Sobre o Aborto

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Tenho uma opinião sobre os debates relacionados ao aborto que voltaram a aparecer: se você não consegue debater com racionalidade e sem explosões de raiva, melhor nem começar. Você inevitavelmente apelará para SUAS angústias, traumas, crenças e sofrimentos pessoais, e normalmente não convencerá a ninguém.

Estes debates se assemelham a um jogo de tênis em que não há rede, mas um muro. Cada jogador bate na bolinha (seus argumentos) solitariamente, como se não houvesse o outro, ou como se deles apenas soubéssemos da existência pelo barulho surdo da bola batendo no lado oposto da parede. O jogo em verdade não existe, é uma simulação de contenda. Nos debates emocionalmente conduzidos produzimos apenas solilóquios concomitantes.

Uma discussão pressupõe a oportunidade de aprendizado com o contraditório. Se você acha que seu oponente é incapaz de mudar sua opinião, mesmo que traga bons argumentos ao debate, o diálogo é estéril e desnecessário. Uma perda de tempo.

A pergunta que eu tento sempre fazer antes de entrar em uma discussão é a seguinte: “se meu oponente trouxer argumentos fortes e consistentes eu terei coragem de mudar meu posicionamento?” Se a resposta for “sim” então você pode (e deve) debater. Se for “não” então você está diante de um dogma pessoal, e qualquer enfrentamento de ideias será inútil.

Pense nisso antes de se desgastar em debates polêmicos.

Minha opinião sobre o tema?

Minha opinião sobre o aborto era uma, mas mudou. Não porque recebi novos e bons argumentos, mas porque resolvi escutar alguns velhos e simples que sempre estiveram por perto, mas que eu me negava a considerar. Essa é uma das poucas vantagens de envelhecer: poder mudar de opinião pelo acúmulo de experiências, o que relativiza a vida e nos obriga a rever posturas recalcitrantes.

Posso apenas dizer que jamais serei protagonista de um aborto. Fui pai aos 21 anos e quando soube que minha namorada estava grávida eu ganhava metade de um salário mínimo como estudante plantonista de um PS. Mesmo assim nunca pensei em aborto. Pelo contrario: fiquei eufórico pela possibilidade de ser pai. Na época minhas convicções espirituais eram muito mais fortes do que qualquer outro modelo ético ou jurídico. Durante anos fui contra a legalização do aborto com os argumentos que todo mundo conhece e usa.

Entretanto, com o tempo me dei conta que os mesmos argumentos de combate ao aborto poderiam ser (e o são efetivamente) usados no combate ao uso de drogas, mas nunca tivemos tanta certeza quanto hoje de que AMBAS as guerras estão inexoravelmente PERDIDAS. Os jovens continuam a se drogar (e para mim a pior droga é o capitalismo, que dá prazer e vicia) e continuam a ter gravidezes não planejadas (não creio – salvo exceções – em gravidezes não “desejadas”. O desejo sempre está lá, basta procurar) para as quais preferem o aborto como solução imediata.

Exatamente pela constatação de que estamos diante de guerras fracassadas eu prefiro um armistício: liberem e deixem a responsabilidade para os sujeitos: a mulher e o drogado. Deixemos para eles o peso de suas decisões, mas vamos evitar as mortes, de grávidas e de traficantes, pela nossa incapacidade de entender o direito que eles têm de construir seus próprios caminhos. Da mesma forma como não farei um aborto em minha vida também não usarei drogas (a não ser quanto a torcer pelo meu time, mas está é outra discussão que envolve irracionalidade e paixão).

Por outro lado, em respeito à vida destas mulheres e meninos, vítimas de guerras estúpidas que apenas beneficiam bandidos, sou favorável à liberação do aborto e das drogas.

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O Judiciário e os autos

Porsche

Vamos parar com esse preconceito contra o judiciário do Brasil. Não há nada de errado na história do juiz dirigir o Porsche do Eike Batista pela simples razão de que essa apropriação está prevista na LEI.

Vejam bem: “é dever do juiz conduzir os autos do processo“.

Pronto. Está tudo explicado.

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O Mito da Circular de Cordão

Cordão Umbilical

Minha experiência com circulares de cordão é razoável. Muitas pacientes me procuravam com medo de uma cesariana porque o seu médico falava que o cordão está enrolado no pescoço, portanto uma cesariana era mandatária, sob pena do nenê entrar em sofrimento.

Circulares de cordão são banalidades na nossa espécie. Um número muito grande de crianças nasce assim. Eu tinha a informação que a incidência era de 30%, mas talvez seja um número antigo ou inadequado. De qualquer sorte, uma quantia considerável de crianças vem ao mundo desta forma. Já tive partos com 3 voltas bem firmes no pescoço, e com escore de Apgar 9/10.

É engraçado ver a expressão das pacientes quando conto pra elas que o que me preocupa não é o pescoço, mas o cordão. O fato do pescoço estar sendo pressionado é pouco importante se comparado com a compressão do cordão. A fantasia da imensa maioria das mulheres (mas também dos homens) é que a criança está se “enforcando” no cordão. Elas ficam surpresas quando explico que o bebê não está respirando, então porque o medo da asfixia? Acontece que existe espaço suficiente para o sangue transitar pela estruturado cordão, protegido pela geleia de Warthon que o recobre, mesmo com voltas em torno do pescocinho. Além disso, se houver uma diminuição na taxa de passagem de oxigênio pelo cordão isso será percebido pela avaliação intermitente durante o trabalho de parto. E esse evento NUNCA é abrupto. DIPs de cordão, como os chamamos, ficam dando avisos durante horas, e são diminuições fortes apenas durante as contrações, com o retorno para um batimento normal logo após. Marcar uma cesariana por um cordão enrolado no pescoço é um erro.

Sei como é simples e fácil apavorar uma mãe fragilizada contando histórias macabras a esse respeito, mas a verdade é que não se justifica nenhuma conduta intervencionista em virtude deste achado. Por outro lado, a presença deste diagnóstico tão disseminado nos consultórios e nas conversas entre pacientes nos chama a atenção porque, se não é um problema médico, é uma questão sociológica.

Esse exame parece funcionar como um acordo subliminar entre dois personagens escondidos no inconsciente dos participantes da trama, médico e paciente.

De um lado temos uma paciente amedrontada, desempoderada diante de uma tarefa que parece ser muito maior do que ela. Acredita piamente no que o “representante do patriarcado” lhe diz. Não retruca, não critica; sequer pergunta. Nada sabe, mas precisa do auxílio daquele que detém um saber fundamental aos seus olhos. Diante das incertezas, da culpa, do medo e da angústia ela se entrega, aliena-se. Fecha os olhos e coloca o “anel”, que faz com que ela mesma desapareça, entregando-se docilmente aos desígnios dos que detém o poder sobre seu destino. Oferece seu corpo para que dele se faça o que for necessário.

Na outra ponta está o médico. Sofre em silêncio a dor da sua incapacidade. Pensa baixinho para que ninguém leia seus pensamentos. Sabe que pouco sabe, mas também tem plena noção do valor cultural que desempenha. Nada entende do milagre do nascimento, mas percebe seus rituais, muitas vezes ridículos, outras vezes absurdos e perigosos, produzem uma espécie de tranquilização nas mulheres. Não se encoraja a parar de encenar, porque teme que não lhe entendam. Continua então repetindo mentiras, esperando que não descubram o quão falsas e frágeis elas são. É muitas vezes tomado pelo “pânico consciencial”, ou o medo que surge diante de uma tomada de consciência. Muitas vezes age como um sacerdote primitivo que, por uma iluminação divina ou por conhecimento adquirido, percebeu que suas rezas e ritos de nada influenciam as colheitas, e que o que governa estes fenômenos está muito além de suas capacidades. Entretanto, sabe que os nativos precisam dos rituais, que ele percebe agora como inúteis, porque assim se dissemina a confiança e a esperança. Mente, mas de uma forma tão brilhante, sofisticada e tecnológica, que deveras acredita no engodo que produz.

Ambos, mulher e médico, precisam aliviar suas angústias diante de algo poderoso, imprevisível e incontrolável. Olham-se e tramam o golpe. O plano que deixará ambos aliviados diante do enfrentamento. Mentem-se com os olhos. Eu finjo saber; você finge acreditar. Peço os exames. Todos. E mais um pouco. Procuro até encontrar aquilo que nos fornecerá a chave. A minúscula desculpa. Eu, com ela nas mãos, posso realizar os rituais que me desafogam da necessidade de suportar a angústia de olhar e nada fazer. Você, poderá escapar da dor de aguardar e fazer o trabalho por si. Poderá dizer que “tentou”, mas, foi melhor assim. O nenê poderia correr perigo. O cordão poderia deixar meu filho com problemas mentais, etc.

Feito. Pedido o exame, lá estava: O cordão, mas poderia ser o líquido, a posição, a placenta, a ossatura, as parafusetas protodiastólicas. Quem se importa? O carneiro, a virgem, o milho, todos são sacrificados. Quem se importa? Livramo-nos da dor. Anestesiamos nossas fragilidades e angústias. Ritualizamos, encenamos e todos acreditam. Nem todos! Alguns acordam, mesmo que leve muito, muito tempo.

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O Papel do Artista

Jerry Seinfeld

O comediante americano Jerry Seinfeld uma vez foi perguntado sobre a razão de ter terminado seu programa no auge da popularidade, quebrando recordes de audiência e sendo o programa mais visto na TV americana. Quando houve o anúncio do fim da “sitcom” até o presidente americano na época, Bill Clinton, solicitou a sua manutenção por pelo menos mais um ano. Apesar de todos os pedidos ele se manteve firma na ideia de terminar este trabalho depois de 9 temporadas de extremo sucesso.

Vou dar aqui a minha interpretação pessoal da sua resposta, já que não recordo das suas palavras exatas. Entretanto, as explicações que ele deu sempre fizeram muito sentido para mim no que diz respeito às ações que os indivíduos produzem para mudar a sociedade em que vivem, em especial nas pressões que tais sujeitos sofrem do entorno.

Ele explicou assim as razões para o fim de “Seinfeld”:

“Aprendi com o stand up que você deve parar exatamente neste ponto, quando as pessoas saem de sua apresentação com o riso ainda nos lábios e o desejo de que o show continue. Insistir para além desse ponto é oferecer para as pessoas uma ilusão: a satisfação de seus desejos.“

As necessidades podem ser supridas pelo homem, os desejos jamais. Por necessidades básicas entendo comer, beber, dormir, amar e reproduzir-se, e isso podemos oferecer como fundamento para a vida humana. Para além disso temos os desejos, que vão da mulher mais bonita ou o homem mais forte até os mais sofisticados “gadgets” tecnológicos. Estes desejos são, por definição, impossíveis de suprir. Para cada patamar alcançado desejamos mais, e mais, e mais… indefinidamente.

O entrevistador então questionou: “Mas não achas que o desejo das pessoas deve ser satisfeito? Todos queriam que o show continuasse. Ele fazia sucesso, era famoso, trazia alegria a todos. Porque parar diante de tantas conquistas? Porque resistir ao pedido sincero de tantas pessoas que amavam seu trabalho?“

Jerry respondeu:

“Acima de tudo eu acho que nunca devemos dar o que as pessoas querem. Esse não é o papel do artista. Você deve dar o que VOCÊ acha melhor, as suas ideias, sua arte, seu talento e seu esforço. As pessoas devem segui-lo se assim o desejarem, ou esquecê-lo, se assim for justo. Entretanto, jamais o verdadeiro artista deve entregar às pessoas o que estas lhe pedem.“

O reverso dessa postura é o fracasso criativo, mesmo que haja um relativo e efêmero sucesso nas audiências menos exigentes. Quando o artista canta o que o público quer ouvir ele fracassa no seu intento renovador e revolucionário. Quando o ideólogo fala o que todos querem escutar ele falha na sua tarefa de sacudir ideias e conceitos. Quando o ativista caça desesperadamente o afeto de seus seguidores, por medo de decepcioná-los, estará falhando em sua tarefa de despertar mentes e estremecer a cultura.

Nietzsche já nos ensinava que o verdadeiro gênio só é reconhecido um século depois de sua morte. Para quê tanta pressa em ser amado e admirado?

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Primeira Emenda

Liberdade e escravidao

Percebo com pesar que no meio onde vivo apenas duas pessoas consideram o “First Amendment” uma peça civilizatória altamente correta e sofisticada: eu e o meu pai. Creio que esta coincidência se dá pelo fato de termos sido queimados em fogueiras vizinhas em um passado não muito distante por dizermos coisas que desagradaram certos poderosos. Apesar do tempo ter confirmado a correção de nossas afirmações a Verdade ainda é uma prova insuficiente para arrefecer as chamas inclementes.

Aqui, na parte de baixo do planeta, defender o direito sagrado que um idiota tem de dizer o que pensa significa o mesmo que associar-se à sua idiotia. Para a maioria das pessoas Charlie Hebdo devia ser calado porque – para elas – esculachar uma religião é errado; para mim não se pode calar a crítica e muito menos cercear a liberdade de expressão, mesmo que o preço seja alto e custoso. Defender Charlie NÃO é o mesmo que defender a islamofobia, mas significa a defesa da livre manifestação crítica, e o respeito ao direito de se expressar, mesmo de forma jocosa, sobre qualquer questão.

Talvez as minhas queimaduras tenham me proporcionado uma visão radical e mais firme sobre a importância fundamental da liberdade como propulsora da cultura, mas a verdade é que ainda não encontrei argumentos suficientemente fortes para me demover da opinião de que nenhum governo ou instância social pode proibir a livre manifestação de pensamentos, por piores que eles possam parecer. Prefiro o pagamento de qualquer preço, mas não posso aceitar que uma sociedade tenha possibilidade de evoluir amarrada por dogmatismos de qualquer natureza.

Mas, por aqui, só me cabe a resignação e o reconhecimento de que minha visão é francamente minoritária. As condenações que vejo às idiotias não tem o tom democrático que eu admiro. Eu acho que não se evolui nas ideias impedindo os outros de se manifestarem. O que devemos fazer é produzir um posicionamento FORTE e INTENSO contra posturas misóginas, racistas ou sexistas, mas não impedir a manifestação do contraditório, seja ele qual for. Não esqueça que o debate sobre o heliocentrismo já levou pessoas que o defendiam à fogueira apenas por pensarem de forma diversa do modelo hegemônico.

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Porque patologizamos o parto?

A análise acima do livro “O Doente Imaginado“, de Marco Bobbio, se refere à construção de uma entidade nosológica a partir de sintomas comuns, como constipação. O objetivo é introduzir um medicamento com abrangência gigantesca e com lucros igualmente incalculáveis. Pensem em quantas pessoas conhecidas tem “intestino preso” e imaginem o mercado de drogas para este sintoma.

Entretanto as mesmas regras usadas para transformar transtornos comuns em doenças podem ser utilizadas para fazer a mudança da nossa percepção do parto, de evento fisiológico para uma patologia perigosa e traiçoeira. Toda uma cultura sobre o parto se construiu sobre esta deformação da realidade, que desvia o olhar para a riqueza de fenômenos adaptativos milenarmente construídos por sobre a arquitetura fisiológica do parto e incentiva uma visão demeritória, depreciativa e patologizante da mulher parindo.

O roteiro é o mesmo descrito no texto para a criação de doenças. Basta escutar os especialistas em “patologia obstétrica” para ficar convencido que as mulheres apenas sobrevivem aos horrores dos partos em função das técnicas, drogas, especialistas e os locais altamente tecnológicos elaborados para atender a este evento arriscado.

Os passos são idênticos:

1 – Fornecer números: des-subjetivar o evento e transformar o parto em um fato meramente epidemiológico, longe da subjetividade e da individualidade de cada mulher parindo.
2 – Despertar temores: mostrar cada evento catastrófico como sendo o destino certeiro de toda a mulher que ousar parir de forma natural e fisiológica.
3 – Sugerir exames: ecografias sem embalsamento científico em todas as consultas de pré-natal, uso de vitaminas sem sentido, manipulações exageradas nas consultas e uma postura autoritária dos profissionais.
4 – Banalizar a solução: entregue as decisões na mão de quem “sabe”. Não questione, não pergunte, não desconfie; apenas obedeça. Afinal, eles sabem tudo o que pode acontecer de errado com você.

Quando e por quê tornamos o parto uma patologia que merece ser tratada e medicada?

“A construção da percepção patológica do nascimento na cultura ocidental, e a subsequente aceitação pelas mulheres desta visão, é um dos capítulos mais fascinantes da história da mulher no ocidente, e um dos menos estudados, por razões históricas e contextuais. Entretanto, creio que a plena libertação das mulheres dos entraves da cultura patriarcal não se dará negando seus aspectos mais femininos. Pelo contrário, será pelo reforço de suas especificidades.”

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Sobre as Medidas

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Sobre as últimas medidas do governo relativas ao parto…

Ninguém tem interesse em restringir o direito de escolha para as mulheres. Isso não está escrito em nenhuma normativa do Ministério da Saúde e não há como interpretar dessa forma quando se conhece o texto e a intenção das medidas. Pelo contrário, o que se pretende é oferecer alternativas VERDADEIRAS, e não as falsas opções que nos acostumamos a ler e ouvir. Vemos com frequência as mulheres sendo obrigadas a optar por aquilo que não desejam, mas que são condicionadas a escolher, seja por um medo induzido, por pressões diversas e por uma cultura que criminaliza o parto de forma tão vigorosa que muitas mulheres acabam rechaçando uma função vital e um processo fisiológico natural como o nascimento pela via vaginal. As medidas do governo pretendem estancar a hemorragia de indicações cirúrgicas esdrúxulas, maquiadas com desculpas que tristemente conhecemos: “a dor é terrível” (mas a cesariana é bem mais dolorosa e a dor permanece por mais tempo), “a cesariana é segura” (verdade, mas o parto normal é MUITO mais seguro, para mães e bebês), “o cordão enrolado sufoca” (outra lorota, pois 38% dos bebês nascem com circulares e muito bem), “bebês grandes“, “bacias pequenas” (avaliados pelo “olho” do cirurgião), “falta de passagem” (leia-se “falta de paciência“), “sofrimento fetal” (excesso de intervenção, abandono, oxitocina e decúbito forçado) e tantas outras “viagens” que conhecemos.

Quanto às mulheres que optam por cesarianas, eu ainda acho que em nome do protagonismo pleno vale a pena aceitar esta escolha. Porém é preciso garantir que estas mulheres estejam informadas das vantagens e desvantagens dessa opção, e de que essa escolha AMPLIA os RISCOS tanto para ela quanto para o seu bebê. Todavia, eu ainda questiono se o SUS deve pagar esta conta. Uma cirurgia de nariz meramente estética (sem indicação médica curativa), ou de mamas, barriga, implante de cabelo, etc… não é custeada pelo SUS (isto é, todos NÓS), pois não é um tratamento médico, mas estético. Uma cesariana sem indicação clínica (física ou psicológica) poderia cair na mesma definição. Acho, entretanto, que se trata de um ponto aberto para o debate, e não acho que se deva fechar questão sobre este aspecto das medidas.

Uma mulher que deseja ser operada para o nascimento do seu filho pode fazer esta opção, que é válida e deve ser respeitada, por mais que me desagrade pessoalmente (mas a minha opinião não vale NADA diante da opção legítima de uma mulher). Entretanto não consigo enxergar um exagero ou uma pressão pelo parto normal. Vejo algumas mulheres ofendidas com a ênfase que se dá à fisiologia do nascimento, e se sentindo mal por escolherem o oposto que os estudos mostram, mas estas mulheres certamente pertencem aos 30% que escolhem cesarianas desde o princípio, e sobre ela pouco temos para agir, até porque respeitamos suas escolhas. Todavia, estas medidas se dirigem principalmente às outras SETENTA POR CENTO  de gestantes que desejam partos NORMAIS e acabam fazendo cesarianas, que NÃO foram a sua escolha inicial quando se souberam grávidas. Para as mulheres que escolhem a via cirúrgica mesmo depois de confrontadas com os riscos aumentados para ela e para o seu bebê, só podemos respeitar esta decisão, e sem julgamentos. Infelizmente muitas mulheres ainda acham que expor estatísticas e estudos é ofender sua opção, quando na verdade é apenas a tentativa de oferecer escolhas verdadeiras e éticas.

A propósito, o número de mulheres que PEDEM cesarianas no início de uma gravidez é de 30% no setor privado, mas muito menor no setor público. Mesmo aqui no Brasil a imensa maioria das mulheres escolhe respeitar a fisiologia de um parto. As mulheres mais pobres percebem facilmente como uma cesariana é de recuperação mais difícil e lenta. Ela também prejudica o seu trabalho diário de cuidar da casa e dos filhos. Estas bravas mulheres também conhecem as vantagens infinitas de um parto fisiológico sobre uma cirurgia. Mas… sabem qual é o percentual de mulheres que fazem a mesma opção na Inglaterra? Menos de 2% escolhem uma cesariana quando iniciam o pré-natal. E por quê? Certamente é porque elas não temem os maus tratos e o abandono que muitas mulheres relacionam com o parto normal. A violência obstétrica lá é uma coisa muito distante, enquanto aqui é o dia-a-dia. Para mudar a mentalidade antiga de “parto-sofrimento-dor-angústia-trauma” é necessário que transformemos a CULTURA através de medidas proativas, na direção que está sendo oferecida pelo governo. Algumas medidas podem ser impopulares entre os profissionais, podem irritar as corporações e as instituições que nunca aceitaram ser questionadas, mas seguramente são um avanço pela democracia plena no acesso à saúde e na ampliação do espectro de escolhas que as mulheres podem ter.

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Religião

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Desculpem-me os religiosos e crentes.

Sei das suas crenças e as respeito, pois um dia também as tive. Quando cito textos retirados das palavras de Jesus e de Deus faço-o para mostrar que a Bíblia é um livro escrito por humanos e para humanos, com valores humanos e não divinos. Qualquer pessoa retira o que bem entender dos livros “sagrados”. Podemos usar qualquer fundamentalismo sobre tais livros , seja ele a Bíblia, o Corão ou o Torá. Podemos olhar as palavras como são, ou interpretá-las da maneira como bem entendermos. É por isso que este e qualquer outro livro “sagrado” não são confiáveis para ditar normas humanas. Eles são num testemunho de histórias contadas há séculos, com valores e personagens daquela época, e que cumpriam funções políticas adaptadas à sua época também.

Quando esprememos a Bíblia e retiramos o sumo doutrinário mais essencial aparecem apenas frases como “amai-vos uns aos outros“, “seja teu falar sim-sim, não-não“, “o amor cobre a multidão de pecado” que, de forma variada, todas as outras religiões dizem no seu intento civilizatório de otimizar o esforço de progresso das sociedades humanas através da fraternidade. Portanto, não é necessário submeter-se a senhores, “intermediários de Deus”, para assumir uma atitude fraterna. Eu, pessoalmente, não procuro ser fraterno ou justo porque Jesus ou Buda me pediram ou exigiram, mas somente porque acho justas e corretas tais ações. Um Deus que criou o universo não poderia ter defeitos piores que os meus, como ódio, vaidade, rancor e raiva, mas a Bíblia é recheada de chiliques divinos, típicos de um menino manhoso e mimado, sujeito a ódios e vinganças. Certamente que a Bíblia – e menos ainda o Corão – não me oferece uma imagem adequada de criador.

Contínuo a crer que as religiões atrasam o mundo, e suas crenças mais separam do que unem os homens. A fraternidade não precisa de palavras mágicas ou gurus; ela se expressa como um roteiro natural de progresso humano, superior a qualquer outra forma de relação entre as criaturas. Esta é sua força essencial, e não as palavras de qualquer Avatar.

Eu respeito este tipo de visão de mundo, mas tenho muita dificuldade de entender. Uma coisa que me deixa atônito é os adesivos em automóveis onde pode-se ler: “Propriedade de Jesus“. Como alguém pode se sentir feliz ou orgulhoso por ser propriedade de outro, mesmo que seja um outro supostamente maravilhoso? Eu pergunto: se o seu filho fosse adulto e dissesse “sou propriedade do meu pai” você se sentiria satisfeito, orgulhoso da criação que proporcionou a ele? Você se consideraria um bom pai por ter mantido um filho atrelado a você, dependente de você, idolatrando você, sacrificando-se para agradar as suas vaidades e caprichos? Que tipo de pai acha bonito um filho subir uma escadaria destruindo os joelhos para honrar seu nome? Que tipo de pai acha bonito um filho se humilhar diante de todos confessando sua fragilidade e dependência? Pois eu não consigo entender que o “criador de todas as galáxias e mundos conhecidos” seja mais tolo, vaidoso e egoísta do que o mais mundano dos mortais.

Um Deus poderoso o suficiente para construir o Universo teria que ser pelo menos melhor do que eu. E eu não trataria um filho com tanta displicência como Deus – todo poderoso – trata seus filhos.

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Alma

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“É exatamente no momento em ela se mostra na radicalidade do feminino levado ao extremo, quando o corpo se enche de alma e suplanta sua arquitetura de carne e veias, é que surge o ponto cego, o significado obscuro, misterioso e incompreensível para aqueles que assumem a visão tecnocrática do parto.”

Jamais entenderão.

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Crise

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Como todo movimento social que ameaça poderes instituídos – em especial o biopoder – a humanização do nascimento cresce de forma lenta, consistente e continuada. Em muito lugares, apesar do recrudescimento de posturas autoritárias por parte de alguns profissionais, a proposta de rever criticamente o modelo de atenção ao parto mostra-se cada vez mais atual e forte. Novas doulas estão surgindo e novos profissionais – mais preparados para a “nova obstetrícia” – começam a tomar o lugar ocupado até então pelo velho paradigma.

Para atender o contingente cada vez maior de mulheres bem informadas sobre o tema a autoridade inquestionável do profissional já não é mais suficiente. Empatia, gentileza, respeito e atualização tornam-se, a partir de agora, elementos indispensáveis, ferramentas fundamentais na atuação profissional, junto com a parceria necessária com os outros profissionais que participam no parto.

Por outro lado, é constrangedor ver o que escrevem alguns representantes da categoria obstétrica. Ao invés de continuarmos afirmando absurdos – como a cesariana não causa mal – e se colocar de costas para o RESTO DO MUNDO que se preocupa com o excesso de cesarianas, melhor faríamos se tivéssemos uma postura crítica, dura e profunda, aproveitando o momento de crise que estamos vivendo na atualidade. Estas circunstâncias históricas nos proporcionam oportunidade de refletir sobre os rumos que a tecnocracia aplicada ao parto nos levou, e estamos perdendo tempo tentando tapar o sol com a peneira, caindo no ridículo e atrasando o progresso do debate.

Sim, cesarianas multiplicam a morbi-mortalidade de mães e bebês, e para isso temos boa ciência para confirmar acessível facilmente na Internet. Os próprios pacientes já sabem disso. Tentar usar refrões como “o direito de decidir” das pacientes apenas esconde o desejo de que as coisas se mantenham como estão, e que as pacientes continuem a realizar cesarianas (principalmente no setor da medicina suplementar) pela forte pressão psicológica que sofrem de todos os lados, inclusive dos profissionais.

O momento é ideal para a reavaliação dos rumos da assistência ao parto, exatamente pela crise de valores e pelo crescimento de uma postura mais consciente por parte dos pacientes. Não há mais como atender gestantes e acreditar que elas são ignorantes do significado amplo – psicológico, fisiológico, mecânico e espiritual – de um parto e de uma cesariana. Os novos médicos vão encontrar as “novas mulheres” que já cresceram com a Internet na ponta dos dedos e que sabem exatamente do que trata a medicina baseada em evidências e o que são direitos reprodutivos e sexuais.

Espero que estejam preparados.

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