajudar aqueles que estavam regressando prematuramente à casa espiritual. Meu futuro emprego, pensei eu. Passei essa vida inteira recebendo os que vêm do outro lado, por que haveria de ser diferente depois de morrer?
Chegam os agentes de trânsito. Com suas “caixinhas falantes”, mandam informações ao Pronto-Socorro. Apresento-me a um deles e explico que a mulher acabou de falecer. Ele transmite a informação para a central, mas confirma que a ambulância deve se apressar. Falo com a mulher da central e digo que a mulher não mais respirava, e que o caso era realmente fatal.
Minutos após, a ambulância chega, fazendo alarde. A mulher no asfalto jaz coberta com a toalha do bar, e o paramédico apenas confirma minhas informações. Nada mais há para fazer.
Levanto-me e abraço mais uma vez a amiga. Pego um papel e escrevo meu nome, para que ela entregue à filha, minha colega ginecologista. Talvez ela quisesse perguntar alguma coisa, ou saber como estava sua mãe quando veio a falecer. Afasto-me da multidão e olho para o corpo miúdo que começa a ser carregado para a ambulância. Digo mentalmente adeus, pedindo para que ela possa ser bem recebida no lugar para onde está indo. Entro no meu carro e sigo meu caminho. Ligo o rádio. A lembrança de V. instantaneamente me vem à recordação.
“Na parede da memória essa lembrança é o quadro que dói mais”, grita Belchior.
Ela também saiu de casa para uma aula de dança. Queria bailar no ritmo de uma canção há milênios cantada. Queria passar pelo seu rito, sem ser obstruída por uma sociedade que recrimina a autonomia e a liberdade. V. sabia que o caminho da libertação passa pela coragem e pelo enfrentamento. Morreu ao atravessar sua última avenida, atropelada pela inevitabilidade de uma doença imprevisível e impossível de prevenir e abatida pela infecção contraída no que deveria ser o “santuário da antissepsia”. Logo ela, que tanto tentou evitar uma fatalidade ao procurar na humanização do seu parto a forma mais segura de lidar com o evento.
Dobro finalmente em direção ao meu destino. As imagens se multiplicam na minha mente, e eu continuo a pensar na morte e seus significados. A morte é o tabu-mor da medicina. É a maldita palavra não-dita. “Palavras são energia”, já dizia minha mãe. Nós, médicos, não pronunciamos essa palavra de cinco letras, talvez para afastar de nós a sua aura temida. Faz parte da nossa milenar herança mística, e dos rituais que cercam nossa profissão. Não falamos feto morto, falamos “FM”; não nos reportamos ao câncer, e sim ao “CA”, e mesmo nós, imitando os pacientes, falamos das doenças malignas como “aquela doença”. Nossa ojeriza à morte, e ao fim determinado por ela, só pode ser compreendida se adentrarmos a sutileza dos alicerces que sustentam a medicina. Tentamos desviar da boca a palavra amarga, para que não chegue aos corações e mentes a marca indelével da nossa falibilidade. Morte em medicina significa o fracasso último de nosso intento fantasioso de sobrepujar a natureza e seus ditames.
Morrer é tão da vida quanto nascer, e enquanto não pudermos entender as pontas da existência como um tubo que se fecha, jamais seremos capazes de sobrepujar a dor de partir. Zeza ainda ontem me falava da dor de nascer, e deixar para trás aqueles que tanto nos amam e a quem deixamos órfãos de nossa presença espiritual. Também do lado de lá deve haver saudade, senão por que sorririam ao nos ver regressar aqueles que já se foram? Seria o humano fadado a um eterno acenar de cais? Seria a criatura de Deus um eterno suplicante de amores deixados para trás, na longínqua memória de tempos e paixões já idas? Seria a completude da presença constante um idílio mentiroso, tão falso quanto aquele em que a princesa e seu escolhido “viveram felizes para o sempre”? Será a existência maior marcada, em essência, pela fatalidade da partida, a sombra da despedida e a dor de um olhar a perder-se? “Viver é preparar-se para morrer”, diria Sócrates. Sem o desapego às coisas e às pessoas, nossa passagem se torna um mar de aflição e tormento. Viver é preparar-se para a separação, para a distância.
Maximilian uma vez me disse: “Se quiser trabalhar com a vida, entenda a morte. Morrer é o que confere à vida sua grandeza e significado. Esta se torna mais valiosa quando mais frágil a reconhecemos.” Max era certeiro, e sabia o que era a dor de perder alguém. O destino é realmente surpreendente. Pergunto a mim mesmo qual o sentido disso tudo. O medo da resposta me fez aumentar o volume do rádio. Haverá uma razão para o sofrimento?
Volto para a realidade asfáltica do meu percurso em direção ao shopping e tento me preocupar com a peça faltante do computador, para assim afastar os pensamentos dolorosos que tomaram conta da minha mente. Sigo meu rumo olhando o rosto das pessoas nas calçadas. Escondido no carro, os passantes não percebem minha angústia e minha estupefação diante do patético da existência. Tenho ganas de baixar o vidro e gritar: “Hei, você aí parado. Você mesmo, na parada de ônibus, de camisa amarela. Podia ser você. Isso mesmo… podia ser você”. Desligo o rádio, e uma música da infância me vem à memória, tomando o lugar da balada romântica. Era uma música evangélica polifônica, à capella, tão ao gosto do meu pai. “Se a morte vier hoje o buscar, como está com seu Deus?”
— Nem sou eu que o digo — falou Maximilian com o dedo em riste. — Está nos melhores compêndios atualizados de pediatria. E da pediatria mais alopática e conservadora possível: não existe justificativa para baixar a febre de uma criança durante um episódio de hipertermia, salvo situações bem específicas e raras. Digo que a febre deve ficar alta mesmo, porque ela tem evidentes efeitos terapêuticos.
— Você está sendo mais uma vez exagerado, Max.
Nadine cruzou os braços e fechou o cenho. Não acreditava nas condutas exageradamente conservacionistas que Max frequentemente utilizava. Para ela, o uso das evidências científicas era correto, mas até um determinado limite.
— Exagerado? Não creio — continuou meu amigo. — Exagero seria não entender as limitações de uma mãe e condená-la por usar drogas em seu filho. Nisso certamente estaremos de acordo. Nossa cultura é muito sedutora no uso de medicamentos, e não usá-los depende de uma postura muito corajosa e determinada, que só se sustenta com informação e atualização constantes. A febre (mas poderíamos falar da diarreia, dos vômitos, da tosse, das dermatites, etc.) é um dos mais fabulosos mecanismos de defesa elaborados pelo nosso organismo. O Ric, aqui presente, deve lembrar quando juntos tivemos uma aula sobre febre, em um curso de medicina social. Quando confrontados com as características essenciais da febre, pensamos: “A febre é tudo o que um antibiótico gostaria de ser”. Ficamos ambos apaixonados pelos mecanismos fisiológicos de adaptação produzidos pelo processo febril, e ao mesmo tempo chocados com o que a biomedicina mercantilista nos fez acreditar, apenas para nos vender remédios a rodo. A febre é um dos mais belos exemplos dos equívocos produzidos pela incompreensão dos processos adaptativos de que a espécie humana é capaz. Hahnemann, pai da homeopatia, cunhou uma frase que, pela radicalidade e significação, nunca mais saiu da minha cabeça: “A doença é a outra face da saúde”. Eu costumo sempre dizer que “a doença é o estado alterado do bem estar”. Ficamos “doentes”, alterados, para preservar nossa “saúde”, equilíbrio.
Nadine espichou o olho para mim, em uma atitude conhecida. Queria ver minha reação às palavras de Max, cuja euforia e paixão pareciam transbordar em cada palavra que pronunciava. Este, sem se deixar interromper pela nossa troca de olhares, continuou seu discurso, mantendo seu olhar fixado em Nadine.
— A hipertermia é uma máquina fantástica de modificações orgânicas. A febre aumenta a velocidade dos macrófagos, que são as células de defesa da linhagem branca, aumenta a diapedese, ou seja, a capacidade dos glóbulos brancos de romper a parede dos vasos e atacar os microrganismos na intimidade dos tecidos. Além disso, aumenta a capacidade fagocitária dos leucócitos, que é a habilidade de “comer” bactérias e vírus. Aumenta o metabolismo intensamente para cada grau acima de 37, incrementando a capacidade de defesa pela mobilização do organismo. A febre nos “põe para baixo” produzindo fadiga, cansaço e debilidade, o que é um fenômeno adaptativo dos mais sábios, porque nesses momentos o indivíduo necessita de repouso e resguardo. Se a febre não produzisse isso, quem se protegeria? A temperatura corporal elevada também é importante na destruição de bactérias e vírus e, além disso, sinaliza aos outros animais humanos a presença de uma doença infecto-contagiosa, o que nos auxilia a preservar os que ainda estão sãos. Qual grávida não recebe orientações, pelo menos no início da gravidez, de não segurar no colo uma criança febril?
— Muito mais há a falar sobre as maravilhas da febre, mas seria enfadonho, tamanhas são as suas vantagens para o processo de recuperação da homeostase. Atentem, meus colegas, apenas para esta observação: quanto maior a febre, maior a capacidade de adaptação presente e maior a energia do indivíduo. É por essa razão que principalmente crianças pequenas fazem febres altas, e o uso da expressão “fazem” é proposital, porque somos ativos em relação a ela, porque a sua energia vital é muito forte e poderosa.
A tudo eu ouvia em silêncio. Maximilian dominava a todos com sua emoção e seu conhecimento. Era todo paixão e veemência. Nadine, mesmo quando discordava, pedia para que Max lhe desse a sua opinião, porque ninguém escutava Max sem se contaminar pelo seu entusiasmo. Quando falava, agitava os braços, fazia mímicas, representava, modificava a voz para se adaptar ao personagem que imitava. Eu sempre fui seu fã número um. Pensava que Max era uma daquelas pessoas absolutamente indispensáveis em qualquer ramo do conhecimento, porque unia em um só indivíduo a paixão, o saber e o conhecimento apurado. Tinha energia para combater um sistema em que não acreditava, mas ao mesmo tempo era pródigo em apresentar as comprovações científicas do que afirmava. Acreditava no conhecimento como elemento de libertação e tinha a medicina como meio de levar consolo diante das agruras de uma vida breve e sofrida, sem com isso considerar-se um emissário divino infenso aos erros e dúvidas. Resolvi romper meu silêncio e ilustrar a descrição que Max nos oferecia.
— Eu tenho uma história interessante sobre febres, e acredito que você gostará dela, Max. Acho que você, Nadine, deverá ter um pouco de paciência. Sei que não é o modelo com o qual você lida, mas escute com atenção, pois talvez isso possa ajudá-la a compreender melhor a minha forma de pensar o adoecimento. É uma breve história sobre as febres e seus significados ocultos.
* * *
Há alguns anos, eu morava ao lado da casa em que vivia um casal de russos: Baba, “mamãe”, e Deda, “papai”. Gostavam de ser chamados pelos seus apelidos familiares em russo, até mesmo pelos vizinhos. Ambos fugiram de Stalin, chegando ao nosso país com seus filhos pequenos após o término da segunda guerra, em 1949. Perderam muitos parentes vitimados pela fome e pelo frio, resultado da própria guerra na Rússia. Durante a fuga, seu segundo filho, de pouco mais de dois anos, pereceu de pneumonia durante uma evasão. Ambos tiveram uma vida sofrida e cheia de percalços, mas encontraram no Brasil um lugar tranquilo em que puderam criar seus três filhos. Deda era um veterinário de renome em seu país, e acabou se tornando um dos introdutores das técnicas de inseminação artificial de gado no Brasil.
Pois no meio de uma madrugada sou chamado por Baba para atender seu “Peter” — Deda. Disse-me que ele estava estranho, parado, com o rosto vermelho e “deprimido”. Ele já estava com mais de 80 anos, mas era um homem forte e vigoroso. Lá chegando encontrei Deda deitado na cama. Apresentava o rosto avermelhado e tinha a respiração alterada. Perguntei-lhe o que havia ocorrido e ele respondeu “Nada. Apenas estou com um pouco de falta de ar e me sentindo fraco”.
— Ten tosse? Vômito? Dor de barriga? — indaguei enquanto avaliava seu pulso
A essas perguntas me respondeu negativamente. Baba, por trás dele, fez um muxoxo. Olhou-me firmemente, preocupando-se em que o marido não percebesse seus sinais para mim. Fazia “não” com as mãos e apontava para o marido, fechando o punho contra o peito, como se estivesse a bombear algo. Entendi que ela estava me dizendo que a emergência do quadro em seu esposo tinha origens emocionais. Verifiquei a temperatura: 40 ºC. Febre alta, que em homeopatia consideramos os episódios febris acima de 39,5 ºC. Como pode um homem de 80 anos produzir tamanha temperatura? Lembrei-me das aulas do curso de homeopatia: “Fique calmo. Este homem está mobilizado”. Ele estava usando toda sua capacidade curativa para buscar a normalização do organismo. Era importante respeitar a forma específica como um indivíduo escolhe seu caminho.Pedi que sentasse para que eu escutasse seu coração e pulmões. O coração estava acelerado, mas isso era obra da febre. Nada mais de importante ou significativo na ausculta cardíaca. Os pulmões: consolidação em base de pulmão esquerdo. Crepitações finas. Diagnóstico: pneumonia em base pulmonar esquerda. Temperatura, ausculta pulmonar positiva. Nada mais havia a diagnosticar. Uma pneumonia clássica.
— O que tenho, Ricardino? — perguntou Deda com o seu indefectível sotaque russo.
E agora? Digo o que ele tem de supetão? Peço que vá a um hospital para exames, submetendo-o às rotinas escravizantes e coisificantes das emergências hospitalares? Se eu lhe disser o diagnóstico, não vou assustá-lo mais ainda? Por outro lado, posso omitir a verdade?
— Deda — perguntei eu. — Tenho mais algumas perguntas a lhe fazer. São importantes para que eu possa entender o que o levou a desenvolver esse quadro febril. Por que o senhor ficou assim? O que aconteceu?
Ele pareceu momentaneamente desconcertado. Não sabia o que dizer. Fez um cara de desentendido, mas foi interrompido por Baba.
— Deda, meu amor. Fale para o Ricardo. Conte do álbum de fotografias.
Seu rosto então se modificou. Ele agora estava sério, taciturno, e as sobrancelhas curvaram-se para baixo. Não era mais possível dissimular os conteúdos afetivos escondidos por detrás do sintoma.
— Fale Deda — insistiu Baba. — Conte ao doutor porque você ficou assim.
Ele começou então a explicar o porquê do seu estado.
— Eu estava limpando a biblioteca, Ricardino. Estava retirando a poeira de antigos livros de veterinária quando encontrei um velho álbum de fotografias da família. Ali estavam as fotos antigas dos meus tios, pais, irmãos e sobrinhos.
Começou a chorar. Posso imaginar o que a visualização de familiares que ficaram perdidos em um passado tão remoto, separados por guerras e oceanos, poderia produzir em um velho sobrevivente de tantas atrocidades.
— Continue Deda — disse eu.
— Pois, enquanto eu folheava as páginas do álbum, olhei para o relógio da biblioteca que mostrava ser hoje o dia 30. Pois foi exatamente em um dia 30 que o meu genro morreu em um estúpido acidente de automóvel. Ricardino, todas as pessoas do álbum estavam mortas, até o meu genro, que morreu ainda muito jovem.
Agora estava chorando copiosamente, abraçado pela sua companheira de lutas, alegrias e tristezas.
— E qual foi seu sentimento, Deda? O que você pensou vendo as pessoas que um dia amou naquele álbum, todas já tendo passado para a outra vida? O que sentiu?
Ele parou um pouco para pensar, mas depois me olhou no fundo dos olhos e disse:
— Medo, Ricardino. Muito medo. Muito medo, medo, medo.
Abraçou-se a Baba e continuou a chorar como criança. Esta me lançou um gesto de interrupção, dizendo que ele estava no seu limite. Deda era um homem sentimental, marcado pelas dores, traumatizado pelas tragédias. Olhou as imagens de morte e saudade estampadas no velho álbum e reconheceu que sua hora um dia chegaria. Pensou na própria morte e no fato de, talvez, deixar Baba sozinha, que por décadas o amparou e auxiliou. Temeu a morte porque percebeu que, por mais que a houvesse enganado nas fugas, no frio, na fome e no próprio pelotão de fuzilamento que um dia enfrentara, fatalmente ela ainda seria a vencedora. Dela não há escapatória, e as fotos antigas e amareladas de familiares que já se foram estavam a lhe mostrar a infalibilidade de seus desígnios. Era a peça que faltava ao interrogatório: a causalidade. A causa emocional profunda estava escondida. Poderíamos ter encerrado o encontro médico nas trivialidades do diagnóstico somático, mas preferimos, tal qual escafandristas, perscrutar as profundezas escuras das motivações inconscientes. Nada mais complexo, porém nada mais revelador. O medo de atingir tais profundidades é que nos faz admitir uma medicina tão superficial como a que lidamos na contemporaneidade. A questão é que, de forma espelhar, adentrar a intimidade de um paciente nos faz enfrentar nossas próprias falibilidades e limitações. Quem quer bancar o mergulhador de inconsciências em um mundo de rasas e ilusórias aparências?
Nossa medicina faz tal qual a história do homem que perdeu sua chave. Procurando insistentemente por ela, acaba esbarrando em um amigo, que se oferece para ajudá-lo. Passada mais uma hora de procura inútil, o desesperançado amigo lhe pergunta: “Tem certeza de que perdeu a chave aqui, embaixo do poste de luz?”. O dono da chave então responde: “Não, eu não perdi minha chave aqui! Perdi lá embaixo na rua, mas lá está tão escuro que resolvi procurar cá em cima, onde está mais claro”.
Fazemos com os sintomas emocionais e psicológicos dos nossos pacientes o mesmo que o protagonista da historieta faz com o breu que esconde sua chave. Fugimos da escuridão das incertezas e das dores profundamente escondidas, porque elas nos amedrontam e afugentam. Preferimos a claridade ilusória de exames laboratoriais e sinais clínicos manifestos aos sentidos. Mesmo sabendo da importância dessas características somáticas na elucidação dos mistérios diagnósticos, é certo que elas representam apenas a ponta do iceberg que constitui o sofrimento construído pelos pacientes. A humildade de encarar um universo recôndito dentro de cada ser que sofre é a principal ferramenta para se encontrar uma forma mais completa e abrangente de auxílio. Somente munindo-se da coragem fundamental para encarar a escuridão dos nossos sentimentos é que poderemos, também, ajudar a quem nos solicita assistência e conforto.
Estava feito o diagnóstico, e o tema essencial do quadro era o medo. Crise de medo, febre alta, pele quente e seca, consolidação pulmonar em base esquerda, sede, aparecimento abrupto da sintomatologia. Um remédio brotava, dentre muitos que eram sugeridos: Aconitum napellus. Falei com Baba e perguntei se devia lhe dizer exatamente o que tinha. Ela respondeu que, se fosse possível, seria preferível omitir a expressão “pneumonia”, para não deixá-lo ainda mais atemorizado. Concordei com a ideia, mas expliquei que lhe diria exatamente o que tinha, procurando não amedrontá-lo mais ainda com essa palavra.
— Deda — disse eu de forma pausada. — Há uma infecção na base do seu pulmão esquerdo. Você está com febre alta, mas não há justificativa para diminuí-la. Ela está cumprindo uma função importante no seu sistema de adaptação e defesa. Prefiro que ela se mantenha como está, ok? Estou lhe receitando um medicamento homeopático que o senhor vai tomar de duas em duas horas. A febre ainda vai continuar mais um pouco, mas quero que o senhor comece agora a medicação, por isso eu lhe deixo os glóbulos que trouxe na minha botica. Combinado?
Ele concordou. Mexeu com a cabeça afirmativamente sem dizer palavra alguma. Ainda estava afetado pelas emoções. Baba passava a mão em sua alva cabeça, e lhe dizia palavras carinhosas em russo. Levantei-me e, quando estava para sair, ele ainda me disse:
— Ricardino, eu vou ficar bom dessa pneumonia, não é?
Tive que rir. Não adiantaram os meus truques. O velho veterinário não ia se deixar enganar dessa forma. Era idoso, mas estava longe de ser bobo.
— Não, Deda — disse eu sem conter o sorriso. — Não é dessa vez que vão levá-lo.
Voltei à sua casa naquela mesma manhã. Encontrei Deda ainda abatido, mas sentado na mesa da cozinha e tomando café. Escutei seu pulmão e parecia estar a mesma coisa, mas o ânimo havia voltado parcialmente e a febre não havia mais se manifestado.
— Como está? — perguntei.
— Muito melhor — disse ele sorrindo.
No outro dia, o pulmão estava limpo, pouco mais de 24 horas depois. Nem um sinal de secreção ou ruídos estranhos. A febre acabara, porque já havia cumprido seu destino, pensei eu. Mesmo estando ainda fraco, estava lúcido, ativo, alegre e sem sintomas preocupantes. Ok, Deda, pensei eu. Você a enganou mais uma vez. Baba me lançou um sorriso de gratidão e Deda me deu um abraço à moda russa, com bastante força e fortes batidas nas costas.
* * *
Nadine manteve-se séria durante a minha breve história, mas percebi que, mesmo com algumas discordâncias, ela acreditava na possibilidade de que o psiquismo dos pacientes tivesse influência decisiva no aparecimento de sintomatologia, mesmo que complexa e de difícil interpretação. Nadine aos poucos começava a lidar com a questão da “psicossomática”, termo que Max deplorava — porque dividia “psique” e “soma”, que para ele eram indissociáveis — mas que para mim soava como o reconhecimento da mútua influência entre os aspectos psicológicos e fisiológicos manifestos pela energia vital em um determinado indivíduo.
Max acompanhou a história de longe, até porque já a conhecia, mas me lançou um sorriso assim que ela terminou.
A linda loura aproximou-se lentamente de mim com aquele andar mágico, tipo flutuante, que faz a gente duvidar que seus pés estejam realmente tocando o solo. Ela me lembrava a bela Galadriel de Lothlorien, pelo sorriso enigmático e pelos cabelos louros a lhe cair nos ombros nus. Seu corpo estava coberto apenas com um fino véu alvo e transparente, e trazia brilhando no peito um camafeu dourado. Olhou fundo nos meus olhos e disparou:
— Você pode descobrir. Basta dizer a palavra mágica.
Palavra mágica? Que palavra mágica será essa?, pensei eu. E isso lá é hora de perguntar essas coisas? Shazam? Abracadabra? Hocus Pocus? Não… não direi nenhuma dessas. Muito óbvio. Talvez algo mais sutil.
Enquanto minha mente se torturava tentando entender a charada, escutei uma música que surgia de algum lugar distante. Assemelhava-se a uma melodia árabe. Tentei me fixar nessa sonoridade, enquanto a odalisca misteriosa me lançava mais um sorriso enigmático, cheio de perguntas. Enquanto eu pensava, ela aguardava sorridente pela palavra mágica, que “abriria todas as portas”. Mas que palavra seria? E que música era essa, que fica cada vez mais estridente? A linda loura se aproximou ainda mais, quase a ponto de me tocar, e começou a dançar ao som da música. Após alguns segundos, sua imagem foi se esvaecendo e ficando distante. Apertei meus olhos insistentemente para fixar sua silhueta, mas pareceu não funcionar. Desisti e abri os olhos finalmente. Eles ficam paralisados em um ponto qualquer, perdidos no infinito cósmico (como me ensinara o astronauta Roger). Uma névoa encobriu minha visão, e a imagem da misteriosa mulher, de tão tênue, restou apenas na lembrança. Continuei a escutar a música das arábias, agora insuportavelmente forte. A bruma aos poucos se dissipou e as imagens voltaram lentamente a se formar na retina. Não sem esforço consegui vislumbrar uma frágil luz verde piscando ao meu lado.
Era o meu celular.
Olhei em volta e tudo estava escuro. A dama de branco se foi, mas o som das arábias não cessava de tocar. Estendi meu braço para alcançar a luz piscante e vi minha mão ficar azul, mas talvez meus sentidos ainda estivessem entorpecidos pelo sono. Está muito, muito frio. Atendi o celular e, como por mágica, o som das mil e uma noites desapareceu. Vi no relógio, que dormia ao lado da cama, a hora do chamado: 5 da manhã. Era Cristina.
— Ric, estava dormindo?
Tive ganas de responder alguma coisa “engraçadinha”, mas apenas confirmei.
— Estou na casa da Márcia. Cheguei aqui às 3 horas, e agora as contrações dela estão muito fortes e frequentes. Acho que você e a Zeza podem vir.
Nossa equipe normalmente trabalha assim. Cristina é uma “batedora”. Chega na frente e começa a preparar a paciente com exercícios, cromoterapia e Yoga. Quando ela percebe que as contrações estão vigorosas, ela me chama. Olhei para o lado e Zeza já estava acordada.
— A dama de branco ligou. Disse que é para a gente ir para a casa da Márcia porque as contrações estão bem fortes e frequentes.
— “Dama de branco”? Quem é essa? Achei que a Cris tinha ligado.
Ooops. Confundi.
— Zeza, levante-se de uma vez — disse eu me livrando das cobertas. — Não me faça tantas perguntas de manhã porque meu cérebro ainda está tentando aquecer. Acho que meus neurônios são muito lentos para dar o “arranque”.
Estava muito frio mesmo. Hoje foi o dia mais frio do ano, mas provavelmente o dia mais frio dos últimos anos. Parecia estar abaixo de zero. O material para o parto estava todo preparado na porta de casa, bastando colocar no carro. Tubo de oxigênio, seringas, ambu, laringoscópio, gazes, compressas, tesouras, soro fisiológico, inúmeras luvas descartáveis, tudo empacotado e pronto para usar. Porto Alegre não tem lugares muito distantes, como São Paulo ou mesmo o Rio de Janeiro. Minha paciente mora em um bairro que fica uns 15 minutos de carro da minha casa. Botei o nariz para fora de casa e confirmei: estava mesmo muito frio. Fomos recebidos pelo marido de Márcia, o Adriano. Ainda tenho tempo para uma gracinha:
— Tinha que ser no dia mais frio desse século?
Ele apenas sorriu e disse que a culpa não era dele. Entrando na casa, encontramos a mãe de Márcia, mãe de muitos filhos, quase todos nascidos em casa. Tem tranquilidade e sabedoria. Gostei de falar com ela, porque me transmitiu aquela ideia de parto como algo da mulher, em que não se justificam tantas intervenções. Subimos ao andar de cima e lá estavam Cristina, Márcia e uma dupla de gatos. Escutei as músicas tradicionais celtas que normalmente a Cris leva para os partos e senti o clima, o aroma e a aura que cercam um trabalho de parto. Estava tudo na penumbra, tudo muito silencioso. Ao meu lado, um aquecedor, que permitia que continuássemos vivos naquela gélida madrugada. O sol ainda nem aparecera, mas aos poucos os passarinhos começavam seu trabalho matinal.
— Parece que teremos trabalho por hoje, não é?
Marcinha me sorriu um sorriso de parturiente. Acho que foi Debra Pascali-Bonaro quem me falou do “labor smile”, que é o sorriso das mulheres em trabalho de parto; é um sorriso meio desligado, meio fora do lugar. Sei que ela quis ser simpática. Esperei um pouco para fazer uma avaliação do colo. Queria que ela se acostumasse à minha presença. Já é um choque a chegada de pessoas novas na casa, e ser examinada pode desencadear um estresse desnecessário e improdutivo. A parteira americana Ina May Gaskin, no seu livro Ina May’s Guide to Birth, relata a importância de respeitar a intimidade da paciente nesse momento tão sensível. Fala inclusive de trabalhos de parto avançados que foram descontinuados por dias, interrompidos pela chegada abrupta de um médico afoito. Essa entrada intempestiva de um profissional no cenário do nascimento pode ter efeitos tremendamente nocivos para o resultado de todo o processo. Todo o respeito e o cuidado com a delicadeza do momento são fundamentais.
Por volta das sete horas da manhã, fiz o primeiro exame. Seis centímetros, colo fino, e a cabeça fetal muito, muito alta. Disse a todos que a dilatação estava boa, mas que ainda teríamos um grande trabalho pela frente ainda. Resolvi fazer um tour pela casa. Na prateleira de livros estava Parto Ativo, de Janete Balaskas. Ao lado, uma série de livros espíritas que conheço desde pequeno da estante do meu pai. Chico Xavier, Emmanuel, André Luis, etc… Os gatos sorrateira e manhosamente desfilavam na minha frente, disputando cadeiras e espaços na escada. Tomei cuidado para não atropelá-los enquanto caminhava de um lado para outro — vício incurável — tentando me aquecer agarrado a uma xícara de chá.
O tempo ia passando enquanto as meninas continuam seu trabalho com Márcia. Por volta das 10 horas da manhã, realizei outro exame. Procurei não demonstrar minha frustração, mas a dilatação pouco progrediu nesse período, e a cabeça continuava na mesma posição. Orientei as meninas a ajudar Márcia em um banho quente, para relaxar. Precisávamos ter paciência. O estômago constrangedoramente roncou, e percebi que o chá com bolachinhas foi a única coisa comemos desde a chegada. Já eram 13 horas e resolvi fazer mais um exame. Novamente tentei disfarçar a frustração. A dilatação aumentou muito pouco nas últimas horas, mas a posição do bebê estava inalterada. A dinâmica estava fraca: duas contrações em dez minutos. Fui obrigado a aceitar que este bebê está em OET.
Occípito Esquerda Transverso. O bebê estava com a cabeça atravessada na bacia. Ele ainda não conseguira fazer o giro para se adaptar ao estreito inferior da pelve. Parecia estar batendo nas espinhas isquiáticas e, por essa razão, não conseguia descer na bacia, apesar de estar com sete centímetros de dilatação. Era hora de fazer alguma coisa. Sei que tranquilidade e relaxamento são essenciais, mas ponderei que uma ajuda mecânica também seria de auxílio. Marcinha estava muito bem. As contrações não eram dolorosas a ponto de fazer com que ela desanimasse. Ela se encontrava bem preparada psicologicamente. Adriano lhe ofereceu todo o apoio, sempre trazendo uma palavra de estímulo e conforto.
Pensei nas dicas que recebi de parteiras e doulas experientes e resolvi experimentar. Lembro de Penny Simkin, Jean Sutton e Debra Pascali-Bonaro e decidi utilizar uma técnica por elas preconizada para a liberação de espaço na ossatura pélvica. Solicitei que Zeza e Cristina realizassem a pressão pélvica na crista ilíaca, que consiste em colocar as mãos de cada lado da bacia da paciente e fazer força em direções opostas, tentando liberar um pouco mais de espaço entre as espinhas isquiáticas. O bebê se mantinha maravilhosamente bem, antes, durante e após cada contração, o que produzia sobre todos um efeito tranquilizante e motivador. Às três horas da tarde, realizei novo exame. Bebê alto, dilatação de oito centímetros. Que fazer? Olhei para Márcia com um sorriso amarelado e pensei que a maioria dos meus colegas obstetras já teria desistido. Márcia apenas sorriu. Adriano ao seu lado me olhava esperando alguma notícia.
— O bebê pouco se moveu, mas dilatou um pouquinho. Podemos continuar tentando. Como você está Márcia? Está bem?
Ela apenas me dirigiu um sorriso tímido. Sentia-se bem. Ainda mantinha o bom humor. Talvez a idade de Márcia, 35 anos, tenha sido uma vantagem. É o seu primeiro filho, mas ela exibe uma maturidade e uma segurança que talvez só a idade possa produzir. Continuamos a estimular os exercícios. Eu me distraio batendo fotos e lendo A Expropriação da Saúde, de Ivan Illich. Fico impressionado com o que ele escreve, e penso que a assistência à saúde está mesmo passando por uma crise sem precedentes. Ivan consegue ser mais cáustico com o modelo tecnocrático contemporâneo aplicado à medicina do que o próprio Maximilian. Sobre os perigos da tecnologia aplicada ao parto, sem a criação concomitante de uma reflexão profunda sobre suas consequências, ele escreveu:
“O silêncio sobre a probabilidade do perigo no excessivo uso de medicamentos na nossa sociedade, mantido pelas ‘oficinas de lanternagem humana’ (a medicina), é a nova manifestação pública da incapacidade da profissão médica de fazer uma profunda autocrítica, o que só pode trazer consequência sinistras para a sociedade”.
Acabamos pedindo uma pizza para almoçar, e ficamos todos admirados com o motoqueiro que a trouxe. Como andar de motocicleta com um frio desses? Às seis da tarde, as contrações continuavam firmes, assim como a têmpera de Márcia. Zeza a auxiliava durante as contrações, enquanto Cristina tirava uma soneca. Decidi secretamente que esse toque das seis horas seria determinante. Ou este bebê baixava ou iríamos para o hospital. As contrações continuavam pouco intensas, apesar do gengibre e da canela. Meus dedos suavemente procuravam boas notícias, mas o que encontrei foram apenas velhas informações. O colo estava com oito centímetros de dilatação, o bebê só um pouco mais baixo, e a posição agora era OEA – Occípito Esquerda Anterior. Já não estava transverso, mas mantinha-se alto. Ainda não havia transposto a linha imaginária que liga as espinhas isquiáticas. Precisava lhes dizer isso, apesar de não querer.
— Adriano e Márcia. Acho melhor irmos para o hospital. O bebê se moveu muito pouco. Continua alto. As contrações não estão efetivas. É provável que eu precise usar um pouco de soro para estimulá-las. O que vocês acham disso?
Márcia baixou o olhar. Sei que uma parte dos seus sonhos ficou frustrada. Também sei que ela sonhava com um parto na sua casa nova. Adriano olhou para a esposa, como a dizer: “A decisão é sua”. Ela concordou. Fizemos as malas com presteza e colocamos os equipamentos no carro. Mesmo tendo errado o caminho, chegamos ao hospital em menos de 15 minutos. Márcia teve poucas contrações no carro, o que fortalecia a minha ideia de que ela precisava de “motor”, força propulsiva. Chegando ao hospital, Márcia pediu que apenas instalassem o soro com ocitocina quando Adriano tivesse retornado da sua epopeia burocrática nosocomial. Estava tensa, contraída, e eu lhe esclareci que a viagem tinha esse efeito. Precisávamos agora nos adaptar ao novo ambiente, criar um vínculo de confiança com o lugar. Perder o medo e se entregar.
Pela primeira vez, vi Márcia contrariada. Sentia dor, desconforto. Percebi que o hospital estava agindo. Sua dor era a expressão do sofrimento frente à necessária readaptação ao meio ambiente. Márcia por momentos fraquejou. Seu rosto contraído mostrava a tensão que o momento determinava. Está no Gênesis 13, versículo 32: “Sangrarás todos os meses e parirás com dor“. Este foi o preço que pagamos por termos desobedecido ao criador: Eva pecou por ter fugindo do paraíso da irracionalidade. Escapamos de um Éden perfeito, para o inferno de nossas inexatidões. A metáfora bíblica, no entanto, é maravilhosa. Para alcançar a fruta do conhecimento, foi necessário erguer o tronco e ficar de pé, desafiando, assim, a onipotência do Todo-Poderoso. Ao criarmos o “olho que a si mesmo enxerga”, arrogantemente dissemos a Deus que queríamos caminhar (literalmente) com nossos próprios pés. A bipedalidade está na origem de nossa supremacia enquanto espécie, mas igualmente nos trouxe a dor de parir.
Os grandes macacos pongídeos não sofrem as dores de parto na mesma proporção com que as fêmeas da nossa espécie as sofrem, pois tem crânios fetais muito menores, relativamente à sua pelve. Entretanto, o parto é um desafio físico para a maioria dos primatas. Em geral, os gorilas, orangotangos, gibões e chimpanzés têm partos mais rápidos e simples, enquanto babuínos, saguis e macacos, entre outros, apresentam partos mais dificultosos, nos quais a desproporção céfalo-pélvica não é um fator insignificante de mortalidade. O acréscimo importante de massa encefálica no gênero homo, ocorrida nos últimos dois milhões de anos, acrescido da bipedalidade anteriormente citada (datando por volta de cinco milhões de anos passados), conferiu à nossa espécie o mais peculiar dos nascimentos. A ação conjunta de uma pelve mais achatada e constrita, aliada à cabeça grande de nossos filhotes, produziu um parto muito mais lento, laborioso e doloroso. Um dos resultados da evolução do bipedalismo é que o canal de parto é torcido na sua porção média, fazendo com que a entrada seja mais larga no sentido transversal, e a saída, no longitudinal, obrigando o feto a girar, ainda dentro do canal de parto. A característica tensão do colo uterino também é uma marca da verticalidade, pois ele necessita ser reforçado para suportar a força da gravidade durante a gestação e não produzir perdas precoces.
O resultado final dessa aventura adaptativa foi a produção de uma experiência de nascimento muito mais dramática e complexa do que a das outras espécies mamíferas do planeta. O parto humano é mais doloroso e difícil que os demais, por termos nos “erguido para comer a fruta do conhecimento”, e posteriormente, bem alimentados por ela, termos triplicado nosso volume encefálico em relação aos nossos antepassados australopitecos.
Erguer-se e conhecer: os dois grandes desafios iniciais. Com essa característica de uma pelve estreita em uma cabeça cada vez maior, criou-se a necessidade de expulsar esses fetos o quanto antes do claustro materno, porque apenas aqueles que nascessem antes permitiriam que suas mães sobrevivessem, aumentando dessa maneira sua chance de viver e levar adiante seus genes. Certamente durante a longa jornada adaptativa da espécie humana, não foram poucos os óbitos por desproporção céfalo-pélvica. Nosso processo de experimentação acaba sempre produzindo vítimas, mas essas servem de lição e aprendizagem para a melhoria da espécie. A expulsão o mais precoce e prematura possível de nossos filhos, na oportunidade em que tenham atingido capacidades mínimas de sobrevivência no meio extrauterino, terminou por produzir o fenômeno da “fetação”. Nossos bebês hoje em dia são todos “prematuros”, pelo menos do ponto de vista do amadurecimento neurossensorial. Uma gravidez humana deveria durar por volta de dezoito meses, nove meses a mais do que se observa, pois com essa idade de vida é que um recém-nascido humano tem capacidades semelhantes às de um primata recém-nascido, como os chimpanzés ou gorilas, como nos relata Wenda Trevathan, em Human Birth. O resultado da expulsão fetal precoce é a “altricialidade”, ou seja, a extrema dependência do recém-nascido dos cuidados parentais. Essa peculiaridade de nossa espécie é a origem antropológica e biológica do amor materno, e também da nossa estratégia de constituir famílias, em vez de investir na promiscuidade como alternativa primeira para disseminar nossos genes.
Erguer-se, conhecer, cuidar, agrupar-se. Essas características foram fundamentais para a nossa sobrevivência. O surgimento da racionalidade foi o ponto culminante e definitivo para a nossa supremacia sobre as outras formas vivas do planeta. O parto humano é uma maravilha da adaptação: uma obra de milênios, em que todos nós, por estarmos aqui, somos testemunhas de seu sucesso. Pela sua característica de milenar adaptação, o nascimento humano não pode ser melhorado por obra da tecnologia, e todas as tentativas de artificializá-lo resultaram em fracasso. Resta-nos agora sobreviver ao desafio imposto pelo perigoso incremento desmedido da tecnologia na vida cotidiana. Estará a espécie humana, como querem nos fazer acreditar os filósofos mais pessimistas (como Jean Baudrillard, entre outros), fadada à desaparição, dando lugar a outra espécie mais adaptada, como as máquinas?
Entre as características mais estudadas do parto está a sensibilidade dolorosa, até porque a ablação dessas sensações está entre as possibilidades em que o saber médico pode atuar com mais intensidade. A dor do parto não pode ser negada nem menosprezada. Mas a pergunta frequentemente negligenciada é: “de qual dor estamos falando?” A “dor fisiológica” do parto, causada pela contração uterina, dilatação do colo, etc, é um fato inquestionável para a imensa maioria das mulheres, apesar de algumas poucas, como Madalena, relatarem a completa ausência de dor. Entretanto, essa experiência dolorosa é contrabalançada pelo acréscimo fantástico de endorfinas na circulação, em um incremento de até 30 vezes os valores séricos normais, o que auxilia a parturiente a suportar as dificuldades do processo. Além disso, os suportes emocional, afetivo, social e espiritual oferecem sentido a essa dor, pois, como já afirmavam os Terapeutas de Alexandria, “a única dor insuportável é a que não é interpretada”. Interpretar um sofrimento é conferir-lhe sentido, direção e propósito. Uma mulher, de qualquer latitude, cultura ou época, que consegue entender o sentido superior de suas agruras e dores, vai acabar por superá-las, mesmo que para isso tenha que enfrentar face a face suas próprias limitações. Por outro lado, uma sociedade individualista e hedonista, em que o sofrimento parece não ter nenhuma razão ou objetivo, dificilmente poderá convencer uma mulher da importância da luta e da superação, mesmo ao vivenciar seu principal rito de passagem.
Falamos, então, de uma dor fisiológica associada a um processo que desafia nossos limites ou de uma percepção patologizante de um fenômeno natural, que se torna mais doloroso tanto mais relegamos ao esquecimento suas dimensões afetivas, sociais e espirituais? Afinal. De que parto estamos tratando? Falamos de um parto como se apresenta realmente, milenarmente construído como evento social, feminino e afetivo? Ou estamos tratando do parto tecnocrático-biomédico-ocidental-contemporâneo de nossos hospitais e clínicas atuais, que é um dos mais contundentes exemplos de simulação da realidade, como tantos outros que encontramos na vida cotidiana? Não estaríamos falando de uma dor criada pelo modelo médico contemporâneo em função do distanciamento dos valores afetivos, sociais, emocionais e espirituais ligados ao poderoso rito de passagem que é o parto, como bem cita Wenda Trevathan em seu livro Evolutionary Medicine? O parto é um momento mágico, glorificado e temido por todas as culturas, por conjugar em um só evento os mitos mais temidos pela sociedade: sexualidade, nascimento e morte, como afirmava Holly Richards no seu artigo Manifestação culturais do nascimento: a perpetuação do medo. Mas as origens dessas particularidades se perdem na poeira dos tempos. Para entender melhor essa estrada, há que se conhecer de onde viemos e porque somos assim. Divina e maravilhosamente diferentes.
Faço outra determinação em secreto silêncio. Decido que esse exame das 21 horas seria novamente categórico. Nada falo para Cristina ou Zeza, porque não quero que ninguém se influencie pela expectativa. Fico apenas eu sabendo do que estarei decidindo. Na última avaliação, o bebê estava com uma bossa serossanguínea no couro cabeludo, sinal de que estava há algum tempo fazendo pressão para passar pelo canal de parto. A bolsa havia se rompido durante o exame das 13 horas, e o líquido era claro com vérnix, que é aquela cera brancacenta, parecida com hidratante para mãos, que se compõe de gordura e células descamadas da pele do bebê. Isso não se modificou durante o dia, mas minha preocupação era de que já seriam 15 horas de trabalho de parto, e eu temia que Márcia estivesse esgotada demais, e que esse bebê fosse um caso verdadeiro de desproporção ou de mau posicionamento. A vida de um obstetra é sempre cheia de decisões a tomar, angústias, escolhas e tensão. Continuo lendo Ivan Illich, esperando o tempo passar. É ele quem me assusta a cada linha, ao mesmo tempo em que me reconheço na sua fala.
“A aventura médica causa outros danos, na ordem social desta vez. A saúde do indivíduo sofre pelo fato da medicalização produzir uma sociedade mórbida. A iatrogênese social é o efeito social não desejado e danoso do impacto da medicina sobre a sociedade, mais do que sua ação técnica direta.”
Fico feliz que alguém de fora do Brasil diga algo que Max me diz há tantos anos, mas, sendo ele “nativo”, ninguém lhe dá crédito. A extremada medicalização da sociedade é, como afirma Ivan Illich, a “máscara sanitária de uma sociedade mórbida”.
Agora são 21 horas. Tenho que fazer o tal exame. Olho para Márcia, que estava agachada enquanto Cris e Zeza continuam a fazer uma forte pressão nas suas cristas ilíacas, procurando com isso oferecer espaço para que o bebê possa rotar e ajeitar sua cabeça na “pequena pelve”. Giro minha cabeça para o lado esquerdo e fecho os olhos. Imagino o bebê fazendo esse mesmo movimento. Mentalizo o pequenino dentro do ventre materno rodeado de uma luz azul-lilás, movendo-se da mesma forma que eu. A imagem daqueles robôs de Hollywood, que fazem a mesma coisa que um humano realiza ligado a ele por fios, me vem à cabeça. Chego a visualizar feixes de luz nos conectando. Ok… vamos lá. Uma bossa bem volumosa. Um colo uterino edemaciado. Maus sinais. Entretanto, a cabeça do bebê desceu! Está abaixo das espinhas, e está em OP (Occípito Púbica). O bebe posicionou-se com a nuca voltada para os ossos púbicos da mãe, que é a posição mais adequada para a descida. Vejo que ele “obedeceu” minhas determinações e foi sensível aos exercícios que as meninas fizeram. Ele estava mais baixo! Seus sinais vitais continuavam maravilhosos, e o ânimo de Márcia se reascendeu quando eu disse que ele havia virado e estava bem posicionado. Olho para Cristina e solto um suspiro de alívio. Vai passar, pensei eu. Ela vai conseguir, sim, senhor!
Voltei a ter esperanças. Por alguns instantes, vislumbrei a presença de V. ao meu lado. Ao contrário de outras ocasiões, em que eu a via serena e séria, ela se apresentava sorridente, alegre e jovial, como quando a conheci. Estava vestindo uma roupa verde, parecida com as vestimentas de hospital. Pedi que ela desse uma ajuda especial naquele momento porque, mais do que qualquer outra coisa, era necessário ter paciência, além de tranquilidade e confiança. Ela nada disse, apenas sorriu, e no instante seguinte já não estava mais ali. Vou até a porta do centro obstétrico e aviso Mirtes, a irmã de Márcia, de que vamos continuar apostando no parto normal, mas que isso ainda pode demorar. Ela fica aliviada, aperta minha mão com força e diz que liga mais tarde. Volto a “conversar” com Ivan, esperando que as coisas continuem melhorando para a minha paciente. Diz ele:
“Desde que as mulheres do século XIX resolvem se afirmar, formou-se um corpo de ginecologistas: a própria feminilidade transformou-se em sintoma de uma necessidade médica tratada por universitários evidentemente do sexo masculino. Estar grávida, parir, aleitar são outras tantas condições medicalizáveis, como o são a menopausa ou a presença de um útero, até a idade em que o especialista decide que ele é demais”.
Maximilian sempre me alertara para isso, mesmo que Nadine ficasse brava considerando suas ilações exageradas ou paranoicas. Há anos que ele me provocava com essa questão: “Quais as duas cirurgias mais realizadas nos Estados Unidos? Pois não se surpreenda: a primeira é a cesariana, e a segunda, a histerectomia. Não é interessante, ou pelo menos intrigante, que as duas cirurgias mais realizadas na pátria da infotecnocracia são sobre o mesmo órgão e sobre o mesmo gênero? E as duas recaem sobre a sexualidade feminina, com caráter amputador”?
Ivan e Max sabiam das coisas, mas para mim restava uma pergunta dolorosa: “O que estava eu fazendo ali? Qual a minha função? Qual a minha parcela de contribuição na alienação que a medicina é capaz de produzir? Por outro lado, como seria possível para um médico impulsionar seus pacientes verdadeiramente para o crescimento pessoal e para a libertação?”
Márcia incrementou seus esforços, e percebi que ela estava mais confiante. Durante uma contração, escutei um som grave, vindo do fundo de uma força expulsiva. Cristina imediatamente voltou-se para mim, esperando no meu olhar uma confirmação. Já passavam das 23 horas, e não queria ser confiante demais. Resolvi que valia a pena fazer um novo exame e investigar a posição do bebê no canal de parto. Estava bem mais baixo, na posição +2 de De Lee. Uma grande bossa estava a cobrir a calota craniana do pequenino, mas inegavelmente tínhamos progredido. A dilatação não estava completa, porque um rebordo edemaciado de colo se colocava à frente do occipício. Resolvi então reduzir este colo inchado e colocá-lo para trás da nuca do bebê. Sei que isso pode causar alguma dor, mas estávamos muito próximos de conseguir algo para desistir devido a um rebordo renitente. Pedi a Márcia que empurrasse durante a contração, e assim ela procedeu. Ploc! Lá se foi o ultimo resquício de colo. Agora não havia nada entre o bebê de Márcia e o mundo gelado que o aguardava. Foi nesse instante que eu notei o pé de Zeza.
Ela estava usando uma botinha de couro forrado, que parecia um sapatinho de esquimó. Era muito bonitinho, e é o sapato de estimação que ela usa nos partos em dias frios. Mas percebi que, na ponta do sapato, havia um pequeno furinho, uma parte de couro desfiado. Olhei pra Zeza e disse:
— Zeza, que vexame! Olha só seu sapato. Está furado!
Zeza olhou para baixo, sorriu graciosamente e deu de ombros.
— Prefiro uma mendiga quentinha a uma grã-fina gelada — disse ela.
Sem conseguir conter o riso, Cristina se aproximou e mostrou o que estava usando nos pés. Era uma bota de couro de cano curto, forrada de pelego, para ser usada nos dias úmidos e de frio cortante. O detalhe que chamava a atenção é que exatamente na proeminência do dedão havia um furo. Um pequeno furo, mas que mostrava um inquieto dedo coberto pela meia. Quando as duas se deram conta de que estavam com o sapato furado, desabaram em risadas, a ponto de ser necessário pedir que saíssem da sala para que não desviassem a concentração da paciente.
Minhas companheiras de equipe, ambas de sapato furado.
Foi então que Márcia teve uma contração mais forte do que as outras. Eu me aproximei e constatei que, vencidas todas as dificuldades, seu bebê estava próximo da saída. Respirei aliviado. Finalmente! Os cabelos escuros começavam a aparecer no introito vaginal. Chamei Zeza e Cristina para perto, e pedi a Zeza que assumisse a posição para segurar a criança que estava chegando. Estávamos nos aproximando da meia-noite. O dia seguinte seria o dia da data provável do parto. Márcia sorria e dizia para a barriga que aquilo que o Dr. Ric havia dito era apenas uma projeção, e que ele não precisava nascer exatamente no dia “estabelecido” pelo médico. O pediatra na sala auxiliava com seu bom humor a manter um clima de expectativa positiva. As últimas contrações foram fortes, e a progressão, lenta. O avanço era insidioso, pausado, mas a cada contração percebia-se que a posição do bebê havia se modificado um pouquinho.
— Faltam 10 minutos para a meia-noite — disse eu. Será que eu estava mesmo com a razão?
Márcia faz uma força espetacular. Reúne em seus braços e no abdômen a energia fantástica das fêmeas. Grita, geme. Contrai o rosto pela última vez.
Nasceu. Faltando cinco minutos para a troca do dia, ele veio ao mundo. Envolto em líquido amniótico e vérnix, nasceu Marcus Filipe, com 2710 gramas, apgar 9 e 10. A cabeça pontuda denuncia o tempo e a dificuldade para nascer, mas nasce ativo, esperto e logo abre os olhos. Dezoito horas depois de termos chegado à casa de Márcia e Adriano, conseguimos realizar o sonho esperado de um parto normal. Praticamente não houve lacerações, mas foi dado um ponto apenas na parede vaginal anterior. Márcia estava exausta, mas feliz e exultante. Lutou contra muitas dificuldades, principalmente o cansaço e a posição inadequada do seu bebê no canal de parto. Foi uma grande vitória, principalmente porque acreditamos e valorizamos seu desejo. Ela merecia o sucesso que teve. Lutou com todas as suas forças para ter um parto humanizado e empoderador. Sei que, diante das dificuldades apresentadas pelo parto, seria difícil que Márcia tivesse seu filho de forma normal, não fosse essa a equipe que a acompanhou. As meninas, com sua presença e atuação constantes, foram novamente o grande diferencial positivo. Saindo de lá, ainda olhei para as minhas colegas e comentei:
— Espero que da próxima vez vocês venham com sapatos melhores para atender um parto, não é?
Elas me respondem ainda rindo:
— Somos a “Irmandade do Sapato Furado”. Temos estilo. Não foi por acaso. Esses furinhos no sapato em verdade são uma comunicação com o universo, com a feminilidade, com os instintos. Foi por isso que conseguimos sucesso hoje, porque estávamos em contato direto com a “mãe-terra”. Precisávamos de um contato físico com as deusas que nos transmitem força e intuição. Nossos sapatos furados funcionaram como “antenas invertidas”, receptoras da energia de Gaia.
Quem sou eu para duvidar?
Dirigindo-me para o carro, lembrei-me mais uma vez de Ivan e Max, e como ambos elogiavam o modelo chinês dos “médicos de pés no chão”. Era para eles a possibilidade de mandar de volta para a cultura e para a sociedade a responsabilidade que foi usurpada pela ideologia tecnocrática, que produziu o que Ivan Illich chama de “expropriação da saúde”. Mas será que minhas colegas Cristina e Zeza não seriam uma forma de nova “brigada de mulheres” na construção de um novo modelo de saúde da mulher, centrado no empoderamento feminino e em uma visão holística de saúde em consonância com a natureza? Seriam elas um novo paradigma? Seriam elas mesmo a “Irmandade do Sapato Furado”, em paralelo com “médicos de pés no chão?” O retorno de um modelo feminino de atenção ao parto sempre me apaixonou. Minha busca por uma resposta à gravura de livro de Odent acabou me levando a procurar o apoio das mulheres, para oferecer às grávidas aquilo que eu não as podia dar. A “Irmandade do Sapato Furado” aparecia como um “modelo que funciona”, na busca por uma assistência mais humana, mais afetiva e mais centrada na mulher, em seus desejos e necessidades. Ao voltar para casa, caio na cama quase desfalecido, mas ainda tenho tempo de refletir sobre os eventos do dia e como nosso esforço foi recompensado, principalmente pela atuação das meninas.
Mas ainda restava uma dúvida na cabeça: ela voltaria para me interrogar? Se a odalisca de branco me perguntasse novamente a palavra mágica, qual eu diria? Qual a palavra que permite a uma mulher se expandir? Qual o segredo que cada uma delas esconde? Que palavra Márcia ouviu, que fez com que ela suplantasse suas dúvidas e obtivesse sucesso? Qual a palavra a ser dita?