Bruma

A bruma que percorre a humanização do nascimento é feita da névoa da transcendência. Por indefinível, enquanto sopro, e imaterial, enquanto ideia, ainda assim é tão verdadeira e presente quanto a brisa e a paixão. Sem ela, aqui definida como o olhar que percebe o que se esconde atrás do véu das aparentes banalidades da vida, não há como entender o gozo que se instala no corpo em dor, o trinar dos dentes em falsa agonia, o suor que brota no músculo retesado, a lágrima salgada, a boca ressecada, o corpo que se projeta e a mão que se fecha.

Sem levantar o manto que encobre a essência simbólica e espiritual de um nascimento tudo é apenas real, e o real é a mais falsa de todas as verdades.

Sem a transcendência não é possível captar sua dimensão.

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The Cétera Brothers

Cétera

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Pena de Morte

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Para além das questões éticas e humanas, a pena de morte é burra e estúpida. O assassínio patrocinado pelo estado é absolutamente ineficiente para educar ou coibir. Se a pena de morte funcionasse teríamos uma diminuição significativa de crimes e assassinatos nos lugares onde ela existe, mesmo no Brasil. Sim, porque a pena capital existe no nosso país, apenas não é legalizada. Nas favelas, comunidades e bolsões de pobreza impera esta pena entre as facções do tráfico. Matam-se uns aos outros por penas impostas por eles mesmos. Fosse a morte decretada um anteparo ao crime e reinaria a paz nos domínios do tráfico. Não é o que se vê. Uma porcentagem significativa das mortes em nosso meio são decorrentes da ilegalidade oportunista deste comércio. Sair matando bandidos nunca ofereceu qualquer vantagem e jamais nos conferiu mais segurança.

A morte é IGUAL para quem morreu, tenha sido este assassinato cometido pelo governo ou por outros grupos. Portanto, do ponto de vista de quem teme, ser morto pelo Estado ou pela facção rival dá no mesmo. Pior: a morte pelos grupos paralelos tem julgamento sumário e você não tem defesa, e isso deveria te causar muito mais medo e muito mais cuidado. Pois não ocorre nada disso, e as agressões entre os grupos em disputa por pontos continuam, como se a própria morte fosse apenas um detalhe. Por isso mesmo que a pena de morte não faz diferença alguma para coibir o crime. Os bandidões do velho oeste já diziam isso no tempo do Jake Grandão: “Posso matar quantos eu quiser, mas só conseguem me matar uma vez“.

O Estado precisa ser o condutor da civilidade. Não se admite que ele esteja não animalizado quanto às pessoas a quem procura educar e proteger. Um Estado matador é medieval e inaceitável, sem falar que os sujeitos que caem nas garras desse governo vingativo são os mesmos grupos de sempre: pretos, pobres, miseráveis, inimigos políticos, etc…

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Violências e gênero

Violencia Mulher

A violência contra as mulheres é uma ferida aberta em nossa sociedade. Ponto. Não há como negar esta realidade e nem é possível colocar panos quentes em uma tragédia cotidiana que tira a vida de centenas de mulheres todos os anos por um machismo violento e desmedido. Por outro lado, eu creio ser possível complexificar a questão, mesmo sabendo que qualquer sujeito que fale da violenta perpetrada PELA mulher será sempre julgado como “machista”, insensível, ou que vê o cisco e não enxerga a trave diante de seus olhos. Porém, quando uma mulher inteligente, aparentemente madura, com curso superior e bom emprego te conta que há 5 ou mais anos apanha sistematicamente do seu parceiro(a) fica a dúvida até que ponto existe uma violência doentia por parte do parceiro e quando, associado a isso, há uma patologia da relação que faz aparecer nela um gozo (não confundir com prazer ou vontade) de apanhar. Estudar este gozo é fundamental para que esta mulher desfaça um sistema de violência que se retroalimenta. Acontece muito com alcoolistas: uma menina testemunha as violências aplicadas na mãe pelo pai durante toda sua infância e quando mais tarde se casa, adivinha quem é o marido? Um alcoolista violento. Ela repete a cena infantil em sua relação adulta.

Dizer que uma mulher participa inconscientemente de um jogo erótico patológico destrutivo NÃO é a mesma coisa que dizer que “ela pediu“, ou que “ela merece“, e muito menos que o parceiro dela está desculpado, perdoado ou é inocente. Significa apenas que ela também precisa ser ajudada para que possa fugir do padrão. Caso contrário ela corre o risco de se separar desse sujeito perturbado e encontrar outro drogadito violento, por nunca ser capaz de entender o que a levara a procurar relações em que sofre e é violentada. Existe um campo de estudo e pesquisa da psicologia (e da criminologia) chamado “vitimismo” que estuda as relações patológicas de pessoas que sempre são vítimas de relações ou situações deste tipo, mostrando haver um determinismo psicológico inconsciente que as leva a se colocar neste modelo de relação. Eu mesmo conheci uma mulher, minha paciente, que namorou três sujeitos na vida, e todos eles acabaram se mostrando no transcorrer da relação como homossexuais, o que pôs fim aos relacionamentos. Ela ficava muito decepcionada e não acreditava como podia ser tão azarada. Nunca acreditei na tese que ela mesmo trazia do azar, mas o caso dela parecia provar um tropismo por trejeitos e manifestações sutis que ela identificava como atrativos, e a surpresa pela descoberta da homossexualidade operava na ordem do inconsciente, ao invés de conscientemente percebido.

A violência das mulheres só é mais branda porque elas são fisicamente e politicamente mais frágeis. No filme  “O Senhor das Moscas” este tipo de ilusão é desfeito não com relação às mulheres, mas com os pequenos. Nós temos a ilusão de que as crianças são “do bem“, anjinhos inocentes e carentes, apenas porque NÃO conseguem fazer muito mal, pela sua fragilidade. Esse filme desmistifica a “candura” das crianças, assim como Freud desmistificou as relações eróticas que elas estabelecem com suas mães.

As mulheres não batem em maridos – ou os agridem com a mesma intensidade e frequência – apenas por serem frágeis e não por serem virtuosas. Esse essencialismo “mulheres do bem, homens truculentos e violentos” é tosco e tolo. Basta até você acompanhar os relatos de violência doméstica para perceber que, em muitos casos, a mulher foi vítima apenas porque era a mais fraca e não porque era moralmente superior, mais calma, ponderada, ou uma vítima silenciosa. Não é justo tratar os homens desta forma estereotipada, porque isso não ajuda a causa das mulheres. Temos que combater a violência contra a mulher sem romantizar estas relações e entendê-las como uma interação patológica de gozos destrutivos, em que ambos tem responsabilidade, mas que uma parte – a mais fraca – corre sério risco de vida.

Quando falamos de minorias como as mulheres (são maioria, mas politicamente e socialmente podem ser consideradas uma minoria) qualquer menção às perversidades femininas – inclusive em uma relação violenta por parte do parceiro – será julgada como “acusar a vítima“, quando na verdade muitas vezes se usa para que fique claro que uma relação é SEMPRE uma dualidade feita da interação de sujeitos, amalgamados e entrelaçados em seus fantasma. Se não é justo absolver os homens das violências e mortes praticadas, também é certo entender que nessa junção de almas existem parcelas de responsabilidade em ambos os sujeitos.

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Coligay

Coligay

Para todos que me perguntam se era verdade, aqui está a prova documentada no livro de Leo Gerchmann. Houve um tempo, há 35 anos, que não havia homofobia no futebol. Existia uma torcida alegre, “gay”, assumidamente gremista e que circulava no estádio sem nenhum constrangimento. Essa era a Coligay, mistura de “Coli”, da boate gay Coliseu que havia na cidade e “Gay” que vem do fato de serem…. alegres. Isso acabou, e uma torcida assim em qualquer canto do Brasil seria repudiada pelos homófobos, muitos deles – como Freud ensinou – nada mais do que “meninas que tem medo de seus próprios impulsos”. Mas como explicar essa mudança radical, para o lado oposto do que se imaginaria pela sofisticação da cultura, em direção ao preconceito e à intolerância?

A “culpa”, ao meu ver é da própria conscientização da comunidade gay. Quando o “homossexualismo” caducou e deu origem à homossexualidade, deixando os manicômios e consultórios para ocupar as casas e ruas, a antiga “doença” deixou de existir, dando lugar a uma simples variação da infinita diversidade da orientação sexual humana. Sendo assim, o que era patologia virou comportamento, fazendo com que todos nós estivéssemos sujeitos a ele, e não apenas os “pederastas”, degenerados e doentes. A partir desse novo conceito a homossexualidade virou uma ameaça para o cidadão comum. Ninguém estava livre de que alguém descobrisse um pensamento, um desejo escondido ou uma vontade inconfessa. A masculinidade precisava ser constantemente provada, nem que para isso fosse necessário usar da nossa costumeira brutalidade testosterônica. Era preciso exorcizar tal perigo, uma ameaça terrível à nossa persona social. E qual seria a melhor forma de se livrar desse peso?

Ora, expurgando e negando os desejos, jogando-os no outro. Os outros. A torcida adversária, os gaymistas, os coloridos, as Marias, as frangas, os pó de arroz, bambies, etc. A liberação dos costumes e a aceitação da homossexualidade como uma orientação de objeto sexual deixou-nos a todos inseguros. Este pânico, em especial nos jovens que frequentam futebol, manifestou-se como flagrante sentimento homofóbico.

Eu sonho com o dia em que renasça a Coligay, e juro por Alah que no dia que ela aparecer no estádio estarei ao lado, seja para torcer alegremente ou para fazer um círculo de proteção aos gays que desejam expressar seu amor pelo time do coração. Sei que Bebel, minha filha, estará lá comigo. Talvez esse dia, em que ultrapassarmos o preconceito e a miséria humana, nem esteja tão longe de acontecer. Será uma data memorável, e queria muito que meu time fosse, mais uma vez, pioneiro.

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Governabilidade

Dilma Rousseff: 'Do I look happy, Mr Obama?'

O sonho juvenil de um partido que governa despoticamente, sem parlamento é tudo, menos maduro. A opção que muitos apontam ingenuamente para o PT é a formação de um ministério sem nomes de aliados, sem direita e firme nos propósitos originais do PT. Isto é: exigem que a Dilma governe para a metade do Brasil e a outra metade que se ferre, afinal perdeu as eleições, não?. Sinto muito caros sonhadores, mas não é assim que funciona a democracia, que nada mais é que a arte de engolir sapos em nome de um projeto de governabilidade.

Collor negligenciou esta verdade política e achou que podia governar sem partido e ferindo interesses da Rede Globo, a mesma que o havia colocado lá. Pagou caro, e hoje sabemos que  Collor tinha um pensamento moderno e desenvolvimentista. Lembrem que foi ele quem modernizou a indústria de automóveis no Brasil, composta na época, de “carroças”. Boas intenções e ideias modernas não são suficientes; sem apoio e sem partido é suicídio.

Com um ministério “puro”, socialista e progressista, sabem quantos projetos passariam pelo congresso, francamente oposicionista? ZERO!!! Mas talvez o sonho dos petistas mais ferrenhos e puristas seja ver a Dilma empossada como imperatriz, ou Rainha despótica, que não tenha necessidade de uma câmara ou um senado. Bem, aí é outra história, e nessa canoa furada já embarcamos. Repetir os erros é imaturidade, aprender com eles é o caminho.

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Iconoclastia

Jorodowsky

Para alguns a “moral”, com sua essência cambiante, humanamente mutante e instável, é superior à “liberdade”, que é um valor absoluto, a estrela ao redor da qual nossa alma gravita e a cada circunvolução mais dela se aproxima. É ponto no infinito que nosso espírito foi construído para almejar.

Eu não aceito tal ponto de vista.

Posso suportar as piores “imoralidades” – como uma mulher casando duas vezes, uma gestante reconhecendo o prazer de parir, ou pessoas do mesmo sexo se amando – porque sei que o tempo dará conta do nosso assombro, mas não tolero qualquer ofensa ao inescapável destino de sermos livres. Pode parecer, para alguns menos avisados, que defender a iconoclastia de Charlie ou de alguns “comediantes radicais” significa aceitar por completo suas ideias ou concordar com seus pressupostos. Jamais. Entretanto, estas vias de escape da indignação social quando fechadas significam a morte da liberdade dentro de cada um de nós. Calar a boca de alguém porque achamos que suas palavras estão erradas é um crime contra nossa própria alma.

O mundo seria um pedaço de merda inabitável sem a iconoclastia, a ousadia e a loucura. Toda a vez que penso nos ataques ao Charlie Hebdo percebo que a maioria das pessoas que habitam este mundo ainda não estão preparadas para a liberdade e a autonomia. Somos, de forma geral, pré-adolescentes da Vida. Gritamos e lutamos para ganhar, como parte da mesada, a sonhada liberdade, mas moramos e comemos por obra de nossos pais. Cruzamos o país para estudar e posamos de “livres”, mas ligamos pra casa quando o dinheiro acaba.

Liberdade é bem mais do que isso; é fazer o que é preciso ser feito sem ferir a liberdade do outro. Quando alguns se ofendem com a ferocidade do ataque e com a violência contra a liberdade de imprensa rapidamente se esquecem de violações semelhantes que suportam ou aceitam, em nome da “moral”, dos “costumes” ou do respeito às outras religiões. Ha poucos anos nos calamos diante da proibição de um filme de Troufaud que mostrava uma Maria humana e mulher, e há menos tempo ainda silenciamos quando a Igreja impediu um “Cristo pobre” na avenida. Deveríamos fazer o dever de casa, aceitar visões discordantes e assegurar a liberdade de expressão, mesmo quando ela contém tolices ou quando afronta nossa visão de mundo.

Sempre que eu cito alguma censura oficial que ainda perdura no Brasil existe alguém que descobre uma ótima desculpa. Eu mantenho minha fé na liberdade e repito que não há tema suficientemente sagrado sobre o qual não possa recair uma piada. Suportar exageros faz parte do combate incessante ao obscurantismo. Para os que reclamam daqueles que ultrapassam dos limites lembro que a genialidade de Voltaire se expressava exatamente pela constante vigilância contra a sacralidade de qualquer pessoa ou assunto. Ele sempre pagou um alto preço por sua iconoclastia sistemática, mas seu legado para a história é inestimável.

Sim, Leonardo Boff, je suis Charlie. Acho que o texto que ele escreveu, que traduz de forma razoável a sua visão sobre o atentado contra o Charlie Hebdo, deixou transparecer a sua formação clerical e mostrou que ainda é um padre, um “servo de Deus”, e que admite a existência de temas “sagrados”.

Eu não admito isso. Eu não acho que nem mesmo a mãe de alguém é sagrada. Ela é apenas uma pessoa, e por isso é possível, sim, falar dela. Sem este tipo de “ofensa” não há entropia. Não vejo como sair de um paradigma qualquer sem que haja algum nível de provocação, alguma violação, algum movimento. Não há como construir cultura sem destruição, por isso precisamos de iconoclastas como Voltaire, Nietzsche e tantos. Não se muda uma sociedade sem a matéria prima sofisticada da inconformidade. O porraloquismo é fundamental para que uma cultura cresça e se depure de elementos obscurantistas. Qualquer construção social necessita uma destruição, e quanto maior a força e a importância cultural de um valor, maior será o estrondo de sua queda.

Charlie Hebdo utilizava sua arte e sua indignação como uma forma de fazer pensar. A sátira tem esse formato desde os gregos, e Voltaire foi mestre no seu uso. Moliére aussi. Ridicularizar, reduzir à essência, mostrar o lado bizarro, destituir, fazer tombar tudo isso está no humor. Se vc não acha graça, não consuma, mas é injusto dizer que que o deboche é inútil. As próprias manifestações de apoio à liberdade de expressão no mundo inteiro provam o contrário.

Uma caricatura não precisa ser engraçada. Existem cartoons que prezam exatamente por uma ironia fina, que nos incita à reavaliação de nossos conceitos. Charlie tentava isso, assim como o Pasquim, que foi importante via de expressão da indignação contra a ditadura no Brasil. Impedir isso é tolo ou suicida. Não é necessário gostar das piadas, mas não reclame da sua existência, pois elas são absolutamente indispensáveis para a existencia da democracia.

O humor debochado e satírico é uma das mais eficientes ferramentas de combate à tirania e ao despotismo, assim como ao obscurantismo religioso retrógrado e anacrônico.

Não é admissível se curvar ao simbolismo de outras culturas que não sejam a nossa, no estado de direito por nós definido. Se na Nigéria se faz clitoridectomia, e não fazê-la é uma ofensa à cultura e aos ancestrais, é problema da Nigéria mas aqui não reconhecemos seus santos. E podem ficar ofendidos, pois aqui não vamos mutilar mulheres em nome da fé alheia. O respeito que devemos é às pessoas, mas não curvamos nossas cabeças aos seus símbolos e valores. O simbolismo tem valor para quem o aceita, mas não para mim. Moisés era terrorista, Maomé sanguinário, os Papas corruptos, o clero pecador e assim por diante. Está ofendido? Eu também me ofendo com a danação a que sou submetido por todas as religiões – por não segui-las – mas isso não me faz tentar silenciar nenhuma delas. O nome disso é razão e civilização

Mesmo que as piadas agridam nossas crenças – e ultrapassem os limites do bom gosto – ainda vale a pena investir na liberdade de expressão. Criar sujeitos e temas blindados à crítica nos remete aos porões mais obscuros da história humana.

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Progresso

Artemis

É importante ter em mente que a que a ideia de resgatar elementos perdidos na aventura tecnocrática humana em relação ao parto, amamentação e maternagem não deve nos seduzir em direção a uma visão nostálgica e ingênua do passado, aquele tempo “perfeito” e estável onde as mulheres podiam livremente amar e cuidar de seus filhos. O progresso (se é que ele existe, pois para cada avanço notável sofremos perdas invisíveis mas igualmente profundas) pressupõe mudança e entropia; choque, atrito, destruição e reconstrução.

O papel da mulher e – por conseguinte – da maternidade haveria de se transformar com o fim do paleolítico superior e a chegada do neolítico, com o sedentarismo, a posse – de coisas e pessoas, a religião, a guerra e o patriarcado. Assim estamos falando de uma transformação adaptativa obrigatória, e não uma mera escolha racional por caminhos distintos. As mulheres de hoje são um produto de milhares de pequenas transformações culturais adaptativas dos últimos cem séculos, que nos leva da “mãe essencial” à algo que se aproxima de Ártemis, a deusa tríplice.

Se é verdade que a forma como as mulheres pariam, amamentavam e cuidavam de suas crias nos tempos distantes nos causa saudade, também é verdadeiro que os avanços em termos de liberdade e autonomia garantidos hoje a elas nos impedem de voltar à ilusória estabilidade de outrora. Nosso desafio é encontrar um paradigma que, ao mesmo tempo que garanta as conquistas modernas de autonomia e segurança, também ofereça às mulheres a possibilidade de viver a maternidade com plenitude.

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Fogo Fátuo

Palavras que Max me passou por telefone, enquanto discutíamos a infinita criatividade de alguns críticos das últimas medidas governamentais sobre as cesarianas abusivas.

“Quando os detratores de uma ideia precisam apelar para o destempero das mentiras é porque sua causa já está perdida há muito tempo, e o que ainda se escuta e lê de seus defensores é apenas o fogo fátuo, eflúvios gasosos dos corpos em putrefação.”

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Herói

Herói médico

“A causa essencial dos problemas relacionados com a atenção médica ao parto é o próprio paradigma médico incidindo sobre a fisiologia deste evento. Vejam bem: encarceramos estudantes por 6 a 9 anos numa universidade ensinando-lhes patologia e intervenção, o combate às doenças e os tratamentos – cirúrgicos e medicamentosos. Depois de formados oferecemos a eles a fisiologia e os ciclos vitais normais, que requerem atenção e cuidado, e não intervenções tecnológicas e heroicas, as quais só deveriam existir como exceção. Diante desta encruzilhada, o que fazem os médicos em pânico, a quem oferecemos algo que não sabem fazer, não conhecem a fundo, não querem entender e sentem-se impotentes para lidar?

O que se vê e que estes profissionais transformam a gestação em doença e o parto em processo cirúrgico para assim, aliviados, poderem fazer uso de sua arte. Os médicos, portanto, também são vítimas de um modelo onde se sentem deslocados. Melhor seria que a eles fosse reservada a condição de “heróis”, prontos para agir apenas quando sua arte é necessária. Precisamos de mesmo de personagens de coragem e fibra, prontos a agir diante das ameaças que um parto pode apresentar, e não profissionais que transformam um importante rito de passagem feminino em um evento operatório, frio, asséptico e arriscado.”

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