Todas as supostas vitórias trazem consigo o germe da frustração. O que parece ter sido o ápice de uma conquista retumbante muitas vezes não é mais que o prenúncio de uma tragédia. A expulsão dos romanos da Judeia, e a libertação de um povo dominado, veio apenas alguns anos antes do extermínio, a destruição e a diáspora. Aqueles que comemoraram o arbítrio, apenas porque lhes interessa a vingança, estão semeando a brutalidade que lhes recairá no futuro.
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Shortinhos
Tive o cuidado de perguntar para a minha filha antes, já que ela é expert em assuntos feministas, e ela concordou comigo: essa NÃO é uma pauta feminista. E por uma razão bem simples de entender: não existe uma constrição de vestuário baseada em gênero. A regra se aplica a todos. Meninos não podem assistir aulas de “shortinho” ou sem camisa. Eles também precisam se adequar à norma. Portanto, é uma questão de costumes, que tem a ver com o traje de meninas de classe média que frequentam uma escola privada, e não com uma restrição ao sexo feminino de usar determinada roupa.
O shortinho NÃO está sendo proibido por “sexualizar” adolescentes, pela mesma razão que a proibição de assistir aulas sem camisa não é para evitar a sexualização dos garotos. A questão me parece bem mais simples, mas está sendo criada uma celeuma falsamente feminista e reivindicatória sem sentido.
A escola exige uma compostura dos que a frequentam, professores e alunos. O hospital também. A repartição pública idem. Podemos debater esta “compostura” e seus limites, mas a escola tem o direito de estabelecer suas regras. Não é uma restrição às mulheres; é para todos.
Poderíamos imaginar estas mesmas meninas, já formadas em direito, fazendo uma manifestação para que frequentem o fórum de “shortinho”? Ou residentes no hospital? E se fossem proibidas, seria para não “sexualizar” o corpo das advogadas e médicas, ou apenas por que estes locais exigem um determinado decoro, que se expressa pelo linguajar usado, mas também pelos trajes?
Eu creio que as meninas fariam muito melhor escolhendo pautas mais importantes como bandeira. Eu entendo o desejo de engajamento, mas liberação de shortinho não é a mais nobre que eu poderia imaginar.
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Feministo
Eu não sou feminista.
Não sou, nunca fui e nunca serei.
Ok, por um determinado tempo pensei ser, mas durou pouco. Algumas feministas deixaram muito claro para mim as razões pelas quais eu não podia ser. Lembro que o mesmo ocorreu com um dos meus ídolos, Dr Marsden Wagner. Uma amiga feminista certa vez lhe disse: “Se você não fosse homem seria uma maravilhosa feminista“. Ele contava essa história com genuíno orgulho, com o que concordo plenamente.
Caminhando na praia no meu último dia de férias – depois de muitos anos sem poder tê-las – eu refleti sobre estes limites. Para mim o Feminismo (e coloco letra maiúscula pela sua importância na cultura) é como nacionalidade. Alguns atributos são de nascença, em especial o lugar onde você nasceu. Assim como a sua nacionalidade é algo que os OUTROS conferem a você, também assim entendo o Feminismo.
Eu posso torcer pelo Leicester, falar inglês, comer “fish and chips”, adorar a rainha, cantar o hino, conhecer a genealogia dos Tudor ou me vestir como um britânico, mas não serei inglês a não ser que os ingleses me reconheçam como tal. Na hora de mostrar o passaporte aparecerá para sempre o meu país de origem. E ele não fica ali, atravessando o canal da Mancha.
Com o Feminismo ocorre o mesmo. Seria preciso que as feministas aceitassem essa intromissão, mas o movimento que elas criaram e que trata dos problemas específicos das mulheres apenas a elas diz respeito. Posso dizer que os assuntos da Inglaterra me dizem respeito de forma indireta, pois estamos todos no mesmo planeta e um “bater de asas de borboleta na Inglaterra me afeta aqui”, mas isso apenas me garante o direito de participar do debate, mas jamais carregar a palavra pelos ingleses.
Quando em uma audiência pública em 2014 vi um representante médico auto proclamar-se feminista, mesmo tendo uma história e uma postura francamente misóginas, eu percebi a clara inconformidade das feministas presentes. Era como se tivessem sido insultadas; ficaram indignadas e furiosas com a arrogância do catedrático. Naquele momento pude colocar no tabuleiro de ideias à minha frente a última peça que faltava para entender a questão do “pertencimento”. O abuso em considerar-se feminista era ofensivo e violento àquelas que há muitos anos lutavam por essa proposta.
Minha vinculação com as ideias do feminismo, todavia, não precisou jamais ser desafiada. Posso continuar sendo um proponente da autonomia plena da mulher sobre seu corpo e seu destino. Posso lutar por partos mais seguros e edificantes. Posso brigar com unhas e dentes pelo empoderamento feminino e pela liberdade garantida para fazer escolhas. Posso ser um “aliado sem ser alinhado”. E tenho uma ótima razão para fazer isso.
Mulheres e homens fazem parte da humanidade. Dividimos o mesmo espaço na terra e a natureza nos aproxima através dos laços do desejo. Por mais que este seja vilipendiado, há algo que nos faz sempre buscá-lo. Pois “ele dá dentro da gente e não devia, é feito estar doente de uma folia, e nem dez mandamentos vão conciliar, nem todos os unguentos, toda alquimia”, como diria Chico. O feminismo, ao criticar o paradigma sempre acerta; ao atirar nos homens, sempre erra.
Somos todos da família humana apenas artificialmente apartados. Somos ainda todos nascidos de mulher e, portanto, o nascimento produz uma marca indelével em todos que nascem, sejam homens ou mulheres. Cuidar destas é, em última análise, cuidar de toda a humanidade.
E como sou um pedaço dessa humanidade tenho total autoridade para lutar pelo que julgo ser o melhor para todos nós, humanos. E o melhor para todos é considerar as mulheres como dignas e fortes, capazes e livres.
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Dor insuportável
Uma dor insuportável? Não deixar os filhos crescerem.
Na vida driblamos as adversidades escolhendo a que nos provoca menos dor. Entre a perda da liberdade e a solidão escolhemos o casamento. Entre a exploração e a fome escolhemos o emprego. Entre a desconsideração dos pares e a integridade ética escolhemos a cesariana. Entre a dor da partida e a violência da opressão, deixamos que os filhos criem asas e saiam voando pelo mundo. Sempre há uma escolha a ser feita e cada um sabe onde o sapato mais lhe aperta.
Por isso que JAMAIS insisto nas tentativas de “conversão” de profissionais que se aproximam – entre temerosos e tímidos – do discurso da humanização do nascimento. Se a prática violenta que usam em sua atitude cotidiana não lhes causa DOR qualquer ação para mudar suas condutas será inútil. Estes colegas continuarão agindo dentro de suas cápsulas analgésicas, onde encontram o conforto e a aceitação que procuram. A estes falta a necessária e indispensável neurose para conduzir a mudança que desejamos.
Sem sofrimento não há mudança. Deixar um filho partir só é possível diante da dor maior de vê-lo definhar sob nossas asas.
Humanizar sua prática de parto, com toda a dor que isso acarreta, só é possível diante da vergonha de expropriar a mulher de seu momento mais sublime. Mas para isso faz-se necessário ter olhos de ver e ouvidos de ouvir.
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Vitimismo
Uma comunidade de direita apareceu na minha TL com a mensagem conhecida de que não existe racismo, mas indivíduos de diversas etnias que escolhem caminhos certos ou errados.
A retórica é a conhecida exaltação da meritocracia. Os negros não se esforçam tanto quanto os brancos, por isso estão em condições menos favoráveis na economia. Se os negros parassem de reclamar e se esforçassem mais esta distância acabaria. Chamam os movimentos sociais contra o racismo de movimentos “vitimistas”.
O vitimismo é o uso da condição de vítima para obter vantagens. Todo mundo sabe o que é isso, e todo mundo que teve irmãos na infância já usou das táticas vitimistas. Dito isso, é óbvio que existe vitimismo no movimento negro, no movimento LGBT e no feminismo. É impossível existir vitimas que não se seduzam pelo vitimismo e as vantagens que ele oferece. Ele funciona como um bypass, um atalho para conseguir alguma vantagem usando sua condição política e economicamente inferior. Não há como não se deixar levar, mesmo que temporariamente, por esta sedução.
Entretanto, existe racismo, homofobia e misoginia na nossa cultura. Essa evidência pode ser facilmente extraída das estatísticas e dos dados governamentais, assim como dos relatos dos negros, dos homossexuais e das mulheres que sofrem atos racistas lgbtfóbicos ou machistas. Minha experiência com o parto me permitiu testemunhar milhares de atos, atitudes e comportamentos claramente sexistas contra as gestantes nas instituições que trabalhei, acima de qualquer dúvida. Com os negros e homossexuais certamente é o mesmo.
Não se trata, portanto, de contrapor vitimismo com preconceito. O vitimismo é absolutamente minoritário nesses movimentos, que se estabelecem sobre a crueza dos fatos do cotidiano, onde negros, mulheres e homossexuais são desconsiderados em função de sua cor, gênero e orientação sexual. Não há como desmerecer a luta contra o machismo, o racismo ou a homofobia pela existência, francamente minoritária, de discursos vitimistas no seio desses importantes movimentos sociais.
A tentativa de desqualificar a luta contra o racismo, a homofobia e o machismo apenas demonstra que os avanços alcançados por estes grupos incomodam os poderosos, e por isso mesmo precisam continuar.
A questão é que o “vitimismo” funciona como uma capa encobridora, fazendo com que todas as reivindicações dos grupos oprimidos desapareçam por serem deslegitimadas. Se existe ou não vitimismo em alguns setores destes movimentos é o menos importante. O que tem valor é reconhecer a legitimidade das lutas e respeitar seus pressupostos.
Nivelar, em que topografia for, é fazer justiça. Mas sequer é esse o problema. A “discriminação positiva” é uma etapa de readaptação, um processo de “aceleração da equidade”. É usada para tornar mais célere a justiça social, e por isso ela um dia acabará, como aconteceu em muitos lugares onde foi implementada (Flórida, por exemplo). No Brasil podemos constatar a olho nu como ela está produzindo frutos: uma quantidade crescente de negros tendo acesso às universidades e, mais ainda, aos cobiçados cursos de Medicina, Direito, Computação etc…
Quando os efeitos sociais da escravidão tiverem, por fim, evanescido o suficiente para não serem notados nas filigranas do cotidiano eu serei o primeiro a reivindicar pela extinção do sistema de cotas.
Por ora a inconformidade de uma parcela da classe média – ressentida e meritocrática – é a melhor medida para avaliar o sucesso do programa.
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Ódio
Qual o sentido publicar textos de ódio pela Internet contra pessoas que cometeram crimes famosos? Qual o sentido de agredir pessoas que já foram presas a condenadas pelos seus erros e falhas?
Qual o sentido de odiar uma pessoa que já está destruída? Qual o sentido em destroçar quem já foi despojado de tudo? Não percebem que isso – odiar alguém que cometeu um erro – as aproxima do criminoso? Somente o oposto disso – o perdão – é capaz de produzir esse saudável afastamento. Somente o perdão que surge de uma profunda autocrítica pode nos colocar ACIMA destas questões.
Meu pai sempre dizia, quando recebia uma “fechada” no transito: “Não posso xingar esse sujeito, pois ainda está vívida em minha lembrança a ultima vez que, por desatenção ou descuido, fiz exatamente a mesma coisa“.
Mas…claro que não vou pedir que perdoem quem fez tanto mal. Isso serve apenas para as pessoas que, como Terêncio, são capazes de dizer “o que é humano não me é estranho”. Para o resto eu peço tão somente que não disseminem ou distribuam seu ódio publicamente, até porque isso em nada atinge o pobre criminoso, mas mostra que seus algozes não são tão diferentes dele quanto pensam… O motivo foi a constante crucificação da mulher que mandou matar o enteado. Mas basta um olhar muito rápido para perceber que ela é um farrapo humano. Resta pouco nela que possamos ainda tripudiar. Mas … para quê? Qual a razão de carbonizar um corpo quase destituído de vida? O que se ganha ao jogar ainda mais para baixo essa mulher? Eu digo: nada.
Entretanto, ao fazer isso nos aproximamos de sua miséria e provamos que somos mais parecidos com ela do que pensamos. São pobres seres humanos, dignos de comiseração. Nenhum de nós admitiria trocar de lugar com esta pessoa, nem por cinco minutos. Quando se reconhece a miséria alheia isso não significa inocentá-la de todos os crimes, mas apenas que seus erros não podem nos afetar porque não encontram nenhuma ressonância em nós. Poderia ser esse caso ou qualquer outro.
Ódio não nos leva a lugar algum. Não estou pregando moral, e talvez eu mesmo também sucumbisse à proteção que o ódio e o rancor prometem. Entretanto, não acredito que algo de construtivo possa surgir desse sentimento.
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Abusos
Abri meu Facebook hoje e tive o desprazer de ver a entrevista de um BBB que havia sido “eliminado” e sobre quem recaíam queixas de ser um “abusador”. Entrevistadores globais solicitaram o parecer de uma advogada para esclarecer o conceito jurídico de “pedofilia”, algo que ele havia sido acusado.
Bem, ao meu ver existem dois debates concomitantes. Um é jurídico, e a doutora falou muito bem ao explicar que pedofilia não é crime, mas que os atos resultantes da pedofilia são. Pedofilia é um diagnostico clínico , e não um delito. Só se tornará delito caso se torne uma AÇÃO. A única ressalva ao que a advogada disse na entrevista é que, ao saber que um caso de abuso de menor está ocorrendo, uma pessoa DEVE denunciar (e não “pode denunciar”, como ela disse).
Quanto à idade para ter relações sexuais, trata-se de uma tendência mundial. Em vários países da Europa a idade mínima é de 13 anos. Isso é uma adequação das culturas à disseminação de informação e conhecimento. Portanto, namorar com “novinhas” pode ser um ato idiota, algo que demonstra insegurança ou exibicionismo, talvez até um negação de sua maturação pessoal, coisa de “eterno adolescente”, síndrome de Peter Pan. Entretanto, se a menina tiver mais de 14 anos não é crime. Isso é o que diz o código penal.
O outro assunto – muito mais grave e complexo – ė a publicidade que se dá a personagens como este. Isto sim é criminoso. Que importância esse sujeito e suas “namoradinhas” tem para a sociedade? Por que perdemos tanto tempo debatendo estas figuras desimportantes? Qual a razão de ainda aceitarmos esta invasão de lixo em nossas casas?
Para mim o único ensinamento foi a idade mínima para relações, pois eu não sabia que no Brasil já havia mudado. De resto foi holofote desperdiçado em sujeitos patéticos e inúteis.
Não vejo esse programa e nem conhecia esse sujeito. As únicas coisas que eu acho passíveis de debate foram as declarações dele e da advogada na entrevista de hoje. Quanto às palavras dele, bem… o desejo alheio não me diz respeito. Se ele quer se relacionar com meninas e não está infringindo – ou obstruindo – a lei eu só posso aceitar. Minhas considerações sobre o gosto dele com as mulheres são irrelevantes. Se você acha que 14 anos é pouco, há controvérsias, mas é o que a lei diz. Se ele é um machista, as mulheres que decidam se vão ou não se relacionar com ele; não cabe a mim julgar suas escolhas.
Por outro lado, se a Globo o colocou para fazer esse papel no Big Brother posso apostar como ele foi orientado a falar isso para gerar polêmica. Chama a atenção o fato de ele confessar gostar de “novinhas”, mas ficou claro que as “meninas” dele estão dentro do limite legal. Isto é, ele sabia o que estava fazendo, e provavelmente foi orientado a fazer isso. Não confessará publicamente um crime grave, mas conseguiu chamar a atenção para si e para o programa.
Posso ver a cara do Boninho e do Bial dando gargalhadas com esse “personagem”. Conseguiram um pouco de ibope para uma atração decadente.
Sobre as afirmações “abusivas” ou “machistas” deste cidadão durante o programa eu desconheço por completo. Tenho orgulho de dizer que nunca tinha visto aquele barbudo até hoje. Faço o melhor boicote possível ao lixo televisivo: desligo a TV.
Assim, o gosto dele por novinhas não me cabe julgar, assim como não julgo Suzana Vieira ou Madonna por namorarem caras que teriam idade para serem seus filhos. No máximo posso dizer que não me serve, mas repito que minha opinião é irrelevante. Se as meninas são legalmente responsáveis então só me resta lamentar o mau gosto.
PS: A única coisa que me incomoda nessas histórias de homens idiotas que namoram com meninas, ou senhoras idosas, ou meninas do interior, ou meninas feias, ou gordinhas , ou tolas é que sempre se coloca a mulher como passiva na história. O homem é sempre o protagonista, para o bem ou para o mal. A mulher nunca fala, nunca reage, nunca se indispõe, nunca reclama, nunca tem voz. Ela segue a onda que o corpanzil do seu homem faz na superfície da relação. Mas, isso não se refere às menores de idade; estas por certo são vitimas de um crime horroroso e são realmente incapazes de se manifestar.
Eu não considero abuso quando as pessoas são legalmente responsáveis pela sua sexualidade. Se isso pudesse ser tipificado na LEI imaginem o que ocorreria entre QUALQUER relação. Qualquer mulher poderia dizer que é “frágil” do ponto de vista emocional e que os homens são abusivos em função disso. Ora… não é justo colocar as mulheres nessa posição de vitimas quando são maduras o suficiente para fazerem escolhas. Temos que parar de tutelar as mulheres julgando-as sempre fracas, frágeis, incompetentes ou imaturas. Se você acha que 17 é pouco, lute pela mudança de lei, mas posso apostar que milhares de mulheres não aceitam essa tutela que diz que, por serem “frágeis e carentes”, não podem fazer escolhas amorosas com 17 anos.
Vamos excetuar aqui as violências que estão previstas na lei: menores de idade, embriaguez, terror, ameaça, bullying físico e/ou psicológico etc. Estou falando de dois (ou mais) ADULTOS que se relacionam. Por que ainda testemunhamos este tipo de discurso que coloca o homem como o ator de TUDO? Por que as próprias mulheres determinam a incompetência da mulher em resolver suas questões e escolher qual caminho seguir? Se uma menina resolve se manter conectada é porque “estava frágil e carente”, e não porque assim o desejou!!!!! Isto é, ela é passiva, não tem desejo, é manipulada, não consegue fazer escolhas, não tem elementos para decidir o que é melhor para si…
Eu não me conformo com essa ideia, que ainda é muito disseminada até no universo da humanização. Quando uma mulher de 30 ANOS escolhe fazer uma cesariana, a culpa é sempre do médico. Ela se coloca de forma passiva, inerte, incapaz de se mover. Como uma criança. Sem que as mulheres se responsabilizem por TODAS as suas escolhas – as amorosas e as de parto – jamais terão o pleno protagonismo. A alienação nunca será um caminho para a libertação.
“Eu não sei de nada, ele me envolveu com palavras e presentes, e aí fiquei desnorteada e acabei por…”
Até quando veremos as mulheres oferecendo o protagonismo aos homens e deixando que eles comandem suas vidas?
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Paixão
Do outro lado da rua escuto uma briga de casal. Os decibéis eram tantos que pensei chamar a polícia. Escutei apenas pedaços de desespero e fragmentos de rancor. “Chega“, “não chegue perto do meu filho“, “vá embora“. Tudo muito dolorido. A voz dele era mais forte e raivosa, mas a dela não ficava muito atrás. Muita dor, raiva e angustia.
Em outras palavras, pura paixão.
Sim… o que eu escutei foi amor. Degenerado e doente, caótico e violento, mas feito da mesma energia que une os amantes desde que o mundo se criou das cinzas de nossa animalidade. Paixão intensa, na sua forma enferma e destrutiva, mas por trás disso amor deturpado.
“Paixão vem do latim passio, cuja tradução seria algo como “sofrimento, ato de suportar”, de pati, “sofrer, aguentar”, do grego pathe, “sentir ”. Com o tempo, entretanto, lá pelo século XIV, ela passou a designar também “forte emoção, desejo”, e mais tarde ainda, “entusiasmo, grande apreço, predileção”. (Wikipédia)
Como canta João Bosco: “Quem quer viver um amor, mas não quer suas marcas qualquer cicatriz. Ah, a ilusão do amor, não é risco na areia desenho de giz“.
A paixão é sempre dor e sofrimento. Os sons da noite passada nada mais eram do que a paixão em megafonia, o amor em sua versão trash, o desejo rechaçado que retorna como mágoa e dor. Porém, não consigo deixar de ver – e ouvir – nesta cena o mesmo gemido e a mesma languidez dos amantes envoltos na energia inebriante que um dia os uniu. O que era amor tornou-se ódio; o que era desejo tornou-se dor.
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Insônia
São 5:54 da madrugada. Sentado no chão do banheiro, torturado pela insônia, com o pensamento entortando o ponteiro do conta-giros, penso que a peça que nos negamos a aceitar no quebra cabeças da opressão é o gozo pela servidão. Sem entender o quanto de nós existe no sofrimento que a nós é imposto, jamais poderemos entender a facilidade com que se estabelecem tais relações. Isso vale para sujeitos e coletivos, pessoas e nações.
Jean Junot Pascal, “Láutre extrémité de lárc en ciel”, Ed. Marseille, pág 135
Jean Junot Pascal, nasceu em Nantes, em 1948. Fez sua formação em literatura latino-americana na Sorbonne, e começou a publicar crônicas em revistas francesas da época. Por sua amizade com Céline, foi convidado a escrever uma coletânea de textos inéditos que foi publicada com o nome “Après que la Poussière Retombe” (Depois que a Poeira Baixar). Com o sucesso do livro aventurou-se na ficção e escreveu um livro de memórias sobre o pós-guerra na França chamado “Aucune Chance de Revenir” (Sem Chance de Voltar). Escreveu mais 5 livros, entre eles “Láutre extrémité de lárc en ciel”. Casou-se com a atriz italiana Ginna Delapieve e ficou com ela até sua morte em um acidente de automóvel em Bruges, na Bélgica. Seu filho Antoine é diretor de cinema, tendo dirigido séries para a TV francesa e o longa “Meilleur”. Atualmente mora em Nice com seu neto Phillippe e seu cão Danton.
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Iconoclastia
Se é necessário jogar os velhos ídolos ao fogo na árdua tarefa de nós libertar de seu jugo sufocante, também creio ser fundamental fazê-lo de forma criteriosa.
Ainda considero válida a tese de que “as virtudes são do homem, os vícios de sua época”. Não há como criticar um personagem sem a necessária contextualização do sujeito no tempo e no espaço. Se não há “sujeito sem cultura, e cultura sem sujeito” então tudo o que somos surge dessa interação entre nossa subjetividade e o conjunto de valores que nos rodeiam no oceano de significantes e significados onde estamos submersos.
Por outro lado, o entendimento de figuras icônicas como sujeitos falíveis e limitados nos ajuda a humanizá-los. Tal tarefa é fundamental para que, assim identificados, possamos seguir seus ensinamentos com mais precisão. Enquanto forem divindades serão inatingíveis; ao nosso lado, passíveis de falhas e erros humanos, serão parceiros de travessia.
Entretanto, se posso perdoar a falta de amabilidade de Marx com seus filhos e seu caso extra conjugal, assim como as diatribes dos astros da TV ou do futebol, o mesmo não posso dizer de literatos cujas palavras escritas ferem preceitos básicos da civilidade e da dignidade humana. Por mais que sua genialidade transpareça e seja exaltada, e mesmo que as épocas sejam outras, a misoginia e o racismo de Fernando Pessoa ou Humberto de Campos são inaceitáveis e colocam a profundidade e dimensão de sua obra em questão. Se a imagem que fazem de negros e mulheres era tão diminutiva e preconceituosa, que outras falhas de percepção podem ser piores?
Perder um ídolo é como arrancar uma parte de si mesmo; felizmente uma porção de nós que ainda nos prendia às fantasias e idealizações mais infantis.
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