Coerência

A sociedade do espetáculo produziu mais uma manchete escandalosa: “Mauro Cid contou tudo”. Esse tipo de notícia não deveria soar um alerta para nós? “Eles sabiam de tudo” não faz tocar uma sineta nos nossos ouvidos?

O depoimento do advogado do Mauro Cid, por mais veemente que possa parecer, não pode ser tratado como a “verdade definitiva”. Não podemos permitir mais uma vez que este tipo de peça jurídica seja a estrela de um julgamento. Esta manifestação não pode ocupar o lugar do famigerado depoimento de Leo Pinheiro, o presidente da OAS, “entregando” o Lula, ou as mentiras de Palocci, sob alta pressão, para dizer algo comprometedor contra o ex-presidente. É evidente que esses depoimentos foram obtido sob tortura psicológica. Não à toa depois do depoimento, Mauro Cid foi liberado. Não é para desconfiar? “Diga o que a gente quer e você vai prá casa. Se quiser encrencar é melhor trazer o pijama e a escova de dentes”.

Esse filme a gente já viu para prender o Lula. Depois descobrimos que tudo não passava de mentiras calhordas, de gente desesperada. A mesma turma poderosa do judiciário agora volta suas baterias contra uma ameaça muito maior: o bolsonarismo e sua promessa de romper com tudo, inclusive com a democracia. Qualquer sujeito consciente deveria desconfiar das artimanhas da justiça burguesa, e não aplaudir quando ela parece nos agradar. Eu, pessoalmente, acredito ser verdade, entretanto do ponto de vista da justiça o que acreditamos é irrelevante; é necessário muito mais do que a nossa simples crença. Como diria W. Edwards Deming, um conhecido estatístico americano, “In God we trust; all the rest please bring evidences”. (Em Deus acreditamos; todos os outros tragam suas provas).

Bolsonaro é um idiota e um golpista sem escrúpulos. Um escroque, ladrãozinho do baixo clero. Entretanto, isso não é prova de que soubesse de algum plano macabro de matar inimigos. Se gritamos tanto contra os abusos de Sérgio Moro et caterva, Deltan Dalanhol com seus bandidinhos amestrados e a turma venal do STF – que permitiu o golpe contra Dilma e a prisão de Lula ao arrepio da lei – deveríamos gritar contra qualquer abuso do judiciário, e não apenas contra aqueles que nos afetam. Bolsonaro, por pior que seja (e parece mesmo ser) merece ser julgado com toda a justiça, com provas, com evidências claras e sem delatores sob ameaça. Há que se exigir coerência. Não podemos nos igualar a quem tanto criticamos. Lembrem das palavras de Nietzsche, ao dizer que “Quando se olha muito tempo para um abismo, o abismo olha para você”.

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Rock and Roll

Aprendam uma lição de uma vez por todas, seguidores do Mito: “Se o proletário tudo produz a ele tudo pertence”. Todo sujeito que tenta desfazer as conquistas do socialismo dizendo “você é um socialista de iPhone” demonstra de forma cabal que não estudou nada na vida, em especial sobre o marxismo. Quem confunde socialismo com voto de pobreza não entendeu coisa alguma do que sejam os pontos fundamentais do marxismo. Quem é pobre por escolha é franciscano, não comunista. O comunismo defende iPhone, carros, joias e luxo para todos enquanto os baba-ovos de ricos defendem que só os vagabundos que não trabalham e ganham dinheiro através de roubo e herança tenham acesso à riqueza. Entretanto, os burgueses ricos sabem que para que 1% dos ricos continuem tendo acesso a 70% das riquezas de um país é necessário que tolos das camadas mais pobres os defendam. Essa é a função dos alienados, dos carentes de consciência de classe, por isso são chamados de pobres de direita e capitalistas sem capital.

Muitas vezes o sujeito é preto e pobre, mas defende os ricos que passam a mão na sua bunda. Esse é o melhor exemplo de sabujo que se pode ter: o explorado que apoia a própria exploração. Isso acontece muito no universo do Rock, mas comprova o que se diz há muito tempo: a prova inconteste da sua morte. Um lugar infestado de babacas de direita, pobres sem futuro, capitalistas sem capital e puxa sacos de milionários só pode ser encontrado em um movimento em estado terminal. Um lugar que se adaptou à sociedade capitalista decadente perdeu totalmente sua força e sua rebeldia. Nos grupos de roqueiros, além dos nazistas declarados, só vejo mortos vivos, tolos e cegos caminhando trôpegos pela rua, com suas camisas da seleção, exaltando torturadores, gritando “eu autorizo” e atacando a justiça social. Estes serão atropelados pela história e serão engolidos pelas grandes massas que exigirão uma sociedade mais justa.

O rock & roll é a face mais evidente de um fim de festa. É a imagem da morte de um modelo baseado na rebeldia e na contestação, mas que hoje desistiu da luta. Seus ídolos estão velhos, cansados ou mortos, e a nova geração aderiu ao comodismo do sucesso e do dinheiro. Hoje, sua imagem é de bolsominions fracassados e quarentões, de cabelos compridos, barrigas salientes, vestindo uma rebeldia tão falsa quando ridícula. Músicos de garagem que só tocam no fim de semana, se entopem de remédios, são brochas e batem na mulher, enquanto pegam travesti no sigilo e fazem coro com a massa de pobres de direita que gritam “Mito!!” pelas ruas de Copacabana.

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Medicina de Primeiro Mundo

“Quando criança eu adorava ver os filmes de médicos, como Dr. Kildare e Marcus Welby Md e depois os seriados como Plantão Médico e Gray’s Anatomy. Eu queria ser o Dr. Doug Ross, o George Clooney de estetoscópio no pescoço. Meu sonho sempre foi ser um médico americano rico, como nas fantasias das séries e dos filmes que assisti”

Quando alguém me disse contou essa fantasia eu imediatamente lembrei do meu colega Erick, com quem conversei em Cleveland, um jovem médico de família que trabalhava no hospital de clínicas da Case Western Reserve University. Perguntei a ele como eram as atribulações jurídicas dos profissionais do hospital, pois a ideia geral no Brasil é de que os médicos americanos passam boa parte do seu tempo preocupados com isso. Ele respondeu que os processos são o cotidiano de qualquer profissional. Todos passam por isso, sem exceção. Contou de um recente caso em que esteve envolvido no qual o hospital acabara de pagar 8 mil dólares num acerto pré-judicial entre as partes como indenização por uma cirurgia de circuncisão que havia feita em um recém-nascido.

Eu ja escrevi vários textos sobre “cirurgias ritualísticas e mutilatórias da medicina ocidental” exatamente para falar sobre a obsessão americana por esta operação, que não apresenta nenhuma vantagem para os pacientes e pode produzir sérios danos para os meninos, em especial na queda da sensibilidade e no desempenho sexual. É a “episiotomia” dos meninos. Perguntei a ele a razão do processo, e pensei em uma tragédia como infecção, necrose, amputação, etc

– Não, nada disso. Foi algo bem tranquilo, mas a família reclamou porque julgou que eu havia cortado muito pouco.

Perguntei se ele acreditava que um juiz daria ganho de caso para um pedido tão absurdo dos familiares como este, ao que ele respondeu: “Não, nós certamente ganharíamos, mas as custas judiciais chegariam a 9 mil dólares, então preferimos pagar 8 mil para a família. Assim ficou melhor, não acha?”

Não, não ficou melhor, pensei eu. Esse tipo de atitude aparentemente conciliatória estimula a famigerada indústria dos processos médicos que têm na medicina americana o seu local de maior florescimento. Esses dólares gastos com processos fúteis na verdade alimentam bancas de advogados que enriquecem às custas da exploração destes casos. É por histórias como essa, que colhi de muitos médicos que conheci nos Estados Unidos, é que tenho certeza que jamais me adaptaria a trabalhar um contexto médico como o americano. Lembro de conversar com estudantes de medicina de lá que me contavam que a lógica para montar um consultório era a mesma que era utilizada para abrir uma sapataria. O mesmo tipo de publicidade, o oferecimento de “modelos da moda”, a mesma busca por doenças atuais, a febre por equipamentos sofisticados, a publicidade abusiva, a busca por soluções químicas ou tecnológicas, etc. Dinheiro, essa era a palavra mágica.

Não apenas isso. Os médicos contratados por clínicas ou hospitais se tornam escravos de luxo do sistema, mas precisam dar lucro para as instituições e para a indústria – farmacêutica, hospitalar, de insumos, etc. O médico não recebe nenhum respeito destas instituições contratantes; ele é estimulado para que seu trabalho gere dividendos para a empresa. A comparação com o futebol faz todo sentido: “você vai jogar no nosso time, mas tem que fazer gol. E o gol não é a saúde do paciente, mas o lucro de quem lhe paga. Não pense que poderá tratar seus clientes como deseja; você é uma engrenagem da nossa máquina”.

A qualidade de vida do médico americano não é nada boa. De acordo com pesquisas, 1 entre 15 médicos tem ideias suicidas. O stress jurídico, a carga horária, o distanciamento afetivo dos pacientes, os custos de um consultório, etc tornam essa profissão algo que os próprios americanos não desejam mais. Pense bem: por que 27% dos médicos americanos não estudaram medicina nos Estados Unidos? Estima-se que os estados Unidos deverão enfrentar uma enorme escassez de médicos para os próximos anos, chegando a uma falta de 124.000 médicos no ano de 2033. A propósito, um fenômeno importado da Inglaterra, onde 37% dos médicos ingleses não são formados no Reino Unido. Também a Austrália, com 22% de estrangeiros e o Canadá com 17% seguem esse caminho – todos países dersenvolvidos e com o mesmo problema de uma medicina altamente judicializada. Mais ainda: por que estão convidando médicos de outros países para trabalharem lá? As propagandas nas redes sociais chamando profissionais da medicina para vagas nos Estados Unidos são uma clara demonstração desse problema. Estão oferecendo vantagens para que médicos aceitem trabalhar num modelo de saúde que, apesar se ser altamente tecnológico, tem os piores resultados entre todas as nações industrializadas do planeta. Os Estados Unidos estão além do 50º lugar em mortalidade neonatal, e um dos poucos lugares onde a mortalidade materna aumenta. Os custos para os pacientes são impactantes, e milhares de americanos vão à falência por transtornos médicos que, no Brasil, seriam financiados pelo Estado. Nos Estados Unidos 500 mil famílias por ano perdem tudo por dívidas com os hospitais. Meio milhão de famílias! Este é o lugar onde as pessoas se recusam a chamar uma ambulância por medo dos custos, e onde a saúde não é um direito universal de todo cidadão, mas um produto que é comprado apenas por quem tem dinheiro.

Sim, os americanos que vivem no país (ainda) mais rico do planeta têm um sistema de saúde caótico, totalmente privatizado, de resultados tremendamente ruins, onde os médicos são maltratados e se tornam reféns de uma estratégia de atenção à saúde baseada no lucro. Nesse modelo a saúde dos pacientes não é a prioridade. Não esqueçam que lá, em especial, o bem-estar das pessoas é contraproducente: não gera lucro, não movimenta a economia e não produz riqueza. Por outro lado, uma população doente lota os consultórios, consome consultas de emergência, realiza internações e compra remédios. Esta é a mesma lógica capitalista usada em qualquer sociedade baseada no consumo: a infelicidade é estimulada pela propaganda porque se descobriu que gente feliz não precisa comprar coisas.

É preciso muita coragem para se aventurar na medicina americana, o pior sistema de saúde jamais gerado pela humanidade.

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Agora vai?

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Não acredito na possibidade da esquerda fazer festa nas ruas pela possível prisão de Bolsonaro. Não vejo esse clima no país. Aliás, o Brasil, em médio e longo prazo, nada ganha com isso e nós assinamos embaixo de mais uma solução punitivista do STF que não vai ajudar o país a suplantar a chaga da extrema direita fascistoide. Não podemos esquecer que o gado bolsonarista também fez festa com o impeachment de Dilma e a prisão de Lula e hoje Dilma é personagem mundial como dirigente do banco dos BRICS, e Lula é o presidente da República. Temo que a prisão do meliante Bolsonaro seja uma “Vitória de Pirro”, que ainda poderá se voltar contra nós da esquerda. Nenhuma novidade: sempre que o judiciário, braço jurídico da burguesia, ataca setores da direita, não é por amor à justiça, mas por autopreservação. Depois a carga vem com toda a força contra a esquerda.

Estou velho demais para comemorar decisões da justiça burguesa como se fossem vitórias da cidadania, da justiça ou da sociedade. Esse mesmo STF burguês já mandou Olga Benário (mulher de Prestes) para morrer na Alemanha nazista, subscreveu o golpe militar de 1964, aceitou o golpe contra Dilma e determinou a prisão ilegal e inconstitucional de Lula. Por que deveríamos agora, de forma tola e oportunista, considerá-los patriotas e amantes da justiça? Não, eles são personagens ativos na manutenção de todas as desigualdades do país, aceitando conchavos e grandes “esquemas nacionais” para o favorecimento de atores políticos poderosos da burguesia.

Mas sim, haverá festa nas redes sociais. Não serei eu o “estraga prazer” que vai impedir que o povo comemore a punição de uma figura nefasta como Bolsonaro e seus asseclas. Haverá, por certo, uma chuva interminável de memes, fotos, embrulhadas com choradeira, festejos, gritos, e ranger de dentes, tudo misturado numa ofegante epidemia mais parecendo um Carnaval – ô Carnaval, ô Carnaval. Mas, vai passar, e o Brasil continuará com a mesma carência de consciência de classe, com os pobres votando nos milionários e as elites sangessugas controlando a todos com seus cordéis dourados. Precisamos mais do que um carnaval para curar o Brasil.

Também tenho fé que as manifestações de apoio ao Mito serão tímidas, aliás como já estavam sendo, cada vez mais minguadas. Pouca gente terá coragem de sair às ruas, a não ser os de sempre: militares da reserva, senhoras de laquê no cabelo alourado, jovens herdeiros, garotos com sonhos de abrir uma startup, pequenos comerciantes, youtubers de direita, a pequena burguesia de médicos e advogados, etc. Todos vestindo a camiseta da seleção brasileira, carregando bandeiras como cachecois, e cartazes pedindo o retorno da ditadura. Só não vai aparecer o famigerado cartaz “Eu autorizo”, pois poderá parecer um recado para o Alexandre de Moraes. Entretanto, desta vez serão muito poucos; as acusações são graves demais; sair na rua para apoiar quem planejou matar tantas pessoas vai também constranger muita gente.

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Ponto sem retorno

Eu particularmente acho que o volume de crimes cometidos durante o governo Bolsonaro, incluindo o gabinete do ódio, os crimes eleitorais, a boiada passando no meio ambiente, os roubos no varejo e no atacado, as joias, o cartão corporativo, etc deixaram o governo refém da reeleição. Era imperioso se manter no poder para que o controle do governo e da PGR impedisse a descoberta dos desmando que ocorreram na condução do país. Num país como o Brasil, qualquer presidente, por ter a máquina pública na mão, chega em uma eleição como favorito. Era com isso que contavam os bolsonaristas e aqueles que estavam lucrando com um governo entreguista e pró-imperialista. Entretanto, uma grande mobilização nacional ocorreu para garantir a vitória de Lula, atropelando todas as barreiras colocadas pelo governo. Como a reeleição Bolsonaro não aconteceu, ficou evidente que um desespero absoluto se abateu sobre as hostes bolsonaristas, e com a chegada da oposição ao poder se tornou impossível esconder a quantidade enorme de falcatruas produzidas em quatro longos anos de mentiras, desmandos, impropérios no cercadinho e cuspe no canto da boca.

Fica claro agora, pelas provas, depoimentos e delações que ganhar de qualquer jeito era o plano. Não fosse no voto (e foram cometidos inúmeros crimes para garantir a eleição do mito através de fraudes) haveria de ser na “marra”, usando da força, com golpe clássico, tanques na rua. Para isso seriam convocados os milicos ressentidos pela “comissão da verdade” e a linha dura fascista da caserna, aplicando um golpe “das antigas”, mandando matar o presidente, o vice e o ministro malvadão do STF. Porém, quis o destino que os Estados Unidos, que comandam essa turma de lacaios, não topasse um golpe cafona, fora de moda, com estética dos anos 60 e com cheiro de guerra fria. Tiveram que abortar o projeto, mas deixaram as pegadas da intentona golpista por todos os lados.

Agora resta saber se vamos, mais uma vez, apostar na “conciliação” e permitir que uma gang de bandidos fardados – que inclui até assassinos – seja perdoada em nome da governabilidade. Já fizemos isso com Fernando Henrique, e esse fato acabou deixando aberta a porta do arbítrio, dando asas aos militares para novas incursões no poder. Hoje fica claro que os militares nunca abandonaram seu interesse em controlar o poder civil, e por isso vivemos agora o desastre anunciado que foi gestado no perdão dado a eles pela lei de anistia – ampla, geral e irrestrita.

Eu não acredito que cometeremos o mesmo erro de manter os corvos soltos. “Alimente-os e eles te comerão os olhos”, como bem sabemos. Também é verdade que a prisão dos líderes desse golpe frustrado não afetará de forma significativa a onda fascista do nosso país, e corremos o risco de incentivar a criação de “vítimas injustiçadas”, que poderão ser alçadas à condição de heróis nacionais. Todavia, há limites para esta análise; ultrapassado um determinado ponto – e as tentativas de assassinato parecem ser essa linha – encontra-se um ponto sem retorno, e nada sobra para fazer além da aplicação dura da lei.

Prefiro acreditar que, mesmo sendo através da justiça burguesa e de atores que nunca estiveram conectados com a justiça “ampla, gerral e irrestrita” da população brasileira, as forças progressistas possam fazer uso desse fato para gerar consciência de classe, união em torno de nossas pautas e a exposição dos reais interesses da política burguesa.

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Elogio

Meu pai, em sua longa vida, jamais se abateu com os ataques que lhe foram dirigidos por aqueles que não aceitavam suas ideias ou propostas, e nunca cedeu à tentação do revide ou do ressentimento. Entretanto, não gostava de elogios e homenagens, pois sabia do poder altamente destrutivo dos aplausos. Nesse aspecto era freudiano; entre suas frases mais famosas, o mestre austríaco deixou esta sobre o tema: “podemos nos defender dos ataques, mas somos indefesos diante de um elogio”.

O elogio penetra em nossa mente pelas frestas criadas pela vaidade. É por ali, e não pela potência dos murros, que se derruba um sujeito. Meu pai bem sabia de suas fragilidades; dizia ele que é preciso ser excepcionalmente forte para receber um elogio e não se deixar contaminar por ele. Freud, quando se dirigia aos médicos, inebriados pelos elogios e juras de amor de suas pacientes, alertava: “Não sejam tolos, estes elogios não são para vocês mas para quem representam no imaginário dessas moças”. O mesmo acontece conosco: muitos elogios que lançamos são, em verdade, autoelogios, que exaltam nossa capacidade de enxergar virtude no outro, esperando que, em contrapartida, as nossas qualidades sejam igualmente notadas. Em verdade, caso queira destruir um sujeito, não é necessário que as investidas venham de fora, seja por ataques físicos ou atingindo a sua moral; basta inflar seu ego e esperar que a ilusão de grandeza o destrua por dentro.

Não há como discordar desta posição do meu pai. Os elogios e as bajulações são perniciosos e destrutivos, e as críticas nossos melhores conselheiros. Aceitar os elogios e rejeitar as reprovações é um passo certeiro para o fracasso de nossos mais altos projetos. Uma postura reservada e comedida impede que a vaidade nos destrua por dentro, através do engano e da ilusão.

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Casamentos

“Nenhum casamento é suportável se as pessoas não se modificam, não mudam. Por isso, case-se várias vezes, de preferência com a mesma pessoa”.

A necessidade renovação, transformação e mudança para se adaptar às distintas fases da vida, em especial no que diz respeito à vida amorosa, é um dos mais antigos axiomas sobre os casamentos. Afinal, quando casamos com alguém certamente esta pessoa se transformará em outras pessoas dentro daquele mesmo sujeito; igualmente quando nos separamos esta será uma pessoa muito distinta daquela com quem iniciamos uma jornada de casal. Portanto, a mudança é mandatória. Nada há de novo nestes conselhos, inclusive a ideia de “casar muitas vezes” com o mesmo parceiro. A questão é que esta perspectiva sobre as uniões parte de uma visão rígida sobre o casamento, tratando-o como se fosse um evento social sagrado e por demais precioso, que precisa ser preservado a todo custo. É inegável a importância que as civilizações emprestaram à união dos casais, pois que o reconhecimento do Estado garantia compromissos de cuidado por parte dos maridos, e de fertilidade e fidelidade por parte das esposas. Estes são, sem dúvida alguma, valores primordiais, essenciais para a sobrevivência de qualquer grupo. Não seria possível a grande revolução da agricultura e do sedentarismo ocorrida no paleolítico superior não fosse a adoção destas medidas de controle social. Não à toa, as uniões de casais são descritas como  o ápice e o centro da estrutura social, pela sua importância na continuidade da espécie. Entretanto, é possível que hoje exista um exagero sobre esta forma de ver a vida “a dois”. Talvez a forma como vemos os relacionamentos precise ser refeita.

No ano passado, o número de uniões civis no Japão caiu pela primeira vez desde o anos anteriores a segunda guerra mundial. Ao lado disso, e por consequência, os nascimentos caíram 5.1% , chegando a 758 mil por ano, numero que o Instituto Nacional de Pesquisa Populacional e Previdência Social esperavam só ser alcançado em 2035. Ou seja: a baixa de casamentos leva à baixa de natalidade. A falta de jovens e o envelhecimento da população é um problema grave para a economia de qualquer país. Em 1982 o número de nascimentos no Japão foi de 1,5 milhão, quase o dobro do que se vê agora. A taxa de fertilidade – a média de nascimentos por cada mulher – caiu para 1,3, um valor trágico se levarmos em consideração que a taxa necessária para manter uma população estável; é de 2,1. Os falecimentos ultrapassam os nascimentos por mais de uma década. Assim, no Japão mais pessoas são enterradas do que paridas há mais de 10 anos. Em uma aldeia japonesa chamada Kawakami não houve o nascimento de nenhuma criança em 25 anos. Esta localidade já teve 6 mil moradores nos anos 80, e hoje não tem mais do que 1.150 habitantes. Será o Japão um fato isolado? Serão os japoneses o tubo de ensaio de uma crise de natalidade grave que atingirá o mundo inteiro?

Talvez o casamento não seja tudo isso. Apesar da importância que ainda vemos neste tipo de união civil – que pode ser medida pelos custos de uma cerimônia para as classes abastadas – é possível que o casamento como o conhecemos, que inclui os filhos, a monogamia, a coabitação, os projetos compartilhados, etc., tenha sido uma moda passageira na história da humanidade, uma forma intermediária para acomodar necessidades específicas, e tão somente um subproduto do patriarcado, criado para manter o controle sobre as mulheres, a procriação e a descendência. Hoje em dia o casamento é criticado como nunca e duramente questionado sobre seu real valor, e para alguns parece evidente que ele tem seus dias contados por não oferecer aos casais a liberdade e a autonomia que tanto almejam. A lenta decadência do modelo patriarcal talvez leve consigo alguns elementos que hoje são comuns, mas que talvez se tornem raridade no futuro: as parcerias eternas, os casais de velhinhos e o almoço de domingo na casa dos avós. Quem sabe que tipo de sociedade diferente vai surgir quando desta instituição sobrar apenas uma vaga memória.

Por fim, a questão dos casamentos, seu significado e seu futuro, são determinantes para as sociedades contemporâneas. Por mais que existam questões sobre os valores inseridos no casamento, ainda haverá a necessidade de ajustar os afetos, o desejo sexual e a criação das crianças, fruto destas uniões. Sem a figura do casal heterossexual como a única forma de expressão dessas uniões, como vai ser a construção desta nova sociedade? Sobre quais valores se assentará e como será a arquitetura das famílias do século XXII? As pessoas da minha geração, em especial aquelas contaminadas pelo romantismo e que nasceram sob a égide da família nuclear, por certo não terão a oportunidade, ou o tempo de vida suficiente, para testemunhar este mundo sem casais e sem juras de amor eterno; não teremos a chance de vivenciar as dores e os sabores deste mundo novo e desafiante. Entretanto, é inevitável a curiosidade em saber se o modelo que virá para garantir o afeto e o cuidado das crianças terá tanto sucesso quanto o amor romântico teve na história do planeta.

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Partos, fases e luas

Em meados dos anos 80, um pouco antes da minha formatura e o início da residência em ginecologia e obstetrícia, decidi fazer uma análise da relação entre as fases da lua com dois fenômenos conhecidos: o inicio do trabalho de parto e o parto propriamente dito. Meu objetivo era bem simples: esclarecer a influência das fases da lua com o nascimento humano, já que popularmente esta relação era feita, mas sem uma metodologia adequada para sua avaliação. Era muito comum encontrar, inclusive entre os médicos, comentários ao estilo: “plantão passado foi terrivel, mas é compreensivel: era lua cheia”. Entretanto, eu sempre achei que este era um viés de observação. Ou seja: por ter sido um dia com excesso de atendimentos o observador se preocupava em saber a fase da lua; fosse um dia sem partos ele sequer se importaria com isso.

Diante disso, resolvi tabelar todos os nascimentos e as internações em trabalho de parto de 1⁰ de janeiro a 31 de dezembro de um ano especifico do hospital escola onde eu havia estudado e estava prestes a cursar a residência. Fui aos arquivos do hospital e dividi essas ocorrências entre as fases da lua para ver se alguma correlação poderia ser encontrada entre estes dois fenômenos: a posição do nosso satélite em relação sol e a emergência dos sinais que iniciam a expulsão fetal. Feito isso, era necessário tabular e usar fórmulas matemáticas de bioestatística para encontrar – ou não – uma relação de causalidade.

Nesse interim eu me formei e comecei a fazer plantões no centro obstétrico do hospital. Num desses plantões eu recebi na emergência uma paciente com queixa de contrações. Era mais de meia-noite e o plantão estava bem calmo. A gestante chegou acompanhada do marido e ambos pareciam muito ansiosos. Mostrou seu cartão do pré-natal e os exames protocolares. Primeiro filho, 39 semanas de gestação, pressão ok, batimentos fetais idem. Sem intercorrências na gestação. Fiquei avaliando os exames com uma demora proposital, esperando testemunhar uma contração. Nos 15 minutos em que ficou na sala, ao lado do companheiro, nenhuma contração foi relatada. Pedi que a atendente a ajeitasse na mesa de exames, e só quando se ergueu da cadeira relatou que estava sentindo uma cólica no útero, que foi rápida e sem muita intensidade. Ao fazer o exame vi que ela tinha não mais do que 2 centímetros de dilatação, contrações frágeis e somente duas cada 10 minutos. No jargão obstétrico, “pródromos” (pró – dromo, precursor, aquele que corre na frente). Recomendei que voltassem mais tarde. Diante da minha indicação o marido me encarou de forma preocupada dizendo:

– Doutor, não há condições. Já é madrugada e moramos na Restinga (bairro afastado da cidade). Não temos dinheiro para pagar um taxi de novo. Para nós é muito caro; somos pobres e esse gasto seria impossível. Como o senhor mesmo disse, ela pode iniciar as dores fortes dentro de 1 ou 2 horas, talvez até antes. Ou depois, mas como saber? Não tem como ela ficar aqui aguardando?

Senti a angústia do casal e entendi a preocupação. Resolvi conversar com o contratado de plantão, o qual aceitou a ideia de deixá-los no hospital esperando as contrações, já que o centro obstétrico estava vazio e, para eles, um retorno mais tarde seria por demais dispendioso. Era o que chamávamos de “baixa social”, uma internação determinada por fatores não médicos, mas relevantes. Essa é uma prática muito comum, que existe em qualquer lugar até hoje. O casal agradeceu, ficaram a noite toda dormindo, as contrações desaparceram e apenas voltaram ao amanhecer. Passei o caso para o novo plantonista que estava assumindo o plantão e este resolveu induzir, usando soro com oxitocina. Sim, precisavam fazer aquele bebê nascer, “já que a paciente havia ficado a noite inteira sem desenvolver um franco trabalho de parto e ocupando um leito que poderia ser necessário mais tarde”. Foi instaurada a indução e eu fui para casa.

Ao sair do plantão ainda estava escuro e percebi que aquela noite havia sido de lua cheia, mas o plantão tinha sido monótono e com poucos casos. Cheguei em casa, peguei todas as minhas anotações sobre partos e fases da lua e guardei em uma pasta, onde então até hoje. Nunca mais me interessei por este estudo. Aquele caso corriqueiro me havia feito perceber que, no mundo ocidental e nas sociedades complexas, é impossível observar a relação dos fenômenos da natureza com as gestantes e o parto. As influências externas são tantas e tão mais intensas que seria impossível depurar os casos de suas interferências de ordem social. A paciente daquela noite internou sem necessidade médica real e recebeu um soro pela manhã igualmente sem ser preciso, apenas porque seu parto tinha que se enquadrar na ideologia obstétrica de nossa época e na grade dos tempos de seus assistentes. Nada naquele nascimento foi natural; inobstante a fase da lua, e se ela poderia ter alguma influência no parto, tudo foi atropelado por fatores sociais e por crenças médicas, impedindo que qualquer correlação pudesse ser observada.

Lacan deixou claro que a “palavra matou o real”. Não existem mais “partos naturais”, pois que estes ficaram perdidos num passado muito remoto, sobrevivendo apenas enquanto fantasia ou utopia. O parto, inserido na linguagem, é o que nossas mentes fazem dele; é um evento da cultura que ocorre no corpo das mulheres, carregando consigo o reflexo dos nossos valores e das nossas crenças. Envolto nesse contexto simbólico ele não pode ser mais avaliado pela suas características primitivas, fisiológicas e “naturais”. A mulher que poderia parir esse “bebê natural” já não existe mais; expulsos do paraíso, somos todos condenados a parir e nascer no contexto da palavra.

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Nu com a mão no bolso

Em Barcelona a nudez não é criminalizada. Esta é uma postura da cidade muito antiga, conhecida por todos que a visitam. Se você quiser pode andar pelado na rua sem que isso seja tratado como delito. Existe um barcelonês (foto) peladão que ficou famoso por tatuar suas nádegas como se fosse um calção e que circula pela Rambla todos os dias. Ou seja: a nudez é um direito dos cidadãos e ninguém pode ser admoestado, criticado ou processado por andar nu. Também no norte da Europa, em especial na Suécia, é comum ver estudantes adolescentes (meninos e meninas) correndo nus pela rua festejando a chegada da primavera, como uma diversão juvenil, sem que isso seja visto como atentado ao pudor.

Enquanto isso, no Brasil, uma mulher foi presa por transitar pelo congresso em Brasília vestindo apenas a sua própria pele. Aqui, na minha cidade, o mesmo aconteceu há alguns anos com uma moça que adentrou um shopping usando sobre o corpo apenas batom e o esmalte das unhas. Ambas foram cercadas imediatamente, cobertas, levadas à delegacia e tratadas como criminosas. Afinal, como ousam desafiar os costumes mostrando suas vergonhas em público? Por certo que, fossem homens, e ainda levariam pipocos e um sonífero mata-leão. Caso alguma dessas cenas viesse a passar na televisão de Barcelona por certo que seus habitantes se espantariam com a ação policial em um caso de nudez. Alguns teriam mesmo se horrorizado com a atitude bárbara de agentes do Estado prendendo cidadãs apenas por terem passeado nuas pela cidade. “Por acaso o corpo é indecente, imoral ou agressivo aos olhos?”, perguntariam. “Não nascemos todos nus? Não andam nus os indígenas e os pequenos?”

No outro lado do mundo mulheres são criticadas e algumas até presas por não usarem o véu. Quando acontece no Irã muito se noticia cada vez que uma mulher sofre algum tipo de violência, física ou moral, por se contrapor aos costumes vigentes e à etiqueta islâmica ao vestir. Os jornais ocidentais escrevem infinitas colunas e imprimem manchetes escandalosas descrevendo a sociedade iraniana como machista, desrespeitosa com as mulheres e cerceadora de suas liberdades. Aqui no ocidente acreditamos ser esta uma violação inaceitável ao direito das mulheres – ou das pessoas em geral – de se vestirem como desejam. Criticamos, atacamos e acusamos os iranianos de serem machistas, atrasados e misóginos, porque não aceitamos que a sociedade determine o que uma mulher pode usar para se cobrir – ou não.

Para um sujeito de Barcelona deve ser confuso nos ver apontando os dedos acusatórios para a cultura iraniana por fazer – em essência – exatamente o mesmo que nós. O que os peitos e as nádegas têm de proibitivo aqui, as madeixas tem por lá. No fim, será sempre a tentativa de cercear a liberdade do outro de se expressar como bem entender. Somos diferentes na superfície e naquilo que censuramos, mas na essência somos por demais semelhantes.

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Madame Durocher

No teaser do filme sobre a Madame Durocher, pioneira na medicina do século retrasado – por ousar ser mulher e atuar em uma profissão historicamente dominada pelos homens – fui obrigado a ver mais uma vez os números fantasiosos atribuídos aos atendimentos realizados pelos profissionais do parto. Esta é uma prática comum, tanto entre parteiras quanto entre médicos. Sobre estas afirmações, peço apenas que façam a seguinte ponderação. À Madame Durocher foram atribuidos 8 mil nascimentos, um número redondo e grandiloquente que já deveria nos despertar atenção. A média de duração de um parto é de 8 horas para uma multigesta (que já teve filhos) e 12 horas para uma primigesta (que espera seu primeiro bebê). Isso se levarmos em consideração os partos atendidos no século XX, quando estas medições foram realizadas. Para alem disso, estamos falando de fatos ocorridos no século XIX onde a imensa maioria das crianças nascia em casa numa época onde não havia transporte rápido. Para atender essa quantidade de partos ela teria que passar por volta de 15 horas diárias entre a atenção ao parto e o deslocamento de ida e volta até a casa da paciente. Não havia hospitais de grande porte e muito menos plantões, que são invenções do seculo XX.

As pessoas que criam esses números (tipo 8 mil!!) não se dão conta do que seja atender essa quantidade imensa de partos. Para se ter uma ideia, isso significaria atender um parto por dia durante 27 anos seguidos, sem férias, descansando apenas um dia por semana. Num tempo onde os partos eram em sua imensa maioria domiciliares, determinando deslocamentos que por vezes demoravam horas, não haveria tempo para realizar essa atividade nessa frequência, e nenhuma parteira teria força ou saúde para realizar esta tarefa. Esses números são sempre falsos, inflados, criações fantásticas para garantir valor para o profissional; são criações numéricas mágicas, sem qualquer embasamento, porque quase nenhum médico tem anotações com o registro de cada paciente atendida. Além disso, se esta parteira atendeu um parto por dia durante décadas essa foi a única atividade que foi capaz de fazer durante esses anos todos; não poderia ter filhos, conquistar um marido, cozinhar, lavar roupas, namorar ou mesmo ler um livro para estudar e se atualizar. Simplesmente impossível.

“Ahh, mas talvez ela tenha atendido mais de um por dia” por menos tempo, mas isso é algo insano. Atender dois partos domiciliares no mesmo dia é uma tarefa gigantesca mesmo que você tenha carro e atenda na mesma cidade. Mais do que isso é loucura, mesmo se houvesse uma epidemia de partos “relâmpago”. Além disso, não se trata apenas do tempo entre as contrações e o nascimento; é importante levar em conta que após o parto é necessário pelo menos duas a três horas de observação do bebê e dos secundamentos maternos para garantir a segurança de ambos. O trabalho com o nascimento humano congrega em um só evento vida, morte e sexualidade. A carga imensa que esse trabalho gera produz um desgaste para além das questões físicas. Obstetras e parteiras trabalham se equilibrando sobre a fina lâmina que divide a vida e a morte, em um labor de profunda tensão, angústia, alegrias e tristezas profundas, onde o desgaste emocional é tão terrível quanto inevitável. Atender um parto por dia, mesmo que cada um deles durasse apenas 2 horas, já seria insano, insuportável na prática privada. Fazer isso durante décadas sem tirar férias é apenas impossível.

“Ahh, mas quem sabe em boa parte deles ela estava apenas acompanhando suas instrutoras”, mas nesse caso ela não seria a principal atendente do processo então não há como contabilizar como tendo “atendido” o parto. O número de partos funciona como a cicatriz do soldado que chega da guerra: é um sinal de valor e bravura. Infelizmente, entre os profissionais do parto, se criou o costume de inventar números para que isso seja a tradução explícita de sua experiência profissional e, portanto, do seu valor.

PS: faço essa observação apenas para alertar sobre os números fantásticos e fantasiosos que parteiras e obstetras apresentam como atendimentos realizados. De resto penso que esse tema e esse filme são especiais, pois mostram o trabalho árduo das parteiras e das pioneiras da medicina. Um filme que vale a pena ser visto. Parabéns aos realizadores.

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