Riqueza

Houve dois momentos na minha vida nos quais eu tive a nítida sensação de riqueza. Ou seja: a percepção de ter dinheiro sobrando, em demasia, para mais do que necessitaria, a ponto de não ter ideia do que fazer com ele. Sim, foram sensações fugazes, passageiras, momentâneas e rápidas, porém intensas o suficiente para que eu as recorde até hoje.

A primeira ocorreu há 45 anos. Comecei a trabalhar como interno em um Pronto Socorro aos 18 anos, ainda no segundo ano da Faculdade. Era, segundo meu pai, um “maleteiro“, carregador de “maleta”, uma enorme caixa de medicamentos usados pelo médico nos atendimentos domiciliares. Também era “padioleiro”, alguém que fazia transporte de doentes entre um hospital e outro. Depois do primeiro mês de trabalho recebi meu salário, referente às horas que fiquei de plantão no pronto socorro. Lembro que naquela época uma noite de plantão pagava o equivalente a 50 reais nos dias de hoje, mas o dinheiro era o que menos contava; a gente fazia plantão mesmo era para aprender.

Cheguei em casa com o bolso da calça cheio de notas, pensando em como usaria todo aquele dinheiro (uma calça US Top? uma camiseta da Gang? um tênis Bamba? livros?). Meu pai me recebeu em casa com um envelope nas mãos, e nele estava a minha “mesada”. Olhei o envelope e sorri. “Mais dinheiro ainda? Que vou fazer com tudo isso?”, pensei. Disse ao meu pai que não era necessário, mas ele fez questão de me dar aquela que, depois percebi, seria a última das mesadas da minha vida. Poucas vezes tive uma sensação tão grande de opulência.

A segunda vez foi há alguns poucos meses. Depois de uma longa luta contra as burocracias do INSS eu recebi meu primeiro salário como aposentado. O salário, aliás, muito menor do que eu gostaria, mas muito mais do que eu esperava receber. Os cálculos da aposentadoria de profissionais liberais são misteriosos e o resultado é sempre uma surpresa. Depois de muitos anos vivendo num modelo de contenção de gastos e minimalismo, a sensação de ganhar um salário fixo pelos 40 anos de contribuição ao INSS me pegou de surpresa. Tive a mesma sensação da adolescência ao achar que estava ganhando muito mais do que precisava. Sim, já passou, e agora estou de volta à ordem natural da vida, esperando e desejando mais do que tenho. De qualquer modo, ver minha conta no banco recebendo estes valores me conectou imediatamente ao meu primeiro pagamento.

O segredo do amor, segundo sábios do passado, é sentir que está recebendo algo além do seu merecimento. É acordar de manhã, olhar para sua alma gêmea e se perguntar “O que fiz para merecer uma pessoa tão especial como esta? Por que eu?” No mesmo sentido, o segredo do equilíbrio na vida cotidiana é não apostar jamais sua felicidade na posse das coisas, escravizando seu desejo ao que pode ser comprado. “Tudo de real valor na vida é gratuito”, dizia meu amigo Max. O afeto, o amor, a presença da família, os filhos, os netos, a chuva, o sol, os pais, nada disso se encontra em uma prateleira ou vitrine, e muito menos tem uma etiqueta de preço pendurada.

Eu costumava provocar meus filhos quando pequenos perguntando a eles quem era mais rico, eu ou o Sílvio Santos, ao que eles respondiam: “O Sílvio é muito mais rico do que você!!”. Então eu os contestava dizendo: “Pois eu não sei quem é o mais rico, vai depender do quanto o Sílvio Santos deseja”. Sêneca nos ensinou que “não é a carência que produz a pobreza, mas a multiplicidade dos desejos”. Por isso minha surpresa nessas duas ocasiões: acostumado a não desejar pela falta de recursos, a pequena quantia que recebi pareceu exagerada e capaz de satisfazer todos os desejos do momento, mesmo que o tempo viesse a criar outros desejos e a certeza da falta novamente viesse a me fazer companhia. Porém restou uma lição: o segredo da riqueza não está em muito possuir, mas em reconhecer o valor do que não tem preço.

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Expectativas

Muitos estão exaltando o Vini – Vinícius Júnior, jogador do Real Madri – que, ao que parece, é um bom garoto. Desde que chegou ao Real Madri, vendido pelo Flamengo, sempre teve uma postura altiva e corajosa contra o racismo a que foi submetido, fazendo capas de jornais e revistas esportivas por não se calar diante das agressões que sofreu. E, por certo, acima de tudo ele é um fantástico jogador, responsável pela última conquista de seu time na Champions League. Diante desse sucesso, quiseram (imprensa, torcida, mídias sociais) contrapor sua imagem de “bom garoto” à do jogador Neymar, o “mata-borrão” predileto da torcida tupiniquim, visto como o principal responsável pelos nossos últimos fracassos na disputa da Copa do Mundo. Esse contraste do “bom menino” com a do “moleque irresponsável” serve como idealização dos nossos heróis jogadores, mas como sempre, está longe da verdade.

As pessoas, entre elas os jogadores famosos, são cheias de contradições e inconsistências. Somos incoerentes, surpreendentes e mutantes. O Vinícius não merece que se coloque em seus ombros a carga de ser o bom menino que vai nos redimir, da mesma forma como as críticas morais ao Neymar Jr estão carregadas de moralismo, ataques exagerados e uma tentativa de desmoralizar os craques brasileiros, em especial aqueles que saem do Brasil para enriquecer na Europa. Sim, existe até um interesse imperialista de desmerecer os talentos nacionais. Além disso, esse Vinicius Júnior, longe de ser o antípoda de Neymar, é parceiro do Neymar na seleção brasileira; são amigos de muito tempo. Suas perspectivas de mundo devem ser muito mais próximas do que aparentam.

“Ahh, mas ele é campeão da Champions League e não quer privatizar praias”. Ora, ele não quer ou não tem cacife para isso? Não deseja ou não pode? Sabemos que esses recursos para a construção de megaprojetos de turismo na nossa orla o Neymar tem, e essa deve ser a diferença essencial. Será que o Vini é realmente virtuoso ou apenas não atingiu o nível obsceno de riqueza de outros que vieram antes dele? Não tenho a resposta, mas sei que a única forma de avaliar é aguardar. Neymar já foi um garoto assim, um menino que carregava as nossas esperanças de reconquistar um título de Copa do Mundo. Infelizmente o dinheiro em quantidades indecentes o ligou primeiro ao Bolsonarismo e, agora, ao Luciano Huck e à proposta perversa de privatizar praias brasileiras. Neymar é produto do capitalismo tardio, do culto à ostentação e da valorização do hedonismo depois da queda das utopias socialistas dos anos 90; ele é muito mais resultado de um contexto do que sua causa.

Criar expectativas em jogadores de futebol é um risco demasiado alto; o meio onde vivem é de competividade tóxica, opulência, exibicionismo e grana sem limites. A tentação de multiplicar o capital, através das infinitas propostas que recebem, é constante. Por isso, a chance de nos iludirmos com esse garoto é gigante. Acho muito mais sensato esperar o menino ficar bilionário, como o Neymar já é, e depois avaliar se as boas atitudes continuam a pautar sua conduta. Manter-se humilde e conectado com suas origens é uma tarefa tão difícil que se pode contar nos dedos das mãos os jogadores de esquerda, progressistas e ligados às suas raízes; a imensa maioria é composta por reacionários e bolsonaristas… mas que fazem caridade ocasionalmente. Inclusive o Neymar.

A medida do amor é amar; a medida da honestidade é manter-se honesto diante da possibilidade de não ser. Ser contra a privatização das praias sem ser sócio do investimento qualquer um seria, mas continuaria sendo se fizesse parte da galera do dinheiro? Ele manteria sua posição “consciente” diante da sedução de lucros estratosféricos? Teria consciência social, respeito pela natureza, visão progressista mesmo perdendo uma oportunidade única de multiplicar sua fortuna? Essas histórias sempre me fazem recordar a fala do presidente de uma grande empresa envolvida em acusações de suborno. Quando chamado de “ladrão” por um jornalista, ele respondeu: “se você receber uma proposta de 1 milhão para ficar em silêncio e mesmo assim abrir a boca, você passou no único teste que realmente importa”.

“A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Esta sabedoria de Augusto dos Anjos nos deveria fazer entender a forma passional como tratamos nossos ídolos. Muita calma nesta hora para não criarmos outra frustração com este novo super craque brasileiro. Aliás, não acho justo cobrarmos de um jogador de futebol que seja qualquer coisa além de atleta, da mesma forma como cobramos de um escritor que escreva com qualidade e tenha ideias criativas; não é justo que seja cobrado enquanto filantropo, ecologista, defensor de causas humanitárias, etc. No caso de excelente jogador Vinícius Júnior faz sentido esperar os próximos anos antes de colocar esse garoto no pedestal da responsabilidade social. 

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Bate boca

Acho curioso como as brigas entre celebridades são tratadas por nós. A última treta é esta dos últimos dias envolvendo o jogador Neymar e uma atriz aposentada que mora em Portugal. Creio que a gente erra quando espera destes sujeitos muito mais do que são capazes de oferecer. Neymar é um craque do futebol, um dos maiores jogadores que este país já produziu. Poucos futebolistas do mundo poderiam estar na mesma prateleira que ele. Dito isso, ficar acompanhando as fofocas da sua vida pessoal é uma enorme perda de tempo, e um brutal click bait de franco atiradoras que desejam notoriedade com esta polêmica.

Enquanto cidadão, Neymar é um claro produto de seu meio: um sujeito pobre tornado rico que se identifica com os valores burgueses. Todavía, quando olhamos para seus colegas de profissão, quem escapa dessa sina? Quem reconhece de onde veio e tenta mudar essa realidade – sem ser através de doações pontuais e caridade midiática? Entretanto, este não é um comportamento exclusivo de jogadores de futebol. Conheço meninos muito pobres e ambiciosos que cursaram medicina e hoje são fiéis defensores de Bolsonaro e da extrema direita, fazendo pouco caso das pessoas sue se encontram no mesmo extrato social de onde vieram. As posições empresariais de Neymar são características de “boleiros” cheios de dinheiro e sem qualquer perspectiva ecológica e social. Sua parceria com Luciano Huck, um neoliberal aecista e bolsonarista, associado a tudo que se relaciona com a direita mais retrógrada deste país, é uma conexão absolutamente natural. Bizarro mesmo é encontrar jogadores de esquerda ou defensores da justiça social.

Ademais, as pessoas que agora o atacam são tão ou mais socialmente irresponsáveis do que ele. Moristas e lavajatistas de primeira hora, abraçaram o fascismo bolsonarista com todo o fervor. Expõem suas aventuras sexuais na Internet, confessam o uso de drogas diariamente ao mesmo tempo em que acusam o jogador de ser um “mau pai”. Ora, façam o favor; mesmo que seja verdade, tudo isso não passa do conhecido “roto que fala do rasgado”.

O erro, mesmo que seja difícil admitir, é esperar de simples jogadores de futebol e atrizes de TV que sejam algo além do que seu talento específico lhes permite. Pedir para Neymar que seja um bom cidadão, mesmo virado de costas para o Brasil, é inútil. Ele joga futebol; não exijam dele nada mais que isso. Pedir para uma artista em crise profissional (como ocorre com muitas atrizes lindas quando a idade chega) que tenha consciência de classe, empatia com o povo brasileiro (autoexilada na Europa) e bom senso político é pedir muito mais do que é capaz de oferecer. Esses bate bocas servem para garantir publicidade a estas personalidades, mas nesta equação somos essencialmente massa de manobra, conduzidos a tomar posição e levados a assumir um lado, mesmo quando se trata de pessoas cujas semelhanças em termos de alienação ultrapassam em muito qualquer diferença que possa existir.j

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Mitos

Imaginem que, numa espetacular descoberta arqueológica, são encontrados na Palestina papiros que descrevem vida e os caminhos do “Jesus real”. Nestes documentos está descrito, de forma inequívoca, que o Messias nunca foi um ser santificado, mas tão somente um escroque, um ladrão, um dissimulador que usava de meros truques de mágica para enganar incautos e ludibriar os crédulos da época. Sua condenação se deu por suas múltiplas falcatruas ou golpes, e não por suas belas palavras, ensinamentos, parábolas, bem-aventuranças ou milagres. Tudo de belo escrito sobre ele não passa de peças políticas, criadas sobre um personagem ficcional, meramente baseado no jovem judeu crucificado no Gólgota.

Claro, é apenas um exercício de imaginação; nada disso ocorreu. Minha pergunta é: se fosse verdade, quantos abandonariam a fé cristã diante das evidências de que o personagem que tanto veneram – e por mais de dois mil anos – não é mais que uma mera criação humana? Quantos deixariam o cristianismo após descobrir que o verdadeiro Jesus de Nazaré nada se parece com o Cristo sobre o qual se ergueu uma igreja de sucesso em todo o planeta.

Minha resposta simples é: zero.

Inobstante as provas encontradas, a vinculação que temos com esses personagens está muito além (ou aquém) de qualquer análise racional, e por isso mesmo esta conexão é poderosa. Não precisamos da razão para criar vínculos com esses ícones, pela mesma razão que nossas outras tantas conexões afetivas não carecem de qualquer ligação racional essencial. Não amamos esta ou aquela pessoa por uma análise lógica e baseada em fatos; nossa ligação é muito mais visceral, e não precisa que os elementos subam do fígado ao cérebro para serem validados.

Aliás, as descobertas recentes da estrutura do Universo balançaram as estruturas da Igreja, mas esta lentamente assimilou as novas descobertas e as ressignificou. “Ok, não somos o centro do Universo, mas Deus Pai zela por todos nós por sua onisciência, onipresença e amor infinito”. Feito. Bola ao centro e reinicia o jogo.

Esse tema me veio à mente porque a recente condenação de Trump tem essas mesmas características. Alguém acha mesmo que Trump perderá a próxima eleição por ter sido julgado, condenado e seus crimes revelados? Responda então: um candidato que se coloca contra o sistema, ao ser condenado por este mesmo sistema que combate, não sairá fortalecido? Essa é a grande força de Trump: disseminar no povo americano a esperança no retorno aos tempos de glória através da ficção de que ele representa o combate ao “sistema”, o enfrentamento ao “deep state” e a luta contra o “globalismo“. Como ele mesmo disse: “Eu poderia dar um tiro em um sujeito na 5ª Avenida e ainda assim venceria a eleição”. E não está errado; ele sabe o papel mítico que exerce sobre o eleitorado.

Bolsonaro, o fac-símile do trumpismo em Pindorama, igualmente sabe que as provas de seus desmandos, a roubalheira, as joias, as propinas da vacina e a tentativa de golpe não atingem o coração de sua imagem de “cruzado antissistema” e contra “tudo isso que está aí”. Ele entendeu que sua legião de acólitos pouco se interessa pela vida real e mundana do seu líder, e apenas enxerga o “mito” que pode redimi-los de sua vida insossa e medíocre. Tanto lá quanto aqui, a falência do capitalismo continuará produzindo estas figuras que iludem seus seguidores fingindo combater o sistema quando, em verdade, são o seu último suspiro.

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Hollywood e a Palestina

A indústria cinematográfica dos EUA está concentrada na mão de sionistas. A própria história da Meca do cinema americano se confunde com a integração da comunidade judaica no tecido social americano. Hollywood se tornou um centro de difusão dos valores americanos, o “american way”, e também de suporte ao sionismo e à criação violenta e cruel do Estado de Israel. Desde muito cedo houve o esforço de criar uma narrativa favorável ao colonialismo racista em Israel, através de diversos filmes, em especial nos últimos 70 anos.

Os atores de Hollywood sabem que uma postura abertamente favorável à causa Palestina significa portas fechadas, em muitas vezes, sem chance de retorno. Por esta razão, a decisão de alguns artistas de mostrar publicamente seu repúdio ao Estado genocida de Israel é um ato de coragem, que pode lhes custar a própria carreira. Há uma carta circulando de profissionais do cinema de claro apoio à Palestina e exigindo imediato cessar-fogo. Entre os signatários da carta a favor do cessar-fogo, temos nomes como Mark Ruffalo, Cate Blanchett, Jessica Chastain, Oscar Isaac, Rosario Dawson, Quinta Brunson, Joaquin Phoenix, Alia Shawkat, Channing Tatum, Andrew Garfield, America Ferrera, Kristen Stewart, Wanda Sykes e Shailene Woodley, entre outros.

Diante do poderio imenso dessas máquinas culturais é impressionante a coragem desses atores e atrizes, mostrando que, para alguns, a dignidade e a honra valem mais do que o brilho entorpecedor das luzes da ribalta. Vejam mais sobre o tema aqui. Ahh, e por certo que o melhor documentário de toda a história sobre o ataque de Hollywood ao oriente e, em especial, à Palestina é Reel Bad Arabs – How Hollywood Vilifies Arabs. Apenas imperdível.

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Mística

Reza a lenda que uma vez na véspera de um jogo importante, o mascote do Botafogo, um cachorrinho sem raça definida chamado “Biriba”, fez “xixi” na perna do jogador Braguinha. Depois desse ato curioso o Botafogo ganhou a partida, com gols de, adivinhem, Braguinha. A partir dessa coincidência, em todo jogo importante o presidente Carlito obrigava o atacante botafoguense a oferecer suas canelas para servirem de poste ao cãozinho. A alternativa era “Biriba” lamber as chuteiras do jogador Otávio. Depois de algum tempo, quando se percebeu que o xixi do Biriba não garantia as vitórias, o assunto foi esquecido. Ficou para a história a figura emblemática do cãozinho torcedor.

Lembro também quando Tite colocou as fotos dos filhos e esposas dos jogadores no vestiário do Grêmio antes da partida contra o Corinthians na final da Copa de 2001, e naquele jogo o Grêmio sagrou-se tetracampeão da Copa do Brasil. Fez – mais uma vez – volta olímpica no Morumbi, cunhou para si o nome “Rei de Copas”, Tite ganhou seu primeiro título em nível nacional e a história virou lenda. Foi repetida em dezenas de decisões a partir de então, e muitos times tiveram sucesso, enquanto muitos outros perderam campeonatos profundamente motivados pela iniciativa. Depois esta ação caiu em desuso, pelas mesmas razões que levaram Biriba voltar a ser apenas um charmoso mascote.

Algumas iniciativas ganham impulso por estas coincidências vitoriosas, mas depois entram em decadência porque não se sustentam em resultados. Se o Internacional, que usou camisas embarradas para jogar sua primeira partida na Sul-americana após a enchente, tivesse vencido seu jogo na terça-feira, a mística da “camisa com barro” talvez tivesse uma vida mais longa. Infelizmente, para o coirmão, as camisas sujas entrarão para a galeria de boas iniciativas que, pelo menos para a torcida rubra, deverão ser esquecidas.

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Falsa Democracia

Vejam como funciona a “única democracia do Oriente Médio“. Já pensou se o Irã fizesse isso? Como a imprensa mundial se comportaria se Putin mandasse apagar notícias dos jornais de oposição? Imagine Maduro mandando colocar tarjas pretas nos hospitais de Caracas!! A farsa da democracia liberal ocidental está cada vez mais escancarada. É preciso ultrapassar a ilusão do capitalismo e buscar uma sociedade com mais liberdade e democracia.

FREE PALESTINE!!!

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Aparências

Lembrei de uma história curiosa sobre o tema do valor social que acreditamos ter. Um sujeito chega numa lanchonete de beira de estrada, pega o menu e escolhe um prato. Quando o garçom vem trazer a comida ele o reconhece.

– Robertinho!! Lembra de mim? Sou Afonso, seu colega do ginásio. Você era um dos melhores alunos da classe. Parecia ter um futuro brilhante!! Quem diria, agora é garçom aqui nesse boteco.

Ao que o garçom respondeu:

– Sim, Afonso, lembro bem de você. Não era brilhante, mas ambicioso. É verdade, sou garçom, mas não almoço em espeluncas como essa…

Ok, é apenas uma piada, mas pode existir uma moral nesta história: o simples fato de olhar o fracasso ou o sucesso dos seus amigos para avaliar o seu próprio apenas demonstra o quanto você tem dúvidas sobre o que fez com sua vida. Estas posições relativas no sistema de castas sociais pode ser muito enganosa. Muitas vezes o sujeito pobre que você encontra está nessa situação apenas por ter os escrúpulos e o caráter que você não teve em uma determinada encruzilhada da vida. Resta perguntar, afinal, quem é o “bem sucedido”? Aquele que abriu mão dos seus princípios para enriquecer, para “vencer”, para ultrapassar concorrentes inobstante as armas utilizadas? Ou seria aquele para quem os valores da solidariedade, do bem comum, da lealdade, do respeito e da verdade se mantém apesar dos desafios e mesmo diante de perdas econômicas?

O que é ser um “vencedor”? Alguém que se alia à massa para não se sentir sozinho, ou aquele que sente força moral interna suficiente para enfrentar multidões em nome de sua verdade, das suas ideias e dos seus valores? Aquele que ostenta posses ou quem demonstra caráter? Muitas vezes aquele sujeito mais simples e desconhecido é o que obteve o maior sucesso, porque jamais sabemos exatamente de onde partiu sua jornada. É o que diz a “parábola dos talentos“. Para um filho de mineradores de diamante é fácil se tornar bilionário, mas talvez seja muito mais difícil para um homem comum romper a longa corrente de abandono e violência que caracterizou a história de sua família. Apesar disso, quando olhamos o bilionário o chamamos de “vencedor”, enquanto o trabalhador pobre que luta para manter sua família nos parece o “perdedor”, a quem tanto desprezamos.

O homem que visitou o restaurante da beira da estrada apenas demonstrou como sua vida tinha limites pequenos, baseados apenas nas aparências. Seu amigo também, e a conversa entre ambos apenas revelou o quanto precisavam um do outro para sentir alívio diante dos seus fracassos.

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Imprensa

“Jornalismo é publicar algo que alguém não quer que se publique; o resto é publicidade”.

A frase acima foi erroneamente atribuída a Orwell e até Hearst, mas é mais antiga que ambos. Ela encerra uma grande verdade: o jornalismo serve para expor as entranhas do mundo, mostrar o que não querem que seja mostrado, trazer a luz o que está escondido. Serve para criar desconforto, trazendo à nossa frente o espelho do mundo para que possamos nos angustiar com a imagem refletida. Só a dor de ver nosso reflexo pavoroso pode nos mobilizar em direção à necessária transformação. Já a outra frase, criada pelo jornalista Joseph Pulitzer, que dá nome ao maior prêmio de jornalismo dos Estados Unidos, nos anunciava que o poder de manipular as massas através do controle da informação poderia tornar o cidadão comum em um mísero joguete na mão dos poderosos.

Israel lançou neste domingo (26/maio/2024) mais um ataque violento a Rafah causando a morte de pelo menos 45 pessoas – crianças e mulheres em sua maioria – instantaneamente incineradas; foram queimados vivos pelos chacais de Israel. Ao invés de “câmaras de gás” agora as vítimas do fascismo são torradas a céu aberto. Nenhuma palavra foi escrita sobre sobre esse ataque monstruoso nos jornais do “mainstream”. A grande imprensa, controlada pelo sionismo, silencia diante da barbárie racista e imperialista, e isso deixa claro que as grandes instituições de imprensa não retratam os fatos, mas se ocupam na montagem de uma “narrativa”. O jornalismo imperialista produz uma ficção criada sobre a visão ocidental, imperialista, opressiva, a qual controla a mente de grandes parcelas da população através dos seus inúmeros meios de comunicação.

Isso nos ensina como as gerações do passado foram manipuladas para fazer do nazismo uma proposta sedutora e de Adolf um grande líder. Por isso ele mereceu ser capa da Revista Time, exaltado por multidões, admirado até pela coroa inglesa e imitado até hoje. Essa avalanche de propaganda e lavagem cerebral também mostra como pudemos aceitar Collor, Temer, Deltan, Sérgio Moro e até Bolsonaro como figuras públicas de sucesso – até que seus malfeitos se tornaram deletérios para o próprio sistema.

A imprensa, como nós a concebemos ainda hoje, é uma máquina de conformismo, uma das mais eficientes ferramentas de manipulação da realidade. Seus donos sequer se importam com os balanços negativos do seu negócio, pois que estas instituições funcionam como fantásticas peças de pressão política, escondendo o que não convém mostrar (como o holocausto palestino), criticando banalidades dos inimigos (como o casaco vermelho do Ministro Pimenta) e tratando toda e qualquer nação como “ditadura” ou grupos como “terroristas”, bastando para isso que este país se rebele contra os desmandos do império ou que se organize para combatê-lo.

A democratização imposta pela Internet ameaçou a hegemonia e o monopólio de informação imperialistas. Não fosse pelas redes sociais jamais saberíamos dos crimes contra a humanidade cometidos agora por sionistas na Palestina. Mesmo a Al Jazeera seria boicotada nas redes de TV do Brasil e do mundo, como já ocorreu no passado e como acontece ainda hoje com as redes russas. Teríamos a mesma cobertura hoje que o Nakba teve em 1948: uma rede infinita de mentiras, falsos heróis, apagamento dos massacres, exaltação dos terroristas sionistas e o tratamento acusatório contra as próprias vítimas da limpeza étnica. O fato de ser possível hoje – pelo menos – contrapor-se às fraudes sionistas é um sopro de esperança para quem sonha com a disseminação plural e irrestrita da verdade, mesmo que ela possa, de alguma forma, nos desagradar.

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Jean Wyllys

Em dezembro passado em grupo de soldados israelenses explicitamente gays, depois de destruírem um bairro inteiro no norte de Gaza, realizaram uma “parada gay” na praia para comemorar sua vitória contra os civis palestinos. Em sua marcha de escárnio e horror, devem ter passado por cima de corpos mutilados e carbonizados de mulheres e crianças enterrados sob os escombros. A vitória do “ocidente branco” e cristão sobre os “bárbaros” do leste muçulmano se expressa através dos seus símbolos, e nada melhor do que os gays, veganos e trans serem nossos melhores representantes.

Essa festa é o que mais claramente representa a insanidade do identitarismo: a vitória da identidade sobre todos os outros valores, inclusive a vida e a condição humana dos inimigos. A festa de horror incluiu entre os participantes muitos veganos, para quem o amor aos animais os faz calçar botas feitas de PVC, para não serem obrigados a usar produtos de origem animal. Em sua perspectiva os animais que protegem valem muito mais do que as crianças palestinas que bombardeiam. Também os soldados trans estiveram representados, mostrando a plena diversidade entre aqueles que promovem a carnificina em Gaza. Esta comemoração macabra, porém pedagógica, está descrita no minuto 18:50 dessa entrevista de Max Blumenthal.

Ao mesmo tempo em que este horror acontece em Gaza, Jean Wyllys, o sujeito cujo apoio a Israel causou uma onda de repúdio alguns anos atrás, agora decreta a aposentadoria de Lula, a posição subalterna do PT no cenário nacional e o lançamento de Simone Tebet como candidata à presidência, que deveria ser entusiasticamente apoiada pelo partido dos trabalhadores. Que ele um dia tenha sido ativista LGBT, e integrado o PSOL eu até entendo, pela sua postura identitária, mas ser aceito como filiado ao PT é um escárnio com a esquerda brasileira. Acho necessário que abandone o campo progressista e assuma sua posição na direita identitária, lugar que sempre foi o seu. Simone Tebet de presidente e Sílvio Almeida de vice foi a proposta de Jean Wyllys, e quando o entrevistador ficou abismado com a ideia de oferecer o protagonismo a uma representante da direita ruralista, Jean explicou: “Você pode dizer que ela é uma ruralista de direita, mas eu respondo que ela é uma mulher, e a gente precisa das mulheres no século XXI. Sílvio representa os antirracistas, que o mundo também necessita.” Eu fico impressionado como pudemos ser enganados por tanto tempo por este farsante. Jean é um ignorante político e uma fraude identitária.

Por outro lado, eu me senti de alma lavada. Essa fala atual mostrou que minhas falas anteriores contra Jean Wyllys – pela sua posição covarde e oportunista sobre Israel e o sionismo – estavam corretas e não foram exageradas. Jean Wyllys é o maior exemplo do estrago identitário nas esquerdas.

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