Justiça desbalanceada

Tenho plena convicção que qualquer dos delitos cometidos por Bolsonaro durante sua vida pública – das rachadinhas, passando pela Val do Açaí, pelos imóveis milionários com pagamento sem origem e até o uso da máquina pública para fazer campanha pessoal no 7 de setembro – seriam crimes inaceitáveis caso tivessem sido cometidos por Lula ou por alguém da esquerda. Esse é o viés da nossa justiça burguesa: pesos diferentes para os crimes na dependência do delito interessar ser punido – ou não.

Para essa justiça uma pedalada passa a ser crime hediondo, mas um criminoso apitar a campainha do presidente antes de matar uma vereadora não parece nada estranho. Também 107 imóveis comprados – metade em dinheiro vivo – não querem dizer nada (quem nunca, né?), mas visitar um apartamento e desistir da compra é algo muito suspeito e merece um julgamento em tempo recorde e uma sentença draconiana.

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Vagina do mundo

O Rift Valley – Vale da Fenda – é a vagina por onde brotou a humanidade. Essa imagem mostra as mudanças na geografia, no relevo e no clima que culminaram no aparecimento dos antropoides. Estes, por fim, chegaram até nós. Não fosse por outra fenda, uma fissura aberrante da ordem cósmica chamada amor, também nossa jornada humana estaria restrita à selva. A combinação de um corpo altivo e ereto com a natureza altricial e frágil do corpo que nasce criaram a estrutura bizarra que nos constitui.

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Bajuladores

Meu único preconceito inamovível é com aqueles que me elogiam. Não aceito esse mau gosto, não compro essa mentira, não engulo essa farsa., e muito menos fui feito para ser elogiado, mas para ser odiado ou temido. Sequer admito que ofereçam a mim qualquer pretensa virtude. Sou o pior escarro, o mais grudento e fétido; sou o pus rançoso e a ferida viva. Sou o erro da criação e o aborto redivivo. Odeio a fraqueza de espírito e os bajuladores que, ao meu, ver nada mais merecem do que a morte.

Jules Bertrand D’Amicci, “Histoires d’un Amour Parfait” (Histórias de um amor perfeito), ed. Saint Clair-Paris, pag. 135

Jules D’Amicci é um poeta e novelista francês nascido em Lyon em 1959. Desde cedo se dedicou ao estudo de letras e com 22 anos lançou se primeiro livro, “Ettoiles”, que venceu o prêmio de jovens escritores de sua cidade. Posteriormente, já vivendo em Paris e estudando na Sorbonne, começou a trabalhar na redação do Jornal Le Monde, onde trabalhou por 35 anos, primeiro como revisor, depois como copydesk, redator, jornalista e até hoje como colunista. É militante do partido socialista (PS) francês desde 1982, tendo já exercido funções administrativas na instituição. No romance “Histórias de um amor perfeito” ele narra a história de Jadelle e Gaspar. Ela, uma executiva da Dupont e ele garçom de um restaurante frequentado pela alta sociedade parisiense. O destino (a intervenção de Gaspar na briga com o namorado no restaurante) os uniu em uma união de espiral destrutiva. O enredo envolvente da trama aos poucos revela a personalidade doentia e perversa dos personagens, envoltos em capas ilusórias de humildade e timidez. Quando a paixão entre ambos explode, brotam também na pele as gotas ácidas de ressentimento, rancor e ódio, curtidas por décadas de recalque e frustração. A história de ambos, como Bonnie e Clyde em Paris, nos permite refletir sobre as armadilhas criadas por fachadas dóceis que abrigam feras e monstros com almas destroçadas. Jules D’Amicci mora em Paris com a atriz Anette Bettancourt e seus dois filhos, Jean e Marcel

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Lavagem Cerebral

Recomendo o documentário “A Lavagem Cerebral do meu Pai”. Todavia, apesar da qualidade e da profundidade das entrevistas, reconheço que, por ter sido realizado nos Estados Unidos, ele perde um dos pontos mais essenciais do debate sobre a influência da mídia sobre o cidadão comum. A mídia é sempre a semente que é lançada sobre a população, carregada de ideologia, com a potencialidade de crescer e se multiplicar. Entretanto, para que a semente possa germinar é necessário que exista um terreno fértil e acolhedor, e só assim a semeadura terá êxito.

Se a propaganda fosse suficiente para a mudança de padrões de comportamento, bastaria fazer propagandas diárias contra a violência doméstica, contra latrocínios, abusos de cesarianas ou corrupção. Infelizmente (ou felizmente) o terreno é essencial, sem o qual a propaganda atinge a rocha dura e impenetrável das nossas seguranças.

O surgimento da direita feroz americana só pôde ocorrer pelas crises sistemáticas e recorrentes do capitalismo, produzindo um sentimento de ressentimento e rancor que atinge, em especial, os homens de meia idade, traídos pela promessa de serem o sustentáculo de suas famílias. Há uma crise do capitalismo conjugada com a crise do patriarcado, produzindo um contingente gigantesco de homens desorientados, cuja falta de norte os leva à violência – inclusive a violência política. Portanto, ao se analisar o crescimento de Fox News ou Alex Jones nos Estados Unidos (ou Rede Globo e Alan dos Santos no Brasil) é necessário entender o contexto de crise dramática do sistema capitalista, em especial a partir dos anos 80 e da aventura neoliberal iniciada por Thatcher-Reagan. Olhar para as hordas de homens de meia idade e suas senhoras amontoados na praia de Copacabana no 7 de Setembro pode ajudar a entender o que os move.

O que vemos hoje se reproduzindo no Brasil com o ódio bolsonarista, o império das Fake News e das mentiras, as famílias divididas por sujeitos de extrema direita disseminado ideias extremistas (racismo, xenofobia, homofobia, etc.) é a herança nefasta dos estertores de um sistema econômico quase defunto, cujo corpo apodrece ao ar livre até que seja retirado. Nas palavras de Antonio Gramsci, “O velho resiste em morrer, e o novo não consegue nascer”. Esse é o mundo em que estamos inseridos, escutando o tic-tac que fará o planeta explodir.

Por outro lado, o documentário mostra a impressionante máquina da imprensa burguesa americana ocupada na lavagem cerebral de milhões, fazendo com que creiam nas mais absurdas teorias, nas mais rotundas mentiras e nas mais inacreditáveis fantasias. Também mostra como, vencida a etapa dos jornais e da televisão, o novo campo de disputa é a Internet e as redes sociais, e para este tipo de batalha a modernidade precisa estar preparada.

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Cirão da Massa

Uma análise curiosa que a minha filha Bebel fez: em 2018 os ciristas diziam que Haddad deveria desistir da eleição para que Ciro – com 12% de intenção de votos – pudesse vencer Bolsonaro no segundo turno com a tese de que Ciro “tinha menor rejeição”. Todavia, agora os mesmos apoiadores do Cirão da Massa acham absurdo que ele – com 6% da intenção de votos – desista da eleição para garantir Lula já em 2 de outubro, poupando o país de uma guerra suja pelos votos em segundo turno. Quem votar em Ciro no primeiro turno estará em frente ao dilema “Lula x Bolsonaro”. Por mais que eu critique os ciristas duvido que seu ódio irracional ao Lula seja tanto que os fará aceitar o voto num degenerado como Bolsonaro. Posso garantir que 70% votarão em Lula, menos por ele e mais pela rejeição ao Bolsonaro. Aliás, é o que dizem as pesquisas de segundo turno…

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Lula

Quanto mais se aproxima o dia das eleições para a presidência da República mais aparecem os velhos ataques ao candidato Lula, e o mais frequente é chamá-lo de ladrão. Estes ataques são ferozes e irracionais, infensos à qualquer abordagem racional. Todavia, o ódio a Lula diz muito mais de quem o odeia e despreza do que do próprio presidente. Outra tática comum que volta a ser utilizada é de descontextualizar as falas de Lula. Em uma delas Lula diz que “O pobre no Brasil sempre foi visto como número e como papel higiênico: usa-se e joga fora”. Ora, Lula estava criticando a postura histórica dos governos burgueses em buscar as populações desassistidas apenas na época das eleições. Foi exatamente contra isso que os governos de esquerda se rebelaram: a ideia de que essa gigantesca massa deveria continuar votando para eleger representantes da burguesia.

Outra crítica é dizer que Lula é condescendente com o crime, acusações estas que sempre são feitas contra os candidatos de esquerda, em especial aqueles que defendem os direitos humanos. Pois quando Lula contextualiza o roubo e outros delitos ele também acerta. Sim, o ladrão rouba para ter um dinheiro que o capitalismo lhe sonega. É para tomar uma cerveja com os amigos, fazer festa, se divertir, comer e vestir-se bem. Isso não significa justificar o roubo ou o crime, mas entender porque a sociedade capitalista – onde o sucesso está atrelado ao consumo – produz humilhação e frustração em níveis industriais entre aqueles setores da sociedade que são alijados do poder de consumir.

Mas é óbvio que a direita tenta forçar desta narrativa moralista, nos fazendo crer que um país se divide entre as pessoas de “bem” e as pessoas do “mal”, como se os sistemas econômicos fossem irrelevantes diante da “bondade” ou da “maldade” dos sujeitos sociais – uma tese que corre solta entre os religiosos, que (não por acaso) acreditam que, inobstante todas as ações malévolas que fazem, estão no polo positivo da disputa, pois acreditam em Jesus, fazem o sinal da cruz e dão esmolas para os “preguiçosos” na rua.

É contra essa perspectiva tacanha que o planeta precisa se insurgir. Combater essa visão moralista, alienante e tola é um dever de todas as pessoas que desejam um mundo justo e fraterno, mas isso só pode ocorrer com um elemento fundamental, ao qual os detentores do poder insistem em esconder: a consciência de classe. Votar na direita significa apoiar o “centrão” (aquele que Bolsonaro desprezava e acabou abraçando), dar suporte às elites e estimular o neoliberalismo concentrador de renda que deseja transformar o Brasil no grande Fazendão sonhado pelos conservadores.

As pessoas que insistem em chamar Lula de ladrão – sem jamais apresentarem uma prova sequer – não são conservadores, ou “liberais”, são de extrema direita, cegos de ódio pelo que Lula representa de esperança para o povo pobre, esse mesmo povo que foi destruído pela sanha privatizante dos governos de direita deste país. Uma direita pró imperialista e entreguista, como a de Bolsonaro.

Pois há quatro anos eu lancei o desafio: quem chama Lula de ladrão, prove que Lula roubou. Prove que Lula é desonesto. Mostre as evidências, as sentenças e as provas de que ele prevaricou. Desafio. Quem diz que o STF é corrupto e está atacando Bolsonaro explique porque não o acusou de corrupto quando prendeu Lula apenas para que ele não participasse das eleições? Por que aceitou que o mantivessem preso contra a Constituição Federal em seu parágrafo 5? Por que não reclamaram das arbitrariedades inconstitucionais contra Lula, que não pôde concorrer à presidência mesmo tendo direito a isso? Por que só agora começaram a reconhecer o que a esquerda sempre soube: o STF é uma instância pusilânime.

Quem acredita que Lula prevaricou (prevaricar significa, por exemplo, comprar 107 imóveis com salário de político, 51 deles com dinheiro vivo) traga aqui um cheque, uma mansão, um carro importado, um depósito no exterior, um telefonema, um bilhete, um recibo, uma nota, uma promissória, uma foto comprometedora, uma sentença condenatória transitada em julgado, uma gravação, joias, uma confissão, casas, propriedades, sítio, triplex, lojas de chocolate, mansões em Brasília, festas suntuosas, apartamentos em Paris, rachadinhas, empresas fantasmas, enriquecimento suspeito, familiares que ficaram ricos, laranjas, propriedades, grana no exterior, conta na Suíça, conta em qualquer lugar, instituto de fachada, etc…

Ahhh mas não tenho esses elementos… Então aceite que não tem nada contra Lula e todas as acusações são baseadas em fofocas, fake news e no desejo de colocar um líder popular fora de qualquer disputa. Quem grita de forma histriônica “Lula é ladrão” fica parecido com aquelas crianças que dizem “feio, feio, feio”. Repetem por acreditar que uma mentira contada centenas de vezes por fim se torna verdade. Todavia, mais do que repetir, é necessário provar que ele foi desonesto, baseada em que elementos, quais evidências, quais juízos e qual a conexão com a verdade dos fatos.

Quem grita de forma histriônica “Lula é ladrão” parece aquelas crianças que dizem “feio, feio, feio”. Repetem por acreditar que uma mentira contada centenas de vezes por fim se torna verdade. Todavia, mais do que repetir, é necessário provar por que ele foi desonesto, de onde vem essa crença, baseada em que elementos, quais evidências, quais juízos e qual a conexão com a verdade dos fatos.

– Fulano é criminoso!!
– Mas por quê você diz isso?
– Porque sim….

Essa retórica de afirmar que alguém é ladrão “porque é“, sem a necessidade de apresentar provas, abre espaço para que esse mesmo tipo de acusação seja feita a qualquer um de nós, dependendo apenas dos sentimentos e não da realidade. Isso nos faria retroceder milhares de anos na história do direito, onde a realidade era desprezível diante do desejo e dos interesses dos poderosos. O direito surgiu exatamente para se contrapor ao império da brutalidade e da força, determinando critérios para estabelecer inocência, culpa e responsabilidade. A partir do surgimento do direito não bastaria mais apenas o uso da força; seria preciso provar – através da materialidade dos fatos – que o sujeito acusado havia realmente praticado um malfeito.

Por isso o desafio: provem que Lula é desonesto… ou então, tanto quanto vocês, ele continua inocente. Como sempre foi.

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Futebol e Identitarismo

Discordo com veemência da ideia, expressa por alguns jornalistas que, usando de profundo oportunismo, divulgaram a ideia de que a saída do Técnico Roger Machado tem a ver com o fato de ser um negro de esquerda, enquanto a volta do técnico Renato está conectada com o fato de ser um branco Bolsonarista, uma tese esdrúxula e vitimista.

Maradona era um reconhecido admirador de Fidel e Che. Alguém em sã consciência acredita que, se estivesse jogando hoje, seria vetado no Grêmio (ou qualquer outro clube) por ser comuna? Sério?

A demissão do Roger não teve nada a ver com a política do país, mas com os resultados do time. 1 ponto conquistado em 12 disputados na série B faz qualquer técnico cair. Talvez a volta de Renato tenha a ver com a política do Clube, mas esta é outra história. Renato é bolsonarista assim como Felipão, Felipe Melo ou Neymar, mas também 80% dos jogadores de futebol. No universo do futebol exaltamos Casagrande e Juninho Paulista que possuem uma postura progressista e de esquerda, mas são claramente envolvidos por uma multidão de pobres tornados ricos, direitistas e alienados.

O futebol morreu mesmo, mas não tem nada a ver com Bolsonaro. Esse esporte como manifestação popular morreu há uns 30 anos com a gourmetização do esporte bretão, quando fizemos arenas “shopping center” – onde pobre não pode entrar – quando acabaram os campos de várzea e quando o sonho dos jogadores brasileiros se tornou fugir do país e virar milionário na Europa.

O futebol moderno é uma merda, mas Bolsonaro não tem nada a ver com sua aparição tétrica. Renato Portaluppi foi trazido de volta por ser maior mito do clube, por ser um ídolo e pelo pensamento mágico da chegada de “salvadores da pátria”, fato que acontece em qualquer clube de futebol. Roger foi contratado por ser um excelente técnico, e não por ser um cidadão exemplar, negro e de esquerda. Misturar estes elementos é oportunismo e vitimismo tipicamente identitário.

Sou gremista, comunista, antirracista e conheço o Roger pessoalmente. Ele é um sujeito diferenciado dentro do futebol, um cara que pensa, reflete, analisa e tem crítica. Mas foi demitido por falta de resultados, inobstante seu caráter exemplar. Renato foi chamado por ser um mito, apesar de ser um bolsonarista com cérebro de amendoim.

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Quando o inverno chegar

Quando o inverno chegar, passarei minhas letras tortas ao papel e por todas as horas do dia, inclusive quanto o sono me alcançar e pelo chumbo das pálpebras me passar uma rasteira. Até mesmo quando a fome corroer minhas entranhas com sua acidez; os sonhos serão meu alimento. Não deixarei nenhuma lembrança intocada e nenhuma memória infensa à volúpia dos olhos, muito menos permitirei que as ideias, em especial as incômodas e as estúpidas, permaneçam reclusas em minha mente. Quando o inverno chegar, oferecerei a elas a liberdade que me faltará e o espaço que desejaria. Darei às minhas palavras a alforria, garantindo a elas o que meu corpo perdeu.

Jean Simon Laurent, “Entre les murs”, (Entre muros), Ed. Paschoal, pag 135

Jean Lauren foi num escritor francês nascido em Nouakchott na Mauritânia em 1905. Filho de pai militar francês e mãe mauritana, chegou à Paris em 1910 quando seu pai foi transferido para o Ministério da Defesa francês. Cursou direito em Paris e formou-se com lauda em 1931, vindo a trabalhar com direito migratório. Especializou-se na questão da Argélia e viajou diversas vezes à colônia francesa, emprestando total solidariedade à causa argelina. Tornou-se amigo pessoal de Albert Camus e grande divulgador da obra de Franz Fanon. Mulato, homossexual e anti colonialista, foi preso em Marselha em 1957 acusado de auxiliar na entrada ilegal de magrebinos na França. Escreveu vários livros, romances e livros sobre os direitos dos imigrantes, e na prisão escreveu ” Entre les Murs”, uma espécie de “De Profundis” da língua francesa, onde fala de suas paixões, suas lutas e sua história, e não se furta de falar abertamente de sua homossexualidade. Morreu de tuberculose na prisão em 1961, no mesmo ano da morte de seu amigo dileto Albert Camus.

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Protocolos

Existe na medicina uma tendência quase irresistível de criar rotinas, fluxogramas, protocolos, etc. É da natureza das ciências criar formas de normatização e análise para um entendimento mais preciso dos fenômenos. Aliás, este tipo de abordagem ofereceu uma fantástica oportunidade para a ampliação do conhecimento, uma ferramenta preciosa para o progresso. Obrigado, Descartes…

O problema ocorre quando está perspectiva se aplica à fisiologia do parto, onde os aspectos pessoais e sexuais das mulheres se associam aos fenômenos fisiológicos, hormonais e mecânicos envolvidos na expulsão fetal.

A aplicação de regras, rotinas e protocolos vai ser sempre conturbada pois a abordagem rígida das ciências aponta para um ponto complexo: os aspectos subjetivos, únicos, pessoais, eróticos e afetivos que circundam este evento. Nesta circunstância os fenômenos se tornam erráticos ou pouco previsíveis.

Quando analisamos, como na velha escola obstétrica, o parto por duas variáveis – conteúdo e continente – ele se torna simples para entender, para manipular e para controlar. Essa fórmula é tão sedutora quanto falsa, na medida em que o ser humano, inserido num universo de linguagem, não se adapta ao plano do real, envolvido que está num mundo simbólico de significados mutantes e intransferíveis. Assim, os protocolos sempre vão esbarrar na evidente característica rebelde do corpo erotizado de uma mulher parindo.

Este comportamento selvagem é o que existe de mais precioso no parto, assim como em todas as manifestações sexuais e, por esta razão, fugir dos protocolos homogeneizantes é uma atitude sensata.

Para atender partos e nascimentos é essencial ter princípios, como autonomia, liberdade, protagonismo, ajuda capacitada, ambiência, afeto, cuidado, etc; estes são os objetivos da atenção que é oferecida às todas as parturientes. Todavia, para se chegar a isso os caminhos são infinitos, assim como são infinitas as mulheres parindo, e qualquer cuidador consciente do seu lugar precisa ter esta realidade como norte em qualquer ação utilizada.

(em conversa com Eloiza Fernandes Giraldi)

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As crianças e as palavras

Il n’y a rien de plus magique et extraordinaire qu’un enfant qui répète les premiers pas dans l’aventure du langage, et rien n’apprend plus sur la vie d’adulte que d’accompagner quelqu’un qui ne l’a pas encore atteint.

(Nada existe mais mágico e extraordinário do que uma criança ensaiando os primeiros passos na aventura da linguagem, e nada ensina mais sobre a vida adulta do que acompanhar alguém que ainda não a alcançou).

Juliette Mandrioux, “Pour les enfants, les mots et le monde” (Para as crianças, as palavras e o mundo). Ed. Printemps, pág 135

Juliette Mandrioux é uma poetisa e escritora belga, nascida em Bruges em 1940. Escreveu vários livros de poesia e também sobre a psicologia do desenvolvimento infantil. Foi professora primária e estabeleceu seu trabalho na Basisschool De Springplank Brugge, onde atendia crianças com atraso cognitivo. Durante seu período em Bruges escreveu “”Pour les enfantes, les mots e le monde”. mas também “Palavras, narrativas e discursos”, todos pela editora Printemps. Posteriormente transferiu-se para Bruxelas onde lecionou na UCLouvain Saint-Louis Brussels.

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